ACTO PRIMEIROQUADRO PRIMEIROCasa de Petronio em Roma. A um lado, a estatua de Petronio, em marmore. Sobre uma meza, frascos varios de aguas, de oleos; escovas, pentes, ferros de frisar. Duas escravas ethiopes e duas brancas, o rodeiam. As negras acabaram de o pentear.ESCRAVA BRANCAQue manto?(as escravas negras sahem)PETRONIOO azul.(a escrava sahe e traz)EUNICE,que, de joelhos, compõe a tunicaBello... como um Deus!PETRONIO,sorrindo, delicado«Animal impudens», de Séneca.O INTRODUCTORO consul Marcos Vinicio.PETRONIOOh!MARCOSgraveSalve, Petronio!PETRONIOSalve. Sê bem vindo em Roma. Que o repouso te seja grato depois da guerra.MARCOSQue os Deuses te sejam propicios, sobre tudo Asclépias e Cypris.PETRONIOQue o tal Asclépias me perdôe; não tenho fé n'elle. Um Deus cuja mãi se ignora! Sabe-se lá se é filho de Arsinoé ou de Corónida? Que fará do pai! Quem, por estes tempos que correm, pode ter a certeza de ser filho... do pai?(Marcos, ri contrafeito)Estás preocupado?MARCOS... Não.PETRONIODos Asclepiades já tive de me servir, o annopassado... para a bexiga. Sabia que eram charlatães; mas o mundo repousa sobre o charlatanismo e a vida mesmo não é senão uma illusão! O que é precizo é saber distinguir as bôas illusões das más. Eu mando aquecer a minha estufa com madeira de cedro, pulverisada com ambar, porque prefiro os perfumes aos máus cheiros. Quanto a Cypris, a quem me recomendaste, devo-lhe o ter coxeado, amorosamente, dois mezes; mas, emfim, é uma bôa deusa a quem espero sacrificarás, em breve, as brancas pombas.MARCOSTalvez. Se as flechas dos Parthas me não alcançaram, em compensação, fui tocado pelas do Amôr, d'uma maneira imprevista.PETRONIOSim?MARCOSA dois passos das portas de Roma.PETRONIOPelas Graças! conta-me isso.MARCOSTanto mais que precizo do teu conselho...PETRONIOÉ escusado perguntar se o teu amôr é correspondido!(olhando-o)Se Lysias te tem conhecido, ornavas, hoje, a porta do Palatino sob a fórma d'um Hercules juvenil.(Eunice offerece-lhe e põe-lhe o manto)MARCOS(olhando a escrava)Por Zeus, que bella escolha! Mais bello corpo não se encontrará nem em caza do Barbas de Bronze, d'esse famoso Nero, teu amigo.PETRONIOTu és meu parente... e eu não sou egoista; nem tão austero, como um Aulo Plaucio...! Se queres...?MARCOSComo te veio á ideia Aulo Plaucio? É d'elle que te venho fallar.PETRONIOEstarás, tu, por acaso enamorado de Pomponia, sua mulher? Diabo! Velha... virtuosa... Lamento-te.MARCOSNão é de Pomponia. Oh! Não!PETRONIODe quem?...MARCOSNem sei. Nem sei mesmo o seu nome. Lygia? Calina? Chamam-lhe Lygia porque é do paiz dos Lygios; mas o seu nome barbaro é Calina. Estive doente em caza d'esse Plaucio, por um accidente de viagem...PETRONIOQual?MARCOSDesloquei um pé, n'uma queda do cavallo... É uma caza estranha: cheia de gente e silenciosa como um bosque sagrado. Durante quinze dias, ignorei que uma deusa a habitasse. Vi-a, uma manhã, a banhar-se n'um tanque, sob as arvores. E... juro-te pela espuma d'onde nasceu Aphrodite... os raios da Aurora brincavam atravez do seu corpo! Julguei-a uma apparição, uma sombra que os raios do sol nascente dissipassem, como um crepusculo! Desde então, não tive mais tranquilidade; não tive mais descanso; não tive outro desejo; não vejo outra mulher! Tudo me merece desprezo; o oiro, os bronzes de Corintho... Aborreço os vinhos, os festins; só vejo, só quero Lygia! O mundo para mim é ella... e só ella!PETRONIOÉ uma escrava de Plaucio? Compra-lh'a.MARCOSNão é uma escrava.PETRONIOUma liberta, então?MARCOSSe nunca foi escrava, como pode ser liberta?PETRONIOQuem é, pois?MARCOSA filha d'um rei.PETRONIOHein? Começas a intrigar-me...MARCOSÉ filha de Vanio, rei dos Suévos.PETRONIOO que teve guerras, no tempo de Claudio?...MARCOSCom os sobrinhos; que levantaram, contraelle os Lygios, terriveís na rapina. Claudio, temendo pelas fronteiras, mandou Hister, legionario do Danubio, que vigiasse para que a paz não fôsse alterada. Hister exigiu aos Lygios a promessa de não invadirem a fronteira, e, como refem recebeu a filha e a mulher do chefe.PETRONIOD'onde sabes, tu, isso?MARCOSContou-m'o Plaucio, elle proprio. Na guerra o rei dos Lygios morreu. Hister ficou com a mãi e a filha. A mãi morreu pouco depois, e Hister para se desembaraçar da creança, mandou-a a Pomponio, governador da Germania e vencedor dos Gathes. Quando Pomponio entrou em Roma, em triumphador, a pequena Lygia seguia o seu carro; mas como era um refem e não uma escrava, Pomponio entregou-a a sua irmã, mulher de Aulo. N'esta caza onde tudo respira virtude, cresceu, tão virtuosa e tão pura, que ao pé d'ella, Poppêa, que passa pela mulher mais bella de Roma, é como um figo do outomno, ao pé d'um pômmo das Hesperides!PETRONIOE, então?MARCOSRepito-te, desde que vi a luz brincar atravez do seu corpo...PETRONIOElla é então transparente como uma lampreia...!MARCOSNão gracejes, Petronio.PETRONIOPois bem, diz-me o que queres, claramente.MARCOSQuero Lygia! Quero que os meus braços a apertem; que a minha bôcca respire na sua bôcca! Se fosse uma escrava daria por ella cem virgens! Quero-a, eis tudo! Têl-a, guardál-a, até que a minha cabeça branquêje como a crista do Sorate, no hinverno!PETRONIO... Se não é uma escrava, é, em todo o caso uma rapariga abandonada. Plaucio póde ceder-t'a, se quizer.MARCOSNão conheces Plaucio nem Pomponia sua mulher? De resto, amam-na como filha!PETRONIOPomponia? conheço: é um cypreste! Tem o ar de quem vive n'um cemiterio. Mas é, diga se, mulher d'um homem só; o que faz que entre as nossas romanas, quatro e cinco vezes divorciadas, seja uma phenix!MARCOSMas... Petronio...PETRONIOQue queres que te diga, meu caro Marcos? Conheço muito bem Aulo Plaucio, como elle conhece o meu modo de pensar e o meu modo de viver. Se pensas que poderei obter alguma coisa d'elle, francamente, parece-me que te enganas.MARCOSO teu espirito é inexgotavel em expedientes...PETRONIOExageras.MARCOSTodo o mundo te conhece.PETRONIOComo o rei da elegancia? sim. É o meu reino.Se fosse o da Lygia eu não teria senão prazer em te offerecer a minha filha, bello e amoroso consul.MARCOSNão fallarás a Plaucio?PETRONIO... Não. É inutil. Mas... fallarei a Cezar.MARCOSMelhor ainda...PETRONIOSe Lygia é um refem, Cezar pode dispôr d'ella, pode offerecer-t'a.MARCOSFallar-lhe-has, então?PETRONIOSim.MARCOSHoje mesmo?PETRONIOHoje... talvez. É precizo esperar occasião de o poder louvar, pelo canto, ou pelos versos, ou pela aptidão de cocheiro, de actôr... A proposito, fazes versos?MARCOSNunca pude arranjar um hexametro.PETRONIONão tocas cithara, nem alaúde?MARCOSNão.PETRONIONão guias um carro?MARCOSTomei, uma vez, parte n'umas corridas em Antiochia; mas fui infeliz.PETRONIOBem. Estou descançado a teu respeito. O melhor é não fazer nenhuma d'essas coisas e admiral-as, muito, nos outros... sobretudo em Cezar. És bello e Poppêa pode agradar-se de ti. É um perigo. Nero não t'o supportaria. É verdade que Poppêa está uma mulher experiente: d'amôr os dois primeiros maridos saciaram-na; Nero é para outra coisa.MARCOSQue é feito de Othon?PETRONIOO terceiro? O pobre homem ama-a ainda loucamente. Anda a choral-a sobre os rochedos da Hespanha. E, dizem, que de tal modo perdeu oshabitos da galanteria, que hoje, com o penteado, só gasta tres horas por dia!MARCOSEu, no caso d'elle, fazia outra coisa.PETRONIOO quê?MARCOSSão valentes e duros soldados os da Iberia! Recrutaria umas legiões fieis...PETRONIOMarcos, Marcos! Essas coisas fazem-se, mas não se dizem, nem como hypotheses... Eu, no logar d'elle, rir-me-hia de Poppêa e de Nero: arranjava uma legião, mas não era de homens, era de mulheres!...(Eunice entra com um frasco.)Ah! a verbena.(deita nas mãos e esfrega as fontes)Não imaginas como isto vivifica, dá fôrça!MARCOSMas... Lygia...PETRONIOSim, homem, descança.MARCOSNão posso, Petronio. Se eu não consigo comer nem dormir! Vou passeiar um pouco pela cidade, mover-me, andar, distrahir-me...PETRONIO,reparandoÉ verdade, tu não fizeste a barba, hoje!MARCOSNem hontem!PETRONIO,toma-lhe o pulsoTens febre. Escuta. Eu não sei o que te prescreveria um medico, um d'esses asclepiades; mas sei o que eu faria no teu logar. Sim... eu sei o que é o amor, e, que quando se deseja uma mulher, nenhuma outra a póde substituir! A belleza, porém, encanta sempre; e uma bella escrava...MARCOSNão, não quero.PETRONIOA novidade faz esquecer... por um novo desejo...(Pondo a mão no hombro de Eunice, que lhe offerece, de novo a verbena)Repara, um pouco, n'esta filha de Cós. Ha dias, o joven Fonteio offerecia-me por ella tres admiraveis éphebos: tresmaravilhas dignas do pincel de Scopas!(olhando-a com interesse)É curioso; como não dei ha mais tempo pelos seus encantos? No entanto, dou-t'a, leva-a.MARCOS,apertando a cabeçaNão, não a quero: não quero ninguem! Obrigado. Vais d'aqui ao Palatino, ao palacio de Cesar?PETRONIOVou.MARCOSBem... Voltarei mais tarde. Vou á outra margem do Tibre...PETRONIONão. Vais almoçar comigo. Eunice?EUNICEMeu senhôr.PETRONIOTomarás o teu banho: ungirás o teu corpo, com os melhores perfumes, e irás para casa de Marcos Vinicio.EUNICE,ajoelhando-seÓ, meu senhor, não! Não me façais sahir davossa casa! Prefiro ser, aqui, a ultima das vossas escravas! ser açoitada todos os dias, contanto que me não deis a ninguem! Não posso, tende piedade de mim! Não posso! não posso!PETRONIO,surprehendidoHein?EUNICERepito-vol-o, senhôr. Não irei para caza de Marcos Vinicio. Não sahirei de vossa casa. Tende piedade! Sêde bom, como sois!PETRONIOVai chamar Teirésias.(Eunice sahe)MARCOSPetronio, eu não a quero. Nem a ella nem a nenhuma. Deixa...PETRONIO(brandamente)Uma escrava!MARCOS,vendo entrar Eunice e Teirésias senta-se a lêrPerdôa-lhe.PETRONIO,a TeirésiasLeva Eunice, e dá-lhe quinze chibatadas.(baixo)Com geito para lhe não estragares a pelle.(a Marcos)O que lês?MARCOSO teu livro: o Satyrikon. Já não fazes versos?PETRONIONão. Desde que Nero é poeta e os faz... É perigoso.MARCOSSe amasses!PETRONIOHoje? Ser-me-hia precizo encontrar... uma Lygia.MARCOSUma deusa! Alcançar-ma-has, Petronio?PETRONIOSerá tua. Quanto se pode responder por Cezar, respondo.MARCOSTu és filho de minha irmã e por isto me foste sempre muito caro; mas, agora, collocarei, nos meus lares, uma estatua tua,(indicando a estatua de Petronio)tão bella como esta e offerecer-lhe-hei sacrificios.(vendo a)Tu és verdadeiramente bello, Petronio! Se Páris era assim, Helena teve razão na escolha.PETRONIOChamam-me o Rei da Elegancia, Marcos.(Eunice entra de semblante alegre)Recebeste as chibatadas?EUNICESim, meu senhor, quinze, só!PETRONIOSó!(a Marcos)Não comprehendes?MARCOSNão.PETRONIOComprehendo eu.(a Eunice)Tu tens um amante, aqui?EUNICE,joelhando-se-lhe aos pésSim, senhor!(inclina a cabeça)PETRONIOQuem é?(Eunice inclina mais a cabeça, silenciosa)Quem é?(repara na mulher)Hei-de sabêl-o.(a Marcos)Vamos almoçar.(Pôe-lhe a mão sobre o hombro, olha com interesse Eunice)Vamos.(Sahem)(Eunice deixa-os sahir. Levanta se. Toma por disfarce o frasco da verbena e, fingindo sahir, espreita. Não vendoninguem, volta, toma a cadeira onde se sentou Petronio; colloca-a ao pé da estatua; sobe, abraça o marmore e, ao mesmo tempo em que os cabellos loiros lhe cahem pelas costas, colla os labios aos labios da estatua).O PANNO DESCEQUADRO SEGUNDOTriclinio. (Caza de jantar no palacio de Néro.) No 1.º plano tres mezas, em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras. Á esquerda uma balaustrada que se suppôe dar para uma escada, inferior, de entrada. As mezas estão promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de escravos, até á chegada dos convivas. Entram Lygia e Actêa.LYGIADize-me, minha bôa Actêa, é bem certo que, Néro, Cezar, matou a mulher, a mãi, o irmão?ACTÊAÉ certo... e quantos outros!LYGIAE, dizias-me que o amavas?ACTÊAConhecí-o, moço, bello e generoso! É sempreessa imagem, esse Néro que eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os aulicos, os amigos, os senadôres, o proprio povo, esse não o conheço. Esse pertenceu sempre a outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse é de Poppêa, a divina!LYGIAComo eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vêr de novo em caza de Pomponia: ou na campina de Rôma, só, abandonada que fosse. Se eu pudesse... se tu pudesses, generosa Actêa, proporcionar-me a fuga!ACTÊAEu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar é absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, és uma coisa sua, na vida e na morte!LYGIAUma coisa...!?ACTÊATenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, lá em cima, ha um Deus cujo filho morreu por nós! Mas sobre a Terra não ha senão um Deus: é Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu sou...uma concubina!... e manda-te preferir a morte á deshonra—como os estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...LYGIASempre!ACTÊAQuando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha de Sejano, uma creança de doze annos, foi condenada á morte. A lei prohibe que as virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que resolveu, Tiberio?LYGIAEu sei!ACTÊAMandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!LYGIAQue horrôr!ACTÊAReflecte. Não irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra são sempre sanguinarios. És bella, nova, e tão bôa...! Sê cautelosa e espera no futuro. Eu te protegerei, aqui, quanto pudér.LYGIA,abraçando-aComo tu és bôa, Actêa!ACTÊASem alegria e sem felicidade, é certo;... mas não sou má. «Elle» tambem o não era.LYGIALamenta-l'o?ACTÊASe te digo que o amo, ainda! O teu Deus não morreu por amôr dos que o mataram?LYGIAE, perdoou-lhes.ACTÊAO amôr é o perdão.(Como subindo a escadaria e voltando a entrar no salão, no 2.º plano, começam a entrar os senadôres de togas bordadas nas bandas, sandalias ricas, tunicas de côres. Mulheres vestidas e penteadas á Grega ou á Romana, as cabeças coroadas de flôres, etc.)LYGIAQue de gente sobe.ACTÊAOs convivas que chegam.MUSONIO,entrando e passando com SénecaSalve, Actêa!SÉNECASalve, divina Actêa!ACTÊASalve, Séneca!LYGIAQuem é este velho, de grave aspecto?ACTÊAÉ Séneca, o filosofo, mestre de Néro. Um filosofo que manda desprezar as riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhões de cestercios!LYGIAE, o companheiro?ACTÊAÉ tambem filosofo; mas bom: um estoico.LYGIAComo se chama?ACTÊAMusonio.TIGELINO,entrando com CalviaSalve, Actêa!ACTÊASalve!(a Lygia)Tigelino o infâme, o corruptôr, o valido de Néro. O que fornece as orgias e os venenos!LYGIAE, a mulher?ACTÊACalvia; a mais impudica das, cortezãs, de Roma. Cinco vezes divorciada.LUCANO,entrando com NigidiaQue os deuses te conservem sempre a belleza e o coração.ACTÊASalve.(a Lygia)Lucano o poeta e Nigidia a amante.LYGIAÉ tão novo.ACTÊAE é bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos são melhores do que os d'elle e Cezar não perdôa. A sua vida não vale uma moeda d'oiro.LYGIAE elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...ACTÊAÉ uma creança.(Entra Crispinilla, com Pitagoras.)Crispinilla a devassa, cheia de incestos...LYGIAE o mancebo? aquelle adolescente?ACTÊAÉ Pitagoras, o éphebo favorito de Néro.LYGIAComo favorito? Ama-o muito?ACTÊA,lembrando-se da inocencia de LygiaSim... Ama-o, muito!(Um grupo de homens e mulheres passa e comprimenta de longe, sem grande respeito). Senécion, Vitelio, Domicio... Vês como me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo comparar-me ás Deusas e beijar me os pés! São os cortezãos de todos os tempos.(O grupo sobe)LYGIAOnde vão?ACTÊADizer a Poppêa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!LYGIAComo tudo isto faz mêdo!ACTÊAE asco!(Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai para os grupos; Vinicio vê Lygia e desce). Petronio e Marcos Vinicio. Estes conheces de certo.LYGIAMarcos!MARCOSÁ mais pura das virgens da Terra, á mais bella das estrellas do Céu, á divina Lygia, salve!LYGIASalve, Marcos Vinicio.MARCOS,tomando o pulso d'Actêa e beijando-lh'oSalve, Actêa. Por Vénus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de Néro.ACTÊACuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, não tendes como elle a faculdade de que Néro oiça pelos vossos ouvidos e falle pela vossa bôca.MARCOSO louvor é tão perigoso em Caza de Cezar?ACTÊAÉ que dirigido a mim pode parecer epigrama.MARCOS,a LygiaFelizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a tua voz mais dôce do que as citharas e as flautas!LYGIAComo fiquei bem, ao vêr te! Que mêdo tenho de estar aqui! Sabias que me encontravas?MARCOSSabia e todavia ao vêr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!LYGIAComo sabias?MARCOSDisse-m'o Aulo Plaucio.LYGIAComo estará! e os seus! E porque estou eu aqui?MARCOSPor mandado de Cezar.LYGIAE para quê?MARCOSCezar não dá conta, a ninguem, dos seus actos.LYGIANada d'isto é natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o presentimento de desgraças! Tu és bom: leva-me para caza dos Plaucios, a caza onde eu vivi tranquilla e tão feliz! Faz-me mal este ruido, esta gente toda. Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com Aulo? O que me convem a mim é o socêgo e a obscuridade. Não nasci para festas e para jantares! e, aqui, no palacio de Néro... tenho mêdo, leva-me!MARCOSAcalma-te! Estou ao pé de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, não o crês?LYGIASim, Marcos.MARCOSE, tu m'o disséste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno Aulo. E, eu não ouvi nunca mais outra voz; não vi outro olhar senão o teu; não pensei, não tive outro querer, outra vontade senão a ti.LYGIAO socêgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!MARCOSTu és a minha felicidade, ó mais bella do que Vénus! A minha felicidade completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, póde sentir maior alegria do que um mortal(abraça-a, delicadamente)que sente bater contra o peito um peito querido! Assim, ó Lygia, o amôr nos eguala aos Deuses!LYGIAA tua palavra é como a luz, que afugenta as trévas e dissipa os terrôres. Entrego-me a ti.Restitue-me aos meus. Pomponia, a casta, amar-te-ha como se fôsse tua mãi: abençoar-nos-ha e seremos felizes! Por ella e pelos seus te agradeço o prazer que lhe darás; e, por mim, Marcos, amar-te-hei até ao fim da minha vida.(Na sala do fundo, onde estão, tambem, mezas visiveis, rompe a orchestra de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram dos lados)MARCOSVem Cezar.(Vai a querer subir)LYGIANão me deixes, só!MARCOSNão.(Actêa, desce)Aqui tens Actêa... Eu volto já.(Sobe.)LYGIAOh! Actêa!(agarrando-lhe a mão)ACTÊAQue tens?LYGIAFoje-me a vista.ACTÊASerena-te(beijando-a)Isso passa!(Néro apparece ao fundo. Á maneira que passa, a multidão aclama-o. Começam a cahir flôres do tecto até ao fim do acto. Os escravos trazem brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)VOZESAvé, Cezar!Avé, Jupiter!Avé, divino Cezar!Salve, divino!Olympico!Hercules!Immortal!NÉRO,junto a mezaÁ meza!(Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e cadeiras. Os escravos enchem as taças de vinho que veem em baldes com gêlo: outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Néro, reclinando-se no leito, coroado de rosas): Petronio, dir-se-hia que entoei um dos meus hymnos!PETRONIOÉ a condicção dos Deuses. A sua presença basta para arrancar as saudações dos homens.NÉROEstas? Que significam? Os romanos são verdadeiros selvagens. Não me entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?PETRONIOQue noite!NÉROQue noite de gloria! Nunca sentirei mais, naminha vida, uma impressão egual! Chorei! Lembras-te, Petronio?PETRONIOComo um mortal! E, desmaiaste, até, nos meus braços, exclamando: «Onde ha triumpho comparavel ao meu?! Eis o que são os Gregos! eis a Grecia!»NÉROComprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!PETRONIOVoltaremos?NÉROCertamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto. Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia! Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!PETRONIOEis o sonho d'um Cezar!NÉROUma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge, sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de Néro!LUCANOPelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta vezes maior do que a de Chéops.NÉROE, pelo meu canto?PETRONIOSe tu pudésses levantar uma estatua,—como a de Memnom—, que ao nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo, viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)NÉROE... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um Deus!PETRONIOE, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro!(A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em punho, ébrio)Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.TIGELINOE a mim, que destino me dás?PETRONIOCezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.TIGELINO,aparteInsolente!(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo curvado.)MARCOS,altoComo eu te amo, Lygia!(apertando-lhe o pulso)LYGIADeixa-me, Marcos, fazes-me mal.MARCOSOh! divina, ama-me muito!(beija-lhe o pulso)muito!ACTÊACezar está a olhar-vos.MARCOSQue me importa?ACTÊATu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.MARCOSO Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella!(Offerece-lhe a taça; Lygia recuza; Marcos bebe)NÉRO,deixando de olhar, depõe a esmeralda na mezaPetronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?PETRONIO,asustadoA rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.NÉROAh! De que povo é?PETRONIODos Lygios.NÉRODeve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.PETRONIOCobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste, aposto—por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher sentada—aposto que já lhe viste o defeito?...NERO,piscando os olhos para vêrNão tem ancas.PETRONIONenhumas.(malicioso)SENÉCIONNão sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.PETRONIOFazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia: Cezar affirmava que eras estupido como um burro!(gargalhadas)NÉRO,rindo exageradamente, inclina o pollegar para o chãoE está dito!VATINOSeja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem acreditava... como Plinio.CALVIASim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.NERO,rindo, batendo as palmas, o que todos imitamBravo!CALVIAE, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a pelle cheia de manchas rôxas.SENÉCIONDe que são?CALVIAElla é que sabe... e os médicos.LUCANOÉ o abrir dos botões. Flôres do amôr!PETRONIOCalvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?CALVIATu és um impertinente.PETRONIONão era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.CALVIAÉs capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus pés?PETRONIOPara os encher d'anneis.(Calvia olha instintivamente os pés: todos riem)VITELIO,cambaleandoO meu annel.(rí estupidamente)NÉRODe que diabo rí esta barrica de cêbo?PETRONIOO riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.VITELIOO annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu pai...PETRONIOQue era sapateiro.Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de Calvia.CALVIAQue queres? O atrevido.NIGIDIAElle não perdeu o que procura.LUCANOE... ainda que o ache não será capaz de o usar.(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho. Phalerno.)LYGIAO jantar durará muito, ainda, Marcos?MARCOSInda agora começou. Não estás bem?LYGIASim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...ACTÊAToma o meu leque. Queres um vinho geládo?LYGIAÓ não. Queria sahir.ACTÊAÉ impossivel.Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as citharas. Néro faz gesto negativo.SENÉCIONPela arte e pela humanidade!NÉRONão estou em voz. Onde está Poppêa?UM ESCRAVODoente; não pode vir.NÉROChamai-a(o escravo sahe)PETRONIOFaze desta festa um festim, divino Cezar: canta!LUCANOCezar, não sejas implacavel.VATINONão sejas implacavel!VOZESSê magnanimo, Cezar!NÉROO meu medico prohibiu me de cantar, hoje.SENÉCIONPoupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua voz se enublasse!NÉRORecitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.TODOSGraças, Cezar.Entra Poppêa, sumptuosa e bella.VOZESSalve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!NÉROUm momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de têl-a diante.LYGIAÓ Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza divina?!MARCOSSim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os meus labios no sitio dos teus!(Offerece-lhe a taça, que Lygia recusa)Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.NÉRO,recitandoEmbalde pretendi deixar a escravidão,Que nos impôe o amôr!A Deusa luminosaQue accende, em Chypre, o facho da paixãoPor sobre a humanidade; altiva, desdenhosaArrancou-me do peito o coração,E foi depôl-o aos pés, da mais formosaDas Romanas, Poppêa, a minha amada!Da Vénus Aphrodite a incandescente lavaPassou pela minh'alma!As intimas ternuras,Só pode soluçar a minha lyra escravaDo seu divino olhar, das calidas alvurasDo seu colo de neve, da bôcca onde os PrazeresMoram em ninho rubro entre desejos...Uma lyra que chora a pedir beijos!Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa:Sê como ella, de quem tens a fórma,Caritativa e dôce!Abre o teu leitoAos segrêdos do amôr, ao eterno gozo!Eu sou um Deus! que troca a divindade,Do mundo o senhorio, a magestade,Pelo logar do esposo!TODOSÓ poeta divino! Salve!TODOS,com palmas e gritosÓ voz divina!Ó immortal!Ó Jupiter!Ó artista divino!Ó resplandecente!Salve! Salve! Salve!POPPÊA,vem beijar magestosamente a mão de NéroObrigada, Cezar!(sahe)Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de novo alguns convivas, outros ficam de pé.PETRONIO,empunhando a taçaA Cezar olimpico!(Todos bebem)NÉRO,consultandoPetronio?PETRONIOOs versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja! Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.LUCANOMaldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a luz do sol a luz d'um candieiro!NÉRO,a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecidoFaze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.TIGELINO,deitando veneno n'uma taçaLentamente?NERONão.ACTÊAMusonio adormeceu emquanto Néro recitava!LYGIAÉ um crime?MARCOSDe lesa-magestade.LYGIAE vão acordal-o?MARCOSPara dormir outra vez... para sempre!TIGELINOEh! Musonio? eh! filosofo?MUSONIO,aparvalhadoQue é? Que queres? Maldito cão!TIGELINOCezar, chama-te.(Musonio, levanta-se)NÉROO quê sonhavas?MUSONIOQue Cerebero me ladrava, raivosamente.NÉROTu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.TIGELINOPetronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.TIGELINOVamos: a Cezar olimpico.Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila e cahe morto.LYGIA,levantando-seQue horrôr!Dois escravos levam-noACTÊATem coragem. Senta-te.NÉROOs gladiadôres?(Entram Croton e Timon)Croton, não te esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, como se substitue um mestre.Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.NÉROBravo, Croton.PETRONIOBello grupo para marmore.MARCOSBravo! Timon.CALVIAQue bellas fórmas!PETRONIOVestal, silencio!NÉRONão é uma bella arte?PETRONIOA mais bella, depois do canto e da musica.NÉROHei-de de experimental-a, tambem.PETRONIOSereis invencivel!Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai estrangulal-o.—Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.NÉROAlto! Bravo, Croton!(applausos)Exercita-te, Timon. Por momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me deves a vida.TIMONElla é vossa, divino Cezar!NÉRODai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta aza de pavão de Samos.(deitam-lhe vinho)Que comes, tu, Calvia?CALVIAUna bocado de cabrito de Ambracia.NÉROEstás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias, semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos, excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.SENÉCION,de péEu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella morre já! A faltaé dos rapazes que não tem fé e sem fé não ha virtude.VATINOQuem é que diz de Roma vai morrer?SENÉCIONOs filosofos.VITELIOMá raça, essa, dos filosofos.LUCANO,com Nigidia no coloNão ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei se Epicteto.NIGIDIANunca disse isso, Epicteto.LUCANONão? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o eu.SENÉCIONNão, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho!(chora sobre o colo de uma bachante.)BACHANTENão chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes.(empurra-o levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)LUCANO,enrolando-se na hera d'uma amphoraEh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!NÉROPitágoras, vem cá!(a Petronio)conheces alguma coisa mais bella?(beija as mãos do éphebo)Hei-de cazar comtigo! Mãos tão bellas, nunca vi. Vi... já... quando?(lugubre)Eram de... minha mãe!(pausa e espanto)Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina!(baixo)Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa... vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!VATINONos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!NÉROE, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero vêr... Cinco annos!cinco annos! Matei a, mas fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me tinheis ouvido, hoje!TIGELINOGraças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!NÉRONão a quero vêr!(gritando)Vinho! e que esses timbales rujam!LUCANOEu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos para o bosque!NÉROTem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora, vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas.(obedecem)Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!CALVIAQuem?NÉROA mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras!(reparando em Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e Lygia)Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!ACTÊA,acceitando-lhe o braçoSenhôr, sou a vossa escrava.NÉRONão; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em longe!(sobem todos)MARCOS,agarrando brutalmente LygiaDá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És minha! Cezar roubou-te para mim!LYGIAMarcos...MARCOSPara mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho... núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como aVénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios!(força para beijal-a)Dá-mos, já, agora.LYGIA,recuando aflictaMarcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!MARCOSPiedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a!(agarrando-lhe brutalmente a cabeça)Ó dá-m'a, por Jupiter! ou...O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o leito.LYGIAEs tu?(atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)URSUSNão tenha mêdo... sou eu!(leva-a a colo)MARCOS,levantando-se tontoLygia! Lygia!(vai a querer seguil-a, e cambaleia)Por Hercules!(ampara-se a uma assyria que bebe)Que é? que foi?ASSYRIA,dando-lhe a taçaUm sonho! Bebe!Marcos bebe e cahe sobre o leito.URSUSEis os senhores do mundo!(sahe, levando Lygia).No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As rosas sahem sempre. O panno desce, lento.FINAL DO 1.º ACTO
Casa de Petronio em Roma. A um lado, a estatua de Petronio, em marmore. Sobre uma meza, frascos varios de aguas, de oleos; escovas, pentes, ferros de frisar. Duas escravas ethiopes e duas brancas, o rodeiam. As negras acabaram de o pentear.
Que manto?(as escravas negras sahem)
O azul.(a escrava sahe e traz)
Bello... como um Deus!
«Animal impudens», de Séneca.
O consul Marcos Vinicio.
Oh!
Salve, Petronio!
Salve. Sê bem vindo em Roma. Que o repouso te seja grato depois da guerra.
Que os Deuses te sejam propicios, sobre tudo Asclépias e Cypris.
Que o tal Asclépias me perdôe; não tenho fé n'elle. Um Deus cuja mãi se ignora! Sabe-se lá se é filho de Arsinoé ou de Corónida? Que fará do pai! Quem, por estes tempos que correm, pode ter a certeza de ser filho... do pai?(Marcos, ri contrafeito)Estás preocupado?
... Não.
Dos Asclepiades já tive de me servir, o annopassado... para a bexiga. Sabia que eram charlatães; mas o mundo repousa sobre o charlatanismo e a vida mesmo não é senão uma illusão! O que é precizo é saber distinguir as bôas illusões das más. Eu mando aquecer a minha estufa com madeira de cedro, pulverisada com ambar, porque prefiro os perfumes aos máus cheiros. Quanto a Cypris, a quem me recomendaste, devo-lhe o ter coxeado, amorosamente, dois mezes; mas, emfim, é uma bôa deusa a quem espero sacrificarás, em breve, as brancas pombas.
Talvez. Se as flechas dos Parthas me não alcançaram, em compensação, fui tocado pelas do Amôr, d'uma maneira imprevista.
Sim?
A dois passos das portas de Roma.
Pelas Graças! conta-me isso.
Tanto mais que precizo do teu conselho...
É escusado perguntar se o teu amôr é correspondido!(olhando-o)Se Lysias te tem conhecido, ornavas, hoje, a porta do Palatino sob a fórma d'um Hercules juvenil.(Eunice offerece-lhe e põe-lhe o manto)
Por Zeus, que bella escolha! Mais bello corpo não se encontrará nem em caza do Barbas de Bronze, d'esse famoso Nero, teu amigo.
Tu és meu parente... e eu não sou egoista; nem tão austero, como um Aulo Plaucio...! Se queres...?
Como te veio á ideia Aulo Plaucio? É d'elle que te venho fallar.
Estarás, tu, por acaso enamorado de Pomponia, sua mulher? Diabo! Velha... virtuosa... Lamento-te.
Não é de Pomponia. Oh! Não!
De quem?...
Nem sei. Nem sei mesmo o seu nome. Lygia? Calina? Chamam-lhe Lygia porque é do paiz dos Lygios; mas o seu nome barbaro é Calina. Estive doente em caza d'esse Plaucio, por um accidente de viagem...
Qual?
Desloquei um pé, n'uma queda do cavallo... É uma caza estranha: cheia de gente e silenciosa como um bosque sagrado. Durante quinze dias, ignorei que uma deusa a habitasse. Vi-a, uma manhã, a banhar-se n'um tanque, sob as arvores. E... juro-te pela espuma d'onde nasceu Aphrodite... os raios da Aurora brincavam atravez do seu corpo! Julguei-a uma apparição, uma sombra que os raios do sol nascente dissipassem, como um crepusculo! Desde então, não tive mais tranquilidade; não tive mais descanso; não tive outro desejo; não vejo outra mulher! Tudo me merece desprezo; o oiro, os bronzes de Corintho... Aborreço os vinhos, os festins; só vejo, só quero Lygia! O mundo para mim é ella... e só ella!
É uma escrava de Plaucio? Compra-lh'a.
Não é uma escrava.
Uma liberta, então?
Se nunca foi escrava, como pode ser liberta?
Quem é, pois?
A filha d'um rei.
Hein? Começas a intrigar-me...
É filha de Vanio, rei dos Suévos.
O que teve guerras, no tempo de Claudio?...
Com os sobrinhos; que levantaram, contraelle os Lygios, terriveís na rapina. Claudio, temendo pelas fronteiras, mandou Hister, legionario do Danubio, que vigiasse para que a paz não fôsse alterada. Hister exigiu aos Lygios a promessa de não invadirem a fronteira, e, como refem recebeu a filha e a mulher do chefe.
D'onde sabes, tu, isso?
Contou-m'o Plaucio, elle proprio. Na guerra o rei dos Lygios morreu. Hister ficou com a mãi e a filha. A mãi morreu pouco depois, e Hister para se desembaraçar da creança, mandou-a a Pomponio, governador da Germania e vencedor dos Gathes. Quando Pomponio entrou em Roma, em triumphador, a pequena Lygia seguia o seu carro; mas como era um refem e não uma escrava, Pomponio entregou-a a sua irmã, mulher de Aulo. N'esta caza onde tudo respira virtude, cresceu, tão virtuosa e tão pura, que ao pé d'ella, Poppêa, que passa pela mulher mais bella de Roma, é como um figo do outomno, ao pé d'um pômmo das Hesperides!
E, então?
Repito-te, desde que vi a luz brincar atravez do seu corpo...
Ella é então transparente como uma lampreia...!
Não gracejes, Petronio.
Pois bem, diz-me o que queres, claramente.
Quero Lygia! Quero que os meus braços a apertem; que a minha bôcca respire na sua bôcca! Se fosse uma escrava daria por ella cem virgens! Quero-a, eis tudo! Têl-a, guardál-a, até que a minha cabeça branquêje como a crista do Sorate, no hinverno!
... Se não é uma escrava, é, em todo o caso uma rapariga abandonada. Plaucio póde ceder-t'a, se quizer.
Não conheces Plaucio nem Pomponia sua mulher? De resto, amam-na como filha!
Pomponia? conheço: é um cypreste! Tem o ar de quem vive n'um cemiterio. Mas é, diga se, mulher d'um homem só; o que faz que entre as nossas romanas, quatro e cinco vezes divorciadas, seja uma phenix!
Mas... Petronio...
Que queres que te diga, meu caro Marcos? Conheço muito bem Aulo Plaucio, como elle conhece o meu modo de pensar e o meu modo de viver. Se pensas que poderei obter alguma coisa d'elle, francamente, parece-me que te enganas.
O teu espirito é inexgotavel em expedientes...
Exageras.
Todo o mundo te conhece.
Como o rei da elegancia? sim. É o meu reino.Se fosse o da Lygia eu não teria senão prazer em te offerecer a minha filha, bello e amoroso consul.
Não fallarás a Plaucio?
... Não. É inutil. Mas... fallarei a Cezar.
Melhor ainda...
Se Lygia é um refem, Cezar pode dispôr d'ella, pode offerecer-t'a.
Fallar-lhe-has, então?
Sim.
Hoje mesmo?
Hoje... talvez. É precizo esperar occasião de o poder louvar, pelo canto, ou pelos versos, ou pela aptidão de cocheiro, de actôr... A proposito, fazes versos?
Nunca pude arranjar um hexametro.
Não tocas cithara, nem alaúde?
Não.
Não guias um carro?
Tomei, uma vez, parte n'umas corridas em Antiochia; mas fui infeliz.
Bem. Estou descançado a teu respeito. O melhor é não fazer nenhuma d'essas coisas e admiral-as, muito, nos outros... sobretudo em Cezar. És bello e Poppêa pode agradar-se de ti. É um perigo. Nero não t'o supportaria. É verdade que Poppêa está uma mulher experiente: d'amôr os dois primeiros maridos saciaram-na; Nero é para outra coisa.
Que é feito de Othon?
O terceiro? O pobre homem ama-a ainda loucamente. Anda a choral-a sobre os rochedos da Hespanha. E, dizem, que de tal modo perdeu oshabitos da galanteria, que hoje, com o penteado, só gasta tres horas por dia!
Eu, no caso d'elle, fazia outra coisa.
O quê?
São valentes e duros soldados os da Iberia! Recrutaria umas legiões fieis...
Marcos, Marcos! Essas coisas fazem-se, mas não se dizem, nem como hypotheses... Eu, no logar d'elle, rir-me-hia de Poppêa e de Nero: arranjava uma legião, mas não era de homens, era de mulheres!...(Eunice entra com um frasco.)Ah! a verbena.(deita nas mãos e esfrega as fontes)Não imaginas como isto vivifica, dá fôrça!
Mas... Lygia...
Sim, homem, descança.
Não posso, Petronio. Se eu não consigo comer nem dormir! Vou passeiar um pouco pela cidade, mover-me, andar, distrahir-me...
É verdade, tu não fizeste a barba, hoje!
Nem hontem!
Tens febre. Escuta. Eu não sei o que te prescreveria um medico, um d'esses asclepiades; mas sei o que eu faria no teu logar. Sim... eu sei o que é o amor, e, que quando se deseja uma mulher, nenhuma outra a póde substituir! A belleza, porém, encanta sempre; e uma bella escrava...
Não, não quero.
A novidade faz esquecer... por um novo desejo...(Pondo a mão no hombro de Eunice, que lhe offerece, de novo a verbena)Repara, um pouco, n'esta filha de Cós. Ha dias, o joven Fonteio offerecia-me por ella tres admiraveis éphebos: tresmaravilhas dignas do pincel de Scopas!(olhando-a com interesse)É curioso; como não dei ha mais tempo pelos seus encantos? No entanto, dou-t'a, leva-a.
Não, não a quero: não quero ninguem! Obrigado. Vais d'aqui ao Palatino, ao palacio de Cesar?
Vou.
Bem... Voltarei mais tarde. Vou á outra margem do Tibre...
Não. Vais almoçar comigo. Eunice?
Meu senhôr.
Tomarás o teu banho: ungirás o teu corpo, com os melhores perfumes, e irás para casa de Marcos Vinicio.
Ó, meu senhor, não! Não me façais sahir davossa casa! Prefiro ser, aqui, a ultima das vossas escravas! ser açoitada todos os dias, contanto que me não deis a ninguem! Não posso, tende piedade de mim! Não posso! não posso!
Hein?
Repito-vol-o, senhôr. Não irei para caza de Marcos Vinicio. Não sahirei de vossa casa. Tende piedade! Sêde bom, como sois!
Vai chamar Teirésias.(Eunice sahe)
Petronio, eu não a quero. Nem a ella nem a nenhuma. Deixa...
Uma escrava!
Perdôa-lhe.
Leva Eunice, e dá-lhe quinze chibatadas.(baixo)Com geito para lhe não estragares a pelle.(a Marcos)O que lês?
O teu livro: o Satyrikon. Já não fazes versos?
Não. Desde que Nero é poeta e os faz... É perigoso.
Se amasses!
Hoje? Ser-me-hia precizo encontrar... uma Lygia.
Uma deusa! Alcançar-ma-has, Petronio?
Será tua. Quanto se pode responder por Cezar, respondo.
Tu és filho de minha irmã e por isto me foste sempre muito caro; mas, agora, collocarei, nos meus lares, uma estatua tua,(indicando a estatua de Petronio)tão bella como esta e offerecer-lhe-hei sacrificios.(vendo a)Tu és verdadeiramente bello, Petronio! Se Páris era assim, Helena teve razão na escolha.
Chamam-me o Rei da Elegancia, Marcos.(Eunice entra de semblante alegre)Recebeste as chibatadas?
Sim, meu senhor, quinze, só!
Só!(a Marcos)Não comprehendes?
Não.
Comprehendo eu.(a Eunice)Tu tens um amante, aqui?
Sim, senhor!(inclina a cabeça)
Quem é?(Eunice inclina mais a cabeça, silenciosa)Quem é?(repara na mulher)Hei-de sabêl-o.(a Marcos)Vamos almoçar.(Pôe-lhe a mão sobre o hombro, olha com interesse Eunice)Vamos.(Sahem)
(Eunice deixa-os sahir. Levanta se. Toma por disfarce o frasco da verbena e, fingindo sahir, espreita. Não vendoninguem, volta, toma a cadeira onde se sentou Petronio; colloca-a ao pé da estatua; sobe, abraça o marmore e, ao mesmo tempo em que os cabellos loiros lhe cahem pelas costas, colla os labios aos labios da estatua).
O PANNO DESCE
Triclinio. (Caza de jantar no palacio de Néro.) No 1.º plano tres mezas, em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras. Á esquerda uma balaustrada que se suppôe dar para uma escada, inferior, de entrada. As mezas estão promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de escravos, até á chegada dos convivas. Entram Lygia e Actêa.
Dize-me, minha bôa Actêa, é bem certo que, Néro, Cezar, matou a mulher, a mãi, o irmão?
É certo... e quantos outros!
E, dizias-me que o amavas?
Conhecí-o, moço, bello e generoso! É sempreessa imagem, esse Néro que eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os aulicos, os amigos, os senadôres, o proprio povo, esse não o conheço. Esse pertenceu sempre a outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse é de Poppêa, a divina!
Como eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vêr de novo em caza de Pomponia: ou na campina de Rôma, só, abandonada que fosse. Se eu pudesse... se tu pudesses, generosa Actêa, proporcionar-me a fuga!
Eu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar é absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, és uma coisa sua, na vida e na morte!
Uma coisa...!?
Tenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, lá em cima, ha um Deus cujo filho morreu por nós! Mas sobre a Terra não ha senão um Deus: é Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu sou...uma concubina!... e manda-te preferir a morte á deshonra—como os estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...
Sempre!
Quando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha de Sejano, uma creança de doze annos, foi condenada á morte. A lei prohibe que as virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que resolveu, Tiberio?
Eu sei!
Mandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!
Que horrôr!
Reflecte. Não irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra são sempre sanguinarios. És bella, nova, e tão bôa...! Sê cautelosa e espera no futuro. Eu te protegerei, aqui, quanto pudér.
Como tu és bôa, Actêa!
Sem alegria e sem felicidade, é certo;... mas não sou má. «Elle» tambem o não era.
Lamenta-l'o?
Se te digo que o amo, ainda! O teu Deus não morreu por amôr dos que o mataram?
E, perdoou-lhes.
O amôr é o perdão.(Como subindo a escadaria e voltando a entrar no salão, no 2.º plano, começam a entrar os senadôres de togas bordadas nas bandas, sandalias ricas, tunicas de côres. Mulheres vestidas e penteadas á Grega ou á Romana, as cabeças coroadas de flôres, etc.)
Que de gente sobe.
Os convivas que chegam.
Salve, Actêa!
Salve, divina Actêa!
Salve, Séneca!
Quem é este velho, de grave aspecto?
É Séneca, o filosofo, mestre de Néro. Um filosofo que manda desprezar as riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhões de cestercios!
E, o companheiro?
É tambem filosofo; mas bom: um estoico.
Como se chama?
Musonio.
Salve, Actêa!
Salve!(a Lygia)Tigelino o infâme, o corruptôr, o valido de Néro. O que fornece as orgias e os venenos!
E, a mulher?
Calvia; a mais impudica das, cortezãs, de Roma. Cinco vezes divorciada.
Que os deuses te conservem sempre a belleza e o coração.
Salve.(a Lygia)Lucano o poeta e Nigidia a amante.
É tão novo.
E é bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos são melhores do que os d'elle e Cezar não perdôa. A sua vida não vale uma moeda d'oiro.
E elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...
É uma creança.(Entra Crispinilla, com Pitagoras.)Crispinilla a devassa, cheia de incestos...
E o mancebo? aquelle adolescente?
É Pitagoras, o éphebo favorito de Néro.
Como favorito? Ama-o muito?
Sim... Ama-o, muito!(Um grupo de homens e mulheres passa e comprimenta de longe, sem grande respeito). Senécion, Vitelio, Domicio... Vês como me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo comparar-me ás Deusas e beijar me os pés! São os cortezãos de todos os tempos.(O grupo sobe)
Onde vão?
Dizer a Poppêa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!
Como tudo isto faz mêdo!
E asco!(Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai para os grupos; Vinicio vê Lygia e desce). Petronio e Marcos Vinicio. Estes conheces de certo.
Marcos!
Á mais pura das virgens da Terra, á mais bella das estrellas do Céu, á divina Lygia, salve!
Salve, Marcos Vinicio.
Salve, Actêa. Por Vénus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de Néro.
Cuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, não tendes como elle a faculdade de que Néro oiça pelos vossos ouvidos e falle pela vossa bôca.
O louvor é tão perigoso em Caza de Cezar?
É que dirigido a mim pode parecer epigrama.
Felizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a tua voz mais dôce do que as citharas e as flautas!
Como fiquei bem, ao vêr te! Que mêdo tenho de estar aqui! Sabias que me encontravas?
Sabia e todavia ao vêr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!
Como sabias?
Disse-m'o Aulo Plaucio.
Como estará! e os seus! E porque estou eu aqui?
Por mandado de Cezar.
E para quê?
Cezar não dá conta, a ninguem, dos seus actos.
Nada d'isto é natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o presentimento de desgraças! Tu és bom: leva-me para caza dos Plaucios, a caza onde eu vivi tranquilla e tão feliz! Faz-me mal este ruido, esta gente toda. Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com Aulo? O que me convem a mim é o socêgo e a obscuridade. Não nasci para festas e para jantares! e, aqui, no palacio de Néro... tenho mêdo, leva-me!
Acalma-te! Estou ao pé de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, não o crês?
Sim, Marcos.
E, tu m'o disséste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno Aulo. E, eu não ouvi nunca mais outra voz; não vi outro olhar senão o teu; não pensei, não tive outro querer, outra vontade senão a ti.
O socêgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!
Tu és a minha felicidade, ó mais bella do que Vénus! A minha felicidade completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, póde sentir maior alegria do que um mortal(abraça-a, delicadamente)que sente bater contra o peito um peito querido! Assim, ó Lygia, o amôr nos eguala aos Deuses!
A tua palavra é como a luz, que afugenta as trévas e dissipa os terrôres. Entrego-me a ti.Restitue-me aos meus. Pomponia, a casta, amar-te-ha como se fôsse tua mãi: abençoar-nos-ha e seremos felizes! Por ella e pelos seus te agradeço o prazer que lhe darás; e, por mim, Marcos, amar-te-hei até ao fim da minha vida.
(Na sala do fundo, onde estão, tambem, mezas visiveis, rompe a orchestra de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram dos lados)
Vem Cezar.(Vai a querer subir)
Não me deixes, só!
Não.(Actêa, desce)Aqui tens Actêa... Eu volto já.(Sobe.)
Oh! Actêa!(agarrando-lhe a mão)
Que tens?
Foje-me a vista.
Serena-te(beijando-a)Isso passa!
(Néro apparece ao fundo. Á maneira que passa, a multidão aclama-o. Começam a cahir flôres do tecto até ao fim do acto. Os escravos trazem brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)
Avé, Cezar!
Avé, Jupiter!
Avé, divino Cezar!
Salve, divino!
Olympico!
Hercules!
Immortal!
Á meza!(Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e cadeiras. Os escravos enchem as taças de vinho que veem em baldes com gêlo: outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Néro, reclinando-se no leito, coroado de rosas): Petronio, dir-se-hia que entoei um dos meus hymnos!
É a condicção dos Deuses. A sua presença basta para arrancar as saudações dos homens.
Estas? Que significam? Os romanos são verdadeiros selvagens. Não me entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?
Que noite!
Que noite de gloria! Nunca sentirei mais, naminha vida, uma impressão egual! Chorei! Lembras-te, Petronio?
Como um mortal! E, desmaiaste, até, nos meus braços, exclamando: «Onde ha triumpho comparavel ao meu?! Eis o que são os Gregos! eis a Grecia!»
Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!
Voltaremos?
Certamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto. Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia! Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!
Eis o sonho d'um Cezar!
Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge, sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de Néro!
Pelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta vezes maior do que a de Chéops.
E, pelo meu canto?
Se tu pudésses levantar uma estatua,—como a de Memnom—, que ao nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo, viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!
(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)
E... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um Deus!
E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro!(A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em punho, ébrio)Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.
E a mim, que destino me dás?
Cezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.
Insolente!
(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo curvado.)
Como eu te amo, Lygia!(apertando-lhe o pulso)
Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.
Oh! divina, ama-me muito!(beija-lhe o pulso)muito!
Cezar está a olhar-vos.
Que me importa?
Tu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.
O Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella!(Offerece-lhe a taça; Lygia recuza; Marcos bebe)
Petronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?
A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.
Ah! De que povo é?
Dos Lygios.
Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.
Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste, aposto—por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher sentada—aposto que já lhe viste o defeito?...
Não tem ancas.
Nenhumas.(malicioso)
Não sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.
Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia: Cezar affirmava que eras estupido como um burro!(gargalhadas)
E está dito!
Seja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem acreditava... como Plinio.
Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.
Bravo!
E, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a pelle cheia de manchas rôxas.
De que são?
Ella é que sabe... e os médicos.
É o abrir dos botões. Flôres do amôr!
Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?
Tu és um impertinente.
Não era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.
És capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus pés?
Para os encher d'anneis.(Calvia olha instintivamente os pés: todos riem)
O meu annel.(rí estupidamente)
De que diabo rí esta barrica de cêbo?
O riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.
O annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu pai...
Que era sapateiro.
Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de Calvia.
Que queres? O atrevido.
Elle não perdeu o que procura.
E... ainda que o ache não será capaz de o usar.
(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho. Phalerno.)
O jantar durará muito, ainda, Marcos?
Inda agora começou. Não estás bem?
Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...
Toma o meu leque. Queres um vinho geládo?
Ó não. Queria sahir.
É impossivel.
Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as citharas. Néro faz gesto negativo.
Pela arte e pela humanidade!
Não estou em voz. Onde está Poppêa?
Doente; não pode vir.
Chamai-a(o escravo sahe)
Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!
Cezar, não sejas implacavel.
Não sejas implacavel!
Sê magnanimo, Cezar!
O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.
Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua voz se enublasse!
Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.
Graças, Cezar.
Entra Poppêa, sumptuosa e bella.
Salve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!
Um momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de têl-a diante.
Ó Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza divina?!
Sim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os meus labios no sitio dos teus!(Offerece-lhe a taça, que Lygia recusa)
Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.
Embalde pretendi deixar a escravidão,Que nos impôe o amôr!A Deusa luminosaQue accende, em Chypre, o facho da paixãoPor sobre a humanidade; altiva, desdenhosaArrancou-me do peito o coração,E foi depôl-o aos pés, da mais formosaDas Romanas, Poppêa, a minha amada!Da Vénus Aphrodite a incandescente lavaPassou pela minh'alma!As intimas ternuras,Só pode soluçar a minha lyra escravaDo seu divino olhar, das calidas alvurasDo seu colo de neve, da bôcca onde os PrazeresMoram em ninho rubro entre desejos...Uma lyra que chora a pedir beijos!Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa:Sê como ella, de quem tens a fórma,Caritativa e dôce!Abre o teu leitoAos segrêdos do amôr, ao eterno gozo!Eu sou um Deus! que troca a divindade,Do mundo o senhorio, a magestade,Pelo logar do esposo!
Ó poeta divino! Salve!
Ó voz divina!
Ó immortal!
Ó Jupiter!
Ó artista divino!
Ó resplandecente!
Salve! Salve! Salve!
Obrigada, Cezar!(sahe)
Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de novo alguns convivas, outros ficam de pé.
A Cezar olimpico!(Todos bebem)
Petronio?
Os versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja! Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.
Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a luz do sol a luz d'um candieiro!
Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.
Lentamente?
Não.
Musonio adormeceu emquanto Néro recitava!
É um crime?
De lesa-magestade.
E vão acordal-o?
Para dormir outra vez... para sempre!
Eh! Musonio? eh! filosofo?
Que é? Que queres? Maldito cão!
Cezar, chama-te.(Musonio, levanta-se)
O quê sonhavas?
Que Cerebero me ladrava, raivosamente.
Tu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.
Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!
Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.
Vamos: a Cezar olimpico.
Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila e cahe morto.
Que horrôr!
Dois escravos levam-no
Tem coragem. Senta-te.
Os gladiadôres?(Entram Croton e Timon)Croton, não te esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, como se substitue um mestre.
Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.
Bravo, Croton.
Bello grupo para marmore.
Bravo! Timon.
Que bellas fórmas!
Vestal, silencio!
Não é uma bella arte?
A mais bella, depois do canto e da musica.
Hei-de de experimental-a, tambem.
Sereis invencivel!
Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai estrangulal-o.—Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.
Alto! Bravo, Croton!(applausos)Exercita-te, Timon. Por momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me deves a vida.
Ella é vossa, divino Cezar!
Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta aza de pavão de Samos.(deitam-lhe vinho)Que comes, tu, Calvia?
Una bocado de cabrito de Ambracia.
Estás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.
Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias, semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos, excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.
Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella morre já! A faltaé dos rapazes que não tem fé e sem fé não ha virtude.
Quem é que diz de Roma vai morrer?
Os filosofos.
Má raça, essa, dos filosofos.
Não ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei se Epicteto.
Nunca disse isso, Epicteto.
Não? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o eu.
Não, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho!(chora sobre o colo de uma bachante.)
Não chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes.(empurra-o levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)
Eh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!
Pitágoras, vem cá!(a Petronio)conheces alguma coisa mais bella?(beija as mãos do éphebo)Hei-de cazar comtigo! Mãos tão bellas, nunca vi. Vi... já... quando?(lugubre)Eram de... minha mãe!(pausa e espanto)Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina!(baixo)Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa... vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!
Nos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!
E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero vêr... Cinco annos!cinco annos! Matei a, mas fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me tinheis ouvido, hoje!
Graças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!
Não a quero vêr!(gritando)Vinho! e que esses timbales rujam!
Eu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos para o bosque!
Tem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora, vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas.(obedecem)Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!
Quem?
A mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras!(reparando em Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e Lygia)Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!
Senhôr, sou a vossa escrava.
Não; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em longe!(sobem todos)
Dá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És minha! Cezar roubou-te para mim!
Marcos...
Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho... núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como aVénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios!(força para beijal-a)Dá-mos, já, agora.
Marcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!
Piedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a!(agarrando-lhe brutalmente a cabeça)Ó dá-m'a, por Jupiter! ou...
O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o leito.
Es tu?(atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)
Não tenha mêdo... sou eu!(leva-a a colo)
Lygia! Lygia!(vai a querer seguil-a, e cambaleia)Por Hercules!(ampara-se a uma assyria que bebe)Que é? que foi?
Um sonho! Bebe!
Marcos bebe e cahe sobre o leito.
Eis os senhores do mundo!(sahe, levando Lygia).
No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As rosas sahem sempre. O panno desce, lento.
FINAL DO 1.º ACTO