Ao romper da manhã, co'o sol ardente,Briza fresca, entre as folhas sussurrando,O não-dormido vate acorda, e a menteLhe foi dos vagos sonhos arrancando.Heitor contempla o valle resplendente,A flôr abrindo, o passaro cantando;E a terra que entre risos acordava,Ao sol do estio as roupas enxugava.
Tudo então lhe sorria. A natureza,As musas, o futuro, o amor e a vida;Quanto sonhára aquella mente accesaDera-lhe a sorte, emfim, compadecida.Um paraiso, uma gentil belleza,E a ternura castissima e vencidaDe um coração creado para amores,Que exhala affectos como aroma as flôres.
E ella? Se conheceste em tua vida,Leitora, o mal do amor, delirio santo,Dôr que eleva e conforta a alma abatida,Embriaguez do céu, divino encanto,Se a tua face ardente e enrubecidaPallejou com suspiros e com prantos,Se ardeste emfim, naquella intensa chamma,Entenderás o amor de ingenua dama.
Repara que eu não fallo desse enleioDe uma noite de baile ou de palestra;Amor que mal agita a flôr do seio,E ao chá termina e acaba com a orchestra;Não me refiro ao simples galanteioEm que cada menina é velha mestra,Avesso ao sacrifício, á dor e ao choro;Fallo do amor, não fallo do namoro.
Eden de amor, ó solidão fechada,Casto asylo a que o sol dos novos diasVai mandar, como a furto, a luz coadaPelas frestas das verdes gelosias,Guarda-os ambos; conserva-os recatada.Almas feitas de amor e de harmonias,Tecei, tecei as vividas capellas,Deixai correr sem susto as horas bellas.
Cá fóra o mundo insipido e profanoNão dá, nem póde dar o enleio puroDas almas novas, nem o doce enganoCom que se esquecem males do futuro.Não busqueis penetrar n'este oceanoEm que se agita o temporal escuro.Por fugir ao naufragio e ao soffrimento,Tendes uma enseada,—o casamento.
Resumamos, leitora, a narrativa.Tanta strophe a cantar ethereas chammasPede compensação, musa insensiva,Que fatigais sem pena o ouvido ás damas.Demais, é regra certa e positivaQue muitas vezes as maiores famasPerde-as uma ambição de tagarella;Musa, aprende a lição; musa, cautela!
Mezes depois da scena relatadaNas strophes, a folhas,—o poetaOuviu do velho Antero uma estudadaOração ciceronica e selecta;A conclusão da arenga preparadaEra mais agradavel que discreta.Dizia o velho erguendo olhos serenos:«Pois que se adoram, casem-se, pequenos!»
Lagrima santa, lagrima de gostoVertem olhos de Elvira; e um riso abertoVeio inundar-lhe de prazer o rostoComo uma flôr que abrisse no deserto.Se iam já longe as sombras do desgosto;Inda até li era o futuro incerto;Fez-lh'o certo o ancião; e a moça grataBeija a mão que o futuro lhe resgata.
Correm-se banhos, tiram-se dispensas,Vai-se buscar um padre ao povoado;Prepara-se o enxoval e outras pertençasNecessarias agora ao novo estado.Notam-se até algumas differençasNo modo de viver do velho honrado,Que sacrifica á noiva e aos deuses laresUm estudo dos classicos jantares.
«Onde vás tu?—Á serra!—Vou comtigo.«—Não, não venhas, meu anjo, é longa a estrada.«Se cansares?—Sou leve, meu amigo;«Descerei nos teus hombros carregada.«—Vou compôr encostado ao cedro antigo«Canto de nupcias.—Seguirei calada;«Junto de ti, ter-me-has mais em lembrança;«Musa serei sem perturbar.—Criança!»
Brandamente repelle Heitor a Elvira;A moça fica; o poeta lentamenteSobe a montanha. A noiva repetíraO primeiro pedido inutilmente.Olha-o de longe, e timida suspira.Vinha a tarde cahindo frouxamente,Não triste, mas risonha e fresca e bella,Como a vida da pallida donzella.
Chegando, emfim, á c'rôa da collina,Víram olhos de Heitor o mar ao largo,E o sol, que despe a veste purpurina,Para dormir no eterno leito amargo.Surge das aguas pallida e divina,Essa que tem por deleitoso encargoVelar amantes, proteger amores,Lua, musa dos candidos palores.
Respira Heitor; e livre. O casamento?Foi sonho que passou, fugaz idéaQue não pôde durar mais que um momento.Outra ambição a alma lhe incendeia.Dissipada a illusão, o pensamentoNovo quadro a seus olhos patenteia,Não lhe basta aos desejos de sua almaA enseada da vida estreita e calma.
Aspira ao largo; pulsam-lhe no peitoUns impetos de vida; outro horizonte,Tumidas vagas, temporal desfeito,Quer com elles lutar fronte por fronte.Deixa o tranquillo amor, casto e perfeito,Pelos brodios de Venus de Amathonte;A existencia entre flôres esquecidaPelos rumores de mais ampla vida.
Nas mãos da noite desmaiára a tarde;Descem ao valle as sombras vergonhosas;Noite que o céu, por mofa ou por alarde,Torna propicia ás almas venturosas.O derradeiro olhar frio e covardeE umas não sei que strophes lamentosasSolta o poeta, emquanto a triste Elvira,Viuva antes de noiva, em vão suspira!
Transpõe o mar Heitor, transpõe montanhas;Tu, curiosidade, o ingrato levasA ir ver o sol das regiões extranhas.A ir ver o amor das peregrinas Evas.Vai, em troco de palmas e façanhas,Viver na morte, bracejar nas trevas;Fazendo amor, que é livro aos homens dado,Copioso almanach namorado.
Inscreve n'elle a moça de Sevilha,Longas festas e noites hespanholas,A indiscreta e diabolica mantilhaQue a fronte cinge a amantes e a carolas.Quantos encontra corações perfilha,Faz da bolsa e do amor largas esmolas:Esquece o antigo amor e a antiga musaEntre os beijos da lepida andaluza.
Canta no seio turgido e macioDa fogosa, indolente Italiana,E dorme junto ao laranjal sombrioAo som de uma canção napolitana.Dão-lhe para os serões do ardente estio,Asti, os vinhos; mulheres, a Toscana.Roma adora, embriaga-se em Veneza,E ama a arte nos braços da belleza.
Vê Londres, vê Paris, terra das ceias,Feira do amor a toda a bolsa aberta;No mesmo laço, as bellas como as feias,Por capricho ou razão, iguaes aperta;A edade não pergunta ás taças cheias,Só pede o vinho que o prazer desperta;Adora as outoniças, como as novas,Torna-se heróe de rua e heróe de alcovas.
Versos quando os compõe, celebram antesO alegre vicio que a virtude austera;Canta os beijos e as noites delirantes,O esteril gozo que a volupia gera;Troca a illusão que o seduzia d'antesPor maior e tristissima chimera;Ave do céu, entre os osculos creada,Espalha as plumas brancas pela estrada.
Um dia, emfim, cansado e aborrecido,Acorda Heitor; e olhando em roda e ao largo,Vê um deserto, e do prazer perdidoResta-lhe unicamente o gosto amargo;Não achou o ideal appetecidoNo longo e profundissimo lethargo:A vida exhausta em feitos e esplendores,Se alguma tinha, eram já murchas flôres.
Ora, uma noite, costeando o Rheno,Ao luar melancolico,—buscavaAquelle gozo simples, doce, ameno,Que á vida toda outr'ora lhe bastava;Voz remota, cortando o ar sereno,Em derredor os échos acordava;Voz aldeã que o largo espaço enchia,E uma canção de Schiller repetia.
«A gloria! diz Heitor, a gloria é vida!Porque busquei nos gozos de outra sorteEsta felicidade appetecida,Esta resurreição que annulla a morte?Ó illusão fantastica e perdida!Ó mal gasto, ardentissimo transporte!Musa, restaura as apagadas tintas!Revivei, revivei, chammas extinctas!»
A gloria? Tarde vens, pobre exilado!A gloria pede as illusões viçosas,Estro em flôr, coração electrisado,Mãos que possam colher ethereas rosas;Mas tu, filho do ocio e do peccado,Tu que perdeste as forças portentosasNa agitação que os animos abate,Queres colher a palma do combate?
Chamas em vão as musas; deslembradas,Á tua voz os seus ouvidos cerram;E nas paginas virgens, preparadas,Pobre poeta, em vão teus olhos erram;Nega-se a inspiração; nas despregadasCordas da velha lyra, os sons que encerramInertes dormem; teus cansados dedosorrem debalde; esquecem-lhe os segredos.
Ah! se a taça do amor e dos prazeresJá não guarda licor que te embriague;Se nem musas nem languidas mulheresTêm coração que o teu desejo apague;Busca a sciencia, estuda a lei dos seres,Que a mão divina a tua dôr esmague;Entra em ti, vê o que és, observa em roda,Escuta e palpa a natureza toda.
Livros compra, um philosopho procura;Revolve a creação, prescruta a vida;Vê se espancas a longa noite escuraEm que a esteril razão andou mettida;Talvez aches a palma da venturaNo campo das sciencias escondida.Que a tua mente as illusões esqueça:Se o coração morreu, vive a cabeça!
Ora, por não brigar co'os meus leitores,Dos quaes, conforme a curta ou longa vista,Uns pertencem aos grupos novadores,Da fria communhão materialista;Outros, seguindo exemplos dos melhores,Defendem a theoria idealista;Outros, emfim, fugindo armas extremas,Vão curando por ambos os systemas.
Direi que o nosso Heitor, após o estudoDa natureza e suas harmonias,(Oppondo a consciencia um forte escudoContra divagações e fantasias);Depois de ter aprofundado tudo,Planta, homem, estrellas, noites, dias,Achou esta lição inesperada:Veiu a saber que não sabia nada.
«Nada! exclama um philosopho amarelloPelas longas vigilias, afastandoUm livro que ha de ver um dia ao preloE em cujas folhas ia trabalhando.Pois eu, doutor de borla e de capello,Eu que passo os meus dias estudando,Hei de ler o que escreve penna ousada,Que a sciencia da vida acaba em nada?»
Aqui convinha intercalar com geito,Sem pretenção, nem pompa nem barulho,Uma arrancada apostrophe do peitoContra as vãs pretenções do nosso orgulho;Conviria mostrar em todo o effeitoEssa que é dos espiritos entulho,Sciencia vã, de magnas leis tão rica,Que ignora tudo, e tudo ao mundo explica.
Mas, urgindo acabar este romance,Deixo em paz o philosopho, e procuroDizer do vate o doloroso tranceQuando se achou mais pecco e mais escuro.Valêra bem n'aquelle triste lanceUm sorriso do céu placido e puro,Raio do sol eterno da verdade,Que a vida aquece e alenta a humanidade.
Que! nem ao menos na sciencia haviaFonte que a eterna sêde lhe matasse?Nem no amor, nem no seio da poesiaPodia nunca repousar a face;Atrás d'esse fantasma correriaSem que jámais as fórmas lhe palpasse?Seria acaso a sua ingrata sorteA ventura encontrar nas mãos da morte?
A morte! Heitor pensára alguns momentosN'essa sombria porta aberta á vida;Pallido archanjo dos finaes alentosDe alma que o céu deixou desilludida;Mão que, fechando os olhos somnolentos,Põe o termo fatal á humana lida;Templo de gloria ou região do medo,Morte, quem te arrancára o teu segredo?
Vasio, inutil, ermo de esperançasHeitor buscava a noiva ignota e fria,Que o envolvesse então nas longas trançasE o conduzisse á camara sombria,Quando, em meio de pallidas lembranças,Surgiu-lhe a idéa de um remoto dia,Em que cingindo a candida capellaEstava a pertencer-lhe uma donzella.
Elvira! o casto amor! a esposa amante!Rosa de uma estação, deixada ao vento!Riso dos céus! estrella rutilanteEsquecida no azul do firmamento!Ideal, meteoro de um instante!Gloria da vida, luz do pensamento!A gentil, a formosa realidade!Unica dita e unica verdade!
Ah! porque não ficou calmo e tranquilloDa ingenua moça nos divinos braços?Porque fugira ao casto e alegre asylo?Porque rompêra os mal formados laços?Quem pudera jámais restituil-oAos estreitos, fortissimos abraçosCom que Elvira apertava enternecidaEsse que lhe era o amor, a alma e a vida?
Será tempo? Quem sabe? Heitor hesita;Tardio pejo lhe enrubece a face;Punge o remorso; o coração palpitaComo se vida nova o reanimasse;Tenue fogo, entre a cinza, arde e se agita...Ah! se o passado alli resuscitasseReviverião illusões viçosas,E a gasta vida rebentara em rosas!
Resolve Heitor voltar ao valle amigo,Onde ficára a noiva abandonada.Transpõe o lar, affronta-lhe o perigo,E chega emfim á terra desejada.Sobe o monte, contempla o cedro antigo,Sente abrir-se-lhe n'alma a flôr murchadaDas illusões que um dia concebêra;Rosa extincta da sua primavera!
Era a hora em que os serros do orienteFormar parecem luminosas urnas;E abre o sol a pupilla resplendenteQue ás folhas sorve as lagrimas nocturnas;Frouxa briza amorosa e diligenteVai acordando as sombras taciturnas;Surge nos braços d'essa aurora estivaA alegre natureza rediviva.
Campa era o mar; o valle estreito berço;De um lado a morte, do outro lado a vida,Canto do céu, resumo do universoNinho para aquecer a ave abatida.Inda nas sombras todo o valle immerso,Não acordára á costumada lida;Repousava no placido abandonoDa paz tranquilla e do tranquillo somno.
Alto já ia o sol, quando desceraHeitor a opposta face da montanha;Nada do que deixou desparecêra;O mesmo rio as mesmas hervas banha.A casa, como então, garrida e austera,Do sol nascente a viva luz apanha;Iguaes flôres, nas plantas renascidas...Tudo alli falla de perpetuas vidas!
Desce o poeta cauteloso e lento.Olha de longe; um vulto ao sol erguiaA veneranda fronte, monumentoDe grave e celestial melancolia.Como sulco de um fundo pensamentoLarga ruga na testa abrir se via,Era a ruina talvez de uma esperança...Nos braços tinha uma gentil criança.
Ria a criança; o velho contemplavaAquella flôr que ás auras matutinasO perfumoso calix desbrochavaE entrava a abrir as petalas divinas.Triste sorriso o rosto lhe animava,Como um raio de lua entre ruinas.Alegria infantil, tristeza austera,O inverno torvo, a alegre primavera!
Desce o poeta, desce, e preso, e fitoNos bellos olhos do gentil infante,Treme, comprime o peito... e após um gritoCorre alegre, exaltado e delirante,Ah! se jámais as vozes do infinitoPodem sahir de um coração amante,Teve-as aquelle... Lagrimas sentidasLhe inundárão as faces resequidas!
«Meu filho!» exclama, e subito parandoAnte o grupo ajoelha o libertino;Geme, soluça, em lagrimas beijandoAs mãos do velho e as tranças do menino.Ergue-se Antero, e frio e venerando,Olhos no céu, exclama: «Que destino!Murchar-lhe, viva, a rosa da ventura;Morta, insultar-lhe a paz da sepultura!»
«Morta!—Sim!—Ah! senhor! se arrependidoPosso alcançar perdão, se com meus prantos,Posso apiedar-lhe o coração feridoPor tanta mágoa e longos desencantos;Se este infante, entre lagrimas nascido,Póde influir-me os seus affectos santos...É meu filho, não é? perdão lhe imploro!Veja, senhor! eu soffro, eu creio, eu choro!»
Olha-o com frio orgulho o velho honrado;Depois, fugindo aquella scena estranha,Entra em casa. O poeta, acabrunhado,Sobe outra vez a encosta da montanha;Ao cimo chega, e desce o opposto ladoQue a vaga azul entre soluços banha.Como fria ironia a tantas mágoas,Batia o sol de chapa sobre as aguas.
Pouco tempo depois ouviu-se um grito,Som de um corpo nas aguas resvalado;Á flôr das vagas veio um corpo afflicto...Depois... o sol tranquillo e o mar calado.Depois... Aqui termina o manuscripto,Que ora em lettra de fôrma é publicado.Nestas estrophes pallidas e mausas,Para te divertir de outras lembranças.
Os Tamoyos, entre outras presas que fizeram, levaram esta india, a qual pretendeu o capitão da empreza violar: resistiu valorosamente dizendo em lingua brasilica: «Eu sou christã e casada; não heide fazer traição a Deus e a meu marido; bom podes matar-me e fazer do mim o que quizeres.» Deu-se por a affrontado o barbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.
Os Tamoyos, entre outras presas que fizeram, levaram esta india, a qual pretendeu o capitão da empreza violar: resistiu valorosamente dizendo em lingua brasilica: «Eu sou christã e casada; não heide fazer traição a Deus e a meu marido; bom podes matar-me e fazer do mim o que quizeres.» Deu-se por a affrontado o barbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.
VASC.Chr. da Comp. de Jesus, liv 3°.
Moça christã das solidões antigas,Em que aurea folha reviveu teu nome?Nem o eco das mattas seculares,Nem a voz das sonoras cachoeiras,O transmitiu aos seculos futuros.Assim da tarde estiva ás auras frouxasTenue fumo do colmo no ar se perde;Nem de outra sorte em moribundos labiosA humana voz expira. O horror e o sangueDa miseranda scena em que, de envoltaCo'os longos, magoadissimos suspiros,Christã Lucrecia, abriu tua alma o vooPara subir ás regiões celestes,Mal deixada memoria aos homens lembra.Isso apenas; não mais; teu nome obscuro,Nem tua campa o brazileiro os sabe.
Ja da férvida luta os ais e os gritosExtinctos eram. Nos baixeis ligeirosOs tamoyos incolumes embarcam;Ferem co'os remos as serenas ondasAté surgirem na remota aldêa.Atrás ficava, luctuosa e triste,A nascente cidade brazileira,[7]Do inopinado assalto espavorida,Ao céu mandando em côro inuteis vozes.Vinha já perto rareando a noite,Alva aurora, que á vida accorda as selvas,Quando a aldêa surgiu aos olhos torvosDa expedição nocturna. Á praia saltamOs vencedores em tropel: transportamÁs cabanas despojos e vencidos,E, da vigilia fatigados, buscamNa curva, leve rede amigo somno,Excepto o chefe. Oh! esse não dormiraLongas noites, se a troco da victoriaPrecisas fossem. Traz comsigo o premio,O desejado premio. DesmaiadaConduz nos braços tremulos a moçaQue renegou Tupan, e as rudes crenças[8]Lavou nas aguas do baptismo santo.Na rode ornada de amarellas pennasBrandamente a depõe. Leve tecidoDa captiva gentil as fórmas cobre;Veste-as de mais a sombra do crepusculo,Sombra que a tibia luz da alva nascenteDe todo não rompeu. Inquieto sangueNas veias ferve do indio. Os olhos luzemDe concentrada raiva triumphante.Amor talvez lhes lança um leve toqueDe ternura, ou já soffrego desejo;Amor, como elle, asperrimo e selvagem,Que outro não sente o heroe.
Heroe lhe chamamQuantos o hão visto no fervor da guerraMedo e morte espalhar entre os contrariosE avantajar-se nos certeiras golpesAos mais fortes da tribu. O arco e a flechaDesde a infancia os meneia ousado o affouto;Cedo apprendeu nas solitarias brenhasA pleitear ás feras o caminho.A força oppõe á força, a astucia á astucia,Qual se da onça e da serpente houveraColhido as armas. Traz ao collo os dentesDos contrarios vencidos. Nem dos annosO numera supera o das victorias;Tem no espaçoso rosto a flôr da vida,A juventude, e goza entre os mais bellosDe real primazia. A cinta e a fronteAzues, vermelhas plumas alardeam,Ingenuas galas do gentio inculto.
Da captiva gentil cerrados olhosNão se entreabrem á luz. Morta parece.Uma só contracção lhe não perturbaA paz serena do mimoso rosto.Junto della, cruzados sobre o peitoOs braços, Anagê contempla e espera;Soffrego espera, em quanto ideias negrasEstão a revoar-lhe em torno e a encher-lheA mente de projectos tenebrosos.Tal no cimo do velho CorcovadoProxima tempestade engloba as nuvens.Subito ao seio turgido e macioAnciosas mãos estende; inda palpitaO coração, com desusada força,Como se a vida toda alli buscasseRefugio certo e ultimo. ImpetuosoO vestido cristão lhe despedaça,E á luz já viva da manhã recenteContempla as nuas fórmas. Era acasoA syncope chegada ao termo proprio,Ou, no pejo offendida, ás mãos extranhasA desmaiada moça despertára.Potyra accorda, os olhos lança em torno,Fita, vê, comprehende, e inquieta buscaFugir do vencedor ás mãos e ao crime...Misera! opõe-se-lhe o irritado gestoDo asperrimo guerreiro; um ai lhe sobeAngustioso e triste aos labios tremulos,Sobe, murmura e suffocado expira.Na rede envolve o corpo, e, desviandoDo terrivel tamoyo os lindos olhos,Entrecortada prece aos céus envia,E as faces banha de serenas lagrimas.
Longo tempo correra. Amplo silencioReinou entre ambos. Do tamoyo a frontePouco a pouco despira o torvo aspecto.Ao trabalhado espirito, revoltoDe mil sinistros pensamentos, volveBenigna calma. Tal de um rio engrossaO volume extensissimo das aguasQue vão enchendo de pavor os ecos,Vencendo no arruido o vento e o raio,E pouco a pouco atenuando as vozes,Adelgaçando as ondas, tornam mansasAo primitivo leito. Ei-lo se inclina,Para tomar nos braços a formosaPor cujo amor incendiara a aldêaDaquellas gentes pallidas de Europa.Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto,O rosto inda de lagrimas molhado,Do coração estas palavras solta:«—Lá entre os meus, suave e amiga morte,Ah! porque me não deste? Houvera ao menosQuem escutasse de meus labios friosA prece derradeira; e a santa bençãoLevaria minha alma aos pés do Eterno...Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a;Um só allivio imploro. Não receiesEmbeber no meu sangue a ervada setta;Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possaTer em sagrado leito o ultimo somno!»Disse, e fitando no indio avidos olhos,Esperou. Anagê sacode a fronte,Como se lhe pesara ideia triste;Crava os olhos no chão; lentas lhe saemEstas vozes do peito.«Oh! nunca os padresPisado houvessem estas plagas virgens!Nunca de um deus estranho as leis ignotasViessem perturbar as tribos, comoPerturba o vento as aguas! Rosto a rostoOs guerreiros pelejam: matam, morrem.Ante o fulgor das armas inimigasNão descora o tamoyo. Assaz lhe pulsaValor nativo e raro em peito livre.Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternasNestas mattas vastissimas. De sangueExtranhos rios hão de, ao mar correndo,Tristes novas levar á patria delles,Primeiro que o tamoyo a frente inclineAos inimigos peitos. Outra força,Outra e maior nos move a guerra crua;São elles, são os padres. Esses mostramCheia de riso a boca e o mel nas vozes,Sereno o rosto e as brancas mãos inermes;Ordens não trazem de cacique alheio,Tudo nos levam, tudo. Uma por umaAs filhas de Tupan correm trás elles,Com ellas os guerreiros, e com todosA nossa antiga fé. Vem perto o diaEm que, na imensidão destes desertos,Ha de ao frio luar das longas noitesO pagé suspirar sozinho e tristeSem povo nem Tupan!»
SilenciosasLagrimas lhe espremeu dos olhos negrosEsta lembrança de futuros males.«—Escuta!» diz Potyra. O indio estendeImperioso as mãos e assim prossegue:«—Tambem com elles foste, e foi comtigoDa minha vida a flôr! Teu pai mandara,E com ele mandou Tupan que eu fosseTeu esposo; vedou-m'o a voz dos padres,Que me perdeu, levando-te consigo.Não morri; vivi só para esta affronta;Vivi para esta insolita tristezaDe maldizer teu nome e as graças tuas,Chorar-te a vida e desejar-te a morte.Ai! nos rudes combates em que a tribuRega de sangue o chão da virgem terraOu tinge a flôr do mar, nunca a meu ladoTeu nobre vulto esteve. A aldêa toda,Mais que o teu coração, ficou deserta.Duas vezes, mimosas rebentaramDo lacrimoso cajueiro as flôres,Desde o dia funesto em que deixasteA cabana paterna. O extremo lumoExpirou de teu pai nos olhos tristes;Piedosa chamma consumiu seus restos,E a aldêa toda o lastimou com prantos.Não de todo se foi da nossa vida;Parte ficou para sentir teus males.Antes que o ultimo sol á melindrosaFlôr do maracujá cerrasse as folhasUm sonho tive. Merencorio vulto,Triste como uma fronte de vencido,Cor da lua os cabellos venerandos,O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse),«Corre á vizinha habitação dos brancos,«Vai, arranca Potyra á lei funesta«Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena;«Nos braços traze a fugitiva corça;«Vincula o teu destino ao dela; é tua.»«—Impossivel! Que vale um vago sonho?Sou esposa e christã. Impio, respeitaO amor que Deus protege e sanctifica:Mata-me; a minha vida te pertence:Ou, se te pesa derramar o sangueDaquella a quem amaste, e por quem fosteLançar entre os christãos a dor e o susto,Faze-me escrava; servirei contenteEmquanto a vida allumiar meus olhos.Toma, entrego-te o sangue e a liberdadeOrdena ou fere. Tua esposa, nunca!»Calou-se, e reclinada sobre a rede,Potyra murmurava ignota prece,Olhos fitos no proximo arvoredo,Olhos não ermos de profunda magua.
Ó Christo! em que alma penetrou teu nomeQue lhe não désse o balsamo da vida?Pelo vento dos seculos levado,Vidente e cego, o maximo dos seres,Que fora do homem nesta escassa terra,Se ao mysterio da vida lhe não désses,Ó Christo! a eterna chave da esperançaPhilosophia stoica, ardua virtude,Creação de homem, tudo passa e expira.Tu só, filha de Deus, palavra amiga,Tu, suavissima voz da eternidade,Tu perduras, tu vales, tu confortas.Neste sonho iriado de outros sonhos,Varios como as feições da natureza,Nesta confusa agitação da vida,Que alma transpõe a derradeira edadeFarta de algumas passageiras glorias?Torvo é o ar do sepulchro; alli não viçamEssas cansadas rosas da existenciaQue ás vezes tantas lagrimas nos custam,E tantas mais antes do occaso expiram.Flôr do Evangelho, nuncia de alvos dias,Esperança christã, não te ha murchadoO vento arido e secco; és tu viçosaQuando as da terra languidas inclinamO seio, e a vida lentamente exhalam.Esta a consolação ultima e doceDa esposa indiana foi. Captiva ou morta,Antevia a celeste recompensaQue aos humildes reserva a mão do Eterno.Naquelle rude coração das brenhasA semente evangelica brotara.
Das duas condições deu-lhe o guerreiroA peor,—fel-a escrava; e eil-a appareceDa sua aldea aos olhos espantadosQual fôra em dias de melhor ventura.Despida vem das roupas que lhe ha postoSobre as polidas fórmas uso extranho,Não sabido jamais daquelles povosQue a natureza ingenua doutrinara.Vence na gentileza ás mais da tribu,E tem de sobra um sentimento novo,Pudor de esposa e de christã,—realceQue ao indio accende a natural volupia.Simulada alegria lhe descerraOs labios; riso á flôr, escasso e dubio,Que mal lhe encobre as vergonhosas maguas.Á voz do seu senhor accorre humilde;Não a assusta o labor; nem dos perigosConhece os medos. Nas ruidosas festas,Quando ferve o canim, e o ar atrôa[9]Pocema de alegria ou de combate,Como que se lhe fecha a flôr do rosto.Ja lhe descae então no seio oppressoA graciosa fronte; os olhos fecha,E ao céu voltando o pensamento puro,Menos por si, que pelos outros pede.Nem só o ardor da fé lhe abraza o peito;Lacera-lh'o tambem agra saudade;Chora a separação do amado esposo,Que, ou cedo a esquece, ou solitario geme.Se, alguma vez, fugindo a extranhos olhos,Não já crueis, mas cubiçosos della,Entra desatinada o bosque antigo,E a dor expande em lobregos soluços,Co'o doce nome accorda ao longe os écos,Farta de amor e prodiga de vida,Ouve-as a selva, e não lhe entende as maguas.Outras vezes pisando a ruiva areiaDas praias, ou galgando a penediaCujos pés orla o mar de nivea espuma,As ondas murmurantes interroga;Conta ao vento da noite as dores suas;Mas... fieis ao destino e á lei que as rege,As preguiçosas ondas vão caminho,Crespas do vento que sussurra e passa.
Quando, ao sol da manhã, partem ás vezes,Com seus arcos, os destros caçadores,E alguns da rija estaca desatandoOs nós de embira ás rapidas igaras,A pesca vão pelas ribeiras proximas,Das esposas, das mães que os lares velam,Grata alegria os corações innunda,Menos o della, que suspira e geme,E não aguarda doce esposo ou filho.Triste os vê na partida e no regresso,E nessa melancholica postura,Simelha a acacia langue e esmorecida,Que já de orvalho ou sol não pede os beijos.As outras...—Raro em labios de felizesAlheias maguas travam. Não se pejamDe seus olhos azuis e alegres pennasOs sahis sobre as arvores pousados,Se ao perto voa na campina verdeDe anuns luctuoso bando; nem os trillosDas andorinhas interrompe a notaQue a jurity suspira.—As outras folgamPelo arraial dispersas; vão-se á terraArrancar as raizes nutritivas,E fazem os preparos do banqueteA que hão de vir mais tarde os destemidosSenhores do arco, alegres vencedoresDe quanto vive na agua e na floresta.Da captiva nenhuma inquire as maguas.Comtudo, algumas vezes, curiosasVirgens lhe dizem, apiedando o gesto:—«Pois que á taba voltaste, em que teus olhosPrimeiro viram luz, que magua fundaLhes distilla tão longo e amargo pranto,Amargo mais do que esse que não buscaRecatado silencio?»—E ás doces vozesA christã desterrada assim responde:—«Potyra é como aquella flôr que choraLagrimas de alvo leite, se do galhoMão cruel a cortou. Oh! não permittaO céu que ímpia fortuna vos separeDaquelle que escolherdes. Dor é essaMaior que um pobre coração de esposa.Esperanças... Deixei-as nessas aguasQue me trouxeram, complices do crime,Á taba de Tupan, não allumiadaDa palavra celeste. Algumas vezes,Raras, alveja em minha noite escuraNão sei que tibia aurora, e penso: AcasoO sol que vem me guarda um raio amigo,Que hade accender nestes cansados olhosVentura que já foi. As asas colheGuanumby, e o aguçado bico embebeNo tronco, onde repousa adormecidoAté que volte uma estação de flôres.[10]Ventura imita o guanumby dos campos:Accordará co'as flôres de outros dias.Doce illusão que rapido se escoa,Como o pingo de orvalho mal fechadoN'uma folha que o vento agita e entorna.»E as virgens dizem, apiedando o gesto:—«Potyra é como aquella flôr que chora«Lagrimas de alvo leite, se do galho«Mão cruel a cortou!»
Era chegadoO fatal prazo, o desenlace triste.Tudo morre,—a tristeza como o gozo;Rosas de amor ou lyrios de saudade,Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo.Costeando as longas praias, ou transpondoExtensos valles e montanhas, corremMensageiros que ás tabas mais vizinhasVão convidar á festa as gentes todas.Era a festa da morte. Indio guerreiro,Trez luas ha captivo, o instante aguardaEm que ás mãos de inimigos vencedores,Cáia expirante, e os vinculos rompendoDa vida, a alma remonte além dos Andes.Corre de boca em boca e de eco em ecoA alegre nova. Vem descendo os montes,Ou abicando ás povoadas praiasGente da raça illustre. A onda immensaPelo arraial se estende pressurosa.De quantas côres natureza fertilTinge as proprias feições, copiam ellesEngraçadas, vistosas louçanias.Vários na edade são, varios no aspecto,Todos iguais e irmãos no herdado brio.Dado o amplexo de amigo, acompanhadoDe suspiros e pesames sincerosPelas fadigas da viagem longa,Rompem ruidosas danças. Ao tamoyoDeu o Ibake os segredos da poesia;Cantos festivos, moduladas vozes,Enchem os ares, celebrando a festaDo sacrificio proximo. Ah! não cubraVéu de nojo ou tristeza o rosto aos filhosDestes polidos tempos! Rudes eramAquelles homens de asperos costumes,Que ante o sangue de irmãos folgavam livres,E nós, soberbos filhos de outra edade,Que a voz fallamos da razão severaE na luz nos banhamos do Calvario,Que somos nós mais que elles? Raça tristeDe Cains, raça eterna...
Os cantos cessam.Calou-se o maracá. As roucas vozesDos férvidos guerreiros já reclamamO brutal sacrificio. Ás mãos das servasA taça do cauim passara exhausta.Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.Da nação guayanaz nos rudes camposNasceu. Nos campos da saudosa patriaIndustriosa mão não sabe aindaAlevantar as tabas. Cova fundaDa terra, mãe comum, no seio aberta,[11]Os acolhe e protege. O chão lhes forraA pele do tapir; continua chammaLhes suppre a luz do sol. É uso antigoDo guayanaz que chega a extrema edade,Ou de mortal doença accomettido,Não expirar aos olhos de outros homens;Vivo o guardam no bojo da igaçaba,E á fria terra o dão, como se fôraPasto melhor (melhor!) aos frios vermes.Do almo, doce licor que extrai das flôresMãe do mel, iramaya, larga cópiaPelos robustos membros lhe coaramSeis anciãs da tribu. Rubras pennasNa vasta fronte e nos nervosos braçosGarridamente o enfeitam. Longa e forteA mussuranna os rins lhe cinge e aperta.Entra na praça o funebre cortejo.Olhar tranquillo, inda que fero, espalhaO indomado captivo. Em pé, defronte,Grave, silencioso, ao sol mostrandoDe feias cores e vistosas plumasSingular harmonia, aguarda a victimaO executor. Nas mãos lhe pende a enormeTagapema enfeitada, arma certeira,Arma triumphal de morte e de exterminio.Medem-se rosto a rosto os dois contrariosC'um sorriso feroz. Confusas vozesEnchem subito o espaço. Não lhe é dadoAo vencido guerreiro haver a morteSilenciosa e triste em que se passaDa curva rede á fria sepultura.Meigas aves que vão de um clima a outroAbrem placidamente as asas leves,Não tu, guerreiro, que encaraste a morte,Tu combate! Vencido e vencedoresDerradeiros escarneos se arremessam;Gritos, injurias, convulsões de raiva,Vivo clamor accorda os longos ecosDas penedias proximas. A clavaDo executor girou no ar trez vezesE de leve caiu na grossa espaduaDo arquejante captivo. Já na boca,Que o desprezo e o furor n'um riso entreabrem,Orla de espuma alveja. Avança, corre,Estaca... Não lhe dá mais amplo espaçoA mussurana, cujas pontas tiramDois mancebos robustos. Nas cavernasDo longo peito lhe murmura o odio,Surdo, como o rumor da terra inquieta,Pejada de vulcões. Os labios morde,E, como derradeira injuria, á faceDo executor lhe cospe espuma e sangue.Não vibra o arco mais veloz o tiro,Nem mais segura no aterrado cervoFeroz succuriuba os nós enrosca,Do que a pesada, enorme tagapemaA cabeça de um golpe lhe esmigalha.Cae fulminada a vitima na terra,E alegre o povo longamente applaude.
Na voz universal perdeu-se um gritoDe piedade e terror: tão fundo entráraNaquella alma roubada á noite escuraRaio de sol christão! Potyra foge,Pelos bosques atonita se entranhaE pára á margem de um pequeno rio;Pousa na relva os tremulos joelhosE nas mimosas mãos esconde o rosto.Não de lagrimas era aquelle sitioOu só de doces lagrimas choradasDe olhos que amor venceu:—macia relva,Leito de sesta a amores fugitivos.Da verde, rara abobada de folhasTepida e doce a luz coava a frouxoDo sol, que, além das arvores, tranquillo,Metade da jornada ia transpondo.Longe era ainda a hora melancholicaEm que a geremma cerra a miuda folha,E o lume azul o pyrilampo accende.De pé, a um velho tronco descoroadoDa copada ramagem, resto apenas,Vestigio do tufão, a indiana moçaLanguidamente encosta o esbelto corpo.Neste ameno recesso tudo é triste,Porque é alegre tudo. Não mui longeUm desfolhado ipê conserva e guardaFlôres que lhe ficaram de outro estio,Como esperança de folhagem nova,Flôres que a desventura lhe ha negado,A ella, alma esquecida nesta terra,Que nada espera da estação vindoura.Olha, e de inveja o coração lhe estalla.Pelo tronco das arvores se enroscamParasitas, esposas do arvoredo,Mais fieis não, mais venturosas que ella.Morrer? Descanso fôra ás maguas suas,Mais que descanço, perduravel gozo,Que a nossa eterna patria aos infelizesDeste desterro guarda alvas capellasDe não-murchandas e cheirosas flôres.Tal lhe falava no intimo do peitoDesespero cruel. Alguns instantesPela cansada mente lhe vagaramDe voluntaria, abreviada morte,Luctuosas ideias. Mal comprehendeEsses desmaios da creatura humanaQuem não sentiu no coração rasgadoAbatimento e enôjo; ou, mais do que isto,Esse contraste immenso e irreparavelDo amor interno e a solidão da vida.Rapido espaço foi. Prompto lhe volveDoce resignação, christã virtude,Que desafia e que assoberba os males.As debeis mãos levanta. Já dos labiosSolta nas azas de oração singellaLastimas suas... Na folhagem seccaOuve de cautos pés rumor sumido,Volve a cabeça...