The Project Gutenberg eBook ofPoesias CompletasThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Poesias CompletasAuthor: Machado de AssisRelease date: March 21, 2020 [eBook #61653]Most recently updated: October 17, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Imagesgenerously made available by Biblioteca Brasiliana USP.)*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK POESIAS COMPLETAS ***
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Title: Poesias CompletasAuthor: Machado de AssisRelease date: March 21, 2020 [eBook #61653]Most recently updated: October 17, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Imagesgenerously made available by Biblioteca Brasiliana USP.)
Title: Poesias Completas
Author: Machado de Assis
Author: Machado de Assis
Release date: March 21, 2020 [eBook #61653]Most recently updated: October 17, 2024
Language: Portuguese
Credits: Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Imagesgenerously made available by Biblioteca Brasiliana USP.)
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MACHADO DE ASSIS
MACHADO DE ASSIS
Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior è que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos ires publicados, Chrysalidas, Phalonas, Americanas.Chamo ao ultimoOccidentaes.
Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli com saudades. Supprimo da primeira série algumas paginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Supprimo tambem o prefacio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diarias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes; menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flôr da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou.
Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu difunto amigo a tal extremo lhe cegára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.
Rio, 22 de Julho do 1900.
MACHADO DE ASSIS.
Que a mão do tempo e o halito dos homensMurchem a flôr das illusões da vida,Musa consoladora,E no teu seio amigo e socegadoQue o poeta respira o suave somno.Não ha, não ha comtigo.Nem dor aguda, nem sombrios ermos;Da tua voz os namorados cantosEnchem, povoam tudoDe intima paz, de vida e de conforto.Ante esta voz que as dores adormece,E muda o agudo espinho em flôr cheirosa,Que vales tu, desillusão dos homens?Tu que pódes, ó tempo.A alma triste do poeta sobrenadaÁ enchente das angustias,E, affrontando o rugido da tormenta,Passa cantando, alcyone divina.Musa consoladora,Quando da minha fronte de manceboA ultima illusão cair, bem comoFolha amarella e seccaQue ao chão atira a viração do outono,Ah! no teu seio amigoAcolhe-me,—e haverá minha alma afflicta,Em vez de algumas illusões que teve,A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!
Eras pallida. E os cabellos,Aereos, soltos novellos,Sobre as espaduas as cahiam...Os olhos meio-cerradosDe volupia e de ternuraEntre lagrimas luziam...E os braços entrelaçados,Como cingindo a ventura,Ao teu seio me cingiam...Depois, naquelle delirio,Suave, doce martyrioDe pouquissimos instantes,Os teus labios sequiosos,Frios, tremulos, trocavamOs beijos mais delirantes,E no supremo dos gozosAnte os anjos se casavamNossas almas palpitantes...Depois... depois a verdade,A fria realidade,A solidão, a tristeza;Daquelle sonho desperto,Olhei... silencio de morteRespirava a natureza—Era a terra, era o deserto,Fôra-se o doce transporte,Restava a fria certeza.Desfizera-se a mentira:Tudo aos meus olhos fugira:Tu e o teu olhar ardente,Labios tremulos e frios,O abraço longo e apertado,O beijo doce e vehemente;Restavam meus desvarios,E o incessante cuidado,E a phantasia doente.E agora te vejo. E friaTão outra estás da que eu viaNaquelle sonho encantado!És outra, calma, discreta,Com o olhar indifferente,Tão outro do olhar sonhado,Que a minha alma de poetaNão vê se a imagem presenteFoi a visão do passado.Foi, sim, mas visão apenas;Daquellas visões amenasQue á mente dos infelizesDescem vivas e animadas,Cheias de luz e esperançaE de celestes matizes;Mas, apenas dissipadas,Fica uma leve lembrança,Não ficam outras raizes.Inda assim, embora sonho,Mas, sonho doce e risonho,Désse-me Deus que fingidaTivesse aquella venturaNoite por noite, hora a hora,No que me resta de vida,Que, já livre da amargura,Alma, que em dores me chora.Chorára de agradecida!
Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée,Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?
Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée,Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?
ALFRED DE MUSSET
Era uma pobre criança...—Pobre criança, se o eras!—Entre as quinze primaverasDe sua vida cançadaNem uma flôr de esperançaAbria a medo. Eram rosasQue a douda da esperdiçadaTão festivas, tão formosas,Desfolhava pelo chão.—Pobre criança, se o eras!—Os carinhos mal gozadosEram por todos comprados,Que os affectos de sua almaHavia-os levado á feira,Onde vendera sem penaAté a illusão primeiraDo seu doudo coração!Pouco antes, a candura,Co'as brancas azas abertas,Em um berço de venturaA criança acalentavaNa santa paz do Senhor;Para accordal-a era cedo,E a pobre ainda dormiaNaquelle mudo segredoQue só abre o seio um diaPara dar entrada a amor.Mas, por teu mal, acordaste!Junto do berço passou-teA festiva melodiaDa seducção... e acordou-te!Colhendo as limpidas azas,O anjo que te velavaNas mãos tremulas e friasFechou o rosto... chorava!Tu, na sede dos amores,Colheste todas as flôresQue nas orlas do caminhoFoste encontrando ao passar;Por ellas, um só espinhoNão te feriu... vás andando...Corre, criança, até quandoFores forçada a parar!Então, desflorada a almaDe tanta illusão, perdidaAquella primeira calmaDo teu somno de pureza;Esfolhadas, uma a uma,Essas rosas de bellezaQue se esvaem como a escumaQue a vaga cospe na praiaE que por si se desfaz;Então, quando nos teus olhosUma lagrima buscares,E seccos, seccos de febre,Uma só não encontraresDas que em meio das angustiasSão um consolo e uma paz;Então, quando o frio spectroDo abandono e da penuriaVier aos teus soffrimentosJuntar a ultima injuria:E que não vires ao ladoUm rosto, um olhar amigoDaquelles que são agoraOs desvellados comtigo;Criança, verás o enganoE o erro dos sonhos teus;E dirás,—então já tarde,—Que por taes gozos não valeDeixar os braços de Deus.
Já raro e mais escassoA noite arrasta o manto,E verte o ultimo prantoPor todo o vasto espaço.Tibio clarão já córaA téla do horizonte,E já de sobre o monteVem debruçar-se a aurora.Á muda e torva irmã,Dormida de cansaço,Lá vem tomar o espaçoA virgem da manhã.Uma por uma, vãoAs pallidas estrellas,E vão, e vão com ellasTeus sonhos, coração.Mas tu, que o devaneioInspiras do poeta,Não vês que a vaga inquietaAbre-te o humido seio?Vai. Radioso e ardente,Em breve o astro do dia,Rompendo a nevoa fria,Virá do roxo oriente.Dos intimos sonharesQue a noite protegera,De tanto que eu vertera,Em lagrimas a pares,Do amor silencioso,Mystico, doce, puro,Dos sonhos de futuro,Da paz, do ethereo gozo,De tudo nos despertaLuz de importuno dia;Do amor que tanto a enchiaMinha alma está deserta.A virgem da manhãJá todo o céu domina....Espero-te, divina,Espero-te, amanhã.
Dobra o joelho:—é um tumulo.Em baixo amortalhadoJaz o cadaver tepidoDe um povo aniquilado;A prece melancolicaReza-lhe em torno á cruz.Ante o, universo attonitoAbriu-se a extranha liça,Travou-se a luta fervidaDa força e da justiça;Contra a justiça, ó seculo,Venceu a espada e o obuz.Venceu a força indomita;Mas a infeliz vencidaA magoa, a dôr, o odio,Na face envilecidaCuspiu-lhe. E a eterna maculaSeus louros murchará.E quando a voz fatidicaDa santa liberdadeVier em dias prosperosClamar á humanidade,Então revivo o MexicoDa campa surgirá.
E ao terceiro dia a alma deve voltar aocorpo, e a nação resuscitará.
E ao terceiro dia a alma deve voltar aocorpo, e a nação resuscitará.
MICKIEWIEZ.
Como aurora de um dia desejado,Clarão suave o horizonte innunda.E talvez amanhã. A noite amargaComo que chega ao termo; e o sol dos livres,Cangado de te ouvir o inutil pranto,Alfim resurge no dourado Oriente.Eras livre,—tão livre como as aguasDo teu formoso, celebrado rio;A corôa dos temposCingia-te a cabeça veneranda;E a desvellada mãe, a irmã cuidosa,A santa liberdade,Como junto de um berço precioso,Á porta dos teus lares vigiava.Eras feliz demais, demais formosa;A sanhuda cobiça dos tyranosVeio enlutar teus venturosos dias...Infeliz! a medrosa liberdadeEm face dos canhões espavoridaAos reis abandonou teu chão sagrado;Sobre ti, moribunda,Viste cahir os duros oppressores:Tal a gazella que percorre os campos,Se o caçador a fere,Cae convulsa de dôr em mortaes ancias,E vê no extremo arrancoAbater-se sobre ellaEscura nuvem de famintos corvos.Presa uma vez da ira dos tyranos,Os membros retalhou-teDos senhores a explendida cobiça;Em proveito dos reis a terra livreFoi repartida, e os filhos teus—escravos—Viram descer um véu de luto á patriaE apagar-se na historia a gloria tua.A gloria, não!—É gloria o captiveiroQuando a captiva, como tu, não perdeA alliança de Deus, a fé que alenta,E essa união universal e mudaQue faz communs a dôr, o odio, a esperança.Um dia, quando o calix da amargura,Martyr, até ás fezes esgotaste,Longo tremor correu as fibras tuas;Em teu ventre de mãe, a liberdadeParecia-soltar esse vagidoQue faz rever o céu no olhar materno;Teu coração estremeceu; teus labiosTremulos de anciedade e de esperança,Buscaram aspirar a longos tragosA vida nova nas celestes auras.Então surgiu Kosciusko;Pela mão do Senhor vinha tocado;A fé no coração, a espada em punho,E na ponta da espada a torva morte,Chamou aos campos a nação caída.De novo entre o direito e a força brutaEmpenhou-se o duello atroz e infaustoQue a triste humanidadeInda verá por seculos futuros.Foi longa a luta; os filhos dessa terraAh! não pouparam nem valor nem sangue!A mãe via partir sem pranto os filhos,A irmã o irmão, a esposa o esposo,E todas abençoavamA heroica legião que ia á conquistaDo grande livramento.Coube ás hostes da forçaDa pugna o alto premio;A oppressão jubilosaCantou essa victoria de ignominia;E de novo, ó captiva, o véu de lutoCorreu sobre teu rosto!Deus continhaEm suas mãos o sol da liberdade,E inda não quiz que nesse dia infaustoTeu macerado corpo allumiasse.Resignada á dôr e ao infortunio,A mesma fé, o mesmo amor ardenteDavam-te a antiga força.Triste viuva, o templo abriu-te as portas;Foi a hora dos hymnos e das preces;Cantaste a Deus; tua alma consoladaNas azas da oração aos céus subia,Como a refugiar-se e a refazer-seNo seio do infinito.E quando a força do feroz cossacoA casa do Senhor ia buscar-te,Era ainda rezandoQue te arrastavas pelo chão da egreja.Pobre nação!—é longo o teu martyrio;A tua dôr pede vingança e termo;Muito has vertido em lagrimas e sangue;É propicia esta hora. O sol dos livresComo que surge no dourado Oriente.Não ama a liberdadeQuem não chora comtigo as dôres tuas;E não pede, e não ama, e não desejaTua resurreição, finada heroica!
Erro é teu. Amei-te um diaCom esse amor passageiroQue nasce na phantasiaE não chega ao coração;Nem foi amor, foi apenasUma ligeira impressão;Um querer indifferente,Em tua presença, vivo,Morto, se estavas ausente,E se ora me vês esquivo,Se, como outr'ora, não vêsMeus incensos de poetaIr eu queimar a teus pés,É que,—como obra de um dia,Passou-me essa phantasia.Para eu amar-te deviasOutra ser e não como eras.Tuas frivolas chimeras,Teu vão amor de ti mesma,Essa pendula geladaQue chamavas coração,Eram bem fracos liamesPara que a alma enamoradaMe conseguissem prender;Foram baldados tentames,Saiu contra ti o azar,E embora pouca, perdesteA gloria de me arrastarAo teu carro... Vãs chimeras!Para eu amar-te deviasOutra ser e não como eras...
A bondade choremos innoccenteCortada em flôr que, pela mão da morte,Nos foi arrebatada d'entre a gente.
A bondade choremos innoccenteCortada em flôr que, pela mão da morte,Nos foi arrebatada d'entre a gente.
CAMÕES.
Se, como outr'ora, nas florestas virgens,Nos fosse dado—o esquife que te encerraErguer a um galho de arvore frondosa,Certo, não tinhas um melhor jazigoDo que alli, ao ar livre, entre os perfumesDa florente estação, imagem vivaDe teus cortados dias, e mais pertoDo clarão das estrellas.Sobre teus pobres e adorados restos,Piedosa a noite, alli derramariaDo seus negros cabellos puro orvalho;Á beira do teu ultimo jazigoOs alados cantores da florestaIriam sempre modular seus cantos;Nem letra, nem lavor de emblema humano,Relembraria a mocidade morta;Bastava só que ao coração materno,Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,Um aperto, uma dôr, um pranto occulto,Dissesse:—Dorme aqui, perto dos anjos,A cinza de quem foi gentil transumptoDe virtudes e graças.Mal havia transposto da existencia.Os dourados umbraes; a vida agoraSorria-lhe toucada dessas flôresQue o amor, que o talento e a mocidadeÁ uma repartiam.Tudo lhe era presagio alegre e doce;Uma nuvem sequer não sombreava,Em sua fronte, o iris da esperança;Era, emfim, entre os seus a copia vivaDessa ventura que os mortaes almejam,E que raro a fortuna, avessa ao homem,Deixa gozar na terra.Mas eis que o anjo pallido da morteA presentiu feliz e bella e pura,E, abandonando a região do olvido,Desceu á terra, e sob a aza negraA fronte lhe escondeu; o fragil corpoNão pôde resistir; a noite eternaVeio fechar seus olhos;Emquanto a alma abrindoAs azas rutilantes pelo espaço,Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,No seio do infinito;Tal a assustada pomba, que na arvoreO ninho fabricou,—se a mão do homemOu a impulsão do vento um dia abateO recatado asylo,—abrindo o vôo,Deixa os inuteis restosE, atravessando airosa os leves ares,Vai buscar n'outra parte outra guarida.Hoje, do que ora inda lembrança resta,E que lembrança! Os olhos fatigadosParecem ver passar a sombra della;O attento ouvido inda lhe escuta os passos;E as teclas do piano, em que seus dedosTanta harmonia despertavam antes,Como que soltam essas doces notasQue outr'ora ao seu contacto respondiam.Ah! pezava-lhe este ar da terra impura,Faltava-lhe esse alento de outra esphera,Onde, noiva dos anjos, a esperavamAs palmas da virtude.Mas, quando assim a flôr da mocidadeToda se esfolha sobre o chão de morte,Senhor, em que firmar a segurançaDas venturas da terra? Tudo morre;Á sentença fatal nada se esquiva,O que é fructo e o que é flôr. O homem cegoCuida haver levantado em chão de bronzeUm edificio resistente aos tempos,Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,O castello se abate,Onde, doce illusão, fechado haviasTudo o que de melhor a alma do homemEncerra de esperanças.Dorme, dorme tranquillaEm teu ultimo asylo; e se eu não pudeIr espargir tambem algumas flôresSobre a lagea da tua sepultura;Se não pude,—eu que ha pouco te saudavaEm teu erguer, estrella,—os tristes olhosBanhar nos melancolicos fulgores,Na triste luz do teu recente occaso,Deixo-te ao menos nestes pobres versosUm penhor de saudade, e lá na espheraAonde approuve ao Senhor chamar-te cedo,Possas tu ler nas pallidas estrophesA tristeza do amigo.
O teu nome é como o oleo derramado.
O teu nome é como o oleo derramado.
Cantico dos Canticos.
Nem o perfume que expiraA flôr, pela tarde amena,Nem a nota que suspiraCanto de saudade e penaNas brandas cordas da lyra;Nem o murmurio da veiaQue abriu sulco pelo chãoEntre margens de alva arêa,Onde se mira e recreiaRosa fechada em botão;Nem o arrulho enternecidoDas pombas, nem do arvoredoEsse amoroso arruidoQuando escuta algum segredoPela brisa repetido;Nem esta saudade puraDo canto do sabiáEscondido na espessura,Nada respira doçuraComo o teu nome, Sinhá!
Noite: abrem-se as flôres...Que esplendores!Cynthia sonha amoresPelo céu.Tenues os neblinasÁs campinasDescem das collinas,Como um véu.Mãos em mãos travadas,Animadas,Vão aquellas fadasPelo ar;Soltos os cabellos,Em novellos,Puros, louros, bellos,A voar.—«Homem, nos teus diasQue agonias,Sonhos, utopias,Ambições;Vivas e fagueiras,As primeiras,Como as derradeirasIllusões!—«Quantas, quantas vidasVão perdidasPombas mal feridasPelo mal!Annos apoz annos,Tão insanos,Vem os desenganosAfinal.—«Dorme: se os pesaresRepousares,Vês?—por estes aresVamos rir;Mortas, não; festivas,E lascivas,Somos—horas vivasDe dormir—»
Tacendo il nome di questa gentilissima.
Tacendo il nome di questa gentilissima.
DANTE.
Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijoN'uma hora de amor, de ternura e desejo,Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;Depois, depois vestindo a fórma peregrina,Aos meus olhos mortaes, surgiste-me, Corinna!De um jubilo divino os cantos entoavaA natureza mãe, e tudo palpitava,A flôr aberta e fresca, a pedra bronca e rude,De uma vida melhor e nova juventude.Minh'alma adivinhou a origem do teu ser;Quiz cantar e sentir; quiz amar e viver;A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura,Palpitou, reviveu a pobre creatura;Do amor grande, elevado, abriram-se lhe as fontes;Fulgiram novos sóes, rasgaram-se horizontes;Surgiu, abrindo em flôr, uma nova região;Era o dia marcado á minha redempção.Era assim quo eu sonhava a mulher. Era assim:Corpo de fascinar, alma de cherubim;Era assim: fronte altiva e gesto soberano,Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,Em olhos senhoris uma luz tão serena,E grave como Juno, e bella como Helena!Era assim, a mulher que extasia e domina,A mulher que reune a terra e o céu; Corinna!N'este fundo sentir, nesta fascinação,Que pede do poeta o amante coração?Viver como nasceste, ó belleza, ó primor,De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.Viver,—fundir a existenciaEm um osculo de amor,Fazer de ambas—uma essencia,Apagar outras lembranças,Perder outras illusões,E ter por sonho melhorO sonho das esperançasDe que a unica venturaNão reside em outra vida,Não vem do outra creatura;Confundir olhos mos olhos,Unir um seio a outro seio,Derramar as mesmas lagrimasE tremer do mesmo enleio,Ter o mesmo coração,Viver um do outro viver...Tal era a minha ambição.Donde viria a venturaDesta vida? Em que jardimColheria esta flôr pura?Em que solitaria fonteEsta agua iria beber?Em que encendido horizontePodiam meus olhos verTão meiga, tão viva estrella,Abrir-se e resplandecer?Só em ti:—em ti que és bella,Em ti quo a paixão respiras,Em ti cujo olhar se embebeNa illusão de que deliras,Em ti, que um osculo de HebeTeve a singular virtudeDe encher, de animar teus dias,De vida e de juventude...Amemos! diz a flôr á brisa peregrina,Amemos! diz a brisa, arfando em torno á flôrCantemos esta lei e vivamos, Corinna,De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.
A minha alma, talvez, não é tão pura,Como era pura nos primeiros dias;Eu sei: tive choradas agoniasDe que conservo alguma nodoa escura,Talvez. Apenas á manhã da vidaAbri meus olhos virgens e minha alma,Nunca mais respirei a paz e a calma,E me perdi na porfiosa lida.Não sei que fogo interno me impelliaÁ conquista da luz, do amor, do gozo,Não sei que movimento imperiosoDe um desusado ardor minha alma enchia.Corri de campo em campo e plaga em plaga.(Tanta ansiedade o coração encerra!)A ver o lyrio que brotasse a terra,A ver a escuma que cuspisse—a vaga.Mas, no areal da praia, no horto agreste,Tudo aos meus olhos avidos fugia...Desci ao chão do valle que se abria,Subi ao cume da montanha alpestre.Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-meEm meus sonhos de moço e de poeta;E contemplei, nesta ambição inquieta,Da muda noite a pagina sublime.Tomei nas mãos a cythara saudosa,E soltei entre lagrimas um canto...A terra brava recebeu meu prantoE o éco repetiu-me a voz chorosa.Foi em vão. Como um languido suspiro,A voz se me calou, e do invio monteOlhei ainda as linhas do horizonte,Como se olhasse o ultimo retiro.Nuvem negra e veloz corria soltaO anjo da tempestade annunciando;Vi ao longe as alcyones cantandoDoidas correndo á flôr da agua revolta.Desilludido, exausto, ermo, perdido,Busquei a triste estancia do abandono,E esperei, aguardando o ultimo somno,Volver á terra, de que foi nascido.—«Ó Cybele fecunda, é no remansoDo teu seio—que vive a creatura,Chamem-te outros morada triste e escura,Chamo-te gloria, chamo-te descanso!»Assim fallei. E murmurando aos ventosUma blasphemia atroz—estreito abraçoHomem e terra uniu, e em longo espaçoAos écos repeti meus vãos lamentos.Mas, tu passaste... Houve um gritoDentro de mim. Aos meus olhosVisão de amor infinito,Visão de perpetuo gozoPerpassava e me attrahia,Como um sonho voluptuosoDe sequiosa fantasia.Ergui-me logo do chão,E pousei meus olhos fundosEm teus olhos soberanos,Ardentes, vivos, profundos,Como os olhos da bellezaQue das escumas nasceu...Eras tu, maga visãoEras tu o ideal sonhadoQue em toda a parte busquei,E por quem houvera dadoA vida que fatiguei;Por quem verti tanto pranto,Por quem nos longos espinhosMinhas mãos, meus pés sangrei!Mas se minh'alma, acaso, é menos puraDo que era pura nos primeiros dias,Porque não soube em tantas agoniasAbençoar a minha desventura;Se a blasphemia os meus labios polluira,Quando, depois do tempo e do cansaço,Beijei a terra no mortal abraçoE espedacei desanimado a lyra;Podes, visão formosa e peregrina,No amor profundo, na existencia calma,Desse passado resgatar minha almaE levantar-me aos olhos teus,—Corinna!
Quando voarem minhas esperanças,Como um bando de pombas fugitivas;E destas illusões doces e vivasSó me restarem pallidas lembranças;E abandonar-me a minha mãe Quimera,Que me aleitou aos seios abundantes;E vierem as nuvens flammejantesEncher o céu da minha primavera;E raiar para mim um triste dia,Em que, por completar minha tristeza,Nem possa ver-te, musa da belleza,Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;Quando assim seja, por teus olhos juro,Voto minh'alma á escura soledade,Sem procurar melhor felicidade,E sem ambicionar prazer mais puro,Como o viajor que, de fallaz miragemVolta desenganado ao lar tranquillo,E procura, naquelle ultimo asylo,Nem evocar memorias da viagem;Envolvido em mim mesmo, olhos cerradosA tudo mais,—a minha phantasiaAs asas colherá com que algum diaQuis alcançar os cimos elevados.És tu a maior gloria de minha alma,Se o meu amor profundo não te alcança,De que me servirá outra esperança?Que gloria tirarei de alheia palma?
Tu que és bella e feliz, tu que tens por diademaA dupla irradiação da belleza e do amor;E sabes reunir, como o melhor poema,Um desejo da terra e um toque do Senhor;Tu que, como a ilusão, entre nevoas deslisasAos versos do poeta um desvellado olhar,Corinna, ouve a canção das amorosas brisas,Do poeta e da luz, das selvas e do mar.
Deu-nos a harpa colia a excelsa melodiaQue a folhagem desperta e torna alegre a flôr,Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia,Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto?Que alma de serafim volteia aos labios teus?Donde houveste o segredo e o poderoso encantoQue abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?
Eu sou a luz fecunda, alma da natureza;Sou o vivo alimento á viva creação.Deus lançou-me no espaço. A minha realezaVai até onde vae meu vivido clarão.Mas se derramo vida a Cybelle fecunda,Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor,A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda,Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.
Do nume da belleza o berço celebradoFoi o mar; Venus bella entre espumas nasceu.Veio a edade de ferro, e o nume veneradoDo venerado altar baqueou:—pereceu.Mas a belleza és tu. Como Venus marinha,Tens a ineffavel graça e o ineffavel ardor.Se páras, és um nume; andas, uma rainha,E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor!Chamam-te as aguas, vem! tu irás sobre a vagaA vaga, a tua mãe, que te abre os seios nús,Buscar adorações de uma plaga a outra plaga,E das regiões da nevoa ás regiões da luz!
Um silencio de morte entrou no seio ás selvas.Já não pisa Diana este sagrado chão;Nem já vem repousar no leito destas relvasAguardando saudosa o amor e Endymião.Da grande caçadora a um solicito acenoJá não vem, não acode o grupo jovial;Nem o éco repete a flauta de Sileno,Apoz o grande ruido a mudez sepulchral.Mas Diana apparece. A floresta palpita,Uma seiva melhor circula mais veloz;É vida que renasce, é vida que se agita;A luz do teu olhar, ao som da tua voz!
Tambem eu, sonhador, que vi correr meus diasNa solemne mudez da grande solidão,E soltei, enterrando as minhas utopias,O ultimo suspiro e a ultima oração;Tambem eu junto a voz á voz da natureza,E soltando o meu hymno ardente e triumphal,Beijarei ajoelhado as plantas da belezaE banharei minh'alma em tua luz,—Ideal!Ouviste a natureza? Ás supplicas e ás maguasTua alma de mulher deve de palpitar;Mas que te não seduza o cantico das aguas,Não procures, Corinna, o caminho do mar!
Guarda estes versos que escrevi chorandoComo um alivio á minha soledade,Como um dever do meu amor; e quandoHouver em ti um éco de saudade,Beija estes versos que escrevi chorando.Unico em meio das paixões vulgares,Fui a teus pés queimar minh'alma anciosa,Como se queima o oleo ante os altares;Tive a paixão indomita e fogosa,Unica em meio das paixões vulgares.Cheio de amor, vazio de esperança,Dei para ti os meus primeiros passos;Minha illusão fez-me, talvez, criança;E eu pretendi dormir aos teus abraços,Cheio de amor, vazio de esperança.Refugiado á sombra do mysterioPude cantar meu hymno doloroso;E o mundo ouviu o som doce ou funereoSem conhecer o coração ansiosoRefugiado á sombra do mysterio.Mas eu que posso contra a sorte esquiva?Vejo que em teus olhares de princezaTransluz uma alma ardente e compassivaCapaz de reanimar minha incerteza;Mas eu que posso contra a sorte esquiva?Como um réo indefeso e abandonado,Fatalidade, curvo-me ao teu gesto;E se a perseguição me tem cansado.Embora, escutarei o teu aresto,Como um réo indefeso e abandonado.Embora fujas aos meus olhos tristes,Minh'alma irá saudosa, enamorada,Acercar-se de ti lá onde existes;Ouvirás minha lyra apaixonada,Embora fujas aos meus olhos tristes.Talvez um dia meu amor se extinga,Como fogo de Vesta mal cuidadoQue sem o zelo da Vestal não vinga:Na ausencia e no silencio condemnadoTalvez um dia meu amor se extinga.Então não busques reavivar a chamma,Evoca apenas a lembrança castaDo fundo amor daquele que não ama;Esta consolação apenas basta;Então não busques reavivar a chamma.Guarda estes versos que escrevi chorando,Como um alivio á minha soledade,Como um dever do meu amor; e quandoHouver em ti um éco de saudade,Beija estes versos que escrevi chorando.
Em vão! Contrario a amor é nulo o esforço humano;É nulo o vasto espaço, é nada o vasto oceano.Solta do chão, abrindo as asas luminosas.Minh'alma se ergue e voa ás regiões venturosas,Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corinna,Reveste a natureza a purpura divina!Lá, como quando volta a primavera em flôr,Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor;Ao influxo celeste e doce da belleza,Pulsa, canta, irradia e vive a natureza;Mais languida e mais bella a tarde pensativaDesce do monte ao valle; e a viração lascivaVai despertar á noite a melodia extranhaQue falam entre si os olmos da montanha;A flôr tem mais perfume e a noite mais poesia;O mar tem novos sons e mais viva ardentia;A onda enamorada arfa e beija as arêas,Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!O esplendor da belleza é raio creador:Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor.Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida,Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal soffridaDa saudade que punge e do amor que lacera,E palpita e soluça e sangra e desespera.Sinto em torno de mim a muda naturezaRespirando, como eu, a saudade e a tristeza;É deste ermo que eu vou, alma desventurada,Murmurar junto a ti a estrophe immaculadaDo amor que não perdeu, co'a ultima esperança,Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda,Do meu sombrio céu alva estrella bemvinda!Como divaga a abelha inquieta e sequiosaDo calice do lyrio ao calice da rosa,Divaguei de alma em alma em busca deste amor;Gota de mel divino, era divina a flôrQue o devia conter. Eras tu.No delirioDe te amar—olvidei as lutas e o martyrio;Eras tu. Eu só quiz, n'uma ventura calma,Sentir e ver o amor atravez de uma alma;De outras bellezas vans não valeu o explendor,A belleza eras tu:—tinhas a alma e o amor.Pelicano do amor, dilacerei meu peito,E com meu proprio sangue os filhos meus aleito;Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança;Por elles reparti minh'alma. Na provançaElla não fraqueou, antes surgiu mais forte;É que eu puz neste amor, neste ultimo transporteTudo o que vivifica a minha juventude:O culto da verdade e o culto da virtude,A venia do passado e a ambição do futuro,O que ha de grande e belo, o que ha de nobre e puro.Deste profundo amor, doce e amada Corinna,Accorda-te a lembrança um éco de afflicção?Minh'alma pena e chora á dôr que a desatina:Sente tua alma acaso a mesma commoção?Em vão! Contrario a amor é nada o esforço humano,É nada o vasto espaço, é nulo o vasto oceano!Vou, sequioso espirito,Cobrando novo alento,N'aza veloz do ventoCorrer de mar em mar;Posso, fugindo ao carcere,Que á terra me tem prezo,Em novo ardor aceso,Voar, voar, voar!Então, se á hora languidaDa tarde que declina,Do arbusto da collinaBeijando a folha e a flôr,A brisa melancolicaLevar-te entre perfumesUns timidos queixumesEchos de magua e dôr;Então, se o arroio timidoQue passa e que murmuraÁ sombra da espessuraDos verdes salgueiraes.Mandar-te entre os murmuriosQue solta nos seus giros,Uns como que suspirosDe amor, uns ternos ais;Então, se no silencioDa noite adormecida,Sentires—mal dormida—Em sonho ou em visão,Um beijo em tuas palpebras,Um nome aos teus ouvidos,E ao som de uns ais partidosPulsar teu coração;Da magoa que consomeO meu amor venceu;Não tremas—é teu nome,Não fujas—que sou eu!
Musa, desce do alto da montanhaOnde aspiraste o aroma da poesia,E deixa ao éco dos sagrados ermosA ultima harmonia.Dos teus cabellos de ouro, que beijavamNa amena tarde as virações perdidas,Deixa cair ao chão as alvas rosasE as alvas margaridas.Vês? Não é noite, não, este ar sombrioQue nos esconde o céu. Inda na poenteNão quebra os raios pallidos e friosO sol resplandecente.Vês? Li ao fundo o valle arido e seccoAbra-se, como um leito mortuario;Espera-te o silencio da planicie,Como um frio sudario.Desce. Virá um dia em que mais bella,Mais alegre, mais cheia de harmonias,Voltes a procurar a voz cadenteDos teus primeiros dias.Então coroarás a ingenua fronteDas flôres da manhã,—e ao monte agreste,Como a noiva phantastica dos ermos,Irás, musa celeste!Então, nas horas solemnesEm que o mystico hymeneuUne em abraço divinoVerde a terra, azul o céu;Quando, já finda a tormentaQue a natureza enlutou,Bafeja a brisa suaveCedros que o vento abalou;E o rio, a arvore e o campo,A arêa, a face do mar,Parecem, como um concerto,Palpitar, sorrir, orar;Então sim, alma de poeta,Nos teus sonhos cantarásA gloria da natureza,A ventura, o amor e a paz!Ah! mas então será mais alto ainda;Lá onde a alma do vatePossa escutar os anjos,E onde não chegue o vão rumor dos homens;Lá onde, abrindo as azas ambiciosas,Possa adejar no espaço luminoso,Viver de luz mais viva e de ar mais puro,Fartar-se do infinito!Musa, desce do alto da montanhaOnde aspiraste o aroma da poesia,E deixa ao éco dos sagrados ermosA ultima harmonia!