X

Mancebo, deixa o teu rival; só cuidaEm combater da bella Tyrse o peito.Do theatro se corre o largo panno,Aberta a scena principia o drama.Temerario, não deves ver tranquilloDa peça theatral o sabio jogo:É Cupido rapaz, não tem socego,Não perde a occasião o que amor busca;Para os olhos de Tyrse te encaminha,N'elles a scena figurada nota;Se por acaso lagrimas derramaTu de pranto tambem as faces banha;Finge ao menos secar com alvo lençoO terno pranto, que verter não podes;Se irritada parece, toma fogo,Se com assombro pasma, tu te assombra.

Mancebo, deixa o teu rival; só cuidaEm combater da bella Tyrse o peito.Do theatro se corre o largo panno,Aberta a scena principia o drama.Temerario, não deves ver tranquilloDa peça theatral o sabio jogo:É Cupido rapaz, não tem socego,Não perde a occasião o que amor busca;Para os olhos de Tyrse te encaminha,N'elles a scena figurada nota;Se por acaso lagrimas derramaTu de pranto tambem as faces banha;Finge ao menos secar com alvo lençoO terno pranto, que verter não podes;Se irritada parece, toma fogo,Se com assombro pasma, tu te assombra.

Mas que novo segredo Amor me inspira!Que sabias regras, que preceitos novos!Filho de Venus, e de Marte filho,De teus altos mysterios serei vate!Forma novos oraculos em Cypro;Por elles tenha esquecimento Delphos.Namorado mancebo, Amor te fala,Ouve com filial respeito as vozes.Posto que tu na scena Doris ouças,Altos prodigios, maravilhas novas,A voz soltando bella, e sonorosaCom que suspenda sybillantes ventos,Não pasmes, nunca chores, ser não queirasRéo desditoso de tão negro crime;Cheia Tyrse de inveja, não perdoa,Mais depressa seria o mar estavel.A nação feminil sustenta sempreEntre si crua sanguinosa guerra:Inda no berço brandamente dorme,Inda c'o leite maternal se nutre,Já da cova sombria o negro monstroQue come verdes enroscadas serpes,Salta com Venenosa lingua, e lambeSeu terno peito, seu formoso rosto;Na bocca lhe vomita cru veneno,Que para o brando coração lhe corre,E nas vêas subtis introduzido,C'o rubro sangue lhe circula, e pulsa;Não só familias com familias rompemA paz benigna, que na terra expira;Entre as mesmas irmãs se accende a guerra,Por isso é hoje negro seixo Aglaura.Até nos céos o vago monstro gira,Minerva, e Juno fez rivaes de Venus;Não caíram troyanos altos muros,Só porque Paris foi roubar Helena!Mil adulteros tinham sem castigoFurtado esposas, maculado leitos:No pomo da Discordia veiu envoltaA faisca fatal, que abrasou Troya.

Mas que novo segredo Amor me inspira!Que sabias regras, que preceitos novos!Filho de Venus, e de Marte filho,De teus altos mysterios serei vate!Forma novos oraculos em Cypro;Por elles tenha esquecimento Delphos.Namorado mancebo, Amor te fala,Ouve com filial respeito as vozes.Posto que tu na scena Doris ouças,Altos prodigios, maravilhas novas,A voz soltando bella, e sonorosaCom que suspenda sybillantes ventos,Não pasmes, nunca chores, ser não queirasRéo desditoso de tão negro crime;Cheia Tyrse de inveja, não perdoa,Mais depressa seria o mar estavel.A nação feminil sustenta sempreEntre si crua sanguinosa guerra:Inda no berço brandamente dorme,Inda c'o leite maternal se nutre,Já da cova sombria o negro monstroQue come verdes enroscadas serpes,Salta com Venenosa lingua, e lambeSeu terno peito, seu formoso rosto;Na bocca lhe vomita cru veneno,Que para o brando coração lhe corre,E nas vêas subtis introduzido,C'o rubro sangue lhe circula, e pulsa;Não só familias com familias rompemA paz benigna, que na terra expira;Entre as mesmas irmãs se accende a guerra,Por isso é hoje negro seixo Aglaura.Até nos céos o vago monstro gira,Minerva, e Juno fez rivaes de Venus;Não caíram troyanos altos muros,Só porque Paris foi roubar Helena!Mil adulteros tinham sem castigoFurtado esposas, maculado leitos:No pomo da Discordia veiu envoltaA faisca fatal, que abrasou Troya.

Com tudo, posto que raivosas todasEntre si mutuamente se enfureçam,Mancebo, não presumas que sem penaVejam de amor qualquer irmã queixosa.Não houve nympha nos Thessalios camposQue não movessem tristes queixas d'Eccho;Só Lyriope vê com dôr Narciso,Em branca flor Narciso as nymphas gostam:Quando o monstro voraz, que sae dos maresSó contra o filho de Theseo famoso,Quando os frisões medrosos se perturbam,Ligeiros se embaraçam, quebram redeas,Hyppolito gentil por terra lançam,Raivosos seu formoso corpo pizam;A crua turba mulheril de AthenasFestivos gritos para o céo levanta,As tranças orna de jasmins, e rosas,Vae dar a Venus no seu templo as graças.

Com tudo, posto que raivosas todasEntre si mutuamente se enfureçam,Mancebo, não presumas que sem penaVejam de amor qualquer irmã queixosa.Não houve nympha nos Thessalios camposQue não movessem tristes queixas d'Eccho;Só Lyriope vê com dôr Narciso,Em branca flor Narciso as nymphas gostam:Quando o monstro voraz, que sae dos maresSó contra o filho de Theseo famoso,Quando os frisões medrosos se perturbam,Ligeiros se embaraçam, quebram redeas,Hyppolito gentil por terra lançam,Raivosos seu formoso corpo pizam;A crua turba mulheril de AthenasFestivos gritos para o céo levanta,As tranças orna de jasmins, e rosas,Vae dar a Venus no seu templo as graças.

Oh vós, monstros crueis, geração dura!Malignas Furias com formoso aspecto!Sacerdote de Amor, agora o digo,Hoje se saiba como sois geradas.Supremo Jove, que tirou do cahosA bruta massa, de que o mundo é feito,Quando os homens formou, disse-lhes logo:«De nova especie produzi sementes;«Exista um novo sexo, em cujo seio«O nativo calor as desenvolva:«Formosa que a prazeres vos excite,«Maligno, que a um cego amor vos leve;«Os membros todos de seu corpo forme«Formosa Venus em Cythera, ou Cypro,«Ás Furias fique reservado o peito»Mancebos!… Eis aqui por quem CupidoEm subtis rêdes vos enleia todos:Mas não vos tinja rubro pejo as faces;Até por ellas foi novilho Jove.Se é tecido seu peito nos infernosÉ formada no céo sua cintura:Hyppolito, Narciso lições sejam,Com elles aprendei a não ser duros.Posto que incestuosa chamma queime,Devore o falso coração de Phedra,Mostrae por ella que sentís ternura:Acompanhe seu pranto o pranto vosso.Tão felices agouros vendo Tyrse,De vosso peito cego amor espera.

Oh vós, monstros crueis, geração dura!Malignas Furias com formoso aspecto!Sacerdote de Amor, agora o digo,Hoje se saiba como sois geradas.Supremo Jove, que tirou do cahosA bruta massa, de que o mundo é feito,Quando os homens formou, disse-lhes logo:«De nova especie produzi sementes;«Exista um novo sexo, em cujo seio«O nativo calor as desenvolva:«Formosa que a prazeres vos excite,«Maligno, que a um cego amor vos leve;«Os membros todos de seu corpo forme«Formosa Venus em Cythera, ou Cypro,«Ás Furias fique reservado o peito»Mancebos!… Eis aqui por quem CupidoEm subtis rêdes vos enleia todos:Mas não vos tinja rubro pejo as faces;Até por ellas foi novilho Jove.Se é tecido seu peito nos infernosÉ formada no céo sua cintura:Hyppolito, Narciso lições sejam,Com elles aprendei a não ser duros.Posto que incestuosa chamma queime,Devore o falso coração de Phedra,Mostrae por ella que sentís ternura:Acompanhe seu pranto o pranto vosso.Tão felices agouros vendo Tyrse,De vosso peito cego amor espera.

Longo tempo Tritão ardeu nos maresPor Thysbe, de Nereo cerulea filha;Dos seus amores rindo a esquiva nymphaMelhor ouvia o murmurar das ondas:Bem como de voraz golfinho fogeTurba medrosa de miudos peixes,Do mancebo Tritão cruel fugiaAssim nos reinos de Neptuno Thysbe.Eis que um dia Protheo, pastor que guardaDas aguas o maritimo rebanho,Cuja molhada fronte cingem mollesE verdenegros juncos, que o mar cria;Em tremulo penhasco, e ondeando enfeitamA leve coma palludosos ramos,Atraz do gado nadador cantava:«Ah! misero Tritão, se queres Thysbe,«Em leve pó mudada Troya vinga.»Os eternos oraculos não mentem,Deixou de ser esquiva a loura Thysbe.Quando Circe nas praias se queixavaDo fugitivo, do perjuro Ulysses;Tritão da sua dôr enternecidoVingança lhe promette, chama os ventos,Do sagrado Oceano agita as ondas,No fundo seio as gregas náus soçobra.Mais preciso não foi, Thysbe se rende,Do louco amante para os braços corre,Mil beijos lhe recebe, e mil lhe imprime…Deveis, mancebos, presumir o resto;Em breve tempo todo o mar povoamFilhinhos de Tritão, de Nerêo netos.

Longo tempo Tritão ardeu nos maresPor Thysbe, de Nereo cerulea filha;Dos seus amores rindo a esquiva nymphaMelhor ouvia o murmurar das ondas:Bem como de voraz golfinho fogeTurba medrosa de miudos peixes,Do mancebo Tritão cruel fugiaAssim nos reinos de Neptuno Thysbe.Eis que um dia Protheo, pastor que guardaDas aguas o maritimo rebanho,Cuja molhada fronte cingem mollesE verdenegros juncos, que o mar cria;Em tremulo penhasco, e ondeando enfeitamA leve coma palludosos ramos,Atraz do gado nadador cantava:«Ah! misero Tritão, se queres Thysbe,«Em leve pó mudada Troya vinga.»Os eternos oraculos não mentem,Deixou de ser esquiva a loura Thysbe.Quando Circe nas praias se queixavaDo fugitivo, do perjuro Ulysses;Tritão da sua dôr enternecidoVingança lhe promette, chama os ventos,Do sagrado Oceano agita as ondas,No fundo seio as gregas náus soçobra.Mais preciso não foi, Thysbe se rende,Do louco amante para os braços corre,Mil beijos lhe recebe, e mil lhe imprime…Deveis, mancebos, presumir o resto;Em breve tempo todo o mar povoamFilhinhos de Tritão, de Nerêo netos.

Eis em resumo as regras necessarias,Afim de conseguir femineo affecto:D'ellas aprendereis, destros mancebos,A serdes cautos, prevenindo os laçosArmados por Amor á inexp'riencia;Pendurando assim trophéos innumerosAo carro triumphal da vossa gloria.

Eis em resumo as regras necessarias,Afim de conseguir femineo affecto:D'ellas aprendereis, destros mancebos,A serdes cautos, prevenindo os laçosArmados por Amor á inexp'riencia;Pendurando assim trophéos innumerosAo carro triumphal da vossa gloria.

Que extranha agitação não sinto n'almaDepois que te perdi, querida Alzira!De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,Que a tua companhia incendiava!Por uma vez se foi minha alegria,Nem a mesma já sou, que outr'hora hei sido!Minhas vistas ao céo languidas se erguem,E a mim propria pergunto d'onde venhaTão novo sentimento assuberbar-me?Não se aquieta o coração no peito,Não cabe n'elle, e viva chamma no intimoDas entranhas ardente me devora,Sem que eu possa atinar a causa, a origem.Aquelles passatempos, que na infanciaTão do peito queria, em odio os tenho.Das mesmas sup'rioras a presença,Que d'antes para mim era indiff'rente,Se me torna hoje dura, intoleravel!Aonde, aonde irão estes impulsosPrecipitar a malfadada Olinda?Será, querida Alzira, a tua ausencia,Que me faz derramar tão agro pranto?Debalde a largos passos solitariaVago sem norte: ignoro o que procuro;Ah! minha chara! os males que toleroExpressal-os não posso, nem soffrel-os.

Que extranha agitação não sinto n'almaDepois que te perdi, querida Alzira!De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,Que a tua companhia incendiava!Por uma vez se foi minha alegria,Nem a mesma já sou, que outr'hora hei sido!Minhas vistas ao céo languidas se erguem,E a mim propria pergunto d'onde venhaTão novo sentimento assuberbar-me?Não se aquieta o coração no peito,Não cabe n'elle, e viva chamma no intimoDas entranhas ardente me devora,Sem que eu possa atinar a causa, a origem.Aquelles passatempos, que na infanciaTão do peito queria, em odio os tenho.Das mesmas sup'rioras a presença,Que d'antes para mim era indiff'rente,Se me torna hoje dura, intoleravel!Aonde, aonde irão estes impulsosPrecipitar a malfadada Olinda?Será, querida Alzira, a tua ausencia,Que me faz derramar tão agro pranto?Debalde a largos passos solitariaVago sem norte: ignoro o que procuro;Ah! minha chara! os males que toleroExpressal-os não posso, nem soffrel-os.

Conheço de teus males a vehemencia,Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,Quando da mesma edade que hoje contasPróvida a Natureza começavaA preencher em mim seus fins sagrados.Marcha ella por graus em suas obras;Precede ao fructo a flor já matizada,Que fôra antes de flor botão mimoso.Assim a sabia mão da NaturezaA passos insensiveis caminhandoMaravilhas em nós produz, que assombram.Somos na infancia apenas um bosquejoDo que nos cumpre ser annos mais tarde.N'aquella edade a Natureza attentaEm conservar-nos só, não desenvolveSentimentos, que então superfluos foram:Inactivas nos tem, e nos conserva,Bem como as plantas no gelado hynverno.Porém depois que o sol da primaveraFecundos raios sobre nós dardeja,Então de novas fórmas animadoPula nas vêas affogueado sangue,E sem perder da infancia os attractivosDa puberdade o lustre desfructamos.Então sentimos commoções insolitas,Que origem são dos males, que te opprimem;Do amor, que te domina, melancolico;Da forte agitação, que em ti presentes.Mas tem tudo remedio; eu hei de dar-t'o,Feliz serás, se o trilho me seguires.

Conheço de teus males a vehemencia,Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,Quando da mesma edade que hoje contasPróvida a Natureza começavaA preencher em mim seus fins sagrados.Marcha ella por graus em suas obras;Precede ao fructo a flor já matizada,Que fôra antes de flor botão mimoso.Assim a sabia mão da NaturezaA passos insensiveis caminhandoMaravilhas em nós produz, que assombram.Somos na infancia apenas um bosquejoDo que nos cumpre ser annos mais tarde.N'aquella edade a Natureza attentaEm conservar-nos só, não desenvolveSentimentos, que então superfluos foram:Inactivas nos tem, e nos conserva,Bem como as plantas no gelado hynverno.Porém depois que o sol da primaveraFecundos raios sobre nós dardeja,Então de novas fórmas animadoPula nas vêas affogueado sangue,E sem perder da infancia os attractivosDa puberdade o lustre desfructamos.Então sentimos commoções insolitas,Que origem são dos males, que te opprimem;Do amor, que te domina, melancolico;Da forte agitação, que em ti presentes.Mas tem tudo remedio; eu hei de dar-t'o,Feliz serás, se o trilho me seguires.

Quanto gratas me são as tuas letrasQuerida Alzira! Ao coração me falas!As tuas expressões meigas occultamEm si virtude tal, que apenas lidasD'ellas a alma se apossa sequiosa:Tu és, presada amiga, unico archivoAonde os meus segredos mais occultosEu vou depositar: em ti encontroO refrigerio a males, que tolero,Sem poder conhecer a sua origem.Se bem me lembro, outr'hora de ti mesmaOuvi eguaes queixumes, não sabendoNem eu, nem tu, donde elles procediam.Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosaSempre te ouvi chamar desde esse tempo.Cessaram os teus males, eu os sinto…A edade é (dizes tu) a causa d'elles;Ah! Que extranha linguagem! Não conceboPorque falas assim; pois traz a edadeMales, nos tenros annos não provados?Tres lustros conto apenas: tu tres lustrosAntes de te esposar tambem contavas;Poz o consorcio a teus lamentos termo,Limitará os meus? Ah! dize, dizeTu, que desassocego egual soffreste,O seu motivo, e como o apaziguaste:Revela á tua amiga este mysterioD'onde sinto pender o meu repouso.Eu não exp'rimentava o que exp'rimento:Os meus sentidos todos alteradosUma viva emoção põe em desordem.Cala-me activo fogo nas entranhas:O coração no peito turbulentoPula, bate com ancia extranhamente:O sangue, pelas vêas abrasadoParece que me queima as carnes todas:A taes agitações languidez ternaSuccede, que a meus olhos pranto arranca,E o coração desassombrar pareceDo peso da voraz melancholia.Té mesmo a natureza tem mudadoA configuração, que eu d'antes tinha:Vão-se augmentando os peitos, e tomandoUma redonda fórma, como aquellesQue servem de nutrir-nos lá na infancia.D'outros signaes o corpo se matizaAntes desconhecidos: alvos membros,Lisos té'qui, macúla um brando pello,Como o buço ao mancebo, á ave a penugem.Sobresalta-me d'homens a presença,Elles, a quem té agora indifferenteTenho com affouteza sempre olhado!Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto,A voz me treme, e articular não possoSons, que emperrada a lingua não exprime.Sinto desejos; que expressar me custa;Amor… E como a idéa tal me arrojo?Será talvez amor isto que eu sinto?Já tenho lido effeitos de seus damnos;Mas esses, que o seu jugo supportaram,Tinham com quem seu peso repartissem,Tinham a quem chamavam doce objecto,Quem a seu mal remedio suggerisse.Isto era amor; mas eu amor não sinto;A doce inclinação, que dous amantesUm ao outro consagram, desconheço.Sim; dos homens a vista lisonjeiraÉ para mim; nenhum porém me prende;Não sei que chamma interna me affoguêa…Amor isto será? Alzira, fala,Fala com candidez á tua amiga;Ensina-me a curar a funda chaga,Que internamente lavra por mim toda:D'estas agitações, que me flagellam,Mostra-me a causa, mostra-me o remedio:Tu tiveste-as tambem, já não te avexam,Mostra-me por que modo as terminaste.Talvez do que te digo farás mofa…Ah! vê que por meus labios a innocenciaComtigo é quem se exprime; tem dó d'ella,E se os meus sentimentos são culpaveis,Dize-m'o, que abafados em meu peitoSerei victima d'elles; se extinguil-osOs meus exforços todos não podérem,Comigo hão de morrer, findar comigo.

Quanto gratas me são as tuas letrasQuerida Alzira! Ao coração me falas!As tuas expressões meigas occultamEm si virtude tal, que apenas lidasD'ellas a alma se apossa sequiosa:Tu és, presada amiga, unico archivoAonde os meus segredos mais occultosEu vou depositar: em ti encontroO refrigerio a males, que tolero,Sem poder conhecer a sua origem.Se bem me lembro, outr'hora de ti mesmaOuvi eguaes queixumes, não sabendoNem eu, nem tu, donde elles procediam.Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosaSempre te ouvi chamar desde esse tempo.Cessaram os teus males, eu os sinto…A edade é (dizes tu) a causa d'elles;Ah! Que extranha linguagem! Não conceboPorque falas assim; pois traz a edadeMales, nos tenros annos não provados?Tres lustros conto apenas: tu tres lustrosAntes de te esposar tambem contavas;Poz o consorcio a teus lamentos termo,Limitará os meus? Ah! dize, dizeTu, que desassocego egual soffreste,O seu motivo, e como o apaziguaste:Revela á tua amiga este mysterioD'onde sinto pender o meu repouso.Eu não exp'rimentava o que exp'rimento:Os meus sentidos todos alteradosUma viva emoção põe em desordem.Cala-me activo fogo nas entranhas:O coração no peito turbulentoPula, bate com ancia extranhamente:O sangue, pelas vêas abrasadoParece que me queima as carnes todas:A taes agitações languidez ternaSuccede, que a meus olhos pranto arranca,E o coração desassombrar pareceDo peso da voraz melancholia.Té mesmo a natureza tem mudadoA configuração, que eu d'antes tinha:Vão-se augmentando os peitos, e tomandoUma redonda fórma, como aquellesQue servem de nutrir-nos lá na infancia.D'outros signaes o corpo se matizaAntes desconhecidos: alvos membros,Lisos té'qui, macúla um brando pello,Como o buço ao mancebo, á ave a penugem.Sobresalta-me d'homens a presença,Elles, a quem té agora indifferenteTenho com affouteza sempre olhado!Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto,A voz me treme, e articular não possoSons, que emperrada a lingua não exprime.Sinto desejos; que expressar me custa;Amor… E como a idéa tal me arrojo?Será talvez amor isto que eu sinto?Já tenho lido effeitos de seus damnos;Mas esses, que o seu jugo supportaram,Tinham com quem seu peso repartissem,Tinham a quem chamavam doce objecto,Quem a seu mal remedio suggerisse.Isto era amor; mas eu amor não sinto;A doce inclinação, que dous amantesUm ao outro consagram, desconheço.Sim; dos homens a vista lisonjeiraÉ para mim; nenhum porém me prende;Não sei que chamma interna me affoguêa…Amor isto será? Alzira, fala,Fala com candidez á tua amiga;Ensina-me a curar a funda chaga,Que internamente lavra por mim toda:D'estas agitações, que me flagellam,Mostra-me a causa, mostra-me o remedio:Tu tiveste-as tambem, já não te avexam,Mostra-me por que modo as terminaste.Talvez do que te digo farás mofa…Ah! vê que por meus labios a innocenciaComtigo é quem se exprime; tem dó d'ella,E se os meus sentimentos são culpaveis,Dize-m'o, que abafados em meu peitoSerei victima d'elles; se extinguil-osOs meus exforços todos não podérem,Comigo hão de morrer, findar comigo.

Com que satisfação, com que alegriaVejo da minha Olinda as ternas letras!Retrato da innocencia, me affigurasO que por mim passou, extranho effeitoDe um coração sensivel, não manchadoAinda pela mão da iniquidade.Fala, não temas exprimir-te, Olinda,Que se culpavel fores de outrem aos olhos,Aos meus és innocente, e assim te julgo.Da inviolavel lei da NaturezaA que sujeita estás, bem como tudo,Nascem, querida amiga, os teus transportes:Só provém d'ella, é ella que t'os causa;Ella os mitigará em tempo breve,Dando-te próvida um remedio activo.A triste educação, que ambas tivemos,Mais desenvolve os ternos sentimentosDos que amar só procuram, e não podemNa solidão senão atormentar-se.Do recato das filhas temerososPensam os rudes paes, que em sopeal-asAlcançam extinguir o voraz fogoQue sopra a Natureza, e que ella atêa.Nescios, de amor lhe formam attentados,Que o coração desmente, e que não podeSaber justificar a razão mesma.Benignas emoções chamam flagicios,Que infernaes penas castigar costumam;Sem que atinem o modo por que devamTornal-as puras, e do crime alheias,Porque do crime o amor não diff'rencêam,Amor, e crime o mesmo lhes figuram.Ah! que de um pae o emprego não toleraMaximas impostoras, vís idéasQue religião não soffre, e que forcejamPara co'a religião auctorisal-as.Saiba-se pois té onde o culto, a honraDe um Deus se estende, e quaes limites devemMarcar-se ás impressões da natureza:Em vez de afferrolhar as tristes filhas,Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,Do vicio a estrada com desvelo attento.Pois que impureza, e amor um rumo seguemConsiste o mal ou o bem na escolha d'este.Sim, chara Olinda: como tu, eu propriaFalta da sociedade, porque n'ellaViam meus paes o escolho da innocencia,As mesmas emoções senti outr'hora;Nos tenros annos teus então zombavasDo que nem mesmo decifrar podias.Quantas vezes meu coração ás clarasTe descobri, querida; e quantas vezesO meu desassocego não provando,Rias dos sentimentos, que em minh'almaEntranhados estavam, sem que a causaD'elles jámais me fosse conhecida?Agora os exp'rimentas, crês agoraO que falso julgaras, verdadeiro!…A Natureza em ti o germen lança,Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma,Porque sensivel és; e bem que hesitesSobre o objecto, que deve contentar-te,Ella t'o mostrará em tempo breve.Não te assustem do seu dominio as forças,Porque de jugo seu o peso é leve.Não mais soffres fervidos desejos,Que o coração te ancêam, e bem podemA languidez eterna victimar-te,Se de amor o remedio os não sacia.Attenta sobre mil louçãos mancebos,Cheios de encantos: olha-os indulgente,E d'entre elles escolhe um, cujo peitoTão docil como o teu seja formado.Olinda, ama; conhece que deliciasAmor encerra, amor, alma de tudo;Amor, que tudo alenta, e que só causaOs gostos de uma vida abbreviada.Se contra amor dictames escutaste,Que seus effeitos pintam horrorosos,Não dês credito a maximas fingidas,Que a lingua exprime, e o coração reprova:Que mal provém aos homens, de que unidosDois amantes se jurem fé, constancia?Que um ao outro se entreguem, e obedeçamDa Natureza ás impressões sagradas?Rouba a virtude acaso a paixão doceQue beijos mil só farta, e que só podeNos braços de um amante saciar-se?…Não; amor a virtude fortifica:Mais a piedade sobre as desventurasQue os outros soffrem, mais a humanidadeEm nós se augmenta, quando mais amamos.Se desde o berço em nós força indizivelSentimentos de amor vai radicando;Se, mal balbuciamos, quanto vemosA falarmos de amor nos estimula;Se a edade vai crescendo, e a naturezaNossas feições altera; assignalandoCom marcas bem sensiveis, que chegámosAo prazo, em que é lei sua amar por força,Ou desnegar então nossa existencia:Se tudo a amar convida, e nos impelle,Quem ousa amor chamar crime execrando?..Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêemVirtude austera hypocritas infames:Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,Em quanto aos olhos teus assim o afêam,De uma amante venal nos torpes braçosVão esconder transportes, que os devoram,E, por castigo seu, sómente gosamEmprestadas caricias, vís affagos.Mas quando assim os homens dissimulam,Para dissimulares te dão direito:Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça;Que é mais um gosto amar ás escondidas.Affecta, embhora, affecta sisudezaJá que a affectar te obrigam, e em segredoDe instantes enfadonhos te indemnisa:Zomba dos seus ardís, e estratagemas;Dize, entre os braços de um amante charo,Que mais credulos são, do que te julgam,Se crêem nos laços seus aprisionar-te.Se os deleites de amor são só delictosQuando sabidos são, com veo mui densoA perspicazes olhos os encobre:Vinga-te d'esses, que abafar procuramAs doces emoções, que n'alma sentes.São estes os conselhos de uma amigaQue os bens te anhela, que ella saborêa.Sabe, por fim, que quanto mais retardasTão ditosos momentos, sem gosal-os;Quanto mais tempo perdes ociosaSem às vozes de amor ser resignada,Tanto mais tempo tens de lastimar-te,Por não têl-o em amar aproveitado.

Com que satisfação, com que alegriaVejo da minha Olinda as ternas letras!Retrato da innocencia, me affigurasO que por mim passou, extranho effeitoDe um coração sensivel, não manchadoAinda pela mão da iniquidade.Fala, não temas exprimir-te, Olinda,Que se culpavel fores de outrem aos olhos,Aos meus és innocente, e assim te julgo.Da inviolavel lei da NaturezaA que sujeita estás, bem como tudo,Nascem, querida amiga, os teus transportes:Só provém d'ella, é ella que t'os causa;Ella os mitigará em tempo breve,Dando-te próvida um remedio activo.A triste educação, que ambas tivemos,Mais desenvolve os ternos sentimentosDos que amar só procuram, e não podemNa solidão senão atormentar-se.Do recato das filhas temerososPensam os rudes paes, que em sopeal-asAlcançam extinguir o voraz fogoQue sopra a Natureza, e que ella atêa.Nescios, de amor lhe formam attentados,Que o coração desmente, e que não podeSaber justificar a razão mesma.Benignas emoções chamam flagicios,Que infernaes penas castigar costumam;Sem que atinem o modo por que devamTornal-as puras, e do crime alheias,Porque do crime o amor não diff'rencêam,Amor, e crime o mesmo lhes figuram.Ah! que de um pae o emprego não toleraMaximas impostoras, vís idéasQue religião não soffre, e que forcejamPara co'a religião auctorisal-as.Saiba-se pois té onde o culto, a honraDe um Deus se estende, e quaes limites devemMarcar-se ás impressões da natureza:Em vez de afferrolhar as tristes filhas,Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,Do vicio a estrada com desvelo attento.Pois que impureza, e amor um rumo seguemConsiste o mal ou o bem na escolha d'este.Sim, chara Olinda: como tu, eu propriaFalta da sociedade, porque n'ellaViam meus paes o escolho da innocencia,As mesmas emoções senti outr'hora;Nos tenros annos teus então zombavasDo que nem mesmo decifrar podias.Quantas vezes meu coração ás clarasTe descobri, querida; e quantas vezesO meu desassocego não provando,Rias dos sentimentos, que em minh'almaEntranhados estavam, sem que a causaD'elles jámais me fosse conhecida?Agora os exp'rimentas, crês agoraO que falso julgaras, verdadeiro!…A Natureza em ti o germen lança,Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma,Porque sensivel és; e bem que hesitesSobre o objecto, que deve contentar-te,Ella t'o mostrará em tempo breve.Não te assustem do seu dominio as forças,Porque de jugo seu o peso é leve.Não mais soffres fervidos desejos,Que o coração te ancêam, e bem podemA languidez eterna victimar-te,Se de amor o remedio os não sacia.Attenta sobre mil louçãos mancebos,Cheios de encantos: olha-os indulgente,E d'entre elles escolhe um, cujo peitoTão docil como o teu seja formado.Olinda, ama; conhece que deliciasAmor encerra, amor, alma de tudo;Amor, que tudo alenta, e que só causaOs gostos de uma vida abbreviada.Se contra amor dictames escutaste,Que seus effeitos pintam horrorosos,Não dês credito a maximas fingidas,Que a lingua exprime, e o coração reprova:Que mal provém aos homens, de que unidosDois amantes se jurem fé, constancia?Que um ao outro se entreguem, e obedeçamDa Natureza ás impressões sagradas?Rouba a virtude acaso a paixão doceQue beijos mil só farta, e que só podeNos braços de um amante saciar-se?…Não; amor a virtude fortifica:Mais a piedade sobre as desventurasQue os outros soffrem, mais a humanidadeEm nós se augmenta, quando mais amamos.Se desde o berço em nós força indizivelSentimentos de amor vai radicando;Se, mal balbuciamos, quanto vemosA falarmos de amor nos estimula;Se a edade vai crescendo, e a naturezaNossas feições altera; assignalandoCom marcas bem sensiveis, que chegámosAo prazo, em que é lei sua amar por força,Ou desnegar então nossa existencia:Se tudo a amar convida, e nos impelle,Quem ousa amor chamar crime execrando?..Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêemVirtude austera hypocritas infames:Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,Em quanto aos olhos teus assim o afêam,De uma amante venal nos torpes braçosVão esconder transportes, que os devoram,E, por castigo seu, sómente gosamEmprestadas caricias, vís affagos.Mas quando assim os homens dissimulam,Para dissimulares te dão direito:Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça;Que é mais um gosto amar ás escondidas.Affecta, embhora, affecta sisudezaJá que a affectar te obrigam, e em segredoDe instantes enfadonhos te indemnisa:Zomba dos seus ardís, e estratagemas;Dize, entre os braços de um amante charo,Que mais credulos são, do que te julgam,Se crêem nos laços seus aprisionar-te.Se os deleites de amor são só delictosQuando sabidos são, com veo mui densoA perspicazes olhos os encobre:Vinga-te d'esses, que abafar procuramAs doces emoções, que n'alma sentes.São estes os conselhos de uma amigaQue os bens te anhela, que ella saborêa.Sabe, por fim, que quanto mais retardasTão ditosos momentos, sem gosal-os;Quanto mais tempo perdes ociosaSem às vozes de amor ser resignada,Tanto mais tempo tens de lastimar-te,Por não têl-o em amar aproveitado.

Alzira, sou feliz!.. Quanto te devo!…Das tuas instrucções é tal o fructo.Quanto encarava em torno era a meus olhosDe lugubres idéas feio quadro:Tudo o que vejo agora alegres, vivas,Imagens prazenteiras, me suscita.Os ternos sentimentos, que provava,Mil vezes combinando com dictamesQue desde a infancia sempre m'inspiraram;Mil vezes reflectia que dos homens,Ou de um tyranno Deus era ludibrio:Conceber não podia que existissePara experimentar contínua luctaEntre impressões da propria natureza,E principios chamados da virtude.No pélago de embates tão terriveisFluctuando implorei o teu auxilio;Meu coração te abri: tu leste n'elleO que eu nem mesma deslindar sabia.Tu me ensinaste a ver quanto fingidosOs homens são, nas vozes, e nos gestos:Rasgaste aos olhos meus mascara infameCom que têem de uso todos encobrir-se;Das bordas me salvaste de um abysmo,Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se,Perdôa, Deus immenso! Eu blasphemavaContra a tua justiça; eu te suppunhaAuctor do mal, que os homens machinavam;Cria-te inconsequente, e despiedado,Pois sentimentos me imprimiras n'almaQue ás tuas leis contrarios me pintavam!…Tu foste, Alzira, foste a que lançasteUm brilhante clarão ante os meus passos…Finalmente aprendi que a singelezaDo mundo era banida, e o seu imperioOs homens tinham dado á hypocrisia.Ruins!… Amor por crime affiguravam,E nem um só de amor vivia isempto!…Para elles não é crime um crime occulto,Porque a simulação reina em sua alma,Porque o remorso abafam em seu peito.Amor um crime!… Os gostos mais completos,E os mais puros deleites o acompanham:Se a ventura maior se une ao delicto,Quem ha que se não diga delinquente?D'entre as delicias, que gosei, querida,Com as tuas lições fugiu o crime.Eu não senti no coração bradar-meA voz d'esse pezar, sequaz da culpa:No meio dos prazeres, que gostava,Graças rendi a um Deus, que m'os concede:Se elle troveja sobre os criminosos,Nunca os seus raios menos me assustaram!…Um amante acabou o que encetaste;Elle, cujo olhar meigo me asseguraAs doces qualidades, que o adornam,Affastou-me do espirito receios,Que de mau grado combatia ainda.Reinava em seus discursos a franqueza,E o fogo, que brilhava nos seus olhos,Que o rosto lhe incendia, em seus transportesQue eram nascidos d'alma, me dizia:O labéo da impostura o não denigre;Não é como o dos outros seu character;Ingenuo, affavel, ah! prezada Alzira!Se tão amavel é o teu Alcino,Ninguem como eu e tu é tão ditoso!…Pouco preciso foi para vencer-me:Não teve que impugnar loucos caprichos,Com que ufanas amantes difficultamO mutuo galardão, que amor exige:Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemosSeus mimosos favores, porque causaHavia de indiff'rença dar indicios,Quando o meu peito, ancioso, palpitava?Se eu o levava da ventura ao cume,Não me dava elle a mão para seguil-o?Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo;E se o pudor as faces me tingia,Inda as chammas d'amor mais me abrasavam.Eu nadava em desejos indiziveis;E quantos beijos recebia, tantosCheios de egual fervor lhe compensava:Seus labios inflammados ateavamAs doces labaredas, em que ardia,E meus labios, aos labios seus unidos,Sensações recebiam deleitosas,Que me filtravam pelo corpo todo…Tão grandes emoções exp'rimentava,Que a tanto gosto eu mesma succumbia!Presa a voz na garganta, não sabendoNem já podendo articular palavra,Respirando anciada, e com vehemencia,Os meus sentidos todos confundidos,Sem nada ouvir, nem ver, apenas dandoSignaes de vida, de prazer morria.Excepto o meu amante, em taes momentosLonge da idéa tinha o mundo inteiro:O mundo inteiro então forças não tinhaPara do meu amante desprender-me.Debalde ante meus passos furibundoMonstro espantoso vira: em vão lançaraDo aberto seio a terra ondas de fogo;Em vão coriscos mil o céo vibrara;Dos braços do amante em taes momentos.Nada, nada podia arrebatar-me.Oh quem podéra, Alzira, descrever-teQue extasi divinal veiu pôr termoA taes instantes de suaves gostos!…Isto pode sentir-se, e não dizer-se…Agora, e só agora me pareceQue começo a existir: reproduziu-seUma total mudança na minha alma.O mundo para mim já tem encantos;Sob outras côres vejo mil objectos,Que a phantasia me pintou tristonhos:Propicio Amor abriu-me os seus thesouros,A Natureza seus thesouros me abre:Tudo te devo, amiga; em todo o tempoA teus doces conselhos serei grata:Oxalá ditas tantas saborêesQuantas por ti, querida, eu propria góso!Oxalá sintas com Alcino os gostos,Que eu exp'rimento, de um amante ao lado!Nem ventura maior posso augurar-te,Porque maior ventura haver não pode.

Alzira, sou feliz!.. Quanto te devo!…Das tuas instrucções é tal o fructo.Quanto encarava em torno era a meus olhosDe lugubres idéas feio quadro:Tudo o que vejo agora alegres, vivas,Imagens prazenteiras, me suscita.Os ternos sentimentos, que provava,Mil vezes combinando com dictamesQue desde a infancia sempre m'inspiraram;Mil vezes reflectia que dos homens,Ou de um tyranno Deus era ludibrio:Conceber não podia que existissePara experimentar contínua luctaEntre impressões da propria natureza,E principios chamados da virtude.No pélago de embates tão terriveisFluctuando implorei o teu auxilio;Meu coração te abri: tu leste n'elleO que eu nem mesma deslindar sabia.Tu me ensinaste a ver quanto fingidosOs homens são, nas vozes, e nos gestos:Rasgaste aos olhos meus mascara infameCom que têem de uso todos encobrir-se;Das bordas me salvaste de um abysmo,Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se,Perdôa, Deus immenso! Eu blasphemavaContra a tua justiça; eu te suppunhaAuctor do mal, que os homens machinavam;Cria-te inconsequente, e despiedado,Pois sentimentos me imprimiras n'almaQue ás tuas leis contrarios me pintavam!…Tu foste, Alzira, foste a que lançasteUm brilhante clarão ante os meus passos…Finalmente aprendi que a singelezaDo mundo era banida, e o seu imperioOs homens tinham dado á hypocrisia.Ruins!… Amor por crime affiguravam,E nem um só de amor vivia isempto!…Para elles não é crime um crime occulto,Porque a simulação reina em sua alma,Porque o remorso abafam em seu peito.Amor um crime!… Os gostos mais completos,E os mais puros deleites o acompanham:Se a ventura maior se une ao delicto,Quem ha que se não diga delinquente?D'entre as delicias, que gosei, querida,Com as tuas lições fugiu o crime.Eu não senti no coração bradar-meA voz d'esse pezar, sequaz da culpa:No meio dos prazeres, que gostava,Graças rendi a um Deus, que m'os concede:Se elle troveja sobre os criminosos,Nunca os seus raios menos me assustaram!…Um amante acabou o que encetaste;Elle, cujo olhar meigo me asseguraAs doces qualidades, que o adornam,Affastou-me do espirito receios,Que de mau grado combatia ainda.Reinava em seus discursos a franqueza,E o fogo, que brilhava nos seus olhos,Que o rosto lhe incendia, em seus transportesQue eram nascidos d'alma, me dizia:O labéo da impostura o não denigre;Não é como o dos outros seu character;Ingenuo, affavel, ah! prezada Alzira!Se tão amavel é o teu Alcino,Ninguem como eu e tu é tão ditoso!…Pouco preciso foi para vencer-me:Não teve que impugnar loucos caprichos,Com que ufanas amantes difficultamO mutuo galardão, que amor exige:Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemosSeus mimosos favores, porque causaHavia de indiff'rença dar indicios,Quando o meu peito, ancioso, palpitava?Se eu o levava da ventura ao cume,Não me dava elle a mão para seguil-o?Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo;E se o pudor as faces me tingia,Inda as chammas d'amor mais me abrasavam.Eu nadava em desejos indiziveis;E quantos beijos recebia, tantosCheios de egual fervor lhe compensava:Seus labios inflammados ateavamAs doces labaredas, em que ardia,E meus labios, aos labios seus unidos,Sensações recebiam deleitosas,Que me filtravam pelo corpo todo…Tão grandes emoções exp'rimentava,Que a tanto gosto eu mesma succumbia!Presa a voz na garganta, não sabendoNem já podendo articular palavra,Respirando anciada, e com vehemencia,Os meus sentidos todos confundidos,Sem nada ouvir, nem ver, apenas dandoSignaes de vida, de prazer morria.Excepto o meu amante, em taes momentosLonge da idéa tinha o mundo inteiro:O mundo inteiro então forças não tinhaPara do meu amante desprender-me.Debalde ante meus passos furibundoMonstro espantoso vira: em vão lançaraDo aberto seio a terra ondas de fogo;Em vão coriscos mil o céo vibrara;Dos braços do amante em taes momentos.Nada, nada podia arrebatar-me.Oh quem podéra, Alzira, descrever-teQue extasi divinal veiu pôr termoA taes instantes de suaves gostos!…Isto pode sentir-se, e não dizer-se…Agora, e só agora me pareceQue começo a existir: reproduziu-seUma total mudança na minha alma.O mundo para mim já tem encantos;Sob outras côres vejo mil objectos,Que a phantasia me pintou tristonhos:Propicio Amor abriu-me os seus thesouros,A Natureza seus thesouros me abre:Tudo te devo, amiga; em todo o tempoA teus doces conselhos serei grata:Oxalá ditas tantas saborêesQuantas por ti, querida, eu propria góso!Oxalá sintas com Alcino os gostos,Que eu exp'rimento, de um amante ao lado!Nem ventura maior posso augurar-te,Porque maior ventura haver não pode.

A temerosa Olinda é quem me escreve?É este o seu pudor, sua innocencia?Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas,Dão-me a ver que a discipula inexpertaHa de em breve ensinar a propria mestra.Olinda não sabia o que excitavaDentro em seu coração ternos impulsos,Que tanto a angustiavam… Não sabiaQual d'extranha mudança em suas fórmas,Em seus membros gentís a causa fosse!A voluptuosa Olinda, devoradaDo mais activo fogo, ingenuamenteConsulta a sua amiga, e a um leve acenoCorre a engolphar-se na amorosa lida.Basta um momento a transtornal-a toda!E porque de tão prospero successoPretendes, tu, querida, dar-me a gloria?Não, não fui eu; sómente a naturezaSabe fazer tão subitos prodigios:Como depressa ao mal, que te inquietava,Próvida suggeriu remedio activo!Como de uma boçal, incauta virgemUma amante formou tão extremosa!A agradavel pintura, que bosquejas,Dos férvidos transportes, que sentisteEntre os braços do amante afortunado,Não é, querida Olinda, tão sincera,Como sincera foi a que traçasteDe ignotas emoções a Amor sujeitas.Já não te exprimes com egual candura:Filha da reflexão nova linguagem,Por artificio mascarada em lettras,Vejo, que annunciar-me antes procuraApoz do que se ha feito o que se pensa,Do que por gradações d'acção o int'ressePouco a pouco esmiuçar, dar-me a ver todo.Rasga o pudico véo, com que debaldeAos olhos de uma amiga esconder buscasVoluptuosas traças, que transluzemNas tuas expressões; quando innocenteMenos recato n'ellas inculcavas,Eu lia com prazer dentro em tua almaOs sentimentos, que a affectavam todos.Tenho direito agora a exigir-teA ingenua confissão d'esses momentosPreludios do prazer, em que te engolphas.Quero saber porque impensados lancesD'um amante nos braços te arrojaste;Como o pudor fugiu, e o que sentisteQuando, abrasada em férvidos desejosMisturados com dôr indeffinivel,De amor colheste attonita as primicias,E provaste entre gostos, e agoniasO que uma vez, não mais, pode provar-se;Tens um amante; eu sou a tua amiga;Elle te dá prazer, d'ella o confia:Gosta os momentos, que gosar não podes,Do goso em recordar puras delicias:Nem todo o tempo a amor pode ser dado.A mór ventura, que o mortal encontra,Seja embhora infeliz, ou desgraçado,É lembrar-se que foi já venturoso;E o não desesperar de sêl-o ainda,Um termo aos males seus põe muitas vezes.Alzira foi do teu prazer motora,A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;Pago-me d'escutar as tuas ditas,E cedendo a meus rogos falso pejo,Saiba eu teus momentos deleitosos.Mas vê que o sacrificio, que te peço,Eu propria generosa abro primeiro:Primeiro eu quero timidos receiosCalcar aos olhos teus; entra em mim mesma,Vê como reina Amor dentro em minh'alma!Como só elle faz meus gostos todos!Chamem embhora apathicos estoicosArdores sensuaes os que me inflammam;Chamem-me torpe, chamem-me impudica;Taes vilipendios valem o que eu góso!Venha a rançosa, van theologiaCrimes fingir, crear eternos fogos;Eu desafio os seus sequazes todos,Eu desafio o Deus, que elles trovejam!Nos mais puros deleitos embebida,Bem os posso arrostar, posso aterral-os!Não estremeças, não amada Olinda;Longe do Fanatismo a turma odiosa,Que infames leis, infames prejuizos,Quaes cabeças fataes d'hydra indomavelPara o mundo assolar tem rebentado:Não ha para os christãos um Deus diff'renteDo que os gentios têem, e os musulmanos:Dogmas de bonzos são condignos filhosDa fraude vil, da estupida ignorancia,Da oppressora politica productos.O que Razão desnega, não existe:Se existe um Deus, a Natureza o off'rece:Tudo o que é contra ella, é offendel-o.A solida moral não necessitaDe apoios vãos: seu throno assenta em bases,Que firmam a Razão, e a Natureza.Outra vez eu farei que estes dictamesCom seguros principios sustentados,Destruam tua credula impericia;Abafando illusões, que desde a infanciaTe lançaram na mente inculta, e frouxa,Que Furias tem, que tem Dragões, e LarvasPara os gostos da vida atassalhar-te,Para a remorsos vís dar existencia.Por ora segue o culto, que te apontamAs emoções da propria Natureza:Sê religiosa e firme em pratical-as.O meu Alcino, a quem eu devo tudo,N'um momento desfez o que em tres lustrosNescios paes procuraram suggerir-me.Por habito adoptei de uns a doctrina,Por gosto d'outro as maximas sem custoDentro em meu terno peito radicaram.Tu sabes, minha Olinda, quam perplexaMinha alma balançava entre os combates;Que a rude educação, que recebera,Dentro em mim mesma oppunha sentimentosCujo extranho poder toda me enleava.Foi n'este estado de incerteza, e inercia,Que Alcino desposei: occulta forçaMe impellia a adoral-o; não sabendoDe deleites que fonte inexhaurivelSe ia abrir para mim entre seus braços.Do dia nupcial todo o apparatoOlhava com um sonho!.. É impossivelA estupidez, o pasmo em que me viaTraçar aos olhos teus; lembra-me apenasA inquietação d'Alcino em todo o dia,E a avidez de prazer, em que enlevado,Terminado o festim, já n'alta nouteAo thoro nupcial foi conduzir-me.Ficámos sós: eu timida, agitada,Em sossobro cruel (qual branda pomba,Que ao tiro assustador vôa, e revôa,Aqui, e ali mal pousa, se levantaSem guarida encontrar, que ao p'rigo a salve)Palpitava, tremia, e de meus olhosCorria em fio inespontaneo pranto.Eu sentia no rosto, e em todo o corpoEspalhar-se o rubor, que gera o sangue,Pelo fogo, que toda me abrasava.Não sei que meigos termos n'este tempoSoltava Alcino; eu nada percebia;Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,Chorando de prazer, supplices votos,Ardentes expressões balbuciava:Pelo meio do corpo com seus braçosCingindo-me ancioso sobre o leitoMe foi emfim lançar. Quando eu ardiaEm chammas de pudor, o mesmo incendioDava a Alcino soffregos transportes:Suas trementes mãos me despojavamDos nupciaes ornatos; e seus beijosConvulsivos exforços, que lhe oppunha,Pagavam com furor; suas cariciasAmiudando affouto, e temerario.Irosa quiz mostrar-me; mas os fogosQue o pejo tinha acceso, então tomandoMais activo calor, porém mais doce;Minhas repulsas, de ternura cheias,A maiores arrojos o excitaram;Menos timido, quanto eu mais irada,Meus olhos, minhas faces, e meu seioBeijava Alcino: eu languida fitandoN'elle amorosas vistas, reclinei-meSem resistir-lhe mais, sobre o seu collo:Importunos vestidos, que estorvavamSeus inflammados beiços de tocaremOccultos attractivos… longe arroja.Então aos olhos seus (tu bem o sabes,Quando outr'hora passavamos unidasEm innocentes brincos… feliz tempo!)Meus peitos, cuja alvura terminavamPreciosos rubís, patentes foram.Ao voluptuoso tacto palpitanteMais, e mais se arrijaram, de maneiraQue os labios não podiam comprimil-os.Meus braços nús, meu collo, eu toda estavaCoberta de signaes de ardentes beijos.Os leves trajos, que ainda conservava,Em vão eu quiz suster: rapido impulsoGuiava Alcino: d'Hercules as forçasAli vencera… As minhas que fariam?Co'as forças o pudor desfallecidoDeixei fartar seus olhos, e seus gestos.«Que lindos membros!… Que divinaes fórmas!…(De quando em quando extatico dizia)«Ah! que mimosos pés!.. Oh céo!.. que encantos!..«Que graças apparecem espalhadas!..«Que thesouros de amor sobre estas bases!..«Oh! que prazer!.. que vistas deleitosas!..«Alzira, eu vejo em ti uma deidade!«Deixa imprimir meus osculos aonde«Entre fios subtís se esconde o nacar!..«Deixa esgotar a fonte das delicias!..«Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!..«Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!..»Eram brazas, que as carnes me queimavam,Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!Sim; sua lingua, bem como um corisco,Abriu rapida entrada, onde engolphadasTodas as sensações luctavam juntas:Pela primeira vez dentro em mim mesmaSenti gerar-se subita mudança,Com que de envolta mil deleites vinham.Communicou-me sua raiva Alcino,E na lasciva acção, que proseguia,Tal int'resse me fez tomar, que eu propriaA seus intentos me prestei de todo.Entre incessantes gostos doces gotasBrotavam sobre os toques impudicos:Mas quando, ao crebro impulso, extasiadaCheguei ao cume do prazer celeste,Ardente emmanação de intimos membros,Que electrisavam fogos insoffriveis,Innundou o instrumento das delicias,Como se ao crime seu vibrassem pena,Ou antes dessem premio: affadigadoNa maior languidez, quasi em deliquio,Alcino veiu ao meu unir seu rosto.N'este instante, eu não sei que desejava;Sei que o primeiro ensaio dos prazeresEm vez de suffocar activas chammas,Scentelhas transformou em labaredas,Infundiu-lhes vigor inextinguivel.A ardencia dos desejos combatiaReceio occulto, sem nascer do pejo.N'um volver d'olhos se despiu Alcino,E deu-me nú a ver quam bem talhadoD'hombros, e lados com feições formosasSeu corpo era gentil: válidos membrosCobria fina pelle; era robusto,E delicado a um tempo; esbelto, airoso,Mediocre estatura, olhos rasgados,Mimosas faces, rubicundos beiços,Cheio de carnes, sem que fosse obesso,Egual nas proporções… Eis um manceboDigno de a Marte, e a Adonis antepôr-se,Não tendo de um a rude valentia,Nem tendo d'outro a feminil brandura.Então lancei curiosa avidas vistasSobre ignotas feições: fiquei pasmadaAo ver do sexo as distinctivas fórmasDobrando a extensão: dobrou meu susto,Mormente quando, desviando AlcinoMeus pés unidos, entre meus joelhosSeus joelhos encravou, e com seus dedosProcurou dividir da estreita fendaPequenos fechos, sobre os quaes, de chofre,Assestou o canhão, que me assustava.Ao medo succedeu uma dôr viva,Como se agudo ferro me cravassem....Alcino impetuoso ía rompendoA tenue fenda… Em vão, com mil gemidosEm pranto debulhada, eu lhe pediaQue não continuasse a atormentar-me:O cruel, minhas lagrimas bebendo,Respirando com ancia, e furibundo,Com a bôca calada sobre a minha,Meus gritos abafando, me rasgava:Mais internos pruridos flagellavamIntactos membros, mais ardor vehementeAbrange a todos do que os outros soffrem.Copioso suor ardente, e frioO cançasso d'Alcino, a afflicção minha,Inculcavam assás, que eram baldadosSeus exforços crueis para romper-me.Tão ardua intromissão debalde haviaA custo do meu sangue repetido.Se enorme corpo diminuta portaDeve transpôr, carece de abater-lheAntes d'entrar, humbraes a que se encosta.A violenta fricção traíu Alcino,E o membro, que tentava traspassar-me,Da propria sanha aos impetos rendido,Succumbiu, espumando horrendamente.Da electrica materia nas entranhasCaíram-me faiscas derretidas;Um vulcão se ateou dentro em mim toda.O insoffrivel ardor, que me infundiuLiquido tiro, ao centro já chegadoPor onde apenas o expugnado forteDa inimiga irrupção indefensavel,Podia receber patente damno,Taes estragos causou, que mais valêraA entrada franquear ao sitiante.Já dor não conhecia: chammejavaMeu proprio sangue, com violencia tantaQue lacerar-me as vêas parecia.Na estancia do prazer lançára AlcinoDo Mont-gibello as lavas, e extinguil-asSó torrentes mais fortes poderiam.Improviso calor calou-me o peito:Quizera eu já expor-me aos vivos golpes;Quizera já no meio da carnagemA batalha suster, ganhar a morte,Ou a victoria, de triumphos cheia.Tardava a meus desejos ver completaD'Alcino a empreza; eu mesma o provocáraSe, em fim, refeito da ufanosa esgrimaO não visse ameaçar um novo assalto.A um resto de temor maldisse affouta,E comigo jurei de não dar mostrasDe leve dor, bem que me espedaçasse.Alcino sotopõe uma almofadaPara o alvo nivelar, e separandoQuanto mais pôde nitidas columnas,O edificio tentou pôr em ruina.Ao forte insano impulso eu respondendo,(Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!)O muro se escallou!… Foi tal a forçaDa agonia cruel, que esmorecendoSemiviva fiquei; em quanto AlcinoDobrando, e redobrando acerbos golpes,Do reducto de amor o intimo accessoPenetra entre meus ais, e os meus gemidos;Outra vez attingiu supremo goso,Goso celestial, cujos effluviosUm balsamo espargiram deleitavel,Que socegou a dor, chamando a vida.Lethargicos alentos me abysmaramN'um pélago de gostos indiziveis;Elevaram-me a um céo d'immensas glorias:Encadeei Alcino com meus braços,Enlacei-o com os pés entre as espaldas;Férvidos beijos dando, e recebendoCom phrenetico ardor, com ancia intensa,Chamando-lhe meu bem, minha alma, e vida;Vozes, suspiros confundindo… tanto,Tanto em fim apressei dos hirtos membrosForçosa agitação, que n'um momentoIneffaveis delicias destillandoAlcino em mim, e eu n'elle, ao mesmo tempo,Libámos juntos quanto prazer podemOs mesmos homens figurar deidades…Minha Olinda, que instantes!… Eu não possoTraçar-te a confusão de emoções novasQue no extasi final me transportaram!…Amarga, acerba dor succumbe ao gosoDa ventura sem par… Vitaes alentosSaborear não podem tantos gostos…É preciso morrer entre deleites,E melhor fôra não tornar á vida,Que conserval-a sem morrer mil vezes.Sete vezes Amor chamando ás armasSeus subditos fieis, travou peleja;Sete vezes Amor bradou «Victoria!»Da indefensa coragem conduzidoMorphêo veiu c'roar nossas proezas.Eis de que modo a tua Alzira soubeD'Amor com as lições sublime vôoErguer affouta sobre o nescio vulgo;Este odeia o prazer por van modestia,E as pudicas vestaes, escravas do erro,Não cessam d'embair-nos, affectandoD'uma virtude van mimicas fórmas,Que o que se anhela mais a encobrir forçam;Forçam em vão, que a Natureza brada,E ao grito seu, queira, ou não queira o mundo,Curvo depõe ficções, da insania filhas,Tirando abrolhos, que da vida lançaNa aprazivel estrada impostor bando.Assim ornei a fronte radiosaDe vicejante rama, que decóraVictorias, que do erro heróes alcançam.Toma das minhas mãos, amada Olinda,Proveitosa lição; tu já começasTriumphos a ganhar, cheios de gloria:Docil tua alma a improbos dictames,Docil será tambem de mais bom grado,Ás piedosas leis da Natureza:Retrocede, como eu, da inextricavelSinuosa Vereda, onde perdidasPalpamos trevas, tacteando abysmos;Desapprende a fingir: só quadra ao vicioAcobertar-se com mendaces roupas.A modestia, o pudor gera a ignorancia,Ou do mal-feito um sentimento interno;O mais é cobardia, ignavia rude,Que só n'uma alma vil pode arraigar-se.Cabe, a quem soube respirar, vencendoDa impostura as traições, um ar mais puro;Olhar d'em torno a si, ver quam distantePulverulenta jaz infame turba:Cabe ostentar o garbo, e a louçaniaQue espanta o vulgo, impondo-lhe o respeitoDe que a nobre altivez se faz condigna.Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,Sincera Olinda, tua amiga imita.Eu não córo de dar-me toda a Alcino,Nem eu córo tambem de confessal-o:Instinctos naturaes se não são crimes,Como crime será narrar seus gosos?…Se é innocente a acção, a voz não pecca;D'est'arte saborêa o que estudaste,E d'est'arte falar, ah! não vacilles!…Não te escuse o pensar que egual pinturaObjecto egual exige, minha Olinda.Não; nos gostos de amor sempre ha mudança,Amor sempre varía os seus deleites.Eu mostrei-te o modêlo; em mim o encontras;Usa da singeleza que te é propria,E abre o teu coração, cheio de goso,Qual, antes de o provar, ingenua abriste.Se expôr da sorte infensa a crueldadeDá lenitivo ao mal, que se exp'rimenta,Sobre-eleva o prazer á extrema dita,Quando de o confiar redunda interesse.Eia, querida! annue aos meus desejos,Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.

A temerosa Olinda é quem me escreve?É este o seu pudor, sua innocencia?Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas,Dão-me a ver que a discipula inexpertaHa de em breve ensinar a propria mestra.Olinda não sabia o que excitavaDentro em seu coração ternos impulsos,Que tanto a angustiavam… Não sabiaQual d'extranha mudança em suas fórmas,Em seus membros gentís a causa fosse!A voluptuosa Olinda, devoradaDo mais activo fogo, ingenuamenteConsulta a sua amiga, e a um leve acenoCorre a engolphar-se na amorosa lida.Basta um momento a transtornal-a toda!E porque de tão prospero successoPretendes, tu, querida, dar-me a gloria?Não, não fui eu; sómente a naturezaSabe fazer tão subitos prodigios:Como depressa ao mal, que te inquietava,Próvida suggeriu remedio activo!Como de uma boçal, incauta virgemUma amante formou tão extremosa!A agradavel pintura, que bosquejas,Dos férvidos transportes, que sentisteEntre os braços do amante afortunado,Não é, querida Olinda, tão sincera,Como sincera foi a que traçasteDe ignotas emoções a Amor sujeitas.Já não te exprimes com egual candura:Filha da reflexão nova linguagem,Por artificio mascarada em lettras,Vejo, que annunciar-me antes procuraApoz do que se ha feito o que se pensa,Do que por gradações d'acção o int'ressePouco a pouco esmiuçar, dar-me a ver todo.Rasga o pudico véo, com que debaldeAos olhos de uma amiga esconder buscasVoluptuosas traças, que transluzemNas tuas expressões; quando innocenteMenos recato n'ellas inculcavas,Eu lia com prazer dentro em tua almaOs sentimentos, que a affectavam todos.Tenho direito agora a exigir-teA ingenua confissão d'esses momentosPreludios do prazer, em que te engolphas.Quero saber porque impensados lancesD'um amante nos braços te arrojaste;Como o pudor fugiu, e o que sentisteQuando, abrasada em férvidos desejosMisturados com dôr indeffinivel,De amor colheste attonita as primicias,E provaste entre gostos, e agoniasO que uma vez, não mais, pode provar-se;Tens um amante; eu sou a tua amiga;Elle te dá prazer, d'ella o confia:Gosta os momentos, que gosar não podes,Do goso em recordar puras delicias:Nem todo o tempo a amor pode ser dado.A mór ventura, que o mortal encontra,Seja embhora infeliz, ou desgraçado,É lembrar-se que foi já venturoso;E o não desesperar de sêl-o ainda,Um termo aos males seus põe muitas vezes.Alzira foi do teu prazer motora,A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;Pago-me d'escutar as tuas ditas,E cedendo a meus rogos falso pejo,Saiba eu teus momentos deleitosos.Mas vê que o sacrificio, que te peço,Eu propria generosa abro primeiro:Primeiro eu quero timidos receiosCalcar aos olhos teus; entra em mim mesma,Vê como reina Amor dentro em minh'alma!Como só elle faz meus gostos todos!Chamem embhora apathicos estoicosArdores sensuaes os que me inflammam;Chamem-me torpe, chamem-me impudica;Taes vilipendios valem o que eu góso!Venha a rançosa, van theologiaCrimes fingir, crear eternos fogos;Eu desafio os seus sequazes todos,Eu desafio o Deus, que elles trovejam!Nos mais puros deleitos embebida,Bem os posso arrostar, posso aterral-os!Não estremeças, não amada Olinda;Longe do Fanatismo a turma odiosa,Que infames leis, infames prejuizos,Quaes cabeças fataes d'hydra indomavelPara o mundo assolar tem rebentado:Não ha para os christãos um Deus diff'renteDo que os gentios têem, e os musulmanos:Dogmas de bonzos são condignos filhosDa fraude vil, da estupida ignorancia,Da oppressora politica productos.O que Razão desnega, não existe:Se existe um Deus, a Natureza o off'rece:Tudo o que é contra ella, é offendel-o.A solida moral não necessitaDe apoios vãos: seu throno assenta em bases,Que firmam a Razão, e a Natureza.Outra vez eu farei que estes dictamesCom seguros principios sustentados,Destruam tua credula impericia;Abafando illusões, que desde a infanciaTe lançaram na mente inculta, e frouxa,Que Furias tem, que tem Dragões, e LarvasPara os gostos da vida atassalhar-te,Para a remorsos vís dar existencia.Por ora segue o culto, que te apontamAs emoções da propria Natureza:Sê religiosa e firme em pratical-as.O meu Alcino, a quem eu devo tudo,N'um momento desfez o que em tres lustrosNescios paes procuraram suggerir-me.Por habito adoptei de uns a doctrina,Por gosto d'outro as maximas sem custoDentro em meu terno peito radicaram.Tu sabes, minha Olinda, quam perplexaMinha alma balançava entre os combates;Que a rude educação, que recebera,Dentro em mim mesma oppunha sentimentosCujo extranho poder toda me enleava.Foi n'este estado de incerteza, e inercia,Que Alcino desposei: occulta forçaMe impellia a adoral-o; não sabendoDe deleites que fonte inexhaurivelSe ia abrir para mim entre seus braços.Do dia nupcial todo o apparatoOlhava com um sonho!.. É impossivelA estupidez, o pasmo em que me viaTraçar aos olhos teus; lembra-me apenasA inquietação d'Alcino em todo o dia,E a avidez de prazer, em que enlevado,Terminado o festim, já n'alta nouteAo thoro nupcial foi conduzir-me.Ficámos sós: eu timida, agitada,Em sossobro cruel (qual branda pomba,Que ao tiro assustador vôa, e revôa,Aqui, e ali mal pousa, se levantaSem guarida encontrar, que ao p'rigo a salve)Palpitava, tremia, e de meus olhosCorria em fio inespontaneo pranto.Eu sentia no rosto, e em todo o corpoEspalhar-se o rubor, que gera o sangue,Pelo fogo, que toda me abrasava.Não sei que meigos termos n'este tempoSoltava Alcino; eu nada percebia;Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,Chorando de prazer, supplices votos,Ardentes expressões balbuciava:Pelo meio do corpo com seus braçosCingindo-me ancioso sobre o leitoMe foi emfim lançar. Quando eu ardiaEm chammas de pudor, o mesmo incendioDava a Alcino soffregos transportes:Suas trementes mãos me despojavamDos nupciaes ornatos; e seus beijosConvulsivos exforços, que lhe oppunha,Pagavam com furor; suas cariciasAmiudando affouto, e temerario.Irosa quiz mostrar-me; mas os fogosQue o pejo tinha acceso, então tomandoMais activo calor, porém mais doce;Minhas repulsas, de ternura cheias,A maiores arrojos o excitaram;Menos timido, quanto eu mais irada,Meus olhos, minhas faces, e meu seioBeijava Alcino: eu languida fitandoN'elle amorosas vistas, reclinei-meSem resistir-lhe mais, sobre o seu collo:Importunos vestidos, que estorvavamSeus inflammados beiços de tocaremOccultos attractivos… longe arroja.Então aos olhos seus (tu bem o sabes,Quando outr'hora passavamos unidasEm innocentes brincos… feliz tempo!)Meus peitos, cuja alvura terminavamPreciosos rubís, patentes foram.Ao voluptuoso tacto palpitanteMais, e mais se arrijaram, de maneiraQue os labios não podiam comprimil-os.Meus braços nús, meu collo, eu toda estavaCoberta de signaes de ardentes beijos.Os leves trajos, que ainda conservava,Em vão eu quiz suster: rapido impulsoGuiava Alcino: d'Hercules as forçasAli vencera… As minhas que fariam?Co'as forças o pudor desfallecidoDeixei fartar seus olhos, e seus gestos.«Que lindos membros!… Que divinaes fórmas!…(De quando em quando extatico dizia)«Ah! que mimosos pés!.. Oh céo!.. que encantos!..«Que graças apparecem espalhadas!..«Que thesouros de amor sobre estas bases!..«Oh! que prazer!.. que vistas deleitosas!..«Alzira, eu vejo em ti uma deidade!«Deixa imprimir meus osculos aonde«Entre fios subtís se esconde o nacar!..«Deixa esgotar a fonte das delicias!..«Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!..«Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!..»Eram brazas, que as carnes me queimavam,Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!Sim; sua lingua, bem como um corisco,Abriu rapida entrada, onde engolphadasTodas as sensações luctavam juntas:Pela primeira vez dentro em mim mesmaSenti gerar-se subita mudança,Com que de envolta mil deleites vinham.Communicou-me sua raiva Alcino,E na lasciva acção, que proseguia,Tal int'resse me fez tomar, que eu propriaA seus intentos me prestei de todo.Entre incessantes gostos doces gotasBrotavam sobre os toques impudicos:Mas quando, ao crebro impulso, extasiadaCheguei ao cume do prazer celeste,Ardente emmanação de intimos membros,Que electrisavam fogos insoffriveis,Innundou o instrumento das delicias,Como se ao crime seu vibrassem pena,Ou antes dessem premio: affadigadoNa maior languidez, quasi em deliquio,Alcino veiu ao meu unir seu rosto.N'este instante, eu não sei que desejava;Sei que o primeiro ensaio dos prazeresEm vez de suffocar activas chammas,Scentelhas transformou em labaredas,Infundiu-lhes vigor inextinguivel.A ardencia dos desejos combatiaReceio occulto, sem nascer do pejo.N'um volver d'olhos se despiu Alcino,E deu-me nú a ver quam bem talhadoD'hombros, e lados com feições formosasSeu corpo era gentil: válidos membrosCobria fina pelle; era robusto,E delicado a um tempo; esbelto, airoso,Mediocre estatura, olhos rasgados,Mimosas faces, rubicundos beiços,Cheio de carnes, sem que fosse obesso,Egual nas proporções… Eis um manceboDigno de a Marte, e a Adonis antepôr-se,Não tendo de um a rude valentia,Nem tendo d'outro a feminil brandura.Então lancei curiosa avidas vistasSobre ignotas feições: fiquei pasmadaAo ver do sexo as distinctivas fórmasDobrando a extensão: dobrou meu susto,Mormente quando, desviando AlcinoMeus pés unidos, entre meus joelhosSeus joelhos encravou, e com seus dedosProcurou dividir da estreita fendaPequenos fechos, sobre os quaes, de chofre,Assestou o canhão, que me assustava.Ao medo succedeu uma dôr viva,Como se agudo ferro me cravassem....Alcino impetuoso ía rompendoA tenue fenda… Em vão, com mil gemidosEm pranto debulhada, eu lhe pediaQue não continuasse a atormentar-me:O cruel, minhas lagrimas bebendo,Respirando com ancia, e furibundo,Com a bôca calada sobre a minha,Meus gritos abafando, me rasgava:Mais internos pruridos flagellavamIntactos membros, mais ardor vehementeAbrange a todos do que os outros soffrem.Copioso suor ardente, e frioO cançasso d'Alcino, a afflicção minha,Inculcavam assás, que eram baldadosSeus exforços crueis para romper-me.Tão ardua intromissão debalde haviaA custo do meu sangue repetido.Se enorme corpo diminuta portaDeve transpôr, carece de abater-lheAntes d'entrar, humbraes a que se encosta.A violenta fricção traíu Alcino,E o membro, que tentava traspassar-me,Da propria sanha aos impetos rendido,Succumbiu, espumando horrendamente.Da electrica materia nas entranhasCaíram-me faiscas derretidas;Um vulcão se ateou dentro em mim toda.O insoffrivel ardor, que me infundiuLiquido tiro, ao centro já chegadoPor onde apenas o expugnado forteDa inimiga irrupção indefensavel,Podia receber patente damno,Taes estragos causou, que mais valêraA entrada franquear ao sitiante.Já dor não conhecia: chammejavaMeu proprio sangue, com violencia tantaQue lacerar-me as vêas parecia.Na estancia do prazer lançára AlcinoDo Mont-gibello as lavas, e extinguil-asSó torrentes mais fortes poderiam.Improviso calor calou-me o peito:Quizera eu já expor-me aos vivos golpes;Quizera já no meio da carnagemA batalha suster, ganhar a morte,Ou a victoria, de triumphos cheia.Tardava a meus desejos ver completaD'Alcino a empreza; eu mesma o provocáraSe, em fim, refeito da ufanosa esgrimaO não visse ameaçar um novo assalto.A um resto de temor maldisse affouta,E comigo jurei de não dar mostrasDe leve dor, bem que me espedaçasse.Alcino sotopõe uma almofadaPara o alvo nivelar, e separandoQuanto mais pôde nitidas columnas,O edificio tentou pôr em ruina.Ao forte insano impulso eu respondendo,(Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!)O muro se escallou!… Foi tal a forçaDa agonia cruel, que esmorecendoSemiviva fiquei; em quanto AlcinoDobrando, e redobrando acerbos golpes,Do reducto de amor o intimo accessoPenetra entre meus ais, e os meus gemidos;Outra vez attingiu supremo goso,Goso celestial, cujos effluviosUm balsamo espargiram deleitavel,Que socegou a dor, chamando a vida.Lethargicos alentos me abysmaramN'um pélago de gostos indiziveis;Elevaram-me a um céo d'immensas glorias:Encadeei Alcino com meus braços,Enlacei-o com os pés entre as espaldas;Férvidos beijos dando, e recebendoCom phrenetico ardor, com ancia intensa,Chamando-lhe meu bem, minha alma, e vida;Vozes, suspiros confundindo… tanto,Tanto em fim apressei dos hirtos membrosForçosa agitação, que n'um momentoIneffaveis delicias destillandoAlcino em mim, e eu n'elle, ao mesmo tempo,Libámos juntos quanto prazer podemOs mesmos homens figurar deidades…Minha Olinda, que instantes!… Eu não possoTraçar-te a confusão de emoções novasQue no extasi final me transportaram!…Amarga, acerba dor succumbe ao gosoDa ventura sem par… Vitaes alentosSaborear não podem tantos gostos…É preciso morrer entre deleites,E melhor fôra não tornar á vida,Que conserval-a sem morrer mil vezes.Sete vezes Amor chamando ás armasSeus subditos fieis, travou peleja;Sete vezes Amor bradou «Victoria!»Da indefensa coragem conduzidoMorphêo veiu c'roar nossas proezas.Eis de que modo a tua Alzira soubeD'Amor com as lições sublime vôoErguer affouta sobre o nescio vulgo;Este odeia o prazer por van modestia,E as pudicas vestaes, escravas do erro,Não cessam d'embair-nos, affectandoD'uma virtude van mimicas fórmas,Que o que se anhela mais a encobrir forçam;Forçam em vão, que a Natureza brada,E ao grito seu, queira, ou não queira o mundo,Curvo depõe ficções, da insania filhas,Tirando abrolhos, que da vida lançaNa aprazivel estrada impostor bando.Assim ornei a fronte radiosaDe vicejante rama, que decóraVictorias, que do erro heróes alcançam.Toma das minhas mãos, amada Olinda,Proveitosa lição; tu já começasTriumphos a ganhar, cheios de gloria:Docil tua alma a improbos dictames,Docil será tambem de mais bom grado,Ás piedosas leis da Natureza:Retrocede, como eu, da inextricavelSinuosa Vereda, onde perdidasPalpamos trevas, tacteando abysmos;Desapprende a fingir: só quadra ao vicioAcobertar-se com mendaces roupas.A modestia, o pudor gera a ignorancia,Ou do mal-feito um sentimento interno;O mais é cobardia, ignavia rude,Que só n'uma alma vil pode arraigar-se.Cabe, a quem soube respirar, vencendoDa impostura as traições, um ar mais puro;Olhar d'em torno a si, ver quam distantePulverulenta jaz infame turba:Cabe ostentar o garbo, e a louçaniaQue espanta o vulgo, impondo-lhe o respeitoDe que a nobre altivez se faz condigna.Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,Sincera Olinda, tua amiga imita.Eu não córo de dar-me toda a Alcino,Nem eu córo tambem de confessal-o:Instinctos naturaes se não são crimes,Como crime será narrar seus gosos?…Se é innocente a acção, a voz não pecca;D'est'arte saborêa o que estudaste,E d'est'arte falar, ah! não vacilles!…Não te escuse o pensar que egual pinturaObjecto egual exige, minha Olinda.Não; nos gostos de amor sempre ha mudança,Amor sempre varía os seus deleites.Eu mostrei-te o modêlo; em mim o encontras;Usa da singeleza que te é propria,E abre o teu coração, cheio de goso,Qual, antes de o provar, ingenua abriste.Se expôr da sorte infensa a crueldadeDá lenitivo ao mal, que se exp'rimenta,Sobre-eleva o prazer á extrema dita,Quando de o confiar redunda interesse.Eia, querida! annue aos meus desejos,Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.


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