Chapter 5

Tremulo, calado,Anagê crava n'ella os olhos turvosDos vapores da festa. As mãos inermesLhe pendem; mas o peito—ó misera!—esse,Esse de mal contido amor transborda.Longo instante passou. Alfim: «DeixasteA festa nossa (o barbaro murmura);Mysteriosa vieste. Dos guerreirosNenhum te viu; mas eu senti teus passos,E vim comtigo ao ermo. Ave mesquinha,Inutil foges; gavião te espreita,[12]Minha te fez Tupan.» Em pé, sorrindo,Escutava Potyra a voz severaDe Anagê. Breve espaço abria entre ambosAlcatifado chão. A fatal horaChegara alfim? Não o perscruta a moça;Tudo acceita das mãos do seu destino,Tudo, excepto... No proximo arvoredoOuve de uma ave o pio melancholico;Era a voz de seu pae? a voz do esposo?De ambos talvez. No animo da escravaRestos havia dessa crença antigaAntiga e sempre nova: o peito humanoRaro de obscuros elos se liberta.

—«Nasceste para ser senhora e dona:Anagê não te veda a liberdade;Quebra tu mesma os nós do captiveiro.Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro,Adornada por ti, será mais nobre;Mais forte o braço em que pousar teu rosto.Sou menos bello que esse esposo ausente?Rudes feições compensa amor sobejo.Vem; ver-me-has companheira nos combates,E, se inimiga frecha entrar meu seio,Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres?Outro destino escolhe. Cauteloso,Tece o japú nos elevados ramosDas elevadas arvores o ninho,Onde o inimigo lhe não roube a prole.Ninho ha na serra ao nosso amor propicio;Viveremos alli. Troveje em baixoA inubia convidando a guerra os povos;Leva de arcos transforme estas aldêasEm campos de combate,—ou já dispersasAs fugitivas tribus vão buscandoLonges sertões para chorar seus males,Viveremos alli. Talvez, um dia,Quando eu passar á mysteriosa estanciaDas delicias eternas, me pergunteMeu velho pai:—«Teu arco de guerreiroEm que deserta praia o abandonaste?Salvar-me-ha teu amor do eterno pejo.»

Doce era a voz e triste. Rasos d'aguaOs olhos. Foi desmaio de tristezaQue o gesto dissipou da esquiva moça.Volve ao Tamoyo vingativa ideia.—«Minha (diz elle) ou morres!» EstremecePotyra, como quando a brisa passaAo de leve na folha da palmeira,E logo fria ao barbaro responde:—«Jaz esquecido em nossas velhas tabasO respeito da esposa? Acaso é dignaDo sangue do Tamoyo esta ameaça?Que desvalia aos olhos teus me coube,Se a outro me ligaram natureza,Religião, destino? A liberdadeNas tuas mãos depuz; com ella a vida.É tudo, quasi tudo. Honra de esposa,Oh! essa deves respeital-a! Vai-te!Ceva teu odio nas sangrentas carnesDo prostrado captivo. Aqui chorando,Na solidão d'estes bosques mal fechados,As maviosas brisas meus suspirosEntregarei; leval-os-hão nas azasLa onde geme solitario o esposo.Vai-te!» E as mimosas mãos colhendo ao rosto,Alçou a Deus o pensamento amante,Como a centelha viva que a fogueiraExtincta aos ares sobe. Immovel, muda,Longo tempo ficou. Diante d'ella,Como ella immovel, o tamoyo estava.Amor, odio, ciume, orgulho, pena,Oppostos sentimentos se combatemNo attribulado peito. GenerosoEra, mas não domado amor lhe davaInspiração de crimes. Não mais promptoCae sobre a triste corça fugitivaJaguar de longa fome esporeado,Do que elle as mãos lançou ao colo e á fronteDa misera Potyra. Ai! não, não digaA minha voz o lamentoso instanteEm que ella, ao seu algoz volvendo anciosaTurvos olhos: «Perdoo-te!» murmura,Os labios cerra e immaculada expira!

Estro maior teu nome obscuro cante,Moça christã das solidões antigas,E eterno o cinja de virentes flôres,Que as mereces. De não sabido bardoEstes gemidos são. Languidas brisasNo taquaral á noite sussurrando,Ou enrugando o molle dorso ás vagas,Não tem a voz com que domina os echosDespenhada cachoeira. São, comtudo,Mas que debeis e tristes, no concertoDa orquestra universal cabidas notas.Alveja a nebulosa entre as estrellas,E abre ao pé do rosal a flôr da murta.

Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram trez mezes, quando um dia, estando deitada na sua rustica cama, lhe deram a noticia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esphera. Senta-se então Nanine na cama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno indio que era seu cativo, e diz-lhe na presença de varios antecris: «És meu captivo; dou-te a liberdade, com a condição de que te chamarás toda a vida Panenioxe.»

Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram trez mezes, quando um dia, estando deitada na sua rustica cama, lhe deram a noticia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esphera. Senta-se então Nanine na cama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno indio que era seu cativo, e diz-lhe na presença de varios antecris: «És meu captivo; dou-te a liberdade, com a condição de que te chamarás toda a vida Panenioxe.»

F. RODRIGUES PRADO,Hist. dos Indios Cavalleiros.

...che piangeVedova sola.

...che piangeVedova sola.

DANTE

Contam-se historias antigasPelas terras de além-mar,De moças e de princezas,Que amor fazia matar.Mas amor que entranha n'almaE a vida soe acabar,Amor é de todo o clima,Bem como a luz, como o ar.Morrem delle nas florestasAonde habita o jaguar,Nas margens dos grandes riosQue levam troncos ao mar.Agora direi um casoDe muito penalisar,Tão triste como os que contamPelas terras de além-mar.

Cabana que esteira cobreDe junco trançado a mão,Que agitação vae por ella!Que ledas horas lhe vão!Panenioxe é guerreiroDa velha, dura nação,[13]Cayavaba ha já sentidoA sua lança e facão.[14]Vem de longe, chega á portaDo afamado capitão;Deixa a lança e o cavallo,Entra com seu coração.A noiva que elle lhe guardaMoça é de nobre feição,Airosa como agil corçaQue corre pelo sertão.Amores eram nascidosNaquella tenra estaçãoEm que a flôr que hade ser flôrInda se fecha em botão.Muitos agora lhe querem,E muitos que fortes são;Niani ao melhor dellesNão dera o seu coração.[15]Casal-os agora, é tempo;Casal-os, nobre ancião!Limpo sangue tem o noivo,Que é filho de capitão.[16]

«—Traze a minha lança, escravo,Que tanto peito abateu;Traze aqui o meu cavalloQue largos campos correu.»«—Lança tens e tens cavalloQue meu velho pae te deu;Mas aonde te vás agoraOnde vais, esposo meu?»«—Vou-me á caça, junto á covaOnde a onça se metteu...»«—Montada no meu cavallo,Vou comtigo, esposo meu.»«—Vou-me ás ribas do Escopil,Que a minha lança varreu...»«—Irei pelejar na guerra,A teu lado, esposo meu.»«—Fica-te ahi na cabanaOnde o meu amor nasceu.»«—Melhor não haver nascidoSe já de todo morreu.»E uma lagrima,—a primeiraDe muitas que ella verteu,—Pela face cobreadaLenta, lenta lhe correu.Enxugal-a, não a enxugaO esposo que já perdeu,Que elle no chão fita os olhos,Como que a voz lhe morreu.Traz o escravo o seu cavalloQue o velho sogro lhe deu;Traz-lhe mais a sua lançaQue tanto peito abateu.Então, recobrando a alma,Que o remorso esmoreceu,Com esta dura palavraÁ esposa lhe respondeu:«—A bocayuva trez vezesNo tronco amadureceu,[17]Desde o dia em que o guerreiroSua esposa recebeu.»«Trez vezes! Amor sobejoNossa vida toda encheu.Fastio me entrou no seio,Fastio que me perdeu.»E pulando no cavallo,Sumiu-se... desapareceu...Pobre moça sem marido,Chora o amor que lhe morreu!

Leva o Paraguay as aguas,Leva-as no mesmo correr,E as aves descem ao campoComo usavam de descer.Tenras flôres, que outro tempoCostumavam de nascer,Nascem; vivem de egual vida;Morrem do mesmo morrer.Niani, pobre viuva,Viuva sem bem o ser,Tanta lagrima choradaJá te não pode valer.Olhos que amor desmaiáraDe um desmaiar que é viver,O choro empana-os agora,Como que vão fenecer.Corpo que fôra robustoNo seu cavallo a correr,De continua dor quebradoMal se póde já suster.Collar de prata não usa,Como usava de trazer;Pulseiras de finas contasTodas as veiu a romper.[18]Que ella, se nada ha mudadoDaquelle eterno viver,Com que a natureza sabeRenascer, permanecer,Toda é outra; a alma lhe morre,Mas de um continuo morrer,E não ha magua mais tristeDe quantas podem doer.Os que out'rora a desejavam,Antes della mal haver,Vendo que chora e padece,Rindo se põem a dizer:«—Remador vai na canoa,Canoa vae a descer...Piranha espiou do fundoPiranha, que o vae comer.Ninguem se fie da brazaQue os olhos veem arder,Sereno que cae de noiteHa de fazel-a morrer.Panenioxe, Panenioxe,Não lhe sabias querer.Quem te pagára esse golpeQue lhe vieste fazer!»

Um dia,—era sobre tarde,Ia-se o sol a afundar;Calumby cerrava as folhasPara melhor as guardar.Vem cavaleiro de longeE á porta vai apear.Traz o rosto carregado,Como a noite sem luar.Chega-se á pobre da moçaE assim começa a falar:«—Guaycurú dói-lhe no peitoTristeza de envergonhar.Esposo que te ha fugidoHoje se vae a casar;Noiva não é de alto sangue,Porém de sangue vulgar.»Ergue-se a moça de um pulo,Arrebatada, e no olharRebenta-lhe uma faiscaComo de luz a expirar.Menino escravo que tinhaAcerta de ali passar;Niani attentando nelleChama-o para o seu logar.«—Cativo és tu; serás livre,Mas vaes o nome trocar;Nome avesso te pozeram...Panenioxe has de ficar.»Pela face cobreadaDesce, desce com vagarUma lagrima: era a ultimaQue lhe restava chorar.Longo tempo alli ficára,Sem se mover nem fallar;Os que a veem naquella magoaNem ousam de a consolar.Depois um longo suspiro,E ia a moça a expirar...O sol de todo morriaE ennegrecia-se o ar.Pintam-n'a de vivas cores,E lhe lançam um collar;[19]Em fina esteira de juncoLogo a vão amortalhar.O triste pae suspirandoNos braços a vae tomar,Deita-a sobre o seu cavalloE a leva para enterrar.Na terra em que dorme agoraJusto lhe era descançar,Que pagou foro da vidaCom muito e muito penar.Que assim se morre de amoresAonde habita o jaguar,Como as princesas morriamPelas terras de além-mar.

...essa mesma foi levadacaptiva para uma terra estranha.

...essa mesma foi levadacaptiva para uma terra estranha.

NAUM, cap. III, v. 10

Olhos fitos no céu, sentado á porta,O velho pae estava. Um luar frouxoVinha beijar-lhe a veneranda barbaAlva e longa, que o peito lhe cobria,Como a nevoa na encosta da montanhaAo destoucar da aurora. Alta ia a noite,E silenciosa: a praia era deserta,Ouvia-se o bater pausado e longoDa somnolenta vaga,—unico e tristeSom que a mudez quebrava á natureza.

Assim talvez nas solidões sombriasDa velha PalestinaUm propheta no espirito volveraAs desgraças da patria. Quão remotaAquella de seus paes sagrada terra,Quão differente desta em que ha vividoOs seus dias melhores! Vago e doce,Este luar não allumia os serrosEstereis, nem as ultimas ruinas,Nem as ermas planicies, nem aquelleMorno silencio da região que fôraE que a historia de todo amortalhára.Ó torrentes antigas! aguas santasDe Cedron! Já talvez o sol que passa,E vê nascer e vê morrer as flôres,Todas no leito vos seccou, em quantoEstas murmuram placidas e cheias,E vão contando ás deleitosas praiasEsperanças futuras. Longo e longoO devolver dos seculosSerá, primeiro que a memoria do homemTeça a mortalha friaDa região que inda tinge o albor da aurora.

Talvez, talvez no espirito fechadoDo ancião vagueavam lentamenteEstas ideias tristes. Junto á praiaEra a austera mansão, donde se viaDesenrolarem-se as serenas vagasDo nosso golpho azul. Não a enfeitavamAs galas da opulencia, nem os olhosEntristecia co'o medonho aspectoDa miseria; não pródiga nem surdaA fortuna lhe fora, mas aquellaMediana sobria, que os desejosContenta do philosopho, lhe haviaDoirado os tectos. Guanabara aindaNão era a flôr abertaDa nossa edade; era botão apenas,Que rompia do hastil, nascido á beiraDe suas ondas mansas. Simples e rude,Ia brotando a juvenil cidade,Nestas incultas terras, que a lembrançaRecordava talvez do antigo povo,E o guáu alegre, e as rispidas pelejas,Toda essa vida que morreu.

SentadaAos pés do velho estava a amada filha,Bella como a açucena dos Cantares,Como a rosa dos campos. A cabeçaNos joelhos do pae reclina a moça,E deixa resvalar o pensamentoRio abaixo das longas esperançasE namorados sonhos. Negros olhosPor entre os mal fechadosCilios estende á serra que recortaAo longe o céu. Morena é a face lindaE levemente pallida. Mais bella,Nem mais suave era a formosa RuthAnte o rico Booz, do que essa virgem,Flôr que Israel brotou do antigo tronco,Corada ao sol da juvenil America.

Mudos viam correr aquellas horasDa noite, os dous: ele voltando o rostoAo passado, ella os olhos ao futuro.Cansam-lhe enfim ao pensamento as azasDe ir voando, atravez da espessa treva,Frouxas as colhe, e desce ao campo exiguoDa realidade. A delicada virgemPrimeiro volve a si; os lindos dedosCorre-lhe ao longo da nevada barba,E: «—Pae amigo, que pensar vos levaTão longe a alma?» Estremecendo o velho.«—Curiosa!—lhe disse,—o pensamentoE como as aves passageiras: voaA buscar melhor clima.—Opposto rumoIas tu, alma em flôr, aberta apenas,Tão longe ainda do calor da sesta,Tão remota da noite... Uma esperançaTe sorria talvez? Talvez, quem sabe,Uns namorados olhos que me roubem,Que te levem... Não córes, filha minha!Esquecimento, não; lembrança ao menosFicar-te-ha do paterno affecto; e um dia,Quando eu na terra descansar meus ossos,Haverás doce balsamo no seioDa affeição juvenil... Sim; não te accuso;Ama: é a lei da natureza, eterna!Ama: um homem será da nossa raça...»

Estas palavras taes ouvindo a moça,Turbada os olhos descaiu na terra,E algum tempo ficou calada e triste,Como no azul do céu o astro da noite,Se uma nuvem lhe empana a meio a face.Subito a voz e o rosto alevantando,Com dissimulação,—peccado embora,Mas innocente:—«Olhai, a noite é linda!O vento encrespa mollemente as ondas,E o céu é todo azul e todo estrelas!Formosa, oh! quão formosa a terra minha!Dizei: além desses compridos serros,Além daquelle mar, á orla de outros,Outras como esta vivem?»

Fresca e puraEra-lhe a voz, voz d'alma que sabiaEntrar no coração paterno. A fronteInclina o velho sobre o rosto amadoDe Angela.—Na cabeça osculo santoImprime á filha; e suspirando, os olhosMelancholicamente ao ar levanta,Desce-os e assim murmura:«Vaso é digno de ti, lyrio dos vales,Terra solene e bella. A naturezaAqui pomposa, compassiva e grande,No regaço recebe a alma que choraE o coração que tumido suspira.Comtudo, a sombra pesarosa e erranteDo povo que acabou pranteia aindaAo longo das areias,Onde o mar bate, ou no cerrado bosqueInda povoado das reliquias suas,Que o nome de Tupan confessar podemNo proprio templo augusto. Ultima e forteConsolação é esta do vencidoQue viu tudo perder-se no passado,E unico salva do naufragio imensoO seu Deus. Patria não. Uma ha na terraQue eu nunca vi... Hoje é ruina tudo,E viuvez e morte. Um tempo, emtanto,Bella e forte ella foi; mas longe, longeOs dias vão da fortaleza e gloriaEscoados de todo como as aguasQue não volvem jamais. Oleo que a unge,Finas telas que a vestem, ataviosDe ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,E a flôr de trigo e mel de que se nutre,Sonhos, são sonhos do propheta. É morta[20]Jerusalem! Oh! quem lhe dera os diasDa passada grandeza, quando a plantaDa senhora das gentes sobre o peitoPousava dos vencidos, quando o nomeDo que ha salvo Israel, Moysés...»«—Não! Christo,Filho de Deus! Só elle ha salvo os homens!»Isto dizendo, a delicada virgemAs mãos postas ergueu. Uma palavraNão disse mais; no coração, emtanto,Murmurava uma prece silenciosa,Ardente e viva, como a fé que a animaOu como a luz da lampadaA que não faltou oleo.

TaciturnoEsteve longo tempo o ancião. AquellaAlma infeliz nem toda era de ChristoNem toda de Moyses; ouvia attentoA palavra da Lei, como nos diasDo eleito povo; mas a doce notaDo Evangelho não raro lhe batiaNo alvoroçado peito,Solemnissima e pura... DescambavaNo entanto a lua. A noite era mais linda,E mais augusta a solidão. Na alcovaEntre a pallida moça. Da paredeUm Christo pende; ela os joelhos dobra,Os dedos cruza e reza,—não serena,Nem alegre tambem, como costuma,Mas a tremer-lhe nos formosos olhosUma lagrima.

A lampada accendidaSobre a meza do velho, as largas folhasAllumia de um livro. O maximo eraDos livros todos. A escolhida laudaEra a do canto dos captivos que iamPelas ribas do Euphrates, relembrandoAs desgraças da patria. A sós, com elles,Suspira o velho aquelle psalmo antigo:Junto os rios da terra amaldiçoadaDe Babylonia, um dia nos sentamos,Com saudades de Sião amada.As harpas nos salgueiros penduramos,E ao relembrarmos os extintos diasAs lagrimas dos olhos desatamos.Os que nos davam cruas agoniasDe captiveiro, alli nos perguntavamPelas nossas antigas harmonias.E diziamos nós aos que fallavam:«Como em terra de exilio amargo e duroCantar os hymnos que ao Senhor louvavam?»Jerusalem, se inda n'um sol futuro,Eu desviar de ti meu pensamentoE teu nome entregar a olvido escuro,A minha dextra a frio esquecimentoVotada seja; apegue-se á gargantaEsta lingua infiel, se um só momentoMe não lembrar de ti, se a grande e santaJerusalem não for minha alegriaMelhor no meio de miseria tanta.Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle diaDa abatida Sião, lembra-lh'o aos durosFilhos de Edom, e á voz que alli dizia:Arruinai-a, arruinai-a; os murosArrazemol-os todos; só lhe basteUm montão de destroços mal seguros.Filha de Babylonia, que peccaste,Abençoado o que se houver comtigoCom a mesma oppressão que nos mostraste!Abençoado o barbaro inimigoQue os tenros filhos teus ás mãos tomando,Os for, por teu justissimo castigo,Contra um duro penedo esmigalhando!

Era naquella doce e amavel horaEm que vem branqueando a alva celeste,Quando parece que remoça a vidaE toda se espreguiça a natureza.Alva neblina que espalhara a noiteFrouxamente nos ares se dissolve,Como de uns olhos tristesFoge co'o tempo a já ligeira sombraDe consoladas maguas. Vida é tudo.E pompa e graça natural da terra,Mas que não seja no ermo,Onde seus olhos rutilos espraiaLivres a aurora, sem tocar vestigiosDe obras caducas do homem, onde as aguasDo rio bebe a fugitiva corça,Vivo aroma nos ares se difunde,E aves, e aves de infinitas coresVoando vão e revoando tornam,Inda senhoras da amplidão que é sua,Donde as hade fugir o homem um diaQuando a agreste solidão entrar o passoCreador que derruba. Já de todoNado era o sol; e á viva luz que innundaEstes meus patrios morros e estas praias,Sorrindo a terra moçaNoiva parece que o virgineo seioEntrega ao beijo nupcial do amado.E hade os funebres véus lançar a morteNa verdura do campo? A naturezaA nota vibrará da extrema angustiaNeste festivo cantico de graçasAo sol que nasce, ao Creador que o envia,Como renovação de juventude?

Coava o sol pela miuda e finaGelosia da alcova em que se aprestaA recente christã. Singelas roupasTraja da ingenua cor que a naturezaPintou nas plumas que primeiro brotaO seu patrio guará. Vinculo frouxoMal lhe segura a luzidia trança,Como ao desdem lançadaSôbre a espadua gentil. Joia nenhuma,Mais que seus olhos meigos, e essa doceModestia natural, encanto, enlevo,Casta flôr que aborrece os mimos do horto,E ama livre nascer no campo, á larga,Rustica, mas formosa. Não lhe ensombramAs tristezas da vespera o semblante,Nem da secreta lagrima na faceFicou vestigio.—Descuidosa e alegre,Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,E repete baixinho um nome... Oh! se elleEspreital-a pudesse ali risonha,A sós comsigo, entre o seu Christo e as flôresColhidas ao tombar da extincta noite,E vecejantes inda!

De repente,Aos ouvidos da moça enamoradaChega um surdo rumor de soltas vozes,Que ora crescendo vae, ora se apaga,Extranho, desusado. Eram... São elles,Os francezes, que vem de longes praiasA cobiçar a perola mimosa,Nictheroy, na alva-azul concha nascidaDe suas aguas recatadas. RegeO atrevido Duclerc a flôr dos nobres,Cuja tez branca requeimára o fogoQue o vivo sol dos tropicos dardeja,E a lufada dos ventos do oceano.Cobiçam-te elles, minha terra amada,Como quando nas faixas sempre-verdesEras envolta; e rude, inda que bello,O aspecto havias que poliu mais tardeA clara mão do tempo. Inda repetemOs ecos do reconcavo os suspirosDos que vieram a buscar a morte,E a receberam dos varões possantesCompanheiros de Estacio. A todos elles,Prole de Luso ou geração da Gallia,Captivara-os a nayade escondida,E o sol os viu travados nessa longaE sangrenta porfia, cujo premioEra teu verde, candido regaço.Triunphára o trabuco lusitanoNaquele exticnto seculo. Vencido,O pavilhão francez volvera á patria,Pela agua arrastando o longo crepeDe suas tristes, mortas esperanças.Que vento novo o desfraldou nos ares?

Angela ouvira as vozes da cidade,As vozes do furor. Já receiosa,Tremula, foge á alcova e se encaminhaÁ camera paterna. Ia transpondoA franqueada porta... e pára. O peitoRompe-lh'o quasi o coração,—tamanhoÉ o palpitar, um palpitar de gosto,De sorpresa e de susto. Aquelles olhos,Aquella graça mascula do gesto,Graça e olhos são delle, o amado noivo,Que entre os mais homens elegeu sua almaPara o vínculo eterno... Sim, que a mortePóde arrancar ao seio humano o alentoUltimo e derradeiro; os que deverasUnidos foram, volverão unidosA mergulhar na eternidade. EstavaJunto do velho pae o gentil moço,Elle todo agitado, o ancião sombrio,Calados ambos. A attitude de ambos,O mysterioso, gelido silencio,Mais que tudo, a presença nunca usadaDaquelle homem ali, que mal a espreitaDe longe e a furto, nos instantes brevesEm que lhe é dado vel-a, tudo á moçaO animo abala e o coração enfia.

Mas o tropel de fóra avulta e cresceE os tres accorda. A virgem, lentamente,Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaçoQue dos dous a separa... O tenro colloCurva ante o pae, e na enrugada dextraO osculo imprime, herdada usança antigaDe filial respeito. As mãos lhe tomaEnternecido o velho; olhos com olhosAlguns instantes rapidos ficaram,Até que elle, voltando o rosto ao moço:«—Perdoai,—disse,—se o paterno affectoMe atou a lingua. Vacillar é justoQuando á pobre ruina a flôr lhe pedemQue unica lhe nasceu,—unica adornaA aridez melancholica do extremo,Pallido sol... Não protesteis! Roubal-a,Arrancal-a aos meus ultimos instantes,Não o fareis de certo. Pouco importaDês que a metade lhe levaes da vida,Dês que seu coração, comvosco parteAffeições minhas.—Ao demais, o sangueQue lhe corre nas veias, condemnado,Nuno, será dos vossos...» Longo e frioOlhar estas palavras acompanha,Como a arrancar-lhe o pensamento interno.A donzella estremece. Nuno o alentoRecobra e falla: «Puro sangue é elle,Se lhe corre nas veias. Tão mimosa,Candida creatura, alma tão casta,Inda nascida entre os incréos da Arabia,Deus a votara á conversão e á vidaDos eleitos do céu. Aguas sagradasQue a lavaram no berço, já nas veiasO sangue velho e impuro lhe trocaramPelo sangue de Christo...»

Neste instanteCresce o tumulto exterior. A virgemMedrosa toda se conchega ao colloDo velho pae. «Ouvis? Fallae! é tempo!Nuno prossegue.—Este commum perigoChama os varões á rispida batalha;Com elles vou. Se um galardão, emtanto,Merecer de meus feitos, não á patriaIrei pedil-o; só de vós o espero,Não o melhor, mas o unico na terra,Que a minha vida...» Rematar não pôdeEsta palavra. Ao escutar-lhe a novaDa imminente pelejaE a decisão de combater por ella,Inteiras sente as forças que se perdemA donzella, e bem como ao rijo ventoInclina o collo o arbustoNos braços desmaiou do pae. VolvidaA si, na pallidez do rosto o velhoAttenta um pouco, e suspirando: «As armasEmpunhae; combatei; Angela é vossa.Não de mim a havereis: ella a si mesmaToda nas vossas mãos se entrega. MortaOu feliz é a escolha; não vacillo:Seja feliz, e folgarei com ella...»

Sobre a fronte dos dous, as mãos impondo,Ao seio os conchegou, bem como a tendaDo patriarcha santo agasalhavaO moço Isaac e a delicada virgemQue entre os rios nasceu. Delicioso[21]E solemne era o quadro; mas solemneE delicioso embora, ia esvair-seQual celeste visão, que accende a espaçosO animo do infeliz. A guerra, a duraNecessidade de immolar os homens,Por salvar homens, a terrivel guerraCorta o amoroso vinculo que os prendeE á moça o riso lhe converte em lagrimas.Misera és tu, pallida flôr; mas soffreQue o calor deste sol te acurve o calix,Morta, não, nem já murcha,—mas apenasComo cançada de queimor do estio.Soffre; a tarde virá serena e brandaA reviver-te o alento; a fresca noiteChoverá sobre ti piedoso orvalhomais risonha surgirás á aurora.

Foge á estancia da paz o hardido moço;Esperança, fortuna, amor e patriaA guerrear o levam. Já nas veiasO vivo sangue irrequieto pulsa,Como ancioso de correr por ambas,A bella terra e a suspirada noiva.Triste quadro a seus olhos se apresenta;Nos femininos rostos vê pintadosIncerteza e terror; lamentos, gritosSoam de entorno. Voam pelas ruasHomens de guerra; homens de paz se aprestamPara a crua peleja; e, ou nobre estancia,Ou choupana rasteira, armado é tudoContra a forte invasão. Nem lá se deixaQuieto, a sós com Deus, na estreita cella,O solitario monge que ás batalhasFugiu da vida. O patrimonio santoCumpre salval-o. Cruz e espada empunha,Deixa a serena região da preceE voa ao torvelinho do combate.

Entre os fortes alumnos que dirigeO ardido Bento, a perfilar-se corre[22]Nuno. Estes são os que o primeiro golpeDescarregam no attonito inimigo.Do militar officio ignoram tudo,De armas não sabem; mas o brio e a honraE a lembrança da terra em que primeiroViram a luz, e onde o perdel-a é doce,Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigoDo nobre esforço e galhardia rara,Com que inda nos humbraes da vida que ornaTanta esperança, tanto sonho de ouro,Resolutos a morte encaram, prestesA retalhar nas dobrasDa vestidura funebre da patriaO piedoso lençol que os leve á campa,Ou com ella cingir o eterno louro.

Ó mocidade, ó baluarte vivoDa cara patria! Já perdida é ella,Quando em teu peito enthusiasmo santoE puro amor se extingue, e áquelle nobre,Generoso despejo e ardor antigoSuccede o frio calcular, e o torpeEgoismo, e quanto ha hi no humano peito,Que é fructo nosso e podre... Muitos caemMortos alli. Que importa? Vão seguindoAvante os bravos, que a invasão caminhaImplacavel e dura, como a morte,A pelejar e a destruir. TingidasRuas de extranho sangueE sangue nosso, lacerados membros,Corpos de que ha fugido a alma cançada,E o denso fumo e os funebres lamentos,Quem nessa confusão, miseria e gloriaConhecerá da juvenil cidadeO aspecto, a vida? Aqui da infancia os diasNuno vivêra, á vecejante sombraDo seu patrio arvoredo, ao som das vagasQue inda batendo vão na amada areia;Risos, jogos da verde meninice,Esta praia lhe lembra, aquella pedra,A mangueira do campo, a tosca cercaDe espinheiro e de flôres enlaçadas,A ave que voa, a brisa que suspira,Que suspira como elle ha suspirado,Quando rompendo o coração do peitoIa-lhe empós dessa visão divina,Realidade agora... E ha de perdel-asPatria e noiva? Esta ideia lhe esvoaçaTorva e surda no cerebro do moço,E ao contrahido espirito redobraImpeto e forças. RompePor entre a multidão dos seus, e investeContra o duro inimigo; as balas voam,E com ellas a morte, que não sabeDos escolhidos seus a terra e o sangue,E indistinctos os toma; elle, no meioDaquelle horrivel turbilhão, pareceQue a faisca do genio o leva e anima,Que a fortuna o votára á gloria.

SoamEnfim os gritos de triunmpho; e o peitoDo povo que lutou respira á larga,Como ao que, após ardua subida, chegaAo cimo da montanha, e ao longe os olhosEstende pelo azul dos céus, e a vidaBebe nesse ar mais puro. Farto sangueA victoria custára; mas, se em meioDe tanta gloria ha lagrimas, soluços,Gemidos de viuvez, quem os escuta,Quem as vê essas lagrimas choradasNa multidão da praça que trovejaE folga e ri? O sacro bronze que usaOs fieis convidar á prece, e a morteDo homem pranteia lugubre e solemne,Ora festivo cantaO comum regosijo; e pela abertaPorta dos templos entra a frouxo o povoA agradecer com lagrimas e vozesO triumpho,—piedoso instincto da alma,Que a Deus levanta o pensamento e as graças.

Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado,Voa nas asas rutilas e levesDa fortuna e do amor. Como ao indiano,Que, ao regressar das porfiadas lutas,Por estas mesmas regiões entrava,A encontral-o saía a meiga esposa,—A recente christã, entre assustadaE jubilosa coroará teus feitosCo'a melhor das capelas que hão pousadoEm fronte de varão,—um doce e longoOlhar que inteiro encerra a alma que choraDe gosto e vida! Voa o moço á estanciaDo ancião; e ao pôr na suspirada portaOlhos que traz famintos de encontral-a,Frio terror lhe empece os membros. FrouxoIa o sol transmontando; lenta a vagaMelancholicamente ali gemia,E todo o ar parecia arfar de morte.Qual se pallida a víra, já cerradosOs desmaiados olhos,Frios os doces labiosCansados de pedir aos céus por elle,Nuno estacára; e pelo rosto em fioO suor lhe caiu da extrema angustia;Longo tempo vacilla;Vence-se emfim, e entra a mansão da esposa.

Quatro vultos na camara paternaEram. O pae sentado,Calado e triste. Reclinada a fronteNo espaldar da cadeira, a filha os olhosE o rosto esconde, mas tremor continuoDe um abafado soluçar o esbeltoCorpo lhe agita. Nuno aos dous se chega;Ia a fallar, quando a formosa virgem,Os lacrimosos olhos levantando,Um grito solta do intimo do peitoE se lhe prostra aos pés: «Oh! vivo, és vivo!Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,Aqui te envia... Salva-o tu, se pódes,Salva meu pobre pae!» Estremecendo,Nella e no velho fita Nuno os olhos,E agitado pergunta: «Qual ousadoBraço lhe ameaça a vida?» CavernosaUma voz lhe responde: «O sancto officio!»Volve o mancebo o rostoE o merencorio aspectoDe dous familiares todo o sangueNas veias lhe gelou.

Solemne o velhoCom a voz, não frouxa, mas pausada, falla:«Vês? Todo o brio, todo o amor no peitoTe emudeceu. Só lastimar-me podes,Salvar-me, nunca. O carcere me aguarda,E a fogueira talvez; cumpril-a, é tempo,A vontade de Deus. Tu, pae e esposoDa desvalida filha que ahi deixo,Nuno, serás. A relembrar com ellaMeu pobre nome, applacareis a immensaColera do Senhor...» Sorrindo ironico,Estas palavras ultimas lhe caemDos labios tristes. Ergue-se: «Partamos!Adeus! Negou-me Aquelle que no campoDeixa a arvore ancian perder as folhasNo mesmo ponto em que as nutriu viçosas,Negou-me ver por estas longas serrasIr-se-me o ultimo sol. Brando regaçoA filial piedade me dariaEm que eu dormisse o derradeiro somno,E em braços de meu sangue transportadoFora em horas de paz e de silencioLevado ao leito extremo e eterno. ViveAo menos tu...»

Um familiar lhe cortaO adeus ultimo: «Vamos: é já tempo!»Resignado o infeliz, ao seio apertaA filha, e todo o coração n'um beijoLhe transmitiu, e a caminhar começa.Angela os lindos braços sobre os hombrosTrava do austero pae; flôres dissereisDe parasita, que enroscou seus ramosPelo cançado tronco, esteril, seccoDe arvore antiga: «Nunca! Hão de primeiroA alma arrancar-me! Ou se heis peccado, e a mortePena hade ser da commettida culpa,Convosco descerei á campa fria,Juntos a mergulhar na eternidade.Israel tem vertidoUm mar de sangue. Embora! á tona delleVerdeja a nossa fé, a fé que anima[23]O eleito povo, flôr suave e bellaQue o medo não desfolha, nem já seccaAo vento mau da colera dos homens!»

Trémula a voz do peito lhe saía.Das mãos lhe trava um dos algozes. EllaEntrega-se risonha,Como se o calix da amargura extremaPelos meles da vida lhe trocassemCeleste e eterna. O coração do moçoLatejava de espanto e susto. Os olhosPousa na filha o desvairado velho.Que ouviu?—Attenta nella; o lindo rostoO céu não busca jubiloso e livre,Antes, como travado de agra pena,Pende-lhe agora ao chão. Dizia acasoEntre si mesma uma oração, e o nomeDe Jesus repetia, mas tão baixo,Que o coração do pae mal pôde ouvir-lh'o.Mas ouviu-lh'o; e tão forte amor, tamanhoSacrificio da vida a alma lhe rasgaE deslumbra. Escoou-se um breve tempoDe silencio; elle e ella, os tristes noivos,Como se a eterna noite os recebêra,Gelados eram; levantar não ousamUm para o outro os arrasados olhosDe mal contidas e teimosas lagrimas.

Nuno, enfim, lentamente e a custo arrancaDo coração estas palavras: «FôraMisericordia ao menos confessal-oQuando ao fogo do barbaro inimigoMe era facil deixar o derradeiroSopro da vida. Premio é este acasoDe tamanho lidar? Que mal te hei feito,Por que me dês tão barbara e medonhaMorte, como esta, em que o cadaver guardaInteiro o pensamento, inteiro o aspectoDa vida que fugiu?» Angela os olhosMagoados ergue; arfa-lhe o peito afflicto,Como o dorso da vaga que intumesceA asa da tempestade. «Adeus!» suspira,E a fronte abriga no paterno seio.


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