O BOM PESCADOR.

Nos gonzos ferrugentos range a portaDo tugurio do pobre adormecido,E descuidado;Que do mendigo o umbral patente é sempre,Nem carece de estar, como o do rico,Aferrolhado.O bom do velho ao sobresalto acorda,E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,E o pranto é mudo;Mas breve um grito e o soluçar e os beijosE o sonho que passou e a voz do sangueLhe dizem tudo.Não mais sob o carvalho ao velho honradoEsmoladora mão o peregrinoEstenderá:Meigos lhe sorrirão extremos dias,E as suas cinzas filial gemidoConsolará.O BOM PESCADOR.O sol rubro, em leitoDe nuvens descendo,Tremente, crescendo,No mar se ia a pôr.Sentado no barco,Que a onda embalava,Scismando cantavaO bom pescador.A paz da sua almaNo olhar exprimia,E a voz traduziaScismar do cantor:E o canto serenoLevava-lho a brisa,Que á tarde deslisaCom meigo frescor.«Acabem de todoNo prado as boninas,E em vastas campinasNão surja uma flor;Dispa-se o ameeiroDa folha viçosa,E o Tejo em lodosaMude esta azul côr;O vento geladoSó reine e as procellas;Das vivas estrellasSe apague o fulgor:O sol radiosoEm nuvens se envolva,E á terra não volvaSeu grato calor;Que do horrido inverno,Comtigo, oh serrana,Na minha choupanaRirei do furor!Não pensa se as veigasSe vestem de relva,Se está nua a selvaDo lindo verdor;Nem ouve os rugidosDo vento inquietoQuem, sob o seu tecto,Se abriga no amor.Nasci, eduquei-meN'um mundo mais nobre,Agora sou pobre,Sou um pescador.Ás bordas do abysmoChegou-me a ventura;Medí delle a altura,Descí sem pavor.Co'a dita se enlaçaHumilde existencia,Se do homem a essenciaO orgulho não fôr.Emquanto de paços,De ferteis devesas,Emfim, de riquezasEu pude dispor,O somno tranquilloA mim não descia,Que o ferro temiaDo vil salteador.Na minha alma, immersaEm noite e amargura,Pesava bem duraA mão do Senhor!Agora misturoDo rude oceanoNas vagas, ufano,O honrado suor;Agora serenoVem dia após dia,E a noite sombriaNão cerca o temor;Porque entre teus braços,Esposa querida,Me esqueço da lidaDo mar bramidor.Da vida no sonhoQue importa vil ouro,Se tu és thesouroPerpetuo de amor;Se ainda em teus labios,Oh cara consorte,Virá doce a morteMinha alma depor?Nas ribas fragosas,Que os ventos castigam,E as ondas fustigamCom longo fragor,Ao pé da ermidinha,Nesse adro tão só,Envoltos no pó,Sem goso, sem dôr,Tranquillos, obscuros,Privados de luz,Á sombra da cruzDo Deus Redemptor,De ti só lembrados,Em triste oração,Os restos serãoDo teu pescador.TRISTEZAS DO DESTERRO.(FRAGMENTOS).Erit tristis et moeretis.Isai­as.I.Terra cara da patria, eu te hei saudadoD'entre as dores do exilio. Pelas ondasDo irrequieto mar mandei-te o choroDa saudade longi­nqua. Sobre as aguas,Que de Albion nas ribas escabrosasVem marulhando branqueiar de escumaA negra rocha em promontorio erguido,D'onde o insulano audaz contempla o immensoImperio seu, o abysmo, aos olhos turvosNão sentida uma lagryma fugiu-me,E devorou-a o mar. A vaga incerta,Que róla livre, peregrina eterna,Mais que os homens piedosa, irá depo-la,Minha terra natal, nas praias tuas.Essa lagryma acceita: é quanto pódeDo desterro enviar-te um pobre filho.No silencio da noite, em sólo estranho,Patria minha gentil, em ti pensando,Para os astros de Deus olhei: fulgiam,Neste céu achatado, tristementeCom luz mortiça e pallida, não ricosDe inspiração e amor, quaes lá refulgem.Pela sombra ameni­ssima, que chamaDo affastado oriente o sol no occaso,No teu profundo céu has-de tu vê-los:Do desterrado filho os votos levam:Acceita-os delles, desgraçada patria!Já se acercava o tenebroso inverno;Vinha fugindo a rapida andorinha,Para um abrigo te ir pedir, oh patria,Em cujos valles nunca alveja a neve:Juncto de mim passou: em suas azasTambem mandei o filial suspiro.Pelo dorso das vagas rugidorasEu corri de além mar para estas plagas.Pelas antenas, em nublada noite,Ouvi o vento sul que assobiava,E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:Seu rijo sopro refrescou-me as veias.....................................................II.Que ferreo coração esquece a terra,Que lhe escutou os infantís vagidos,E lhe bebeu as lagrymas primeiras,Preludio a tantas que no curto espaçoDa vida ha-de verter? Quem, nunca, esqueceO tecto paternal, embora adejeAo redor delle o medo de tyrannos?Quem não deseja misturar, na morte,Com a gleba nativa o pó de extincto,E murmurar seu ultimo suspiroAlli, onde primeiro a luz diurnaO allumiou na rapida passagemEntre o nada e o morrer, chamada a vida?Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo,Um sonho mau, de que se acorda em trévas,Na valla dos cadaveres, em meioDa unica herança que pertence ao homem,Um sudario e o perpetuo esquecimento.A infancia é dormir placido: inquietaA mocidade é, já; mas entre doresVem o amar e esperar, e a crença ardente,E affectos sanctos consolar quem dorme:Pouco a pouco, porém, sobre a jazidaDo sonhador, do mal se assenta o anjo,E as imagens ridentes da venturaCo' as negras asas dispersando ao longe,Com duro pé o coração lhe opprime.Oh, no grabato meu bem cedo esse anjoVeio assentar-se, e o juvenil enleioDe affectos puros em dormir serenoAffugentou de mim. Vagueei nos mares;Peregrinei na terra: em toda a parteO pé maldicto me esmagou o peito,E da patria a saudade, em sonho triste,Immovel, do viver me tece a noite.................................................III.Solidão, solidão, quem diz que existesOnde não soa tumultuar das turbasMentiu-te a essencia! Solidão e morteSão uma idéa só; um pensamentoDoloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle,Onde haja o sol da minha patria, e a brisaMatutina e da tarde, e a vinha e o cedro,E a larangeira em flor, e as harmoniasQue a natureza em vozes mil murmuraNa terra em que eu nasci, embora falteNo concerto immortal a voz humana,Que um ermo assim povoará meus dias.Mas aqui!... Que me importa o murmurioDos que passam? Que vale essa campinaHumida e verde, e no gelado pégoRaio do sol que se refrange turvo?É o desterro solidão e mortePara o poeta: embora estranha linguaLhe revele o pensar, o intimo verboQue em ar vibrado traduziram labios,Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selvaNão tem para lhe dar um pensamentoDe poesia e de amor?Não! Tudo é pallido,Tudo é morto e sósinho e silenciosoComo um sepulchro e um cemiterio!E aindaCampas e adros inspiram, quando hi dormemNossos irmãos e paes, porque tem lagrymasQue desopprimem a alma; tem memorias,Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurramPreces, que alli vamos guardar, qual guardaO avaro em ferreo cofre os seus thesouros,Para os contar hoje, ámanhan e sempreEmquanto vivo for.E cá? O engenhoNem crê, nem sente bafejar-lhe um cantoO crepusculo, a lua, a aragem fresca,O arrebol da manhan, ou céu serenoPor noite escura recamado de astros.Harpa meridional, porque, no extremoDa terra patria, o trovador erranteNão deixaste partir só com seus males?Porque vieste, oh filha do occidente,Cruzando os mares embrenhar-te em nevoasDe céu septentrional? Tu, pobresinha,Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,Sem haver mão que te vibrasse as cordas,Jazesses esquecida, ainda soárasCom incerta harmonia. Ás horas meigasEm que o dia se esvai, placida a brisa,Que espira do oceano e encrespa as vagas,Passaria por ti, e te agitára,E murmuráras som que responderaTrémulo, fraco, á flauta dos pastoresSussurrando suave entre as quebradasDa montanha selvosa. E aqui? És muda;És muda, que essas cordas carcomiu-t'asEste ar gelido e turvo, e qual o engenhoDe teu dono, no viço da existencia,Envelheceu, envelheceste, oh harpa!....................................................IV.Berço do meu nascer, sólo querido,Onde crescí e amei e fui ditoso,Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!Quando, aterrado ante o minaz aspectoDo anjo de Deus, tremente vagueiavaNosso primeiro pae em volta do Éden,Não lhe tecia tanto de amargurasA vida o duro affan com que trocavaPelo pão o suor co' a avara terra;Não era tanto o traspassar-lhe os membrosO hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'osO sol estivo, e o magoar, errante,Os pés feridos nos tojaes braviosPelas sendas que abria em ermos valles,Como as saudades de passados tempos,Dessa infancia viril, em que surgira,Para viver e amar, do barro inerte;Não o pungia tanto o mal presenteComo a recordação dos claros diasDe innocencia e de paz que alli vivêra.A primavera eterna, as auras puras,O murmurar do arroio, o canto da ave,O frémito do bosque, o grato aromaE o vistoso matiz do ameno prado,O lago quedo a reflectir a lua,As montanhas tão ricas de mysterios,De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhosVingadora a memoria inexoravel.Por entre a bruma da estação chuvosaPassavam-lhe de abril perfumes, galas;Sob estuoso sol vinha a saudadeDizer-lhe o sussurrar do manso arroioE o ramalhar dos platanos copados.Por tenebrosas noites de procella,Quando a torrente e o vendaval bramiam,Cria d'entre o fragor ouvir romperemOs matutinos canticos das aves,E ver no pégo reflectir-se a lua.Longe, assim, do seu berço, o criminosoCom dura punição remia o crime:Mas para o consolar na senda agreste,Em cujo termo o esperava a morte,O severo juiz deixára ao tristeDe uma esposa querida o seio casto,Onde aspirar o amor, olhos que o prantoMisturassem co'o seu. Perdendo a patriaPerdia encantos só de naturezaFormosa e juvenil. As harmoniasDos corações, os misticos affectosNão lhe truncou a espada flammejanteDo cherubim ao repelli-lo do Éden:Para elle a patria renasceu no exilio.Eu, prófugo como elle, o Éden nativoPerdí; e perdí mais. DespedaçadosOs affectos de irmão, de amante, e filhoRestam-me na alma qual buída frecha,Que no peito ao cravar-se estala e deixa,Cahindo, o ferro na ferida occulto.................................................V.Oh meu pae, oh meu pae, como a memoriaMe reflecte, alta noite, a tua imagemPor entre um véu de involuntario pranto!Quão triste cogitar em mim despertaA imagem cara! Á noite, o bom do velhoAs bençams paternaes de Deus co' as bençamsSobre minha cabeça derramava,E ao começar o dia; e ellas desciamA um coração exempto de remorsosOnde encontravam filial piedade.E agora? É-lhe mysterio o meu destino.Qual o seu para mim o exilio occulta.Saciado, talvez, de dor e affrontasDorme já sob a campa o somno eterno?Suas trémulas mãos não mais lançar-meVirão a bençam da piedade? O extremoArranco seu não roçará meus labios?Ah, se um dia raiar para o proscriptoO suspirado alvor do sol da patria,E se entre nós de um í­mpio as mãos ergueramA barreira da morte, ai delle, ai delle!E tambem, ai de mim!.............................................. Mas se 'inda um filhoHouver digno de o ser, eu criminosoTerei quem me deplore; mãos que plantemNo adro deserto onde jazer maldictoUm cypreste, uma flor, e quem deponhaAos pés do throno do juiz supremoPor mim, uma oração fervente e pia....................................................VI.Arvores, flores, que eu amava tanto,Como viveis sem mim? Nas longas vias,Que vou seguindo peregrino e pobre,Sob este rude céu, entre o ruídoDos odiosos folgares do sicambro,Do monotono som da lingua sua,Pelas horas da tarde, em varzea extensa,E ás bordas do ribeiro que murmura,Diviso ás vezes, em distancia, um bosqueDe arvoredo onde bate o sol cadente,E vem-me á idéa o laranjal viçosoE os perfumes de abril que elle derrama,E as brancas flores e os dourados fructos,E illudo-me: essa varzea é do meu rio,Esse bosque o pomar da minha terra.Aproximo-me; o sonho de um momentoEntão se troca em acordar bem triste,Como surge e se esvai por entre as nevoasVulto indeciso nos cantares d'Ossian.É uniforme e torva esta verdura,Acre o cheiro que exhala este arvoredo,Mal-assombrado o rio, humido o valle,Frio do sol o raio derradeiroEspirando neste ar denso e pesado,Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,E rouba aos olhos horisonte immenso.Ai, pobres flores que eu amava tanto,Por certo não viveis! O sol pendeu-vosMirradas folhas para o chão fervente:Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,E morrestes. Morrestes sobre a terra,Que por cuidados meus vos educára.E eu? Talvez nestes campos estrangeirosMinha existencia o fogo da desditaFaça pender, murchar, ir-se mirrandoSem que torne a ver mais esses que amava,Sem que torne a abraçar a arvore annosa,Que se pendura sobre a limpha claraLá no meu Portugal, onde a frescuraDa ribeira perenne, da florestaTem valor, porque o sol tem luz, tem vida!...........................................................VIIEu já vi n'uma ilha arremessadaÁs solidões do mar, entre os dous mundos,Vestigios de volcões que hão sido extinctosEm não-sabidos seculos. Scintillam,Aqui e alli, nos areientos plainos,Onde espinhosas sarças só vegetam,Restos informes de metaes fundidosPelas chammas do abysmo, entre affumadasPedras que em parte amarellece o enxofre,Que a lava em rios dispersou, deixandoSó delle a côr em lascas arrancadasDas entranhas dos montes penhascosos.A natureza é morta em todo o espaçoQue ella correu, no dia em que, rugindo,Da cratéra fervente, á voz do Eterno,Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,A engoliu e passou, qual sumiriaDe soçobrada nau celeuma inutil.Tal é meu coração. Bem como a lavaÉ o desterro ao trovador. Meus olhosHão-de esquecer as lagrymas; que a seivaDo vivido sentir vai-se queimandoAo suão mirrador de atroz saudade,Que excede tudo em dor; excede a de orpham,De viuva, de mãe que sobre o berçoVê jazer morto o pallido filhinho.E porquê? Porque ahi ha inclinar-seSobre o corpo do extincto; ha despedir-seCom suspiros e prantos desses restos,Que vão quedos dormir em adro antigo,Onde os avós já dormem; onde ha patria,Ha fami­lia, ha irmãos.—Cá, tudo é ermo,E a dor está no coração do prófugoComo um cadaver hirto quando esperaDe noite, em leito nú, que á tumba o desçam.A dor aqui é gelida, immutavel;Pousa em labios alheios que sorriem,E até em sorrir nosso; está sentadaAo pé do umbral do tecto que nos cobre,Embebida na enxerga do repouso,Entranhada no pão que nos esmolam,Enroscada, qual cobra peçonhenta,No nodoso bordão do peregrino,E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.E depois, o morrer em leito alheio;Despedir-se de um sol que não é esse,Que, na infancia, nos fez florir os prados,Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;Volver em torno os olhos moribundosE não ver uma lagryma; inclinar-seE não achar um seio feminino,Ou de esposa ou de mãe, onde repouseA fronte accesa por ardente febre;E pensar entre as ancias derradeiras,Que será terra estranha a que nos trague;Que será til do norte o que protejaNosso humilde moimento, a verde gleba,Onde de pinho a cruz por dous invernosApenas luctará co'a negra nuvemDo esquecimento eterno, unica herançaDo que expirou no exilio!AmarguradasSão taes cogitações para o que senteNo seio em ondas trasbordar-lhe a vida.Quaes, porém, não virão ao pobre velho,Que, arrancado das bordas do seu tumulo,Foi por cima dos mares arrojadoPara juncto do umbral de um cemiterio,Onde não achará paternos ossos,Para ao pé delles se deitar morrendo?!......................................................VIII.Quando nos luz o sol no céu da patria,Embora sobre nós verta a desditaTorrentes de amargura, ha um consolo:É o altar e a oração. Ao desterradoNem sequer isso resta. O templo alheioÉ como ermo de Deus; como que paramNesse craneo de marmore arqueadoDo gigante edificio as tristes precesEm lingua estranha proferidas. GelidasE duras são do pavimento as lageasPara quem sabe certo não o escutamMortos que muito amou; que nesse tectoVai bater frouxa uma oração discordeEntre mil orações.«É falso! É impio!—A razão o dirá—De Deus o temploÉ o mundo. No cimo das montanhasO nome do Senhor sussurra em soproDo vento que passou rasgando as asasPelo cardo bravio; a gloria delleDi-la o rolo do mar correndo á praia;É o seu hymno o canto da avesinhaNo salgueiro que pende e se balouçaSobre o arroio do valle, e é do regatoO murmurinho o cantico nocturnoMandado pela terra silenciosaQual suspiro fraterno, aos soes e aos mundosQue pelos céus harmoniosos gyram.Esses montões de cinzeladas pedrasDe columnas e torres, que se elevamComo as mãos junctas de quem resa, apenasSão um memento da oração, um marcoPosto no ermo da vida, que nos lembreQuem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,Que é senhor e que é rei, que é pae e entendeO vento, o mar, os astros, a avesinha,O sussurrar do arroio humilde, e as precesDe milhões d'orbes em milhões de li­nguas.»Ao brado da razão só não se dobraO coração do desterrado!EmboraSob as asas do amor abrigue o EternoHomens, nações e o mundo: o amor por elleNasce, cresce, vigora-se enredadoCom os beijos de mãe, com sorrir meigoDe nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,O pôr do sol da nossa terra, o choupoDa nossa fonte, o mar que manso geme,Nosso amigo da infancia, em praia amiga.Quando isso tudo se converte em sombra,Que em confuso passado apenas surgeQual fumo tenuissimo ou phantasmaÁ meia-noite visto, á luz da lua,Ao longe entre arvoredo: quando o soproDa tempestade assobiou nas trévasPela antena da nau do vagabundo;Quando a dor sua em olhos de ente vivoNão achou uma lagryma piedosa,E nos seus proprios são vergonha as lagrymas,Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,Não sobre seio que as esconda e enchugue,Mas sobre a vaga que se arqueia, e passaSem as sentir; então o soffrimento,Filho de longo padecer, converteO coração do desditoso em marmore,Onde nunca penetra um puro affecto,Onde o nome de Deus soçobra e morreEntre o bramir de maldicções e pragas.Oh, do desterro o mal supremo é este!É o seccar-se o coração; mirrar-seComo a sarça do monte em fins d'estio;É o descrer, e o blasphemar do Eterno.Se aos céus levanta o desgraçado os olhos,É que primeiro os pôs lá no futuro,E, bem que tenue luz, um fulgorzinhoPor entre as sombras lhe sorriu fagueiro:Mas quando se ergue um muro intransitavelEntre nós e a ventura; quando ao longePelos campos da vida é tudo pallidoE perece a esperança, então a menteRecúa com horror, e dando em terra,Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,.........................................................O MOSTEIRO DESERTO.I.No mosteiro vai fundo o silencio;Um silencio que gera terror;Só nos tectos, que banha o luar,Sólta o mocho seu pio de horror:Só o vento que gyra nos pateos,E se engolfa na escada ogival,Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,Que ladeiam normando portal.Meia noite. E na crasta desertaNão reboam os ecchos do sino,Que, vagando, murmuram nas cellas:—São as horas do officio divino.»Meia noite! Bem como na torreVoz de bronze dormente parece,Tal o monge, na dura jazida,Priguiçoso do templo se esquece.Monge, o brado nocturno do sinoAo resar não te chama, é verdade;Mas talvez já no topo do côroSomnolento te espera o abbade.Nada quebra o remanso da noitePelas gothicas, vastas arcadas:Nem de quicios ranger vagaroso,Nem murmúrio de lentas passadas.«Está só o mosteiro?—Este gritoRepetiram-no os ecchos inteiro;E, bem como em resposta á pergunta,Retumbou:—Está só o mosteiro!»Pouco ha inda, na alta noitePassava no espaço a lua,Dos ulmos a cima ondeavaNegra, qual ora fluctua:Mas tenebroso silencioNão ía, como ora vai:Bradava o sino da torreAos monges dizendo:—orae.»E pelos vidros córadosReverberava fulgor;De passos no longo claustroSoava tenue rumor.Depois, lá dentro na igreja,Em côro alterno rompiaO canto lento dos monges,Que ás vozes do orgam se unia:Porém, como se ao sopro do archanjoA trombeta final retumbasse,E da vida o tumulto na terraAo terrivel signal expirasse,Assim do orgam calou a harmonia,E dos córos os hymnos calaram,E os fulgores das lampadas frouxosDas vidraças não mais transudaram.II.É que o filho dos ermos, renegandoDas tradições antigas,Desceu a pelejar na ardente arenaDas facções inimigas.Amar, soffrer, orar era a existenciaQue lhe talhára a sorte;Enxugar muitas lagrymas na terra,E repousar na morte;Realisar té onde é dado ao homemEsse typo ideal,Que nos legou o Salvador, tomandoNossa veste mortal.E não o quiz. Sacrilego, do pobreA herança, que a piedadeConfiára ao ministro de uma crençaQue é toda caridade,Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,No altar impio da guerra,E, abrindo o manto, sacudiu iradoA assolação á terra.De noite no bosque,Na gandra deserta,No viso do monte,Do valle na aberta,Á luz das estrellasAs armas fulgiam,E ouviam-se ao longeCorceis que nitriam:Horrendo prophetaO abutre passava,E sobre as encostasCalado pairava:Depois, na alvorada,Com gritos sem fimSaudava do sangueVizinho o festim.E á voz das trombetas,Ao trom dos canhões,Ao som das passadasDe vinte esquadrões;E em meio do fogo,Do fumo alvacento,Em rolos ondeandoNas asas do vento,De agudas baionetasA renque brilhanteTremente avançava,Ao brado de—ávante!»E ao baço ruí­doDos leves ginetes,No plaino calcandoDa relva os tapetes,Os ferros cruzadosLuctavam tinindo,Peões, cavalleirosDe involta ruindo,E a ferrea granadaNos ares zumbia,E aos seios das alasQual raio descia.E aos ares, revolta,A terra espirrava,E o globo encendidoUm pouco se alçava,E prenhe de estragos,Com fero estampido,Mandava mil golpes,Em rachas partido.E as horas passavamEm scenas de morte;E o abutre miravaOs trances do forte.Na garganta da serra ou sobre o outeiro,Pelo pinhal da encosta ou na campina,Nesse dia de atroz carnificina,Negros uns vultos vagueiar se viam:A cruz do Salvador na esquerda erguida,Na dextra o ferro, preces blasphemando,«Não perdoeis a um só!—feros bradando,Entre as fileiras rapidos corriam:E era o monge que bradava,E era o monge que corria,E era o monge que, blasphemo,Preces vans a Deus fazia;Vans que, á tarde, nesse plainoNo sangue d'irmãos retincto,Só restava o moribundo,O cadaver só do extincto.E por gandras e por montes,Aterrados, perseguidos,Em desordenada fugaRetiravam-se os vencidos.E os vencidos eram essesQue a esperança da victoriaArrastára, miserandos,A uma guerra i­mpia, sem gloria!Lá dos gritos de raiva baldadaRestrugia o confuso clamor,E o gemido do mau desgraçadoNa alma oppressa gerava terror.Cáia em pó o mosteiro; e maldictoO que ergue-lo outra vez intentar,Se não treme ante as nuas cáveiras,Que insepultas verá branquejar!III.Surge a luz da alvorada. PodessemDessas campas geladas que vejoOs bons monges dos tempos antigosSurgir vivos á voz de um desejo!E que ao longo das vastas arcadasSe escutassem seus passos serenos,Como se ouve o tranquillo regatoSussurrar nestes campos amenos!Quem então não curvára ante o velho?Quem a bençam da mão descarnada,Como a bençam do céu, não pedíraDa virtude ao poder confiada?Quem ousára soltar no desertoEstridente clangor da trombeta,E fazer scintillar pela noiteA cruel decisiva baioneta?Quem ousára o sorriso do insultoJuncto ao negro edificio soltar,E com goso, na mente, por terraSuas grimpas jazendo pintar?Mas ha muito que os bons se finaram;Mas ha muito que ás dores fugiram,E depois, nesses velhos sepulchrosQuantos maus inquietos dormiram!Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomesPereceram: ninguem o dirá.O que o sabe os julgou; e do abysmoNem um ai o cantor tirará.Mas, oh harpa, transmitte as saudadesDo que foi em legado ao porvir,E o presente, que em breve ha-de o olvidoCom o seu amplo manto cubrir.Contarão as canções do poetaTão-sómente do claustro o segredo.Vai a hera vestir estas pedras:Cahirá este annoso arvoredo.Sim, virá a segure insensataDa montanha o senhor derribar!Rei deste ermo, que os curos insultas,Tu serás o ludibrio do mar.Bem antigo é teu cepo. Tu visteO mosteiro da encosta crescer;Viste o colmo do humilde retiroEm arcadas, em torres volver.Tambem nasce o regato na origemPobre e puro: cem valles passou;Vai já rico, mas turvo e suberbo;Que a torrente desceu e o turbou.Como esta aura suave suspiraPelos bosques, e as ramas meneia!Como a limpha murmura na fonte,Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.Cala, oh ave! Que importam teus cantos?Quem vens tu saúdar, cantor do ermo?É aos mortos? Aos gosos mais purosPôs-lhe a lousa, na terra, já termo.Tua voz costumava o eremitaNos bons tempos folgando sentir:Era imagem do céu, que entre as doresDo desterro lhe vinha sorrir.Mas depois affligiu o malvadoDa avesinha innocente a cantiga;Tal os olhos affeitos a trévasA cerrar-se luz subita obriga.Nunca ao i­mpio na dor deu consoloMeigo som de cadente gorgeio.Que harpa eolia lhe adoça o azedumeDe que seu coração está cheio?Ai do mau, cuja vida travadaVai de sustos mandados do céu!Nunca o sol a acorda-lo tranquilloEm seu brilho dos montes desceu.Mas duas vezes ai delle, se na almaNão lhe soa uma voz pavorosa,Que o atterre, quando o ermo o rodêa,Ao passar da procella ruidosa!IV.É tão doce esta vaga saudade,Na soidão das montanhas colhida,Para quem entre mil tempestadesTransitou pelos campos da vida!Foge a luz: é sol-posto: na aldeiaDá o sino esse triplo signal,Com que o espirito, erguendo-se a Deus,Diz ao dia seu ultimo val;E o pastor, que o rebanho guiavaÁ malhada, descendo do outeiro,Parou lá, e ajoelhou descubertoJuncto ao velho sósinho pinheiro.Gloria a Deus! A oração do crepusculoPelo tronco elevado se ergueu.E a guia-la ante o throno do EternoSancto archanjo das preces desceu.Ao piedoso pastor no chão duroBrando a noite o repouso traráE por certo em seu leito da morteMais tranquillo inda o somno será.A estas horas, talvez, nos combatesUm atheu expirante caíu:Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias!O seu grito final já se ouviu!A luz foge-lhe aos olhos: a espadaApertou: ainda a tenta esgrimir:Não a sente: conhece que morre,Sem, comtudo, deixar de existir.Não o crê: abre os olhos a custo:Nada o ceu, que se enluta, lhe diz:Fecha-os breve; e no extremo soluçoPensa e existe, e a existencia maldiz.E o atheu, que era grande na terra,Uma campa terá magestosa;E ao pastor naquelle adro da aldeiaCubrirá uma gleba relvosa.Como o atheu e o pastor, nas batalhasMil e mil sem alento caíram;Mil e mil, que em seu sangue este solo,Nas fraternas discordias, tingiram!Essas scenas de pranto e de luctoQuem as trouxe a esta terra querida?Foi o monge, que em animos rudesInstillou o furor fratricida.Que pediamos nós? Ver abrir-seAnte nós da familia o larario,E dormir juncto aos ossos paternosSomno extremo n'um pobre sudario:Sim, poder, ao mandar-nos a morteNossos corpos aos vermes ceder,Ao sol bello, e tão bello, da infanciaCom saudade, inda os olhos volver.Respondeu-nos da balla o sibilo;Respondeu-nos o brado da guerra!Combatemos. Pertencem na patriaA qualquer sete palmos de terra.Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da luctaSabe Deus qual a sorte será:Mas á sombra do teixo da infanciaO proscripto infeliz dormirá.Cáis em pó o mosteiro; e maldictoO que ergue-lo outra vez intentar,Se não treme ante as núas caveiras,Que insepultas verá branquejar!A VOLTA DO PROSCRIPTO.I.Já suave a sorte duraMostra a face ao desterrado:Porque surge ainda a amarguraEm seu rosto carregado?Vento amigo ao patrio soloPelo mar guia o proscripto,E um sorriso de sonsoloNão lhe luz no rosto afflicto?Corta a proa o mar fremente;O cantor lá se assentouE sua torva e altiva frenteSobre a dextra reclinou.Vem-lhe idéa após idéa,Já tristonha, já serena;Que no gesto lhe vaguêaOra o goso, logo a pena.Coração affeito á mágoaDa esperança desconfia:Desalenta, e em viva frágoa,É-lhe negra a noite, e o dia.Mas se, emfim, lhe tece a sorteÁ existencia um aureo fio,E vencendo o mar e a morteO conduz ao patrio rio,A que mais agora aspiraO mancebo trovador?É por gloria que suspira?Não lhe ri propicio o amor?Não vê perto a terra cara,Que chorou de dor absorto,E nos braços dos que amáraNão terá paz e conforto?Mas silencio!—A fronte erguendo,Elle os olhos poz nos ceuz,E a canção da alma rompendoSussurrou nos labios seus.II.«Rasga as ondas do pégo indomadoLeve barca: já freme o galerno:Susta as iras o rabido hynverno:Torna á patria infeliz trovador.Como bate no seio anciosoCoração que opprimiu a amargura,Quando meiga sorrí a ventura,Quando volve esperança de amor!Esperança, e sómente esperançaCabe áquelle que os mares correu,Quem lhe diz que 'inda não o esqueceuA donzella por quem suspirou?Quem lhe diz não irá n'outros laçosVenturosa encontra-la e infiel,E que a voz do remorso cruelPara a ingrata tremenda soou?Quem lhe diz não irá murchas rosasTão-sómente encontrar sobre a lousa,Onde a amada tranquilla repousa,onde vá juncto della expirar?Esperança, e sómente esperançaCabe áquelle que os mares correu:Ella só resta áquelle que o ceuLongos dias de dor fez passarEu traguei estes dias de lucto;Encarei muitas vezes a morte;Pude o louro colhêr dado ao forte:Tambem myrto de amor colherei?Ou o arbusto que outr'ora plantára,Que por mim cultivado crescêra,Que entre angustias jámais me esquecêraEsquecido por ella acharei?Como além desse cabo, que escondeVerdes aguas do meu patrio Tejo,A alma levam saudade e desejo!Como atraz a compelle o terror!Ledo o nauta saúda a guarídaAonde incolume o vento o ha guiado,E alegrou esse olhar carregadoCom que insulta do mar o furor.Feliz nauta, em teu seio tranquilloPulsa em paz coração baixo e rude;Fado amigo negou-te o alaúde:Deu-m'o a mim:—para prantos m'o deu.Nunca, pois, surgirá uma auroraEm que nelle resoe a alegria,E em que o triste, que a dor opprimia,Erga um hymno de jubilo ao céu?Nunca rir-me propicia a venturaSobre a terra verão estes olhos?Será sempre cuberto de abrolhosAgro trilho que á morte conduz?Ou nas trévas da minha existenciaSurgirá inda um dia radioso,Como, ás vezes, em céu tenebrosoRompe o sol com torrentes de luz?»III.Já no porto a leve barcaLonga esteira desdobrou,E ao clarão final do diaFerreo dente ao mar lançou.Eis as plagas da saudade;Eis a terra de seus sonhos;Eis os gestos tão lembrados;Eis os campos tão risonhos!Eis da infancia o tecto amigo;Eis a fonte que murmura;Eis o céu puro da patria;Eis o dia da ventura!...IV.Foi o cantor feliz?—Em breves diasViu-se cruzar errante incertos mares.Sob o tecto paterno anciada noiteElle passou; e o somno socegadoNão lhe cerrou os olhos lachrymosos.Conta-se que o seu amor fôra trahido,E que mirrado achou de amor o myrto,Que deixára viçoso, e que saudáraDesde além do oceano em seu deli­rio.Sobre a proa outra vez indo assentar-se,Não entoou um hymno de alegria.Com ar sinistro e torvo e os labios mudosCorreu co' a vista as ondas inquietas,E, porventura, a idéa que as passáraNas asas da esperança, e que a esperançaTinha expirado ao limiar do goso,Mais lhe turbou a fronte carregada.O misero sorriu-se. Em tal sorrisoO passado e o futuro estava impresso,E da sua alma a dolorosa noite.V.Não mais o trovador no lar da infanciaRepousará talvez: talvez sua harpaDurma pendente em solitario troncoDo pinheiro bravio, onde a desfaçaO sôpro do aquilão. Ao desditosoSonho de gloria e amor tinha emballado;Mas foi sonho, e passou, e uma existenciaNua d'encantos despregou-se ante elle.Quem o consolará?—De fogo essa almaConsolo não terá, nem quer consolo.A maldicção de Deus vestiu-lhe a vidaDe padecer e lagrymas. IgnotoSerá ao mundo que surgiu na terraO genio de um cantor, bem como plantaMorta apenas saída á flor do solo,Ou como a aragem da manhan, que passaAntes de o sol nascer, em dia estivo.E que importa essa gloria ao dono della?Esse fructo do Asphaltite que encerraSenão cinza em involucro formoso?Que é o eccho de um nome, que não soaSenão sobre o sepulchro do que impressoNa fronte o trouxe, em meio de amarguras,Por vezes de ignominias?

Nos gonzos ferrugentos range a portaDo tugurio do pobre adormecido,

E descuidado;

Que do mendigo o umbral patente é sempre,Nem carece de estar, como o do rico,

Aferrolhado.

O bom do velho ao sobresalto acorda,E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,

E o pranto é mudo;

Mas breve um grito e o soluçar e os beijosE o sonho que passou e a voz do sangue

Lhe dizem tudo.

Não mais sob o carvalho ao velho honradoEsmoladora mão o peregrino

Estenderá:

Meigos lhe sorrirão extremos dias,E as suas cinzas filial gemido

Consolará.

O sol rubro, em leitoDe nuvens descendo,Tremente, crescendo,No mar se ia a pôr.Sentado no barco,Que a onda embalava,Scismando cantavaO bom pescador.A paz da sua almaNo olhar exprimia,E a voz traduziaScismar do cantor:E o canto serenoLevava-lho a brisa,Que á tarde deslisaCom meigo frescor.«Acabem de todoNo prado as boninas,E em vastas campinasNão surja uma flor;Dispa-se o ameeiroDa folha viçosa,E o Tejo em lodosaMude esta azul côr;O vento geladoSó reine e as procellas;Das vivas estrellasSe apague o fulgor:O sol radiosoEm nuvens se envolva,E á terra não volvaSeu grato calor;Que do horrido inverno,Comtigo, oh serrana,Na minha choupanaRirei do furor!Não pensa se as veigasSe vestem de relva,Se está nua a selvaDo lindo verdor;Nem ouve os rugidosDo vento inquietoQuem, sob o seu tecto,Se abriga no amor.Nasci, eduquei-meN'um mundo mais nobre,Agora sou pobre,Sou um pescador.Ás bordas do abysmoChegou-me a ventura;Medí delle a altura,Descí sem pavor.Co'a dita se enlaçaHumilde existencia,Se do homem a essenciaO orgulho não fôr.Emquanto de paços,De ferteis devesas,Emfim, de riquezasEu pude dispor,O somno tranquilloA mim não descia,Que o ferro temiaDo vil salteador.Na minha alma, immersaEm noite e amargura,Pesava bem duraA mão do Senhor!Agora misturoDo rude oceanoNas vagas, ufano,O honrado suor;Agora serenoVem dia após dia,E a noite sombriaNão cerca o temor;Porque entre teus braços,Esposa querida,Me esqueço da lidaDo mar bramidor.Da vida no sonhoQue importa vil ouro,Se tu és thesouroPerpetuo de amor;Se ainda em teus labios,Oh cara consorte,Virá doce a morteMinha alma depor?Nas ribas fragosas,Que os ventos castigam,E as ondas fustigamCom longo fragor,Ao pé da ermidinha,Nesse adro tão só,Envoltos no pó,Sem goso, sem dôr,Tranquillos, obscuros,Privados de luz,Á sombra da cruzDo Deus Redemptor,De ti só lembrados,Em triste oração,Os restos serãoDo teu pescador.

Erit tristis et moeretis.Isai­as.

Terra cara da patria, eu te hei saudadoD'entre as dores do exilio. Pelas ondasDo irrequieto mar mandei-te o choroDa saudade longi­nqua. Sobre as aguas,Que de Albion nas ribas escabrosasVem marulhando branqueiar de escumaA negra rocha em promontorio erguido,D'onde o insulano audaz contempla o immensoImperio seu, o abysmo, aos olhos turvosNão sentida uma lagryma fugiu-me,E devorou-a o mar. A vaga incerta,Que róla livre, peregrina eterna,Mais que os homens piedosa, irá depo-la,Minha terra natal, nas praias tuas.Essa lagryma acceita: é quanto pódeDo desterro enviar-te um pobre filho.No silencio da noite, em sólo estranho,Patria minha gentil, em ti pensando,Para os astros de Deus olhei: fulgiam,Neste céu achatado, tristementeCom luz mortiça e pallida, não ricosDe inspiração e amor, quaes lá refulgem.Pela sombra ameni­ssima, que chamaDo affastado oriente o sol no occaso,No teu profundo céu has-de tu vê-los:Do desterrado filho os votos levam:Acceita-os delles, desgraçada patria!Já se acercava o tenebroso inverno;Vinha fugindo a rapida andorinha,Para um abrigo te ir pedir, oh patria,Em cujos valles nunca alveja a neve:Juncto de mim passou: em suas azasTambem mandei o filial suspiro.Pelo dorso das vagas rugidorasEu corri de além mar para estas plagas.Pelas antenas, em nublada noite,Ouvi o vento sul que assobiava,E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:Seu rijo sopro refrescou-me as veias.....................................................

Que ferreo coração esquece a terra,Que lhe escutou os infantís vagidos,E lhe bebeu as lagrymas primeiras,Preludio a tantas que no curto espaçoDa vida ha-de verter? Quem, nunca, esqueceO tecto paternal, embora adejeAo redor delle o medo de tyrannos?Quem não deseja misturar, na morte,Com a gleba nativa o pó de extincto,E murmurar seu ultimo suspiroAlli, onde primeiro a luz diurnaO allumiou na rapida passagemEntre o nada e o morrer, chamada a vida?Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo,Um sonho mau, de que se acorda em trévas,Na valla dos cadaveres, em meioDa unica herança que pertence ao homem,Um sudario e o perpetuo esquecimento.A infancia é dormir placido: inquietaA mocidade é, já; mas entre doresVem o amar e esperar, e a crença ardente,E affectos sanctos consolar quem dorme:Pouco a pouco, porém, sobre a jazidaDo sonhador, do mal se assenta o anjo,E as imagens ridentes da venturaCo' as negras asas dispersando ao longe,Com duro pé o coração lhe opprime.Oh, no grabato meu bem cedo esse anjoVeio assentar-se, e o juvenil enleioDe affectos puros em dormir serenoAffugentou de mim. Vagueei nos mares;Peregrinei na terra: em toda a parteO pé maldicto me esmagou o peito,E da patria a saudade, em sonho triste,Immovel, do viver me tece a noite.................................................

Solidão, solidão, quem diz que existesOnde não soa tumultuar das turbasMentiu-te a essencia! Solidão e morteSão uma idéa só; um pensamentoDoloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle,Onde haja o sol da minha patria, e a brisaMatutina e da tarde, e a vinha e o cedro,E a larangeira em flor, e as harmoniasQue a natureza em vozes mil murmuraNa terra em que eu nasci, embora falteNo concerto immortal a voz humana,Que um ermo assim povoará meus dias.Mas aqui!... Que me importa o murmurioDos que passam? Que vale essa campinaHumida e verde, e no gelado pégoRaio do sol que se refrange turvo?É o desterro solidão e mortePara o poeta: embora estranha linguaLhe revele o pensar, o intimo verboQue em ar vibrado traduziram labios,Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selvaNão tem para lhe dar um pensamentoDe poesia e de amor?

Não! Tudo é pallido,

Tudo é morto e sósinho e silenciosoComo um sepulchro e um cemiterio!

E ainda

Campas e adros inspiram, quando hi dormemNossos irmãos e paes, porque tem lagrymasQue desopprimem a alma; tem memorias,Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurramPreces, que alli vamos guardar, qual guardaO avaro em ferreo cofre os seus thesouros,Para os contar hoje, ámanhan e sempreEmquanto vivo for.

E cá? O engenho

Nem crê, nem sente bafejar-lhe um cantoO crepusculo, a lua, a aragem fresca,O arrebol da manhan, ou céu serenoPor noite escura recamado de astros.Harpa meridional, porque, no extremoDa terra patria, o trovador erranteNão deixaste partir só com seus males?Porque vieste, oh filha do occidente,Cruzando os mares embrenhar-te em nevoasDe céu septentrional? Tu, pobresinha,Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,Sem haver mão que te vibrasse as cordas,Jazesses esquecida, ainda soárasCom incerta harmonia. Ás horas meigasEm que o dia se esvai, placida a brisa,Que espira do oceano e encrespa as vagas,Passaria por ti, e te agitára,E murmuráras som que responderaTrémulo, fraco, á flauta dos pastoresSussurrando suave entre as quebradasDa montanha selvosa. E aqui? És muda;És muda, que essas cordas carcomiu-t'asEste ar gelido e turvo, e qual o engenhoDe teu dono, no viço da existencia,Envelheceu, envelheceste, oh harpa!....................................................

Berço do meu nascer, sólo querido,Onde crescí e amei e fui ditoso,Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!Quando, aterrado ante o minaz aspectoDo anjo de Deus, tremente vagueiavaNosso primeiro pae em volta do Éden,Não lhe tecia tanto de amargurasA vida o duro affan com que trocavaPelo pão o suor co' a avara terra;Não era tanto o traspassar-lhe os membrosO hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'osO sol estivo, e o magoar, errante,Os pés feridos nos tojaes braviosPelas sendas que abria em ermos valles,Como as saudades de passados tempos,Dessa infancia viril, em que surgira,Para viver e amar, do barro inerte;Não o pungia tanto o mal presenteComo a recordação dos claros diasDe innocencia e de paz que alli vivêra.A primavera eterna, as auras puras,O murmurar do arroio, o canto da ave,O frémito do bosque, o grato aromaE o vistoso matiz do ameno prado,O lago quedo a reflectir a lua,As montanhas tão ricas de mysterios,De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhosVingadora a memoria inexoravel.Por entre a bruma da estação chuvosaPassavam-lhe de abril perfumes, galas;Sob estuoso sol vinha a saudadeDizer-lhe o sussurrar do manso arroioE o ramalhar dos platanos copados.Por tenebrosas noites de procella,Quando a torrente e o vendaval bramiam,Cria d'entre o fragor ouvir romperemOs matutinos canticos das aves,E ver no pégo reflectir-se a lua.Longe, assim, do seu berço, o criminosoCom dura punição remia o crime:Mas para o consolar na senda agreste,Em cujo termo o esperava a morte,O severo juiz deixára ao tristeDe uma esposa querida o seio casto,Onde aspirar o amor, olhos que o prantoMisturassem co'o seu. Perdendo a patriaPerdia encantos só de naturezaFormosa e juvenil. As harmoniasDos corações, os misticos affectosNão lhe truncou a espada flammejanteDo cherubim ao repelli-lo do Éden:Para elle a patria renasceu no exilio.Eu, prófugo como elle, o Éden nativoPerdí; e perdí mais. DespedaçadosOs affectos de irmão, de amante, e filhoRestam-me na alma qual buída frecha,Que no peito ao cravar-se estala e deixa,Cahindo, o ferro na ferida occulto.................................................

Oh meu pae, oh meu pae, como a memoriaMe reflecte, alta noite, a tua imagemPor entre um véu de involuntario pranto!Quão triste cogitar em mim despertaA imagem cara! Á noite, o bom do velhoAs bençams paternaes de Deus co' as bençamsSobre minha cabeça derramava,E ao começar o dia; e ellas desciamA um coração exempto de remorsosOnde encontravam filial piedade.E agora? É-lhe mysterio o meu destino.Qual o seu para mim o exilio occulta.Saciado, talvez, de dor e affrontasDorme já sob a campa o somno eterno?Suas trémulas mãos não mais lançar-meVirão a bençam da piedade? O extremoArranco seu não roçará meus labios?Ah, se um dia raiar para o proscriptoO suspirado alvor do sol da patria,E se entre nós de um í­mpio as mãos ergueramA barreira da morte, ai delle, ai delle!E tambem, ai de mim!.............................................. Mas se 'inda um filhoHouver digno de o ser, eu criminosoTerei quem me deplore; mãos que plantemNo adro deserto onde jazer maldictoUm cypreste, uma flor, e quem deponhaAos pés do throno do juiz supremoPor mim, uma oração fervente e pia....................................................

Arvores, flores, que eu amava tanto,Como viveis sem mim? Nas longas vias,Que vou seguindo peregrino e pobre,Sob este rude céu, entre o ruídoDos odiosos folgares do sicambro,Do monotono som da lingua sua,Pelas horas da tarde, em varzea extensa,E ás bordas do ribeiro que murmura,Diviso ás vezes, em distancia, um bosqueDe arvoredo onde bate o sol cadente,E vem-me á idéa o laranjal viçosoE os perfumes de abril que elle derrama,E as brancas flores e os dourados fructos,E illudo-me: essa varzea é do meu rio,Esse bosque o pomar da minha terra.Aproximo-me; o sonho de um momentoEntão se troca em acordar bem triste,Como surge e se esvai por entre as nevoasVulto indeciso nos cantares d'Ossian.É uniforme e torva esta verdura,Acre o cheiro que exhala este arvoredo,Mal-assombrado o rio, humido o valle,Frio do sol o raio derradeiroEspirando neste ar denso e pesado,Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,E rouba aos olhos horisonte immenso.Ai, pobres flores que eu amava tanto,Por certo não viveis! O sol pendeu-vosMirradas folhas para o chão fervente:Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,E morrestes. Morrestes sobre a terra,Que por cuidados meus vos educára.E eu? Talvez nestes campos estrangeirosMinha existencia o fogo da desditaFaça pender, murchar, ir-se mirrandoSem que torne a ver mais esses que amava,Sem que torne a abraçar a arvore annosa,Que se pendura sobre a limpha claraLá no meu Portugal, onde a frescuraDa ribeira perenne, da florestaTem valor, porque o sol tem luz, tem vida!...........................................................

Eu já vi n'uma ilha arremessadaÁs solidões do mar, entre os dous mundos,Vestigios de volcões que hão sido extinctosEm não-sabidos seculos. Scintillam,Aqui e alli, nos areientos plainos,Onde espinhosas sarças só vegetam,Restos informes de metaes fundidosPelas chammas do abysmo, entre affumadasPedras que em parte amarellece o enxofre,Que a lava em rios dispersou, deixandoSó delle a côr em lascas arrancadasDas entranhas dos montes penhascosos.A natureza é morta em todo o espaçoQue ella correu, no dia em que, rugindo,Da cratéra fervente, á voz do Eterno,Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,A engoliu e passou, qual sumiriaDe soçobrada nau celeuma inutil.Tal é meu coração. Bem como a lavaÉ o desterro ao trovador. Meus olhosHão-de esquecer as lagrymas; que a seivaDo vivido sentir vai-se queimandoAo suão mirrador de atroz saudade,Que excede tudo em dor; excede a de orpham,De viuva, de mãe que sobre o berçoVê jazer morto o pallido filhinho.E porquê? Porque ahi ha inclinar-seSobre o corpo do extincto; ha despedir-seCom suspiros e prantos desses restos,Que vão quedos dormir em adro antigo,Onde os avós já dormem; onde ha patria,Ha fami­lia, ha irmãos.—Cá, tudo é ermo,E a dor está no coração do prófugoComo um cadaver hirto quando esperaDe noite, em leito nú, que á tumba o desçam.A dor aqui é gelida, immutavel;Pousa em labios alheios que sorriem,E até em sorrir nosso; está sentadaAo pé do umbral do tecto que nos cobre,Embebida na enxerga do repouso,Entranhada no pão que nos esmolam,Enroscada, qual cobra peçonhenta,No nodoso bordão do peregrino,E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.E depois, o morrer em leito alheio;Despedir-se de um sol que não é esse,Que, na infancia, nos fez florir os prados,Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;Volver em torno os olhos moribundosE não ver uma lagryma; inclinar-seE não achar um seio feminino,Ou de esposa ou de mãe, onde repouseA fronte accesa por ardente febre;E pensar entre as ancias derradeiras,Que será terra estranha a que nos trague;Que será til do norte o que protejaNosso humilde moimento, a verde gleba,Onde de pinho a cruz por dous invernosApenas luctará co'a negra nuvemDo esquecimento eterno, unica herançaDo que expirou no exilio!

Amarguradas

São taes cogitações para o que senteNo seio em ondas trasbordar-lhe a vida.Quaes, porém, não virão ao pobre velho,Que, arrancado das bordas do seu tumulo,Foi por cima dos mares arrojadoPara juncto do umbral de um cemiterio,Onde não achará paternos ossos,Para ao pé delles se deitar morrendo?!......................................................

Quando nos luz o sol no céu da patria,Embora sobre nós verta a desditaTorrentes de amargura, ha um consolo:É o altar e a oração. Ao desterradoNem sequer isso resta. O templo alheioÉ como ermo de Deus; como que paramNesse craneo de marmore arqueadoDo gigante edificio as tristes precesEm lingua estranha proferidas. GelidasE duras são do pavimento as lageasPara quem sabe certo não o escutamMortos que muito amou; que nesse tectoVai bater frouxa uma oração discordeEntre mil orações.

«É falso! É impio!—

A razão o dirá—De Deus o temploÉ o mundo. No cimo das montanhasO nome do Senhor sussurra em soproDo vento que passou rasgando as asasPelo cardo bravio; a gloria delleDi-la o rolo do mar correndo á praia;É o seu hymno o canto da avesinhaNo salgueiro que pende e se balouçaSobre o arroio do valle, e é do regatoO murmurinho o cantico nocturnoMandado pela terra silenciosaQual suspiro fraterno, aos soes e aos mundosQue pelos céus harmoniosos gyram.Esses montões de cinzeladas pedrasDe columnas e torres, que se elevamComo as mãos junctas de quem resa, apenasSão um memento da oração, um marcoPosto no ermo da vida, que nos lembreQuem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,Que é senhor e que é rei, que é pae e entendeO vento, o mar, os astros, a avesinha,O sussurrar do arroio humilde, e as precesDe milhões d'orbes em milhões de li­nguas.»Ao brado da razão só não se dobraO coração do desterrado!

Embora

Sob as asas do amor abrigue o EternoHomens, nações e o mundo: o amor por elleNasce, cresce, vigora-se enredadoCom os beijos de mãe, com sorrir meigoDe nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,O pôr do sol da nossa terra, o choupoDa nossa fonte, o mar que manso geme,Nosso amigo da infancia, em praia amiga.Quando isso tudo se converte em sombra,Que em confuso passado apenas surgeQual fumo tenuissimo ou phantasmaÁ meia-noite visto, á luz da lua,Ao longe entre arvoredo: quando o soproDa tempestade assobiou nas trévasPela antena da nau do vagabundo;Quando a dor sua em olhos de ente vivoNão achou uma lagryma piedosa,E nos seus proprios são vergonha as lagrymas,Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,Não sobre seio que as esconda e enchugue,Mas sobre a vaga que se arqueia, e passaSem as sentir; então o soffrimento,Filho de longo padecer, converteO coração do desditoso em marmore,Onde nunca penetra um puro affecto,Onde o nome de Deus soçobra e morreEntre o bramir de maldicções e pragas.Oh, do desterro o mal supremo é este!É o seccar-se o coração; mirrar-seComo a sarça do monte em fins d'estio;É o descrer, e o blasphemar do Eterno.Se aos céus levanta o desgraçado os olhos,É que primeiro os pôs lá no futuro,E, bem que tenue luz, um fulgorzinhoPor entre as sombras lhe sorriu fagueiro:Mas quando se ergue um muro intransitavelEntre nós e a ventura; quando ao longePelos campos da vida é tudo pallidoE perece a esperança, então a menteRecúa com horror, e dando em terra,Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,.........................................................

No mosteiro vai fundo o silencio;Um silencio que gera terror;Só nos tectos, que banha o luar,Sólta o mocho seu pio de horror:Só o vento que gyra nos pateos,E se engolfa na escada ogival,Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,Que ladeiam normando portal.Meia noite. E na crasta desertaNão reboam os ecchos do sino,Que, vagando, murmuram nas cellas:—São as horas do officio divino.»Meia noite! Bem como na torreVoz de bronze dormente parece,Tal o monge, na dura jazida,Priguiçoso do templo se esquece.Monge, o brado nocturno do sinoAo resar não te chama, é verdade;Mas talvez já no topo do côroSomnolento te espera o abbade.Nada quebra o remanso da noitePelas gothicas, vastas arcadas:Nem de quicios ranger vagaroso,Nem murmúrio de lentas passadas.«Está só o mosteiro?—

Este grito

Repetiram-no os ecchos inteiro;E, bem como em resposta á pergunta,Retumbou:

—Está só o mosteiro!»

Pouco ha inda, na alta noitePassava no espaço a lua,Dos ulmos a cima ondeavaNegra, qual ora fluctua:Mas tenebroso silencioNão ía, como ora vai:Bradava o sino da torreAos monges dizendo:—orae.»E pelos vidros córadosReverberava fulgor;De passos no longo claustroSoava tenue rumor.Depois, lá dentro na igreja,Em côro alterno rompiaO canto lento dos monges,Que ás vozes do orgam se unia:

Porém, como se ao sopro do archanjoA trombeta final retumbasse,E da vida o tumulto na terraAo terrivel signal expirasse,Assim do orgam calou a harmonia,E dos córos os hymnos calaram,E os fulgores das lampadas frouxosDas vidraças não mais transudaram.

É que o filho dos ermos, renegando

Das tradições antigas,

Desceu a pelejar na ardente arena

Das facções inimigas.

Amar, soffrer, orar era a existencia

Que lhe talhára a sorte;

Enxugar muitas lagrymas na terra,

E repousar na morte;

Realisar té onde é dado ao homem

Esse typo ideal,

Que nos legou o Salvador, tomando

Nossa veste mortal.

E não o quiz. Sacrilego, do pobre

A herança, que a piedade

Confiára ao ministro de uma crença

Que é toda caridade,

Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,

No altar impio da guerra,

E, abrindo o manto, sacudiu irado

A assolação á terra.

De noite no bosque,Na gandra deserta,No viso do monte,Do valle na aberta,Á luz das estrellasAs armas fulgiam,E ouviam-se ao longeCorceis que nitriam:Horrendo prophetaO abutre passava,E sobre as encostasCalado pairava:Depois, na alvorada,Com gritos sem fimSaudava do sangueVizinho o festim.

E á voz das trombetas,Ao trom dos canhões,Ao som das passadasDe vinte esquadrões;E em meio do fogo,Do fumo alvacento,Em rolos ondeandoNas asas do vento,De agudas baionetasA renque brilhanteTremente avançava,Ao brado de—ávante!»E ao baço ruí­doDos leves ginetes,No plaino calcandoDa relva os tapetes,Os ferros cruzadosLuctavam tinindo,Peões, cavalleirosDe involta ruindo,E a ferrea granadaNos ares zumbia,E aos seios das alasQual raio descia.E aos ares, revolta,A terra espirrava,E o globo encendidoUm pouco se alçava,E prenhe de estragos,Com fero estampido,Mandava mil golpes,Em rachas partido.

E as horas passavamEm scenas de morte;E o abutre miravaOs trances do forte.

Na garganta da serra ou sobre o outeiro,Pelo pinhal da encosta ou na campina,Nesse dia de atroz carnificina,Negros uns vultos vagueiar se viam:A cruz do Salvador na esquerda erguida,Na dextra o ferro, preces blasphemando,«Não perdoeis a um só!—feros bradando,Entre as fileiras rapidos corriam:

E era o monge que bradava,E era o monge que corria,E era o monge que, blasphemo,Preces vans a Deus fazia;Vans que, á tarde, nesse plainoNo sangue d'irmãos retincto,Só restava o moribundo,O cadaver só do extincto.E por gandras e por montes,Aterrados, perseguidos,Em desordenada fugaRetiravam-se os vencidos.E os vencidos eram essesQue a esperança da victoriaArrastára, miserandos,A uma guerra i­mpia, sem gloria!

Lá dos gritos de raiva baldadaRestrugia o confuso clamor,E o gemido do mau desgraçadoNa alma oppressa gerava terror.Cáia em pó o mosteiro; e maldictoO que ergue-lo outra vez intentar,Se não treme ante as nuas cáveiras,Que insepultas verá branquejar!

Surge a luz da alvorada. PodessemDessas campas geladas que vejoOs bons monges dos tempos antigosSurgir vivos á voz de um desejo!E que ao longo das vastas arcadasSe escutassem seus passos serenos,Como se ouve o tranquillo regatoSussurrar nestes campos amenos!Quem então não curvára ante o velho?Quem a bençam da mão descarnada,Como a bençam do céu, não pedíraDa virtude ao poder confiada?Quem ousára soltar no desertoEstridente clangor da trombeta,E fazer scintillar pela noiteA cruel decisiva baioneta?Quem ousára o sorriso do insultoJuncto ao negro edificio soltar,E com goso, na mente, por terraSuas grimpas jazendo pintar?Mas ha muito que os bons se finaram;Mas ha muito que ás dores fugiram,E depois, nesses velhos sepulchrosQuantos maus inquietos dormiram!Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomesPereceram: ninguem o dirá.O que o sabe os julgou; e do abysmoNem um ai o cantor tirará.Mas, oh harpa, transmitte as saudadesDo que foi em legado ao porvir,E o presente, que em breve ha-de o olvidoCom o seu amplo manto cubrir.Contarão as canções do poetaTão-sómente do claustro o segredo.Vai a hera vestir estas pedras:Cahirá este annoso arvoredo.Sim, virá a segure insensataDa montanha o senhor derribar!Rei deste ermo, que os curos insultas,Tu serás o ludibrio do mar.Bem antigo é teu cepo. Tu visteO mosteiro da encosta crescer;Viste o colmo do humilde retiroEm arcadas, em torres volver.Tambem nasce o regato na origemPobre e puro: cem valles passou;Vai já rico, mas turvo e suberbo;Que a torrente desceu e o turbou.Como esta aura suave suspiraPelos bosques, e as ramas meneia!Como a limpha murmura na fonte,Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.Cala, oh ave! Que importam teus cantos?Quem vens tu saúdar, cantor do ermo?É aos mortos? Aos gosos mais purosPôs-lhe a lousa, na terra, já termo.Tua voz costumava o eremitaNos bons tempos folgando sentir:Era imagem do céu, que entre as doresDo desterro lhe vinha sorrir.Mas depois affligiu o malvadoDa avesinha innocente a cantiga;Tal os olhos affeitos a trévasA cerrar-se luz subita obriga.Nunca ao i­mpio na dor deu consoloMeigo som de cadente gorgeio.Que harpa eolia lhe adoça o azedumeDe que seu coração está cheio?Ai do mau, cuja vida travadaVai de sustos mandados do céu!Nunca o sol a acorda-lo tranquilloEm seu brilho dos montes desceu.Mas duas vezes ai delle, se na almaNão lhe soa uma voz pavorosa,Que o atterre, quando o ermo o rodêa,Ao passar da procella ruidosa!

É tão doce esta vaga saudade,Na soidão das montanhas colhida,Para quem entre mil tempestadesTransitou pelos campos da vida!Foge a luz: é sol-posto: na aldeiaDá o sino esse triplo signal,Com que o espirito, erguendo-se a Deus,Diz ao dia seu ultimo val;E o pastor, que o rebanho guiavaÁ malhada, descendo do outeiro,Parou lá, e ajoelhou descubertoJuncto ao velho sósinho pinheiro.Gloria a Deus! A oração do crepusculoPelo tronco elevado se ergueu.E a guia-la ante o throno do EternoSancto archanjo das preces desceu.Ao piedoso pastor no chão duroBrando a noite o repouso traráE por certo em seu leito da morteMais tranquillo inda o somno será.A estas horas, talvez, nos combatesUm atheu expirante caíu:Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias!O seu grito final já se ouviu!A luz foge-lhe aos olhos: a espadaApertou: ainda a tenta esgrimir:Não a sente: conhece que morre,Sem, comtudo, deixar de existir.Não o crê: abre os olhos a custo:Nada o ceu, que se enluta, lhe diz:Fecha-os breve; e no extremo soluçoPensa e existe, e a existencia maldiz.E o atheu, que era grande na terra,Uma campa terá magestosa;E ao pastor naquelle adro da aldeiaCubrirá uma gleba relvosa.Como o atheu e o pastor, nas batalhasMil e mil sem alento caíram;Mil e mil, que em seu sangue este solo,Nas fraternas discordias, tingiram!Essas scenas de pranto e de luctoQuem as trouxe a esta terra querida?Foi o monge, que em animos rudesInstillou o furor fratricida.Que pediamos nós? Ver abrir-seAnte nós da familia o larario,E dormir juncto aos ossos paternosSomno extremo n'um pobre sudario:Sim, poder, ao mandar-nos a morteNossos corpos aos vermes ceder,Ao sol bello, e tão bello, da infanciaCom saudade, inda os olhos volver.Respondeu-nos da balla o sibilo;Respondeu-nos o brado da guerra!Combatemos. Pertencem na patriaA qualquer sete palmos de terra.Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da luctaSabe Deus qual a sorte será:Mas á sombra do teixo da infanciaO proscripto infeliz dormirá.Cáis em pó o mosteiro; e maldictoO que ergue-lo outra vez intentar,Se não treme ante as núas caveiras,Que insepultas verá branquejar!

Já suave a sorte duraMostra a face ao desterrado:Porque surge ainda a amarguraEm seu rosto carregado?Vento amigo ao patrio soloPelo mar guia o proscripto,E um sorriso de sonsoloNão lhe luz no rosto afflicto?Corta a proa o mar fremente;O cantor lá se assentouE sua torva e altiva frenteSobre a dextra reclinou.Vem-lhe idéa após idéa,Já tristonha, já serena;Que no gesto lhe vaguêaOra o goso, logo a pena.Coração affeito á mágoaDa esperança desconfia:Desalenta, e em viva frágoa,É-lhe negra a noite, e o dia.Mas se, emfim, lhe tece a sorteÁ existencia um aureo fio,E vencendo o mar e a morteO conduz ao patrio rio,A que mais agora aspiraO mancebo trovador?É por gloria que suspira?Não lhe ri propicio o amor?Não vê perto a terra cara,Que chorou de dor absorto,E nos braços dos que amáraNão terá paz e conforto?Mas silencio!—A fronte erguendo,Elle os olhos poz nos ceuz,E a canção da alma rompendoSussurrou nos labios seus.

«Rasga as ondas do pégo indomadoLeve barca: já freme o galerno:Susta as iras o rabido hynverno:Torna á patria infeliz trovador.Como bate no seio anciosoCoração que opprimiu a amargura,Quando meiga sorrí a ventura,Quando volve esperança de amor!Esperança, e sómente esperançaCabe áquelle que os mares correu,Quem lhe diz que 'inda não o esqueceuA donzella por quem suspirou?Quem lhe diz não irá n'outros laçosVenturosa encontra-la e infiel,E que a voz do remorso cruelPara a ingrata tremenda soou?Quem lhe diz não irá murchas rosasTão-sómente encontrar sobre a lousa,Onde a amada tranquilla repousa,onde vá juncto della expirar?Esperança, e sómente esperançaCabe áquelle que os mares correu:Ella só resta áquelle que o ceuLongos dias de dor fez passarEu traguei estes dias de lucto;Encarei muitas vezes a morte;Pude o louro colhêr dado ao forte:Tambem myrto de amor colherei?Ou o arbusto que outr'ora plantára,Que por mim cultivado crescêra,Que entre angustias jámais me esquecêraEsquecido por ella acharei?Como além desse cabo, que escondeVerdes aguas do meu patrio Tejo,A alma levam saudade e desejo!Como atraz a compelle o terror!Ledo o nauta saúda a guarídaAonde incolume o vento o ha guiado,E alegrou esse olhar carregadoCom que insulta do mar o furor.Feliz nauta, em teu seio tranquilloPulsa em paz coração baixo e rude;Fado amigo negou-te o alaúde:Deu-m'o a mim:—para prantos m'o deu.Nunca, pois, surgirá uma auroraEm que nelle resoe a alegria,E em que o triste, que a dor opprimia,Erga um hymno de jubilo ao céu?Nunca rir-me propicia a venturaSobre a terra verão estes olhos?Será sempre cuberto de abrolhosAgro trilho que á morte conduz?Ou nas trévas da minha existenciaSurgirá inda um dia radioso,Como, ás vezes, em céu tenebrosoRompe o sol com torrentes de luz?»

Já no porto a leve barcaLonga esteira desdobrou,E ao clarão final do diaFerreo dente ao mar lançou.Eis as plagas da saudade;Eis a terra de seus sonhos;Eis os gestos tão lembrados;Eis os campos tão risonhos!Eis da infancia o tecto amigo;Eis a fonte que murmura;Eis o céu puro da patria;Eis o dia da ventura!...

Foi o cantor feliz?—Em breves diasViu-se cruzar errante incertos mares.Sob o tecto paterno anciada noiteElle passou; e o somno socegadoNão lhe cerrou os olhos lachrymosos.Conta-se que o seu amor fôra trahido,E que mirrado achou de amor o myrto,Que deixára viçoso, e que saudáraDesde além do oceano em seu deli­rio.Sobre a proa outra vez indo assentar-se,Não entoou um hymno de alegria.Com ar sinistro e torvo e os labios mudosCorreu co' a vista as ondas inquietas,E, porventura, a idéa que as passáraNas asas da esperança, e que a esperançaTinha expirado ao limiar do goso,Mais lhe turbou a fronte carregada.O misero sorriu-se. Em tal sorrisoO passado e o futuro estava impresso,E da sua alma a dolorosa noite.

Não mais o trovador no lar da infanciaRepousará talvez: talvez sua harpaDurma pendente em solitario troncoDo pinheiro bravio, onde a desfaçaO sôpro do aquilão. Ao desditosoSonho de gloria e amor tinha emballado;Mas foi sonho, e passou, e uma existenciaNua d'encantos despregou-se ante elle.Quem o consolará?—De fogo essa almaConsolo não terá, nem quer consolo.A maldicção de Deus vestiu-lhe a vidaDe padecer e lagrymas. IgnotoSerá ao mundo que surgiu na terraO genio de um cantor, bem como plantaMorta apenas saída á flor do solo,Ou como a aragem da manhan, que passaAntes de o sol nascer, em dia estivo.E que importa essa gloria ao dono della?Esse fructo do Asphaltite que encerraSenão cinza em involucro formoso?Que é o eccho de um nome, que não soaSenão sobre o sepulchro do que impressoNa fronte o trouxe, em meio de amarguras,Por vezes de ignominias?


Back to IndexNext