SONETOS.

Tu não podes saber, querida Alzira,Com que alegria as cubiçadas lettrasDa tua Olinda foram recebidas!Não o podes saber, nem eu dizer-to.Que pura locução, que Amor ensina!Quam diff'rente linguagem da que falamOs livros, que me dá o meu Bellino!N'elles descubro o sensual estyloQue a modestia revolta, e que não quadraÁs puras sensações, que Amor excita.Phrase brutal, sem arte, e sem melindre,Qual despejada plebe usar costuma;N'elles de Amor os gostos enxovalhaMysterioso véo, que arrancar ousamCom mão profana d'ante o sanctuarioQue Amor encerra, e d'onde o deus occultoManda aos mortaes um cento de venturas.D'elles o numen foge, e por castigoLeva apoz si deleites, que não provam:Em vez de graças mil, de mil prazeresPriapeo tropel impios incensam.Dá-me tedio a lição de escriptos torpes,Onde o prazer fugaz, lassos os membros,Sob mil fórmas em vão se perpetua.Lassos os membros, lassos os sentidos,Debalde esgotam, soffregos de gostos,De impudicicia innumeraveis gestos.Morre a chamma, que amor mutuo não sopra;Como é vil a expressão, e é vil o gosoQue umaThereza, que outras taes francezasEm impuros bordeis gabar se uffanam!Foi-me preciso, Alzira, usar do imperioQue a um fraco sexo deleitosos modosFagueiros, ternos emprestar costumam,Para do amante meu obter a custoDe obscenas producções o sacrificio,Que o coração corrompem, e devassamPuros desejos, sentimentos doces.Mostrei-lhe que o prazer esmoreciaDe amavel illusão sem os preludios;E que, apezar dos seus vivos protestos,Se os sentidos assás lisonjeava,Mil emoções gostosas embotando,Impellido a gosar continuamente,Escravo do prazer na sua amanteNão fartaria hydropicos desejos:Ardentes Messallinas buscaria,Entre os braços das quaes mais facil eraÁ vida termo pôr, que saciar-se.Cedeu às minhas supplicas, e agoraGrato me diz — que se elle da venturaO caminho me abriu, eu n'elle o guio:Assim, quando os sentidos fatigadosDe amor se negam a esgotar delicias,Mana do coração inexhaurivelProlifica virtude, que os alenta.Assim de gostos perennaes correntesFranquêa Amor, a quem o não profana:De Amor os gosos são como o diamante,Que, sem o engaste que tocar-lhe véda,Perdera a polidez, perdera o brilho.Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno:Eu em tuas expressões aprendo, Alzira,Como a ternura impera nos sentidos:E d'um, e d'outro regulando as forças,De amorosos tropheos requinta a gloria.O sensual atolla-se nos vicios,Cujo infesto vapor todo o corriaDe lançar-lhe no tumulo o esqueleto;D'outra arte aquelle, que libar suavisaNectar, que Amor esparge aos seus validos,Das rugas, e das cans não teme o estrago;Que nos ultimos annos pode aindaEm seu transporte Amor beijar na face.Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira,Que a rude Olinda como tu descrevaA emmanação dos gostos, que se provamQuando o primeiro amor os desenvolveDa terna virgem no innocente peito?Reclamas a candura, de que usavaAntes de me illustrar de Amor o facho?Ousas mesmo increpar-me de artificio,Porque eu não sube delicada têaUrdir aos olhos teus, porque eu não subeAs effusões de amor envolver n'ella,E, qual me envias, dar-te digna offerta?Basta, tu mandas; vou obedecer-te.Tenho ante os olhos instrucções sobejasPara pintar o quadro dos deleitesQue de dous entes n'um absortos brotam.Tu me dás os pinceis, o molde, as côres;E no meu coração, prezada amiga,Fecunda o goso meigos sentimentos,Que só acabarão, se amor acaba!…Que chimericos ceos fórma a impostura!..Aonde móres delictas se promettemQue as de um amante, d'outro ao lado unido?Eu sonhava illusões, antes que fosseNos mysterios de amor iniciada.Errava de um em outro labyrintho,D'onde os conselhos teus, amada Alzira,E Amor, dando-me o fio de AriadnaMe fizeram sair: deixam-me forçasPara abafar o monstro, que meus diasTinha de funestar com vãos temores,Filhos do erro vil, da fraude abortos.Qual vaguêa nas trevas sem acordoPerdido o tino, afflicto o caminhante,D'alta terra entre as faldas pedregosas,Ou de invia selva na espessura vasta;Aqui tropeça, ali se encontra, e bate,Macera as mãos, o rosto, e tenteandoUm pé lhe escapa, cai, rola-se o triste,E n'um barathro crê despedaçar-se;Eis improvisa luz assoma ao longe;Attenta o infeliz, toma-a por norte,E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo:Taes tuas lettras para mim brilharamNa escuridão fatal, que me envolvia.Não espaçou Amor ditoso prazoPara no gremio seu a tua OlindaBemfazejo accolher. Vira eu BellinoPassar uma, e mil vezes, attentandoCom interesse em mim, attentei n'elle,Em seu terno olhar, e meigos gestos;Vi que um amante o ceo me destinava:Em breve os olhos meus lhe responderamÁs mudas expressões, que os seus diziam:Em breve as suas cartas, de amor cheias,Fizeram dar egual calor ás minhas,Accendendo os meus férvidos transportes.N'uma cerrada noute, quando ao somnoEstava tudo entregue, Amor velandoNo meu peito, e no seu, a vez primeiraNos ajuntou em fim: elle exultavaDe indizivel prazer: eu me sentiaNa agitação maior de gosto, e susto.Ao dar-lhe a mão, para o guiar de mansoTé ao aposento meu, subito fogoCalou-me as vêas, penetrou-me toda.Mas quando, já fechados um com outro,Vi que seus gestos, mais que suas vozes,Sua ternura ousada me exprimiam,Lembrou-me o p'rigo, a que me havia exposto.Tarda lembrança, que cedia a embatesDe ignoto medo, que o rubor gerava!Queria eu impedir-lhe ardentes beijos,Mas vedavam-no as chammas, que accendiam;E ás primeiras caricias insensivel,Luctando entre o pudor, e entre o desejo,Em mil contrarias reflexões absorta,Meu silencio e inacção a empresas novasDe maior valor, Bellino excitaram:Confesso, que devéras quiz oppôr-meA seus intentos no primeiro instante:Porém pouco tardou que abrazeadaEm chammas voluptuosas, resistindoA seus esforços, mais lhe franqueavaFacil accesso a proximos triumphos.Sentado junto a mim, lançando um braçoEm redor do meu collo, até cingir-me.E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto;Com a mão sobre os peitos inquieta,Que ao crebro palpitar os apressava;E os labios discorrendo os olhos, faces,Té fixal-os nos meus, ou por entre ellesConfundindo os alentos, lançar chammasDentro em meu coração, qual facho acceso;A ardente lingua sua unindo á minha,Ou, sobre o seio meu calando a bôca,N'elle impressos deixar seus proprios beiços.Com mão mais temeraria, do vestidoPela abertura a occultos attractivosIndo o fogo atear… Ah! que eu não pudeMais resistencia oppôr a seus desejos!Apenas leve fisga separandoUm dedo seu, que um raio parecia,Tocou o sitio onde os deleites moram,Subito, alvorotados uns com outrosTravando estranha lucta, me levaramOnde, fóra de mim, quasi sem vida,Só quanto então gosei, gosar podia.Dos membros todos foram engolphar-seAs sensações ali; e só tornaramA ser o que eram, quando ao mesmo tempoSua potencia intrinseca exhalando;Fiquei de todo languida, e abatida:O perverso Bellino attentos olhosNos meus então fitando, quiz ler n'ellesDe que ficções minha alma se occupava.Foi extremo o rubor, que de improvisoMinhas faces tingiu: lancei-lhe os braços,Escondendo meu rosto no seu peito,Por não poder suster-lhe as doces vistas.A minha terna acção atraiçoou-me:Que o maligno, pegando-me do rostoCom ambas suas mãos, mais me encarava;De confusa me ver folga, e se ufana,Com beijos mil parece devorar-me;Entre os seus braços mais e mais me aperta,E pouco a pouco sobre mim se inclina:Minha cabeça no sophá encosta,Meus pendentes pés trava, e os submetteEntre os seus mesmos té que, em fim, de todoSenti do corpo seu o pezo grato.Meu leito era defronte: mas BellinoNo largo canapé circ'lo bastanteHabil athleta achou para o combate.Perplexa, em mil affectos engolphada,Irada, enternecida, em cruel lucta,Meus sentimentos todos labutavam:Um timido pudor activos fogosContrariava em vão, em vão retinhaIgnotos medos, soffregos desejos:Suspensa, e curiosa eu esperavaGostosa scena, em que prolixas noutesPensando o que seria, despendêra.Em quanto d'esta sorte embellezadoMe tinham taes idéas, já BellinoNo phrenesi maior de gráu, ou força,Os meus secretos votos preenchia.Em torno da cintura levantadosMeus trajos inferiores, sobre os joelhosSentindo os de Bellino desprendidos,Alargando-me os pés, tomando entre ellesVantajosa attitude a seus projectos,Franqueando co'a mão facil entradaÁ chammejante lança, que tocavaO mesmo sitio, que invadíra o dedo:Forcejou para ferir-me com seus golpes,Com impeto tamanho, com tal raivaQue nem dos gritos meus se commovia,Nem podia o meu pranto apiedal-o;C'o forte impulso as movediças carnesLevava-me ás entranhas; da feridaCorria o sangue, mas sem que podesseAo ferro assolador achar bainha.Seus dedos sanguinarios finalmenteD'uma, e outra parte com vigor sustendoFlexiveis membros, redobrando as forçasDa valente impulsão, a cruel lançaRompeu cruento ingresso… traspassou-me.Que dor, Alzira!… Dei tão alto gritoQue Bellino depois disse o assustára,Bem que fosse de meus páes distante o quarto.Sem sentidos fiquei, em quanto o amanteOs trophéos da victoria recolhia;E só tornei a mim, quando ao meu sangueSuave irrigação veiu mesclar-se,A agitações de gosto a dor cedendo,De gosto inexhaurivel, que provára.N'um momento apertada com Bellino,N'activa sensação toquei com elleA meta das delicias, transportadaDe muito mais prazer do que a dor fôra.N'este instante convulsa, e delirante,E como se um espasmo supportasse,Intirissada toda, os meus alentosSenti reconcentrar-se n'um só ponto.Findava o meu amante, inda eu gosava(Comprimindo-o comigo) altas venturas,De que sedenta então não poderiaFartar-me assás: meus braços exhauridos,Meu collo, e pés, eu toda fatigadaDo vehemente tremor, em que lidára.Caí prostrada, quasi semi-morta.Quando a meus olhos (que caligens densasTinham coberto) a luz tornou de novo,Volvi-os sobre o amante, de tal sorteQue ao vêl-o já supplice o instigava:Não ficava ocioso n'este tempo,Que no exame gastou do entrado forte,Pasmado dos estragos, que fizera,E dos despojos, que lucrava alegre.Da machina, que a praça expugnou firme,A estructura e altivez eu divisando,Custava-me a atinar como podéraPlantar-se o obelisco no reducto estreito.Bellino minhas vistas comprehendendo,Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o,Marmorea rigidez, côr escarlate,Fórma, e calor de obuz, que disparava.Quando submisso, da peleja lasso,O vi depois sem o estendido conto,Brancas roupas trajava, mais humilde:Mas agora, affrontado, arremeçandoMonarcha ufano, a purpura do collo,Com furor ao combate se aprestava.Reverberou seu fogo em minhas faces,E a vêa e vêa d'ellas espalhadoDe todo o corpo me filtrou os membros.Da lascivia ao pudor jungindo o pezo,Fez-me Bellino levantar, e tendoElle sentado unidos os joelhos,Sobre elles me sentou, e franco accessoDa lança abrindo á ponta, a foi de mansoNo riste pondo, té que a meio contoN'elle embebida, sobre si de todoLevando o pezo meu, entrou de modoQue fiquei té ás visceras varada.A introducção tão forte pouco affeitosMeus delicados membros se avexaram:Mas curvando-me um pouco, e com justeza,Achei convir ao estojo o instrumento;Cuja palpitação, sem ajustar-nos,Em cadencia reciproca alliada,Bastava a provocar gosto indizivel,De modo que sem mais fadiga eu pude,Na grata posição Bellino immovel,Attingir o prazer mais saboroso,Nadar em mil deleites engolphada:Aqui, amada Alzira, essa virtudeQue appellidam pudor, foi-me odiosa.De seus grilhões liberta, possuidaDe um venereo furor, impacienteDe comprimir a mim o charo amante,Arranquei-me da lubrica attitude,Sobre elle me arrojei, toda anciosaDe me identificar c'o meu Bellino;Estreitada com elle, abandonadaDe amor á raiva, que ambos incendia,Sobre mim o arrastei junto do leito,Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios,Do corpo os membros todos enlaçadosMisturando nos osculos o alento,Nos osculos libando doce nectar,Em tal agitação, que aos ceos alçar-me,E abater-me aos abysmos parecia;Ávida de absorver a grossa lança,De soffrer-lhe a rijeza diamantina,E de arrostar-lhe os golpes incessantes,Sentindo o instante em que violento impulsoDe celeste effusão marcava o termo,Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo,Tanto me impertiguei, que o meu amanteSustive sobre mim, suspenso, em quantoAos finaes paroxismos succumbindoAo meu uniu seu ultimo gemido,E dentro das entranhas abrazadasLançando-me torrentes d'almo influxo,submersa me deixou n'um mar de gosos.Julgas, Alzira, que entre tanto gostoNa assidua compressão me não doiamAs maceradas meliadrosas carnes?Ah! que esta dor pelo prazer vencidaIrritava emoções deliciosas,Sobre-elavava ás sensações mais gratas.Qual sequioso cervo, repassadoDa calmosa avidez, suaves gotasRabido anhela, e quanto é mais soffridaArdente sêde, tanto mais ensopaUma, e outra vez insaciaveis fauces:Não d'outra sorte flagellados membrosDa dor pungindos de crueis combates,Balsamica emoção consoladoraCom avidez seccavam insoffridos:A elluvião prolifica eu sentia,Pruridos divinaes, e estremecendoÁ melliflua impressão, perennaes gososBastante tempo apoz gosava ainda.N'este instante expirou dentro em minh'almaTemor nefando, que immolava ao culto.Nova moral raiou de Olinda aos olhos;Eu tive em pouco rispidos preceitos,Ameaças crueis, com que ralavamMeus annos infantís. Doeu-me, Alzira,De ver tanta belleza definhadaDa hypocrisia victimas infaustas;Aponta a edade, em que é d'amor forçosoAs delicias gosar; em que almo viçoComo nas plantas, n'ellas assignalam:Grata reproducção comsigo abafam,Envenena-se o germen da natura,Infecção purulenta as vai minando,Que seus dias termina, ou os condemnaA languida existencia: abate o corpo,Abate o esp'rito corruído o alento.Innovámos a acção, eu, e Bellino,E eguaes em forças, sem perder coragem,Nenhum de nós cedeu, bem que durasseAlgumas horas o combate acceso:Mas da noute feliz o longo mantoQue os mysterios de amor commette ás trevas,Com roseos dedos a invejosa AuroraCruel abrindo, faz dentro em meu peitoA escuridão entrar, que em torno tinha.Foi-me odiosa a luz, que affugentavaDe mim com o amor perennes delicias.Uma e outra vez Amor tem facultadoAo constante Bellino, á terna OlindaOutros, como estes, prosperos momentos:São de tormento para mim os diasQue tel-o junto a mim debalde busco:Para elle o tempo que sem ver-me gasta,Figura-lhe de um seculo a distancia.Já Hymenêo houvera de enlaçar-nos,Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuidaSenão em machinar sua ruina,De longo tempo não tivesse urdidoIniquas tramas, horridas ciladas,Que ao homem (digno premio de sua obra)Barreiras põe na estrada da ventura.Retrocede o infeliz d'um a outro lado,Negras voragens abre ante os seus passosTropel de Furias, que comsigo arrasta,Filhas do Erro, que animou insano.A Fortuna que foi comigo larga,Negou seus dons a meu querido amante.Elle não conta nobres ascendentes,De quem meus páes se dizem oriundos:É quanto basta, para erguer muralhasDe alcance, entre elle e mim, inacessiveis:O ditoso hymenêo não me é preciso,O hymenêo, apparato de teus votos,Para entre os braços seus tecer affoutaIndissoluveis nós c'o meu Bellino:Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem.Alzira, tu, que a amor meu peito abriste,Abre meus olhos á Natura inteira:Eu quero n'ella ver os meus destinos;Só n'ella eu quero divinaes verdadesSolicita explorar, viver só n'ella:Cumpre as gratas promessas, que me fazes,Deva a ti só a tua Olinda tudo.Não ha para os christãos um Deus diff'renteDo que os gentios teem, e os musulmanos?O que a razão desnega, não existe:Se existe um Deus, a Natureza o offerece;Tudo o que é contra ella, é offendel-o.Devo eu seguir o culto, que me apontamAs impressões da propria Natureza?Tenho uma religião em pratical-as?Que mundo é este pois, prezada Alzira?Teem os homens levado o seu arrojoTé forjarem um Deus na ousada mente,Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos,Attribuir-lhe leis, que a ferro, e fogoExtranhos povos a adorar constrangem,Immolando milhões á gloria sua?Nos labios teem doçura, e probidade,No coração o fel, a raiva: os monstrosSão máus por condição, ou máus por erro?Não, eu não posso, Alzira, d'este enigmaRomper o denso véo: minhas idéasJazem n'um cahos de horrida incerteza:Hesitar me não deixes por mais tempo:Minha instrucção confio aos teus cuidados;D'amizade o esplendor dá-te a mim toda;Acaba de fazer-me de ti digna.

Tu não podes saber, querida Alzira,Com que alegria as cubiçadas lettrasDa tua Olinda foram recebidas!Não o podes saber, nem eu dizer-to.Que pura locução, que Amor ensina!Quam diff'rente linguagem da que falamOs livros, que me dá o meu Bellino!N'elles descubro o sensual estyloQue a modestia revolta, e que não quadraÁs puras sensações, que Amor excita.Phrase brutal, sem arte, e sem melindre,Qual despejada plebe usar costuma;N'elles de Amor os gostos enxovalhaMysterioso véo, que arrancar ousamCom mão profana d'ante o sanctuarioQue Amor encerra, e d'onde o deus occultoManda aos mortaes um cento de venturas.D'elles o numen foge, e por castigoLeva apoz si deleites, que não provam:Em vez de graças mil, de mil prazeresPriapeo tropel impios incensam.Dá-me tedio a lição de escriptos torpes,Onde o prazer fugaz, lassos os membros,Sob mil fórmas em vão se perpetua.Lassos os membros, lassos os sentidos,Debalde esgotam, soffregos de gostos,De impudicicia innumeraveis gestos.Morre a chamma, que amor mutuo não sopra;Como é vil a expressão, e é vil o gosoQue umaThereza, que outras taes francezasEm impuros bordeis gabar se uffanam!Foi-me preciso, Alzira, usar do imperioQue a um fraco sexo deleitosos modosFagueiros, ternos emprestar costumam,Para do amante meu obter a custoDe obscenas producções o sacrificio,Que o coração corrompem, e devassamPuros desejos, sentimentos doces.Mostrei-lhe que o prazer esmoreciaDe amavel illusão sem os preludios;E que, apezar dos seus vivos protestos,Se os sentidos assás lisonjeava,Mil emoções gostosas embotando,Impellido a gosar continuamente,Escravo do prazer na sua amanteNão fartaria hydropicos desejos:Ardentes Messallinas buscaria,Entre os braços das quaes mais facil eraÁ vida termo pôr, que saciar-se.Cedeu às minhas supplicas, e agoraGrato me diz — que se elle da venturaO caminho me abriu, eu n'elle o guio:Assim, quando os sentidos fatigadosDe amor se negam a esgotar delicias,Mana do coração inexhaurivelProlifica virtude, que os alenta.Assim de gostos perennaes correntesFranquêa Amor, a quem o não profana:De Amor os gosos são como o diamante,Que, sem o engaste que tocar-lhe véda,Perdera a polidez, perdera o brilho.Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno:Eu em tuas expressões aprendo, Alzira,Como a ternura impera nos sentidos:E d'um, e d'outro regulando as forças,De amorosos tropheos requinta a gloria.O sensual atolla-se nos vicios,Cujo infesto vapor todo o corriaDe lançar-lhe no tumulo o esqueleto;D'outra arte aquelle, que libar suavisaNectar, que Amor esparge aos seus validos,Das rugas, e das cans não teme o estrago;Que nos ultimos annos pode aindaEm seu transporte Amor beijar na face.Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira,Que a rude Olinda como tu descrevaA emmanação dos gostos, que se provamQuando o primeiro amor os desenvolveDa terna virgem no innocente peito?Reclamas a candura, de que usavaAntes de me illustrar de Amor o facho?Ousas mesmo increpar-me de artificio,Porque eu não sube delicada têaUrdir aos olhos teus, porque eu não subeAs effusões de amor envolver n'ella,E, qual me envias, dar-te digna offerta?Basta, tu mandas; vou obedecer-te.Tenho ante os olhos instrucções sobejasPara pintar o quadro dos deleitesQue de dous entes n'um absortos brotam.Tu me dás os pinceis, o molde, as côres;E no meu coração, prezada amiga,Fecunda o goso meigos sentimentos,Que só acabarão, se amor acaba!…Que chimericos ceos fórma a impostura!..Aonde móres delictas se promettemQue as de um amante, d'outro ao lado unido?Eu sonhava illusões, antes que fosseNos mysterios de amor iniciada.Errava de um em outro labyrintho,D'onde os conselhos teus, amada Alzira,E Amor, dando-me o fio de AriadnaMe fizeram sair: deixam-me forçasPara abafar o monstro, que meus diasTinha de funestar com vãos temores,Filhos do erro vil, da fraude abortos.Qual vaguêa nas trevas sem acordoPerdido o tino, afflicto o caminhante,D'alta terra entre as faldas pedregosas,Ou de invia selva na espessura vasta;Aqui tropeça, ali se encontra, e bate,Macera as mãos, o rosto, e tenteandoUm pé lhe escapa, cai, rola-se o triste,E n'um barathro crê despedaçar-se;Eis improvisa luz assoma ao longe;Attenta o infeliz, toma-a por norte,E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo:Taes tuas lettras para mim brilharamNa escuridão fatal, que me envolvia.Não espaçou Amor ditoso prazoPara no gremio seu a tua OlindaBemfazejo accolher. Vira eu BellinoPassar uma, e mil vezes, attentandoCom interesse em mim, attentei n'elle,Em seu terno olhar, e meigos gestos;Vi que um amante o ceo me destinava:Em breve os olhos meus lhe responderamÁs mudas expressões, que os seus diziam:Em breve as suas cartas, de amor cheias,Fizeram dar egual calor ás minhas,Accendendo os meus férvidos transportes.N'uma cerrada noute, quando ao somnoEstava tudo entregue, Amor velandoNo meu peito, e no seu, a vez primeiraNos ajuntou em fim: elle exultavaDe indizivel prazer: eu me sentiaNa agitação maior de gosto, e susto.Ao dar-lhe a mão, para o guiar de mansoTé ao aposento meu, subito fogoCalou-me as vêas, penetrou-me toda.Mas quando, já fechados um com outro,Vi que seus gestos, mais que suas vozes,Sua ternura ousada me exprimiam,Lembrou-me o p'rigo, a que me havia exposto.Tarda lembrança, que cedia a embatesDe ignoto medo, que o rubor gerava!Queria eu impedir-lhe ardentes beijos,Mas vedavam-no as chammas, que accendiam;E ás primeiras caricias insensivel,Luctando entre o pudor, e entre o desejo,Em mil contrarias reflexões absorta,Meu silencio e inacção a empresas novasDe maior valor, Bellino excitaram:Confesso, que devéras quiz oppôr-meA seus intentos no primeiro instante:Porém pouco tardou que abrazeadaEm chammas voluptuosas, resistindoA seus esforços, mais lhe franqueavaFacil accesso a proximos triumphos.Sentado junto a mim, lançando um braçoEm redor do meu collo, até cingir-me.E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto;Com a mão sobre os peitos inquieta,Que ao crebro palpitar os apressava;E os labios discorrendo os olhos, faces,Té fixal-os nos meus, ou por entre ellesConfundindo os alentos, lançar chammasDentro em meu coração, qual facho acceso;A ardente lingua sua unindo á minha,Ou, sobre o seio meu calando a bôca,N'elle impressos deixar seus proprios beiços.Com mão mais temeraria, do vestidoPela abertura a occultos attractivosIndo o fogo atear… Ah! que eu não pudeMais resistencia oppôr a seus desejos!Apenas leve fisga separandoUm dedo seu, que um raio parecia,Tocou o sitio onde os deleites moram,Subito, alvorotados uns com outrosTravando estranha lucta, me levaramOnde, fóra de mim, quasi sem vida,Só quanto então gosei, gosar podia.Dos membros todos foram engolphar-seAs sensações ali; e só tornaramA ser o que eram, quando ao mesmo tempoSua potencia intrinseca exhalando;Fiquei de todo languida, e abatida:O perverso Bellino attentos olhosNos meus então fitando, quiz ler n'ellesDe que ficções minha alma se occupava.Foi extremo o rubor, que de improvisoMinhas faces tingiu: lancei-lhe os braços,Escondendo meu rosto no seu peito,Por não poder suster-lhe as doces vistas.A minha terna acção atraiçoou-me:Que o maligno, pegando-me do rostoCom ambas suas mãos, mais me encarava;De confusa me ver folga, e se ufana,Com beijos mil parece devorar-me;Entre os seus braços mais e mais me aperta,E pouco a pouco sobre mim se inclina:Minha cabeça no sophá encosta,Meus pendentes pés trava, e os submetteEntre os seus mesmos té que, em fim, de todoSenti do corpo seu o pezo grato.Meu leito era defronte: mas BellinoNo largo canapé circ'lo bastanteHabil athleta achou para o combate.Perplexa, em mil affectos engolphada,Irada, enternecida, em cruel lucta,Meus sentimentos todos labutavam:Um timido pudor activos fogosContrariava em vão, em vão retinhaIgnotos medos, soffregos desejos:Suspensa, e curiosa eu esperavaGostosa scena, em que prolixas noutesPensando o que seria, despendêra.Em quanto d'esta sorte embellezadoMe tinham taes idéas, já BellinoNo phrenesi maior de gráu, ou força,Os meus secretos votos preenchia.Em torno da cintura levantadosMeus trajos inferiores, sobre os joelhosSentindo os de Bellino desprendidos,Alargando-me os pés, tomando entre ellesVantajosa attitude a seus projectos,Franqueando co'a mão facil entradaÁ chammejante lança, que tocavaO mesmo sitio, que invadíra o dedo:Forcejou para ferir-me com seus golpes,Com impeto tamanho, com tal raivaQue nem dos gritos meus se commovia,Nem podia o meu pranto apiedal-o;C'o forte impulso as movediças carnesLevava-me ás entranhas; da feridaCorria o sangue, mas sem que podesseAo ferro assolador achar bainha.Seus dedos sanguinarios finalmenteD'uma, e outra parte com vigor sustendoFlexiveis membros, redobrando as forçasDa valente impulsão, a cruel lançaRompeu cruento ingresso… traspassou-me.Que dor, Alzira!… Dei tão alto gritoQue Bellino depois disse o assustára,Bem que fosse de meus páes distante o quarto.Sem sentidos fiquei, em quanto o amanteOs trophéos da victoria recolhia;E só tornei a mim, quando ao meu sangueSuave irrigação veiu mesclar-se,A agitações de gosto a dor cedendo,De gosto inexhaurivel, que provára.N'um momento apertada com Bellino,N'activa sensação toquei com elleA meta das delicias, transportadaDe muito mais prazer do que a dor fôra.N'este instante convulsa, e delirante,E como se um espasmo supportasse,Intirissada toda, os meus alentosSenti reconcentrar-se n'um só ponto.Findava o meu amante, inda eu gosava(Comprimindo-o comigo) altas venturas,De que sedenta então não poderiaFartar-me assás: meus braços exhauridos,Meu collo, e pés, eu toda fatigadaDo vehemente tremor, em que lidára.Caí prostrada, quasi semi-morta.Quando a meus olhos (que caligens densasTinham coberto) a luz tornou de novo,Volvi-os sobre o amante, de tal sorteQue ao vêl-o já supplice o instigava:Não ficava ocioso n'este tempo,Que no exame gastou do entrado forte,Pasmado dos estragos, que fizera,E dos despojos, que lucrava alegre.Da machina, que a praça expugnou firme,A estructura e altivez eu divisando,Custava-me a atinar como podéraPlantar-se o obelisco no reducto estreito.Bellino minhas vistas comprehendendo,Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o,Marmorea rigidez, côr escarlate,Fórma, e calor de obuz, que disparava.Quando submisso, da peleja lasso,O vi depois sem o estendido conto,Brancas roupas trajava, mais humilde:Mas agora, affrontado, arremeçandoMonarcha ufano, a purpura do collo,Com furor ao combate se aprestava.Reverberou seu fogo em minhas faces,E a vêa e vêa d'ellas espalhadoDe todo o corpo me filtrou os membros.Da lascivia ao pudor jungindo o pezo,Fez-me Bellino levantar, e tendoElle sentado unidos os joelhos,Sobre elles me sentou, e franco accessoDa lança abrindo á ponta, a foi de mansoNo riste pondo, té que a meio contoN'elle embebida, sobre si de todoLevando o pezo meu, entrou de modoQue fiquei té ás visceras varada.A introducção tão forte pouco affeitosMeus delicados membros se avexaram:Mas curvando-me um pouco, e com justeza,Achei convir ao estojo o instrumento;Cuja palpitação, sem ajustar-nos,Em cadencia reciproca alliada,Bastava a provocar gosto indizivel,De modo que sem mais fadiga eu pude,Na grata posição Bellino immovel,Attingir o prazer mais saboroso,Nadar em mil deleites engolphada:Aqui, amada Alzira, essa virtudeQue appellidam pudor, foi-me odiosa.De seus grilhões liberta, possuidaDe um venereo furor, impacienteDe comprimir a mim o charo amante,Arranquei-me da lubrica attitude,Sobre elle me arrojei, toda anciosaDe me identificar c'o meu Bellino;Estreitada com elle, abandonadaDe amor á raiva, que ambos incendia,Sobre mim o arrastei junto do leito,Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios,Do corpo os membros todos enlaçadosMisturando nos osculos o alento,Nos osculos libando doce nectar,Em tal agitação, que aos ceos alçar-me,E abater-me aos abysmos parecia;Ávida de absorver a grossa lança,De soffrer-lhe a rijeza diamantina,E de arrostar-lhe os golpes incessantes,Sentindo o instante em que violento impulsoDe celeste effusão marcava o termo,Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo,Tanto me impertiguei, que o meu amanteSustive sobre mim, suspenso, em quantoAos finaes paroxismos succumbindoAo meu uniu seu ultimo gemido,E dentro das entranhas abrazadasLançando-me torrentes d'almo influxo,submersa me deixou n'um mar de gosos.Julgas, Alzira, que entre tanto gostoNa assidua compressão me não doiamAs maceradas meliadrosas carnes?Ah! que esta dor pelo prazer vencidaIrritava emoções deliciosas,Sobre-elavava ás sensações mais gratas.Qual sequioso cervo, repassadoDa calmosa avidez, suaves gotasRabido anhela, e quanto é mais soffridaArdente sêde, tanto mais ensopaUma, e outra vez insaciaveis fauces:Não d'outra sorte flagellados membrosDa dor pungindos de crueis combates,Balsamica emoção consoladoraCom avidez seccavam insoffridos:A elluvião prolifica eu sentia,Pruridos divinaes, e estremecendoÁ melliflua impressão, perennaes gososBastante tempo apoz gosava ainda.N'este instante expirou dentro em minh'almaTemor nefando, que immolava ao culto.Nova moral raiou de Olinda aos olhos;Eu tive em pouco rispidos preceitos,Ameaças crueis, com que ralavamMeus annos infantís. Doeu-me, Alzira,De ver tanta belleza definhadaDa hypocrisia victimas infaustas;Aponta a edade, em que é d'amor forçosoAs delicias gosar; em que almo viçoComo nas plantas, n'ellas assignalam:Grata reproducção comsigo abafam,Envenena-se o germen da natura,Infecção purulenta as vai minando,Que seus dias termina, ou os condemnaA languida existencia: abate o corpo,Abate o esp'rito corruído o alento.Innovámos a acção, eu, e Bellino,E eguaes em forças, sem perder coragem,Nenhum de nós cedeu, bem que durasseAlgumas horas o combate acceso:Mas da noute feliz o longo mantoQue os mysterios de amor commette ás trevas,Com roseos dedos a invejosa AuroraCruel abrindo, faz dentro em meu peitoA escuridão entrar, que em torno tinha.Foi-me odiosa a luz, que affugentavaDe mim com o amor perennes delicias.Uma e outra vez Amor tem facultadoAo constante Bellino, á terna OlindaOutros, como estes, prosperos momentos:São de tormento para mim os diasQue tel-o junto a mim debalde busco:Para elle o tempo que sem ver-me gasta,Figura-lhe de um seculo a distancia.Já Hymenêo houvera de enlaçar-nos,Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuidaSenão em machinar sua ruina,De longo tempo não tivesse urdidoIniquas tramas, horridas ciladas,Que ao homem (digno premio de sua obra)Barreiras põe na estrada da ventura.Retrocede o infeliz d'um a outro lado,Negras voragens abre ante os seus passosTropel de Furias, que comsigo arrasta,Filhas do Erro, que animou insano.A Fortuna que foi comigo larga,Negou seus dons a meu querido amante.Elle não conta nobres ascendentes,De quem meus páes se dizem oriundos:É quanto basta, para erguer muralhasDe alcance, entre elle e mim, inacessiveis:O ditoso hymenêo não me é preciso,O hymenêo, apparato de teus votos,Para entre os braços seus tecer affoutaIndissoluveis nós c'o meu Bellino:Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem.Alzira, tu, que a amor meu peito abriste,Abre meus olhos á Natura inteira:Eu quero n'ella ver os meus destinos;Só n'ella eu quero divinaes verdadesSolicita explorar, viver só n'ella:Cumpre as gratas promessas, que me fazes,Deva a ti só a tua Olinda tudo.Não ha para os christãos um Deus diff'renteDo que os gentios teem, e os musulmanos?O que a razão desnega, não existe:Se existe um Deus, a Natureza o offerece;Tudo o que é contra ella, é offendel-o.Devo eu seguir o culto, que me apontamAs impressões da propria Natureza?Tenho uma religião em pratical-as?Que mundo é este pois, prezada Alzira?Teem os homens levado o seu arrojoTé forjarem um Deus na ousada mente,Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos,Attribuir-lhe leis, que a ferro, e fogoExtranhos povos a adorar constrangem,Immolando milhões á gloria sua?Nos labios teem doçura, e probidade,No coração o fel, a raiva: os monstrosSão máus por condição, ou máus por erro?Não, eu não posso, Alzira, d'este enigmaRomper o denso véo: minhas idéasJazem n'um cahos de horrida incerteza:Hesitar me não deixes por mais tempo:Minha instrucção confio aos teus cuidados;D'amizade o esplendor dá-te a mim toda;Acaba de fazer-me de ti digna.

Tendo o terrivel Bonaparte á vista,Novo Annibal, que esfalfa a voz da Fama,«Oh capados heróes! (aos seus exclamaPurpureo fanfarrão, papal-sacrista):«O progresso estorvai da atroz conquista«Que da philosophia o mal derrama!…»Disse, e em férvido tom saúda, e chama,Sanctos surdos varões por sacra lista:D'elles em vão rogando umpioarrojo,Convulso o corpo, as faces amarellas,Cede triste victoria, que faz nojo!O rapido francez vai-lhe ás canellas;Dá, fere, mata; ficam-lhe em despojoReliquias, bullas, merdas, bagatellas.

Tendo o terrivel Bonaparte á vista,Novo Annibal, que esfalfa a voz da Fama,«Oh capados heróes! (aos seus exclamaPurpureo fanfarrão, papal-sacrista):

«O progresso estorvai da atroz conquista«Que da philosophia o mal derrama!…»Disse, e em férvido tom saúda, e chama,Sanctos surdos varões por sacra lista:

D'elles em vão rogando umpioarrojo,Convulso o corpo, as faces amarellas,Cede triste victoria, que faz nojo!

O rapido francez vai-lhe ás canellas;Dá, fere, mata; ficam-lhe em despojoReliquias, bullas, merdas, bagatellas.

Lá quando em mim perder a humanidadeMais um d'aquelles, que não fazem falta,Verbi-gratia — o theologo, o peralta,Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:Não quero funeral communidade,Que engrolesub-venitesem voz alta;Pingados gatarrões, gente de malta,Eu tambem vos dispenso a charidade:Mas quando ferrugenta enchada idosaSepulchro me cavar em ermo Outeiro,Lavre-me este epitaphio mão piedosa:«Aqui dorme Bocage, o putanheiro:Passou vida folgada, e milagrosa;Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»

Lá quando em mim perder a humanidadeMais um d'aquelles, que não fazem falta,Verbi-gratia — o theologo, o peralta,Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

Não quero funeral communidade,Que engrolesub-venitesem voz alta;Pingados gatarrões, gente de malta,Eu tambem vos dispenso a charidade:

Mas quando ferrugenta enchada idosaSepulchro me cavar em ermo Outeiro,Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

«Aqui dorme Bocage, o putanheiro:Passou vida folgada, e milagrosa;Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»

Esse disforme, e rigido porrazDo semblante me faz perder a côr;E assombrado d'espanto, e de terrorDar mais de cinco passos para traz:A espada do membrudo FerrabrazDe certo não mettia mais horror:Esse membro é capaz até da pôrA amotinada Europa toda em paz:Creio que nas fodaes recreaçõesNão te hão de a rija machina soffrerOs mais corridos, sordidos cações:De Venus não desfructas o prazer:Que esse monstro, que alojas nos calções,É porra de mostrar, não de foder.

Esse disforme, e rigido porrazDo semblante me faz perder a côr;E assombrado d'espanto, e de terrorDar mais de cinco passos para traz:

A espada do membrudo FerrabrazDe certo não mettia mais horror:Esse membro é capaz até da pôrA amotinada Europa toda em paz:

Creio que nas fodaes recreaçõesNão te hão de a rija machina soffrerOs mais corridos, sordidos cações:

De Venus não desfructas o prazer:Que esse monstro, que alojas nos calções,É porra de mostrar, não de foder.

N'um capote embrulhado, ao pé de Armia,Que tinha perto a mãe o chá fazendo,Na linda mão lhe fui (oh ceos!) mettendoO meu caralho, que de amor fervia:Entre o susto, entre o pejo a moça ardia:E eu solapado os beiços remordendo,Pela fisga da saia a mão crescendoA chamada sacana lhe fazia:Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha!«Que tens? — lhe diz a mãe sobresaltada:Não pode ella encobrir na mão langonha:Suffocada ficou, a mãe corada;Finda a partida, e mais do que medonhaÁ noute começou da bofetada.

N'um capote embrulhado, ao pé de Armia,Que tinha perto a mãe o chá fazendo,Na linda mão lhe fui (oh ceos!) mettendoO meu caralho, que de amor fervia:

Entre o susto, entre o pejo a moça ardia:E eu solapado os beiços remordendo,Pela fisga da saia a mão crescendoA chamada sacana lhe fazia:

Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha!«Que tens? — lhe diz a mãe sobresaltada:Não pode ella encobrir na mão langonha:

Suffocada ficou, a mãe corada;Finda a partida, e mais do que medonhaÁ noute começou da bofetada.

No canto de um venal salão de dança,Ao som de uma rebeca desgrudada,Olhos em alvo, a porra arrebitada,Bocage, o folgazão, rostia o França:Este, com mogigangas de creança,Com a mão pelos evos encrespada,Brandia sobre a roxa fronte alçadaDo assanhado porraz, que quer lambança:Veterana se faz a mão bisonha;Tanto a tempo menêa, e súa o bicho,Que em Bocage o tezão vence a vergonha:Quiz vir-se por luxuria, ou por capricho;Mas em vez de acudir-lhe alva langonhaRebenta-lhe do cú merdoso esguicho.

No canto de um venal salão de dança,Ao som de uma rebeca desgrudada,Olhos em alvo, a porra arrebitada,Bocage, o folgazão, rostia o França:

Este, com mogigangas de creança,Com a mão pelos evos encrespada,Brandia sobre a roxa fronte alçadaDo assanhado porraz, que quer lambança:

Veterana se faz a mão bisonha;Tanto a tempo menêa, e súa o bicho,Que em Bocage o tezão vence a vergonha:

Quiz vir-se por luxuria, ou por capricho;Mas em vez de acudir-lhe alva langonhaRebenta-lhe do cú merdoso esguicho.

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;Puta tem sido muita gente boa;Putissimas fidalgas tem Lisboa,Milhões de vezes putas teem reinado:Dido foi puta, e puta d'um soldado;Cleopatra por puta alcança a c'rôa;Tu, Lucrecia, com toda a tua prôa,O teu cono não passa por honrado:Essa da Russia imperatriz famosa,Que inda ha pouco morreu (diz a Gazeta)Entre mil porras expirou vaidosa:Todas no mundo dão a sua greta:Não fiques pois, oh Nise, duvidosaQue isto de Virgo e honra é tudo peta.

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;Puta tem sido muita gente boa;Putissimas fidalgas tem Lisboa,Milhões de vezes putas teem reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;Cleopatra por puta alcança a c'rôa;Tu, Lucrecia, com toda a tua prôa,O teu cono não passa por honrado:

Essa da Russia imperatriz famosa,Que inda ha pouco morreu (diz a Gazeta)Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:Não fiques pois, oh Nise, duvidosaQue isto de Virgo e honra é tudo peta.

(D.)

Tu, oh demente velho descarado,Escandalo do sexo masculino,Que por alta justiça do DestinoTens o impotente membro decepado:Tu, que em torpe furor incendiadoSoffres d'impia paixão ardor maligno,E a consorte gentil, de que és indigno,Entregas a infructifero castrado:Tu, que tendo bebido o menstruo immundo,Esse amor indiscreto te não gastaD'impia mulher o orgulho furibundo:Em castigo do vicio, que te arrasta,Saiba a inclita Lysia, e todo o mundoQue és vil por genio, que és cabrão, e basta!

Tu, oh demente velho descarado,Escandalo do sexo masculino,Que por alta justiça do DestinoTens o impotente membro decepado:

Tu, que em torpe furor incendiadoSoffres d'impia paixão ardor maligno,E a consorte gentil, de que és indigno,Entregas a infructifero castrado:

Tu, que tendo bebido o menstruo immundo,Esse amor indiscreto te não gastaD'impia mulher o orgulho furibundo:

Em castigo do vicio, que te arrasta,Saiba a inclita Lysia, e todo o mundoQue és vil por genio, que és cabrão, e basta!

Vai cagar o mestiço, e não vai só;Convida a algum, que esteja no Gará,E com as longas calças na mão jáPede ao cafre canudo e tambió:Destapa o banco, atira o seu fuscó,Depois que ao liso cú assento dá,Diz ao outro: «Oh amigo, como estáA Rita? O que é feito da Nhonhó?»«Vieste do Palmar? Foste a Pangin?Não me darás noticias da Russu,Que desde o outro dia inda a não vi?»Assim prosegue, e farto já de gu,O branco, e respeitavel camarimDeita fora o cachimbo, e lava o cú.

Vai cagar o mestiço, e não vai só;Convida a algum, que esteja no Gará,E com as longas calças na mão jáPede ao cafre canudo e tambió:

Destapa o banco, atira o seu fuscó,Depois que ao liso cú assento dá,Diz ao outro: «Oh amigo, como estáA Rita? O que é feito da Nhonhó?»

«Vieste do Palmar? Foste a Pangin?Não me darás noticias da Russu,Que desde o outro dia inda a não vi?»

Assim prosegue, e farto já de gu,O branco, e respeitavel camarimDeita fora o cachimbo, e lava o cú.

Arreitada donzella em fofo leitoDeixando erguer a virginal camisa,Sobre as roliças coxas se divisaEntre sombras subtís pachocho estreito:De louro pello um circulo imperfeitoOs papudos beicinhos lhe matiza;E a branda crica, nacarada e liza,Em pingos vérte alvo liquor desfeito:A voraz porra as guelras encrespandoArruma a focinheira, e entre gemidosA moça treme, os olhos requebrando:Como é inda boçal perde os sentidos;Porém vai com tal ancia trabalhando,Que os homens é que vem a ser fodidos.

Arreitada donzella em fofo leitoDeixando erguer a virginal camisa,Sobre as roliças coxas se divisaEntre sombras subtís pachocho estreito:

De louro pello um circulo imperfeitoOs papudos beicinhos lhe matiza;E a branda crica, nacarada e liza,Em pingos vérte alvo liquor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespandoArruma a focinheira, e entre gemidosA moça treme, os olhos requebrando:

Como é inda boçal perde os sentidos;Porém vai com tal ancia trabalhando,Que os homens é que vem a ser fodidos.

Esquentado frisão, brutal masmarroGirava em Santarem na pobre feira;Eis que divisa ao longe em couva ceiraSeus bons irmãos seraphicos de barro:O bruto, que arremeda um boi de carroNa carranca feroz, parte á carreira,Os sagrados bonecos escaqueira,E arranca de ufania um longo escarro:N'alma o sancto furor lhe arqueja, e berra;Mas vós enchei-vos de intimo alvoroço,Povos, que do burel soffreis a guerra:Que dos bonzos de barro o vil destroçoE presagio talvez de irem por terraMembrudos fradalhões de carne e osso!

Esquentado frisão, brutal masmarroGirava em Santarem na pobre feira;Eis que divisa ao longe em couva ceiraSeus bons irmãos seraphicos de barro:

O bruto, que arremeda um boi de carroNa carranca feroz, parte á carreira,Os sagrados bonecos escaqueira,E arranca de ufania um longo escarro:

N'alma o sancto furor lhe arqueja, e berra;Mas vós enchei-vos de intimo alvoroço,Povos, que do burel soffreis a guerra:

Que dos bonzos de barro o vil destroçoE presagio talvez de irem por terraMembrudos fradalhões de carne e osso!

N'esta, cuja memoria esquece á Fama,Feira, que a Santarem vem de anno em anno,Jazia co'uma freira um franciscano;Eram de barro os dous, de barro a cama:Co'a mão, que á virgindade injurias trama,Pretendia o cabrão ferrar-lhe o panno;Eis que um negro barrasco, um Frei TutanoO espectaculo vê, que os rins lhe inflamma:«Irra! Vens-me atiçar, gente damnada!Não basta a felpa dos bureis opacos,Com que a carne rebelde anda ralada?«Fora, vís tentações, fora, velhacos!..»Disse, e ao rispido som de atroz patadaO escandaloso par converte em cacos.

N'esta, cuja memoria esquece á Fama,Feira, que a Santarem vem de anno em anno,Jazia co'uma freira um franciscano;Eram de barro os dous, de barro a cama:

Co'a mão, que á virgindade injurias trama,Pretendia o cabrão ferrar-lhe o panno;Eis que um negro barrasco, um Frei TutanoO espectaculo vê, que os rins lhe inflamma:

«Irra! Vens-me atiçar, gente damnada!Não basta a felpa dos bureis opacos,Com que a carne rebelde anda ralada?

«Fora, vís tentações, fora, velhacos!..»Disse, e ao rispido som de atroz patadaO escandaloso par converte em cacos.

Amar dentro do peito uma donzella;Jurar-lhe pelos ceos a fé mais pura;Falar-lhe, conseguindo alta ventura,Depois da meia noute na janella:Fazel-a vir abaixo, e com cautelaSentir abrir a porta, que murmura;Entrar pé ante pé, e com ternuraApertal-a nos braços casta, e bella:Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,E a bocca, com prazer o mais jucundo,Apalpar-lhe de neve os dous pimpolhos:Vêl-a rendida em fim a Amor fecundo;Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;É este o maior gosto, que ha no mundo.

Amar dentro do peito uma donzella;Jurar-lhe pelos ceos a fé mais pura;Falar-lhe, conseguindo alta ventura,Depois da meia noute na janella:

Fazel-a vir abaixo, e com cautelaSentir abrir a porta, que murmura;Entrar pé ante pé, e com ternuraApertal-a nos braços casta, e bella:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,E a bocca, com prazer o mais jucundo,Apalpar-lhe de neve os dous pimpolhos:

Vêl-a rendida em fim a Amor fecundo;Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;É este o maior gosto, que ha no mundo.

(D.)

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,Bem que duas gamboas lhe lombrigo;Dá leite, sem ser arvore de figo,Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:Verga, e não quebra, como o zambujeiro;Occo, qual sabugueiro tem o embigo;Brando ás vezes, qual vime, está comsigo;Outras vezes mais rijo que um pinheiro:Á roda da raiz produz carqueija;Todo o resto do tronco é calvo, e nú;Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!Paracarvalhoser falta-lhe umu;Adivinhem agora que pau seja,E quem adivinhar metta-o no cú.

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,Bem que duas gamboas lhe lombrigo;Dá leite, sem ser arvore de figo,Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;Occo, qual sabugueiro tem o embigo;Brando ás vezes, qual vime, está comsigo;Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

Á roda da raiz produz carqueija;Todo o resto do tronco é calvo, e nú;Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

Paracarvalhoser falta-lhe umu;Adivinhem agora que pau seja,E quem adivinhar metta-o no cú.

Bojudo fradalhão de larga venta,Abysmo immundo de tabaco esturro,Doutor na asneira, na sciencia burro,Com barba hirsuta, que no peito assenta:No pulpito um domingo se apresenta;Préga nas grades espantoso murro;E acalmado do povo o gran susurroO dique das asneiras arrebenta:Quatro putas mofavam de seus brados,Não querendo que gritasse contra as modasUm peccador dos mais desaforados:«Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:Sempre me ha de lembrar por meus peccadosA noute, em que me déste nove fodas!»

Bojudo fradalhão de larga venta,Abysmo immundo de tabaco esturro,Doutor na asneira, na sciencia burro,Com barba hirsuta, que no peito assenta:

No pulpito um domingo se apresenta;Préga nas grades espantoso murro;E acalmado do povo o gran susurroO dique das asneiras arrebenta:

Quatro putas mofavam de seus brados,Não querendo que gritasse contra as modasUm peccador dos mais desaforados:

«Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:Sempre me ha de lembrar por meus peccadosA noute, em que me déste nove fodas!»


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