POESIAS

POESIASPOESIASPORA. A. SOARES DE PASSOSQUINTA EDIÇÃOPORTOEM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITORCaldeireiros, 18 e 201870TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTORua Ferreira Borges, 31A CAMÕESAi do que a sorte assignalou no berçoInspirado cantor, rei da harmonia!Ai do que Deus ás gerações enviaDizendo: vae, padece, é teu fadario,Como um astro brilhante o mundo o admira,Mas não vê que essa chamma abrazadoraQue o cerca d'esplendor, tambem devoraSeu peito solitario.Pairar nos céos em alteroso adejo,Buscando amor, e vida, e luz, e glorias,E vêr passar quaes sombras illusoriasEssas imagens de fulgor divino:Taes são vossos destinos, ó poetas,Almas de fogo que um vil mundo encerra;Tal foi, grande Camões, tal foi na terraTeu misero destino.A cruz levaste desde o berço á campa:Esgotaste a amargura até ás fezes:Parece que a fortuna em seus revezesTe mediu pelo genio a desventura.Combateste com ella como o cedroQue provoca o rancor da tempestade,Mas cuja inabalavel magestadeLhe resiste segura.Foste grande na dôr como na lyra!Quem soube mais soffrer, quem soffreu tanto?Um anjo viste de celeste encanto,E aos pés cahiste da visão querida...Engano! foi um astro passageiro,Foi uma flôr de perfumado alentoQue ao longe te sorriu, mas que sedentoJámais colheste em vida.Sob a couraça que cingiste ao peitoDo peito ancioso suffocaste a chamma,E foste ao longe procurar a fama,Talvez, quem sabe? procurar a morte.Mas, qual onda que o naufrago arremessaSobre inhospita praia sem guarida,A morte crua te arrojou á vida,E ás injurias da sorte.De praia em praia divagando incertoTuas desditas ensinaste ao mundo:A terra, os homens, té o mar profundoConspirados achavas em teu damno.Ave canora em solidão gemendo,Tiveste o genio por algoz ferino:Teu alento immortal era divino,Perdeste em ser humano:Indicos valles, solidões do Ganges,E tu, ó gruta de Macau, sombria,Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmoniaD'esses hymnos que o tempo não consome.Foi lá, n'essa rocha solitaria,Que o vate desterrado e perseguido,Á patria ingrata, que lhe dera o olvido,Deu eterno renome.«Cantemos!» disse, e triumphou da sorte.«Cantemos!» disse, e recordando glorias,Sobre o mesmo theatro das victorias,Bardo guerreiro, levantou seus hymnos.Os desastres da patria, a sua quédaTemendo já no meditar profundo,Quiz dar-lhe a voz do cysne moribundoEm seus cantos divinos.E que sentidos cantos! d'Ignez tristeSe ouve mais triste o derradeiro alento,Ensinando o que póde o sentimentoQuando um seio que amou d'amores canta;No brado heroico da guerreira tubaO valor portuguez sôa tremendo,E o fero Adamastor com gesto horrendoInda hoje o mundo espanta!Mas ai! a patria não lhe ouvia o canto!Da patria e do cantor findava a sorte:Aos dous juraram perdição e morte,E os dous juntaram na mansão funerea...Ingratos! ao que alçando a voz do genioAlém dos astros nos erguera um solio,Decretaram por louro e capitolioO leito da miseria!Ninguem o pranto lhe enxugou piedoso...Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:«Dae esmola a Camões, dae-lhe um abrigo!»Dizia o triste a mendigar confuso!Homero, Ovidio, Tasso, estranhos cysnes,Vós que sorvestes do infortunio a taça,Vinde depôr as c'rôas da desgraçaAos pés do cysne luso!Mas não tardava o derradeiro instante...O raio ardente que fulmina a rocha,Tambem a flôr que n'ella desabrocha,Cresta, passando, co'as ethereas lavas:Que scena! em quanto ao longe a patria exangueAos alfanges mouriscos dava o peito,De misero hospital n'um pobre leito,Camões, tu expiravas!Oh! quem me dera d'esse leito á beiraSondar teu grande espirito n'essa hora,Por saber, quando a mágoa nos devora,Que dôr póde conter um peito humano;Palpar teu seio, e n'esse estreito espaçoSentir a immensidade do tormento,Combatendo-te n'alma, como o ventoNas ondas do oceano!O amor da patria, a ingratidão dos homens,Natercia, a gloria, as illusões passadas,Entre as sombras da morte debuxadas,Em teu pallido rosto já pendido;E a patria, oh! e a patria que exaltárasN'essas canções d'inspiração profunda,Exhalando comtigo moribundaSeu ultimo gemido!Expirou! como o nauta destemido,Vendo a procella que o navio alaga,E ouvindo em roda no bramir da vagaD'horrenda morte o funeral presagio,Aos entes corre que adorou na vida,Em seguro baixel os põe a nado,E esquecido de si morre abraçadoAos restos do naufragio:Assim, da patria que baixava á tumba,Em cantos immortaes salvando a gloria,E entregando-a dos tempos á memoria,Como em gigante pedestal segura:«Patria querida, morreremos juntos!»Murmurou em accento funerario,E envolvido da patria no sudarioBaixou á sepultura.Quebrando a louza do feral jazigo,Portugal resurgiu, vingando a affronta,E inda hoje ao mundo sua gloria apontaDos cantos de Camões no eterno brado;Mas do vate immortal as frias cinzasEsquecidas deixou na sepultura,E o estrangeiro que passa em vão procuraSeu tumulo ignorado.Nenhuma pedra ou inscripção ligeiraRecorda o gran cantor... porém calemos!Silencio! do immortal não profanemosCom tributos mortaes a alta memoria.Camões, grande Camões, foste poeta!Eu sei que tua sombra nos perdôa:Que valem mausoléus ante a corôaDe tua eterna gloria?O OUTOMNOEis já do livido outomnoPesa o manto nas florestas;Cessaram as brandas festasDa natureza louçã.Tudo aguarda o frio inverno;Já não ha cantos suavesDo montanhez, e das aves,Saudando a luz da manhã.Tudo é triste! os verdes montesVão perdendo os seus matizes,As veigas os dons felizes,Thesoiro dos seus casaes;Dos crestados arvoredosA folha sêcca e myrrhada,Cahe ao sôpro da rajada,Que annuncia os vendavaes.Tudo é triste! e o seio tristeComprime-se a este aspecto;Não sei que pezar secretoNos enluta o coração.É que nos lembra o passadoCheio de viço e frescura,E o presente sem verduraComo a folhagem do chão.Lembra-nos cada esperançaPelo tempo emmurchecida,Mil aureos sonhos da vidaDesfeitos, murchos tambem;Lembram-nos crenças fagueirasDa innocencia d'outra idade,Mortas á luz da verdade,Creadas por nossa mãe.Lembram-nos doces thesoirosQue tivemos, e não temos;Os amigos que perdemos,A alegria que passou;Lembram-nos dias da infancia,Lembram-nos ternos amores,Lembram-nos todas as flôresQue o tempo á vida arrancou.E depois assoma o inverno,Que lembra o gêlo da morte,Das amarguras da sorteUltima gota fatal...É por isso que estes diasDa natureza cadente,Brilham n'alma tristementeComo um cyrio funeral.Mas animo! após a quadraDe nuvens e de tristeza,Despe o luto a natureza,Revive cheia de luz:Após o inverno sombrio,Vem a florea primavera,Que novos encantos gera,Nova alegria produz.Os arvoredos despidosSe revestem de folhagem;Ao sôpro da branda aragemRebenta no campo a flôr;Tudo ao vêl-a se engrinalda,Tudo se cobre de relva,E as avesinhas na selvaLhe cantam hymnos d'amor.Animo pois! como á terra,Tambem á nua existencia,Vem, após a decadencia,Ás vezes tempo feliz;E a vida gelada, esteril,Que o sôpro da morte abala,Desperta cheia de gala,Cheia de novo matiz.Animo pois! e se acasoNosso destino inclemente,Em vez de jardim florente,Nos aponta o mausoléo;Se a primavera do mundoJá morreu, já não se alcança,Tenhamos inda esperançaNa primavera do céo!O NOIVADO DO SEPULCHROBALLADAVae alta a lua! na mansão da morteJá meia noite com vagar soou;Que paz tranquilla! dos vaivens da sorteSó tem descanço quem alli baixou.Que paz tranquilla!... mas eis longe, ao longeFunerea campa com fragor rangeu;Branco phantasma, semelhando um monge,D'entre os sepulchros a cabeça ergueu.Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celesteCampeia a lua com sinistra luz;O vento geme no feral cypreste,O mocho pia na marmorea cruz.Ergueu-se, ergueu-se! com sombrio espantoOlhou em roda... não achou ninguem...Por entre as campas, arrastando o manto,Com lentos passos caminhou além.Chegando perto d'uma cruz alçada,Que entre os cyprestes alvejava ao fim,Parou, sentou-se, e com a voz magoadaOs eccos tristes acordou assim:«Mulher formosa que adorei na vida,«E que na tumba não cessei d'amar,«Porque atraiçôas desleal, mentida,«O amor eterno que te ouvi jurar?«Amor! engano que na campa finda,«Que a morte despe da illusão fallaz:«Quem d'entre os vivos se lembrára ainda«Do pobre morto que na terra jaz?«Abandonado n'este chão repousa«Ha já tres dias, e não vens aqui...«Ai quão pesada me tem sido a lousa«Sobre este peito que bateu por ti!«Ai quão pesada me tem sido!» e em meio,A fronte exhausta lhe pendeu na mão,E entre soluços arrancou do seioFundo suspiro de cruel paixão.«Talvez que rindo dos protestos nossos,«Goses com outro d'infernal prazer;«E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos«Na fria terra, sem vingança ter!--«Oh nunca, nunca!» de saudade infindaResponde um ecco suspirando além...«Oh nunca, nunca!» repetiu aindaFormosa virgem que em seus braços tem.Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas,Longas roupagens de nevada côr;Singela c'rôa de virgineas rosasLhe cerca a fronte d'um mortal pallor.«Não, não perdeste meu amor jurado:«Vês este peito? reina a morte aqui...«É já sem forças, ai de mim, gelado,«Mas inda pulsa com amor por ti.«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo«Da sepultura, succumbindo á dôr:«Deixei a vida... que importava o mundo,«O mundo em trevas sem a luz do amor?«Saudosa ao longe vês no céo a lua?--«Oh vejo, sim... recordação fatal!--«Foi á luz d'ella que jurei ser tua,«Durante a vida, e na mansão final.«Oh vem! se nunca te cingi ao peito,«Hoje o sepulchro nos reune emfim...«Quero o repouso do teu frio leito,«Quero-te unido para sempre a mim!»E ao som dos pios do cantor funereo,E á luz da lua de sinistro alvor,Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterioFoi celebrado, d'infeliz amor.Quando risonho despontava o dia,Já d'esse drama nada havia então,Mais que uma tumba funeral vazia,Quebrada a lousa por ignota mão.Porém mais tarde, quando foi volvidoDas sepulturas o gelado pó,Dous esqueletos, um ao outro unido,Foram achados n'um sepulchro só.DESEJOOh! quem nos teus braços podéra ditosoNo mundo viver,Do mundo esquecido no languido gosoD'infindo prazer.Sentir os teus olhos serenos, em calma,Fallando d'além,D'além! d'uma vida que sonha minha almaQue a terra não tem.Eu dera este mundo, com tudo o que encerra,Por tal galardão:Thesouros, e glorias, os thronos da terra,Que valem, que são?A sêde que eu tenho não morre apagadaCom tal aridez:Podésse eu ganhal-os, e iria seu nadaDepôr a teus pés.E só desejando mais doce victoria,Dizer-te: eis-aquiMeu sceptro e sciencia, thesouros e gloria:Ganhei-os por ti.A vida, essa mesma daria contente,Sem pena, sem dôr,Se um dia embalasses, um dia sómente,Meu sonho d'amor.Isenta do laço que ao mundo nos prende,A vida que val?A vida é só vida se o amor n'ella accendeSeu doce fanal.Aos mundos que eu sonho podésse eu comtigo,Voando, subir;Depois, que importava? depois no jazigoSorrira ao cahir.BOABDILULTIMO REI MOURO DE GRANADADe Granada nas torres já se ergueO pendão de Castella temido;Boabdil, o rei mouro vencido,Deixa a terra em que ha pouco reinou.Do Padul ás alturas chegado,Fez parar o seu timido bando,E o corcel andaluz volteandoTaes adeuses á patria mandou:«Ai Granada, lá ficas entregue«Para sempre aos guerreiros de Christo!«Quem teus fados houvera previsto,«Ó sultana de tanto poder?«Acabou-se o dominio dos crentes«N'este solo tão bello de Hespanha;«Não ha força de heroica façanha«Que nos possa das ruinas erguer.«De Toledo, de Cordova, e Murcia,«De Jaên, de Baêza, e Sevilha,«Eras tu, ó gentil maravilha,«Que inda as glorias fazias lembrar.«E perdemos-te, ó flôr do occidente,«Do Xenil ó princeza formosa!«E curvamos a fronte orgulhosa«Nós, os filhos valentes d'Agar!«Deus o quiz! nossa raça punindo«Fez baixar o seu anjo da morte,«E das iras d'Allah no transporte«Baqueou nossa altiva nação!«Nossos odios civis nos perderam,«N'este abysmo fatal nos lançaram,«E nem mesmo o valor nos deixaram«De morrermos com nosso pendão.«Ó guerreiros das eras passadas,«Vencedores da Hespanha descrida,«Lá n'esse eden feliz da outra vida,«Vossas faces cobri de rubor!«Este braço que ousou vossos louros«Arrastar ante os pés de Fernando,«Não ousou n'este peito nefando«Embeber um punhal vingador!«Deshonrado, do throno banido,«Que me resta por sorte futura?«Uma vida cobarde e obscura«No paiz em que outr'ora fui rei...«Nunca, nunca! o destino contrario«D'além-mar nosso berço me aponta:«Lá irei resgatar-me da affronta,«Lá dos bravos a morte haverei.«Para sempre adeus pois, ó Granada!«Adeus, muros, e torres vermelhas«Que brilhaes como vivas centelhas«Nas verduras de tanto jardim!«Adeus, paços e fontes d'Alhambra!«Adeus, altas, soberbas mesquitas!«E vós, thronos das luas proscriptas,«Ó Comares, ó forte Albaicim!«Para sempre, ai, adeus! té á morte«Viverás n'este peito, ó Granada!«Mas debalde, ó mansão adorada,«Que estes olhos jámais te hão de vêr...«Acabou-se o dominio dos crentes«N'este solo tão bello de Hespanha;«Não ha força de heroica façanha«Que nos possa das ruinas erguer.»Disse, e o pranto nas faces corriaDo rei mouro, dos seus que restavam.Longe ao longe as trombetas soavamEm Granada já feita christã:Era o canto d'alegre triumphoEm redor dos pendões de Fernando;Era o grito d'Allah desterrandoDas Hespanhas os crentes do Islám.CANÇÃOQue noite d'encanto!Que lucido manto!Que noite! amo tantoSeu mudo fulgor!Oh! vem, ó donzella;Não temas, ó bella,Que á noite só velaQuem sonha d'amor.A luz infinitaDos astros, crepita,Arqueja e palpita,Serena a brilhar:Assim o teu seio,De casto receio,De timido enleio,Costuma pulsar.A lua, qual chamma,Que os seios inflamma,Fanal de quem ama,Desponta no céo;E a nitida fronteRetrata na fonte,E estende no monteSeu candido véo.E a fonte murmuraPor entre a verdura,E ao longe d'alturaLá desce a gemer:Que sons, que folguedos!Parece aos rochedosDizer mil segredosD'infindo prazer.Silencio! o trinadoLá solta enlevado,Das noites o amado,Da selva o cantor;E o hymno que entôaNo bosque resôa,E ao longe revôaGemendo d'amor.O facho da luaCo'a sombra fluctua,Avança e recuaNo chão do jardim;Nas azas da aragem,Que agita a folhagem,Recende a bafagemDa rosa e jasmin.Que noite d'encanto!Que lucido manto!Que noite! amo tantoSeu mudo fulgor!Oh! vem, ó donzella;Não temas, ó bella,Que á noite só velaQuem sonha d'amor.Á PATRIAAO MEU AMIGO A. C. LOUSADA(1852)Esta é a ditosa patria minha amada.Camões--Lus.«Esta é a ditosa patria minha amada!»Este o jardim de matizadas flôres,Onde os céos com a terra abençoadaRivalisam nas galas e primores.Este o paiz das tradições brilhantes,Onde cresceu a palma da victoria,Onde o mar conta ás praias sussurrantesLonginquos feitos d'extremada gloria.Esta a nação de laureada frente,Esta a ditosa patria minha amada!Ditosa e grande quando foi potente,Hoje abatida, sem poder, sem nada.Patria minha, que tens, que em desalentoVergas a fronte que alterosa erguias?Porque fitas o gélido moimento,Perdida a força dos antigos dias?Que fizeste do genio destemidoCom que domavas esse mar profundo,E sorrias das vagas ao rugido,Ignotas praias descobrindo ao mundo?Onde está esse vasto capitolioDe tuas glorias, o soberbo oriente,Lá onde erguida em triumphante solioEmpunhavas teu sceptro refulgente?Então eras tu grande! os reis da terraDerramavam-te aos pés os seus thesouros;O mar saudando teus pendões de guerra,Gemia ao pêso de teus verdes louros.Então de lanças e d'heroes cercada,Avassallando a India e a Africa ardente,A cada golpe da valente espadaMais uma palma te adornava a frente.Então prostradas mil hostis phalanges,Retumbava o fragor de teus combatesDesde as praias de Ceuta além do Ganges,Fazendo estremecer o Nilo e Euphrates.Então eras tu grande! hoje esquecida,Um ecco apenas de teu nome sôa;Nos braços da victoria adormecida,Perdeste o sceptro e a magestosa c'rôa.Os fortes pulsos entregaste aos laçosDa tyrannia e rude fanatismo,E descahidos os potentes braços,Caminhaste sem forças ao abysmo.Um livro apenas te ficou, ó triste,Por epitaphio da passada gloria;Tudo o mais acabou, já nada existeDe tanto resplendor, mais que a memoria.Das quinas os pendões já não revoam,Aguias altivas, sujeitando os mares;Teus gritos de victoria, ai! já não soamNa Lybia e nos gangeticos palmares.Nações obscuras quando o mundo inteiroJá tuas glorias aprendido tinha,Vendo apagado teu ardor guerreiro,Arrancaram teu manto de rainha.E repartindo entre ellas seus pedaços,E soltando depois feroz risada,Disseram ao passar, cruzando os braços:«Oh! como essa nação jaz aviltada!»E teus heroes nas tumbas inquietos,Vendo insultadas tuas altas glorias,Agitaram seus frios esqueletos,Despedaçando as lapides marmoreas.E cada qual das pregas do sudario,Erguendo a dextra que empunhára a lança,De pé sobre o jazigo funerario,Com torva indignação bradou: vingança!Debalde! ao vêrem sem valor as quinas,Elles murmuram nas geladas campas:Tu, quem sabe? ditosa te imaginas,E em tua historia mil baldões estampas.Nação que dormes do sepulchro á borda,Ergue-te, surge como outr'ora ovante!Teu genio antigo, teu valor recorda,E aprende n'elle a caminhar ávante!Se longos annos d'oppressão funestaTe pesaram na fronte hoje abatida,No seio de teus filhos inda restaFogo bastante para dar-te vida.Longe da senda que gerou teu damno,Desata o vôo por espaços novos;E o ardor que te levou além do oceano,Além te levará dos outros povos.Ah! possa, possa ainda a meiga auroraD'esse dia feliz brilhar-me pura!Possa esta lyra, que teus males chora,Dar-te cantos de gloria e de ventura!Mas ah! se negra pagina sombriaTens de volver em teus crueis fadarios,Se o archanjo das ruinas ha de um diaPairar sobre os teus restos solitarios:Terra da minha patria, ouve o meu brado,Se inda da vida me restar o alento,Tu que foste meu berço idolatrado,Sê minha tumba em teu final momento!ROSA BRANCAEu amo a rosa branca das campinas,A branca rosa que ao soprar do ventoLanguida verga para o chão pendida.Como a rosa dos valles, pura e bellaNos campos da existencia ella floria,Como a rosa dos valles que inda envoltaNo orvalho da manhã, desdobra o calixAo sol nascente, perfumando as auras.A idade das paixões mal despontavaEm seu meigo horisonte. Estava aindaNo declinar da melindrosa infancia,D'essa quadra feliz em que a existenciaÉ sonho encantador, em que os momentosSe deslizam na vida como as aguasDe brando arroio, humedecendo os prados.Mas quão formosas já, quão seductoras,Por entre as graças da mimosa infancia,As graças juvenis lhe transluziam!Com as socias da infancia ao vêl-a ás tardesVagando em seu jardim, vós a dissereisA açucena viçosa entre as boninas,Ou, entre os lumes da siderea noite,A estrella da manhã. E, todavia,Ignorava o poder de seus encantos:No mundo que a cercava, outras imagens,Outros amores não sonhava ainda,Além de sua mãe que a idolatrava,De seu pequeno irmão, de suas flôres.E eu amava aquelle anjo como se amamOs sonhos d'innocencia d'outra idade,Ou como essas visões, que nos enlevam,De mundos d'harmonia a que aspiramos.Vi-a uma vez, ao descahir da tarde,No jardim assentada ao pé da fonte,Olhando o tenro irmão, que em seu regaçoDepozera as boninas que ajuntára.No regaço tambem, junto das flôres,Repousava, serena dormitando,A pomba que ella amava, e que sem medoViera procurar tão doce ninho.Nunca a meus olhos se mostrou tão bella,Tão cheia d'innocencia. D'alvas roupasSuas fórmas angelicas cingidas,Se desenhavam, em gentil contorno,Nas verdes murtas que o jardim ornavam:Parecia qual cysne repousandoEntre a verdura, de seu lago á beira.Uma rosa nevada, como as roupas,Lhe adornava as madeixas côr da noite,As formosas madeixas que n'essa horaContrastavam mais negras, e mais bellas,Co'a leve pallidez que reflectia,Em seu rosto adoravel e sereno,O clarão melancolico da tarde.Com terna languidez a face meigaRecostava na mão, curvado o braço,Em quanto com a outra ora afagavaSua pomba querida, ora os cabellosCompunha ao doce infante, que, sorrindo,Uma após outra lhe mostrava as flôres.Ao vêl-a assim formosa, ao vêr o grupoQue fazia com ella o par mimoso,A mente arrebatada afigurou-m'aCeleste archanjo que baixára ao mundoA recolher as orações da tarde,E que o infante e a pomba achando juntos,E a innocencia do céo vendo na terra,Dos irmãos se esquecêra e alli ficára.Archanjo d'innocencia, ai foge, foge!Não te illuda este mundo onde poisaste,Este mundo fallaz, de ti indigno,Que tuas azas de brancura estremeCom seu veneno talvez manche um dia.Archanjo d'innocencia, ai foge! foge!Procura teus irmãos, revôa á patria!E fugiu, e voou. No mesmo sitio,Uma tarde tambem junto da fonte,A mãe a foi achar sósinha e triste.A suas plantas uma rosa brancaJazia desfolhada: era das flôresA flôr que mais queria. Ao vêr ao ladoA mãe que idolatrava, estremecêra.Pobre innocente! receiou acasoNão poder por mais tempo disfarçar-lheSeu cruel padecer. A ardente febreLhe devorava o seio, e não gemia.Mas seu dia chegava... A exhausta fronteLhe pendeu sem alento, e immersa em pranto,No regaço da mãe sumiu a face,Que já cobria a pallidez da morte.Tres dias depois d'este a flôr mimosaQue as grinaldas celestes invejavam,Cahia desfolhada no sepulchro.Eu amo a rosa branca das campinas,A branca rosa que ao soprar do ventoLanguida verga para o chão pendida.ENFADODos homens ai quem me deraLonge, bem longe viver!Junto de mim só quizera,Como eu sonho, um anjo ter.Que esse anjo surgisse agora,E o mundo folgasse emboraEm seu nefando prazer.Que vista! cede a innocenciaÁ voz do crime traidor;Folga a devassa impudencia,Nas faces não ha rubor.Traz o vicio a fronte erguida,E a virtude, sem guarida,Geme transida de dôr.Vão ao templo da cubiça,Vão todos sacrificar:Consciencia, fé, justiça,Tudo lhe deixam no altar.Devora-os a sêde d'ouro;O seu deus é um thesouro,Porque o viver é gosar.E que importa que o infanteMorra á fome, e o ancião?Que importa que gema erranteO proletario, sem pão?Oh! que importa que o talentoEsmoreça ao desalento?Que val do genio o condão?Proclamou-se a lei do forte:A lei do fraco é gemer.Ai do triste a quem a sorteFez entre espinhos nascer!É um dogma a tyrannia,A liberdade heresia,A servidão um dever.Que tempos, que tempos estes!Quem ha de viver assimN'um mundo que rasga as vestesDo justo, no seu festim?Quem ha de? mas esperança!Um dia foge, outro avança,E a redempção vem no fim.Hoje, porém, quem me deraLonge dos homens viver!Junto de mim só quizera,Como eu sonho, um anjo ter.Que esse anjo surgisse agora,E o mundo folgasse emboraEm seu nefando prazer.ANHELOSQue immenso vacuo n'este peito sinto!Que arfar eterno de revolto mar!Que ardente fogo, que jámais extinctoSómente afrouxa para mais queimar!Ai! esta sêde que meu peito rala,Talvez a apague mundanal prazer:Alli ao menos poderei fartal-a,Ou n'um lethargo sem paixões viver.Mas d'essa taça já provei... não quero!Quero deleites que inda não senti...A lucta, os riscos d'um combate fero!Talvez encantos acharei alli.A lucta, os riscos, em acção travadasGuerreiras hostes disputando o chão;O sangue em jorros, o tinir d'espadas,O fumo e o fogo do voraz canhão!Alli os gôsos d'um feroz delirio,Á luz das armas, sentirei em mim,Ou n'uma d'ellas o funereo cyrioQue á paz dos mortos me conduza emfim.Mas não, não quero sobre a terra escravaA vis tyrannos immolar o irmão...O mar, o mar, que em sua furia bravaNinguem domina com servil grilhão!O mar, o mar! sobre escarcéos revoltosEm fragil lenho fluctuar me apraz,Ao som das vagas e dos ventos soltos,E das centelhas ao clarão fugaz.Alli sorrindo da feroz tormenta,E dos abysmos que me abrir aos pés,Dentro d'esta alma de prazer sedentaSublime gôso sentirei talvez.Mas o mar livre tem um leito aindaQue os meus anhelos poderá soster...O espaço, o espaço! na amplidão infindaTalvez que possa o coração encher.O espaço, o espaço! qual ligeiro ventoIrei lançar-me n'esse mar sem fim,E a longos tragos aspirar o alento,Sentir a vida que desejo em mim...Ora aguia altiva, desprezando o solo,O rei dos astros buscarei então,Ora entre as neves do gelado poloVoarei nas azas do veloz tufão.Mas solitario, sem cessar errante,De que valêra na amplidão correr?...A gloria, a gloria, que em painel brilhanteMe off'rece a imagem d'um maior prazer!A gloria, a gloria! mil trophéos ganhados,Mil verdes palmas e laureis tambem;Triumphos, c'rôas e sonoros bradosDa turba--é elle!--repetindo além...Então em sonhos d'uma vida infindaVerei a chamma d'immortal pharol,Que em meu sepulchro resplandeça ainda,Bem como a lua quando é morto o sol.Mas não, que a inveja com a voz mentidaA luz em sombras poderá tornar...O amor, o amor, que redobrando a vida,A vida n'outrem me fará gosar!O amor, o amor, celestial perfumeQue a mão dos anjos sobre nós verteu,Doce mysterio que n'um só resumeDous pensamentos aspirando ao céo!O amor, o amor, não mentiroso incensoQue em frios labios só no mundo achei,Mas immutavel, mas sublime e immensoQual em meus sonhos juvenis sonhei...O amor! só elle poderá n'esta almaRisonhas crenças outra vez gerar,De minha sêde mitigar a calma,E inda fazer-me reviver, e amar.O FILHO MORTONo povo d'além da serraVai a noite em mais de meio,E a pobre da mãe velavaUnindo o filhinho ao seio.«Acorda, meu filho, acorda,«Que esse dormir não é teu;«É como o somno da morte«O somno que a ti desceu.«Tarda-me já um sorriso«Nos teus labios de rubim;«Acorda, meu filho, acorda,«Sorri-te ledo p'ra mim.»Mas o infante moribundoEm seu regaço expirou;E a mãe o cobriu de beijos,E largo tempo chorou.

POESIASPORA. A. SOARES DE PASSOSQUINTA EDIÇÃOPORTOEM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITORCaldeireiros, 18 e 201870

Ai do que a sorte assignalou no berçoInspirado cantor, rei da harmonia!Ai do que Deus ás gerações enviaDizendo: vae, padece, é teu fadario,Como um astro brilhante o mundo o admira,Mas não vê que essa chamma abrazadoraQue o cerca d'esplendor, tambem devora

Seu peito solitario.

Pairar nos céos em alteroso adejo,Buscando amor, e vida, e luz, e glorias,E vêr passar quaes sombras illusoriasEssas imagens de fulgor divino:Taes são vossos destinos, ó poetas,Almas de fogo que um vil mundo encerra;Tal foi, grande Camões, tal foi na terra

Teu misero destino.

A cruz levaste desde o berço á campa:Esgotaste a amargura até ás fezes:Parece que a fortuna em seus revezesTe mediu pelo genio a desventura.Combateste com ella como o cedroQue provoca o rancor da tempestade,Mas cuja inabalavel magestade

Lhe resiste segura.

Foste grande na dôr como na lyra!Quem soube mais soffrer, quem soffreu tanto?Um anjo viste de celeste encanto,E aos pés cahiste da visão querida...Engano! foi um astro passageiro,Foi uma flôr de perfumado alentoQue ao longe te sorriu, mas que sedento

Jámais colheste em vida.

Sob a couraça que cingiste ao peitoDo peito ancioso suffocaste a chamma,E foste ao longe procurar a fama,Talvez, quem sabe? procurar a morte.Mas, qual onda que o naufrago arremessaSobre inhospita praia sem guarida,A morte crua te arrojou á vida,

E ás injurias da sorte.

De praia em praia divagando incertoTuas desditas ensinaste ao mundo:A terra, os homens, té o mar profundoConspirados achavas em teu damno.Ave canora em solidão gemendo,Tiveste o genio por algoz ferino:Teu alento immortal era divino,

Perdeste em ser humano:

Indicos valles, solidões do Ganges,E tu, ó gruta de Macau, sombria,Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmoniaD'esses hymnos que o tempo não consome.Foi lá, n'essa rocha solitaria,Que o vate desterrado e perseguido,Á patria ingrata, que lhe dera o olvido,

Deu eterno renome.

«Cantemos!» disse, e triumphou da sorte.«Cantemos!» disse, e recordando glorias,Sobre o mesmo theatro das victorias,Bardo guerreiro, levantou seus hymnos.Os desastres da patria, a sua quédaTemendo já no meditar profundo,Quiz dar-lhe a voz do cysne moribundo

Em seus cantos divinos.

E que sentidos cantos! d'Ignez tristeSe ouve mais triste o derradeiro alento,Ensinando o que póde o sentimentoQuando um seio que amou d'amores canta;No brado heroico da guerreira tubaO valor portuguez sôa tremendo,E o fero Adamastor com gesto horrendo

Inda hoje o mundo espanta!

Mas ai! a patria não lhe ouvia o canto!Da patria e do cantor findava a sorte:Aos dous juraram perdição e morte,E os dous juntaram na mansão funerea...Ingratos! ao que alçando a voz do genioAlém dos astros nos erguera um solio,Decretaram por louro e capitolio

O leito da miseria!

Ninguem o pranto lhe enxugou piedoso...Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:«Dae esmola a Camões, dae-lhe um abrigo!»Dizia o triste a mendigar confuso!Homero, Ovidio, Tasso, estranhos cysnes,Vós que sorvestes do infortunio a taça,Vinde depôr as c'rôas da desgraça

Aos pés do cysne luso!

Mas não tardava o derradeiro instante...O raio ardente que fulmina a rocha,Tambem a flôr que n'ella desabrocha,Cresta, passando, co'as ethereas lavas:Que scena! em quanto ao longe a patria exangueAos alfanges mouriscos dava o peito,De misero hospital n'um pobre leito,

Camões, tu expiravas!

Oh! quem me dera d'esse leito á beiraSondar teu grande espirito n'essa hora,Por saber, quando a mágoa nos devora,Que dôr póde conter um peito humano;Palpar teu seio, e n'esse estreito espaçoSentir a immensidade do tormento,Combatendo-te n'alma, como o vento

Nas ondas do oceano!

O amor da patria, a ingratidão dos homens,Natercia, a gloria, as illusões passadas,Entre as sombras da morte debuxadas,Em teu pallido rosto já pendido;E a patria, oh! e a patria que exaltárasN'essas canções d'inspiração profunda,Exhalando comtigo moribunda

Seu ultimo gemido!

Expirou! como o nauta destemido,Vendo a procella que o navio alaga,E ouvindo em roda no bramir da vagaD'horrenda morte o funeral presagio,Aos entes corre que adorou na vida,Em seguro baixel os põe a nado,E esquecido de si morre abraçado

Aos restos do naufragio:

Assim, da patria que baixava á tumba,Em cantos immortaes salvando a gloria,E entregando-a dos tempos á memoria,Como em gigante pedestal segura:«Patria querida, morreremos juntos!»Murmurou em accento funerario,E envolvido da patria no sudario

Baixou á sepultura.

Quebrando a louza do feral jazigo,Portugal resurgiu, vingando a affronta,E inda hoje ao mundo sua gloria apontaDos cantos de Camões no eterno brado;Mas do vate immortal as frias cinzasEsquecidas deixou na sepultura,E o estrangeiro que passa em vão procura

Seu tumulo ignorado.

Nenhuma pedra ou inscripção ligeiraRecorda o gran cantor... porém calemos!Silencio! do immortal não profanemosCom tributos mortaes a alta memoria.Camões, grande Camões, foste poeta!Eu sei que tua sombra nos perdôa:Que valem mausoléus ante a corôa

De tua eterna gloria?

Eis já do livido outomnoPesa o manto nas florestas;Cessaram as brandas festasDa natureza louçã.Tudo aguarda o frio inverno;Já não ha cantos suavesDo montanhez, e das aves,Saudando a luz da manhã.Tudo é triste! os verdes montesVão perdendo os seus matizes,As veigas os dons felizes,Thesoiro dos seus casaes;Dos crestados arvoredosA folha sêcca e myrrhada,Cahe ao sôpro da rajada,Que annuncia os vendavaes.

Tudo é triste! e o seio tristeComprime-se a este aspecto;Não sei que pezar secretoNos enluta o coração.É que nos lembra o passadoCheio de viço e frescura,E o presente sem verduraComo a folhagem do chão.Lembra-nos cada esperançaPelo tempo emmurchecida,Mil aureos sonhos da vidaDesfeitos, murchos tambem;Lembram-nos crenças fagueirasDa innocencia d'outra idade,Mortas á luz da verdade,Creadas por nossa mãe.Lembram-nos doces thesoirosQue tivemos, e não temos;Os amigos que perdemos,A alegria que passou;Lembram-nos dias da infancia,Lembram-nos ternos amores,Lembram-nos todas as flôresQue o tempo á vida arrancou.

E depois assoma o inverno,Que lembra o gêlo da morte,Das amarguras da sorteUltima gota fatal...É por isso que estes diasDa natureza cadente,Brilham n'alma tristementeComo um cyrio funeral.Mas animo! após a quadraDe nuvens e de tristeza,Despe o luto a natureza,Revive cheia de luz:Após o inverno sombrio,Vem a florea primavera,Que novos encantos gera,Nova alegria produz.Os arvoredos despidosSe revestem de folhagem;Ao sôpro da branda aragemRebenta no campo a flôr;Tudo ao vêl-a se engrinalda,Tudo se cobre de relva,E as avesinhas na selvaLhe cantam hymnos d'amor.

Animo pois! como á terra,Tambem á nua existencia,Vem, após a decadencia,Ás vezes tempo feliz;E a vida gelada, esteril,Que o sôpro da morte abala,Desperta cheia de gala,Cheia de novo matiz.Animo pois! e se acasoNosso destino inclemente,Em vez de jardim florente,Nos aponta o mausoléo;Se a primavera do mundoJá morreu, já não se alcança,Tenhamos inda esperançaNa primavera do céo!

Vae alta a lua! na mansão da morteJá meia noite com vagar soou;Que paz tranquilla! dos vaivens da sorteSó tem descanço quem alli baixou.Que paz tranquilla!... mas eis longe, ao longeFunerea campa com fragor rangeu;Branco phantasma, semelhando um monge,D'entre os sepulchros a cabeça ergueu.Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celesteCampeia a lua com sinistra luz;O vento geme no feral cypreste,O mocho pia na marmorea cruz.Ergueu-se, ergueu-se! com sombrio espantoOlhou em roda... não achou ninguem...Por entre as campas, arrastando o manto,Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto d'uma cruz alçada,Que entre os cyprestes alvejava ao fim,Parou, sentou-se, e com a voz magoadaOs eccos tristes acordou assim:«Mulher formosa que adorei na vida,«E que na tumba não cessei d'amar,«Porque atraiçôas desleal, mentida,«O amor eterno que te ouvi jurar?«Amor! engano que na campa finda,«Que a morte despe da illusão fallaz:«Quem d'entre os vivos se lembrára ainda«Do pobre morto que na terra jaz?«Abandonado n'este chão repousa«Ha já tres dias, e não vens aqui...«Ai quão pesada me tem sido a lousa«Sobre este peito que bateu por ti!«Ai quão pesada me tem sido!» e em meio,A fronte exhausta lhe pendeu na mão,E entre soluços arrancou do seioFundo suspiro de cruel paixão.«Talvez que rindo dos protestos nossos,«Goses com outro d'infernal prazer;«E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos«Na fria terra, sem vingança ter!

--«Oh nunca, nunca!» de saudade infindaResponde um ecco suspirando além...«Oh nunca, nunca!» repetiu aindaFormosa virgem que em seus braços tem.Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas,Longas roupagens de nevada côr;Singela c'rôa de virgineas rosasLhe cerca a fronte d'um mortal pallor.«Não, não perdeste meu amor jurado:«Vês este peito? reina a morte aqui...«É já sem forças, ai de mim, gelado,«Mas inda pulsa com amor por ti.«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo«Da sepultura, succumbindo á dôr:«Deixei a vida... que importava o mundo,«O mundo em trevas sem a luz do amor?«Saudosa ao longe vês no céo a lua?--«Oh vejo, sim... recordação fatal!--«Foi á luz d'ella que jurei ser tua,«Durante a vida, e na mansão final.«Oh vem! se nunca te cingi ao peito,«Hoje o sepulchro nos reune emfim...«Quero o repouso do teu frio leito,«Quero-te unido para sempre a mim!»

E ao som dos pios do cantor funereo,E á luz da lua de sinistro alvor,Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterioFoi celebrado, d'infeliz amor.Quando risonho despontava o dia,Já d'esse drama nada havia então,Mais que uma tumba funeral vazia,Quebrada a lousa por ignota mão.Porém mais tarde, quando foi volvidoDas sepulturas o gelado pó,Dous esqueletos, um ao outro unido,Foram achados n'um sepulchro só.

Oh! quem nos teus braços podéra ditoso

No mundo viver,

Do mundo esquecido no languido goso

D'infindo prazer.

Sentir os teus olhos serenos, em calma,

Fallando d'além,

D'além! d'uma vida que sonha minha alma

Que a terra não tem.

Eu dera este mundo, com tudo o que encerra,

Por tal galardão:

Thesouros, e glorias, os thronos da terra,

Que valem, que são?

A sêde que eu tenho não morre apagada

Com tal aridez:

Podésse eu ganhal-os, e iria seu nada

Depôr a teus pés.

E só desejando mais doce victoria,

Dizer-te: eis-aqui

Meu sceptro e sciencia, thesouros e gloria:

Ganhei-os por ti.

A vida, essa mesma daria contente,

Sem pena, sem dôr,

Se um dia embalasses, um dia sómente,

Meu sonho d'amor.

Isenta do laço que ao mundo nos prende,

A vida que val?

A vida é só vida se o amor n'ella accende

Seu doce fanal.

Aos mundos que eu sonho podésse eu comtigo,

Voando, subir;

Depois, que importava? depois no jazigo

Sorrira ao cahir.

De Granada nas torres já se ergueO pendão de Castella temido;Boabdil, o rei mouro vencido,Deixa a terra em que ha pouco reinou.Do Padul ás alturas chegado,Fez parar o seu timido bando,E o corcel andaluz volteandoTaes adeuses á patria mandou:«Ai Granada, lá ficas entregue«Para sempre aos guerreiros de Christo!«Quem teus fados houvera previsto,«Ó sultana de tanto poder?«Acabou-se o dominio dos crentes«N'este solo tão bello de Hespanha;«Não ha força de heroica façanha«Que nos possa das ruinas erguer.

«De Toledo, de Cordova, e Murcia,«De Jaên, de Baêza, e Sevilha,«Eras tu, ó gentil maravilha,«Que inda as glorias fazias lembrar.«E perdemos-te, ó flôr do occidente,«Do Xenil ó princeza formosa!«E curvamos a fronte orgulhosa«Nós, os filhos valentes d'Agar!«Deus o quiz! nossa raça punindo«Fez baixar o seu anjo da morte,«E das iras d'Allah no transporte«Baqueou nossa altiva nação!«Nossos odios civis nos perderam,«N'este abysmo fatal nos lançaram,«E nem mesmo o valor nos deixaram«De morrermos com nosso pendão.«Ó guerreiros das eras passadas,«Vencedores da Hespanha descrida,«Lá n'esse eden feliz da outra vida,«Vossas faces cobri de rubor!«Este braço que ousou vossos louros«Arrastar ante os pés de Fernando,«Não ousou n'este peito nefando«Embeber um punhal vingador!

«Deshonrado, do throno banido,«Que me resta por sorte futura?«Uma vida cobarde e obscura«No paiz em que outr'ora fui rei...«Nunca, nunca! o destino contrario«D'além-mar nosso berço me aponta:«Lá irei resgatar-me da affronta,«Lá dos bravos a morte haverei.«Para sempre adeus pois, ó Granada!«Adeus, muros, e torres vermelhas«Que brilhaes como vivas centelhas«Nas verduras de tanto jardim!«Adeus, paços e fontes d'Alhambra!«Adeus, altas, soberbas mesquitas!«E vós, thronos das luas proscriptas,«Ó Comares, ó forte Albaicim!«Para sempre, ai, adeus! té á morte«Viverás n'este peito, ó Granada!«Mas debalde, ó mansão adorada,«Que estes olhos jámais te hão de vêr...«Acabou-se o dominio dos crentes«N'este solo tão bello de Hespanha;«Não ha força de heroica façanha«Que nos possa das ruinas erguer.»

Disse, e o pranto nas faces corriaDo rei mouro, dos seus que restavam.Longe ao longe as trombetas soavamEm Granada já feita christã:Era o canto d'alegre triumphoEm redor dos pendões de Fernando;Era o grito d'Allah desterrandoDas Hespanhas os crentes do Islám.

Que noite d'encanto!Que lucido manto!Que noite! amo tantoSeu mudo fulgor!Oh! vem, ó donzella;Não temas, ó bella,Que á noite só velaQuem sonha d'amor.A luz infinitaDos astros, crepita,Arqueja e palpita,Serena a brilhar:Assim o teu seio,De casto receio,De timido enleio,Costuma pulsar.

A lua, qual chamma,Que os seios inflamma,Fanal de quem ama,Desponta no céo;E a nitida fronteRetrata na fonte,E estende no monteSeu candido véo.E a fonte murmuraPor entre a verdura,E ao longe d'alturaLá desce a gemer:Que sons, que folguedos!Parece aos rochedosDizer mil segredosD'infindo prazer.Silencio! o trinadoLá solta enlevado,Das noites o amado,Da selva o cantor;E o hymno que entôaNo bosque resôa,E ao longe revôaGemendo d'amor.

O facho da luaCo'a sombra fluctua,Avança e recuaNo chão do jardim;Nas azas da aragem,Que agita a folhagem,Recende a bafagemDa rosa e jasmin.Que noite d'encanto!Que lucido manto!Que noite! amo tantoSeu mudo fulgor!Oh! vem, ó donzella;Não temas, ó bella,Que á noite só velaQuem sonha d'amor.

Esta é a ditosa patria minha amada.Camões--Lus.

«Esta é a ditosa patria minha amada!»Este o jardim de matizadas flôres,Onde os céos com a terra abençoadaRivalisam nas galas e primores.Este o paiz das tradições brilhantes,Onde cresceu a palma da victoria,Onde o mar conta ás praias sussurrantesLonginquos feitos d'extremada gloria.Esta a nação de laureada frente,Esta a ditosa patria minha amada!Ditosa e grande quando foi potente,Hoje abatida, sem poder, sem nada.

Patria minha, que tens, que em desalentoVergas a fronte que alterosa erguias?Porque fitas o gélido moimento,Perdida a força dos antigos dias?Que fizeste do genio destemidoCom que domavas esse mar profundo,E sorrias das vagas ao rugido,Ignotas praias descobrindo ao mundo?Onde está esse vasto capitolioDe tuas glorias, o soberbo oriente,Lá onde erguida em triumphante solioEmpunhavas teu sceptro refulgente?Então eras tu grande! os reis da terraDerramavam-te aos pés os seus thesouros;O mar saudando teus pendões de guerra,Gemia ao pêso de teus verdes louros.Então de lanças e d'heroes cercada,Avassallando a India e a Africa ardente,A cada golpe da valente espadaMais uma palma te adornava a frente.Então prostradas mil hostis phalanges,Retumbava o fragor de teus combatesDesde as praias de Ceuta além do Ganges,Fazendo estremecer o Nilo e Euphrates.

Então eras tu grande! hoje esquecida,Um ecco apenas de teu nome sôa;Nos braços da victoria adormecida,Perdeste o sceptro e a magestosa c'rôa.Os fortes pulsos entregaste aos laçosDa tyrannia e rude fanatismo,E descahidos os potentes braços,Caminhaste sem forças ao abysmo.Um livro apenas te ficou, ó triste,Por epitaphio da passada gloria;Tudo o mais acabou, já nada existeDe tanto resplendor, mais que a memoria.Das quinas os pendões já não revoam,Aguias altivas, sujeitando os mares;Teus gritos de victoria, ai! já não soamNa Lybia e nos gangeticos palmares.Nações obscuras quando o mundo inteiroJá tuas glorias aprendido tinha,Vendo apagado teu ardor guerreiro,Arrancaram teu manto de rainha.E repartindo entre ellas seus pedaços,E soltando depois feroz risada,Disseram ao passar, cruzando os braços:«Oh! como essa nação jaz aviltada!»

E teus heroes nas tumbas inquietos,Vendo insultadas tuas altas glorias,Agitaram seus frios esqueletos,Despedaçando as lapides marmoreas.E cada qual das pregas do sudario,Erguendo a dextra que empunhára a lança,De pé sobre o jazigo funerario,Com torva indignação bradou: vingança!Debalde! ao vêrem sem valor as quinas,Elles murmuram nas geladas campas:Tu, quem sabe? ditosa te imaginas,E em tua historia mil baldões estampas.Nação que dormes do sepulchro á borda,Ergue-te, surge como outr'ora ovante!Teu genio antigo, teu valor recorda,E aprende n'elle a caminhar ávante!Se longos annos d'oppressão funestaTe pesaram na fronte hoje abatida,No seio de teus filhos inda restaFogo bastante para dar-te vida.Longe da senda que gerou teu damno,Desata o vôo por espaços novos;E o ardor que te levou além do oceano,Além te levará dos outros povos.

Ah! possa, possa ainda a meiga auroraD'esse dia feliz brilhar-me pura!Possa esta lyra, que teus males chora,Dar-te cantos de gloria e de ventura!Mas ah! se negra pagina sombriaTens de volver em teus crueis fadarios,Se o archanjo das ruinas ha de um diaPairar sobre os teus restos solitarios:Terra da minha patria, ouve o meu brado,Se inda da vida me restar o alento,Tu que foste meu berço idolatrado,Sê minha tumba em teu final momento!

Eu amo a rosa branca das campinas,A branca rosa que ao soprar do ventoLanguida verga para o chão pendida.Como a rosa dos valles, pura e bellaNos campos da existencia ella floria,Como a rosa dos valles que inda envoltaNo orvalho da manhã, desdobra o calixAo sol nascente, perfumando as auras.A idade das paixões mal despontavaEm seu meigo horisonte. Estava aindaNo declinar da melindrosa infancia,D'essa quadra feliz em que a existenciaÉ sonho encantador, em que os momentosSe deslizam na vida como as aguasDe brando arroio, humedecendo os prados.Mas quão formosas já, quão seductoras,Por entre as graças da mimosa infancia,As graças juvenis lhe transluziam!

Com as socias da infancia ao vêl-a ás tardesVagando em seu jardim, vós a dissereisA açucena viçosa entre as boninas,Ou, entre os lumes da siderea noite,A estrella da manhã. E, todavia,Ignorava o poder de seus encantos:No mundo que a cercava, outras imagens,Outros amores não sonhava ainda,Além de sua mãe que a idolatrava,De seu pequeno irmão, de suas flôres.E eu amava aquelle anjo como se amamOs sonhos d'innocencia d'outra idade,Ou como essas visões, que nos enlevam,De mundos d'harmonia a que aspiramos.Vi-a uma vez, ao descahir da tarde,No jardim assentada ao pé da fonte,Olhando o tenro irmão, que em seu regaçoDepozera as boninas que ajuntára.No regaço tambem, junto das flôres,Repousava, serena dormitando,A pomba que ella amava, e que sem medoViera procurar tão doce ninho.Nunca a meus olhos se mostrou tão bella,Tão cheia d'innocencia. D'alvas roupasSuas fórmas angelicas cingidas,Se desenhavam, em gentil contorno,Nas verdes murtas que o jardim ornavam:

Parecia qual cysne repousandoEntre a verdura, de seu lago á beira.Uma rosa nevada, como as roupas,Lhe adornava as madeixas côr da noite,As formosas madeixas que n'essa horaContrastavam mais negras, e mais bellas,Co'a leve pallidez que reflectia,Em seu rosto adoravel e sereno,O clarão melancolico da tarde.Com terna languidez a face meigaRecostava na mão, curvado o braço,Em quanto com a outra ora afagavaSua pomba querida, ora os cabellosCompunha ao doce infante, que, sorrindo,Uma após outra lhe mostrava as flôres.Ao vêl-a assim formosa, ao vêr o grupoQue fazia com ella o par mimoso,A mente arrebatada afigurou-m'aCeleste archanjo que baixára ao mundoA recolher as orações da tarde,E que o infante e a pomba achando juntos,E a innocencia do céo vendo na terra,Dos irmãos se esquecêra e alli ficára.Archanjo d'innocencia, ai foge, foge!Não te illuda este mundo onde poisaste,Este mundo fallaz, de ti indigno,Que tuas azas de brancura estreme

Com seu veneno talvez manche um dia.Archanjo d'innocencia, ai foge! foge!Procura teus irmãos, revôa á patria!E fugiu, e voou. No mesmo sitio,Uma tarde tambem junto da fonte,A mãe a foi achar sósinha e triste.A suas plantas uma rosa brancaJazia desfolhada: era das flôresA flôr que mais queria. Ao vêr ao ladoA mãe que idolatrava, estremecêra.Pobre innocente! receiou acasoNão poder por mais tempo disfarçar-lheSeu cruel padecer. A ardente febreLhe devorava o seio, e não gemia.Mas seu dia chegava... A exhausta fronteLhe pendeu sem alento, e immersa em pranto,No regaço da mãe sumiu a face,Que já cobria a pallidez da morte.Tres dias depois d'este a flôr mimosaQue as grinaldas celestes invejavam,Cahia desfolhada no sepulchro.Eu amo a rosa branca das campinas,A branca rosa que ao soprar do ventoLanguida verga para o chão pendida.

Dos homens ai quem me deraLonge, bem longe viver!Junto de mim só quizera,Como eu sonho, um anjo ter.Que esse anjo surgisse agora,E o mundo folgasse emboraEm seu nefando prazer.Que vista! cede a innocenciaÁ voz do crime traidor;Folga a devassa impudencia,Nas faces não ha rubor.Traz o vicio a fronte erguida,E a virtude, sem guarida,Geme transida de dôr.

Vão ao templo da cubiça,Vão todos sacrificar:Consciencia, fé, justiça,Tudo lhe deixam no altar.Devora-os a sêde d'ouro;O seu deus é um thesouro,Porque o viver é gosar.E que importa que o infanteMorra á fome, e o ancião?Que importa que gema erranteO proletario, sem pão?Oh! que importa que o talentoEsmoreça ao desalento?Que val do genio o condão?Proclamou-se a lei do forte:A lei do fraco é gemer.Ai do triste a quem a sorteFez entre espinhos nascer!É um dogma a tyrannia,A liberdade heresia,A servidão um dever.

Que tempos, que tempos estes!Quem ha de viver assimN'um mundo que rasga as vestesDo justo, no seu festim?Quem ha de? mas esperança!Um dia foge, outro avança,E a redempção vem no fim.Hoje, porém, quem me deraLonge dos homens viver!Junto de mim só quizera,Como eu sonho, um anjo ter.Que esse anjo surgisse agora,E o mundo folgasse emboraEm seu nefando prazer.

Que immenso vacuo n'este peito sinto!Que arfar eterno de revolto mar!Que ardente fogo, que jámais extinctoSómente afrouxa para mais queimar!Ai! esta sêde que meu peito rala,Talvez a apague mundanal prazer:Alli ao menos poderei fartal-a,Ou n'um lethargo sem paixões viver.Mas d'essa taça já provei... não quero!Quero deleites que inda não senti...A lucta, os riscos d'um combate fero!Talvez encantos acharei alli.

A lucta, os riscos, em acção travadasGuerreiras hostes disputando o chão;O sangue em jorros, o tinir d'espadas,O fumo e o fogo do voraz canhão!Alli os gôsos d'um feroz delirio,Á luz das armas, sentirei em mim,Ou n'uma d'ellas o funereo cyrioQue á paz dos mortos me conduza emfim.Mas não, não quero sobre a terra escravaA vis tyrannos immolar o irmão...O mar, o mar, que em sua furia bravaNinguem domina com servil grilhão!O mar, o mar! sobre escarcéos revoltosEm fragil lenho fluctuar me apraz,Ao som das vagas e dos ventos soltos,E das centelhas ao clarão fugaz.Alli sorrindo da feroz tormenta,E dos abysmos que me abrir aos pés,Dentro d'esta alma de prazer sedentaSublime gôso sentirei talvez.Mas o mar livre tem um leito aindaQue os meus anhelos poderá soster...O espaço, o espaço! na amplidão infindaTalvez que possa o coração encher.

O espaço, o espaço! qual ligeiro ventoIrei lançar-me n'esse mar sem fim,E a longos tragos aspirar o alento,Sentir a vida que desejo em mim...Ora aguia altiva, desprezando o solo,O rei dos astros buscarei então,Ora entre as neves do gelado poloVoarei nas azas do veloz tufão.Mas solitario, sem cessar errante,De que valêra na amplidão correr?...A gloria, a gloria, que em painel brilhanteMe off'rece a imagem d'um maior prazer!A gloria, a gloria! mil trophéos ganhados,Mil verdes palmas e laureis tambem;Triumphos, c'rôas e sonoros bradosDa turba--é elle!--repetindo além...Então em sonhos d'uma vida infindaVerei a chamma d'immortal pharol,Que em meu sepulchro resplandeça ainda,Bem como a lua quando é morto o sol.Mas não, que a inveja com a voz mentidaA luz em sombras poderá tornar...O amor, o amor, que redobrando a vida,A vida n'outrem me fará gosar!

O amor, o amor, celestial perfumeQue a mão dos anjos sobre nós verteu,Doce mysterio que n'um só resumeDous pensamentos aspirando ao céo!O amor, o amor, não mentiroso incensoQue em frios labios só no mundo achei,Mas immutavel, mas sublime e immensoQual em meus sonhos juvenis sonhei...O amor! só elle poderá n'esta almaRisonhas crenças outra vez gerar,De minha sêde mitigar a calma,E inda fazer-me reviver, e amar.

No povo d'além da serraVai a noite em mais de meio,E a pobre da mãe velavaUnindo o filhinho ao seio.«Acorda, meu filho, acorda,«Que esse dormir não é teu;«É como o somno da morte«O somno que a ti desceu.«Tarda-me já um sorriso«Nos teus labios de rubim;«Acorda, meu filho, acorda,«Sorri-te ledo p'ra mim.»Mas o infante moribundoEm seu regaço expirou;E a mãe o cobriu de beijos,E largo tempo chorou.


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