Montanha do oriente,Que, sobre as nuvens elevando o cume,Divisas logo o sol, surgindo a aurora,E que, lá no occidente,Ultima vês seu radioso lume,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Rochedo, que descançasNo promontorio nú e solitario,Como atalaia que o oceano explora,Alheio ás mil mudançasQue o mundo agitam turbulento e vario,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Sobros, robles frondentes,Cuja sombra procura o viandante,Fugindo ao sol a prumo que o devora,Nesses dias ardentesEm que o Leão nos céus passa radiante,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Oh mato variado,De rosmaninho e murta entretecido,De cujas tenues flores se evaporaAroma delicado,Quando és por leve aragem sacudido,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Oh mar, que vais quebrandoRolo após rolo pela praia fria,E fremes som de paz consoladora,Dormente murmurandoNa caverna maritima sombria,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Oh lua silenciosa,Que em perpetuo volver, seguindo a terra,Esparzes tua luz ameigadoraPela serra formosa,E pelos lagos que em seu seio encerra,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Debalde o servo ingratoNo pó te derribouE os restos te insultou,Oh veneranda cruz:Embora eu te não vejaNeste ermo pedestal;És sancta, és immortal;Tu és a minha luz!Nas almas generosasGravou-te a mão de Deus,E, á noite, fez nos céus.Teu vulto scintillar.Os raios das estrellasCruzam o seu fulgor;Nas horas do furorAs vagas cruza o mar.Os ramos enlaçadosDo roble, choupo e til,Cruzando em modos mil,Se vão entretecer.Ferido, abre o guerreiroOs braços, sólta um ai,Pára, vacilla, e cáePara não mais se erguer.Cruzado aperta ao seioA mãe o filho seu,Que busca, mal nasceu,Fontes da vida e amor.Surges, symbolo eternoNo céu, na terra e mar,Do forte no expirar,E do viver no alvor!LIVRO SEGUNDOPOESIAS VARIAS.A PERDA D'ARZILLA.(1549).Era noite: do céu limpo e serenoMilhões d'estrellas trémulas pendiam,Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,E as ribas ermas sussurrar se ouviam.D'alterosa galé o negro vultoCorta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,E lá nas serras d'Africa fronteirasBranqueja a espaços o albornoz do alarve.Como tocheiros com brandões accesos,De um féretro ao redor,Cuja vermelha luz o horror da morteSó faz sentir melhor,Taes as nocturnas almenáras fulgemNas torres d'atalaia,Pelos outeiros, que circumdam murosDe povoação na praia.Arzilla, a guerreira.Lá jaz na afflicção,Que a rendeu aos mourosElrei dom João.Tomar-te-ha Deus contas,Rei fraco e prasmado,De tão grande vilta,De teu grão peccado.Maldiz-te nos maresValente fronteiro,Que na sé de CeutaSe armou cavalleiro;Que dez aduaresEm Tanger queimou,E em muros d'AlcacerDez elches matou:Que era hoje d'ArzillaTemido adaÃÂl,E a quem tu mandasteFugir como vil.Vêde-o lá na gaviaDa negra galé,De braços cruzados,Immovel, em pé;E a náu que arfa e voaNa fremente via,Ferindo na esteiraFugaz ardentia;E d'Africa as praias,Que a ré vão fugindo,E as vagas, que rolam,Distantes mugindo.Em roda o silencio:No céu noite escura:E o peito do tristeConfrange a amargura.Do veterano as facesO salso pranto réga:Nos africanos montesSaudoso os olhos préga.Sente no seio as anciasD'incomportavel dor,E ás vezes range os dentesEm trances de furor.Um cantico á su' almaA indignação inspira:Vai sussurra-lo ao longeAura que branda espira.O CANTO DO ADAÃL.Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,Alvejava do mouro o albornoz,E corria, e corria velozO ginete de Bellamarim;Quando o esculca, saÃdo da villaDa manhã ao primeiro fulgor,Não podendo a atalaia transpôr,Vinha ás portas bater de Çafim;Quando em Tanger, a forte, se ouviaDe armaduras continuo tinir,E nos ares se via luzirO montante, a acha d'armas, e o criz;Quando em Ceuta vencida se erguiaSobre o alcacer pendão português,Contra o qual na mesquita de FêsA gazúa prégava o caciz:Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,Que em vergeis se reclina gentil,Pela noite fragrante d'abrilD'entre os robles sorria ao luar;Porque, rico de presa formosa,Já voltou nobre alcaide christão,E inda ao longe de incendio o clarãoTinge o céu sobre um triste aduar:Nossa estrella era então esplendente;Nosso nome era um som do terror;Nossos paes conduzia o Senhor,Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.Portugal, oh leão do occidente,Tu rugias á beira do mar,E o teu grito cá vinha troarTemeroso no ardente Moghreb:Era o tempo dos crentes e ousados:Era o tempo da gloria da cruz!Ora contam-se as páreas d'Ormuz;Tem só nome Cochim, Calecut!E esses muros d'Arzilla, regadosCom o sangue de martyres mil,Ermos hoje tu deixas, rei vil,Porque o Estreito passou Rais Dragut!Oh valentes da India, do oceano,Roncadores de féros no mar,Cuja espada, porém, faiscarNão sabe inda do mouro no arnez,Mostrar vinde o valor sobre-humanoNeste clima de sol mirrador!Aqui fama se compra com dor:Facil gloria esquecei uma vez.As galés do arrais mouro são fortes;Sua chusma berbers do Takrur;Como o vosso rei indio, Badur,Não ha-de elle acabar á traição.Uma festa de sangue e de mortesDo occidente nas vagas tereis;Elmos rijos aqui achareis,Não o craneo d'inerme sultão!Mercadores!—deixae vosso cravo,A canella, a pimenta, o marfi;Os vestidos de seda despÃ;Ponde, em vez de collar, um gorjal.Vella e remo soltae no mar bravo;Vinde juncto de nós combater;Nós que Arzilla deixámos perder,Porque elrei... é um rei desleal.Para nós os castellos d'avante;Para nós a arrombada e bailéu;Para nós pelejar ante o céu,Que nos campos d'Arzilla nos viu:Para nós o machado e montante;Para vós a bombarda e arcabuz;Para nós, ao cahir, ver a luz;Ver a mão que estes peitos ferÃu;Para nós o tombar derradeiroSobre o ferreo esporão das galés;O pelouro, de sob o convés,Cá de longe enviar... para vós!O sudario do morto fronteiroAlva escuma da proa será;E em seus labios—Arzilla!—ouviráQuem ouvir sua ultima voz.E elles, os fortes d'Asia, não vieramDo cavalleiro d'Africa ao chamar;E a náu d'elrei ao infamado TejoVeio aportar:E o adaÃl depôs as armas rotas,Não no espaldar;Que nunca o bom fronteiro viram mourosCostas voltar.E tomando o bordão de peregrino,Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobreDe dominicos,Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,Porque eram ricos.No meio desses tumulos, que encerramOs despojos mortaes dos reis que foram,Féretro antigoO adaÃÂl procurou. De um rei soldadoEra o jazigo.Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,E palavras, que as lagrymas cortavam,Lhe dirigiu:Maldicção para alguem pedia ao morto;Mas nada ouviu!Então, livido o rosto, os labios brancos,A fronte lhe pendeu sobre o ataúdeDo rei extinto.Expirára ao dizer—perdeu-se Arzilla!—A Affonso Quinto.A ROSA.Pura em sua innocencia.Entre a sarça espinhosa,Purpurea esplende, inda botão intacto,Na madrugada a rosa.É da campina a virgemA pudibunda flor;Em seus efluvios matutina brisaBebe o primeiro amor.O sol inunda as veigas:Calou-se o rouxinol;E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,Desabrochou-a o sol.O sôpro matutinoNo seio seu pousára:Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,Que a linda rosa amára.Bella se ostenta um dia;Saúdam-na as pastoras;Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;Voam do goso as horas.Lá vem chegando a noite,E ella empallideceu:Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;A rosa emmurcheceu.Desce o tufão dos montes,Os matos sacudindo;Desfallecida a flor desprende as folhas,Que o vento vai sumindo.Onde estará a rosa,Do prado a bella filha?O tufão, que espalhou seus frageis restos,Passou: não deixou trilha.Da sarça a flor virenteNasceu, gosou, e é morta:E a qual desses amantes de um momentoSeu fado escuro importa?Nenhum, nenhum por ellaGemeu saudoso á tarde;Não ha quem juncte as derramadas folhas,Quem amoroso as guarde.Só da manhan o sôpro,Passando no outro dia,Da rosa, que adorou, quando a innocenciaEm seu botão sorria,Juncto do tronco humildeO curso demorando,Veio depositar perdão, saudade,Queixoso sussurrando.De quantas és a imagem,Oh desgraçada flor!Quantos perdões sobre um sepulchro abjectoTem murmurado o amor!O MENDIGO.I.O sol passa nos céus:—sob o carvalho,Por cujos troncos se pendura a vide,Cego ancião,Mirrada dextra supplice estendendo,Ao passageiro, que o despreza, imploraDo opprobrio o pão.Ninguem o escuta, o dia foge, e a noiteInvolve a luz no manto impenetravel:E elle chorou:E em seus andrajos para choça alpestre,Sem se queixar de Deus, tardios passosEncaminhou:Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,Do presbyterio o sino harmoniosoSoar ouvia,Que, despedindo em roda os sons pausados,Convidava os fiéis a erguer as precesDa Ave-Maria.à cruz do adro relvoso as mãos mirradasO velho ergueu, e ao céu inuteis olhosE uma oração,A oração do infeliz, que Deus só ouveQuando o desdenha o mundo e ludibriaSua afflicção.Para o velho a existencia é solitaria,Bem como a fonte que esgotou o estio.Onde os pastoresVinham a saciar o manso gado;Onde contavam penas e prazeresDos seus amores.A alampada na igreja triste e mudaBruxuleava seu clarão, pendendoAnte o altar-mór:Como o templo, o porvir era do velhoCheio de sustos; muda como o temploEra a sua dor.Resou, resou, e os olhos se enxugaram:O orar fervente as lagrymas enxuga,Qual prado o léste.Deus o inspirou; sperança é filha sua,Doce esperança, que os mortaes só deixaSob o cypreste.Voltou á choça, e a macilenta fome,Sem gemer, supportou sobre o seu leito,Que é quasi a terra;E, confiado em Deus, entre as angustiasDo mal, menos crueis que as do remorso,Os olhos cerra.II.Restruge o mar cavado; o vento zunePelos mastros da náu; colhido o pannoDas vergas pende;Brinco das vagas, o baixel arfandoFluctua incerto, e dos bulcões guiadoOs mares fende.Correndo árvore secca avulta ao longe,Como alma em pena vagueiando á noiteEm seu fadario;E pelas trévas branquejando a escuma,Que da prôa espadana, imita as prégasD'alvo sudario.Envolto no gibão amplo e felpudo,Rude piloto ao leme trabalhosoVéla encostado;Que, se não mentem calculos, o portoProximo está, dos lassos navegantesTão suspirado.III.O vento vai quebrando, e já rareiamGrossos montões de acastelladas nuvens:Diurno alvorTraça no céu d'oriente um risco immenso,Que reflecte no mar, que veste, ao largo,Cerulea côr.Surge o sol radioso e inunda as vagas,Que se acalmam, nivelam-se: o horisonteMais amplo é já:Cava aragem ligeira a larga vela,E do cesto o gageiro clama:—terra!Ei-la acolá!»Como deslisa o goso nos semblantesPor entre as rugas do terror passado!Como é formosaEssa pallida praia, e esses rochedos,E lá no extremo os pincaros da serraErma e saudosa!De indicas mérces, de ouro carregadaAproa á terra, com celeuma alegre,A náu pujante;E pelo verde mar do porto amigoAbrindo a esteira, restitue á patriaO navegante.IV.É meia noite:—os gallos pela aldeiaDizem que um dia mais desceu ao nadaE que outro vem,Para dar luz a dores e alegriasE depois nos abysmos do passadoCahir tambem.E o mendigo da aldeia, o velho cego,Sobre o duro grabato, em choça humilde,Achou a paz.Em sonhos via um filho: a longes terrasA miseria o levou: mudada sorteFeliz o traz.Quantas vezes presága a mente do homemVéla como um propheta, em quanto o somnoSeus membros prende;E como, em trevas de amargosos dias,No porvir uma luz, prevista em sonhos,Grata se accende!V.
Montanha do oriente,Que, sobre as nuvens elevando o cume,Divisas logo o sol, surgindo a aurora,E que, lá no occidente,Ultima vês seu radioso lume,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Rochedo, que descançasNo promontorio nú e solitario,Como atalaia que o oceano explora,Alheio ás mil mudançasQue o mundo agitam turbulento e vario,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Sobros, robles frondentes,Cuja sombra procura o viandante,Fugindo ao sol a prumo que o devora,Nesses dias ardentesEm que o Leão nos céus passa radiante,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Oh mato variado,De rosmaninho e murta entretecido,De cujas tenues flores se evaporaAroma delicado,Quando és por leve aragem sacudido,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Oh mar, que vais quebrandoRolo após rolo pela praia fria,E fremes som de paz consoladora,Dormente murmurandoNa caverna maritima sombria,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Oh lua silenciosa,Que em perpetuo volver, seguindo a terra,Esparzes tua luz ameigadoraPela serra formosa,E pelos lagos que em seu seio encerra,Em ti minha alma a eterna cruz adora.Debalde o servo ingratoNo pó te derribouE os restos te insultou,Oh veneranda cruz:Embora eu te não vejaNeste ermo pedestal;És sancta, és immortal;Tu és a minha luz!Nas almas generosasGravou-te a mão de Deus,E, á noite, fez nos céus.Teu vulto scintillar.Os raios das estrellasCruzam o seu fulgor;Nas horas do furorAs vagas cruza o mar.Os ramos enlaçadosDo roble, choupo e til,Cruzando em modos mil,Se vão entretecer.Ferido, abre o guerreiroOs braços, sólta um ai,Pára, vacilla, e cáePara não mais se erguer.Cruzado aperta ao seioA mãe o filho seu,Que busca, mal nasceu,Fontes da vida e amor.Surges, symbolo eternoNo céu, na terra e mar,Do forte no expirar,E do viver no alvor!LIVRO SEGUNDOPOESIAS VARIAS.A PERDA D'ARZILLA.(1549).Era noite: do céu limpo e serenoMilhões d'estrellas trémulas pendiam,Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,E as ribas ermas sussurrar se ouviam.D'alterosa galé o negro vultoCorta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,E lá nas serras d'Africa fronteirasBranqueja a espaços o albornoz do alarve.Como tocheiros com brandões accesos,De um féretro ao redor,Cuja vermelha luz o horror da morteSó faz sentir melhor,Taes as nocturnas almenáras fulgemNas torres d'atalaia,Pelos outeiros, que circumdam murosDe povoação na praia.Arzilla, a guerreira.Lá jaz na afflicção,Que a rendeu aos mourosElrei dom João.Tomar-te-ha Deus contas,Rei fraco e prasmado,De tão grande vilta,De teu grão peccado.Maldiz-te nos maresValente fronteiro,Que na sé de CeutaSe armou cavalleiro;Que dez aduaresEm Tanger queimou,E em muros d'AlcacerDez elches matou:Que era hoje d'ArzillaTemido adaÃÂl,E a quem tu mandasteFugir como vil.Vêde-o lá na gaviaDa negra galé,De braços cruzados,Immovel, em pé;E a náu que arfa e voaNa fremente via,Ferindo na esteiraFugaz ardentia;E d'Africa as praias,Que a ré vão fugindo,E as vagas, que rolam,Distantes mugindo.Em roda o silencio:No céu noite escura:E o peito do tristeConfrange a amargura.Do veterano as facesO salso pranto réga:Nos africanos montesSaudoso os olhos préga.Sente no seio as anciasD'incomportavel dor,E ás vezes range os dentesEm trances de furor.Um cantico á su' almaA indignação inspira:Vai sussurra-lo ao longeAura que branda espira.O CANTO DO ADAÃL.Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,Alvejava do mouro o albornoz,E corria, e corria velozO ginete de Bellamarim;Quando o esculca, saÃdo da villaDa manhã ao primeiro fulgor,Não podendo a atalaia transpôr,Vinha ás portas bater de Çafim;Quando em Tanger, a forte, se ouviaDe armaduras continuo tinir,E nos ares se via luzirO montante, a acha d'armas, e o criz;Quando em Ceuta vencida se erguiaSobre o alcacer pendão português,Contra o qual na mesquita de FêsA gazúa prégava o caciz:Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,Que em vergeis se reclina gentil,Pela noite fragrante d'abrilD'entre os robles sorria ao luar;Porque, rico de presa formosa,Já voltou nobre alcaide christão,E inda ao longe de incendio o clarãoTinge o céu sobre um triste aduar:Nossa estrella era então esplendente;Nosso nome era um som do terror;Nossos paes conduzia o Senhor,Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.Portugal, oh leão do occidente,Tu rugias á beira do mar,E o teu grito cá vinha troarTemeroso no ardente Moghreb:Era o tempo dos crentes e ousados:Era o tempo da gloria da cruz!Ora contam-se as páreas d'Ormuz;Tem só nome Cochim, Calecut!E esses muros d'Arzilla, regadosCom o sangue de martyres mil,Ermos hoje tu deixas, rei vil,Porque o Estreito passou Rais Dragut!Oh valentes da India, do oceano,Roncadores de féros no mar,Cuja espada, porém, faiscarNão sabe inda do mouro no arnez,Mostrar vinde o valor sobre-humanoNeste clima de sol mirrador!Aqui fama se compra com dor:Facil gloria esquecei uma vez.As galés do arrais mouro são fortes;Sua chusma berbers do Takrur;Como o vosso rei indio, Badur,Não ha-de elle acabar á traição.Uma festa de sangue e de mortesDo occidente nas vagas tereis;Elmos rijos aqui achareis,Não o craneo d'inerme sultão!Mercadores!—deixae vosso cravo,A canella, a pimenta, o marfi;Os vestidos de seda despÃ;Ponde, em vez de collar, um gorjal.Vella e remo soltae no mar bravo;Vinde juncto de nós combater;Nós que Arzilla deixámos perder,Porque elrei... é um rei desleal.Para nós os castellos d'avante;Para nós a arrombada e bailéu;Para nós pelejar ante o céu,Que nos campos d'Arzilla nos viu:Para nós o machado e montante;Para vós a bombarda e arcabuz;Para nós, ao cahir, ver a luz;Ver a mão que estes peitos ferÃu;Para nós o tombar derradeiroSobre o ferreo esporão das galés;O pelouro, de sob o convés,Cá de longe enviar... para vós!O sudario do morto fronteiroAlva escuma da proa será;E em seus labios—Arzilla!—ouviráQuem ouvir sua ultima voz.E elles, os fortes d'Asia, não vieramDo cavalleiro d'Africa ao chamar;E a náu d'elrei ao infamado TejoVeio aportar:E o adaÃl depôs as armas rotas,Não no espaldar;Que nunca o bom fronteiro viram mourosCostas voltar.E tomando o bordão de peregrino,Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobreDe dominicos,Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,Porque eram ricos.No meio desses tumulos, que encerramOs despojos mortaes dos reis que foram,Féretro antigoO adaÃÂl procurou. De um rei soldadoEra o jazigo.Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,E palavras, que as lagrymas cortavam,Lhe dirigiu:Maldicção para alguem pedia ao morto;Mas nada ouviu!Então, livido o rosto, os labios brancos,A fronte lhe pendeu sobre o ataúdeDo rei extinto.Expirára ao dizer—perdeu-se Arzilla!—A Affonso Quinto.A ROSA.Pura em sua innocencia.Entre a sarça espinhosa,Purpurea esplende, inda botão intacto,Na madrugada a rosa.É da campina a virgemA pudibunda flor;Em seus efluvios matutina brisaBebe o primeiro amor.O sol inunda as veigas:Calou-se o rouxinol;E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,Desabrochou-a o sol.O sôpro matutinoNo seio seu pousára:Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,Que a linda rosa amára.Bella se ostenta um dia;Saúdam-na as pastoras;Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;Voam do goso as horas.Lá vem chegando a noite,E ella empallideceu:Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;A rosa emmurcheceu.Desce o tufão dos montes,Os matos sacudindo;Desfallecida a flor desprende as folhas,Que o vento vai sumindo.Onde estará a rosa,Do prado a bella filha?O tufão, que espalhou seus frageis restos,Passou: não deixou trilha.Da sarça a flor virenteNasceu, gosou, e é morta:E a qual desses amantes de um momentoSeu fado escuro importa?Nenhum, nenhum por ellaGemeu saudoso á tarde;Não ha quem juncte as derramadas folhas,Quem amoroso as guarde.Só da manhan o sôpro,Passando no outro dia,Da rosa, que adorou, quando a innocenciaEm seu botão sorria,Juncto do tronco humildeO curso demorando,Veio depositar perdão, saudade,Queixoso sussurrando.De quantas és a imagem,Oh desgraçada flor!Quantos perdões sobre um sepulchro abjectoTem murmurado o amor!O MENDIGO.I.O sol passa nos céus:—sob o carvalho,Por cujos troncos se pendura a vide,Cego ancião,Mirrada dextra supplice estendendo,Ao passageiro, que o despreza, imploraDo opprobrio o pão.Ninguem o escuta, o dia foge, e a noiteInvolve a luz no manto impenetravel:E elle chorou:E em seus andrajos para choça alpestre,Sem se queixar de Deus, tardios passosEncaminhou:Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,Do presbyterio o sino harmoniosoSoar ouvia,Que, despedindo em roda os sons pausados,Convidava os fiéis a erguer as precesDa Ave-Maria.à cruz do adro relvoso as mãos mirradasO velho ergueu, e ao céu inuteis olhosE uma oração,A oração do infeliz, que Deus só ouveQuando o desdenha o mundo e ludibriaSua afflicção.Para o velho a existencia é solitaria,Bem como a fonte que esgotou o estio.Onde os pastoresVinham a saciar o manso gado;Onde contavam penas e prazeresDos seus amores.A alampada na igreja triste e mudaBruxuleava seu clarão, pendendoAnte o altar-mór:Como o templo, o porvir era do velhoCheio de sustos; muda como o temploEra a sua dor.Resou, resou, e os olhos se enxugaram:O orar fervente as lagrymas enxuga,Qual prado o léste.Deus o inspirou; sperança é filha sua,Doce esperança, que os mortaes só deixaSob o cypreste.Voltou á choça, e a macilenta fome,Sem gemer, supportou sobre o seu leito,Que é quasi a terra;E, confiado em Deus, entre as angustiasDo mal, menos crueis que as do remorso,Os olhos cerra.II.Restruge o mar cavado; o vento zunePelos mastros da náu; colhido o pannoDas vergas pende;Brinco das vagas, o baixel arfandoFluctua incerto, e dos bulcões guiadoOs mares fende.Correndo árvore secca avulta ao longe,Como alma em pena vagueiando á noiteEm seu fadario;E pelas trévas branquejando a escuma,Que da prôa espadana, imita as prégasD'alvo sudario.Envolto no gibão amplo e felpudo,Rude piloto ao leme trabalhosoVéla encostado;Que, se não mentem calculos, o portoProximo está, dos lassos navegantesTão suspirado.III.O vento vai quebrando, e já rareiamGrossos montões de acastelladas nuvens:Diurno alvorTraça no céu d'oriente um risco immenso,Que reflecte no mar, que veste, ao largo,Cerulea côr.Surge o sol radioso e inunda as vagas,Que se acalmam, nivelam-se: o horisonteMais amplo é já:Cava aragem ligeira a larga vela,E do cesto o gageiro clama:—terra!Ei-la acolá!»Como deslisa o goso nos semblantesPor entre as rugas do terror passado!Como é formosaEssa pallida praia, e esses rochedos,E lá no extremo os pincaros da serraErma e saudosa!De indicas mérces, de ouro carregadaAproa á terra, com celeuma alegre,A náu pujante;E pelo verde mar do porto amigoAbrindo a esteira, restitue á patriaO navegante.IV.É meia noite:—os gallos pela aldeiaDizem que um dia mais desceu ao nadaE que outro vem,Para dar luz a dores e alegriasE depois nos abysmos do passadoCahir tambem.E o mendigo da aldeia, o velho cego,Sobre o duro grabato, em choça humilde,Achou a paz.Em sonhos via um filho: a longes terrasA miseria o levou: mudada sorteFeliz o traz.Quantas vezes presága a mente do homemVéla como um propheta, em quanto o somnoSeus membros prende;E como, em trevas de amargosos dias,No porvir uma luz, prevista em sonhos,Grata se accende!V.
Montanha do oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
E que, lá no occidente,
Ultima vês seu radioso lume,Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Rochedo, que descanças
No promontorio nú e solitario,Como atalaia que o oceano explora,
Alheio ás mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vario,Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,Fugindo ao sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante,Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,De cujas tenues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido,Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria,E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna maritima sombria,Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh lua silenciosa,
Que em perpetuo volver, seguindo a terra,Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Debalde o servo ingratoNo pó te derribouE os restos te insultou,Oh veneranda cruz:Embora eu te não vejaNeste ermo pedestal;És sancta, és immortal;Tu és a minha luz!Nas almas generosasGravou-te a mão de Deus,E, á noite, fez nos céus.Teu vulto scintillar.Os raios das estrellasCruzam o seu fulgor;Nas horas do furorAs vagas cruza o mar.Os ramos enlaçadosDo roble, choupo e til,Cruzando em modos mil,Se vão entretecer.Ferido, abre o guerreiroOs braços, sólta um ai,Pára, vacilla, e cáePara não mais se erguer.Cruzado aperta ao seioA mãe o filho seu,Que busca, mal nasceu,Fontes da vida e amor.Surges, symbolo eternoNo céu, na terra e mar,Do forte no expirar,E do viver no alvor!
Era noite: do céu limpo e serenoMilhões d'estrellas trémulas pendiam,Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,E as ribas ermas sussurrar se ouviam.D'alterosa galé o negro vultoCorta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,E lá nas serras d'Africa fronteirasBranqueja a espaços o albornoz do alarve.Como tocheiros com brandões accesos,
De um féretro ao redor,
Cuja vermelha luz o horror da morte
Só faz sentir melhor,
Taes as nocturnas almenáras fulgem
Nas torres d'atalaia,
Pelos outeiros, que circumdam muros
De povoação na praia.
Arzilla, a guerreira.
Lá jaz na afflicção,Que a rendeu aos mourosElrei dom João.
Tomar-te-ha Deus contas,
Rei fraco e prasmado,De tão grande vilta,De teu grão peccado.
Maldiz-te nos mares
Valente fronteiro,Que na sé de CeutaSe armou cavalleiro;
Que dez aduares
Em Tanger queimou,E em muros d'AlcacerDez elches matou:
Que era hoje d'Arzilla
Temido adaÃÂl,E a quem tu mandasteFugir como vil.
Vêde-o lá na gavia
Da negra galé,De braços cruzados,Immovel, em pé;
E a náu que arfa e voa
Na fremente via,Ferindo na esteiraFugaz ardentia;
E d'Africa as praias,
Que a ré vão fugindo,E as vagas, que rolam,Distantes mugindo.
Em roda o silencio:
No céu noite escura:E o peito do tristeConfrange a amargura.
Do veterano as faces
O salso pranto réga:Nos africanos montesSaudoso os olhos préga.
Sente no seio as ancias
D'incomportavel dor,E ás vezes range os dentesEm trances de furor.
Um cantico á su' alma
A indignação inspira:Vai sussurra-lo ao longeAura que branda espira.
Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,
Alvejava do mouro o albornoz,E corria, e corria velozO ginete de Bellamarim;
Quando o esculca, saÃdo da villa
Da manhã ao primeiro fulgor,Não podendo a atalaia transpôr,Vinha ás portas bater de Çafim;
Quando em Tanger, a forte, se ouvia
De armaduras continuo tinir,E nos ares se via luzirO montante, a acha d'armas, e o criz;
Quando em Ceuta vencida se erguia
Sobre o alcacer pendão português,Contra o qual na mesquita de FêsA gazúa prégava o caciz:
Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,
Que em vergeis se reclina gentil,Pela noite fragrante d'abrilD'entre os robles sorria ao luar;
Porque, rico de presa formosa,
Já voltou nobre alcaide christão,E inda ao longe de incendio o clarãoTinge o céu sobre um triste aduar:
Nossa estrella era então esplendente;
Nosso nome era um som do terror;Nossos paes conduzia o Senhor,Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
Portugal, oh leão do occidente,
Tu rugias á beira do mar,E o teu grito cá vinha troarTemeroso no ardente Moghreb:
Era o tempo dos crentes e ousados:
Era o tempo da gloria da cruz!Ora contam-se as páreas d'Ormuz;Tem só nome Cochim, Calecut!
E esses muros d'Arzilla, regados
Com o sangue de martyres mil,Ermos hoje tu deixas, rei vil,Porque o Estreito passou Rais Dragut!
Oh valentes da India, do oceano,
Roncadores de féros no mar,Cuja espada, porém, faiscarNão sabe inda do mouro no arnez,
Mostrar vinde o valor sobre-humano
Neste clima de sol mirrador!Aqui fama se compra com dor:Facil gloria esquecei uma vez.
As galés do arrais mouro são fortes;
Sua chusma berbers do Takrur;Como o vosso rei indio, Badur,Não ha-de elle acabar á traição.
Uma festa de sangue e de mortes
Do occidente nas vagas tereis;Elmos rijos aqui achareis,Não o craneo d'inerme sultão!
Mercadores!—deixae vosso cravo,
A canella, a pimenta, o marfi;Os vestidos de seda despÃ;Ponde, em vez de collar, um gorjal.
Vella e remo soltae no mar bravo;
Vinde juncto de nós combater;Nós que Arzilla deixámos perder,Porque elrei... é um rei desleal.
Para nós os castellos d'avante;
Para nós a arrombada e bailéu;Para nós pelejar ante o céu,Que nos campos d'Arzilla nos viu:
Para nós o machado e montante;
Para vós a bombarda e arcabuz;Para nós, ao cahir, ver a luz;Ver a mão que estes peitos ferÃu;
Para nós o tombar derradeiro
Sobre o ferreo esporão das galés;O pelouro, de sob o convés,Cá de longe enviar... para vós!
O sudario do morto fronteiro
Alva escuma da proa será;E em seus labios—Arzilla!—ouviráQuem ouvir sua ultima voz.E elles, os fortes d'Asia, não vieramDo cavalleiro d'Africa ao chamar;E a náu d'elrei ao infamado Tejo
Veio aportar:
E o adaÃl depôs as armas rotas,
Não no espaldar;
Que nunca o bom fronteiro viram mouros
Costas voltar.
E tomando o bordão de peregrino,Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
De dominicos,
Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,
Porque eram ricos.
No meio desses tumulos, que encerramOs despojos mortaes dos reis que foram,
Féretro antigo
O adaÃÂl procurou. De um rei soldado
Era o jazigo.
Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,E palavras, que as lagrymas cortavam,
Lhe dirigiu:
Maldicção para alguem pedia ao morto;
Mas nada ouviu!
Então, livido o rosto, os labios brancos,A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
Do rei extinto.
Expirára ao dizer—perdeu-se Arzilla!—
A Affonso Quinto.
Pura em sua innocencia.Entre a sarça espinhosa,
Purpurea esplende, inda botão intacto,
Na madrugada a rosa.É da campina a virgemA pudibunda flor;
Em seus efluvios matutina brisa
Bebe o primeiro amor.O sol inunda as veigas:Calou-se o rouxinol;
E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,
Desabrochou-a o sol.
O sôpro matutinoNo seio seu pousára:
Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,
Que a linda rosa amára.Bella se ostenta um dia;Saúdam-na as pastoras;
Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;
Voam do goso as horas.Lá vem chegando a noite,E ella empallideceu:
Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;
A rosa emmurcheceu.Desce o tufão dos montes,Os matos sacudindo;
Desfallecida a flor desprende as folhas,
Que o vento vai sumindo.Onde estará a rosa,Do prado a bella filha?
O tufão, que espalhou seus frageis restos,
Passou: não deixou trilha.
Da sarça a flor virenteNasceu, gosou, e é morta:
E a qual desses amantes de um momento
Seu fado escuro importa?Nenhum, nenhum por ellaGemeu saudoso á tarde;
Não ha quem juncte as derramadas folhas,
Quem amoroso as guarde.Só da manhan o sôpro,Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a innocencia
Em seu botão sorria,Juncto do tronco humildeO curso demorando,
Veio depositar perdão, saudade,
Queixoso sussurrando.De quantas és a imagem,Oh desgraçada flor!
Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto
Tem murmurado o amor!
O sol passa nos céus:—sob o carvalho,Por cujos troncos se pendura a vide,
Cego ancião,
Mirrada dextra supplice estendendo,Ao passageiro, que o despreza, implora
Do opprobrio o pão.
Ninguem o escuta, o dia foge, e a noiteInvolve a luz no manto impenetravel:
E elle chorou:
E em seus andrajos para choça alpestre,Sem se queixar de Deus, tardios passos
Encaminhou:
Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,Do presbyterio o sino harmonioso
Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons pausados,Convidava os fiéis a erguer as preces
Da Ave-Maria.
à cruz do adro relvoso as mãos mirradasO velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
E uma oração,
A oração do infeliz, que Deus só ouveQuando o desdenha o mundo e ludibria
Sua afflicção.
Para o velho a existencia é solitaria,Bem como a fonte que esgotou o estio.
Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;Onde contavam penas e prazeres
Dos seus amores.
A alampada na igreja triste e mudaBruxuleava seu clarão, pendendo
Ante o altar-mór:
Como o templo, o porvir era do velhoCheio de sustos; muda como o templo
Era a sua dor.
Resou, resou, e os olhos se enxugaram:O orar fervente as lagrymas enxuga,
Qual prado o léste.
Deus o inspirou; sperança é filha sua,Doce esperança, que os mortaes só deixa
Sob o cypreste.
Voltou á choça, e a macilenta fome,Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
Que é quasi a terra;
E, confiado em Deus, entre as angustiasDo mal, menos crueis que as do remorso,
Os olhos cerra.
Restruge o mar cavado; o vento zunePelos mastros da náu; colhido o panno
Das vergas pende;
Brinco das vagas, o baixel arfandoFluctua incerto, e dos bulcões guiado
Os mares fende.
Correndo árvore secca avulta ao longe,Como alma em pena vagueiando á noite
Em seu fadario;
E pelas trévas branquejando a escuma,Que da prôa espadana, imita as prégas
D'alvo sudario.
Envolto no gibão amplo e felpudo,Rude piloto ao leme trabalhoso
Véla encostado;
Que, se não mentem calculos, o portoProximo está, dos lassos navegantes
Tão suspirado.
O vento vai quebrando, e já rareiamGrossos montões de acastelladas nuvens:
Diurno alvor
Traça no céu d'oriente um risco immenso,Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
Cerulea côr.
Surge o sol radioso e inunda as vagas,Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
Mais amplo é já:
Cava aragem ligeira a larga vela,E do cesto o gageiro clama:—terra!
Ei-la acolá!»
Como deslisa o goso nos semblantesPor entre as rugas do terror passado!
Como é formosa
Essa pallida praia, e esses rochedos,E lá no extremo os pincaros da serra
Erma e saudosa!
De indicas mérces, de ouro carregadaAproa á terra, com celeuma alegre,
A náu pujante;
E pelo verde mar do porto amigoAbrindo a esteira, restitue á patria
O navegante.
É meia noite:—os gallos pela aldeiaDizem que um dia mais desceu ao nada
E que outro vem,
Para dar luz a dores e alegriasE depois nos abysmos do passado
Cahir tambem.
E o mendigo da aldeia, o velho cego,Sobre o duro grabato, em choça humilde,
Achou a paz.
Em sonhos via um filho: a longes terrasA miseria o levou: mudada sorte
Feliz o traz.
Quantas vezes presága a mente do homemVéla como um propheta, em quanto o somno
Seus membros prende;
E como, em trevas de amargosos dias,No porvir uma luz, prevista em sonhos,
Grata se accende!