Chapter 6

O rebelde ancião, domado emtanto,Afracar-se-lhe sente dentro d'almaO sentimento velho que beberaCom o leite dos seus; e sem que o labioTransmitta a ouvidos de homemO duvidar do coração, murmuraDentro de si: «Tão poderosa é essaIngenua fé, que inda negando o nomeDo seu Deus, confiada acceita a morte,E guarda puro o sentimento internoCom que o véu rasgará da eternidade?Ó Nazareno, ó filho do mysterio,Se é tua lei a unica da vidaEscreve-m'a no peito; e dá que eu vejaMorrer commigo a filha de meus olhosE unidos irmos, pela porta immensaDo teu perdão, á eternidade tua!»

Mergulhára de todo o sol no occaso,E a noite, clara, deliciosa e bella,A cidade cobriu,—não socegada,Como costuma,—porém leda e viva,Cheia de luz, de cantos e rumores,Victoriosa enfim. Elles, calados,Foram por entre a multidão alegre,A penetrar o carcere sombrio.Donde ao mar passarão, que os leve ás praiasDa ancian Europa. Carregado o rosto,Ia o pae; ella, não. Serena e meiga,Entra affouta o caminho da amargura,A custo soffreando internas maguasDa amarga vida, breve flôr como ella,Que inda mais breve a mente lhe affigura.Anjo, descera da região celesteA pairar sobre o abysmo; anjo, subiaDe novo á esphera luminosa e eterna,Patria sua. Levar-lhe-ha Deus em contaO muito amor e o padecer extremo,Quando romper a tunica da vidaE o silencio immortal fechar seus labios.

De tantos olhos que o brilhante lumeViram do sol amortecer no occaso,Quantos verão nas orlas do horizonteResplandecer a aurora?Innumeras, no mar da eternidade,As gerações humanas vão cahindo;Sobre ellas vae lançando o esquecimentoA pesada mortalha.Da agitação esteril em que as forçasConsumiram da vida, raro apenasUm eco chega aos seculos remotos,E o mesmo tempo o apaga.Vivos transmite a popular memoriaO genio creador e a sã virtude,Os que o patrio torrão honrar souberam,E honrar a especie humana.Vivo irás tu, egregio e nobre Andrada!Tu, cujo nome, entre os que á pátria deramO baptismo da amada independencia,Perpetuamente fulge.O engenho, as forças, o saber, a vidaTu votaste á liberdade nossa,Que a teus olhos nasceu, e que teus olhosInconcussa deixaram.Nunca interesse vil manchou teu nome,Nem abjectas paixões; teu peito illustreNa viva chamma ardeu que os homens levaAo sacrificio honrado.Se teus restos ha muito que repousamNo pó commum das gerações extinctas,A patria livre que legaste aos netosE te venera e ama,Nem a face mortal consente á morteQue te roube, e no bronze redivivoO austero vulto restitue aos olhosDas vindouras edades.«Vede (lhes diz) o cidadão que teveLarga parte no largo monumentoDa liberdade, a cujo seio os povosDo Brasil te acolheram.»«Póde o tempo varrer, um dia, ao longe,A fabrica robusta; mas os nomesDos que o fundaram viverão eternos,E viverás, Andrada!»

Prestes de novo a batalhar, chegavamOs valentes guerreiros. Mas onde elle,O duro chefe da indomavel tribu,O senhor das montanhas? AffirmavaTatupeba que o vira, antes da aurora,Erguer-se, e ao longo do visinho rio,Por algum tempo caminhar calado,Como se o abafára um pensamentoE lhe impedíra o somno. Vão receioDe batalhar? Oh! não! Quasi na infancia,A torva catadura viu da guerra,Officio de homens, que aprendeu brincandoCom seu pae, extremado entre os guerreiros,E na bravura e na prudencia; a frechaNinguem soubera menear como elle,Nem mais veloz nem mais certeira nunca.A lentos passos caminhando chega,Enfim, o bravo Jaciuca. TorvoE mereneorio traz o duro aspecto.«—Vamos (diz elle) a descansar na taba,Entre festas e dansas; penduremosAs armas nossas, que sobeja ha sidoA gloria, e a doce paz nos chama.»Leve,Surdo rumor entre os guerreiros soa;Vai subindo, é rugido, é já tumulto,Como o grunhir de tajassús no matto,Que se approxima e cresce. JaciucaOlhos quietos pelo campo estende;Seu feio rosto é como a rocha duraQue o raio quebra, mas não lasca o vento.Fecha os labios e pensativo espera.Tatupeba, que a raiva a custo esconde,Ergue-se então; crava-lhe os fulvos olhos,Como a afiada ponta de uma frecha.Seu porte, entre os irmãos, semelha á vistaJequitibá robusto; mais que todos,Terror inspira e universal respeito.Ergue-se e fala:—«Longos soes hei visto,Pelejei muitas guerras; a meu ladoVi cair mais valentes do que folhasArranca o furacão; mas nunca o animoDos lidadores abalou a palavraComo essa tua; nunca os braços nossosFicar deixaram nos desertos camposOs ossos não vingados dos guerreiros.Que genio mau te insinuou tal crime?»Assim fallando, Tatupeba o soloCom a planta feriu. Os olhos todosPendem da boca do sombrio chefe.Silencioso Jaciuca ouviraAs fallas do guerreiro; silenciosoE quieto ficou. Após instantes,A fronte sacudiu, como expellindoIdeias más que o cerebro lhe turvam,E a voz lhe rompe do intimo do peito.«Ó guerreiros (diz elle), aqui deitadosEstivestes a noite, e toda inteiraA dormistes de certo; eu, não distante,Do rio á margem a trabalhar commigo,Afiava na mente atra vingança;Até que os frouxos membros descaíramSobre a macia relva, e um tempo largoAssim fiquei entre vigilia e somno.Viam meus olhos ondular as aguas,Mas no alheado pensamento os ecosSussurravam da infancia. Um genio amigoAos tempos me levava em que no rostoDe meu pae aprendi, com frio pasmo,A rara intrepidez, válida herança,Que tanto custa ao perfido inimigo.»«De repente, uma luz pallida e tristeInunda o campo: transparente nevoaE luminosa aquillo parecia,Ou baço reflectir da branca luaQue nuvens cobrem. Livido e curvado,Içayba a meus olhos apparece.Vi-o qual era antes da fria morte;Só a expressão do rosto lhe mudára;Energicas não tinha, mas serenasAs feições. «Vem comigo!» Assim me fallaO extincto bravo; e, subito estreitandoAo peito o corpo do saudoso amigo,Juntos voámos á região das nuvens.«Olha!» disse Içayba, e o braço alongaPara a terra. Ó guerreiros! largo espaçoEra prêsa de alheio senhorio.Fitei os olhos mais; e pouco a pouco,Como enche o rio e todo o campo alaga,Umas gentes extranhas se estendiamDe sertão em sertão. Presas do fogoAs mattas vi, abrigo do guerreiro,E ao torvo incendio e ás invasões da morteVi as tribus fugir, ceder a custo,Com lagrimas alguns, todos com sangue,A virgem terra ao barbaro inimigo.Mau vento os trouxe de remota praiaAquelles homens novos, jamais vistosDe guerreiro ancião, a quem não coubeSequer a gloria de morrer contenteE todo reviver na ousada prole.Era o termo da vida que chegáraAo povo de Tupan! Grito de morteUnico enchia os ares,—um suspiroDe tristeza e terror, que reboavaPelos recessos da floresta antigaE talvez ameigava o peito ás feras...Surdos os manitós deixado haviamOs seus fortes heroes; surdos se foramEntre os genios folgar da raça nova,E rir talvez das lagrimas choradasPelos olhos das virgens... Oh! se ao menosFora pranto de livres! Era a morteA menor das angustias; vi curvadaE captiva rojar no po da terraA fronte do guerreiro, agora altiva,Livre, como o condor que frecha as nuvens;Não kanitar a cinge, mas vergonha,Melancholico adorno do vencido.O rosto desviei do extranho quadro.«Olha!» repete o pallido Içayba.Olhei de novo, e na saudosa taba,Que os nossos arcos defender souberam,Em vez da sombra do piaga santo,Que, ao som do maracá, colhia as vozesDo pensamento eterno, e as infundiaNo seio do guerreiro, como o fumoDo petum lhe dobrava impeto e força,Um vulto descobri de vestes negras,Nua quasi a cabeça, e cor de espumaAlguns cabellos raros. Tinha o rostoAlvo e quieto. Em suas mãos sustinhaExtenso lenho com dois curtos braços.Ia só; todo o campo era deserto.Nem um guerreiro! um arco!«—A tribu?»—«Extinta!»«A tal palavra, uma pesada sombraA vista me apagou, e pela faceSenti rolar a lagrima primeira.O sinistro espectaculo mudára.Ao dissipar-se a nuvem de meus olhosAchei-me junto do visinho rio,Reclinado como antes, e defronteA pallida figura de Içayba.«—Torna á taba, me disse o extincto moço;«Luas e luas volverão no espaço«Antes da morte, mas a morte é certa,«E terrivel será. Nação bem outra,«Sobre as ruinas da valente raça«Virá sentar-se, e brilhará na terra«Gloriosa e rica. Uma chorada lagrima,«Talvez, talvez, no meio de triunphos«Ha de ser a tardia, escassa paga«Da morte nossa. Poupa ao menos essa«Derradeira esperança de guardal-o«Todo o valor para o supremo dia«E com honra ceder a extranhas hostes;«Salva ao menos as ultimas reliquias«Desta nação vencida; não se rasguem«Peitos que irmãos ao mesmo sol nasceram«E Anhangá fez contrarios... Todos elles[24]«Poucos serão para a tremenda luta,«Mas de sobra hão de ser para choral-a.»«Assim fallára o pallido Içayba;Alguns instantes contemplou meu rosto,Calado e firme. A cachoeira ao longeInterrompia apenas o silencio;E eu morto, eu mesmo me sentia morto.Elle um triste suspiro magoadoSoltou do peito; os apagados olhosÁs estrellas ergueu, sereno e triste,E de novo rompendo o voo aos ares,Como uma frecha penetrou nas nuvens.»

Ninguém virá, com titubeastes passos.E os olhos lacrimosos, procurandoO meu jazigo...

Ninguém virá, com titubeastes passos.E os olhos lacrimosos, procurandoO meu jazigo...

GONÇALVES DIAS.—Últimos Cantos.

Tu vive e gosa a luz serena e pura.

J. BAZILIO DA GAMA.—Uraguai, c. V.

Assim vagou por alongados climas,E do naufragio os humidos vestidosAo calor enxugou de extranhos laresO lusitano vate. Acerbas penasCurtiu naquelas regiões; e o Ganges,Se o viu chorar, não viu pousar calada,Como a harpa dos exules profetas,A heroica tuba. Elle a embocou, vencendoCo'a lembrança do ninho seu paterno,Longas saudades e miserias tantas.Que monta o padecer? Um só momentoAs maguas lhe pagou da vida; a patriaReviu, apoz a suspirar por ella;E a velha terra suaO despojo mortal cobriu piedosaE de sobejo o compensou de ingratos.Mas tu, cantor da America, roubadoTão cedo ao nosso orgulho, não te coubeNa terra em que primeiro houveste o lumeDo nosso sol, achar o ultimo leito!Não te coube dormir no chão amado,Onde a luz frouxa da serena lua,Por noite silenciosa, entre a folhagemCoasse os raios humidos e frios,Com que ella chora os mortos... derradeirasLagrimas certas que terá na campaO infeliz que não deixa sobre a terraUm coração ao menos que o pranteie.Vinha contudo o pallido poetaOs desmaiados olhos estendendoPela azul extensão das grandes aguas,A pesquizar ao longe o esquivo fumoDos patrios tectos. Na abatida fronteAve da morte as asas lhe roçára;A vida não cobrou nos ares novos,A vida, que em vigilias e trabalhos,Em prol dos seus, gastou por longos annos,Co'essa largueza de animo fadadoA entornar generoso a vital seiva.Mas, que importava a morte, se era doceMorrel-a á sombra deliciosa e amigaDos coqueiros da terra, ouvindo acasoNo murmurar dos rios,Ou nos suspiros do nocturno vento,Um eco melancholico dos cantosQue elle outrora entoára? Traz do exilioUm livro, monumento derradeiroQue á patria levantou; alli reviveToda a memoria do valente povoDos seus Tymbiras...Subito, nas ondasBate os pés, espumante e desabrido,O corcel da tormenta; o horror da morteEnfia o rosto aos nautas... Quem por elle,Um momento hesitou quando na fragilTabua confiou a unica esperançaDa existencia? Mysterio obscuro é esseQue o mar não revellou. Ali sosinho,Travou naquella solidão das aguasO duello tremendo, em que a alma e corpoAs suas forças ultimas despendemPela vida da terra e pela vidaDa eternidade. Quanta imagem torva,Pelo turbado espirito batendoAs fuscas azas, lhe tornou mais tristeAquelle instante funebre! SuaveÉ o arranco final, quando o já frouxoOlhar contempla as lagrimas do affecto,E a cabeça repousa em seio amigo.Nem affectos nem prantos; mas somenteA noite, o medo, a solidão e a morte.A alma que alli morava, ingenua e meiga,Naquele corpo exiguo, abandonou-o,Sem ouvir os soluços da tristeza,Nem o grave salmear que fecha aos mortosO frio chão. Ella o deixou, bem comoHospede mal acceito e mal dormido,Que prossegue a jornada, sem que leveO osculo da partida, sem que deixeNo rosto dos que ficam,—rara embora,—Uma sombra de pallida saudade.Oh! sobre a terra em que pousaste um dia,Alma filha de Deus, ficou teu rastoComo de estrella que perpétua fulge!Não viste as nossas lagrimas; comtudoO coração da patria as ha vertido.Tua gloria as seccou, bem como orvalhoQue a noite amiga derramou nas flôresE o raio enxuga da nascente aurora.Na mansão a que foste, em que ora vives,Has de escutar um eco do concertoDas vozes nossas. Ouvirás, entre ellas,Talvez, em labios de indiana virgem!Esta saudosa e suspirada nenia:«Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da matta, suspirai commigo!»«A grande agua o levou como invejosa.Nenhum pé trilhará seu derradeiroFunebre leito; elle repousa eternoEm sítio onde nem olhos de valentes,Nem mãos de virgens poderão tocar-lheOs frios restos. Sabiá da praiaDe longe o chamará saudoso e meigo,Sem que ele venha repetir-lhe o canto.Morto! é morto o cantor de meus guerreiros!Virgens da matta, suspirai comigo!»Ele houvera do Ybake o dom supremoDe modular nas vozes a ternura,A colera, o valor, tristeza e magua,E repetir aos namorados ecosQuanto vive e reluz no pensamento.Sobre a margem das aguas escondidas,Virgem nenhuma suspirou mais terna,Nem mais válida a voz ergueu na taba,Suas nobres acções cantando aos ventos,O guerreiro tamoyo. Doce e forte,Brotava-lhe do peito a alma divina.Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da matta, suspirai comigo!«Coema, a doce amada de Itajuba,Coema não morreu; a folha ágrestePóde em ramas ornar-lhe a sepultura,E triste o vento suspirar-lhe em torno;Ella perdura a virgem dos Tymbiras,Ella vive entre nós. Airosa e linda,Sua nobre figura adorna as festasE enflora os sonhos dos valentes. Elle,O famoso cantor, quebrou da morteO eterno jugo; e a filha da florestaHade a historia guardar das velhas tabasInda depois das ultimas ruinas.Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da mata, suspirai commigo!«O piaga, que foge a extranhos olhos,E vive e morre na floresta escura,Repita o nome do cantor; nas aguasQue o rio leva ao mar, mande-lhe ao menosUma sentida lagrima, arrancadaDo coração que ele tocára outr'ora,Quando o ouviu palpitar sereno e puro,E na voz celebrou de eternos carmes.Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da matta, suspirai comigo!»

Eis ahi saiu o que semêa a semear...

Eis ahi saiu o que semêa a semear...

MATH., XIII, 3.

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,O doce fruto e a flôr,Acaso esquecereis os asperos e amargosTempos do semeador?Rude era o chão; agreste e longo aquelle dia;Comtudo, esses heroesSouberam resistir na afanosa porfiaAos temporaes e aos soes.Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,E a fé, e as oraçõesFizeram transformar a terra pobre em ricaE os centos em milhões.Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,O frio, a descalcez,O morrer cada dia uma morte sem nome,O morrel-a, talvez,Entre barbaras mãos, como se fora crime,Como se fora réuQuem lhe ensinára aquela ação pura e sublimeDe as levantar ao céu!Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!Vencestel-a; e podeisEntre as dobras dormir da secular mortalha;Vivereis, vivereis!

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?

FIL. ELIS.

Quando a noturna sombra envolve a terraE á paz convida o lavrador cansado,Á fresca brisa o seio delicadoA branca flôr do embiroçú descerra.E das limpidas lagrimas que choraA noite amiga, ella recolhe alguma;A vida bebe na ligeira bruma,Até que rompe no horizonte a aurora.Então, á luz nascente, a flôr modesta,Quando tudo o que vive alma recobra,Languidamente as suas folhas dobra,E busca o somno quando tudo é festa.Suave imagem da alma que suspiraE odeia a turba vã! da alma que senteAgitar-se-lhe a aza impacienteE a novos mundos transportar-se aspira!Tambem ella ama as horas silenciosas,E quando a vida as lutas interrompe,Ella da carne os duros elos rompe,E entrega o seio ás ilusões viçosas.É tudo seu,—tempo, fortuna, espaço,E o céu azul e os seus milhões de estrellas;Abrazada de amor, palpita ao vel-as,E a todas cinge no ideal abraço.O rosto não encara indifferente,Nem a traidora mão candida aperta;Das mentiras da vida se libertaE entra no mundo que jamais não mente.Noite, melhor que o dia, quem não te ama?Labor ingrato, agitação, fadiga,Tudo faz esquecer tua aza amigaQue a alma nos leva onde a ventura a chama.Ama-te a flôr que desabrocha á horaEm que o ultimo olhar o sol lhe estende,Vive, embala-se, orvalha-se, recende,E as folhas cerra quando rompe a aurora.

Mãe dos fructos, Jacy, no alto espaçoEil-a assoma serena e indecisa:Sopro é della esta languida brisaQue sussurra na terra e no mar.Não se mira nas aguas do rio,Nem as ervas do campo branqueia;Vaga e incerta ella vem, como a ideiaQue inda apenas começa a espontar.E iam todos; guerreiros, donzellas,Velhos, moços, as redes deixavam;Rudes gritos na aldeia soavam,Vivos olhos fugiam p'ra o céu:Iam ve-la, Jacy, mãe dos fructos,Que, entre um grupo de brancas estrellas,Mal scintila: nem póde vencel-as,Que inda o rosto lhe cobre amplo véu.E um guerreiro: «Jacy, doce amada,Retempera-me as forças; não vejaOlho adverso, na dura peleja,Este braço já frouxo cair.Vibre a setta, que ao longe derrubaTajassú, que roncando caminha;Nem lhe escape serpente damninha,Nem lhe fuja pesado tapir.»E uma virgem: «Jacy, doce amada,Dobra os galhos, carrega esses ramosDo arvoredo co'as frutas que damosAos valentes guerreiros, que eu vouA buscal-os na mata sombria,Por trazel-os ao moço prudente,Que venceu tanta guerra valente,E estes olhos consigo levou.»E um ancião, que a saudara ja muitos,Muitos dias: «Jacy, doce amada,Dá que seja mais longa a jornada,Dá que eu possa saudar-te o nascer,Quando o filho do filho, que hei vistoTriumphar de inimigo execrando,Possa as pontas de um arco dobrandoContra os arcos contrarios vencer.»E elles riam os fortes guerreiros,E as donzelas e esposas cantavam,E eram risos que d'alma brotavam,E eram cantos de paz e de amor.Rude peito criado nas brenhas,—Rude embora,—terreno é propicio;Que onde o germen lançou beneficioBrota, enfolha, verdeja, abre em flôr.

Sabina era mucama da fazenda;Vinte annos tinha; e na provincia todaNão havia mestiça mais á moda,Com suas roupas de cambraia e renda.Captiva, não entrava na senzala,Nem tinha mãos para trabalho rude;Desbrochava-lhe a sua juventudeEntre carinhos e affeições de sala.Era cria da casa. A sinhá moça,Que com ella brincou sendo menina,Sobre todas amava esta Sabina,Com esse ingenuo e puro amor da roça.Dizem que á noite, a suspirar na cama,Pensa n'ella o feitor; dizem que um dia,Um hospede que alli passado havia,Poz um cordão no collo da mucama.Mas que vale uma joia no pescoço?Não pôde haver o coração da bella.Se alguem lhe acende os olhos de gazella,É pessoa maior: é o senhor moço.Ora, Octavio cursava a Academia.Era um lindo rapaz; a mesma edadeCo'as passageiras flôres o adornavaDe cujo extincto aroma inda a memoriaVive na tarde pallida do outomno.Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivasDa primeira estação, porque tão cedoVoaes de nós? Pudesse ao menos a almaGuardar comsigo as illusões primeiras,Virgindade sem preço, que não pagaEssa descolorida, árida e sêccaExperiencia do homem!Vinte annosTinha Octavio, e a belleza e um ar de corte,E o gesto nobre, e seductor o aspecto;Um vero Adonis, como aqui diriaAlgum poeta classico, d'aquellaPoesia que foi nobre, airosa e grandeEm tempos idos, que ainda bem se foram...Cursava a Academia o moço Octavio;Ia no anno terceiro, não remotoVia desenrolar-se o pergaminho,Premio de seus labores e fadigas;E uma vez bacharel, via mais longeOs curvos braços da feliz cadeiraD'onde o legislador a redea empunhaDos lepidos frisões do Estado. Emtanto,Sobre os livros de estudo, gota a gotaAs horas despendia, e trabalhavaPor metter na cabeça o jus romanoE o patrio jus. Nas suspiradas feriasVolvia ao lar paterno; ali no dorsoDe brioso corsel corria os campos,Ou, arma ao hombro, polvorinho ao lado,Á caça dos veados e cotias,Ia matando o tempo. Algumas vezesCom o padre vigario se entretinhaEm desfiar um ponto de intrincadaPhilosophia, que o senhor de engenho,Feliz pae, escutava glorioso,Como a rever-se no brilhante aspectoDe suas ricas esperanças.EraManhã de estio; erguera-se do leitoOctavio; em quatro sorvos toda esgotaA taça de café. Chapeo de palha,E arma ao hombro, lá foi terreiro fóra,Passarinhar no mato. Ia costeandoO arvoredo que além beirava o rio,A passo curto, e o pensamento á larga,Como leve andorinha que saísseDo ninho, a respirar o hausto primeiroDa manhã. Pela aberta da folhagem,Que inda não doura o sol, uma figuraDeliciosa, um busto sobre as ondasSuspende o caçador. Mãe d'água fôra,Talvez, se a cor de seus quebrados olhosImitasse a do céu; se a tez morena,Morena como a esposa dos Cantares,Alva tivesse; e raios de ouro fossemOs cabellos da cor da noite escura,Que ali soltos e humidos lhe caem,Como um véu sobre o collo. Trigueirinha,Cabello negro, os largos olhos brandosCor de jaboticaba, quem seria,Quem, senão a mucama da fazenda,Sabina, emfim? Logo a conhece Octavio,E n'ella os olhos espantados fitaQue desejos accendem.—Mal cuidandoD'aquelle extranho curioso, a virgemCom os ligeiros braços rompe as aguas,E ora toda se esconde, ora ergue o busto,Talhado pela mão da naturezaSobre o modelo classico. Na oppostaRiba suspira um passarinho; e o cantoE a meia luz, e o sussurrar das aguas,E aquella fada ali, tão doce vidaDavam ao quadro, que o ardente alumnoTrocára por aquillo, uma hora ao menos,A Faculdade, o pergaminho e o resto.Subito erige o corpo a ingenua virgem;Com as mãos, os cabellos sobre a espaduaDeita, e rasgando lentamente as ondas,Para a margem caminha, tão serena,Tão livre como quem de extranhos olhosNão suspeita a cubiça... Véu da noite,Se lh'os cobrira, dissipára acasoUma historia de lagrimas. Não pódeFurtar-se Octavio á commoção que o toma;A clavina que a esquerda mal sustentaNo chão lhe cae; e o baque surdo accordaA descuidada nadadora. Ás ondasA virgem torna. Rompe Octavio o espaçoQue os divide; e de pé, na fina areia,Que o molle rio lambe, erecto e firme,Todo se lhe descobre. Um grito apenasUm só grito, mas unico, lhe rompeDo coração; terror, vergonha... e acasoPrazer, prazer mysterioso e vivoDe captiva que amou silenciosa,E que ama e vê o objecto de seus sonhos,Ali com ella, a suspirar por ella.«Flôr da roça nascida ao pé do rio,Octavio começou—talvez mais bellaQue essas bellezas cultas da cidade,Tão cobertas de joias e de sedas,Oh! não me negues teu suave aroma!Fez-te captiva o berço; a lei somenteOs grilhões te lançou; no livre peitoDe teus senhores tens a liberdade,A melhor liberdade, o puro affectoQue te elegeu entre as demais captivas,E de affagos te cobre! Flôr do matto,Mais viçosa do que essas outras flôresNas estufas criadas e nas salas,Rosa agreste nascida ao pé do rio,Oh! não me negues teu suave aroma!»Disse, e da riba os cubiçosos olhosPelas aguas estende, emquanto os d'ella,Cobertos pelas palpebras medrosasChoram,—de gosto e de vergonha a um tempoDuas unicas lagrimas. O rioNo seio as recebeu; comsigo as leva,Como gottas de chuva, indifferenteAo mal ou bem que lhe povoa a margem;Que assim a natureza, ingenua e docilÁs leis do Creador, perpétua segueEm seu mesmo caminho, e deixa ao homemPadecer e saber que sente e morre.Pela azulada esphera inda trez vezesA aurora as flôres derramou, e a noiteVezes trez a mantilha escura e largaMysteriosa cingiu. Na quarta aurora,Anjo das virgens, anjo de azas brancas,Pudor, onde te foste? A alva capellaMurcha e desfeita pelo chão lançada,Coberta a face do rubor do pejo,Os olhos com as mãos velando, alçastePara a Eterna Pureza o eterno voo.Quem ao tempo cortar pudera as azasSe deleitoso voa? Quem puderaSuster a hora abençoada e curtaDa ventura que foge, e sobre a terraO gozo transportar da eternidade?Sabina viu correr tecidos de ouroAqueles dias unicos na vidaToda enlevo e paixão, sincera e ardenteNesse primeiro amor d'alma que nasceE os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,Consciencia; razão, tu lhe fechavasA vista interior; e ella seguiaAo sabor dessas horas mal furtadasAo captiveiro e á solidão, sem vel-oO fundo abysmo tenebroso e largoQue a separa do eleito de seus sonhos,Nem pressentir a brevidade e a morte!E com que olhos de pena e de saudadeViu ir-se um dia pela estrada fóraOctavio! Aos livros torna o moço alumno,Não cabisbaixo e triste, mas serenoE lepido. Com ella a alma não ficaDe seu jovem senhor. Lagrima pura,Muito embora de escrava, pela faceLentamente lhe rola, e lentamenteToda se esvae num pallido sorrisoDe mãe.Sabina é mãe; o sangue livreGira e palpita no captivo seioE lhe paga de sobra as dores cruasDa longa ausencia. Uma por uma, as horasNa solidão do campo há de contal-as,E suspirar pelo remoto diaEm que o veja de novo... Pouco importa,Se o materno sentir compensa os males.Riem-se della as outras; é seu nomeO assunto do terreiro. Uma invejosaAcha-lhe uns certos modos singularesDe senhora de engenho; um pajem moço,De cobiça e ciume devorado,Desfaz nas graças que em silencio adoraE consigo medita uma vingança.Entre os parceiros, desfiando a palhaCom que entrança um chapeo, solenementeUm Caçanje ancião refere aos outrosAlguns casos que viu na mocidadeDe captivas amadas e orgulhosasCastigadas do céu por seus pecados,Mortas entre os grilhões do captiveiro.Assim falavam elles; tal o arestoDa opinião. Quem evitá-lo pódeEntre os seus, por mais baixo que a fortunaHaja tecido o berço? Assim falavamOs captivos do engenho; e porventuraSabina o soube e o perdoou.VolveramApós os dias da saudade os diasDa esperança. Ora, quiz fortuna adversaQue o coração do moço, tão voluvelComo a brisa que passa ou como as ondas,Nos cabellos castanhos se prendesseDe donzella gentil, com quem atáraO laço conjugal: uma bellezaPura, como o primeiro olhar da vida,Uma flôr desbrochada em seus quinze annos,Que o moço viu n'um dos serões da corteE captivo adorou. Que há de fazer-lhesAgora o pae? Abençoar os noivosE ao regaço trazel-os da familia.Oh! longa foi, longa e ruidosa a festaDa fazenda, por onde alegre entráraO moço Octavio conduzindo a esposa.Viu-os chegar Sabina, os olhos secos,Attonita e pasmada. Breve o instanteDa vista foi. Rapido foge. A noiteA seu tremulo pé não tolhe a marcha;Voa, não corre, ao malfadado rio,Onde a voz escutou do amado moço.Ali chegando: «Morrerá comigo.O fruto de meu seio; a luz da terraSeus olhos não verão; nem ar da vidaHade aspirar...»Ia a cair nas aguas,Quando subito horror lhe toma o corpo;Gelado o sangue e tremula recúa,Vacilla e tomba sobre a relva. A morteEm vão a chama e lhe fascina a vista;Vence o instincto de mãe. Erma e caladaAli ficou. Viu-a jazer a luaLargo espaço da noite ao pé das aguas,E ouviu-lhe o vento os tremulos suspiros;Nenhum deles, comtudo, o disse á aurora.

E ella se foi n'esse clarão primeiro,Aquella esposa misera e ditosa;E elle se foi o perfido guerreiro.Ella serena ia subindo e airosa,Elle á força de incognitos pesaresDobra a cerviz rebelde e luctuosa.Iam assim, iam cortando os ares,Deixando embaixo as fertiles campinas,E as florestas, e os rios e os palmares.Oh! candidas lembranças infantinas!Oh! vida alegre da primeira taba;Que aurora vos tomou, aves divinas?Como um tronco do matto que desaba,Tudo caiu; lei barbara e funesta:O mesmo instante cria e o mesmo acaba.De esperanças tamanhas o que resta?Uma historia, uma lagrima choradaSobre as ultimas ramas da floresta.A flôr do ipê a viu brotar maguada,E talvez a guardou no seio amigo,Como lembrança da estação passada.Agora os dois, deixando o bosque antigo,E as campinas, e os rios e os palmares,Para subir ao derradeiro abrigo,Iam cortando lentamente os ares.

E elle clamava á moça que ascendia;«—Oh! tu que a doce luz eterna levas,E vais viver na região do dia,«Vê como rasgam barbaras e sevasAs tristezas mortaes ao que se afundaQuasi na fria região das trevas!«Olha esse sol que a criação inunda!Oh quanta luz, oh! quanta doce vidaDeixar-me vae na escuridão profunda!«Tu ao menos perdoa-me, querida!Suave esposa, que eu ganhei roubando,Perdida agora para mim, perdida!Ao maldito na morte, ao miserando,Que mais lhe resta em sua noite impura?Sequer allivio ao coração nefando.«Nos olhos trago a tua morte escura.Foi meu odio cruel que há decepado,Ainda em flôr, a tua formosura.«Mensageiro de paz, era enviadoUm dia á taba de teus pais, um diaQue melhor fôra se não fôra nado.Ali te vi; ali, entre a alegriaDe teus fortes guerreiros e donzellas,Teu doce rosto para mim sorria.«A mais bella eras tu entre as mais bellas,Como no céu a creadora luaVence na luz as vívidas estrellas.«Gentil nasceste por desgraça tua;Eu covarde nasci; tu me seguiste;E ardeu a guerra desabrida e crua.«Um dia o rosto carregado e tristeÁ taba de teus pais volveste, o rostoCom que alegre e feliz d'ali fugiste.«Tinha expirado o passageiro gosto,Ou o sangue dos teus, correndo a fio,Em teu seio outro affecto havia posto.«Mas, ou fosse remorso, ou já fastio,Ias-te agora leve e descuidada,Como folha que o vento entrega ao rio.«Oh! corça minha fugitiva e amada!Anhangá te guiou por mau caminho,E a morte poz na minha mão fechada.«Feriu-me da vingança agudo espinho;E fiz-te padecer tão cruas penas,Que inda me doe o coração mesquinho.«Ao contemplar aquellas tristes scenasAs aves, de piedosas e sentidas,Chorando foram sacudindo as pennas.«Não viu o cedro ali correr perdidasLagrimas de materno amado seio;Viu somente morrer a flôr das vidas.«O que mais houve da floresta em meioO sinistro expectaculo, de certoNenhum estranho contemplal-o veio.«Mas, se alguem penetrasse no deserto,Vira cair pesadamente a massaDo corpo do guerreiro; e o craneo aberto,«Como se fôra derramada taçaPela terra jazer, ali chamandoO feio grasno do urubú que passa.«Em vão a arma do golpe irão buscando,Nenhuma houve; nem guerreiro ousadoA tua morte ali foi castigando.«Talvez, talvez Tupan, desconsolado,A pena contemplou maior do que eraO delicto; e de colera tomado,«Ao mais alto dos Andes estenderaO forte braço, e da arvore mais forteA setta e o arco vingador colhêra;«As pontas lhe dobrou, da mesma sorteQue o junco dobra, sussurrando o vento,E de um só tiro lhe enviou a morte.”Ia assim suspirando este lamento,Quando subitamente a voz lhe cala,Como se a dor lhe suffocára o alento.No ar se perdêra a lastimosa falla,E o infeliz, condenado á noite escura,Os dentes range e treme de encontral-a.Leva os olhos na viva aurora puraEm que vê penetrar, já longe, aquellaDoce, mimosa, virginal figura.Assim no campo a timida gazellaFoge e se perde; assim no azul dos maresSome-se e morre fugidia vela.E nada mais se viu fluctuar nos ares;Que elle, bebendo as lagrimas que chora,Na noite entrou dos immortaes pesares,E ella de todo mergulhou na aurora.

Nunca as armas christans, nem do EvangelhoO lume criador, nem frecha extranhaO valle penetraram dos guerreirosQue, entre serros altissimos sentado,Orgulhoso descança. Unico o vento,Quando as azas desprega impetuoso,Os campos varre e as selvas estremece,Um pouco leva, ao recatado asylo,Da poeira da terra. Acaso o raioAlguma vez nos asperos penedos,Com fogo escreve a assolação e o susto.Mas olhos de homem, não; mas braço affeitoA pleitear na guerra, a abrir ousadoCaminho entre a espessura da floresta,Não affrontára nunca os atrevidosMuros que a natureza a pino erguêraComo eterna atalaia.

Um povo indocilNessas brenhas achou ditosa patria,Livre, como o rebelde pensamentoQue ímpia força não doma, e airoso volveInteiro á eternidade. Guerra longaE porfiosa os adestrou nas armas;Rudes são nos costumes mais que quantosHa criado este sol, quantos na guerraO tacape meneiam vigoroso.Só nas festas de plumas se ataviamOu na pelle do tigre o corpo envolvem,Que o sol queimou, que a rispidez do invernoEndureceu como os robustos troncosQue só verga o tufão. Tecer não usamA preguiçosa rede em que se embaleO corpo fatigado do guerreiro,Nem as tabas erguer como outros povos;Mas á sombra das arvores antigas,Ou nas medonhas cavas dos rochedos,No duro chão, sobre mofinas ervas,Acham somno de paz, jamais tolhidoDe ambições, de remorsos. IndomavelEssa terra não é; prompto lhes volveO semeado pão; vecejam flôresCom que a rudez tempera a extensa matta,E o fructo pende dos curvados ramosDo arvoredo. Harta messe do homem rude,Que tem na ponta da farpada settaO pesado tapir, que lhes não foge,Nhandu, que á flôr de terra inquieto voa,Sobejo pasto, e deleitoso e puroDa selvagem nação. Nunca vaidadeDe seu nome souberam, mas a força,Mas a destreza do provado braçoOs foros são do imperio a que hão sugeitoTodo aquelle sertão. Murmuram longe,Contra elles, as gentes debelladasVingança e odio. Os ecos repetiramMuita vez a pocema de combate;Nuvens e nuvens de afiadas settasTodo o ar cobriram; mas o extremo gritoDa victoria final só delles fôra.

Despem armas de guerra; a paz os chamaE o seu barbaro rito. Alveja pertoO dia em que primeiro a voz levanteA ave sagrada, o nume de seus bosques,Que de agouro chamamos, CupuabaMelancholica e feia, mas ditosaE benefica entre eles. Não se curvam[29]Ao nome de Tupan, que a noite e o diaNo céu reparte, e ao rispido guerreiroGuarda os sonhos do Ybake e eternas danças.Seu deus unico é ella, a bemfazejaAve amada, que os campos despovoaDas venenosas serpes,—viva imagemDo tempo vingador, lento e seguro,Que as calumnias, a inveja e o odio apagam,E ao conspurcado nome o alvor primeiroRestitue. Uso é delles celebrar-lheCom festas o primeiro e o extremo canto.

Terminára o cruento sacrificio.Ensopa o chão da dilatada selvaSangue de caitetus, que o pio intentoLargos mezes cevou; barbara usançaTambem de alheios climas. As donzellas,Mal sahidas da infancia, inda embebidasNos ledos jogos de primeira edade,Ao brutal sacrificio... Oh! cala, esconde,Labio christão, mais barbaro costume.


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