Deserta por temor d'esfalfamento,Deserta por temer que o couro o mate:Ella então de suspiros enche o vento,E faz alvorotar todo o Surrate:Vão procural-o de cipaes um cento,Trouxeram-lhe a cavallo o tal saguate;Ella o vae receber, e o grão NababoPasmou d'isto, e quiz ver este diabo.
Deserta por temor d'esfalfamento,Deserta por temer que o couro o mate:Ella então de suspiros enche o vento,E faz alvorotar todo o Surrate:Vão procural-o de cipaes um cento,Trouxeram-lhe a cavallo o tal saguate;Ella o vae receber, e o grão NababoPasmou d'isto, e quiz ver este diabo.
Pouco tempo aturou de novo em casaO cão, querendo logo a pelle forra,Pois a puta co'a crica toda em braza,Nem queria comer, só queria porra:Voou-lhe, qual falcão batendo a aza,E o courão, sem achar quem a soccorra,Em lagrimas banhada, acceza em furia,Suspira de saudade, e de luxuria.
Pouco tempo aturou de novo em casaO cão, querendo logo a pelle forra,Pois a puta co'a crica toda em braza,Nem queria comer, só queria porra:Voou-lhe, qual falcão batendo a aza,E o courão, sem achar quem a soccorra,Em lagrimas banhada, acceza em furia,Suspira de saudade, e de luxuria.
Courões das quatro partes do universo,De gallico voraz envenenados!Se d'este canto meu, d'este acre versoOuvirdes por ventura os duros brados:Em bando marcial, côro perverso,Vinde ver um cação dos mais pescados:Vindo cingir-lhe os louros, e devotosBeijar-lhe as aras, pendurar-lhe os votos.
Courões das quatro partes do universo,De gallico voraz envenenados!Se d'este canto meu, d'este acre versoOuvirdes por ventura os duros brados:Em bando marcial, côro perverso,Vinde ver um cação dos mais pescados:Vindo cingir-lhe os louros, e devotosBeijar-lhe as aras, pendurar-lhe os votos.
Era alta noute, e as beiras dos telhadosPingando mansamente convidavamA gente toda a propagar a especie:Brandas torrentes, que do ceo cahiamPelas ruas abaixo susurravam:Dormia tudo; e a ronda do IntendenteQue o grão Torquato rege, o pae das putas,Esbirro-mór, Mecenas das tabernas,Recolhido se havia aos patrios lares.Era tudo silencio, e só se ouviaDe quando em quando ao longe uma matraca.Soava o sino grande dos Capuchos,Vão-se os frades erguendo, era uma hora.Não podia faltar: Nise formosa,Pela primeira vez m'estava esperando.De repente me visto, e salto foraDa pobre cama, aonde envolto em sonhosMil imagens a mente me fingia.Visto roupa lavada, e me perfumo,N'um capote me embuço, a espada tómo,Que nunca me serviu, mas que em taes casosMette a todos respeito; e qual Quixote,Que, havendo já perdido o charo Sancho,Sem nada recear de assalto buscaAltos moinhos, que valente ataca;Tal eu figuro achar a cada esquinaUm Rodamonte, e prompto me disponhoA lançal-o por terra, em pó desfeito.Assim gastei o tempo, até que chegoAo sitio dado, onde meu bem m'espera.Mal a porta emboquei, dentro em mim sintoUm fogo activo, que me abraza todo.Eis de Nise a criada, abelha mestra,Que á mira estava ali, a mão me aperta,Vai-me guiando, e diz: «Suba de manso,Que ahi dorme a senhora.» A poucos passos,Por acaso ao subir lhe apalpo as coxas…Oh! caspite! que sesso! Era alcatreira,Nunca vi cú tão duro, era uma rocha.Foi o tezão então em mim tão forte,Que as mãos lhe encosto aos hombros, n'ella salto,Que enfadada dizia: «Olhe o bregeiro!…Tire-se lá, que pode ouvir minha ama!…Ao dizer isto a voz lhe fica presa,Soluça, treme toda, estende os braços,Aperta as pernas, encarquilha o cono,Que distava do cú pollegada e meia.Qual moinho de cartas, que os rapazesEm tempo de verão põem nas janellas,Tal a moça rebolla: e eu posto em cima.Sem nada lhe dizer, tinha vertidoNa larga dorna a larga apojadura.Acabada a funcção, em que a moçoila(Segundo confessou) deu tres por uma,N'um quarto me encaixou, onde os AmoresTinham sua morada, onde CupidoHavia receber em seus altaresEm breve espaço meus amantes votos.Dormia tudo em casa: eis Nise bellaUm pouco envergonhada, assim ficandoMais vermelha que a rosa, a mim se chega,Nos meus braços se lança: então lhe tocoNo tenro, e branco seio palpitante;Trémula a voz, que o susto lhe embargava,Mal me pôde dizer: «Meu bem, minh'alma«Quanto pode o amor n'um peito firme!«Bem vês ao que me arrisco: eu bem conheço«Quanto offendo o meu sexo, e as leis da honra«Bem sei que despedaço!… Mas não temo«Que te esqueças de mim, que ufano zombes«D'uma infeliz mulher amante, e fraca!…»Em quanto assim falava, me prendiaNise c'os braços seus, e aos meus joelhosAs pernas encostava, que eu conheçoPelo tacto, que são rijas, e grossas.Mal podia conter-me: o ceo chuvosoPelas telhas cahia; o vento rijoPelas frestas zunia; a casa todaCom cheiro de alfazema; a cama fofa,Tudo emfim era amor, tudo arreitava.Entro a beijar-lhe as mãos feitas de neve,Descubro-lhe com geito o tenro peito,Que ancioso palpita, que resiste,Que não murcha ao tocar-se; oh quanto é bella!No seio virginal, onde dois globosMais brancos do que jaspe estão firmados,Ancioso beijando-os, pouco a poucoSe fizeram tão rijos que mal pudeComprimil-os c'os beiços; n'este tempoPelo fundo da saia subtilmenteLhe introduzi a mão, com que esfregavaO pentelho em redondo, o mais hirsutoQue atéli encontrei; e como a cricaVertido tinha já pingas ardentes,Certos signaes, que os férvidos prazeresDentro n'alma de Nise á lucta andavam,Tal fogo em mim senti, que de improvisoSem nada lhe dizer me fui despindo,Té ficar nú em pello, e o membro feito,Na cama m'encaixei, qu'a um lado estava.Nise, cheia de susto, e casto pejo,De receio, e luxuria combatida,Junto a mim se assentou, sem resolver-se.Eu mesmo a fui despindo, e fui tirandoQuanto cobria seu airoso corpo.Era feito de neve: os hombros altos;O collo branco, o cú roliço, e grosso;A barriga espaçosa, o cono estreito,O pentelho mui denso, escuro, e liso;Coxas pyramidaes, pernas roliças,O pé pequeno… Oh ceos! Como é formosa!Já mettidos na cama em nivea hollanda,Erguido o membro té tocar no embigo,Qual Amadis de Gaula entrei na briga:Pentelho com pentelho ambos unidos,Presa a voz na garganta, ardente fogoExhalavamos ambos; Nise bellaOu fosse natural, ou fosse d'arte,O peito levantado, anciosa, afflicta,Tremia, soluçava, e os olhos bellosSemi-mortos erguia: a côr do rostoPouco a pouco murchava; era tão forte,Tão activo o prazer, que ella sentia,Que, cingindo-me os rins c'os alvos braços,Tanto a si me prendia, que por vezesO movimento do cú me embaraçava:Co'as alvas pernas me apertava as coxas,Titilava-lhe o cono, e reclinadaQuasi sem tino a languida cabeça,Chamando-me seu bem, sua alma, e vida,Faz-me ternas meiguices, brandos mimos:Férvidos beijos, mutuamente dados,Anhelantes suspiros se exhalavam:Era tudo ternura; e em breve espaçoAo som de queixas mil, com que intentavaMostrar-me Nise um damno irreparavel,Me senti quasi morto em todo o corpo;Uma viva emoção senti gostosaDentro em minh'alma: férvidos prazeresO peito vivamente me agitavam:Os olhos, e a voz amortecida,Os braços frouxos, quasi moribundos,Languido o corpo todo, em fim mal pudeSaber o que fazia… Eis de improvisoTornando a mim mais forte, e mais robusto,Tentei de novo o campo da batalha:Qual o bravo guerreiro, que se abrasaNo calido vapor, que exhala o sangueQue elle mesmo esparziu entre as phalangesDe inimigos crueis, que vence, e mata;Assim eu, abrasado em vivo fogoQue de Nise sahia, me não fartoDa guerra, que intentei; de novo a aperto,De novo beijo os seus mimosos braços;Beijo-lhe os olhos, a mimosa bocca,Os niveos peitos, a cintura airosa;Nise outro tanto me fazia alegre,Estreitava-me a si por varios modos:Ora posto eu por baixo, ella por cima,Para dar doce allivio aos membros lassos;Ora posto de ilharga, sem que nuncaO voraz membro do logar sahisse,Onde uma vez entrara altivo e forte;O membro, que em tal caso era mais duroQue alva columna de marmoreo jaspe;Até que em fim, depois de não podermosNem eu, nem Nise promover mais gostos,O brando somno, sobre nós lançandoOs seus doces influxos brandamente,Os olhos nos cerrou. Uns leves sonhosVieram animar nossos sentidos,Té que chegou a fresca madrugada,Em que á casa voltei, d'onde sahira;E tornando outra vez á pobre cama,Dormi o dia inteiro a somno solto.
Era alta noute, e as beiras dos telhadosPingando mansamente convidavamA gente toda a propagar a especie:Brandas torrentes, que do ceo cahiamPelas ruas abaixo susurravam:Dormia tudo; e a ronda do IntendenteQue o grão Torquato rege, o pae das putas,Esbirro-mór, Mecenas das tabernas,Recolhido se havia aos patrios lares.Era tudo silencio, e só se ouviaDe quando em quando ao longe uma matraca.Soava o sino grande dos Capuchos,Vão-se os frades erguendo, era uma hora.Não podia faltar: Nise formosa,Pela primeira vez m'estava esperando.De repente me visto, e salto foraDa pobre cama, aonde envolto em sonhosMil imagens a mente me fingia.Visto roupa lavada, e me perfumo,N'um capote me embuço, a espada tómo,Que nunca me serviu, mas que em taes casosMette a todos respeito; e qual Quixote,Que, havendo já perdido o charo Sancho,Sem nada recear de assalto buscaAltos moinhos, que valente ataca;Tal eu figuro achar a cada esquinaUm Rodamonte, e prompto me disponhoA lançal-o por terra, em pó desfeito.Assim gastei o tempo, até que chegoAo sitio dado, onde meu bem m'espera.Mal a porta emboquei, dentro em mim sintoUm fogo activo, que me abraza todo.Eis de Nise a criada, abelha mestra,Que á mira estava ali, a mão me aperta,Vai-me guiando, e diz: «Suba de manso,Que ahi dorme a senhora.» A poucos passos,Por acaso ao subir lhe apalpo as coxas…Oh! caspite! que sesso! Era alcatreira,Nunca vi cú tão duro, era uma rocha.Foi o tezão então em mim tão forte,Que as mãos lhe encosto aos hombros, n'ella salto,Que enfadada dizia: «Olhe o bregeiro!…Tire-se lá, que pode ouvir minha ama!…Ao dizer isto a voz lhe fica presa,Soluça, treme toda, estende os braços,Aperta as pernas, encarquilha o cono,Que distava do cú pollegada e meia.Qual moinho de cartas, que os rapazesEm tempo de verão põem nas janellas,Tal a moça rebolla: e eu posto em cima.Sem nada lhe dizer, tinha vertidoNa larga dorna a larga apojadura.Acabada a funcção, em que a moçoila(Segundo confessou) deu tres por uma,N'um quarto me encaixou, onde os AmoresTinham sua morada, onde CupidoHavia receber em seus altaresEm breve espaço meus amantes votos.Dormia tudo em casa: eis Nise bellaUm pouco envergonhada, assim ficandoMais vermelha que a rosa, a mim se chega,Nos meus braços se lança: então lhe tocoNo tenro, e branco seio palpitante;Trémula a voz, que o susto lhe embargava,Mal me pôde dizer: «Meu bem, minh'alma«Quanto pode o amor n'um peito firme!«Bem vês ao que me arrisco: eu bem conheço«Quanto offendo o meu sexo, e as leis da honra«Bem sei que despedaço!… Mas não temo«Que te esqueças de mim, que ufano zombes«D'uma infeliz mulher amante, e fraca!…»Em quanto assim falava, me prendiaNise c'os braços seus, e aos meus joelhosAs pernas encostava, que eu conheçoPelo tacto, que são rijas, e grossas.Mal podia conter-me: o ceo chuvosoPelas telhas cahia; o vento rijoPelas frestas zunia; a casa todaCom cheiro de alfazema; a cama fofa,Tudo emfim era amor, tudo arreitava.Entro a beijar-lhe as mãos feitas de neve,Descubro-lhe com geito o tenro peito,Que ancioso palpita, que resiste,Que não murcha ao tocar-se; oh quanto é bella!No seio virginal, onde dois globosMais brancos do que jaspe estão firmados,Ancioso beijando-os, pouco a poucoSe fizeram tão rijos que mal pudeComprimil-os c'os beiços; n'este tempoPelo fundo da saia subtilmenteLhe introduzi a mão, com que esfregavaO pentelho em redondo, o mais hirsutoQue atéli encontrei; e como a cricaVertido tinha já pingas ardentes,Certos signaes, que os férvidos prazeresDentro n'alma de Nise á lucta andavam,Tal fogo em mim senti, que de improvisoSem nada lhe dizer me fui despindo,Té ficar nú em pello, e o membro feito,Na cama m'encaixei, qu'a um lado estava.Nise, cheia de susto, e casto pejo,De receio, e luxuria combatida,Junto a mim se assentou, sem resolver-se.Eu mesmo a fui despindo, e fui tirandoQuanto cobria seu airoso corpo.Era feito de neve: os hombros altos;O collo branco, o cú roliço, e grosso;A barriga espaçosa, o cono estreito,O pentelho mui denso, escuro, e liso;Coxas pyramidaes, pernas roliças,O pé pequeno… Oh ceos! Como é formosa!Já mettidos na cama em nivea hollanda,Erguido o membro té tocar no embigo,Qual Amadis de Gaula entrei na briga:Pentelho com pentelho ambos unidos,Presa a voz na garganta, ardente fogoExhalavamos ambos; Nise bellaOu fosse natural, ou fosse d'arte,O peito levantado, anciosa, afflicta,Tremia, soluçava, e os olhos bellosSemi-mortos erguia: a côr do rostoPouco a pouco murchava; era tão forte,Tão activo o prazer, que ella sentia,Que, cingindo-me os rins c'os alvos braços,Tanto a si me prendia, que por vezesO movimento do cú me embaraçava:Co'as alvas pernas me apertava as coxas,Titilava-lhe o cono, e reclinadaQuasi sem tino a languida cabeça,Chamando-me seu bem, sua alma, e vida,Faz-me ternas meiguices, brandos mimos:Férvidos beijos, mutuamente dados,Anhelantes suspiros se exhalavam:Era tudo ternura; e em breve espaçoAo som de queixas mil, com que intentavaMostrar-me Nise um damno irreparavel,Me senti quasi morto em todo o corpo;Uma viva emoção senti gostosaDentro em minh'alma: férvidos prazeresO peito vivamente me agitavam:Os olhos, e a voz amortecida,Os braços frouxos, quasi moribundos,Languido o corpo todo, em fim mal pudeSaber o que fazia… Eis de improvisoTornando a mim mais forte, e mais robusto,Tentei de novo o campo da batalha:Qual o bravo guerreiro, que se abrasaNo calido vapor, que exhala o sangueQue elle mesmo esparziu entre as phalangesDe inimigos crueis, que vence, e mata;Assim eu, abrasado em vivo fogoQue de Nise sahia, me não fartoDa guerra, que intentei; de novo a aperto,De novo beijo os seus mimosos braços;Beijo-lhe os olhos, a mimosa bocca,Os niveos peitos, a cintura airosa;Nise outro tanto me fazia alegre,Estreitava-me a si por varios modos:Ora posto eu por baixo, ella por cima,Para dar doce allivio aos membros lassos;Ora posto de ilharga, sem que nuncaO voraz membro do logar sahisse,Onde uma vez entrara altivo e forte;O membro, que em tal caso era mais duroQue alva columna de marmoreo jaspe;Até que em fim, depois de não podermosNem eu, nem Nise promover mais gostos,O brando somno, sobre nós lançandoOs seus doces influxos brandamente,Os olhos nos cerrou. Uns leves sonhosVieram animar nossos sentidos,Té que chegou a fresca madrugada,Em que á casa voltei, d'onde sahira;E tornando outra vez á pobre cama,Dormi o dia inteiro a somno solto.
Pavorosa illusão da Eternidade,Terror dos vivos, carcere dos mortos;D'almas vans sonho vão, chamado inferno;Systema da politica oppressora;Freio, que a mão dos despotas, dos bonzosForjou para a boçal credulidade;Dogma funesto, que o remorso arreigasNos ternos corações, e a paz lhe arrancas:Dogma funesto, detestavel crença,Que envenenas delicias innocentes,Taes como aquellas que no ceo se fingem:Furias, Cerastes, Dragos, Centimanos,Perpetua escuridão, perpetua chamma,Incompativeis producções do engano,Do sempiterno horror terrivel quadro,(Só terrivel aos olhos da ignorancia)Não, não me assombram tuas negras côres,Dos homens o pincel, e a mão conheço:Trema de ouvir sacrilego ameaçoQuem d'um Deus quando quer faz um tyranno:Trema a superstição; lagrimas, preces,Votos, suspiros arquejando espalhe,Coza as faces co'a terra, os peitos fira,Vergonhosa piedade, inutil veniaEspere ás plantas de impostor sagrado,Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:Que ás leis, que as propensões da naturezaEternas, immutaveis, necessarias,Chama espantosos, voluntarios crimes;Que as ávidas paixões, que em si fomenta,Abhorrece nos mais, nos mais fulmina:Que molesto jejum, roaz cilicioCom despotica voz á carne arbitra,E, nos ares lançando a futil benção,Vae do grantribunal desenfadar-seEm sordido prazer, venaes delicias,Escandalo de Amor, que dá, não vende.
Pavorosa illusão da Eternidade,Terror dos vivos, carcere dos mortos;D'almas vans sonho vão, chamado inferno;Systema da politica oppressora;Freio, que a mão dos despotas, dos bonzosForjou para a boçal credulidade;Dogma funesto, que o remorso arreigasNos ternos corações, e a paz lhe arrancas:Dogma funesto, detestavel crença,Que envenenas delicias innocentes,Taes como aquellas que no ceo se fingem:Furias, Cerastes, Dragos, Centimanos,Perpetua escuridão, perpetua chamma,Incompativeis producções do engano,Do sempiterno horror terrivel quadro,(Só terrivel aos olhos da ignorancia)Não, não me assombram tuas negras côres,Dos homens o pincel, e a mão conheço:Trema de ouvir sacrilego ameaçoQuem d'um Deus quando quer faz um tyranno:Trema a superstição; lagrimas, preces,Votos, suspiros arquejando espalhe,Coza as faces co'a terra, os peitos fira,Vergonhosa piedade, inutil veniaEspere ás plantas de impostor sagrado,Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:Que ás leis, que as propensões da naturezaEternas, immutaveis, necessarias,Chama espantosos, voluntarios crimes;Que as ávidas paixões, que em si fomenta,Abhorrece nos mais, nos mais fulmina:Que molesto jejum, roaz cilicioCom despotica voz á carne arbitra,E, nos ares lançando a futil benção,Vae do grantribunal desenfadar-seEm sordido prazer, venaes delicias,Escandalo de Amor, que dá, não vende.
Oh Deus, não oppressor, não vingativo,Não vibrando co'a dextra o raio ardenteContra o suave instincto, que nos déste;Não carrancudo, rispido arrojandoSobre os mortaes a rigida sentença,A punição cruel, que excede o crime,Até na opinião do cego escravo.Que te adora, te incensa, e crê qu'és duro!Monstros de vís paixões, damnados peitosRegidos pelo sofrego interesse(Alto, impassivo numen!) te attribuemA cholera, a vingança, os vicios todos,Negros enxames, que lhe fervem n'alma!Quer sanhudo ministro dos altaresDourar o horror das barbaras cruezas,Cobrir com véo compacto e venerandoA atroz satisfação de antigos odios,Que a mira poem no estrago da innocencia,Ou quer manter asperrimo dominio,Que os vaivens da razão franquêa, e nutre:Eil-o, em sancto furor todo abrasado,Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,A maldição na bocca, o fel, a espuma,Eil-o, cheio de um Deus tão mau como elle,Eil-o citando os horridos exemplosEm que aterrada observe a phantasiaUm Deus o algoz, a victima o seu povo:No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,Envolto em nuvens, em trovões, em raiosDe Israel o tyranno omnipotente;Lá brama do Sinay, lá treme a terra!O torvo executor dos seus decretos,Hypocrita feroz, Moysés astuto,Ouve o terrivel Deus, que assim traveja:«Vae, ministro fiel, dos meus furores!Corre, vôa a vingar-me: seja a raivaDe esfaimados leões menor que a tua:Meu poder, minhas forças te confio,Minha tocha invisivel te precede:Dos impios, dos ingratos, que me offendem,Na rebelde cerviz o ferro ensopa:Extermina, destroe, reduz a cinzasAs sacrilegas mãos, que os meus incensosDão a frageis metaes, a deuses surdos:Sepulta as minhas victimas no inferno,E treme, se a vingança me retardas!…»Não lh'a retarda o rabido propheta;Já corre, já vozêa, já diffundePelos brutos, attonitos sequazesA peste do implacavel fanatismo:Armam-se, investem, rugem, ferem, matam,Que sanha! que furor! que atrocidade!Foge dos corações a natureza;Os consortes, os paes, as mães, os filhosEm honra do seu Deus consagram, tingemAbominosas mãos no parricidio:Os campos de cadaveres se alastram,Susurra pela terra o sangue em rios,Troam no polo altissimos clamores.Ah! Barbaro impostor, monstro sedentoDe crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,Serena o phrenesi, reprime as garras,E a torrente de horrores, que derramas,Para fundar o imperio dos tyrannos,Para deixar-lhe o feio, o duro exemploDe opprimir seus eguaes com ferreo jugo;Não profanes, sacrilego, não manchesDa eterna divindade o nome augusto!Esse, de quem te ostentas tão valido,É Deus do teu furor, Deus do teu genio,Deus creado por ti, Deus necessarioAos tyrannos da terra, aos que te imitam,E áquelles, que não crêm que Deus existe.
Oh Deus, não oppressor, não vingativo,Não vibrando co'a dextra o raio ardenteContra o suave instincto, que nos déste;Não carrancudo, rispido arrojandoSobre os mortaes a rigida sentença,A punição cruel, que excede o crime,Até na opinião do cego escravo.Que te adora, te incensa, e crê qu'és duro!Monstros de vís paixões, damnados peitosRegidos pelo sofrego interesse(Alto, impassivo numen!) te attribuemA cholera, a vingança, os vicios todos,Negros enxames, que lhe fervem n'alma!Quer sanhudo ministro dos altaresDourar o horror das barbaras cruezas,Cobrir com véo compacto e venerandoA atroz satisfação de antigos odios,Que a mira poem no estrago da innocencia,Ou quer manter asperrimo dominio,Que os vaivens da razão franquêa, e nutre:Eil-o, em sancto furor todo abrasado,Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,A maldição na bocca, o fel, a espuma,Eil-o, cheio de um Deus tão mau como elle,Eil-o citando os horridos exemplosEm que aterrada observe a phantasiaUm Deus o algoz, a victima o seu povo:No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,Envolto em nuvens, em trovões, em raiosDe Israel o tyranno omnipotente;Lá brama do Sinay, lá treme a terra!O torvo executor dos seus decretos,Hypocrita feroz, Moysés astuto,Ouve o terrivel Deus, que assim traveja:«Vae, ministro fiel, dos meus furores!Corre, vôa a vingar-me: seja a raivaDe esfaimados leões menor que a tua:Meu poder, minhas forças te confio,Minha tocha invisivel te precede:Dos impios, dos ingratos, que me offendem,Na rebelde cerviz o ferro ensopa:Extermina, destroe, reduz a cinzasAs sacrilegas mãos, que os meus incensosDão a frageis metaes, a deuses surdos:Sepulta as minhas victimas no inferno,E treme, se a vingança me retardas!…»Não lh'a retarda o rabido propheta;Já corre, já vozêa, já diffundePelos brutos, attonitos sequazesA peste do implacavel fanatismo:Armam-se, investem, rugem, ferem, matam,Que sanha! que furor! que atrocidade!Foge dos corações a natureza;Os consortes, os paes, as mães, os filhosEm honra do seu Deus consagram, tingemAbominosas mãos no parricidio:Os campos de cadaveres se alastram,Susurra pela terra o sangue em rios,Troam no polo altissimos clamores.Ah! Barbaro impostor, monstro sedentoDe crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,Serena o phrenesi, reprime as garras,E a torrente de horrores, que derramas,Para fundar o imperio dos tyrannos,Para deixar-lhe o feio, o duro exemploDe opprimir seus eguaes com ferreo jugo;Não profanes, sacrilego, não manchesDa eterna divindade o nome augusto!Esse, de quem te ostentas tão valido,É Deus do teu furor, Deus do teu genio,Deus creado por ti, Deus necessarioAos tyrannos da terra, aos que te imitam,E áquelles, que não crêm que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,Que em tenebrosos seculos envoltaDesde aquelles crueis, infandos temposDolosa tradição passou aos nossos.Do coração, da idéa, ah! desarreigaDe astutos mestres a fallaz doctrina,E de credulos paes preoccupadosAs chimeras, visões, phantasmas, sonhos:Ha Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade,Deus de amor, pae dos homens, não flagello.Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo,Que só não leva a bem o abuso d'ellas,Porque á nossa existencia não se ajusta,Porque inda encurta mais a curta vida:Amor é lei do Eterno, é lei suave;As mais são invenções, são quasi todasContrarias á razão, e á natureza:Proprias ao bem d'alguns, e ao mal de muitos.Natureza, e razão jámais differem:Natureza, e razão movem, conduzemA dar soccorro ao pallido indigente,A pôr limite ás lagrimas do afflicto,E a remir a innocencia consternada,Quanto nos debeis, magoados pulsosLhe roxêa o vergão de vís algemas:Natureza, e razão jámais approvamO abuso das paixões, aquella insania,Que pondo os homens ao nivel dos brutos,Os infama, os deslustra, os desacorda.Quando aos nossos eguaes, quando uns aos outrosTraçâmos fero damno, injustos malesEm nossos corações, em nossas mentes,És, oh remorso, o precursor do crime,O castigo nos dás antes da culpa,Que só na execução do crime existe,Pois não pode evitar-se o pensamento,E é innocente a mão, que se arrepende.Não vem só d'um principio acções oppostas:Taes dimanam de um Deus, taes do exemplo,Ou do cego furor, moleslia d'alma.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,Que em tenebrosos seculos envoltaDesde aquelles crueis, infandos temposDolosa tradição passou aos nossos.Do coração, da idéa, ah! desarreigaDe astutos mestres a fallaz doctrina,E de credulos paes preoccupadosAs chimeras, visões, phantasmas, sonhos:Ha Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade,Deus de amor, pae dos homens, não flagello.Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo,Que só não leva a bem o abuso d'ellas,Porque á nossa existencia não se ajusta,Porque inda encurta mais a curta vida:Amor é lei do Eterno, é lei suave;As mais são invenções, são quasi todasContrarias á razão, e á natureza:Proprias ao bem d'alguns, e ao mal de muitos.Natureza, e razão jámais differem:Natureza, e razão movem, conduzemA dar soccorro ao pallido indigente,A pôr limite ás lagrimas do afflicto,E a remir a innocencia consternada,Quanto nos debeis, magoados pulsosLhe roxêa o vergão de vís algemas:Natureza, e razão jámais approvamO abuso das paixões, aquella insania,Que pondo os homens ao nivel dos brutos,Os infama, os deslustra, os desacorda.Quando aos nossos eguaes, quando uns aos outrosTraçâmos fero damno, injustos malesEm nossos corações, em nossas mentes,És, oh remorso, o precursor do crime,O castigo nos dás antes da culpa,Que só na execução do crime existe,Pois não pode evitar-se o pensamento,E é innocente a mão, que se arrepende.Não vem só d'um principio acções oppostas:Taes dimanam de um Deus, taes do exemplo,Ou do cego furor, moleslia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto,Que te anceam phantasticos terrores,Prégados pelo ardil, pelo interesse.Só de infestos mortaes na voz, na astuciaA bem da tyrannia está o inferno.Esse, que pintam barathro de angustias,Seria o galardão, seria o premioDas suas vexações, dos seus embustes,E não pena de amor, se inferno houvesse.Escuta o coração, Marilia bella,Escuta o coração, que te não mente:Mil vezes te dirá: «Se a rigorosaCarrancuda oppressão de um pae severo,Te não deixa chegar ao charo amantePelo perpetuo nó, que chamam sacro,Que o bonzo enganador teceu na idéaPara tambem no amor dar leis ao mundo;Se obter não podes a união solemne,Que hallucina os mortaes, porque te esquivasDa natural prisão, do terno laçoQue com lagrimas, e ais te estou pedindo?Reclama o teu poder, os teus direitosDa justiça despotica extorquidos:Não chega aos corações o jus paterno,Se a chamma da ternura os affoguêa:De amor ha precisão, ha liberdade;Eia pois, do temor saccode o jugo,Acanhada donzella; e do teu pejoDéstra illudindo as vigilantes guardas,Pelas sombras da noute, a amor propicias,Demanda os braços do ancioso Elmano,Ao risonho prazer franquêa os lares.Consista o laço na união das almas;Do ditoso hymenêo as venerandasCaladas trevas testemunhas sejam;Seja ministro o Amor, e a terra temploPois que o templo do Eterno é toda a terra.Entrega-te depois aos teus transportes,Os oppressos desejos desafoga.Mata o pejo importuno; incita, incitaO que, só de prazer merece o nome.Verás como, envolvendo-se as vontades,Gostos eguaes se dão, e se recebem:Do jubilo hade a força amortecer-te,Do jubilo hade a força aviventar-te.Sentirás suspirar, morrer o amante,Com os seus confundir os teus suspiros,Has de morrer, e reviver com elle.De tão alta ventura, ah! não te prives,Ah! não prives, insana, a quem te adora.»Eis o que has de escutar, oh doce amada,Se á voz do coração não fores surda.De tuas perfeições enfeitiçadoÁs preces, que te envia, eu uno as minhas.Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa.Amar é um dever, além de um gosto,Uma necessidade, não um crime,Qual a impostura horrisona apregôa.Céos não existem, não existe inferno,O premio da virtude é a virtude,É castigo do vicio o proprio vicio.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto,Que te anceam phantasticos terrores,Prégados pelo ardil, pelo interesse.Só de infestos mortaes na voz, na astuciaA bem da tyrannia está o inferno.Esse, que pintam barathro de angustias,Seria o galardão, seria o premioDas suas vexações, dos seus embustes,E não pena de amor, se inferno houvesse.Escuta o coração, Marilia bella,Escuta o coração, que te não mente:Mil vezes te dirá: «Se a rigorosaCarrancuda oppressão de um pae severo,Te não deixa chegar ao charo amantePelo perpetuo nó, que chamam sacro,Que o bonzo enganador teceu na idéaPara tambem no amor dar leis ao mundo;Se obter não podes a união solemne,Que hallucina os mortaes, porque te esquivasDa natural prisão, do terno laçoQue com lagrimas, e ais te estou pedindo?Reclama o teu poder, os teus direitosDa justiça despotica extorquidos:Não chega aos corações o jus paterno,Se a chamma da ternura os affoguêa:De amor ha precisão, ha liberdade;Eia pois, do temor saccode o jugo,Acanhada donzella; e do teu pejoDéstra illudindo as vigilantes guardas,Pelas sombras da noute, a amor propicias,Demanda os braços do ancioso Elmano,Ao risonho prazer franquêa os lares.Consista o laço na união das almas;Do ditoso hymenêo as venerandasCaladas trevas testemunhas sejam;Seja ministro o Amor, e a terra temploPois que o templo do Eterno é toda a terra.Entrega-te depois aos teus transportes,Os oppressos desejos desafoga.Mata o pejo importuno; incita, incitaO que, só de prazer merece o nome.Verás como, envolvendo-se as vontades,Gostos eguaes se dão, e se recebem:Do jubilo hade a força amortecer-te,Do jubilo hade a força aviventar-te.Sentirás suspirar, morrer o amante,Com os seus confundir os teus suspiros,Has de morrer, e reviver com elle.De tão alta ventura, ah! não te prives,Ah! não prives, insana, a quem te adora.»Eis o que has de escutar, oh doce amada,Se á voz do coração não fores surda.De tuas perfeições enfeitiçadoÁs preces, que te envia, eu uno as minhas.Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa.Amar é um dever, além de um gosto,Uma necessidade, não um crime,Qual a impostura horrisona apregôa.Céos não existem, não existe inferno,O premio da virtude é a virtude,É castigo do vicio o proprio vicio.
Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,Que os beneficos céos, os céos piedososExigem nossos ais, nossos suspirosEm vez de adorações, em vez d'incensos?Credula, branda amiga é falso, é falso:Longe a cega illusão. Se ambos sumidosEm solitario bosque, e misturandoDoces requebros c'os murmurios docesDos transparentes, garrulos arroios,Sempre me ouvisses, sempre me dissessesQue és minha, que sou teu; que mal, que offensaNosso innocente ardor faria aos Numes?Se acaso reclinando-te comigoSobre viçoso thalamo de flores,Turvasse nos teus olhos carinhososSuave languidez a luz suave;Se os doces labios teus entre meus labiosFervendo, grata Lilia, me espargissemVivissimo calor nas fibras todas;Se pelo excesso de ineffaveis gostosMorressemos, meu bem, d'uma só morte;E se Amor outra vez nos désse a vidaPara expirar de novo: em que peccára,Em que afrontára aos céos prazer tão puro?A voz do coração não tece enganos,Não é réo quem te segue, oh Natureza:Esse Jove, esse deus, que os homens pintamSuberbo, vingador, cruel, terrivel;Em perpetuas delicias engolphado,Submerso em perennal tranquillidadeCom as acções humanas não se emb'raça:Fictos seus olhos no universo todo,Em todos os mortaes, n'um só não param:As vozes da razão profiro, oh Lilia!É lei o amor, necessidade o gosto:Viver na insipidez é erro, é crime,Quando amigo prazer se nos franquêa.
Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,Que os beneficos céos, os céos piedososExigem nossos ais, nossos suspirosEm vez de adorações, em vez d'incensos?Credula, branda amiga é falso, é falso:Longe a cega illusão. Se ambos sumidosEm solitario bosque, e misturandoDoces requebros c'os murmurios docesDos transparentes, garrulos arroios,Sempre me ouvisses, sempre me dissessesQue és minha, que sou teu; que mal, que offensaNosso innocente ardor faria aos Numes?Se acaso reclinando-te comigoSobre viçoso thalamo de flores,Turvasse nos teus olhos carinhososSuave languidez a luz suave;Se os doces labios teus entre meus labiosFervendo, grata Lilia, me espargissemVivissimo calor nas fibras todas;Se pelo excesso de ineffaveis gostosMorressemos, meu bem, d'uma só morte;E se Amor outra vez nos désse a vidaPara expirar de novo: em que peccára,Em que afrontára aos céos prazer tão puro?A voz do coração não tece enganos,Não é réo quem te segue, oh Natureza:Esse Jove, esse deus, que os homens pintamSuberbo, vingador, cruel, terrivel;Em perpetuas delicias engolphado,Submerso em perennal tranquillidadeCom as acções humanas não se emb'raça:Fictos seus olhos no universo todo,Em todos os mortaes, n'um só não param:As vozes da razão profiro, oh Lilia!É lei o amor, necessidade o gosto:Viver na insipidez é erro, é crime,Quando amigo prazer se nos franquêa.
Eia! Deixemos á vaidade insanaCorrendo-se da rapida existenciaSem susto para si crear segunda:Deixemos-lhe entranhar por vans chimeras,Pela immortalidade os olhos ledos;E do seu phrenesi, meu bem, zombemos.Esse abysmo sem fundo, ou mar sem praiaOnde a morte nos lança, e nos arroja,Guarda perpetuamente tudo, oh Lilia,Tudo quanto lhe cae no bojo immenso.Em quanto dura a vida ah! sejam, sejamNossos os prazeres, os Elysios nossos.Os outros não são mais que um sonho alegre,Uma invenção dos reis, ou dos tyrannos,Para curvar ao jugo os brutos povos:E o que a superstição nomêa averno,E á multidão fanatica horrorisa;As furias, os dragões, e as chammas fazemMais medo aos vivos, do que mal aos mortos.
Eia! Deixemos á vaidade insanaCorrendo-se da rapida existenciaSem susto para si crear segunda:Deixemos-lhe entranhar por vans chimeras,Pela immortalidade os olhos ledos;E do seu phrenesi, meu bem, zombemos.Esse abysmo sem fundo, ou mar sem praiaOnde a morte nos lança, e nos arroja,Guarda perpetuamente tudo, oh Lilia,Tudo quanto lhe cae no bojo immenso.Em quanto dura a vida ah! sejam, sejamNossos os prazeres, os Elysios nossos.Os outros não são mais que um sonho alegre,Uma invenção dos reis, ou dos tyrannos,Para curvar ao jugo os brutos povos:E o que a superstição nomêa averno,E á multidão fanatica horrorisa;As furias, os dragões, e as chammas fazemMais medo aos vivos, do que mal aos mortos.
Se, lascivos do mundo, amais sem arte,Lede meus versos, amareis com ella.Tu, louro Apollo, me tempera a lyra,Tu, branda Venus, a cantar me ensina.Quanto nos reinos de Plutão desejaTantalo ardente mitigar a sêde;Quanto suspira Promethêo, que JoveOs duros ferros, com que o prende, rompa;Tanto deseja a feminina turbaAo corpo varonil unir seu corpo;Tanto suspira por que mão lascivaMeiga lhe toque nas columnas lisas,E que mimoso, petulante dedoLhe amolgue os tezos seus virgineos peitos.Em Junho ardente pelo seu consorteClama, suspira em verde ramo a rôla;Em gelado Janeiro clama tristeA domestica tigre por marido:Brama nos campos em sereno MaioMansa novilha por amado touro.Sabia Natura o debil sexo excita,Torpes desejos com ardor provoca:Mas sempre firme, e simulada negaCarnal impulso geração de Pyrrha.Busca Diana Endymião nos bosques,Mas finge ousada perseguir as féras;Ardente Venus só prazer respira,Mas seus favores solicíta Marte;Serrana humilde reclinar desejaNos doces braços de um Vaqueiro o collo;Mas d'elle foge, na montanha, esquiva,Com elle o baile festival recusa.
Se, lascivos do mundo, amais sem arte,Lede meus versos, amareis com ella.Tu, louro Apollo, me tempera a lyra,Tu, branda Venus, a cantar me ensina.Quanto nos reinos de Plutão desejaTantalo ardente mitigar a sêde;Quanto suspira Promethêo, que JoveOs duros ferros, com que o prende, rompa;Tanto deseja a feminina turbaAo corpo varonil unir seu corpo;Tanto suspira por que mão lascivaMeiga lhe toque nas columnas lisas,E que mimoso, petulante dedoLhe amolgue os tezos seus virgineos peitos.Em Junho ardente pelo seu consorteClama, suspira em verde ramo a rôla;Em gelado Janeiro clama tristeA domestica tigre por marido:Brama nos campos em sereno MaioMansa novilha por amado touro.Sabia Natura o debil sexo excita,Torpes desejos com ardor provoca:Mas sempre firme, e simulada negaCarnal impulso geração de Pyrrha.Busca Diana Endymião nos bosques,Mas finge ousada perseguir as féras;Ardente Venus só prazer respira,Mas seus favores solicíta Marte;Serrana humilde reclinar desejaNos doces braços de um Vaqueiro o collo;Mas d'elle foge, na montanha, esquiva,Com elle o baile festival recusa.
Tu, próvido Lycurgo, ou quem primeiroÁ vaga turba legislou dos homens,Severo alçando temeroso ferroDuro reprimes da natura os gritos;Á face mulheril, immovel d'antes,Pudibundo rubor e pejo déstes;Mas ah! não tema varonil catervaFemineo pejo, sendo eu o seu mestre.Corta o duro machado erguido tronco,Mas vejo sempre pullular vergonteas;Diques forçosos contra o mar se elevam,Mas além d'elles delphins mansos nadam.Pode mais do que as leis a Natureza,Pratica o mundo só o que ella dicta;Faz-se escondida em quanto a não descobrem;Eu subtil mestre a descobril-a ensino.Ah! não me chamem críticos austerosDos bons costumes corruptor profano!Ah! não me mande Cesar irritadoNo frio Euxino a viver c'os Getas.Outra cousa não faz duro colonoCom liso arado, quando rompe a terra:Dura codêa o calor nativo impede,O ferro a rasga, e o calor transpira.
Tu, próvido Lycurgo, ou quem primeiroÁ vaga turba legislou dos homens,Severo alçando temeroso ferroDuro reprimes da natura os gritos;Á face mulheril, immovel d'antes,Pudibundo rubor e pejo déstes;Mas ah! não tema varonil catervaFemineo pejo, sendo eu o seu mestre.Corta o duro machado erguido tronco,Mas vejo sempre pullular vergonteas;Diques forçosos contra o mar se elevam,Mas além d'elles delphins mansos nadam.Pode mais do que as leis a Natureza,Pratica o mundo só o que ella dicta;Faz-se escondida em quanto a não descobrem;Eu subtil mestre a descobril-a ensino.Ah! não me chamem críticos austerosDos bons costumes corruptor profano!Ah! não me mande Cesar irritadoNo frio Euxino a viver c'os Getas.Outra cousa não faz duro colonoCom liso arado, quando rompe a terra:Dura codêa o calor nativo impede,O ferro a rasga, e o calor transpira.
Vós, mancebos, correi, correi ligeirosDo Tibre ás margens ferteis, e mimosas:Tão immoveis me ouvi; mas não tão surdos;Direi primeiro como Amor se enlêa,Depois como se faz propicia Venus.Tu, oh Jove immortal, tu pae dos deuses,Sabio me inspira, que não basta Apollo.É verde louro fugitivo Daphne,Amor ingrato do queixoso Phebo:Tu, selvatico filho de Saturno,Só tu não temes desdenhosas iras:Ou chuva d'ouro a bella Danae molhas,Ou touro manso linda Europa roubas.A face mulheril formosa, e puraCobrem de pejo avermelhadas rosas;Ou dedo juvenil destro as desfolhe,Ou calido vapor soprando as murche:Então lasciva, sem rebuço expostaFacil se entrega, sem temor se arroja:Então tu, louro Apollo, serás Daphne,A nympha fugitiva será Phebo.Apoz o bruto filho de NeptunoCorrerá Galathéa os verdes mares;Assim foge de Cyrce o grego Ulysses,Assim foge de Dido o pio Enéas.Porém, primeiro, subtilmente a inflamma;Se acaso ardente, devorante fogoTorrar os bofes, consumir entranhas,Natura acode com forçoso impulso,E mais depressa se afugenta o pejo:Mais depressa o calor do sol derretePallida massa de esfregada cêra;Mais cedo rompe ariete forçosoTorres antigas, ruinosos muros.
Vós, mancebos, correi, correi ligeirosDo Tibre ás margens ferteis, e mimosas:Tão immoveis me ouvi; mas não tão surdos;Direi primeiro como Amor se enlêa,Depois como se faz propicia Venus.Tu, oh Jove immortal, tu pae dos deuses,Sabio me inspira, que não basta Apollo.É verde louro fugitivo Daphne,Amor ingrato do queixoso Phebo:Tu, selvatico filho de Saturno,Só tu não temes desdenhosas iras:Ou chuva d'ouro a bella Danae molhas,Ou touro manso linda Europa roubas.A face mulheril formosa, e puraCobrem de pejo avermelhadas rosas;Ou dedo juvenil destro as desfolhe,Ou calido vapor soprando as murche:Então lasciva, sem rebuço expostaFacil se entrega, sem temor se arroja:Então tu, louro Apollo, serás Daphne,A nympha fugitiva será Phebo.Apoz o bruto filho de NeptunoCorrerá Galathéa os verdes mares;Assim foge de Cyrce o grego Ulysses,Assim foge de Dido o pio Enéas.Porém, primeiro, subtilmente a inflamma;Se acaso ardente, devorante fogoTorrar os bofes, consumir entranhas,Natura acode com forçoso impulso,E mais depressa se afugenta o pejo:Mais depressa o calor do sol derretePallida massa de esfregada cêra;Mais cedo rompe ariete forçosoTorres antigas, ruinosos muros.
Se branco rosto, que formoso esmaltamPreciosos rubís, azues saphiras,Face morena, que engraçados ornamDous pretos olhos, com que as Graças brincam;Se airoso gesto, movimento lindo,Se honesto modo, se sisudo termoFeriu teus olhos no theatro, ou templo,Eia, mancebo, tens amores, corre!…Em pé ligeiro te sublime, e ergue;Da vasta chusma simulado escapa,Ou destro finjas cerebro revolto,Ou falso mostres abafado o peito;Logo modesto dirigindo os olhosÁ branda Tyrse, para os seus repara;Vê se innocentes ao acaso vagam,Ou se inquietos com destino giram;Se por ventura teu rival encontras,Animo forte, desmaiar não deves;Mais honrosa será tua victoria,Tens para o carro triumphal captivo.
Se branco rosto, que formoso esmaltamPreciosos rubís, azues saphiras,Face morena, que engraçados ornamDous pretos olhos, com que as Graças brincam;Se airoso gesto, movimento lindo,Se honesto modo, se sisudo termoFeriu teus olhos no theatro, ou templo,Eia, mancebo, tens amores, corre!…Em pé ligeiro te sublime, e ergue;Da vasta chusma simulado escapa,Ou destro finjas cerebro revolto,Ou falso mostres abafado o peito;Logo modesto dirigindo os olhosÁ branda Tyrse, para os seus repara;Vê se innocentes ao acaso vagam,Ou se inquietos com destino giram;Se por ventura teu rival encontras,Animo forte, desmaiar não deves;Mais honrosa será tua victoria,Tens para o carro triumphal captivo.
Era consorte de Vulcano Venus,Mas dos favores seus é digno Marte;Com vergonha do sordido ferreiroPreso nas rêdes fica o deus da guerra:Quaes no prado mellifluas abelhasCorrem voando d'uma flor em outra,Nem sobre o casto rosmaninho pousam,Nem sobre o thymo matinal descançam:Taes, oh mancebos, mulherís desejosCorrendo vôam de um amor em outro.Nem destro Ulysses seu correr impede,Nem rico Midas suas azas prende;Oh tu cerulea, cristallina Thetis,Quando revolta não serás tão vaga?Oh tu suberbo, furioso Noto,Quando liberto não serás tão doudo?São mais constantes de um carvalho altivoAs livres folhas, quando Bóreas sopra,Tremulam menos nos extensos maresFlamulas soltas, que menêa o vento.Se tu, mancebo, por acaso agradas,Vive seguro, em teu rival não cuides;É velho amante, tu amante novo:Pode mais do que amor a novidade;De novo ardia por Helena Paris,Por isso foi de Meneláo contrario.
Era consorte de Vulcano Venus,Mas dos favores seus é digno Marte;Com vergonha do sordido ferreiroPreso nas rêdes fica o deus da guerra:Quaes no prado mellifluas abelhasCorrem voando d'uma flor em outra,Nem sobre o casto rosmaninho pousam,Nem sobre o thymo matinal descançam:Taes, oh mancebos, mulherís desejosCorrendo vôam de um amor em outro.Nem destro Ulysses seu correr impede,Nem rico Midas suas azas prende;Oh tu cerulea, cristallina Thetis,Quando revolta não serás tão vaga?Oh tu suberbo, furioso Noto,Quando liberto não serás tão doudo?São mais constantes de um carvalho altivoAs livres folhas, quando Bóreas sopra,Tremulam menos nos extensos maresFlamulas soltas, que menêa o vento.Se tu, mancebo, por acaso agradas,Vive seguro, em teu rival não cuides;É velho amante, tu amante novo:Pode mais do que amor a novidade;De novo ardia por Helena Paris,Por isso foi de Meneláo contrario.
Mas é preciso que subtil e hardidoPrimeiro excites a attenção de Tyrse.Com gesto alegre teu amor exprime,Falem teus olhos, todo o corpo fale;Mudo lhe dize que te assombra, e pasmamDo seu semblante a formosura, e a graça.Ora de espanto se amorteça a face,Ora se accenda com venereo fogo:O mesmo effeito teus contrarios fazem,Todos o orgulho mulheril incensam:O forte sexo para si reservaDe Phebo os louros, de Mavorte as palmas.Em carros triumphaes nunca viu RomaMatrona illustre de Cesarea casa;Sós d'entre a chusma mulheril as MusasÁ sombra dormem de Apollineos louros;Ao sexo lindo só agradam myrthos,Verdes arbustos, que cultiva Venus.Só d'entre a chusma varonil CupidoDa Cypria deusa pode entrar no templo:A porta guardam Furias irritadas,Que em vez de lanças arrepellam serpes,Com dente venenoso rasgam, mordemAlheio sexo, que arrostal-as ousa.Posto que fosse lindo o amor de Venus,Morreu da sua mordedura Adonis;Provando a furia da raivosa Alecto,Foi convertido em tenra flor Narciso.
Mas é preciso que subtil e hardidoPrimeiro excites a attenção de Tyrse.Com gesto alegre teu amor exprime,Falem teus olhos, todo o corpo fale;Mudo lhe dize que te assombra, e pasmamDo seu semblante a formosura, e a graça.Ora de espanto se amorteça a face,Ora se accenda com venereo fogo:O mesmo effeito teus contrarios fazem,Todos o orgulho mulheril incensam:O forte sexo para si reservaDe Phebo os louros, de Mavorte as palmas.Em carros triumphaes nunca viu RomaMatrona illustre de Cesarea casa;Sós d'entre a chusma mulheril as MusasÁ sombra dormem de Apollineos louros;Ao sexo lindo só agradam myrthos,Verdes arbustos, que cultiva Venus.Só d'entre a chusma varonil CupidoDa Cypria deusa pode entrar no templo:A porta guardam Furias irritadas,Que em vez de lanças arrepellam serpes,Com dente venenoso rasgam, mordemAlheio sexo, que arrostal-as ousa.Posto que fosse lindo o amor de Venus,Morreu da sua mordedura Adonis;Provando a furia da raivosa Alecto,Foi convertido em tenra flor Narciso.
Mas onde corre meu batel ligeiro!Ferrando a vela para traz voltemos.Mancebos, que me ouvis, sabei sómenteQue n'este laço se surprehendem todas.Se acaso entrasse n'esta rêde de ouroLucrecia mesma ficaria presa;Não seria Penelope tão casta,Se os seus amantes lhe chamassem bella.Esta gloria sómente querem todas,Com fervoroso ardor todas a buscam:Nem sobre as margens do Euphrates CesarMais pela gloria marcial suspira.Apraz a Venus variar de forma,Tambem Cupido de ser vario gosta;Um gesto sempre doce se abhorrece,Ás vezes vale muito um desagrado.
Mas onde corre meu batel ligeiro!Ferrando a vela para traz voltemos.Mancebos, que me ouvis, sabei sómenteQue n'este laço se surprehendem todas.Se acaso entrasse n'esta rêde de ouroLucrecia mesma ficaria presa;Não seria Penelope tão casta,Se os seus amantes lhe chamassem bella.Esta gloria sómente querem todas,Com fervoroso ardor todas a buscam:Nem sobre as margens do Euphrates CesarMais pela gloria marcial suspira.Apraz a Venus variar de forma,Tambem Cupido de ser vario gosta;Um gesto sempre doce se abhorrece,Ás vezes vale muito um desagrado.
De teu rival, mancebo, nota o modo,E tu sempre diverso modo segue:Não basta ser sómente amante novo,É tambem necessaria nova forma.Se elle inquieto namora, tu sisudo,Se indecente se mostra, tu modesto;Se triste se apresenta, tu alegre;Se acanhado se mostra, tu mais livre;Mas toma sempre virtuoso gesto,Só lhe pareça teu amor franqueza.Não ha no mundo tão lascivo monstroQue a virtude não preze mais que o vicio;E julga sempre a feminina turbaD'elles alheio quem se mostra casto:A flamma do Ciume tambem queima,E torra brandas mulherís entranhas;Nem vibora raivosa, que pisadaDo vago caminhante se exaspera,Nem besta furiosa, em cujas faucesO nú selvagem crava a setta aguda,Mais iradas se accendem, do que a turba,Quando ciosa se exaspera, e arde.O ciume foi ferro, a cujo golpeBanhou teu sangue, oh forte Pyrrho, as aras,Foi elle a chamma, que abrasou Semele:Em feroz urso transformou Calixto;(Eu mesmo, eu mesmo… Mas a dôr me impede,Tu, suberbo rapaz da Idalia, o dize!Ah! formosa Corinna! Não te engano,Só me abraso por ti, só por ti morro!…)Porém sulquemos novos mares, fujaNosso veloz batel longe da praia.
De teu rival, mancebo, nota o modo,E tu sempre diverso modo segue:Não basta ser sómente amante novo,É tambem necessaria nova forma.Se elle inquieto namora, tu sisudo,Se indecente se mostra, tu modesto;Se triste se apresenta, tu alegre;Se acanhado se mostra, tu mais livre;Mas toma sempre virtuoso gesto,Só lhe pareça teu amor franqueza.Não ha no mundo tão lascivo monstroQue a virtude não preze mais que o vicio;E julga sempre a feminina turbaD'elles alheio quem se mostra casto:A flamma do Ciume tambem queima,E torra brandas mulherís entranhas;Nem vibora raivosa, que pisadaDo vago caminhante se exaspera,Nem besta furiosa, em cujas faucesO nú selvagem crava a setta aguda,Mais iradas se accendem, do que a turba,Quando ciosa se exaspera, e arde.O ciume foi ferro, a cujo golpeBanhou teu sangue, oh forte Pyrrho, as aras,Foi elle a chamma, que abrasou Semele:Em feroz urso transformou Calixto;(Eu mesmo, eu mesmo… Mas a dôr me impede,Tu, suberbo rapaz da Idalia, o dize!Ah! formosa Corinna! Não te engano,Só me abraso por ti, só por ti morro!…)Porém sulquemos novos mares, fujaNosso veloz batel longe da praia.