Chapter 2

Eu conheço a mais bella flôr;És tu, rosa da mocidade,Nascida, aberta para o amor.Eu conheço a mais bella flôr.Tem do céu a serena côr,E o perfume da virgindade.Eu conheço a mais bella flôr,És tu, rosa da mocidade.Vive ás vezes na solidão,Coma filha da briza agreste.Teme acaso indiscreta mão;Vive ás vezes na solidão.Poupa a raiva do furacãoSuas folhas de azul celeste.Vive ás vezes na solidão,Como filha da briza agreste.Colhe-se antes que venha o mal,Colhe-se antes que chegue o inverno;Que a flôr morta já nada vai.Colhe-se antes que venha o mal.Quando a terra é mais jovialTodo o bem nos parece eterno.Colhe-se antes que venha o mal,Colhe-se antes que chegue o inverno.

She speaksO speake again, bright angel!

She speaksO speake again, bright angel!

SHAKESPEARE

Quando ella falla, pareceQue a voz da briza se cala;Talvez um anjo emmudeceQuando ella falla.Meu coração doloridoAs suas mágoas exhala.E volta ao gozo perdidoQuando ella falla.Pudeste eu eternamente,Ao lado d'ella, escutal-a,Ouvir sua alma innocenteQuando ella falla.Minh'alma, já semi-morta,Conseguíra ao céu alçal-a,Porque o céu abre uma portaQuando ella falla.

Coroada de nevoas, surge a auroraPor detrás das montanhas do oriente;Vê-se um resto de somno e de preguiça,Nos olhos da fantastica indolente.Nevoas enchem de um lado e de outro os morrosTristes como sinceras sepulturas,Essas que têm por simples ornamentoPuras capellas, lagrimas mais puras.A custo rompe o sol; a custo invadeO espaço todo branco; e a luz brilhanteFulge através do espesso nevoeiro,Como através de um véu fulge o diamante.Vento frio, mas brando, agita as folhasDas laranjeiras humidas da chuva;Erma de flôres, curva a planta o collo,E o chão recebe o pranto da viuva.Gelo não cobre o dorso das montanhas,Nem enche as folhas tremulas a neve;Galhardo moço, o inverno deste climaNa verde palma a sua historia escreve.Pouco a pouco, dissipam-se no espaçoÁs nevoas da manhã; já pelos montesVão subindo as que encheram todo o valle;Já se vão descobrindo os horizontes.Sobe de todo o panno; eis appareceDa natureza o esplendido scenario;Tudo alli preparou co' os sabios olhosA suprema sciencia do emprezario.Canta a orchestra dos passaros no mattoA symphonia alpestre,—a voz serenaAcorda os écos timidos do valle;E a divina comedia invade a scena.

A miserrima DidoPelos paços reaes vaga ululando.

A miserrima DidoPelos paços reaes vaga ululando.

GARÇÃO.

De quanto sonho um dia povoasteA mente ambiciosa,Que te resta? Uma pagina sombria,A escura noite e um tumulo recente.Ó abysmo! Ó fortuna! Um dia apenasViu erguer, viu cahir teu fragil thronoMeteoro do seculo, passaste,Ó triste imperio, allumiando as sombras.A noite foi teu berço e teu sepulcro.Da tua morte os goivos inda acháramFrescas as rosas dos teus breves dias;E no livro da historia uma só folhaA tua vida conta: sangue e lagrimas.No tranquillo castello,Ninho d'amor, asylo de esperanças,A mão de aurea fortuna preparára,Menina e moça, um tumulo aos teus dias.Junto do amado esposo,Outra corôa cingias mais segura,A corôa do amor, dadiva santaDas mãos de Deus. No céu de tua vidaUma nuvem sequer não sombreavaA esplendida manhã; extranhos eramAo recatado asyloOs rumores do seculo.Estendia-seEm frente o largo mar, tranquilla faceComo a da consciencia alheia ao crime,E o céu, cupula azul do equoreo leito.Alli, quando ao cair da amena tarde,No thalamo encantado do occidente,O vento melancolico gemia,E a onda murmurando,Nas convulsões do amor beija a areia,Ias tu junto d'elle, as mãos travadas,Os olhos confundidos,Correr as brandas, somnolentas aguas,Na gondola discreta. Amenas flôresCom suas mãos teciamAs namoradas Horas; vinha a noite,Mãe de amores, solicita descendo,Que em seu regaço a todos envolvia,O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos.Mas além, muito além do céu fechado,O sombrio destino, contemplandoA par do teu amor, a etherea vida,As santas effusões das noites bellas,O terrivel scenario preparavaA mais terriveis lances.Então surge dos thronosA prophetica voz que annunciavaAo teu credulo esposo:«Tu serás rei, Macbeth!» Ao longe, ao longe,No fundo do oceano, envolto em nevoas,Salpicado de sangue, ergue-se um throno.Chamão-no a elle as vozes do destino.Da tranquilla mansão ao novo imperioCobrem flôres a estrada,—estereis flôresQue mal podem cobrir o horror da morte.Tu vais, tu vais tambem, victima infausta;O sopro da ambição fechou teus olhos....Ah! quão melhor te fôraNo meio d'essas aguasQue a regia nau cortava, conduzindoOs destinos de um rei, achar a morte:A mesma onda os dous envolveria.Uma só convulsão ás duas almasO vinculo quebrára, e ambas iriam,Como raios partidos de uma estrella,Á eterna luz juntar-se.Mas o destino, alçando a mão sombria,Já traçára nas paginas da historiaO terrivel mysterio. A liberdadeVela n'aquelle dia a ingenua fronte.Pejam nuvens de fogo o céu profundo.Orvalha sangue a noite mexicana....Viuva e moça, agora em vão procurasNo teu placido asylo o extincto esposo.Interrogas em vão o céu e as aguas.Apenas surge ensanguentada sombraNos teus sonhos de louca, e um grito apenas,Um soluço profundo reboandoPela noite do espirito, pareceOs échos acordar da mocidade.No emtanto, a natureza alegre e viva,Ostenta o mesmo rosto.Dissipam-se ambições, imperios morrem,Passam os homens como pó que o ventoDo chão levanta ou sombras fugitivas,Transformam-se em ruina o templo e a choça.Só tu, só tu, eterna natureza,Immutavel, tranquilla,Como rochedo em meio do oceano,Vês baquear os seculos.SussurraPelas ribas do mar a mesma briza;O céu é sempre azul, as aguas mansas;Deita-se ainda a tarde vaporosaNo leito do occidente;Ornam o campo as mesmas flôres bellas...Mas em teu coração magoado e triste,Pobre Carlota! o intenso desesperoEnche de intenso horror o horror da morte.Viuva da razão, nem já te cabeA illusão da esperança.Feliz, feliz, ao menos, se te resta,Nos macerados olhos,O derradeiro bem:—algumas lagrimas!

Quando, assentada á noite, a tua fronte inclinas,E cerras descuidada as palpebras divinas,E deixas no regaço as tuas mãos cair,E escutas sem fallar, e sonhas sem dormir,Acaso uma lembrança, um éco do passado,Em teu seio revive?Ó tumulo fechadoDa ventura que foi, do tempo que fugiu,Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?Com que flôr, com que espinho, a importuna memoriaDo teu passado escreve a mysteriosa historia?Que espectro ou que visão resurge aos olhos teus?Vem das trevas do mal ou cae das mãos de Deus?É saudade ou remorso? é desejo ou martyrio?Quando em obscuro templo a fraca luz de um cirioApenas alumia a nave e o grande altarE deixa todo o resto em treva,—e o nosso olharCuida ver resurgindo, ao longe, d'entre as portas,As sombras immortaes das creaturas mortas,Palpita o coração de assombro e de terror;O medo augmenta o mal. Mas a cruz do Senhor,Que a luz do cirio innunda, os nossos olhos chama;O animo esclarece aquella eterna chamma;Ajoelha-se contricto, e murmura-se entãoA palavra de Deus, a divina oração.Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo;Volve os olhos á luz, imita aquelle exemplo;Corre sobre o passado impenetravel véu;Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.

Fecha o missal do amor e a benção lançaÁ pia multidãoDos teus sonhos de moço e de criança,A benção do perdão.Sôa a hora fatal,—reza contrictoAs palavras do rito:Ite missa est.Foi longo o sacrificio; o teu joelhoDe curvar-se cançou;E acaso sobre as folhas do EvangelhoA tua alma chorou.Ninguem vio essas lagrimas (ai tantas!)Cair nas folhas santas.Ite missa est.De olhos fitos no céu rezaste o credo,O credo do teu deus;Oração que devia, ou tarde ou cedo,Travar nos labios teus;Palavra que se esvai qual fumo escassoE some-se no espaço.Ite missa est.Votaste ao céu, nas tuas mãos alçada,A hostia do perdão,A victima divina e profanadaQue chamas coração.Quasi inteiras perdeste a alma e a vidaNa hostia consumida.Ite missa est.Pobre servo do altar de um deus esquivo,É tarde; beija a cruz;Na lampada em que ardia o fogo activo,Vê, já se extingue a luz.Cubra-te agora o rosto macilentoO véu do esquecimento.Ite missa est.

No hay pájaros en los nidos de antaño.

No hay pájaros en los nidos de antaño.

PROVERBIO HESPANHOL.

Cobrem plantas sem flôr crestados muros;Range a porta ancian; o chão de pedraGemer parece aos pés do inquieto vate.Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto,Sitios caros da infancia.Austera moçaJunto ao velho portão o vate aguarda;Pendem-lhe as tranças soltasPor sobre as rôxas vestes.Risos não tem, e em seu magoado gestoTransluz não sei que dôr occulta aos olhos;—Dôr que á face não vem,—medrosa e casta,Intima e funda;—e dos cerrados ciliosSe uma discreta e mudaLagrima cae, não murcha a flôr do rosto;Melancolia tacita e serena,Que os écos não acorda em seus queixumes,Respira aquelle rosto. A mão lhe estendeO abatido poeta. Eil-os percorremCom tardo passo os relembrados sitios,Ermos depois que a mão da fria morteTantas almas colhera. Desmaiavam,Nos serros do poente,As rosas do crepusculo.«Quem és? pergunta o vate; o sol que foge«No teu languido olhar um raio deixa;«—Raio quebrado e frio;—o vento agita«Timido e frouxo as tuas longas tranças.«Conhecem-te estas pedras; das ruinas«Alma errante pareces condemnada«A contemplar teus insepultos ossos.«Conhecera-te estas arvores. E eu mesmo«Sinto não sei que vaga e amortecida«Lembrança de teu rosto.»Desceu de todo a noite,Pelo espaço arrastando o manto escuroQue a loura Vesper nos seus hombros castos,Como um diamante, prende. Longas horasSilenciosas corrêram. No outro dia,Quando as vermelhas rosas do orienteAo já proximo sol a estrada ornavam,Das ruinas sahião lentamenteDuas pallidas sombras...

Musa dos olhos verdes, musa alada,Ó divina esperança,Consolo do ancião no extremo alento,E sonho da criança;Tu que junto do berço o infante cingesC'os fulgidos cabellos;Tu que transformas em dourados sonhosSombrios pesadelos;Tu que fazes pulsar o seio ás virgens;Tu que ás mães carinhosasEnches o brando, tepido regaçoCom delicadas rosas;Casta filha do céu, virgem formosaDo eterno devaneio,Sê minha amante, os beijos meus recebe,Acolhe-me em teu seio!Já cançada de encher languidas flôresCom as lagrimas frias,A noite vê surgir do oriente a auroraDourando as serranias.Azas batendo á luz que as trevas rompe,Piam nocturnas aves,E a floresta interrompe alegrementeOs seus silencios graves.Dentro de mim, a noite escura e friaMelancolica chora;Rompe estas sombras que o meu ser povoam;Musa, sê tu a aurora!

Vês, querida, o horizonte ardendo em chammas?Além d'esses outeirosVai descambando o sol, e á terra enviaOs raios derradeiros;A tarde, como noiva que enrubece,Traz no rosto um véu molle e transparente;No fundo azul a estrella do poenteJá timida apparece.Como um bafo suavissimo da noite,Vem sussurrando o ventoAs arvores agita e imprime ás folhasO beijo somnolento.A flôr ageita o calix: cedo esperaO orvalho, e emtanto exhala o doce aroma;Do leito do oriente a noite assomaComo uma sombra austera.Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,Vem, minha flôr querida;Vem contemplar o céu, pagina santaQue amor a ler convida;Da tua solidão rompe as cadeias;Desce do teu sombrio e mudo asylo;Encontrarás aqui o amor tranquillo.....Que esperas? que receias?Olha o templo de Deus, pomposo e grande;Lá do horizonte oppostoA lua, como lampada, já surgeA alumiar teu rosto;Os cirios vão arder no altar sagrado,Estrellinhas do céu que um anjo acende;Olha como de balsamos rescendeA c'rôa do noivado.Irão buscar-te em meio do caminhoAs minhas esperanças;E voltarão comtigo, entrelaçadasNas tuas longas tranças;No emtanto eu preparei teu leito á sombraDo limoeiro em flôr; colhi contenteFolhas com que alastrei o solo ardenteDe verde e molle alfombra.Pelas ondas do tempo arrebatados,Até á morte iremos,Soltos ao longo do baixel da vidaOs esquecidos remos.Firmes, entre o fragor da tempestade,Gosaremos o bem que amor encerra;Passaremos assim do sol da terraAo sol da eternidade.

Quando, comtigo a sós, as mãos unidas,Tu, pensativa e muda; e eu, namorado,Ás volupias do amor a alma entregando,Deixo correr as horas fugidias;Ou quando ás solidões de umbrosa selvaComigo te arrebato; ou quando escuto—Tão só eu,—teus ternissimos suspiros;E de meus labios soltoEternas juras de constancia eterna;Ou quando, emfim, tua adorada fronteNos meus joelhos tremulos descansa,E eu suspendo meus olhos em teus olhos,Como ás folhas da rosa avida abelha;Ai, quanta vez então dentro em meu peitoVago terror penetra, como um raio!Empallideço, tremo;E no seio da gloria em que me exalto,Lagrimas verto que a minha alma assombram!Tu, carinhosa e tremula,Nos teus braços me cinges,—e assustada,Interrogando em vão, comigo choras!«Que dôr secreta o coração te opprime?»Dizes tu, «Vem, confia os teus pesares....«Falla! eu abrandarei as penas tuas!«Falla! eu consolarei tua alma afflicta!»Vida do meu viver, não me interrogues!Quando enlaçado em teus niveos braçosA confissão de amor te ouço, e levantoLanguidos olhos para ver teu rosto,Mais ditoso mortal o céu não cobre!Se eu tremo, é porque n'essas esquecidasAfortunadas horas,Não sei que voz do enleio me desperta,E me persegue e lembraQue a ventura co' o tempo se esvaece,E o nosso amor é facho que se extingue!De um lance, espavorida,Minha alma vôa ás sombras do futuro,E eu penso então: «Ventura que se acabaUm sonho vale apenas.»

Passou; viu a porta aberta.Entrou; queria rezar.A vela ardia no altar.A igreja estava deserta.Ajoelhou-se defrontePara fazer a oração;Curvou a pallida fronteE pôz os olhos no chão.Vinha tremula e sentida.Commettêra um erro. A cruzÉ a ancora da vida,A esperança, a força, a luz.Que rezou? Não sei. Benzeu-seRapidamente. AjustouO véu de rendas. Ergueu-seE á pia se encaminhou.Da vela benta que ardêra,Como tranquillo fanal,Umas lagrimas de cêraCaíam no castiçal.Ella porém não vertiaUma lagrima sequer.Tinha a fé,—a chamma a arder,—Chorar é que não podia.

Teus olhos são meus livros.Que livro ha ahi melhor,Em que melhor se leiaA pagina do amor?Flôres me são, teus labios.Onde ha mais bella flôr,Em que melhor se bebaO balsamo do amor?

Je veux changer mes pensées en oiseaux.

Je veux changer mes pensées en oiseaux.

C. MAROT.

Olha como, cortando os leves ares,Passam do valle ao monte as andorinhas;Vão pousar na verdura dos palmares,Que, á tarde, cobre transparente véu;Voam tambem como essas avezinhasMeus sombrios, meus tristes pensamentos;Zombam da furia dos contrarios ventos,Fogem da terra, acercam-se do céu.Porque o céu é tambem aquella estanciaOnde respira a doce creatura,Filha de nosso amor, sonho da infancia,Pensamento dos dias juvenis.Lá, como esquiva flôr, formosa e pura,Vives tu escondida entre a folhagem,Ó rainha do ermo, ó fresca imagemDos meus sonhos de amor calmo e feliz!Vão para aquella estancia, enamorados,Os pensamentos de minh'alma anciosa;Vão contar-lhe os meus dias mal gozadosE estas noites de lagrimas e dôr;Na tua fronte pousarão, mimosa,Como as aves no cimo da palmeira;Dizendo aos écos a canção primeiraDe um livro escripto pela mão do amor.Dirão tambem como conservo aindaNo fundo de minh'alma essa lembrançaDa tua imagen vaporosa e linda,Unico alento que me prende aqui.E dirão mais que estrellas de esperançaEnchem a escuridão das noites minhas.Como sobem ao monte as andorinhas,Meus pensamentos voam para ti.

Existe uma flôr que encerraCeleste orvalho e perfume.Plantou-a em fecunda terraMão benefica de um nume.Um verme asqueroso e feio,Gerado em lodo mortal,Busca esta flôr virginalE vai dormir-lhe no seio.Morde, sangra, rasga e mina,Suga-lhe a vida e o alento;A flôr o calix inclina;As folhas, leva-as o vento,Depois, nem resta o perfumeNos ares da solidão...Esta flôr é o coração,Aquelle verme o ciume.

... juntamente choro e rio.

... juntamente choro e rio.

CAMÕES

Il est un vieux pays, plein d'ombre et de lumière,Où l'on rêve le jour, où l'on pleure le soir;Un pays de blasphème, autant que de prière,Né pour le doute et pour l'espoir.On n'y voit point de fleurs sans un ver qui les ronge,Point de mer sans tempête, ou de soleil sans nuit;Le bonheur y paraît quelquefois dans un songeEntre les bras du sombre ennui.L'amour y va souvent, mais c'est tout un délire,Un désespoir sans fin, une énigme sans mot;Parfois il rit gaîment, mais de cet affreux rireQui n'est peut-être qu'un sanglot.On va dans ce pays de misère et d'ivresse,Mais on le voit à peine, on en sort, on a peur;Je l'habite pourtant, j'y passe ma jeunesse....Hélas! ce pays, c'est mon cœur.

É noite medonha e escura,Muda como o passamentoUma só no firmamentoTremula estrella fulgura.Falla aos écos da espessuraA chorosa harpa do vento,E n'um canto somnolentoEntre as arvores murmura.Noite que assombra a memoria,Noite que os medos convida,Erma, triste, merencoria.No entanto... minh'alma olvidaDôr que se transforma em gloria,Morte que se rompe em vida.

Taça d'agua parece o lago ameno;Tem os bambús a fórma de cabanas,Que as arvores em flôr, mais altas, cobremCom verdejantes tectos.As ponteagudas rochas entre flôres,Dos pagodes o grave aspecto ostentam...Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,Cópia servil dos homens.

Cantigas modulei ao som da flauta,Da minha flauta d'ebano;N'ellas minh'alma segredava á tuaFundas, sentidas mágoas.Cerraste-me os ouvidos. NamoradosVersos compuz de jubilo,Por celebrar teu nome, as graças tuas,Levar teu nome aos seculos.Olhaste, e meneando a airosa frente,Com tuas mãos purissimas,Folhas em que escrevi meus pobres versosLançaste ás ondas tremulas.Busquei então por encantar tu'almaUma saphira esplendida,Fui depôl-a a teus pés... tu descerrasteDa tua boca as perolas.

Olha. O Filho do Céu, em throno de ouro,E adornado com ricas pedrarias,Os mandarins escuta:—um sol pareceDe estrellas rodeado.Os mandarins discutem gravementeCousas muito mais graves. E elle? Foge-lheO pensamento inquieto e distrahidoPela janella aberta.Além, no pavilhão de porcellana,Entre donas gentis está sentadaA imperatriz, qual flôr radiante e puraEntre viçosas folhas.Pensa no amado esposo, arde por vêl-o,Prolonga-se-lhe a ausencia, agita o leque...Do imperador ao rosto um sopro chegaDe rescendente briza.«Vem della este perfume,» diz, e abrindoCaminho ao pavilhão da amada esposa,Deixa na sala olhando-se em silencioOs mandarins pasmados.

Na perfumada alcova a esposa estava,Noiva ainda na vespera. FaziaCalor intenso; a pobre moça ardia,Com fino leque as faces refrescava.Ora, no leque em boa lettra feitoHavia este conceito:«Quando, immovel o vento e o ar pesado,«Arder o intenso estio,«Serei por mão amiga ambicionado;«Mas volte o tempo frio,«Ver-me-heis a um canto logo abandonado.»Lê a esposa este aviso, e o pensamentoVolve ao joven marido.«Arde-lhe o coração n'este momento«(Diz ella) e vem buscar enternecido«Brandas auras de amor. Quando mais tarde«Tornar-se em cinza fria«O fogo que hoje lhe arde,«Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»

Amo aquella formosa e terna moçaQue, á janella encostada, arfa e suspira;Não porque tem do largo rio á margemCasa faustosa e bella.Amo-a, porque deixou das mãos mimosasVerde folha cair nas mansas aguas.Amo a briza de léste que sussurra,Não porque traz nas azas delicadasO perfume dos verdes pecegueirosDa oriental montanha.Amo-a porque impelliu co'as tenues azasAo meu batel a abandonada folha.Se amo a mimosa folha aqui trazida,Não é porque me lembre á alma e aos olhosA renascente, a amavel primavera,Pompa e vigor dos valles.Amo a folha por ver-lhe um nome escripto,Escripto, sim, por ella, e esse... é meu nome.

Vi os pinheiros no alto da montanhaOuriçados e velhos;E ao sopé da montanha, abrindo as flôresOs calices vermelhos.Contemplando os pinheiros da montanha,As flôres tresloucadasZombam d'elles enchendo o espaço em tornoDe alegres gargalhadas.Quando o outono voltou, vi na montanhaOs meus pinheiros vivos,Brancos de neve, e meneiando ao ventoOs galhos pensativos.Volvi o olhar ao sitio onde escutáraOs risos mofadores;Procurei-as em vão; tinham morridoAs zombeteiras flôres.

Vou rio abaixo vogandoNo meu batel e ao luar;Nas claras aguas fitando,Fitando o olhar.Das aguas vejo no fundo,Como por um branco véu,Intenso, calmo, profundo,O azul do céu.Nuvem que no céu fluctua,Fluctua n'agua tambem;Se a lua cobre, á outra luaCobril-a vem.Da amante que me extasia,Assim, na ardente paixão,As raras graças copiaMeu coração.

No arvoredo sussurra o vendaval do outono,Deita as folhas á terra, onde não ha florirE eu contemplo sem pena esse triste abandono;Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cahir.Como a escura montanha, esguia e pavorosaFaz, quando o sol descamba, o valle ennoitecer,A montanha da alma, a tristeza amorosa,Tambem de ignota sombra enche todo o meu ser.Transforma o frio inverno a agua em pedra dura,Mas torna a pedra em agua um raio de verão;Vem, ó sol, vem, assume o throno teu na altura,Vê se pódes fundir meu triste coração.

PERSONAGENS

LYSIAS.CLEON.MYRTO.TRES ESCRAVOS.

A scena é em Somos.

Sala de festim em casa de Lysias. A esquerda a mesa do festim; á direita uma mesa tendo em cima uma lampada apagada, e junto da lampada um rolo de papyro.

SCENA I

LYSIAS, CLEON, MYRTO.

(Estão no fim de um banquete, os dous homens deitados á maneira antiga, Myrto sentada entre os dous leitos. Tres escravos.)

LYSIAS.

Melancolica estás, bella Myrto. Bebamos!Aos prazeres!

CLEON.

Eu bebo á memoria de Samos.Samos vai terminar os seus dourados dias;Adeus, terra em que achei consolo ás agonaisDa minha mocidade; adeus, Samos, adeus!

MYRTO.

Querem-lhe os deuses mal?

CLEON.

Não; dous olhos, os teus.

LYSIAS.

Bravo, Cleon!

MYRTO.

Poeta! os meus olhos?

CLEON.

São lumesCapazes de abrasar até os proprios numes.Samos é nova Troya, e tu és outra Helena,Quando Lesbos, a mão do Sappho, a ilha amena,Não vir a bella Myrto, a alegre cortezã,Armar-se-ha contra nós.

LYSIAS.

Lesbos é boa irmã.

MYRTO.

Outras bellezas tem, dignas da loura Venus.

CLEON.

Menos digna de tu.

MYRTO.

Mais do que eu.

LYSIAS.

Muito menos.

CLEON.

Tens vergonha de ser formosa e festejada,Myrto? Venus não que beleza envergonhada.Pois que dos immortaes houveste esse condãoDe inspirar quantos vês, inspira-os, Myrto.

MYRTO.

Não;São teus olhos, poeta; eu não tenho a bellezaQue arrasta corações.

CLEON.

Divina singeleza!

LYSIAS (á parte).

Vejo através do manto as galas da vaidade.

(Alto.)

Vinho, escravo!

(O escravo deita vinho na taça de Lysias.)

Poeta, um brinde á mocidade.Trava de lyra e invoca o deus inspirador.

CLEON.

«Feliz em junto de ti, ouve a tua falla, amor!»

MYRTO.

Versos de Sapho!

CLEON.

Sim.

LYSIAS.

Vês? ó modestia pura.Elle é na poesia o que és na formosura.Faz versos de primor e esconde-os ao profano:Tem vergonha. Eu não sei se o vicio é lesbiano...

MYRTO.

Ah! tu és...

CLEON.

Lesbos foi minha patria tambem,Lesbos, a flôr do Egeo.

MYRTO.

Já não é?

CLEON.

Lesbos temTudo o que me fascina e tudo o que me mata:As festas do prazer e os olhos de uma ingrata.Fugi da patria e achei, já curado e tranquillo,Em Lysias um irmão, em Samos um asylo.Bem hajas tu que vens encher-me o coração!

LYSIAS.

Insaciavel! Não tens em Lysias um irmão?

MYRTRO.

Volto á patria.

CLEON.

Pois que! tu vais?

MYRTO.

Em poucos dias...

LYSIAS.

Fazes mal; tens aqui os moços e as folias,O gozo, a adoração; que te falta?

MYRTO.

Os meus ares.

CLEON.

A que vieste então?

MYRTO.

Successos singulares.Vim por acompanhar Lysicles, mercadorDe Naxos; tanto póde a constancia no amor!Corrêmos todo o Egeo e a costa ionia; fomosComprar o vinho a Creta e a Tenodos os pomos.Ah! como é doce o amor na solidão das aguas!Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhe as mágoas.Zephyro ouviu por certo os osculos febris,Os jubilos do affecto, as fallas juvenis;Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governaA indiscreta ventura, a effusão doce e terna.Para a furia acalmar da sombria deidade,Nave e bens varreu tudo a horrivel tempestade.Foi assim que eu perdi a Lysicles, assimQue eu semi-morta e fria á tua plaga vim.

CLEON.

Ó coitada!

LYSIAS.

O infortunio os animos apura;As feridas que faz o mesmo Amor as cura;Brandem armas iguaes Achilles e Cupido.Queres ver n'outro amor o teu amor perdido?Samos o tem de sobra.

CLEON.

Eu, Myrto, eu sei amar;Não fio o coração da inconstancia do mar.Não tenho galeões rompendo o seio a Thetys,Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Lethes.Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte;Pódes doar-me a vida ou decretar-me a morte.

MYRTO.

Mas, se eu volto...

CLEON.

Pois bem! aonde quer que te vásIrei comtigo; a deusa indomita e fallazSer-me-ha hospede amiga; ao pé de ti a escuraNoite parece aurora, e é berço a sepultura.

MYRTO.

Quando falla o dever, a vontade obedece;Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco e esquece.

LYSIAS.

Tens razão, bella Myrto; escuta o teu dever.

CLEON.

Ai! é facil amar, difficil esquecer.

LYSIAS (a Myrto).

Queres pôr termo á festa? Um brinde a Venus, filhaDa mar azul, belleza, encanto, maravilha;Nascida para ser perpetuamente amada.A Venus!

(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com agua perfumada em que os convivas lavaram as mãos; os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)

Queres tu, mimosa naufragada,Ouvir de hermonia serva, em lyra de marfim,Uma alegre canção? Preferes o jardim?O portico talvez?

MYRTO.

Lysias, sou indiscreta;Quizera antes ouvir a voz do teu poeta.

LYSIAS.

Nume não pede, impõe.

CLEON.

O mando é lisongeiro.

LYSIAS.

Pois começa.

SCENA II

OS MESMOS, UM ESCRAVO.

ESCRAVO.

Procura a Myrto um mensageiro.

MYRTO.

Um mensageiro! a mim!

LYSIAS.

Mando-o entrar.

ESCRAVO.

Não quer.

LYSIAS.

Vai, Myrto.

MYRTO (saindo).

Volto já. (Sae o escravo).

SCENA III

LYSIAS, CLEON.

CLEON.

(Olhando para o lugar por onde Myrto saiu.)

Oh! deuses! que mulher!

LYSIAS.

Ah! que perola rara!

CLEON.

Onde a encontraste?

LYSIAS.

Achei-aCom Parthenis que dava uma esplendida ceia;Parthenis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da moda,Sabes que vê fugir-lhe a enfastiada roda;E, para não perder o grupo adorador,Fez do templo deserto uma escola de amor.Foi ella quem achou a naufraga perdida,Exposta ao vento e ao mar, quasi a expirar-lhe a vida.A belleza pagava o emprego de uma esmola;Dentro em pouco era Myrto a flôr de toda a escola.

CLEON.

Lembrou-te convidal-a então para um festim?

LYSIAS.

Foi um pouco por ella e um pouco mais por mim.

CLEON.

Tambem amas?

LYSIAS.

Eu? não. Quis ter á minha mesaVenus e o louro Apollo, a poesia e a belleza.

CLEON.

Oh! a belleza, sim! Viste já tanta graça,Tão celestes feições?

LYSIAS.

Cuidado! Aquella caçaZomba dos tiros vãos de ingenuo caçador!

CLEON.

Incredulo!

LYSIAS.

Eu sou mestre em materia de amor.Se tu, attento e calmo, a narração lhe ouvissesConhecêras melhor o engenho d'esta Ulysses.Aquelle ardente amor a Lysicles, aquelleFundo e intenso pesar que á sua patria a impelle,Armas são com que a astuta os animos seduz.

CLEON.

Oh! não creio.

LYSIAS.

Porque?

CLEON.

Não vês como lhe luzTanta expressão sincera em seus olhos divinos?

LYSIAS.

Sim, tem muita expressão... para illudir meninos.

CLEON.

Pois tu não crês?

LYSIAS.

Em que? No naufragio? De certo.Em Lysicles? Talvez. No amor? é mais incerto.Na intenção de voltar a Lesbos? isso não!Sabes o que ela quer? Prender um coração.

CLEON.

Impossivel!

LYSIAS.

Poeta! estás na alegre idadeEm que a sciencia da vida é a credulidade.Vês tudo azul e em flôr; eu já me não illudo.Pois amar cortezãs! isso demanda estudo,Não vai assim, que as tais abelhitas do amorCorrem de bolsa em bolsa e não de flôr em flôr.

CLEON.

Mas não as amas tu?

LYSIAS.

De certo... á minha moda;Meu grande coração co'os vicios se acommoda;Sacrificios de amor não sonha nem procura;Não lhes pede illusões, pede-lhes só ternura.Não me empenho em achar alma ungida no céu:Se é crime este sentir, confesso-me, sou réu.Não peço amor ao vinho; irei pedil-o ás damas?D'ellas e d'elle exijo apenas estas chammasQue ardem sem consumir, na pyra dos desejos.Assim é que eu estimo as amphoras e os beijos.Lá protestos de amor, eternos e leaes,Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortaesSomos todos assim.

CLEON.

Ai, os mortaes! dize antesOs philosophos máos, ridiculos pedantes,Os que não sabem crer, os fartos já de amores,Esses, sim. Os mortaes!

LYSIAS.

Refreia os teus furores,Poeta; eu não quizera amargurar-te, e enfimNão podia suppôr que a amasse tanto assim.Caspité! Vais depressa!

CLEON.

Ai, Lysias, é verdade,Amo-a como não amo a vida e a mocidade;De que modo nasceu esta affeição que encerraTodo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terraPor que é mais bella ao sol e ás auras matinaes?Amores estes são terriveis e fataes.


Back to IndexNext