Ei-lo o triste signal, signal de morte!Á sua esquiva sorteNão poderão fugir! Meu Deus!LOBNA.PatenteAnte si tudo hão-de encontrar. Se ao menosSuspeitassem de nós!HALEVA.Ei-los! Silencio!SCENA VIII.D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que recuam aterradas.D. PEDRO.Lobna!D. HENRIQUE.Haleva!D. PEDRO.O juramentoO momento é de cumprir!De partir não tarda a hora:Ha-de a auroraRefulgir-nos juncto ao mar.D. HENRIQUE.Sobre os rapidos corceisNós fieis vos guiaremosAonde achemos mil deliciasNas cariciasDe que amor nos vai cercar!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Vinde! a noite nos protege:Dorme tudo pela aldeia;E este braço não receia,Quando cumpre, o pelejar.Vinde ser enlevo d'almas,Sob um céu meigo e sereno;Que nunca ha-de o sarracenoComo nós saber amar!LOBNA.Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.Fugí breve, oh desgraçados,Que cercados sois da morte!Queira a sorte que um momentoSeu intentoA cumprir tarde Gulnar!HALEVA.De ninguem serdes sentidos,Já perdidos, ainda creis!Mal sabeis vos esperavaQuem velavaPara em vós um pae vingar!LOBNA E HALEVA.Triste umbral haveis cruzado,Do wali ultimo abrigo,Que no extremo do perigoJaz a ponto d'expirar.Por seu sangue a feroz filha,Que essas portas franqueiou,Vingativa aos céus jurouVosso sangue derramar.D. PEDRO.A perfidía em recompensaSó achou o nosso ardor?!Desleaes! Porque o furorDe mulher cruel servir?D. HENRIQUE.Porque a vida nos pedieis,No olhar terno amor pedindo,Quando os golpes retinindoEra livre inda o fugir?D. PEDRO E D. HENRIQUE.Porque em noite deliciosaDe delirios seductores,Generosos vencedoresSó pensaveis em trahir?!LOBNA.Uma idéa tenebrosaDe Gulnar surgiu na menteNessa noite, em que estridenteVeiu a espada aqui luzir:HALEVA.«Ide:—disse-nos—sois bellas:Fascinae os nazarenos,Talvez possa assim, ao menos,Da vingança a senda abrir!»LOBNA E HALEVA.A leôa do desertoEntre as cervas se escondia:Seu aceno constrangiaPobre escrava a amor fingir.D. PEDRO E D. HENRIQUE.Com vivacidade e despeito.Era pois um falso affecto?!...LOBNA.Foi-o só um breve instante...HALEVA.Hoje puro, hoje constanteLOBNA E HALEVA.Far-nos-ha por vós morrer.D. PEDRO.Pondo a mão sobre o punho da espada.Que ella venha, pois, e a cerquemSeus escravos traiçoeiros!Portugueses, cavalleirosSomos nós: ha-de tremer!D. HENRIQUE.Sabe o forte nos combatesSe este braço é prompto e duro;O covarde, que no escuroFere só, o ha-de saber!LOBNA E HALEVA.|||||||||||Oh, fugi; que ainda é tempo,Antes de ella aqui volver!4D. PEDRO E D. HENRIQUEPartiremos! Dentro em breveNos vereis aqui volver!O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que vão a sair, param e escutam.CÔRO DE GUERREIROS MOUROS,fóra.Gloria ao sancto propheta que aos impiosA cerviz insolente vergou,E do amir português crueis filhosDo muslim ao punhal entregou!LOBNA E HALEVA.Bateu funerea hora...Morreu nossa esperança!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Resta-nos a vingança...Sangue por sangue... Embora!SCENA IX.Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita, encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.GULNAR.A Lobna e Haleva.Fugir?!... É tarde, infames!Vós me trahieis, vís!Tremei! Gulnar velava...E eu sou vosso juiz!Aos infantes.Deponde inuteis ferros,De Ceuta vencedores!Lá fóra meus guerreiros...Apontando para os eunuchos.Alli meus vingadores.LOBNA.HALEVA.———————————————————————————————————-«Ide trahi-los—Impia, disseste...Mui facil cresteFingir amor.Para trahi-losNos escolheste!..Se nos vencesteFoi por temor.LOBNA E HALEVA.Morrer com ellesÉ grata pena...Feroz hyena,Temos-te horror.D. PEDRO.D. HENRIQUE.———————————————————————————————————-Aos teus escravos,Mulher infida,Mais larga vidaDeixa gosar!Os teus escravosCom mortal lidaA nossa vidaTem de comprar!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Que nunca o sustoNos fez no p'rigoO ferro amigoAbandonar.Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.GULNAR.Da louca audacia,Da van affrontaVingança promptaGulnar vai ter.O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.Mas qual ruídoConfuso soa?Porque reboaVoz do adail?!...Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.Hussein!.. O ferroRetine!.. Gritos!Gemer d'afflictos!Sons de anafil!..Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar fica suspensa.D. PEDRO E D. HENRIQUE.Que escuto?! Lá bradaram:—São Jorge! Ávante, ávante!»Oh jubiloso instante!Restruge o pelejar.GULNAR.Acenando aos eunuchos.Morram os impios! Morram!Servos, rasgae seu peito.Sintam, emfim, o effeitoDos odios de Gulnar.Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem por entre os eunuchos e os dous infantes.SCENA X E ULTIMA.Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros: côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena, e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar, recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva refugiam-se juncto dos infantes.CÔRO DE DONZELLAS.Que horrivel espectaculo!Por toda a parte a morte...CÔRO DE GUER. MOUROS.CÔRO DE CAVALLEIROS.———————————————————————————————————-Ferros inuteis, ide-vos:Cumpra-se a nossa sorte!Cede o agareno timido:Honra ao valor do forte!Depondo os alfanges no chão.Brandindo as armas.D. DUARTE.Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.Vivos ainda, e incólumes!Graças te dou, Senhor!Laços de um impio amorVinha-lhes eu partir...E a morte ia-os ferir!..Graças, oh meu Senhor!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.Foste enganado, e salvas-nos!..Perdoa, nobre infante!Foi de delirio instante,Que ao erro nos levou.LOBNA E HALEVA.Agita ancioso o seioInsolito pulsar;Mas d'horrido receioNão é este agitar!D. DUARTE.Pedro, Henrique, sois salvos! InvencivelA espada portuguesa,Mais uma vez, terrivel,A barbara ferezaDos infiéis domou.O perfido punhal,Da vingança guiado, em vão se alçou...GULNAR.Adiantando-se.Vencestes, nazarenos!Folgae na vossa gloria...Seguí facil victoria.Puní-me! Eis-me captiva...Do vosso amir na proleVingar meu pae eu quiz...Pensando-o era feliz:Agora infeliz sou.Morrer é a esperança,Que o fado me deixou.CÔRO DE CAVALLEIROS.Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.Pune, oh principe, infames traidores:Lava a affronta do sangue real!Dos covardes, em trance fatal,Tinja as faces da morte o pallor!CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.Com gesto supplicante.Por piedade, dos teus seguidoresNão escutes o voto lethal!Generoso, o seu odio infernal,Por piedade, não ouças, senhor!D. DUARTE.Aos cavalleiros.Silencio!Aos mouros.Livres sois.Aos cavalleiros.Nunca aos vencidosSangue pediu meu pae. Eu serei dignoFilho do vosso rei.A Gulnar.Mulher, és livre.GULNAR.Tua clemencia hypocrita,Tyranno, vem mui tarde!Pensas apagar, barbaro,Fogo que immortal arde?!Dá-me Ceuta, a miserrima:Torna-me um pae que expira:Foge das praias d'AfricaServa, que mal respira!Foras assim magnanimo:Grata Gulnar te fora:Sem isso, um favor unico,Prompto morrer te implora!CÔRO DE MOUROS E DONZELLAS.CÔRO DE CAVALLEIROS.———————————————————————————————————-Turba-te a dor e a cólera,Filha de Bensalá:A tua raiva indomitaÉ van e inutil já!Da perfida a van cóleraInutil brame já:Do seu cruel propositoElla nos vingará.Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.D. DUARTE.Tomando pela mão as duas escravas.Não!... Innocentes victimasD'impios não deveis ser!O vosso amor ingenuoCumpre-vos esquecer;Mas a vingança barbaraNão vos entregarei.A Portugal seguindo-nosOlhando para os infantes com aspecto severo.Eu vos protegerei!LOBNA E HALEVA.Só ir nos concedeO fado inhumanoAlém do oceanoDe amor expirar!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Nest'hora solemneDo peito no arcanoNosso amor insanoJuramos calar.D. DUARTE.Da nossa clemenciaAprenda o africanoA ser nobre e humano,E o que é perdoar.GULNAR.Do meu odio immensoCruel desengano!..Feroz lusitanoSe ri de Gulnar!CÔRO DE CAVALLEIROS.Risquemos da menteO perfido engano;Que o principe humanoÉ bello imitar.CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.A nobre clemenciaDo heroe lusitanoÁquem do oceanoSempre ha-de lembrar.LIVRO TERCEIROVERSÕES.O SECCAR DAS FOLHAS.(Millevoye).Das ruinas destes bosquesO outomno alastrou o chão:A selva perdeu seus mimos;Os rouxinoes mudos são.No bosque, amigo da infancia,Triste um joven vagueiava;Na sua aurora a doençaPara o sepulchro o inclinava.«Adeus floresta querida!Vestes lucto por meu fim?Como te cai folha e folhaA morte me segue assim.Intima voz, que revelaSeu fado extremo aos mortaes,Me diz:—vês cahir as folhas?São essas só: não ha mais!Sobre esta pallida fronteO torvo cypreste ondeia,Como o que, pharol de mortos,Sobre campas se meneia.Antes da vide na encosta,Antes da relva no prado,Os dias da juventudeTerão para mim murchado!Minha linda primaveraQual a van sombra passou!Eu morro: o euro geladoDa vida a seiva mirrou.Cáe, oh passageira folha;Vem esta senda cobrir;Esconde ao pranto maternoLogar onde vou dormir.Mas se vier minha amante,Involta em véu luctuoso,Ao pôr do sol, na lameda,Dar-me um suspiro saudoso,Com o teu leve rugidoDesperta, oh, desperta o morto;Que assim sua sombra tenhaAinda allivio e conforto!»Disse: afastou-se, e não volve:Ultima folha cahiu:Era o signal: seu sepulchroSob o carvalho se abriu.Mas sua amante não veio:E só do valle o pastorQuebrou com som de passadasRepouso do trovador.A NOIVA DO SEPULCHRO.(Imitado do inglez).I.Juncto da raia d'Hespanha,Em monte calvo e deserto,Vê-se um vulto negro ao longe,Castello é, vendo-se ao perto:Mas castello derribado,De bons tempos, de outras eras,Hoje abrigo escuro e tristeDe reptis e bravas feras.Foram formosos e fortesEsses muros derrocados,Por onde trepam as heras;Que cingem bastos silvados.A voz delrei nelle tinhaNobre alcaide dom Sueiro;Nobre por sua linhagem,Nobre por bom cavalleiro.Noivados, torneios, festas,Ninguem sem elle fazia:Ninguem, sem o convidar,Ajustava montaria;Que nunca da sua béstaViróte partiu em vão;Como nunca os justadoresO viram perder o arção.Mulher, que elle muito amara,Lh'a roubara a sepultura;Mas por este golpe o alcaideNão mostrou grande tristura.Até corria entre o povoUm mysterio de maldade...Suppunham uns ser mentira;Criam outros ser verdade.Mas o que? Cubria a terraEsse caso mysterioso;E só o povo sabíaSer viuvo o que era esposo.II.Cedo se ergue dom Sueiro;Cavalga no seu cavallo,E para caçada alegrePassa áquem do extremo vallo.Por essas margens do Lima,Debaixo de puro céu,O nobre senhor alcaideÁ rédea solta correu.Veredas segue torcidas,Até descubrir o outeiro,Que revestem pela encostaO zimbro, a urze e o pinheiro.Soam sonoras buzinas,Ri do dia o lindo alvor,E no meio da paizagemUma brilha e outra flor.Dom Sueiro o seu cavalloIncita com ferrea espora;Que no logar aprazadoDeve estar dentro de um' hora.Nada lhe põe embaraço;Nem resonantes ribeiros,Nem as chans apaúladas,Nem escarpados outeiros.Mas ao sair da floresta,Ainda perto do rio,Viu ir formosa donzellaBuscando do ermo o desvio.Celestes são seus meneios:Não mortal, anjo parece:Da sua tez a brancuraAlva açucena escurece.O seu corcel dom SueiroFez parar. Já se esqueceraDa caçada; e que no monteEm breve estar promettera.—Dizei-me vós, oh donzella,Quem sois, que nunca vos vi;Que por minha alma vos juroSois já senhora de mi.»Resposta nenhuma teve,Que ella não lhe respondia,E, sempre guiando ao valle,A curva senda seguia.—Não me fugireis assim:Bofé que não fugireis!Um momento, um só momento,Dom Sueiro escutareis!»Disse: desmonta, e persegue-a,Nos braços para a estreitar;Mas ella furta-lhe o corpo,E elle abraça o subtil ar.—Dizei-me vós, oh donzella,Pela vossa alma dizei,De que procede tal susto,Que a meu pesar vos causei?Que, pelos céus o asseguro,É verdadeiro este amor.Não me fujaes, bella dama:Não ha de que ter pavor.De esposo, se vós quereis,Dar-vos-hei, contente, a mão:Sereis dona de um castello,Dona do meu coração.»—Dom Sueiro, oh dom Sueiro—Tornou a dama formosa—Eu sei quem és, qual teu nome,E eu seria tua esposa:Mas como crer nos teus dictos,Dictos de homem fraudulento?Conheço tuas perfidias,E qual é teu vil intento.Dês que morreu dona Dulce,A tua infeliz mulher,A linda Elvira roubastePara teu ludibrio ser.Com promessas refalsadasEnganaste uma innocente.Quem crerá juras de um ímpio,Que só jura quando mente?Ella te creu, desditosa!Porém não te creio eu:Nem, qual de Elvira o destino,Será o destino meu.E como soffrera, esposaTua sendo, uma rival?Folgáras tu nos meus zelos;Folgáras della no mal?Ousáras tu, dom Sueiro,A pobre Elvira expulsar,E dias de angustia e pejo,Misera, vê-la tragar?—«Oh, voto a Christo, que sim!—O nobre alcaide atalhou:E desfazer-se de Elvira,Com mil pragas, protestou.—Mas dizei vós, dama linda,Quem sois? quem são vossos paes?Que eu vos direi de mim tudo,Se tudo me perguntaes.—«Nunca!—tornou a donzella:—Quem eu sou não te direi.Nada te devo por ora:Quando dever pagarei.Mas pódes estar seguro,Que, bem que nobre senhor.Não é que o meu o teu sangueSangue de maior primor.—«Pois sim, querida, pois sim!—Dom Sueiro proseguia;E algum signal de ternuraÁ bella dama pedia.«Não, oh não, meu cavalleiro!Quando a mim te vir ligadoTua serei; que antes dissoFôra horroroso peccado.—«Porém dizei-me, oh donzella,Onde vos hei-de encontrar?Que, pela cruz, ahi juroNossas nupcias celebrar.—«Oh, que não será de dia;Que mal de nós julgarão!—Tornou a dama—e os praguentosCerto de mim se rirão.É pela noite que eu voto;De noite no cemiterio,Quando soar doze vezesO sino do presbyterio.Sob o teixo solitario,Onde ninguem nos não veja;E aonde nunca chegar-seQuem passar ousado seja.—«Vivam meus lindos amores!—Interrompeu dom Sueiro:—Sob o teixo, á meia noite?...Veremos quem vae primeiro.—«Sim!—volveu ella—a ess' hora.Nenhuma fôra melhor;Porém, da tua palavraQue me darás em penhor?—«Minha paixão em seguroDo que promettí te dou:Nunca promessas mentidasFez quem devéras amou.Curvando o joelho, eu juroTeus grilhões sempre rojar:Meu corpo e alma são teus;E o tempo o ha-de provar.—«Basta!—a donzella lhe disse.—Dom Sueiro, sou contente.São meus teu corpo e tu' alma:Meus serão eternamente.—Dicto isto, ao longo do rioLigeira a senda seguiu,E elle aos outros caçadoresAlegre se reuniu.III.Já da larga montariaO folguedo se acabava,E dom Sueiro ao castello,Ao seu castello voltava.Arde-lhe na alma o desejoCom as imagens do goso,E róe-lhe idéa damnadaO coração criminoso.Infeliz e linda Elvira,Nos dias da juventude,Perdera nos braços delleFlor de innocencia e virtude.Mas gosos faceis não duram;Breve após o tedio chega:Elvira é já enfadonha:Novo amor o alcaide cega.Cumpre de si afasta-la:O caso difficil é:Ajunctará crime a crime?Elle outro meio não vê.Emfim decidiu-se: a morteEm aurea taça lhe deu.Nobre senhor, folgar pódes,Teu crime a terra escondeu!Era noite: e dom SueiroPara o adro ermo partia.Logar, horas ou remorsos,Nada terror lhe infundia.Brilha a lua em seu crescente:Passa a noite silenciosa;E só lhe quebra o socegoO mocho e a fonte ruidosa.Ao cabo o adro elle avista:No meio o teixo lhe avulta:Não deu meia noite ainda;A dama ainda se occulta.Mas troa o sino! Uma!... Duas!...Contou; contou: mais dez são:E uma donzella, de branco,Surge da lua ao clarão,E está debaixo do teixo.Para lá o alcaide corre.Não enganou seus desejosEssa por quem elle morre.Porém que é isto? Recúa?Para trás a face vira?Sim; que não era a donzella,Mas o phantasma de Elvira.«Maldicto!—clamou o espectro—Pune a traição o traidor.Negro o sepulchro te espera.De teu mal és só o auctor.Pensa, monstro, emquanto é tempo;Que não tardará teu fim.Teu nome apagou-se. Agora,Recorda-te bem de mim!—
Ei-lo o triste signal, signal de morte!Á sua esquiva sorteNão poderão fugir! Meu Deus!
Patente
Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menosSuspeitassem de nós!
Ei-los! Silencio!
D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que recuam aterradas.
Lobna!
Haleva!
O juramento
O momento é de cumprir!De partir não tarda a hora:
Ha-de a aurora
Refulgir-nos juncto ao mar.
Sobre os rapidos corceisNós fieis vos guiaremosAonde achemos mil delicias
Nas caricias
De que amor nos vai cercar!
Vinde! a noite nos protege:Dorme tudo pela aldeia;E este braço não receia,Quando cumpre, o pelejar.Vinde ser enlevo d'almas,Sob um céu meigo e sereno;Que nunca ha-de o sarracenoComo nós saber amar!
Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.
Fugí breve, oh desgraçados,Que cercados sois da morte!Queira a sorte que um momento
Seu intento
A cumprir tarde Gulnar!
De ninguem serdes sentidos,Já perdidos, ainda creis!Mal sabeis vos esperava
Quem velava
Para em vós um pae vingar!
Triste umbral haveis cruzado,Do wali ultimo abrigo,Que no extremo do perigoJaz a ponto d'expirar.Por seu sangue a feroz filha,Que essas portas franqueiou,Vingativa aos céus jurouVosso sangue derramar.
A perfidía em recompensaSó achou o nosso ardor?!Desleaes! Porque o furorDe mulher cruel servir?
Porque a vida nos pedieis,No olhar terno amor pedindo,Quando os golpes retinindoEra livre inda o fugir?
Porque em noite deliciosaDe delirios seductores,Generosos vencedoresSó pensaveis em trahir?!
Uma idéa tenebrosaDe Gulnar surgiu na menteNessa noite, em que estridenteVeiu a espada aqui luzir:
«Ide:—disse-nos—sois bellas:Fascinae os nazarenos,Talvez possa assim, ao menos,Da vingança a senda abrir!»
A leôa do desertoEntre as cervas se escondia:Seu aceno constrangiaPobre escrava a amor fingir.
Com vivacidade e despeito.
Era pois um falso affecto?!...
Foi-o só um breve instante...
Hoje puro, hoje constante
Far-nos-ha por vós morrer.
Pondo a mão sobre o punho da espada.
Que ella venha, pois, e a cerquemSeus escravos traiçoeiros!Portugueses, cavalleirosSomos nós: ha-de tremer!
Sabe o forte nos combatesSe este braço é prompto e duro;O covarde, que no escuroFere só, o ha-de saber!
O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que vão a sair, param e escutam.
Gloria ao sancto propheta que aos impiosA cerviz insolente vergou,E do amir português crueis filhosDo muslim ao punhal entregou!
Bateu funerea hora...Morreu nossa esperança!
Resta-nos a vingança...Sangue por sangue... Embora!
Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita, encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.
A Lobna e Haleva.
Fugir?!... É tarde, infames!Vós me trahieis, vís!Tremei! Gulnar velava...E eu sou vosso juiz!
Aos infantes.
Deponde inuteis ferros,De Ceuta vencedores!Lá fóra meus guerreiros...
Apontando para os eunuchos.
Alli meus vingadores.
———————————————————————————————————-
«Ide trahi-los—Impia, disseste...Mui facil cresteFingir amor.
Para trahi-losNos escolheste!..Se nos vencesteFoi por temor.
Morrer com ellesÉ grata pena...Feroz hyena,Temos-te horror.
———————————————————————————————————-
Aos teus escravos,Mulher infida,Mais larga vidaDeixa gosar!
Os teus escravosCom mortal lidaA nossa vidaTem de comprar!
Que nunca o sustoNos fez no p'rigoO ferro amigoAbandonar.
Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.
Da louca audacia,Da van affrontaVingança promptaGulnar vai ter.
O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.
Mas qual ruídoConfuso soa?Porque reboaVoz do adail?!...
Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.
Hussein!.. O ferroRetine!.. Gritos!Gemer d'afflictos!Sons de anafil!..
Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar fica suspensa.
Que escuto?! Lá bradaram:—São Jorge! Ávante, ávante!»Oh jubiloso instante!Restruge o pelejar.
Acenando aos eunuchos.
Morram os impios! Morram!Servos, rasgae seu peito.Sintam, emfim, o effeitoDos odios de Gulnar.
Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem por entre os eunuchos e os dous infantes.
Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros: côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena, e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar, recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva refugiam-se juncto dos infantes.
Que horrivel espectaculo!Por toda a parte a morte...
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Ferros inuteis, ide-vos:Cumpra-se a nossa sorte!
Cede o agareno timido:Honra ao valor do forte!
Depondo os alfanges no chão.
Brandindo as armas.
Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.
Vivos ainda, e incólumes!Graças te dou, Senhor!Laços de um impio amorVinha-lhes eu partir...E a morte ia-os ferir!..Graças, oh meu Senhor!
Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.
Foste enganado, e salvas-nos!..Perdoa, nobre infante!Foi de delirio instante,Que ao erro nos levou.
Agita ancioso o seioInsolito pulsar;Mas d'horrido receioNão é este agitar!
Pedro, Henrique, sois salvos! InvencivelA espada portuguesa,Mais uma vez, terrivel,A barbara ferezaDos infiéis domou.O perfido punhal,Da vingança guiado, em vão se alçou...
Adiantando-se.
Vencestes, nazarenos!Folgae na vossa gloria...Seguí facil victoria.Puní-me! Eis-me captiva...Do vosso amir na proleVingar meu pae eu quiz...Pensando-o era feliz:Agora infeliz sou.Morrer é a esperança,Que o fado me deixou.
Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.
Pune, oh principe, infames traidores:Lava a affronta do sangue real!Dos covardes, em trance fatal,Tinja as faces da morte o pallor!
Com gesto supplicante.
Por piedade, dos teus seguidoresNão escutes o voto lethal!Generoso, o seu odio infernal,Por piedade, não ouças, senhor!
Aos cavalleiros.
Silencio!
Aos mouros.
Livres sois.
Aos cavalleiros.
Nunca aos vencidos
Sangue pediu meu pae. Eu serei dignoFilho do vosso rei.
A Gulnar.
Mulher, és livre.
Tua clemencia hypocrita,Tyranno, vem mui tarde!Pensas apagar, barbaro,Fogo que immortal arde?!Dá-me Ceuta, a miserrima:Torna-me um pae que expira:Foge das praias d'AfricaServa, que mal respira!Foras assim magnanimo:Grata Gulnar te fora:Sem isso, um favor unico,Prompto morrer te implora!
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Turba-te a dor e a cólera,Filha de Bensalá:A tua raiva indomitaÉ van e inutil já!
Da perfida a van cóleraInutil brame já:Do seu cruel propositoElla nos vingará.
Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.
Tomando pela mão as duas escravas.
Não!... Innocentes victimasD'impios não deveis ser!O vosso amor ingenuoCumpre-vos esquecer;Mas a vingança barbaraNão vos entregarei.A Portugal seguindo-nos
Olhando para os infantes com aspecto severo.
Eu vos protegerei!
Só ir nos concedeO fado inhumanoAlém do oceanoDe amor expirar!
Nest'hora solemneDo peito no arcanoNosso amor insanoJuramos calar.
Da nossa clemenciaAprenda o africanoA ser nobre e humano,E o que é perdoar.
Do meu odio immensoCruel desengano!..Feroz lusitanoSe ri de Gulnar!
Risquemos da menteO perfido engano;Que o principe humanoÉ bello imitar.
A nobre clemenciaDo heroe lusitanoÁquem do oceanoSempre ha-de lembrar.
Das ruinas destes bosquesO outomno alastrou o chão:A selva perdeu seus mimos;Os rouxinoes mudos são.No bosque, amigo da infancia,Triste um joven vagueiava;Na sua aurora a doençaPara o sepulchro o inclinava.«Adeus floresta querida!Vestes lucto por meu fim?Como te cai folha e folhaA morte me segue assim.Intima voz, que revelaSeu fado extremo aos mortaes,Me diz:—vês cahir as folhas?São essas só: não ha mais!Sobre esta pallida fronteO torvo cypreste ondeia,Como o que, pharol de mortos,Sobre campas se meneia.Antes da vide na encosta,Antes da relva no prado,Os dias da juventudeTerão para mim murchado!Minha linda primaveraQual a van sombra passou!Eu morro: o euro geladoDa vida a seiva mirrou.Cáe, oh passageira folha;Vem esta senda cobrir;Esconde ao pranto maternoLogar onde vou dormir.Mas se vier minha amante,Involta em véu luctuoso,Ao pôr do sol, na lameda,Dar-me um suspiro saudoso,Com o teu leve rugidoDesperta, oh, desperta o morto;Que assim sua sombra tenhaAinda allivio e conforto!»Disse: afastou-se, e não volve:Ultima folha cahiu:Era o signal: seu sepulchroSob o carvalho se abriu.Mas sua amante não veio:E só do valle o pastorQuebrou com som de passadasRepouso do trovador.
Juncto da raia d'Hespanha,
Em monte calvo e deserto,Vê-se um vulto negro ao longe,Castello é, vendo-se ao perto:
Mas castello derribado,
De bons tempos, de outras eras,Hoje abrigo escuro e tristeDe reptis e bravas feras.
Foram formosos e fortes
Esses muros derrocados,Por onde trepam as heras;Que cingem bastos silvados.
A voz delrei nelle tinha
Nobre alcaide dom Sueiro;Nobre por sua linhagem,Nobre por bom cavalleiro.
Noivados, torneios, festas,
Ninguem sem elle fazia:Ninguem, sem o convidar,Ajustava montaria;
Que nunca da sua bésta
Viróte partiu em vão;Como nunca os justadoresO viram perder o arção.
Mulher, que elle muito amara,
Lh'a roubara a sepultura;Mas por este golpe o alcaideNão mostrou grande tristura.
Até corria entre o povo
Um mysterio de maldade...Suppunham uns ser mentira;Criam outros ser verdade.
Mas o que? Cubria a terra
Esse caso mysterioso;E só o povo sabíaSer viuvo o que era esposo.
Cedo se ergue dom Sueiro;
Cavalga no seu cavallo,E para caçada alegrePassa áquem do extremo vallo.
Por essas margens do Lima,
Debaixo de puro céu,O nobre senhor alcaideÁ rédea solta correu.
Veredas segue torcidas,
Até descubrir o outeiro,Que revestem pela encostaO zimbro, a urze e o pinheiro.
Soam sonoras buzinas,
Ri do dia o lindo alvor,E no meio da paizagemUma brilha e outra flor.
Dom Sueiro o seu cavallo
Incita com ferrea espora;Que no logar aprazadoDeve estar dentro de um' hora.
Nada lhe põe embaraço;
Nem resonantes ribeiros,Nem as chans apaúladas,Nem escarpados outeiros.
Mas ao sair da floresta,
Ainda perto do rio,Viu ir formosa donzellaBuscando do ermo o desvio.
Celestes são seus meneios:
Não mortal, anjo parece:Da sua tez a brancuraAlva açucena escurece.
O seu corcel dom Sueiro
Fez parar. Já se esqueceraDa caçada; e que no monteEm breve estar promettera.
—Dizei-me vós, oh donzella,
Quem sois, que nunca vos vi;Que por minha alma vos juroSois já senhora de mi.»
Resposta nenhuma teve,
Que ella não lhe respondia,E, sempre guiando ao valle,A curva senda seguia.
—Não me fugireis assim:
Bofé que não fugireis!Um momento, um só momento,Dom Sueiro escutareis!»
Disse: desmonta, e persegue-a,
Nos braços para a estreitar;Mas ella furta-lhe o corpo,E elle abraça o subtil ar.
—Dizei-me vós, oh donzella,
Pela vossa alma dizei,De que procede tal susto,Que a meu pesar vos causei?
Que, pelos céus o asseguro,
É verdadeiro este amor.Não me fujaes, bella dama:Não ha de que ter pavor.
De esposo, se vós quereis,
Dar-vos-hei, contente, a mão:Sereis dona de um castello,Dona do meu coração.»
—Dom Sueiro, oh dom Sueiro—
Tornou a dama formosa—Eu sei quem és, qual teu nome,E eu seria tua esposa:
Mas como crer nos teus dictos,
Dictos de homem fraudulento?Conheço tuas perfidias,E qual é teu vil intento.
Dês que morreu dona Dulce,
A tua infeliz mulher,A linda Elvira roubastePara teu ludibrio ser.
Com promessas refalsadas
Enganaste uma innocente.Quem crerá juras de um ímpio,Que só jura quando mente?
Ella te creu, desditosa!
Porém não te creio eu:Nem, qual de Elvira o destino,Será o destino meu.
E como soffrera, esposa
Tua sendo, uma rival?Folgáras tu nos meus zelos;Folgáras della no mal?
Ousáras tu, dom Sueiro,
A pobre Elvira expulsar,E dias de angustia e pejo,Misera, vê-la tragar?—
«Oh, voto a Christo, que sim!—
O nobre alcaide atalhou:E desfazer-se de Elvira,Com mil pragas, protestou.
—Mas dizei vós, dama linda,
Quem sois? quem são vossos paes?Que eu vos direi de mim tudo,Se tudo me perguntaes.—
«Nunca!—tornou a donzella:—
Quem eu sou não te direi.Nada te devo por ora:Quando dever pagarei.
Mas pódes estar seguro,
Que, bem que nobre senhor.Não é que o meu o teu sangueSangue de maior primor.—
«Pois sim, querida, pois sim!—
Dom Sueiro proseguia;E algum signal de ternuraÁ bella dama pedia.
«Não, oh não, meu cavalleiro!
Quando a mim te vir ligadoTua serei; que antes dissoFôra horroroso peccado.—
«Porém dizei-me, oh donzella,
Onde vos hei-de encontrar?Que, pela cruz, ahi juroNossas nupcias celebrar.—
«Oh, que não será de dia;
Que mal de nós julgarão!—Tornou a dama—e os praguentosCerto de mim se rirão.
É pela noite que eu voto;
De noite no cemiterio,Quando soar doze vezesO sino do presbyterio.
Sob o teixo solitario,
Onde ninguem nos não veja;E aonde nunca chegar-seQuem passar ousado seja.—
«Vivam meus lindos amores!—
Interrompeu dom Sueiro:—Sob o teixo, á meia noite?...Veremos quem vae primeiro.—
«Sim!—volveu ella—a ess' hora.
Nenhuma fôra melhor;Porém, da tua palavraQue me darás em penhor?—
«Minha paixão em seguro
Do que promettí te dou:Nunca promessas mentidasFez quem devéras amou.
Curvando o joelho, eu juro
Teus grilhões sempre rojar:Meu corpo e alma são teus;E o tempo o ha-de provar.—
«Basta!—a donzella lhe disse.—
Dom Sueiro, sou contente.São meus teu corpo e tu' alma:Meus serão eternamente.—
Dicto isto, ao longo do rio
Ligeira a senda seguiu,E elle aos outros caçadoresAlegre se reuniu.
Já da larga montaria
O folguedo se acabava,E dom Sueiro ao castello,Ao seu castello voltava.
Arde-lhe na alma o desejo
Com as imagens do goso,E róe-lhe idéa damnadaO coração criminoso.
Infeliz e linda Elvira,
Nos dias da juventude,Perdera nos braços delleFlor de innocencia e virtude.
Mas gosos faceis não duram;
Breve após o tedio chega:Elvira é já enfadonha:Novo amor o alcaide cega.
Cumpre de si afasta-la:
O caso difficil é:Ajunctará crime a crime?Elle outro meio não vê.
Emfim decidiu-se: a morte
Em aurea taça lhe deu.Nobre senhor, folgar pódes,Teu crime a terra escondeu!
Era noite: e dom Sueiro
Para o adro ermo partia.Logar, horas ou remorsos,Nada terror lhe infundia.
Brilha a lua em seu crescente:
Passa a noite silenciosa;E só lhe quebra o socegoO mocho e a fonte ruidosa.
Ao cabo o adro elle avista:
No meio o teixo lhe avulta:Não deu meia noite ainda;A dama ainda se occulta.
Mas troa o sino! Uma!... Duas!...
Contou; contou: mais dez são:E uma donzella, de branco,Surge da lua ao clarão,
E está debaixo do teixo.
Para lá o alcaide corre.Não enganou seus desejosEssa por quem elle morre.
Porém que é isto? Recúa?
Para trás a face vira?Sim; que não era a donzella,Mas o phantasma de Elvira.
«Maldicto!—clamou o espectro—
Pune a traição o traidor.Negro o sepulchro te espera.De teu mal és só o auctor.
Pensa, monstro, emquanto é tempo;
Que não tardará teu fim.Teu nome apagou-se. Agora,Recorda-te bem de mim!—