Chapter 7

Agora a dansa, agora alegres vinhos,Trez dias ha que de inimigos povosEsquecidos os trazem. Sobre um troncoSentado o chefe, carregado o rosto,Inquieto o olhar, o gesto pensativo,Como alheio ao prazer, de quando em quandoÁ multidão dos seus a vista alonga,E um rugido no peito lhe murmura.Quem a fronte enrugara do guerreiro?Inimigo não foi, que o medo nuncaO sangue lhe esfriou, nem vão receioDa batalha futura o desenlaceLhe fez incerto. Intrepidos como ellePoucos vira este céu. Seu forte braço,Quando vibra o tacape nas pelejas,De rasgados cadaveres o campoInteiro alastra, e ao peito do inimigo,Como um grito de morte a voz lhe soa.Nem só nas gentes o terror infunde;É fama que em seus olhos cor da noite,Inda creança, um genio lhe deixaraMysteriosa luz, que as forças quebraDa onça e do jaguar. Certo é que um dia(A tribu o conta, e seus pagés o juram)Um dia em que, do filho acompanhado,Ia costeando a orla da floresta,Um possante jaguar, escancarandoA bocca, em frente do famoso chefeEstacára. De longe um grito surdoSolta o jovem guerreiro; logo a settaEmbebe no arco, e o tiro sibilanteIa já disparar, quando de assombroA mão lhe afrouxa a distendida corda.A fera o colo timida abatêra,Sem ousar despregar os fulvos olhosDos olhos do inimigo. Ureth ousadoArco e frechas atira para longe,A massa empunha, e lento, e lento avança;Trez vezes volteando a arma terrivel,Enfim despede o golpe; um grito apenasUnico atroa o solitario campo,E a fera jaz, e o vencedor sobre ella.

Prometheu sacudiu os braços manietadosE supplice pediu a eterna compaixão,Ao ver o desfilar dos seculos que vãoPausadamente, como um dobre de finados.Mais dez, mais cem, mais mil e mais um billião,Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...Subito, sacudindo as asas de tufão,Fita-lhe a aguia em cima os olhos espantados.Pela primeira vez a viscera do heroe,Que a immensa ave do céu perpetuamente roe,Deixou de renascer ás raivas que a consomem.Uma invisivel mão as cadeias dilue;Frio, inerte, ao abysmo um corpo morto rue;Acabára o supplicio e acabára o homem.

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:—«Quem me dera que fosse aquella loura estrella,Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!»Mas a estrella, fitando a lua, com ciume:—«Pudesse eu copiar o transparente lume,Que, da grega columna á gothica janella,Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bella!»Mas a lua, fitando o sol, com azedume:—«Misera! tivesse eu aquella enorme, aquellaClaridade immortal, que toda a luz resume!»Mas o sol, inclinando a rutila capella:—«Pesa-me esta brilhante aureola de nume...Enfara-me esta azul e desmedida umbella...Por que não nasci eu um simples vagalume?»

Sei de uma creatura antiga e formidavel,Que a si mesma devora os membros e as entranhasCom a sofreguidão da fome insaciavel.Habita juntamente os valles e as montanhas;E no mar, que se rasga, á maneira de abysmo,Espreguiça-se toda em convulsões extranhas.Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,Parece uma expansão de amor e de egoísmo.Friamente contempla o desespero e o gozo,Gosta do colibri, como gosta do verme,E cinge ao coração o bello e o monstruoso.Para ella o chacal é, como a rola, inerme;E caminha na terra imperturbavel, comoPelo vasto areal um vasto paquyderme.Na arvore que rebenta o seu primeiro gomoVem a folha, que lento e lento se desdobra,Depois a flôr, depois o suspirado pomo.Pois essa criatura está em toda a obra:Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o fructo;E é nesse destruir que as suas forças dobra.Ama de igual amor o polluto e o impolluto;Começa e recomeça uma perpetua lida,E sorrindo obedece ao divino estatuto.Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

Sabes tu de um poeta enormeQue andar não usaNo chão, e cuja estranha musa,Que nunca dorme,Calça o pé, melindroso e leve,Como uma pluma,De folha e flôr, de sol e neve,Crystal e espuma;E mergulha, como Leandro,A fórma raraNo Pó, no Sena, em GuanabaraE no Scamandro;Ouve a Tupan e escuta a Momo,Sem controversia,E tanto ama o trabalho, comoAdora a inercia;Ora do fuste, ora da ogiva,Sair parece;Ora o Deus do occidente esquecePelo deus Siva;Gosta do estrepito infinito,Gosta das longasSolidões em que se ouve o gritoDas arapongas;E, se ama o lepido besouro,Que zumbe, zumbe,E a mariposa que succumbeNa flamma de ouro,Vagalumes e borboletas,Da côr da chamma,Roxas, brancas, rajadas, pretas,Não menos amaOs hippopotamos tranquillos,E os elephantes,E mais os bufalos nadantesE os crocodilos,Como as girafas e as pantheras,Onças, condores,Toda a casta de bestas ferasE voadores.Se não sabes quem elle sejaTrepa de um salto,Azul acima, onde mais altoA aguia negreja;Onde morre o clamor iniquoDos violentos,Onde não chega o riso obliquoDos fraudulentos;Então, olha de cima postoPara o oceano,Verás n'um longo rosto humanoTeu proprio rosto.E has de rir, não do riso antigo,Potente e largo,Riso de eterno moço amigo,Mas de outro amargo,Como o riso de um deus enfermoQue se aborreceDa divindade, e que apeteceTambem um termo...

Ouço que a natureza é uma lauda eternaDe pompa, de fulgor, de movimento e lida,Uma escala de luz, uma escala de vidaDe sol á infima luzerna.Ouço que a natureza,—a natureza externa,—Tem o olhar que namora, e o gesto que intimidaFeiticeira que ceva uma hydra de LernaEntre as flôres da bella Armida.E comtudo, se fecho os olhos, e mergulhoDentro em mim, vejo á luz de outro sol, outro abysmoEm que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,Róla a vida immortal e o eterno cataclismo,E, como o outro, guarda em seu ambito enorme,Um segredo que attrae, que desafia—e dorme.

Em certo dia, á hora, á horaDa meia-noite que apavora,Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,Ao pé de muita lauda antiga,De uma velha doutrina, agora morta,Ia pensando, quando ouvi á portaDo meu quarto um soar devagarinho,E disse estas palavras taes:«É alguem que me bate á porta de mansinho;«Ha de ser isso e nada mais.»Ah! bem me lembro! bem me lembro!Era no glacial Dezembro;Cada braza do lar sobre o chão reflectiaA sua ultima agonia.Eu, ancioso pelo sol, buscavaSaccar d'aquelles livros que estudavaRepouso (em vão!) á dôr esmagadoraD'estas saudades immortaesPela que ora nos céus anjos chamam Lenora.E que ninguem chamará mais.E o rumor triste, vago, brandoDas cortinas ia acordandoDentro em meu coração um rumor não sabido,Nunca por elle padecido.Enfim, por aplacal-o aqui no peito,Levantei-me de pronto, e: «Com effeito,(Disse) é visita amiga e retardada«Que bate a estas horas taes.«É visita que pede á minha porta entrada:«Ha de ser isso e nada mais.»Minh'alma então sentiu-se forte;Não mais vacillo e d'esta sorteFallo: «Imploro de vós,—ou senhor ou senhora,«Me desculpeis tanta demora.«Mas como eu, precisando de descanço,«Já cochilava, e tão de manso e manso«Batestes, não fui logo, prestemente,«Certificar-me que ahi estaes.»Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,Sómente a noite, e nada mais.Com longo olhar escruto a sombra,Que me amedronta, que me assombra,E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado,Mas o silencio amplo e calado,Calado fica; a quietação quieta;Só tu, palavra unica e dilecta,Lenora, tu, como um suspiro escasso,Da minha triste boca saes;E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;Foi isso apenas, nada mais.Entro com alma incendiada.Logo depois outra pancadaSôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:«Seguramente, há na janella«Alguma cousa que sussurra. Abramos,«Eia, fôra o temor, eia, vejamos«A explicação do caso mysterioso«D'essas duas pancadas taes.«Devolvamos a paz ao coração medroso,«Obra do vento e nada mais.»Abro a janella, e de repente,Vejo tumultuosamenteUm nobre corvo entrar, digno de antigos dias.Não despendeu em corteziasUm minuto, um instante. Tinha o aspectoDe um lord ou de uma lady. E pronto e recto,Movendo no ar as suas negras alas,Acima vôa dos portaes,Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;Trepado fica, e nada mais.Diante da ave feia e escura,Naquella rigida postura,Com o gesto severo,—o triste pensamentoSorriu-me alli por um momento,E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas«Vens, embora a cabeça nua tragas,«Sem topete, não és ave medrosa,«Dize os teus nomes senhoriaes;«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»E o corvo disse: «Nunca mais.»Vendo que o psssaro entendiaA pergunta que lhe eu fazia,Fico attonito, embora a resposta que deraDifficilmente lha entendera.Na verdade, jamais homem ha vistoCousa na terra semelhante a isto:Uma ave negra, friamente postaN'um busto, acima dos portaes,Ouvir uma pergunta e dizer em respostaQue este é seu nome: «Nunca mais.»No emtanto, o corvo solitarioNão teve outro vocabulario,Como se essa palavra escassa que alli disseToda a sua alma resumisse.Nenhuma outra proferiu, nenhuma,Não chegou a mexer uma só pluma,Até que eu murmurei: «Perdi outr'oraTantos amigos tão leaes!Perderei tambem este em regressando a aurora.»E o corvo disse: «Nunca mais.»Estremeço. A resposta ouvidaÉ tão exacta! é tão cabida!«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia«Que ele trouxe da convivencia«De algum mestre infeliz e acabrunhado«Que o implacavel destino ha castigado«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,«Que dos seus cantos usuaes«Só lhe ficou, na amarga e ultima cantiga,«Esse estribilho: «Nunca mais.»Segunda vez, nesse momento,Sorriu-me o triste pensamento;Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;E mergulhando no velludoDa poltrona que eu mesmo alli trouxeraAchar procuro a lugubre quimera,A alma, o sentido, o pavido segredoDaquelas syllabas fataes,Entender o que quiz dizer a ave do medoGrasnando a phrase: «Nunca mais.»Assim posto, devaneando,Meditando, conjecturando,Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,Sentia o olhar que me abrazava.Conjecturando fui, tranquillo a gosto,Com a cabeça no macio encostoOnde os raios da lampada cahiam,Onde as tranças angelicaesDe outra cabeça outr'ora alli se desparziam,E agora não se esparzem mais.Suppuz então que o ar, mais denso,Todo se enchia de um incenso,Obra de seraphins que, pelo chão roçandoDo quarto, estavam meneandoUm ligeiro thuribulo invisivel;E eu exclamei então: «Um Deus sensivel«Manda repouso á dor que te devora«D'estas saudades immortaes.«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»E o corvo disse: «Nunca mais.»«Propheta, ou o que quer que sejas!«Ave ou demonio que negrejas!«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno«Onde reside o mal eterno,«Ou simplesmente naufrago escapado«Venhas do temporal que te ha lançado«N'esta casa onde o Horror, o Horror profundo«Tem os seus lares triumphaes,«Dize-me: existe acaso um balsamo no mundo?»E o corvo disse: «Nunca mais.»«Propheta, ou o que quer que sejas!«Ave ou demonio que negrejas!«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!«Por esse céu que além se estende,«Pelo Deus que ambos adoramos, falla,«Dize a esta alma se é dado inda escutal-a«No Eden celeste a virgem que ella chora«Nestes retiros sepulchraes,«Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!»E o corvo disse: «Nunca mais.»«Ave ou demonio que negrejas!«Propheta, ou o que quer que sejas!«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!«Regressa ao temporal, regressa«Á tua noite, deixa-me commigo.«Vae-te, não fique no meu casto abrigo«Pluma que lembre essa mentira tua.«Tira-me ao peito essas fataes«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»E o corvo disse: «Nunca mais.»E o corvo ahi fica; eil-o trepadoNo branco marmore lavradoDa antiga Pallas; ei-lo immutavel, ferrenho.Parece, ao ver-lhe o duro cenho,Um demonio sonhando. A luz cahidaDo lampião sobre a ave aborrecidaNo chão espraia a triste sombra; e, fóraD'aquelas linhas funeraesQue fluctuam no chão, a minha alma que choraNão sai mais, nunca, nunca mais!

Venus Formosa, Venus fulguravaNo azul do céu da tarde que morria,Quando á janella os braços encostavaPallida Maria.Ao ver o noivo pela rua umbrosa,Os longos olhos avidos enfia,E fica de repente côr de rosaPallida Maria.Correndo vinha no cavallo baio,Que ela de longe apenas distinguia,Correndo vinha o noivo, como um raio...Pallida Maria!Trez dias são, trez dias são apenas,Antes que chegue o suspirado dia,Em que elles porão termo ás longas penas...Pallida Maria!De confusa, naquelle sobressalto,Que a presença do amado lhe trazia,Olhos accesos levantou ao altoPallida Maria.E foi subindo, foi subindo acimaNo azul do céu da tarde que morria,A ver se achava uma sonora rima...Pallida Maria!Rima de amor, ou rima de ventura,As mesmas são na escala da harmonia.Pousa os olhos em Venus que fulguraPallida Maria.E o coração, que de prazer lhe bate,Acha no astro a fraterna melodiaQue á natureza inteira dá rebate...Pallida Maria.Maria pensa: «Tambem tu, decerto,«Esperas ver, neste final do dia,«Um noivo amado que cavalga perto,«Pallida Maria?»Isto dizendo, subito escutavaUm estrepito, um grito e vozeria,E logo a frente em ancias inclinavaPallida Maria.Era o cavallo, rabido, arrastandoPelas pedras o noivo que morria;Maria o viu e desmaiou gritando...Pallida Maria!Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha,E a mesma noiva, semi-morta e fria,Sobre elle as folhas do noivado espalha.Pallida Maria!Cruzam-se as mãos, na derradeira preceMuda que o homem para cima envia,Antes que desça á terra em que apodrece.Pallida Maria!Seis homens tomam do caixão fechadoE vão leval-o á cova que se abria;Terra e cal e um responso recitado...Pallida MariaQuando, trez soes passados, rutilavaA mesma Venus, no morrer do dia,Tristes olhos ao alto levantavaPallida Maria.E murmurou: «Tens a expressão do goivo,«Tens a mesma roaz melancholia;«Certamente perdeste o amor e o noivo,«Pallida Maria?»Venus, porém, Venus brilhante e bella,Que nada ouvia, nada respondia,Deixa rir ou chorar n'uma janelaPallida Maria.

Ser ou não ser, eis a questão. AcasoÉ mais nobre a cerviz curvar aos golpesDa ultrajosa fortuna, ou já lutandoExtenso mar vencer de acerbos males?Morrer, dormir, não mais. E um somno apenas,Que as angustias extingue e á carne a herançaDa nossa dor eternamente acaba,Sim, cabe ao homem suspirar por elle.Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!Ai, eis a duvida. Ao perpetuo somno,Quando o lodo mortal despído houvermos,Que sonhos hão de vir? Pesal-o cumpre.Essa a razão que os luctuosos diasAlonga do infortunio. Quem do tempoSoffrer quizera ultrajes e castigos,Injurias da oppressão, baldões do orgulho,Do mal prezado amor choradas maguas,Das leis a inercia, dos mandões a affronta,E o vão desdem que de rasteiras almasO paciente merito recebe,Quem, se na ponta da despida laminaLhe acenára o descanço? Quem ao pezoDe uma vida de enfados e miseriasQuereria gemer, se não sentiraTerror de alguma não sabida cousaQue aguarda o homem para lá da morte,Esse eterno paiz mysteriosoD'onde um viajor sequer ha regressado?Este só pensamento enleia o homem;Este nos leva a supportar as doresJá sabidas de nós, em vez de abrirmosCaminho aos males que o futuro esconde,E a todos acovarda a consciencia.Assim da reflexão á luz mortiçaA viva côr da decisão desmaia;E o firme, essencial commettimento,Que esta ideia abalou, desvia o curso,Perde-se, até de acção perder o nome.

Vem, vem das aguas, misera Moema,Senta-te aqui. As vozes lastimosasTroca pelas cantigas deleitosas,Ao pé da doce e pallida Coema.Vós, sombras de Iguassú e de Iracema,Trazei nas mãos, trazei no collo as rosasQue o amor desabrochou e fez viçosasNas laudas de um poema e outro poema.Chegai, folgai, cantai. É esta, é estaDe Lindoya, que a voz suave e forteDo vate celebrou, a alegre festa.Além do amavel, gracioso porte,Vede o mimo, a ternura que lhe resta.Tanto inda é bella no seu rosto a morte!

Lembra-me que, em certo dia,Na rua, ao sol de verão,Envenenado morriaUm pobre cão.Arfava, espumava e ria,De um riso espurio e bufão,Ventre e pernas sacudiaNa convulsão.Nenhum, nenhum curiosoPassava, sem se deter,Silencioso,Junto ao cão que ia morrer,Como se lhe désse gozoVer padecer.

Era uma mosca azul, azas de ouro e granada,Filha da China ou do Indostão,Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,Em certa noite de verão.E zumbia, e voava, e voava, e zumbiaRefulgindo ao clarão do solE da lua,—melhor do que refulgiriaUm brilhante do Grão-Mogol.Um poleá que a viu, espantado e tristonho,Um poleá lhe perguntou:«Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,Dize, quem foi que t'o ensinou?»Então ella, voando, e revoando, disse:—«Eu sou a vida, eu sou a flôr«Das graças, o padrão da eterna meninice,«E mais a gloria, e mais o amor.»E elle deixou-se estar a contemplal-a, mudo,E tranquillo, como um faquir,Como alguem que ficou deslembrado de tudo,Sem comparar, nem reflectir.Entre as azas do insecto, a voltear no espaço,Uma cousa lhe pareceuQue surdia, com todo o resplendor de um paçoE viu um rosto, que era o seu.Era elle, era um rei, o rei de Cachemira,Que tinha sobre o collo núUm immenso collar de opala, e uma saphyraTirada do corpo de Vischnu.Cem mulheres em flôr, cem nayras superfinas,Aos pés delle, no liso chão,Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,E todo o amor que tem lhe dão.Mudos, graves, de pé, cem ethiopes feios,Com grandes leques de avestruz,Refrescam-lhes de manso os aromados seios,Voluptuosamente nus.Vinha a gloria depois;—quatorze reis vencidos,E enfim as páreas triumphaesDe trezentas nações, e os parabens unidosDas coroas occidentaes.Mas o melhor de tudo é que no rosto abertoDas mulheres e dos varões,Como em agua que deixa o fundo descoberto,Via limpos os corações.Então elle, estende a mão callosa e tosca,Affeita a só carpintejar,Com um gesto pegou na fulgurante mosca,Curioso de a examinar.Quiz vel-a, quis saber a causa do mysterio.E, fechando-a na mão, sorriuDe contente, ao pensar que alli tinha um imperio,E para casa se partiu.Alvoroçado chega, examina, e pareceQue se houve nessa occupaçãoMiudamente, como um homem que quizesseDissecar a sua illusão.Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ella,Rota, baça, nojenta, vil,Succumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquellaVisão fantastica e subtil.Hoje, quando elle ahi vae, de aloé e cardamomoNa cabeça, com ar taful,Dizem que ensandeceu, e que não sabe comoPerdeu a sua mosca azul.

Antonio, a sapiencia da EscripturaClama que ha para a humana creaturaTempo de rir e tempo de chorar,Como ha um sol no ocaso, e outro na aurora.Tu, sangue de Ephraim e de Issacar,Pois que já riste, chora.

Gosto de ver-te, grave e solitario,Sob o fumo de esqualida candeia,Nas mãos a ferramenta de operario,E na cabeça a coruscante ideia.E emquanto o pensamento delineiaUma philosophia, o pão diarioA tua mão a labutar grangeiaE achas na independencia o teu salario.Sôem cá fora agitações e lutas,Sibille o bafo asperrimo do inverno,Tu trabalhas, tu pensas, e executasSobrio, tranquillo, desvellado e terno,A lei commum, e morres, e transmutasO suado labor no premio eterno.

Esta musa da patria, esta saudosaNiobe dolorida,Esquece acaso a vida,Mas não esquece a morte gloriosa.E pallida, e chorosa,Ao Tejo vôa, onde no chão caidaJaz aquella evadidaLyra da nossa America viçosa.Com ella torna, e, dividindo os ares,Trepido, molle, doce movimentoSente nas frouxas cordas singulares.Não é a aza do vento,Mas a sombra do filho, no momentoDe entrar perpetuamente os patrios lares.

Hão de annos volver,—não como as nevesDe alheios climas, de geladas cores;Hão de os annos volver, mas como as flôres,Sobre o teu nome, vividos e leves...Tu, cearense musa, que os amoresMeigos e tristes, rusticos e breves,Da indiana escreveste,—ora os escrevesNo volume dos patrios esplendores.E ao tornar este sol, que te ha levado,Já não acha a tristeza. Extincto é o diaDa nossa dor, do nosso amargo espanto.Porque o tempo implacavel e pausado,Que o homem consumiu na terra fria,Não consumiu o engenho, a flôr, o encanto...

Tu quem és? Sou o seculo que passa.Quem somos nós? A multidão fremente.Que cantamos? A gloria resplendente.De quem? De quem mais soube a força e a graça.Que cantou elle? A vossa mesma raça.De que modo? Na lyra alta e potente.A quem amou? A sua forte gente.Que lhe deram? Penuria, ermo, desgraça.Nobremente soffreu? Como homem forte.Esta immensa oblação?... É-lhe devida.Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte.Chama-se a isto? A gloria appetecida.Nós, que o cantamos?... Volvereis á morte.Elle, que é morto?... Vive a eterna vida.

Quando, transposta a lugubre moradaDos castigos, ascende o florentinoÁ região onde o clarão divinoEnche de intensa luz a alma nublada,A saudosa Beatriz, a antiga amada,A mão lhe estende e guia o peregrino,E aquelle olhar ethereo e cristallinoRompe agora da palpebra sagrada.Tu, que tambem o Purgatorio andaste,Tu, que rompeste os circulos do Inferno,Camões, se o teu amor fugir deixaste,Ora o tens, como um guia alto e supernoQue a Natercia da vida que chorasteChama-se Gloria e tem o amor eterno.

Quando, torcendo a chave mysteriosaQue os cancellos fechava do Oriente,O Gama abriu a nova terra ardenteAos olhos da companha valorosa,Talvez uma visão resplandecenteLhe amostrou no futuro a sonorosaTuba, que cantaria a acção famosaAos ouvidos da própria e extranha gente.E disse: «Se já n'outra, antiga edade,«Troya bastou aos homens, ora quero«Mostrar que é mais humana a humanidade.«Pois não serás heroe de um canto fero,«Mas vencerás o tempo e a immensidade«Na voz de outro moderno e brando Homero.»

Um dia, junto á foz de brando e amigoRio de extranhas gentes habitado,Pelos mares asperrimos levado,Salvaste o livro que viveu comtigo.E esse que foi ás ondas arrancado,Já livre agora do mortal perigo,Serve de arca immortal, de eterno abrigo,Não só a ti, mas ao teu berço amado.Assim, um homem só, naquelle dia,Naquelle escasso ponto do universo,Lingua, historia, nação, armas, poesia,Salva das frias mãos do tempo adverso.E tudo aquillo agora o desafia.E tão sublime preço cabe em verso.

Um dia, celebrando o genio e a eterna vida,Victor Hugo escreveu numa pagina forteEstes nomes que vão galgando a eterna morte,Isaias, a voz de bronze, alma sahidaDa coxa de David; Eschylo que a OrestesE a Prometheu, que sofre as vinganças celestesDeu a nota immortal que abala e persuade,E transmitte o terror, como excita a piedade;Homero, que cantou a colera potenteDe Aquilles, e colheu as lagrimas troyanasPara gloria maior da sua amada gente,E com elle Virgilio e as graças virgilianas;Juvenal que marcou com ferro em brasa o hombroDos tyrannos, e o velho e grave florentino,Que mergulha no abysmo, e caminha no assombro,Baixa humano ao inferno e regressa divino;Logo após Calderon, e logo após Cervantes;Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;E, para coroar esses nomes vibrantes,Shakespeare, que resume a universal poesia.E agora que elle ahi vae, galgando a eterna morte,Pega a Historia da penna e na pagina forte,Para continuar a serie interrompida,Escreve o nome d'elle, e dá-lhe a eterna vida.

Esse que as vestes asperas cingia,E a viva flôr da ardente juventudeDentro do peito a todos escondia;Que em paginas de areia vasta e rudeOs versos escrevia e encomendavaÁ mente, como esforço de virtude;Esse nos rios de Babel achava,Jerusalem, os cantos primitivos,E novamente aos ares os cantava.Não procedia então como os captivosDe Syão, consumidos de saudade,Velados de tristeza, e pensativos.Os cantos de outro clima e de outra edadeEnsinava sorrindo ás novas gentes,Pela lingua do amor e da piedade.E iam caindo os versos excellentesNo abençoado chão, e iam caindoDo mesmo modo as mysticas sementes.Nas florestas os passaros, ouvindoO nome de Jesus e os seus louvores,Iam cantando o mesmo canto lindo.Eram as notas como alheias flôresQue verdejam no meio de verdurasDe diversas origens e primores.Anchieta, soltando as vozes puras,Achas outra Syão neste hemispherio,E a mesma fé e egual amor apuras.Certo, ferindo as cordas do psalterio,Unicamente contas divulgal-aA palavra christã e o seu mysterio.Trepar não cuidas a luzente escalaQue os heroes cabe e leva á clara espheraOnde eterna se faz a humana fala.Onde os tempos não são esta chimeraQue apenas brilha e logo se esvaece,Como folhas de escassa primavera.Onde nada se perde nem se esquece,E no dorso dos seculos trazidoO nome de Anchieta resplandeceAo vivo nome do Brasil unido.

Um homem,—era aquella noite amiga,Noite christã, berço do Nazareno,—Ao relembrar os dias de pequeno,E a viva dança, e a lepida cantiga,Quiz transportar ao verso doce e amenoAs sensações da sua edade antiga,Naquella mesma velha noite amiga,Noite christã, berço do Nazareno.Escolheu o soneto... A folha brancaPede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,A penna não acode ao gesto seu.E, em vão lutando contra o metro adverso,Só lhe saiu este pequeno verso:«Mudaria o Natal ou mudei eu?»

Mal que espalha o terror e que a ira celesteInventou para castigarOs peccados do mundo, a peste, em summa, a peste,Capaz de abastecer o Aqueronte n'um dia,Veio entre os animaes lavrar;E, se nem tudo succumbia,Certo é que tudo adoecia.Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento,Catava mais nenhum sustento.Não havia manjar que o appetite abrisse,Raposa ou lobo que saisseContra a presa innocente e mansa,Rola que á rola não fugisse,E onde amor falta, adeus, folgança!O leão convocou uma assembléa e disse:«Sócios meus, certamente este infortunio veioA castigar-nos de peccados.Que o mais culpado entre os culpadosMorra por applacar a colera divina.Para a commum saúde esse é, talvez, o meio.Em casos taes é de uso haver sacrificados;Assim a historia nol-o ensina.Sem nenhuma illusão, sem nenhuma indulgencia,Pesquizemos a consciencia.Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão,Devorei muita carneirada.Em que é que me offendera? em nada.E tive mesmo occasiãoDe comer egualmente o guarda da manada.Portanto, se é mister sacrificar-me, prompto.Mas, assim como me accusei,Bom é que cada um se accuse, de tal sorteQue (devemos querel-o, e é de todo pontoJusto) caiba ao maior dos culpados a morte.»«—Meu senhor, accudiu a raposa, é ser reiBom demais; é provar melindre exagerado.Pois então devorar carneiros,Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado?Não. Vós fizestes-lhes, senhor,Em os comer, muito favor.E no que toca aos pegureiros,Toda a calamidade era bem merecida,Pois são daquellas gentes taesQue imaginaram ter posição mais subidaQue a de nós outros animaes.»Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o discurso.Ninguem do tigre nem do urso,Ninguem de outras iguaes senhorias do matto,Inda entre os actos mais damninhos,Ousava esmerilhar um acto;E até os ultimos rafeiros,Todos os bichos resingueiros,Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.Eis chega o burro:«—Tenho ideia que no pradoDe um convento, indo eu a passar, e picadoDa occasião, da fome e do capim viçoso,E póde ser que do tinhoso,Um bocadinho lambisqueiDa plantação. Foi um abuso, isso é verdade.»Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui d'el-rei!»Um lobo, algo lettrado, arenga e persuadeQue era força immolar esse bicho nefando,Empesteado autor de tal calamidade;E o pecadilho foi julgadoUm attentado.Pois comer erva alheia! ó crime abominando!Era visto que só a mortePoderia purgar um peccado tão duro.E o burro foi ao reino escuro.Segundo sejas tu miseravel ou forteAulicos te farão detestavel ou puro.

Acabara o ladrão, e, ao ar erguendoAs mãos em figas, deste modo brada:«Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»E desde então me foi a serpe amada,Pois uma vi que o collo lhe prendia,Como a dizer: «não falarás mais nada!»Outra os braços na frente lhe cingiaCom tantas voltas e de tal maneiraQue elle fazer um gesto não podia.Ah! Pistoia, por que n'uma fogueiraNão ardes tu, se a mais e mais impuros,Teus filhos vão nessa mortal carreira?Eu, em todos os circulos escurosDo inferno, alma não vi tão rebellada,Nem a que em Thebas resvalou dos muros.E ele fugiu sem proferir mais nada.Logo um centauro furioso assomaA bradar: «Onde, aonde a alma damnada?»Maremma não terá tamanha sommaDe reptis quanta vi que lhe ouriçavaO dorso inteiro desde a humana coma.Junto á nuca do monstro se elevavaDe asas abertas um dragão que enchiaDe fogo a quanto alli se approximava.«Aquelle é Caco,—o Mestre me dizia,—Que, sob as rochas do Aventino, ousadoLagos de sangue tanta vez abria.«Não vae de seus irmãos acompanhadoPorque roubou malicioso o armentoQue alli pascia na campanha ao lado,«Hercules com a maça e golpes cento,Sem lhe doer um decimo ao nefando,Poz remate a tamanho atrevimento.»Ele falava, e o outro foi andando.No emtanto embaixo vinham para nósTrez espiritos que só vimos quandoAtroára este grito: «Quem sois vós?»Nisto a conversa nossa interrompendoElle, como eu, no grupo os olhos pôz.Eu não os conheci, mas succedendo,Como outras vezes succeder é certo,Que o nome de um estava outro dizendo,«Cianfa aonde ficou?» Eu, por que espertoE attento fosse o Mestre em escutal-o,Puz sobre a minha boca o dedo aberto.Leitor, não maravilha que acceital-oOra te custe o que vás ter presente,Pois eu, que o vi, mal ouso acredital-o.Eu contemplava, quando uma serpenteDe seis pés temerosa se lhe atiraA um dos trez e o colhe de repente.Co'os pés do meio o ventre lhe cingira,Com os da frente os braços lhe peava,E ambas as faces lhe mordeu com ira.Os outros dous ás coxas lhe alongava,E entre ellas insinua a cauda que iaTocar-lhes os rins e dura os apertava.A hera não se enrosca nem se enfiaPela arvore, como a horrivel féraAo peccador os membros envolvia.Como se fossem derretida cera,Um só vulto, uma côr iam tomando,Quaes tinham sido nenhum delles era.Tal o papel, se o fogo o vae queimando,Antes de negro estar, e já depoisQue o branco perde, fusco vae ficando.Os outros dous bradavam: «Ora pois,Agnel, ai triste, que mudança é essa?Olha que já não és nem um nem dous!»Faziam ambas uma só cabeça,E na unica face um rosto mixto,Onde eram dous, a apparecer começa.Dos quatro braços dous restavam, e isto,Pernas, coxas e o mais ia mudadoN'um tal composto que jamais foi visto.Todo o primeiro aspecto era acabado;Dous e nenhum era a cruel figura,E tal se foi a passo demorado.Qual camaleão, que variar procuraDe sebe ás horas em que o sol esquenta,E correndo parece que fulgura,Tal uma curta serpe se apresenta,Para o ventre dos dous corre accendida,Livida e côr de um bago de pimenta.E essa parte por onde foi nutridaTenra creança antes que á luz saisse,N'um delles morde, e cae toda estendida.O ferido a encarou, mas nada disse;Firme nos pés, apenas bocejava,Qual se de febre ou somno alli caisse.Frente a frente, um ao outro contemplava,E á chaga de um, e á boca de outro, forteFumo saía e no ar se misturava.Cale agora Lucano a triste morteDe Sabello e Nasidio, e attento estejaQue o que lhe vou dizer é de outra sorte.Cale-se Ovidio e neste quadro vejaQue, se Arethusa em fonte nos ha postoE Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.Pois duas naturezas rosto a rostoNão transmudou, com que elas de repenteTrocassem a materia e o ser opposto.Tal era o accordo entre ambas que a serpenteA cauda em duas caudas fez partidas,E a alma os pés ajuntáva estreitamente.Pernas e coxas vi-as tão unidasQue nem leve sinal dava a junturaDe que tivessem sido divididas.Imita a cauda bifida a figuraQue alli se perde, e a pele abranda, ao passoQue a pelle do homem se tornava dura.Em cada axilla vi entrar um braço,A tempo que iam esticando á feraOs dous pés que eram de tamanho escasso.Os pés de traz a serpe os retorcêraAté formarem-lhe a encoberta parte,Que no infeliz em pés se convertêra.Emquanto o fumo os cobre, e de tal arteA côr lhes muda e põe á serpe o velloQue já da pelle do homem se lhe parte,Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcel-oAquelle torvo olhar com que ambos iamA trocar entre si o rosto e a vel-o.Ao que era em pé as carnes lhe fugiamPara as fontes, e alli do que abundavaDuas orelhas de homem lhe saiam.E o que de sobra ainda lhe ficavaO nariz lhe compõe e lhe perfazE o labio lhe engrossou quanto bastava.A boca estende o que por terra jazE as orelhas recolhe na cabeça,Bem como o caracol ás pontas faz.A lingua, que era então de uma só peça,E prestes a falar, fendida vi-a,Emquanto a do outro se une, e o fumo cessa.A alma, que assim tornado em serpe havia,Pelo valle fugiu assobiando,E esta lhe ia falando e lhe cuspia.Logo a recente espadua lhe foi dandoE á outra disse: «Ora com Buoso mudo,Rasteje, como eu vinha rastejando!»Assim na cova setima vi tudoMudar e transmudar; a novidadeMe absolva o estylo desornado e rudo.Mas que um tanto perdesse a claridadeDos olhos meus, e turva a mente houvesse,Não fugiram com tanta brevidade,Nem tão occultos, que eu não conhecessePuccio Sciancato, unica alli vindaAlma que a fórma propria não perdesse;O outro chóral-o tu, Gaville, ainda.


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