LYSIAS.
Vês com olhos do céu cousas que são do mundo;Acreditas achar esse affecto profundo,N'estas filhas do mal! Se a todo o transe queresObter a casta flôr dos celicos prazeres,Deixa a alegre Corintho e todo o luxo seu;Outro porto acharás: procura o gyneceo.Escolhe aquelle amor doce, innocente e puro,Que inda não tem passado e vive no futuro.Para mim, já t'o disse, o caso é differente;Não me importa um nem outro; eu vivo no presente.
CLEON.
Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal:Viver, sem illusões, no bem como no mal;Não conhecer o amor que morde, que se nutreDo nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre;Não beber gotta a gotta este brando venenoQue requeima e destróe; não ver em mar serenoSubitamente erguer-se a voz dos aquilões.Afortunado és tu.
LYSIAS.
Lei de compensações!Sou philosopho mau, ridiculo pedante,Mas inveja-me a sorte; oh! logica de amante.
CLEON.
É a do coração.
LYSIAS.
Terrível mestre!
CLEON.
EnsinaDos seres immortaes a transfusão divina!
LYSIAS.
A lição é profunda e escapa ao meu saber;Outra escola professo, a escola do prazer!
CLEON.
Tu não tens coração.
LYSIAS.
Tenho, mas não me illudo.É Circe que perdeu o encanto e a juventude.
CLEON.
Velho Satyro!
LYSIAS.
Justo: um semi-deus sylvestre.N'estas cousas do amor nunca tive outro mestre.Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir.Tres artigos da lei: gozar, beber, dormir.
CLEON.
Compras com isso a paz; a mim coube-me o tedio,A solidão e a dôr.
LYSIAS.
Queres um bom remedio,Um filtro da Thessalia, um balsamo infallivel?Esquece emprezas vãs, não tentes o impossivelPrende o teu coração nos laços de Hymenêo;Casa-te; encontrarás o amor no gynecêo.Mas cortezãs! jámais! São Gorgones! Medusas!
CLEON.
Essas que conheceste e tão severo accusas—Pobres moças!—não são o universal modelo:De outras sei a quem coube um coração singelo,Que preferem a tudo a gloria singularDe conhecer somente a sciencia de amar;Capazes de sentir o ardor da intensa chammaQue eleva, que resgata a vida que as infama.
LYSIAS.
Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-t'o.
CLEON.
Basta um passo, achal-o-hei.
LYSIAS.
Bravo! chama-se?
CLEON.
Myrto,Que póde conquistar até o amor de um deus!
LYSIAS.
Crês n'isso?
CLEON.
Porque não?
LYSIAS.
Tu és um nescio; adeus!
SCENA IV
CLEON.
Vai, sceptico! tu tens o vicio da riqueza:Farto, não crês na fome... A minha singelezaFaz-te rir: tu não vês o amor que absorve e mata;Myrto, vinga-me tu da calumnia insensata;Amemo-nos. É ella!
SCENA V
CLEON, MYRTO
MYRTO.
Estás triste!
CLEON.
Oh! que não!Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...
MYRTO.
A visão vai partir.
CLEON.
Mas muito tarde...
MYRTO.
Breve.
CLEON.
Quem te chama?
MYRTO.
O destino. E sabes quem me escreve?
CLEON.
Tua mãe.
MYRTO.
Já morreu.
CLEON.
Algum antigo amante?
MYRTO.
Lysicles.
CLEON.
Vive?
MYRTO.
Sim. Depois de andar erranteN'uma taboa, á mercê das ondas, quiz o céuQue viesse encontral-o um barco do Pyreu.Pobre Lysicles! teve em tão cruenta lidaA dôr da minha morte e a dôr da propria vida.Em vão interrogava o mar cioso e mudo.Perdêra, de uma vez, n'uma só noite, tudo,A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais:Naufragárão com ele os poucos cabedaes.Entrou em Samos pobre, inquieto, semi-morto,Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto,Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a aventuraDa malfadada Myrto.
CLEON.
É isso, a sorte escuraVoltou-se contra mim; não consente, não querQue eu me farte de amor no amor de uma mulher.Vejo em cada paixão o fado que me opprime;O amar é já soffrer a pena do meu crime,Ixion foi mais audaz amando a deusa augusta;Transpôz o obscuro lago e soffre a pena justa,Mas eu não. Antes de ir ás regiões infernaesSão as graças commigo Eumenides fataes!
MYRTO.
Caprichos de poeta! Amor não falta ás damas;Damas, tem-las aqui; inspira-lhe essas chammas.
CLEON.
Impõe-se leis ao mar? O coração é isto;Ama o que lhe convem; convem amar a EgisthoClytemnestra; convem a Cyntia Endymião;É caprichoso e livre o mar do coração;De outras sei que eu houvera em meus versos cantado;Não lhes quero... não posso.
MYRTO.
Ai, triste enamorado!
CLEON.
E tu zombas de mim!
MYRTO.
Eu zombar? Não; lamentoA tua acerba dôr, o teu fatal tormento.Não conheço eu tambem esse cruel penar?Só dous remedios tens; esquecer, esperar.De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança;Contenta-se ao nascer co' as auras da esperança;Vive da propria mágoa; a propria dôr o alenta.
CLEON.
Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!
MYRTO.
Não sabes esperar? Então cumpre esquecer.Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.
CLEON.
O prazer que a fulmina, e a dôr que a fortalece?
MYRTO.
Tens na ausencia e no tempo os velhos pais do olvido,O bem não alcançado é como o bem perdido,Pouco a pouco se esvai na mente e coração;Põe o mar entre nós... dissipa-se a illusão.
CLEON.
Impossivel!
MYRTO.
Então espera; algumas vezesA fortuna transforma em glorias os reveses.
CLEON.
Myrto, valem bem pouco as glorias já tardias.
MYRTO.
Um só dia de amor compensa estereis dias.
CLEON.
Compensará, mas quando? A mocidade em flôrBem cedo morre, e é essa a que convem a amor.Vejo cair no occaso o sol da minha vida.
MYRTO.
Cabeça de poeta, exaltada e perdida!Pensas estar no occaso o sol que mal desponta?
CLEON.
A clepsydra do amor não conta as horas, contaAs illusões; velhice é perdêl-as assim;Breve a noite abrirá seus véus por sobre mim.
MYRTO.
Não has de envelhecer; as illusões comtigoFlôres são que respeita Eolo brando e amigo.Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.
CLEON.
Se eu a Lesbos não vou.
MYRTO.
Podem colher-se em Samos.
CLEON.
Voltas breve?
MYRTO.
Não sei.
CLEON.
Oh! sim, deves voltar!
MYRTO.
Tenho medo.
CLEON.
De quê?
MYRTO.
Tenho medo... do mar.
CLEON.
Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica.Lesbos é para ti mais formosa e mais rica.Mas a patria é o amor; o amor transmuda os ares.Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares.Da importuna memoria o teu passado exclue;Vida nova nos chama, outro céu nos influe.Fica; eu disfarçarei com rosas este exilio;A vida é um sonho máu: façamo-la um idylio.Cantarei a teus pés a nossa mocidade.A belleza que impõe, o amor que persuade,Venus que faz arder o fogo da paixão,Teu olhar, doce luz que vem do coração.Pericles não amou com tanto ardor a Aspasia,Nem esse que morreu entre as pompas da Asia,A Lais siciliana. Aqui as Horas bellasTecerão para ti vivissimas capellas.Nem morrerás; teu nome em meus versos ha de ir,Vencendo o tempo e a morte, aos seculos porvir.
MYRTO.
Tanto me queres tu!
CLEON.
Imensamente. AnseioPor sentir, bella Myrto, arfar teu brando seio,Bater teu coração, tremer teu labio puro,Todo viver de ti.
MYRTO.
Confia no futuro.
CLEON.
Tão longe!
MYRTO.
Não, bem perto.
CLEON.
Ah! que dizes?
MYRTO
Adeus!
(Passa junto da mesa da direita e vê o rolo de papyro.)
Curiosa que sou!
CLEON.
São versos.
MYRTO.
Versos teus?
(Lysias aparece ao fundo.)
CLEON.
De Anacreonte, o velho, o amavel, o divino.
MYRTO.
A musa é toda ionia, e o verso é peregrino.
(Abre o papyro e lê)
«Fez-se Niobe em pedra e Philomena em passaro.[5]«Assim«Folgaria eu tambem me transformasse Jupiter«A mim.«Quisera ser o espelho em que o teu rosto magico«Sorri;«A tunica feliz que sempre se está proxima«De ti;«O banho de crystal que esse teu corpo candido«Contém;«O aroma de teu uso e d'onde effluvios magicos«Provêm;«Depois esse listão que de teu seio turgido«Faz dous;«Depois do teu pescoço o rosicler de perolas;«Depois...«Depois ao ver-te assim, unica e tão sem emulas«Qual és,«Até quisera ser teu calçado, e pisassem-me«Teus pés.»
Que magnificos são!
CLEON.
Minha alma assim te falla.
MYRTO
Attendendo ao poeta eu pensava escutal-a.
CLEON.
Eco do meu sentir foi o velho amador;Tais os desejos são do meu profundo amor.Sim, eu quizera ser tudo isto—o espelho, o banho,O calçado, o collar... Desejo acaso extranho,Louca ambição talvez de poeta exaltado...
MYRTO.
Tanto sentes por mim?
SCENA VI
CLEON, MYRTO, LYSIAS
LYSIAS (entrando.)
Amor, nunca sonhado.Se a musa d'elle és tu!
CLEON.
Lysias!
MYRTO.
Ouviste?
LYSIAS.
Ouvi.Versos que Anacreonte houvera feito a ti,Se vivesses no tempo em que, pulsando a lyra,Estas odes compôz que a velha Grecia admira.
(A Cleon.)
Quer fallar-te um sujeito, um Clinias, um colega,Ex-mercador, como eu.
MYRTO.
Ai, que importuno!
LYSIAS.
AllegaQue não póde esperar, que isto não póde ser,Que um processo... A final não n'o pude entender.Pode ser que comtigo o homem se accommode.Prometeste talvez compor-lhe alguma ode?
CLEON.
Não. Adeus, bella Myrto; espera-me um instante.
MYRTO.
Não tardes!
LYSIAS (á parte.)
Indiscreta!
CLEON.
Espera.
LYSIAS (á parte.)
Petulante!
SCENA VII
MYRTO, LISIAS.
MYRTO.
Sou curiosa. Quem é Clinias, ex-mercador?Amigo d'elle?
LYSIAS.
Mais do que isso; é um credor.
MYRTO.
Ah!
LYSIAS.
Que bello rapaz! que alma fogosa e pura,Bem digna de aspirar-te um hausto de ventura!Queira o céu pôr-lhe termo á profunda agonia,Surja emfim para elle o sol de um novo dia.Merece-o. Mas vê lá se ha destino peior:Quer o alado Mercurio obstar o alado Amor.Com beijos não se paga a pompa do vestido,O expetaculo e a mesa; e se o gentil CupidoGosta de ouvir canções, o outro não vai com ellas;Vale uma drachma só vinte odezinhas bellas.Um poema não compra um simples borzeguim.Versos! são bons de ler, mais nada; eu penso assim.
MYRTO.
Pensas mal! A poesia é sempre um dom celeste;Quando o genio o possue quem ha que o não requeste?Hermes, com ser o deus dos graves mercadores,Tocou lyra tambem.
LYSIAS.
Já sei que estás de amores.
MYRTO.
Que esperança! Bem vês que eu já não posso amar.
LYSIAS.
Perdeste o coração?
MYRTO.
Sim; perdi-o no mar.
LYSIAS.
Pesquemol-o; talvez essa perola finaVenha ornar-me a existencia agourada e mofina.
MYRTO.
Mofina?
LYSIAS.
Pois então? Enfarão-me estas bellasDa terra samiana; assaz vivi por elas.Outras desejo amar, filhas do azul Egeo.Varia de feições o Amor, como Protheo.
MYRTO.
Seu carater melhor foi sempre o ser constante.
LYSIAS.
Serei menos fiel, não sou menos amante.Cada belleza em si toda a paixão resume.Pouco me importa a flôr; importa-me o perfume.
MYRTO.
Mas quem quer o perfume afaga um pouco a flôr;Nem fere o objecto amado a mão que implora o amor.
LYSIAS.
Offendo-te com isto? Esquece a minha ofensa.
MYRTO.
Já esqueci; passou.
LYSIAS.
Quem falla como pensaArrisca-se a perder ou por sobra ou por mingoa.Eu confesso o meu mal; não sei tentear a lingua.Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tensA graça das feições, o summo bem dos bens;Moça, trazes na fronte o doce beijo de HebeComo um philtro de amor que, sem sentir, se bebe,De teus olhos destilla a eterna juventude;De teus olhos que um deus, por lhes dar mais virtude,Fez azues como o céu, profundos como o mar.Quem taes dotes reune, ó Myrto, deve amar.
MYRTO.
Fallas como um poeta, e zombas da poesia!
LYSIAS.
Eu, poeta? jámais.
MYRTO.
A tua fantasiaRespirou certamente o ar do monte Hymmeto.Tem a expressão tão doce!
LYSIAS.
É a expressão do affecto.Sou em cousas de Apollo um simples amador.A minha grande musa é Venus, mãe do amor.No mais não apprendi (os fados meus adversosVedárão-m'o!) a cantar bons e sentidos versos.Cleon, esse é que sabe accender tantas almas,Conquistar de um só lance os corações e as palmas.
MYRTO.
Conquistar, oh! que não!
LYSIAS.
Mas agradar?
MYRTO.
Talvez.
LYSIAS.
Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fezFal-o-ei jamais? Contudo, inda tental-o quero;Se não me inspira a musa, alma filha de Homero,Inspira-me o desejo, a musa que delira,E o seu canto concerta aos sons da eterna lyra.
MYRTO.
Tambem desejas ser alguma coisa?
LYSIAS.
Não;Eu caso o meu amor ás regras da razão.Cleon quizera ser o espelho em que teu rostoSorri; eu, bela Myrto, eu tenho melhor gosto.Ser espelho! ser banho! e tunica! tolice!Esteril ambição! loucura! criancice!Por Venus! sei melhor o que a mim me convem.Homem sisudo e grave outros desejos tem.Fiz, a este respeito, aprofundado estudo;Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo.Escolhe o mais perfeito espelho de aço fino,A tunica melhor de pano tarentino,Vasos de oleo, um colar de perolas,—enfimQuanto enfeita uma dama aceital-o-has de mim.Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa;Para os dedos o annel de pedra preciosa;A tua fronte pede aureo, rico anadema;Têl-o-has, divina Myrto. É este o meu poema.
MYRTO.
É lindo!
LYSIAS.
Queres tu, outras estrophes mais?Dar-t'as-hei quais as teve a celebrada Lais.Casa, rico jardim, servas de toda a parte;E estatuas e paineis, e quantas obras d'artePodem servir de ornato ao templo da belleza,Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riquezaTu ha de faltar, mimosa, e só quero um penhor.Quero... quero-te a ti.
MYRTO.
Pois que! já quer a flôr,Quem desdenhando a flôr, só lhe pede o perfume?
LYSIAS.
Esqueceste o perdão?
MYRTO.
Ficou-me este azedume.
LYSIAS.
Venus póde apagal-o.
MYRTO.
Eu sei, creio e não creio.
LYSIAS.
Hesitar é ceder: agrada-me o receio.Em assumpto de amor, vontade que fluctuaEstá prestes a entregar-se. Entregas-te?
MYRTO.
Sou tua!
SCENA VIII
LYSIAS, MYRTO, CLEON.
CLEON.
Demorei-me demais?
LYSIAS.
Apenas o bastantePara que fosse ouvido um coração amante.A Lesbiana é minha.
CLEON.
És d'elle, Myrto!
MYRTO.
Sim;Eu ainda hesitava; ele fallou por mim.
CLEON.
Quantos amores tens, filha do mal?
LYSIAS.
Presinto.Uma lamentação inutil. «A CorinthoNão vai quem quer,» lá diz aquelle velho adagio.Navegavas sem leme; era certo o naufragio.Não me viste sulcar as mesmas aguas?
CLEON.
Vi,Mas contava com ella, e confiava em ti.Mais duas illusões! Que importa? Inda são poucas;Desfação-se uma a uma estas chimeras loucas.Ó arvore bemdita, ó minha juventude,Vão-te as flôres caindo ao vento aspero e rude!Não vos maldigo, não; eu não maldigo o marQuando a nave sossobra; o erro é confiar.Adeus, formosa Myrto; adeus, Lysias; não queroPerturbar vosso amor, eu que já nada espero;Eu que vou arrancar as profundas raizesDesta paixão funesta; adeus, sede felizes!
LYSIAS.
Adeus! Saudemos nós a Vénus e a Lyeo.
AMBOS.
Io Pœan!ó Baccho! Himenêo! Himenêo!
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, neles reconnait pas et pleure sa patrie.Ainsi l'homme dans le bonheur possédéne reconnait pas son rêve et soupire.
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, neles reconnait pas et pleure sa patrie.Ainsi l'homme dans le bonheur possédéne reconnait pas son rêve et soupire.
DANIEL STERN.
Quando, leitora amiga, no occidenteSurge a tarde esmaiada e pensativa;E entre a verde folhagem rescendenteLanguida geme viração lasciva;E já das tenues sombras do orienteVem apontando a noite, e acasta divaSubindo lentamente pelo espaço,Do céu, da terra observa o estreito abraço;
N'essa hora de amor e de tristeza,Se acaso não amaste e acaso esperasVer coroar-te a juvenil bellezaCasto sonho das tuas primaveras;Não sentes escapar tua alma acesaPara voar ás lucidas espheras?Não sentes n'essa mágoa e n'esse enleioVir morrer-te uma lagrima no seio?
Sêntel-o? Então entenderás Elvira,Que assentada á janella, erguendo o rosto,O vôo solta á alma que deliraE mergulha no azul de um céu de agosto;Entenderás então porque suspira,Victima já de um intimo desgosto,A meiga virgem, pallida e calada,Sonhadora, anciosa e namorada.
Mansão de riso e paz, mansão de amoresEra o valle. Espalhava a natureza,Com dadivosa mão, palmas e flôresDe agreste aroma e virginal belleza;Bosques sombrios de immortaes verdores,Asylo proprio á inspiração accesa,Valle de amor, aberto ás almas ternasN'este valle de lagrimas eternas.
A casa, junto á encosta de um outeiro,Alva pomba entre folhas parecia:Quando vinha a manhã, o olhar primeiroIa beijar-lhe a verde gelosia:Mais tarde a fresca sombra de um coqueiroDo sol quente a janella protegia;Pouco distante, abrindo o solo adusto,Um fio d'agua murmurava a custo.
Era uma joia a alcova em que sonhavaElvira, alma de amor. Tapete finoDe apurado lavor o chão forrava.De um lado oval espelho crystallinoPendia. Ao fundo, á sombra, se occultavaElegante, engraçado, pequeninoLeito em que, repousando a face bella,De amor sonhava a pallida donzella.
Não me censure o critico exigenteO ser pallida a moça; é meu costumeObedecer á lei de toda a genteQue uma obra compõe de algum volume.Ora, no nosso caso, é lei vigenteQue um descorado rosto o amor resume.Não tinha Miss Smolen outras côres;Não n'as possue quem sonha com amores.
Sobre uma mesa havia um livro aberto;Lamartine, o cantor aereo e vago,Que enche de amor um coração deserto;Tinha-o lido; era a pagina doLago.Amava-o; tinha-o sempre alli bem perto,Era-lhe o anjo bom, o deos, o orago;Chorava aos cantos da divina lyra....É que o grande poeta amava Elvira!
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,Com lagrimas de amor, os versos santos,Aquella eterna e languida harmoniaFormada com suspiros e com prantos;Quando escutava a musa da elegiaCantar de Elvira os magicos encantos,Entrava-lhe a voar a alma inquieta,E com o amor sonhava de um poeta.
Ai, o amor de um poeta! amor subido!Indelevel, purissimo, exaltado,Amor eternamente convencido,Que vai além de um tumulo fechado,E que, através dos seculos ouvido,O nome leva do objecto amado,Que faz de Laura um culto, e tem por sorteNegra fouce quebrar nas mãos da morte.
Fosse eu moça e bonita... N'este lanceSe o meu leitor é já homem sisudo,Fecha tranquillamente o meu romance,Que não serve a recreio nem a estudo;Não entendendo a força nem o alcanceDe semelhante amor, condemna tudo;Abre um volume serio, farto e enorme,Algumas folhas lê, boceja... e dorme.
Nada perdes, leitor, nem perdem nadaAs esquecidas musas; pouco importaQue tu, vulgar materia condemnada,Aches que um tal amor é lettra morta.Pódes, cedendo á opinião honrada,Fechar á minha Elvira a esquiva porta.Almas de prosa chã, quem vos dariaConhecer todo o amor que ha na poesia?
Ora, o tio de Elvira, o velho Antero,Erudito e philosopho profundo,Que sabia de cór o velho Homero,E compunha os annaes do Novo Mundo;Que escrevêra uma vida de Severo,Obra de grande tomo e de alto fundo;Que resumia em si a Grecia e Lacio,E n'um salão fallava como Horacio;
Disse uma noite á pallida sobrinha:«Elvira, sonhas tanto! devaneias!«Que andas a procurar, querida minha?«Que ambições, que desejos ou que idéas«Fazem gemer tua alma innocentinha?«De que esperança vã, meu anjo, anceias?«Teu coração de ardente amor suspira;«Que tens?—Eu nada,» respondia Elvira.
«Alguma cousa tens!» tornava o tio;«Porque olhas tu as nuvens do poente,«Vertendo ás vezes lagrimas a fio,«Magoada expressão d'alma doente?«Outras vezes, olhando a agua do rio,«Deixas correr o espirito indolente,«Como uma flôr que ao vento alli tombára,«E a onda murmurando arrebatára.»
«—Latet anguis ïn herba...» Neste instanteEntrou a tempo o chá... perdão, leitores,Eu bem sei que é preceito dominanteNão misturar comidas com amores;Mas eu não vi, nem sei se algum amanteVive de orvalho ou petalas de flôres;Namorados estomagos consomem;Comem Romeos, e Julietas comem.
Entrou a tempo o chá, e foi servil-o,Sem responder, a moça interrogada,C'um ar tão soberano e tão tranquilloQue o velho emmudeceu. Ceia acabada,Fez o escriptor o costumado chylo,Mas um chylo de especie pouco usada,Que consistia em ler um livro velho;N'essa noite acertou ser o Evangelho.
Abríra em S. Matheus, n'aquelle passoEm que o filho de Deus diz que a açucenaNão labora nem fia, e o tempo escassoVive, co' o ar e o sol, sem dôr nem pena;Leu e estendendo o já tremulo braçoA triste, á melancolica pequena,Apontou-lhe a passagem da EscripturaOnde lêra lição tão recta e pura.
«Vês? diz o velho, escusas de cansar-te;«Deixa em paz teu espirito, criança:«Se existe um coração que deva amar-te,«Ha de vir; vive só d'essa esperança.«As venturas do amor um deos reparte;«Queres têl-as? põe n'elle a confiança.«Não persigas com supplicas a sorte;«Tudo se espera; até se espera a morte!
«A doutrina da vida é esta: espera,«Confia, e colherás a anciada palma;«Oxalá que eu te apague essa chimera«Lá diz o bom Demophilo que á alma;«Como traz a andorinha a primavera,«A palavra do sabio traz a calma,«O sabio aqui sou eu. Ris-te, pequena?«Pois melhor; quero ver-te uma açucena!»
Paliava aquelle velho como fallaSobre côres um cego de nascença.Pear a juventude! Condemnal-aAo somno da ambição vivaz e intensa!Co' as leves azas da esperança ornal-aE não querer que rompa a esphera immensa!Não consentir que esta manhã de amoresEncha com frescas lagrimas as flôres
Mal o velho acabava e justamenteNa rija porta ouviu-se uma pancada.Quem seria? Uma serva diligente,Travando de uma luz, desceu a escada.Pouco depois rangia brandamenteA chave, e a porta aberta dava entradaA um rapaz embuçado que traziaUma carta, e ao doutor fallar pedia.
Entrou na sala, e lento, e gracioso,Descobriu-se e atirou a capa a um lado;Era um rosto poetico e viçosoPor soberbos cabellos coroado;Grave sem gesto algum pretencioso,Elegante sem ares de enfeitado;Nos labios frescos um sorriso amigo,Os olhos negros e o perfil antigo.
Demais, era poeta. Era-o. TraziaN'aquelle olhar não sei que luz extranhaQue indicava um alumno da poesia,Um morador da classica montanha,Um cidadão da terra da harmonia,Da terra que eu chamei nossa Allemanha,N'uns versos que hei de dar um dia a lume,Ou n'alguma gazeta, ou n'um volume.
Um poeta! e de noite! e de capote!Que é isso, amigo autor? Leitor amigo.Imagina que estás n'um camaroteVendo passar-se em scena um drama antigo,Sem lança não conheço D. Quixote,Sem espada é apocrypho um Rodrigo;Heróe que ás regras classicas escapa,Póde não ser heróe, mas traz a capa.
Heitor (era o seu nome) ao velho entregaUma carta lacrada; vem do norte.Escreve-lhe um philosopho collegaJá quasi a entrar no thalamo da morte.Recommenda-lhe o filho, e lembra, e allega,A provada amizade, o esteio forte,Com que outr'ora, acudindo-lhe nos transes,Salvou-lhe o nome de terriveis lances.
Dizia a carta: «Crime ou virtude,«É meu filho poeta; e corre fama«Que já faz honra á nossa juventude«Co' a viva inspiração de etherea chamma;«Diz elle que, se o genio não o illude,«Camões seria se encontrasse um Gama.«Deos o fade; eu perdôo-lhe tal sestro;«Guia-lhe os passos, cuida-lhe do estro.»
Lida a carta, o philosopho eruditoAbraça o moço e diz em tom pausado:«Um sonhador do azul e do infinito!«É hospede do céu, hospede amado.«Um bom poeta é hoje quasi um mytho,«Se o talento que tem é já provado,«Conte co' o meu exemplo e o meu conselho;«Boa lição é sempre a voz de um velho.»
E trava-lhe da mão, e brandamenteLeva-o junto d'Elvira. A moça estavaEncostada á janella, e a esquiva mentePela extensão dos ares lhe vagava.Voltou-se distrahida, e de repenteMal nos olhos de Heitor o olhar fitava,Sentiu... Inutil fora relatal-o;Julgue-o quem não puder experimental-o.
Ó santa e pura luz do olhar primeiro!Elo de amor que duas almas liga!Raio de sol que rompe o nevoeiroE casa a flôr á flôr! Palavra amigaQue, trocada um momento passageiro,Lembrar parece uma existencia antiga!Lingua, filha do céu, doce eloquenciaDos melhores momentos da existencia!
Entra a leitora n'uma sala cheia;Vai isenta, vai livre de cuidado:Na cabeça gentil nenhuma idéa,Nenhum amor no coração fechado.Livre como a andorinha que volteiaE corre loucamente o ar azulado.Venham dous olhos, dous, que a alma buscava...Era senhora? ficará escrava!
C'um só olhar escravos elle e ellaJá lhes pulsa mais forte o sangue e a vida;Rapida corre aquella noite, aquellaPara as castas venturas escolhida;Assoma já nos labios da donzellaLampejo de alegria esvaecida.Foi milagre de amor, prodigio santo.Quem mais fizera? Quem fizera tanto?
Preparára-se ao moço um aposento.Oh! reverso da antiga desventura!Têl-o perto de si! viver do alentoDe um poeta, alma languida, alma pura!Dá-lhe, ó fonte do casto sentimento,Aguas santas, baptismo de ventura!Emquanto o velho, amigo de outra fonte,Vai mergulhar-se em pleno Xenophonte.
Devo agora contar, dia por dia,O romance dos dous? Inutil fôra;A historia é sempre a mesma; não variaA paixão de um rapaz e uma senhora.Vivem ambos do olhar que se extasiaE conversa co'a alma sonhadora;Na mesma luz de amor os dous se inflammam;Ou, como diz Philinto: «Amados, amam.»
Todavia a leitora curiosaTalvez queira saber de um incidente;A confissão dos dous;—scena espinhosaQuando a paixão domina a alma que sente.Em regra, confissão franca e verbosaRevela um coração independente;A paz interior tudo confia,Mas o amor, esse hesita e balbucia.
O amor faz monosyllabos; não gastaO tempo com analyses compridas;Nem é proprio de boca amante e castaUm chuveiro de phrases estendidas;Um volver d'olhos languido nos bastaPor conhecer as chammas comprimidas;Coração que discorre e faz estylo,Tem as chaves por dentro e está tranquillo.
Deu-se o caso uma tarde em que chovia,Os dous estavão na varanda aberta.A chuva peneirava, e além cobriaCinzento véu o occaso; a tarde incertaJá nos braços a noite a recebia,Como amorosa mãe que a filha apertaPor enxugar-lhe os prantos magoados.Eram ambos immoveis e calados.
Juntos, ao parapeito da varanda,Viam cahir da chuva as gottas finas,Sentindo a viração fria, mas branda,Que balançava as frouxas casuarinas.Raras, ao longe, de uma e de, outra banda,Pelas do céu tristissimas campinas,Viam correr da tempestade as avesNegras, serenas, lugubres e graves.
De quando em quando vinha uma rajadaBorrifar e agitar a Elvira as tranças,Como se fôra a briza perfumadaQue á palmeira sacode as tenues franças.A fronte gentilissima e engraçadaSacudia co'a chuva as más lembranças;E ao passo que chorava a tarde escuraRia-se n'ella a aurora da ventura.
«Que triste a tarde vai! que véu de morte«Cobrir parece a terra! (o moço exclama),«Reproducção fiel da minha sorte,«Sombra e choro.—Porque? pergunta a dama;«Diz que teve dos céus uma alma forte...«—É forte o bronze e não resiste á chamma;«Leu versos meus em que zombei do fado?«lllusões de poeta mallogrado!»
«Somos todos assim. E nossa gloria«Contra o destino oppôr alma de ferro;«Desafiar o mal, eis nossa historia,«E o tremendo duello é sempre um erro.«Custa-nos caro uma fallaz victoria«Que nem consola as mágoas do desterro,«O desterro,—esta vida obscura e rude«Que a dôr enfeita e as victimas illude.
«Contra esse mal tremendo que devora«A seiva toda á nossa mocidade,«Que remedio haveriamos, senhora,«Senão versos de affronta e liberdade?«No emtanto, bastaria acaso um'hora,«Uma só, mas de amor, mas de piedade,«Para trocar por seculos de vida«Estes de dôr acerba e envilecida.»
Al não disse, e, fitando olhos ardentesNa moça, que de enleio enrubecia,Com discursos mais fortes e eloquentesNa exposição do caso proseguia;A pouco e pouco as mãos intelligentesTraváram-se; e não sei se conviriaAccrescentar que um osculo... Risquemos,Não é bom mencionar estes extremos.
Duas sombrias nuvens afastando,Tenue raio de sol rompêra os ares,E, no amoroso grupo desmaiando,Testemunhou-lhe as nupcias singulares.A nesga azul do occaso contemplando,Sentirão ambos irem-lhe os pezares,Como nocturnas aves agoureirasQue á lua fogem medrosas e ligeiras.
Tinha mágoas o moço? A causa d'ellas?Nenhuma causa; fantasia apenas;O eterno devanear das almas bellas,Quando as dominam fervidas camenas;Uma ambição de conquistar estrellas,Como se colhem lucidas phalenas;Um desejo de entrar na eterna lida,Um querer mais do que nos cede a vida.
Com amores sonhava, ideal formadoDe celestes e eternos esplendores,A ternura de um anjo destinadoA encher-lhe a vida de perpetuas flôres.Tinha-o emfim, qual fôra antes creadoNos seus dias de mágoas e amargores;Madrugavão-lhe n'alma a luz e o riso;Estava á porta emfim do paraiso.
N'essa noite, o poeta namoradoNão conseguiu dormir. A alma fugíraPara ir velar o doce objecto amado,Por quem, nas ancias da paixão, suspira;E é provavel que, achando o exemplo dado,Ao pé de Heitor viesse a alma de Elviva;De maneira que os dous, de si ausentes,Lá se achavão mais vivos e presentes.