MOCIDADE E MORTE.

Oh, que viesse o que não crê, comigo,Á vecejante Arrabida de noite,E se assentasse aqui sobre estas fragas,Escutando o sussurro incerto e tristeDas movediças ramas, que povôaDe saudade e de amor nocturna brisa;Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,E ouvisse o mar soando:—elle chorára,Qual eu chorei, as lagrymas do goso,E adorando o Senhor detestariaDe uma sciencia van seu vão orgulho.X.É aqui neste valle, ao qual não chegaHumana voz e o tumultuar das turbas,Onde o nada da vida sonda livreO coração, que busca ir abrigar-seNo futuro, e debaixo do amplo mantoDa piedade de Deus: aqui serenaVem a imagem da campa, como a imagemDa patria ao desterrado; aqui, solemne,Brada a montanha, memorando a morte.Essas penhas, que, lá no alto das serrasNuas, crestadas, solitarias dormem,Parecem imitar da sepulturaO aspecto melancholico e o repousoTão desejado do que em Deus confia.Bem semelhante á paz, que se ha sentadoPor seculos, alli, nas cordilheirasÉ o silencio do adro, onde reunemOs cyprestes e a cruz, o céu e a terra.Como tu vens cercado de esperança,Para o innocente, oh placido sepulchro!Juncto das tuas bordas pavorosasO perverso recúa horrorisado:Após si volve os olhos; na existenciaDeserto árido só descobre ao longe,Onde a virtude não deixou um trilho.Mas o justo, chegando á meta extrema,Que separa de nós a eternidade,Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.O infeliz e o feliz lá dormem ambos,Tranquillamente: e o trovador mesquinho,Que peregrino vagueiou na terra,Sem encontrar um coração ardenteQue o entendesse, a patria de seus sonhos,Ignota, por lá busca; e quando as erasVierem juncto ás cinzas collocar-lheTardios louros, que escondera a inveja,Elle não erguerá a mão mirrada,Para os cingir na regelada fronte.Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,Ao pé da sepultura, é som perdidoDe harpa eolia esquecida em brenha ou selva:O despertar um pae, que saboreiaEntre os braços da morte o extremo somno,Já não é dado ao filial suspiro;Em vão o amante, alli, da amada suaDe rosas sobre a c'roa debruçado,Réga de amargo pranto as murchas floresE a fria pedra: a pedra é sempre fria,E para sempre as flores se murcharam.XI.Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,Aspirando o futuro além da vidaE um halito dos ceus, gemer atadaÁ columna do exilio, a que se chamaEm lingua vil e mentirosa o mundo.Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filhoDos sonhos meus. A imagem do desertoGuarda-la-hei no coração, bem junctoCom minha fé, meu unico thesouro.Qual pomposo jardim de verme illustre,Chamado rei ou nobre, ha-de comtigoComparar-se, oh deserto? Aqui não cresceEm vaso de alabastro a flor captiva,Ou arvore educada por mão de homem,Que lhe diga—és escrava» e erga um ferroE lhe decepe os troncos. Como é livreA vaga do oceano é livre no ermoA bonina rasteira e o freixo altivo!Não lhes diz—nasce aqui, ou lá não cresças»Humana voz. Se baqueou o freixo,Deus o mandou: se a flor pendida murcha,É que o rocío não desceu de noite,E da vida o Senhor lhe nega a vida.Céu livre, terra livre, e livre a mente,Paz intima, e saudade, mas saudadeQue não dóe, que não mirra, e que consola,São as riquezas do ermo, onde sorriemDas procellas do mundo os que o deixaram.XII.Alli naquella encosta, hontem de noite,Alvejava por entre os medronheirosDo solitario a habitação tranquilla:E eu vagueei por lá. Patente estavaO pobre alvergue do eremita humilde,Onde jazia o filho da esperançaSob as asas de Deus, á luz dos astros,Em leito, duro sim, não de remorsos.Oh, com quanto socego o bom do velhoDormia! A leve aragem lhe ondeiavaAs raras cans na fronte, onde se liaA bella historia de passados annos.De alto choupo através passava um raioDa lua—astro de paz, astro que chamaOs olhos para o céu, e a Deus a mente—E em luz pallida as faces lhe banhava:E talvez neste raio o Pae celesteDa patria eterna lhe enviava a imagem,Que o sorriso dos labios lhe fugia,Como se um sonho de ventura e gloriaNa terra de antemão o consolasse.E eu comparei o solitario obscuroAo inquieto filho das cidades:Comparei o deserto silenciosoAo perpetuo ruido que sussurraPelos palacios do abastado e nobre,Pelos paços dos reis; e condoí-meDo cortezão suberbo, que só curaDe honras, haveres, gloria, que se compramCom maldicções e perennal remorso.Gloria! A sua qual é? Pelas campinas,Cubertas de cadaveres, regadasDe negro sangue, elle segou seus louros;Louros que vão cingir-lhe a fronte altivaAo som do choro da viuva e do orpham;Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,Os homens, seus irmãos, flagella e opprimeLá o filho do pó se julga um nume,Porque a terra o adorou: o desgraçadoPensa, talvez, que o verme dos sepulchrosNunca se ha-de chegar para traga-loAo banquete da morte, imaginandoQue uma lagea de marmore, que escondeO cadaver do grande, é mais duravelDo que esse chão sem inscripção, sem nome,Por onde o oppresso, o misero, procuraO repouso, e se atira aos pés do thronoDo Omnipotente, a demandar justiçaContra os fortes do mundo, os seus tyrannos.XIII.Oh cidade, cidade, que trasbordasDe vicios, de paixões, e de amarguras!Tu lá estás, na tua pompa involta,Suberba prostituta, alardeiandoOs theatros, e os paços, e o ruidoDas carroças dos nobres, recamadasDe ouro e prata, e os prazeres de uma vidaTempestuosa, e o tropeiar continuoDos férvidos ginetes, que alevantamO pó e o lodo cortezão das praças;E as gerações corruptas de teus filhosLá se revolvem, qual montão de vermesSobre um cadaver putrido!—Cidade,Branqueado sepulchro, que misturasA opulencia, a miseria, a dôr e o goso,Honra e infamia, pudor e impudicicia,Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloriaDa humanidade?—O que o souber que o diga!Bem negra avulta aqui, na paz do valle,A imagem desse povo, que reflueDas moradas á rua, á praça, ao templo;Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;Absurdo mixto de baixeza extremaE de extrema ousadia; vulto enorme,Ora aos pés de um vil despota estendido,Ora surgindo, e arremessando ao nadaAs memorias dos seculos que foram,E depois sobre o nada adormecendo.Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-seEm joelhos nos atrios dos tyrannos,Onde, entre o lampejar de armas de servos,O servo popular adora um tigre?Esse tigre é o idolo do povo!Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lheO ferreo sceptro: ide folgar em rodaDe cadafalsos, povoados sempreDe victimas illustres, cujo arrancoSeja como harmonia, que adormenteEm seus terrores o senhor das turbas.Passae depois. Se a mão da ProvidenciaEsmigalhou a fronte á tyrannia;Se o despota cahiu, e está deitadoNo lodaçal da sua infamia, a turbaLá vai buscar o sceptro dos terrores,E diz—é meu»; e assenta-se na praça,E involta em roto manto, e julga, e reina.Se um ímpio, então, na affogueada bôccaDe volcão popular sacode um facho,Eis o incendio que muge, e a lava sóbe,E referve, e trasborda, e se derramaPelas ruas além: clamor retumbaDe anarchia impudente, e o brilho de armasPelo escuro transluz, como um presagioDe assolação, e se amontoam vagasDesse mar d'abjecção, chamado o vulgo;Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnosCava fundo da Patria a sepultura.Onde, abraçando a gloria do passadoE do futuro a ultima esperança,As esmaga comsi­go, e ri morrendo.Tal és, cidade, licenciosa ou serva!Outros louvem teus paços sumptuosos,Teu ouro, teu poder:—sentina impuraDe corrupções, teus não serão meus hymnos!XIV.Cantor da solidão, vim assentar-meJuncto do verde cespede do valle,E a paz de Deus do mundo me consola.Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,Um pobre conventinho. Homem piedosoO alevantou ha seculos, passando,Como orvalho do céu, por este sitio,De virtudes depois tão rico e fertil.Como um pae de seus filhos rodeado,Pelos matos do outeiro o vão cercandoOs tugurios de humildes eremitas,Onde o cilicio e a compuncção apagamDa lembrança de Deus passados errosDo peccador, que reclinou a frontePenitente no pó. O sacerdoteDos remorsos lhe ouviu as amarguras;E perdoou-lhe, e consolou-o em nomeDo que expirando perdoava, o JustoQue entre os humanos não achou piedade.XV.Religião! do misero conforto,Abrigo extremo de alma, que ha mirradoO longo agonisar de uma saudade,Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo,Que renovou o corrompido mundo,E que mil povos pouco a pouco ouviram.Nobre, plebeu, dominador, ou servo,O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,Da desgraça no dia ajoelharamNo limiar do solitario templo.Ao pé desse portal, que veste o musgo,Encontrou-os chorando o sacerdote,Que da serra descia á meia-noite,Pelo sino das preces convocado:Ahi os viu ao despontar do dia,Sob os raios do sol, ainda chorando.Passados mezes, o burel grosseiro,O leito de cortiça, e a fervorosaE contínua oração foram cerrandoNos corações dos miseros as chagas,Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.Aqui, depois, qual halito suaveDa primavera, lhes correu a vida,Até sumir-se no adro do convento,Debaixo de uma lagea tosca e humilde,Sem nome, nem palavra, que recordeO que a terra abrigou no somno extremo.Eremiterio antigo, oh, se podessesDos annos que lá vão contar a historia;Se ora, á voz do cantor, possivel fosseTransudar desse chão, gelado e mudo,O mudo pranto, em noites dolorosas,Por naufragos do mundo derramadoSobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis,Broncas pedras, falar, o que dirieis!Quantos nomes mimosos da ventura,Convertidos em fabula das gentes,Despertariam o eccho das montanhas,Se aos negros troncos do sobreiro antigoMandasse o Eterno sussurrar a historiaDos que vieram desnudar-lhe o cepo,Para um leito formar, onde velassemDa mágua, ou do remorso as longas noites!Aqui veiu, talvez, buscar asyloUm poderoso, outr'ora anjo da terra,Despenhado nas trévas do infortunio;Aqui gemeu, talvez, o amor trahido,Ou pela morte convertido em cancroDe infernal desespero; aqui soaramDo arrependido os ultimos gemidos,Depois da vida derramada em gosos,Depois do goso convertido em tedio.Mas quem foram? Nenhum, depondo em terraVestidura mortal, deixou vestigiosDe seu breve passar. E isso que importa,Se Deus o viu; se as lagrymas do tristeElle contou, para as pagar com gloria?XVI.Ainda em curvo outeiro, ao fim da sendaQue serpeia do monte ao fundo valle,Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,Como um pharol de vida em mar de escolhos:Ao christão infeliz acolhe no ermo,E consolando-o, diz-lhe—a patria tuaÉ lá no céu: abraça-te comigo.»Juncto della esses homens, que passaramAcurvados na dôr, as mãos ergueramPara o Deus, que perdoa, e que é confortoDos que aos pés deste symbolo da esp'rançaVem derramar seu coração afflicto:É do deserto a historia a cruz e a campa;E sobre tudo o mais pousa o silencio.XVII.Feliz da terra, os monges não maldigas;Do que em Deus confiou não escarneças!Folgando segue a trilha, que ha juncado,Para teus pés, de flores a fortuna,E sobre a morta crença em paz descança.Que mal te faz, que goso vae roubar-teO que ensanguenta os pés no tojo agreste,E sobre a fria pedra encosta a fronte?Que mal te faz uma oração erguida,Nas solidões, por voz sumida e frouxa,E que, subindo aos céus, só Deus escuta?Oh, não insultes lagrymas alheias,E deixa a fé ao que não tem mais nada!...E se estes versos te contristam, rasga-os.Teus menestreis te venderão seus hymnos,Nos banquetes opiparos, emquantoO negro pão repartirá comigo,Seu trovador, o pobre anachoreta,Que não te inveja as ditas, como as c'roasDo prazer ao cantor eu não invejo;Tristes coroas, sob as quaes às vezesEstá gravada uma inscripção d'infamia.MOCIDADE E MORTE.Solevantado o corpo, os olhos fitos,As magras mãos cruzadas sobre o peito,Vêde-o, tão moço, velador de angustias,Pela alta noite em solitario leito.Por essas faces pallidas, cavadas,Olhae, em fio as lagrymas deslisam;E com o pulso, que apressado bate,Do coração os éstos harmonisam.É que nas veias lhe circula a febre;É que a fronte lhe alaga o suor frio;É que lá dentro á dor, que o vai roendo,Responde horrivel íntimo ciclo.Encostando na mão o rosto acceso,Fitou os olhos humidos de prantoNa lampada mortal alli pendente,E lá comsigo modulou um canto.É um hymno de amor e de esperança?É oração de angustia e de saudade?Resignado na dor, saúda a morte,Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?É isso tudo, tumultuando incertoNo delírio febril daquella menteQue, balouçada á borda do sepulchro,Volve após si a vista longamente.É a poesia a murmurar-lhe na almaUltima nota de quebrada lyra;É o gemido do tombar do cedro;É triste adeus do trovador que expira.DESESPERANÇA.«Meia-noite bateu, volvendo ao nadaUm dia mais, e caminhando eu sigo!Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!Qual tufão, que ao passar agita o pégo.Meu placido existir turvou a sorte.Halito impuro de pulmões raladosMe diz que nelles se assentou a morte.Em quanto mil e mil no largo mundoDormem em paz sorrindo, eu vélo e penso,E julgo ouvir as preces por finados,E ver a tumba e o fumegar do incenso.Se dormito um momento, acórdo em sustos;Pulos me dá o coração no peito,E abraço e beijo de uma vida extinctaO ultimo socio, o doloroso leito.De um abysmo insondado ás agras bordasInsanavel doença me ha guiado,E disse-me:—no fundo o esquecimento:Desce; mas desce com andar pausado.»E eu lento vou descendo, e sondo as trévas:Busco parar; parar um só instante!Mas a cruel, travando-me da dextra,Me faz cahir mais fundo, e grita:—ávante!»Porque escutar o transito das horas?Alguma dellas trar-me-ha conforto?Não! Esses golpes, que no bronze ferem,São para mim como dobrar por morto.«Morto! morto!—me clama a consciencia:Diz-m'o este respirar rouco e profundo.Ai! porque fremes, coração de fogo,Dentro de um seio corrompido e immundo?Beber um ar diaphano e suave,Que renovou da tarde o brando vento,E converte-lo, no aspirar contínuo,Em bafo apodrecido e peçonhento!Estender para o amigo a mão mirrada,E elle negar a mão ao pobre amigo;Querer uni-lo ao seio descarnado,E elle fugir, temendo o seu perigo!E ver após um dia ainda cem dias,Nús d'esperança, ferteis de amargura;Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo,E só, bem lá no extremo, a sepultura!Agora!... quando a vida me sorria:Agora!... que meu estro se accendêra;Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças,Como se enlaça pelo choupo a hera,Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo;Varrer-me o nome escuro esquecimento:Não ter um eccho de louvor, que affagueDo desgraçado o humilde monumento!Oh tu, sêde de um nome glorioso,Que tão fagueiros sonhos me tecias,Fugiste, e só me resta a pobre herançaDe ver a luz do sol mais alguns dias.Vestem-se os campos do verdor primeiro:Já das aves canções no bosque ecchoam:Não para mim, que só escuto attentoFunereos dobres que no templo soam!Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,Irei tão cedo repousar na terra?!Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;Um louro só... e meu sepulchro cerra!É tão bom respirar, e a luz brilhanteDo sol oriental saudar no outeiro!Ai, na manhan sauda-la posso ainda;Mas será este inverno o derradeiro!Quando de pomos o vergel for cheio;Quando ondeiar o trigo na planura;Quando pender com aureo fructo a vide,Eu tambem penderei na sepultura.Dos que me cercam no turbado aspecto,Na voz que prende desusado enleio,No pranto a furto, no fingido risoFatal sentença de morrer eu leio.Vistes vós criminoso, que hão lançadoSeus juizes nos trances da agonia,Em oratorio estreito, onde não entraSuavissima luz do claro dia;Diante a cruz, ao lado o sacerdote,O cadafalso, o crime, o algoz na mente,O povo tumultuando, o extremo arranco,E céu, e inferno, e as maldicções da gente?Se adormece, lá surge um pesadelo,Com os martyrios da sua alma acorde;Desperta logo, e á terra se arremessa,E os punhos cerra, e delirante os morde.Sobre as lageas do duro pavimentoDe vergões e de sangue o rosto cobre.Ergue-se e escuta com cabellos hirtosDo sino ao longe o compassado dobre.Sem esperança!...Não! Do cadafalsoSóbe as escadas o perdão ás vezes;Porém a mim... não me dirão:—és salvo!»E o meu supplicio durará por mezes.Dizer posso:—existi: que a dor conheço!Do goso a taça só provei por horas:E serei teu, calado cemiterio,Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.Se o furacão rugiu, e o debil troncoDe arvore tenra espedaçou passando,Quem se doeu de a ver jazendo em terra?Tal é o meu destino miserando!Numen de sancto amor, mulher querida,Anjo do céu, encanto da existencia,Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te.Por ti me salve a mão da Providencia.Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge!Um beijo ardente aos labios teus voára:E neste beijo venenoso a morteTalvez este infeliz só te entregára!Se eu podesse viver... como teus diasCercaria de amor suave e puro!Como te fôra placido o presente;Quanto risonho o aspecto do futuro!Porém, medonho espectro ante meus olhos,Como sombra infernal perpetuo ondeia,Bradando-me que vai partir-se o fioCom que da minha vida se urde a teia.Entregue á seducção em quanto eu durmo,No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!Quem velará por ti, pomba innocente?Quem do perjurio poderá salvar-te?Quando eu cerrar os olhos moribundosTu verterás por mim pranto saudoso;Mas quem me diz que não virá o risoBanhar teu rosto triste e lachrymoso?Ai, o extincto só herda o esquecimento!Um novo amor te agitará o peito:E a dura lagea cubrirá meus ossosFrios, despidos sobre terreo leito!...Oh Deus, porque este calix de agoniaAté as bordas de amargor me encheste?Se eu devia acabar na juventude,Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?Virgem do meu amor, porque perde-la?Porque entre nós a campa ha-de assentar-se?Tua suprema paz com goso ou dores,Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?Não haver quem me salve! e vir um diaEm que de minha o nome ainda lhe désse!Então, Senhor, o umbral da eternidade,Talvez sem um queixume, transposesse.Mas, qual flor em botão pendida e murcha,Sem de fragrancias perfumar a brisa,Eu poeta, eu amante, ir esconder-meSob uma lousa desprezada e lisa!Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?Em te adorar que fui, senão insano?...O teu fatal poder hoje maldigo!O que te chama pae, mente: és tyranno.E se aos pés de teu throno os ais não chegam;Se os gemidos da terra os ares somem;Se a Providencia é crença van, mentida,Porque geraste a intelligencia do homem?Porque da virgem no sorrir posesteSancto presagio de suprema dita,E apontaste ao poeta a immensidadeNa ancia de gloria que em sua alma habita?A immensidade!... E que me importa herda-la,Se na terra passei sem ser sentido?Que val eterno vagueiar no espaço,Se nosso nome se afundou no olvido?O ANJO DA GUARDA.«I­mpio, silencio! A tua voz blasphemaDa noite a paz perturba.Verme, que te rebellasSob a mão do Senhor,Vês os milhões d'estrellasDe nitido fulgor,Que, em ordenada turba,A Deus entoam incessantes hymnos?Quantas vezes apagaDo livro da existenciaUm orbe a mão do Eterno!E o bello astro que expiraMaldiz a Providencia,Maldiz a mão que o esmaga?Acaso pára o cantico superno?Ou apenas suspiraO moribundo,Que se chamava um mundo?Quem vai pôr uma campa sobre os restosDesse inerte planeta,Que o destructor cometaIncinerou na rapida passagem?E tu, átomo obscuro,Que varre á tarde a aragem,Sóltas do seio impuroMaldicção insensata,Porque o teu Deus te evoca á eternidade?Que é o viver? O umbral, a que um momentoO espirito, surgindoDas solidões do nadaÁ voz do Creador, se encosta, e attentoContempla a luz e o céu; d'onde desataSeu vôo á immensidade.Geme acaso o passarinhoDe saudade,Quando as azas expande, e deixa o ninhoA vez primeira, a mergulhar nos ares?Volve olhos lachrymososAos mares tormentososO navegante, quando aproa ás plagasDa patria suspirada?Porque morres?! Pergunta á ProvidenciaPorque te fez nascer.Qual era o teu direito a ver o mundo;Teu jus á existencia?Olha no outono o ulmeiroQue o vendaval agita,E cujas tenues folhasAos centos precipita.São a folha do ulmeiro o nome e a fama,E o amar dos humanos:Ao nada do que foi assim se atiramNo vortice dos annos.Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,Que somem mil ruí­dos.E a voz da terra o que é, na voz immensaDos orbes reunidos?Amor! amor terreno!... Ai, se podessesComprehender a amargura,Com que te chóro, oh alma transviada!Eu, que te amei do berço, e qual doçuraHa no affecto que liga o anjo ao homem,Rindo despiras esse corpo enfermo,Para te unir a mim, para aspiraresO goso celestial de amor sem termo!Alma triste, que mesquinhaTe debruças sobre o inferno,Ouve o anjo, pobresinha;Vem ao goso sempiterno.Resigna-te e espera, e os dias de provaSerão para o crente quaes breves instantes.Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,Fendendo o infinito co' as asas radiantes.Depois, das alturas teu terreo vestidoSorrindo veremos na terra guardar,E ao hymno de Hosanna nos córos celestesA voz de um remido iremos junctar.»A GRAÇA.Que harmonia suaveÉ esta, que na menteEu sinto murmurar,Ora profunda e grave,Ora meiga e cadente,Ora que faz chorar?Porque da morte a sombra,Que para mim em tudoNegra se reproduz,Se aclara, e desassombraSeu gesto carrancudo,Banhada em branda luz?Porque no coraçãoNão sinto pesar tantoO ferreo pé da dor,E o hymno da oração,Em vez de irado canto,Me pede íntimo ardor?És tu, meu anjo, cuja voz divinaVem consolar a solidão do enfermo,E a contemplar com placidez o ensinaDe curta vida o derradeiro termo?Oh, sim! és tu, que na infantil idade,Da aurora á frouxa luz,Me dizias:—acorda, innocentinho,Faze o signal da cruz.»És tu, que eu via em sonhos, nesses annosDe inda puro sonhar,Em nuvem d'ouro e purpura descendoCo' as roupas a alvejar.És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga,Juncto ao bosque fremente,Me contavas mysterios, harmoniasDos céus, do mar dormente.És tu, és tu! que, lá, nesta alma absortaModulavas o canto,Que de noite, ao luar, sósinho erguiaAo Deus tres vezes sancto.És tu, que eu esqueci na idade ardenteDas paixões juvenis,E que voltas a mim, sincero amigo,Quando sou infeliz.Sinto a tua voz de novoQue me revoca a Deus:Inspira-me a esperança,Que te seguiu dos céus!...RESIGNAÇÃO«No teu seio reclinadoDormirei, Senhor, um dia,Quando for na terra friaMeu repouso procurar;Quando a lousa do sepulchroSohre mim tiver cahidoE este espirito affligidoVir a tua luz brilhar!No teu seio, de pesaresO existir não se entretece;Lá eterno o amor florece;Lá florece eterna paz:Lá bramir juncto ao poetaNão irão paixões e dores,Vãos desejos, vãos temoresDo desterro em que elle jaz.Hora extrema, eu te saúdo!Salve, oh trevas da jazida,D'onde espera erguer-se á vidaMeu espirito immortal!Anjo bom, não me abandonesNeste trance dilatado;Que contrito, resignadoMe acharás na hora fatal.E depois... Perdoa, oh anjo,Ao amor do moribundo,Que só deixa neste mundoPouco pó, muito gemer.Oh... depois... dize á mesquinhaUm segredo de doçura:Que na patria o amor se apura,Que o desterro viu nascer.Que é o céu a patria nossa;Que é o mundo exilio breve;Que o morrer é cousa leve;Que éprincipio, não éfim:Que duas almas que se amaramVão lá ter nova existencia,Confundidas n'uma essencia,A de um novo cherubim.»DEUS.Nas horas do silencio, á meia-noite,Eu louvarei o Eterno!Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,E os abysmos do inferno.Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,E a lua resplendentePare em seu gyro, ao resoar nest'harpaO hymno do Omnipotente.Antes de tempo haver, quando o infinitoMedia a eternidade,E só do vacuo as solidões enchiaDe Deus a immensidade,Elle existia, em sua essencia involto,E fóra delle o nada:No seio do Creador a vida do homemEstava ainda guardada:Ainda então do mundo os fundamentosNa mente se escondiamDe Jehovah, e os astros fulgurantesNos céus não se volviam.Eis o Tempo, o Universo, o MovimentoDas mãos sólta o Senhor:Surge o sol, banha a terra, e desabrochaSua primeira flor:Sobre o invisi­vel eixo range o globo:O vento o bosque ondeia:Retumba ao longe o mar: da vida a forçaA natureza anceia!Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,Ou cantar teu poder?Quem dirá de Teu braço as maravilhas,Fonte de todo o ser,No dia da creação; quando os thesourosDa neve amontoaste;Quando da terra nos mais fundos vallesAs aguas encerraste?!E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,Com dextra poderosa,Fez, por lei immutavel, se librassemNa mole ponderosa?Onde existia então? No typo immensoDas gerações futuras;Na mente do meu Deus. Louvor a ElleNa terra e nas alturas!Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,Do raio, e do trovão!Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,Da tarde a viração!Por sua Providencia nunca, embalde,Zumbiu minimo insecto;Nem volveu o elephante, em campo esteril,Os olhos inquieto.Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,Que ao ceifador esquece;Do norte ao urso o sol da primavera,Que o reanima e aquece?Não deu Elle á gazella amplos desertos,Ao cervo a amena selva,Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,No prado ao touro a relva?Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,Consolação e luz?Acaso em vão algum desventuradoCurvou-se aos pés da cruz?A quem não ouve Deus? Sómente ao impioNo dia da afflicção,Quando pésa sobre elle, por seus crimes,Do crime a punição.Homem, ente immortal, que és tu peranteA face do Senhor?És a junça do bréjo, harpa quebradaNas mãos do trovador!Olha o velho pinheiro, campeiandoEntre as neves alpinas:Quem irá derribar o rei dos bosquesDo throno das collinas?Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu diaExtremo Deus mandou!Lá correu o aquilão: fundas raizesAos ares lhe assoprou.Suberbo, sem temor, saíu na margemDo caudaloso Nilo,O corpo monstruoso ao sol voltando,Medonho crocodilo.De seus dentes em roda o susto habita;Vê-se a morte assentadaDentro em sua garganta, se descerraA bôca affogueada:Qual duro arnez de intrepido guerreiroÉ seu dorso escamoso;Como os ultimos ais de um moribundoSeu grito lamentoso:Fumo e fogo respira quando irado;Porém, se Deus mandou,Qual do norte impellida a nuvem passa,Assim elle passou!Teu nome ousei cantar!—Perdoa, oh Nume;Perdoa ao teu cantor!Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,Mas são hymnos de amor.Embora vís hypocritas te pintemQual barbaro tyranno:Mentem, por dominar com ferreo sceptroO vulgo cego e insano.Quem os crê é um ímpio! Receiar-teÉ maldizer-te, oh Deus;É o throno dos despotas da terraIr collocar nos céus.Eu, por mim, passarei entre os abrolhosDos males da existenciaTranquillo, e sem temor, á sombra postoDa tua Providencia.A TEMPESTADE.Sibilla o vento:—os torreões de nuvensPésam nos densos ares:Ruge ao largo a procella, e encurva as ondasPela extensão dos mares:A immensa vaga ao longe vem correndo,Em seu terror envolta;E, d'entre as sombras, rapidas centelhasA tempestade solta.Do sol no occaso um raio derradeiro,Que, apenas fulge, morre,Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,Para apaga-lo corre.Tal nos affaga em sonhos a esperança,Ao despontar do dia,Mas, no acordar, lá vem a conscienciaDizer que ella mentia!As ondas negro-azues se conglobaram;Serras tornadas são,Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,Bater, partir-se vão.Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,Da natureza açoite!Tu guias os bulcões, do mar princesa,E é teu vestido a noite!Quando pelos pinhaes, entre o granizo,Ao sussurrar das ramas,Vibrando sustos, pavorosa rugesE assolação derramas,Quem porfiar comtigo, então, ousáraDe gloria e poderio;Tu que fazes gemer pendido o cedro,Turbar-se o claro rio?Quem me dera ser tu, por balouçar-meDas nuvens nos castellos,E ver dos ferros meus, emfim, quebradosOs rebatidos élos!Eu rodeára, então, o globo inteiro;Eu sublevára as aguas;Eu dos volcões com raios accendêraAmortecidas fráguas;Do robusto carvalho e sobro antigoAcurvaria as frontes;Com furacões, os areiaes da LybiaConverteria em montes;Pelo fulgor da lua, lá do norteNo polo me assentára,E vira prolongar-se o gelo eterno,Que o tempo amontoára.Alli, eu solitario, eu rei da morte,Erguèra meu clamor,E dissera:—sou livre, e tenho imperio;Aqui, sou eu senhor!»Quem se podéra erguer, como estas vagas,Em turbilhões incertos,

Oh, que viesse o que não crê, comigo,Á vecejante Arrabida de noite,E se assentasse aqui sobre estas fragas,Escutando o sussurro incerto e tristeDas movediças ramas, que povôaDe saudade e de amor nocturna brisa;Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,E ouvisse o mar soando:—elle chorára,Qual eu chorei, as lagrymas do goso,E adorando o Senhor detestariaDe uma sciencia van seu vão orgulho.X.É aqui neste valle, ao qual não chegaHumana voz e o tumultuar das turbas,Onde o nada da vida sonda livreO coração, que busca ir abrigar-seNo futuro, e debaixo do amplo mantoDa piedade de Deus: aqui serenaVem a imagem da campa, como a imagemDa patria ao desterrado; aqui, solemne,Brada a montanha, memorando a morte.Essas penhas, que, lá no alto das serrasNuas, crestadas, solitarias dormem,Parecem imitar da sepulturaO aspecto melancholico e o repousoTão desejado do que em Deus confia.Bem semelhante á paz, que se ha sentadoPor seculos, alli, nas cordilheirasÉ o silencio do adro, onde reunemOs cyprestes e a cruz, o céu e a terra.Como tu vens cercado de esperança,Para o innocente, oh placido sepulchro!Juncto das tuas bordas pavorosasO perverso recúa horrorisado:Após si volve os olhos; na existenciaDeserto árido só descobre ao longe,Onde a virtude não deixou um trilho.Mas o justo, chegando á meta extrema,Que separa de nós a eternidade,Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.O infeliz e o feliz lá dormem ambos,Tranquillamente: e o trovador mesquinho,Que peregrino vagueiou na terra,Sem encontrar um coração ardenteQue o entendesse, a patria de seus sonhos,Ignota, por lá busca; e quando as erasVierem juncto ás cinzas collocar-lheTardios louros, que escondera a inveja,Elle não erguerá a mão mirrada,Para os cingir na regelada fronte.Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,Ao pé da sepultura, é som perdidoDe harpa eolia esquecida em brenha ou selva:O despertar um pae, que saboreiaEntre os braços da morte o extremo somno,Já não é dado ao filial suspiro;Em vão o amante, alli, da amada suaDe rosas sobre a c'roa debruçado,Réga de amargo pranto as murchas floresE a fria pedra: a pedra é sempre fria,E para sempre as flores se murcharam.XI.Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,Aspirando o futuro além da vidaE um halito dos ceus, gemer atadaÁ columna do exilio, a que se chamaEm lingua vil e mentirosa o mundo.Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filhoDos sonhos meus. A imagem do desertoGuarda-la-hei no coração, bem junctoCom minha fé, meu unico thesouro.Qual pomposo jardim de verme illustre,Chamado rei ou nobre, ha-de comtigoComparar-se, oh deserto? Aqui não cresceEm vaso de alabastro a flor captiva,Ou arvore educada por mão de homem,Que lhe diga—és escrava» e erga um ferroE lhe decepe os troncos. Como é livreA vaga do oceano é livre no ermoA bonina rasteira e o freixo altivo!Não lhes diz—nasce aqui, ou lá não cresças»Humana voz. Se baqueou o freixo,Deus o mandou: se a flor pendida murcha,É que o rocío não desceu de noite,E da vida o Senhor lhe nega a vida.Céu livre, terra livre, e livre a mente,Paz intima, e saudade, mas saudadeQue não dóe, que não mirra, e que consola,São as riquezas do ermo, onde sorriemDas procellas do mundo os que o deixaram.XII.Alli naquella encosta, hontem de noite,Alvejava por entre os medronheirosDo solitario a habitação tranquilla:E eu vagueei por lá. Patente estavaO pobre alvergue do eremita humilde,Onde jazia o filho da esperançaSob as asas de Deus, á luz dos astros,Em leito, duro sim, não de remorsos.Oh, com quanto socego o bom do velhoDormia! A leve aragem lhe ondeiavaAs raras cans na fronte, onde se liaA bella historia de passados annos.De alto choupo através passava um raioDa lua—astro de paz, astro que chamaOs olhos para o céu, e a Deus a mente—E em luz pallida as faces lhe banhava:E talvez neste raio o Pae celesteDa patria eterna lhe enviava a imagem,Que o sorriso dos labios lhe fugia,Como se um sonho de ventura e gloriaNa terra de antemão o consolasse.E eu comparei o solitario obscuroAo inquieto filho das cidades:Comparei o deserto silenciosoAo perpetuo ruido que sussurraPelos palacios do abastado e nobre,Pelos paços dos reis; e condoí-meDo cortezão suberbo, que só curaDe honras, haveres, gloria, que se compramCom maldicções e perennal remorso.Gloria! A sua qual é? Pelas campinas,Cubertas de cadaveres, regadasDe negro sangue, elle segou seus louros;Louros que vão cingir-lhe a fronte altivaAo som do choro da viuva e do orpham;Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,Os homens, seus irmãos, flagella e opprimeLá o filho do pó se julga um nume,Porque a terra o adorou: o desgraçadoPensa, talvez, que o verme dos sepulchrosNunca se ha-de chegar para traga-loAo banquete da morte, imaginandoQue uma lagea de marmore, que escondeO cadaver do grande, é mais duravelDo que esse chão sem inscripção, sem nome,Por onde o oppresso, o misero, procuraO repouso, e se atira aos pés do thronoDo Omnipotente, a demandar justiçaContra os fortes do mundo, os seus tyrannos.XIII.Oh cidade, cidade, que trasbordasDe vicios, de paixões, e de amarguras!Tu lá estás, na tua pompa involta,Suberba prostituta, alardeiandoOs theatros, e os paços, e o ruidoDas carroças dos nobres, recamadasDe ouro e prata, e os prazeres de uma vidaTempestuosa, e o tropeiar continuoDos férvidos ginetes, que alevantamO pó e o lodo cortezão das praças;E as gerações corruptas de teus filhosLá se revolvem, qual montão de vermesSobre um cadaver putrido!—Cidade,Branqueado sepulchro, que misturasA opulencia, a miseria, a dôr e o goso,Honra e infamia, pudor e impudicicia,Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloriaDa humanidade?—O que o souber que o diga!Bem negra avulta aqui, na paz do valle,A imagem desse povo, que reflueDas moradas á rua, á praça, ao templo;Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;Absurdo mixto de baixeza extremaE de extrema ousadia; vulto enorme,Ora aos pés de um vil despota estendido,Ora surgindo, e arremessando ao nadaAs memorias dos seculos que foram,E depois sobre o nada adormecendo.Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-seEm joelhos nos atrios dos tyrannos,Onde, entre o lampejar de armas de servos,O servo popular adora um tigre?Esse tigre é o idolo do povo!Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lheO ferreo sceptro: ide folgar em rodaDe cadafalsos, povoados sempreDe victimas illustres, cujo arrancoSeja como harmonia, que adormenteEm seus terrores o senhor das turbas.Passae depois. Se a mão da ProvidenciaEsmigalhou a fronte á tyrannia;Se o despota cahiu, e está deitadoNo lodaçal da sua infamia, a turbaLá vai buscar o sceptro dos terrores,E diz—é meu»; e assenta-se na praça,E involta em roto manto, e julga, e reina.Se um ímpio, então, na affogueada bôccaDe volcão popular sacode um facho,Eis o incendio que muge, e a lava sóbe,E referve, e trasborda, e se derramaPelas ruas além: clamor retumbaDe anarchia impudente, e o brilho de armasPelo escuro transluz, como um presagioDe assolação, e se amontoam vagasDesse mar d'abjecção, chamado o vulgo;Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnosCava fundo da Patria a sepultura.Onde, abraçando a gloria do passadoE do futuro a ultima esperança,As esmaga comsi­go, e ri morrendo.Tal és, cidade, licenciosa ou serva!Outros louvem teus paços sumptuosos,Teu ouro, teu poder:—sentina impuraDe corrupções, teus não serão meus hymnos!XIV.Cantor da solidão, vim assentar-meJuncto do verde cespede do valle,E a paz de Deus do mundo me consola.Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,Um pobre conventinho. Homem piedosoO alevantou ha seculos, passando,Como orvalho do céu, por este sitio,De virtudes depois tão rico e fertil.Como um pae de seus filhos rodeado,Pelos matos do outeiro o vão cercandoOs tugurios de humildes eremitas,Onde o cilicio e a compuncção apagamDa lembrança de Deus passados errosDo peccador, que reclinou a frontePenitente no pó. O sacerdoteDos remorsos lhe ouviu as amarguras;E perdoou-lhe, e consolou-o em nomeDo que expirando perdoava, o JustoQue entre os humanos não achou piedade.XV.Religião! do misero conforto,Abrigo extremo de alma, que ha mirradoO longo agonisar de uma saudade,Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo,Que renovou o corrompido mundo,E que mil povos pouco a pouco ouviram.Nobre, plebeu, dominador, ou servo,O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,Da desgraça no dia ajoelharamNo limiar do solitario templo.Ao pé desse portal, que veste o musgo,Encontrou-os chorando o sacerdote,Que da serra descia á meia-noite,Pelo sino das preces convocado:Ahi os viu ao despontar do dia,Sob os raios do sol, ainda chorando.Passados mezes, o burel grosseiro,O leito de cortiça, e a fervorosaE contínua oração foram cerrandoNos corações dos miseros as chagas,Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.Aqui, depois, qual halito suaveDa primavera, lhes correu a vida,Até sumir-se no adro do convento,Debaixo de uma lagea tosca e humilde,Sem nome, nem palavra, que recordeO que a terra abrigou no somno extremo.Eremiterio antigo, oh, se podessesDos annos que lá vão contar a historia;Se ora, á voz do cantor, possivel fosseTransudar desse chão, gelado e mudo,O mudo pranto, em noites dolorosas,Por naufragos do mundo derramadoSobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis,Broncas pedras, falar, o que dirieis!Quantos nomes mimosos da ventura,Convertidos em fabula das gentes,Despertariam o eccho das montanhas,Se aos negros troncos do sobreiro antigoMandasse o Eterno sussurrar a historiaDos que vieram desnudar-lhe o cepo,Para um leito formar, onde velassemDa mágua, ou do remorso as longas noites!Aqui veiu, talvez, buscar asyloUm poderoso, outr'ora anjo da terra,Despenhado nas trévas do infortunio;Aqui gemeu, talvez, o amor trahido,Ou pela morte convertido em cancroDe infernal desespero; aqui soaramDo arrependido os ultimos gemidos,Depois da vida derramada em gosos,Depois do goso convertido em tedio.Mas quem foram? Nenhum, depondo em terraVestidura mortal, deixou vestigiosDe seu breve passar. E isso que importa,Se Deus o viu; se as lagrymas do tristeElle contou, para as pagar com gloria?XVI.Ainda em curvo outeiro, ao fim da sendaQue serpeia do monte ao fundo valle,Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,Como um pharol de vida em mar de escolhos:Ao christão infeliz acolhe no ermo,E consolando-o, diz-lhe—a patria tuaÉ lá no céu: abraça-te comigo.»Juncto della esses homens, que passaramAcurvados na dôr, as mãos ergueramPara o Deus, que perdoa, e que é confortoDos que aos pés deste symbolo da esp'rançaVem derramar seu coração afflicto:É do deserto a historia a cruz e a campa;E sobre tudo o mais pousa o silencio.XVII.Feliz da terra, os monges não maldigas;Do que em Deus confiou não escarneças!Folgando segue a trilha, que ha juncado,Para teus pés, de flores a fortuna,E sobre a morta crença em paz descança.Que mal te faz, que goso vae roubar-teO que ensanguenta os pés no tojo agreste,E sobre a fria pedra encosta a fronte?Que mal te faz uma oração erguida,Nas solidões, por voz sumida e frouxa,E que, subindo aos céus, só Deus escuta?Oh, não insultes lagrymas alheias,E deixa a fé ao que não tem mais nada!...E se estes versos te contristam, rasga-os.Teus menestreis te venderão seus hymnos,Nos banquetes opiparos, emquantoO negro pão repartirá comigo,Seu trovador, o pobre anachoreta,Que não te inveja as ditas, como as c'roasDo prazer ao cantor eu não invejo;Tristes coroas, sob as quaes às vezesEstá gravada uma inscripção d'infamia.MOCIDADE E MORTE.Solevantado o corpo, os olhos fitos,As magras mãos cruzadas sobre o peito,Vêde-o, tão moço, velador de angustias,Pela alta noite em solitario leito.Por essas faces pallidas, cavadas,Olhae, em fio as lagrymas deslisam;E com o pulso, que apressado bate,Do coração os éstos harmonisam.É que nas veias lhe circula a febre;É que a fronte lhe alaga o suor frio;É que lá dentro á dor, que o vai roendo,Responde horrivel íntimo ciclo.Encostando na mão o rosto acceso,Fitou os olhos humidos de prantoNa lampada mortal alli pendente,E lá comsigo modulou um canto.É um hymno de amor e de esperança?É oração de angustia e de saudade?Resignado na dor, saúda a morte,Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?É isso tudo, tumultuando incertoNo delírio febril daquella menteQue, balouçada á borda do sepulchro,Volve após si a vista longamente.É a poesia a murmurar-lhe na almaUltima nota de quebrada lyra;É o gemido do tombar do cedro;É triste adeus do trovador que expira.DESESPERANÇA.«Meia-noite bateu, volvendo ao nadaUm dia mais, e caminhando eu sigo!Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!Qual tufão, que ao passar agita o pégo.Meu placido existir turvou a sorte.Halito impuro de pulmões raladosMe diz que nelles se assentou a morte.Em quanto mil e mil no largo mundoDormem em paz sorrindo, eu vélo e penso,E julgo ouvir as preces por finados,E ver a tumba e o fumegar do incenso.Se dormito um momento, acórdo em sustos;Pulos me dá o coração no peito,E abraço e beijo de uma vida extinctaO ultimo socio, o doloroso leito.De um abysmo insondado ás agras bordasInsanavel doença me ha guiado,E disse-me:—no fundo o esquecimento:Desce; mas desce com andar pausado.»E eu lento vou descendo, e sondo as trévas:Busco parar; parar um só instante!Mas a cruel, travando-me da dextra,Me faz cahir mais fundo, e grita:—ávante!»Porque escutar o transito das horas?Alguma dellas trar-me-ha conforto?Não! Esses golpes, que no bronze ferem,São para mim como dobrar por morto.«Morto! morto!—me clama a consciencia:Diz-m'o este respirar rouco e profundo.Ai! porque fremes, coração de fogo,Dentro de um seio corrompido e immundo?Beber um ar diaphano e suave,Que renovou da tarde o brando vento,E converte-lo, no aspirar contínuo,Em bafo apodrecido e peçonhento!Estender para o amigo a mão mirrada,E elle negar a mão ao pobre amigo;Querer uni-lo ao seio descarnado,E elle fugir, temendo o seu perigo!E ver após um dia ainda cem dias,Nús d'esperança, ferteis de amargura;Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo,E só, bem lá no extremo, a sepultura!Agora!... quando a vida me sorria:Agora!... que meu estro se accendêra;Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças,Como se enlaça pelo choupo a hera,Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo;Varrer-me o nome escuro esquecimento:Não ter um eccho de louvor, que affagueDo desgraçado o humilde monumento!Oh tu, sêde de um nome glorioso,Que tão fagueiros sonhos me tecias,Fugiste, e só me resta a pobre herançaDe ver a luz do sol mais alguns dias.Vestem-se os campos do verdor primeiro:Já das aves canções no bosque ecchoam:Não para mim, que só escuto attentoFunereos dobres que no templo soam!Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,Irei tão cedo repousar na terra?!Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;Um louro só... e meu sepulchro cerra!É tão bom respirar, e a luz brilhanteDo sol oriental saudar no outeiro!Ai, na manhan sauda-la posso ainda;Mas será este inverno o derradeiro!Quando de pomos o vergel for cheio;Quando ondeiar o trigo na planura;Quando pender com aureo fructo a vide,Eu tambem penderei na sepultura.Dos que me cercam no turbado aspecto,Na voz que prende desusado enleio,No pranto a furto, no fingido risoFatal sentença de morrer eu leio.Vistes vós criminoso, que hão lançadoSeus juizes nos trances da agonia,Em oratorio estreito, onde não entraSuavissima luz do claro dia;Diante a cruz, ao lado o sacerdote,O cadafalso, o crime, o algoz na mente,O povo tumultuando, o extremo arranco,E céu, e inferno, e as maldicções da gente?Se adormece, lá surge um pesadelo,Com os martyrios da sua alma acorde;Desperta logo, e á terra se arremessa,E os punhos cerra, e delirante os morde.Sobre as lageas do duro pavimentoDe vergões e de sangue o rosto cobre.Ergue-se e escuta com cabellos hirtosDo sino ao longe o compassado dobre.Sem esperança!...Não! Do cadafalsoSóbe as escadas o perdão ás vezes;Porém a mim... não me dirão:—és salvo!»E o meu supplicio durará por mezes.Dizer posso:—existi: que a dor conheço!Do goso a taça só provei por horas:E serei teu, calado cemiterio,Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.Se o furacão rugiu, e o debil troncoDe arvore tenra espedaçou passando,Quem se doeu de a ver jazendo em terra?Tal é o meu destino miserando!Numen de sancto amor, mulher querida,Anjo do céu, encanto da existencia,Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te.Por ti me salve a mão da Providencia.Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge!Um beijo ardente aos labios teus voára:E neste beijo venenoso a morteTalvez este infeliz só te entregára!Se eu podesse viver... como teus diasCercaria de amor suave e puro!Como te fôra placido o presente;Quanto risonho o aspecto do futuro!Porém, medonho espectro ante meus olhos,Como sombra infernal perpetuo ondeia,Bradando-me que vai partir-se o fioCom que da minha vida se urde a teia.Entregue á seducção em quanto eu durmo,No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!Quem velará por ti, pomba innocente?Quem do perjurio poderá salvar-te?Quando eu cerrar os olhos moribundosTu verterás por mim pranto saudoso;Mas quem me diz que não virá o risoBanhar teu rosto triste e lachrymoso?Ai, o extincto só herda o esquecimento!Um novo amor te agitará o peito:E a dura lagea cubrirá meus ossosFrios, despidos sobre terreo leito!...Oh Deus, porque este calix de agoniaAté as bordas de amargor me encheste?Se eu devia acabar na juventude,Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?Virgem do meu amor, porque perde-la?Porque entre nós a campa ha-de assentar-se?Tua suprema paz com goso ou dores,Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?Não haver quem me salve! e vir um diaEm que de minha o nome ainda lhe désse!Então, Senhor, o umbral da eternidade,Talvez sem um queixume, transposesse.Mas, qual flor em botão pendida e murcha,Sem de fragrancias perfumar a brisa,Eu poeta, eu amante, ir esconder-meSob uma lousa desprezada e lisa!Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?Em te adorar que fui, senão insano?...O teu fatal poder hoje maldigo!O que te chama pae, mente: és tyranno.E se aos pés de teu throno os ais não chegam;Se os gemidos da terra os ares somem;Se a Providencia é crença van, mentida,Porque geraste a intelligencia do homem?Porque da virgem no sorrir posesteSancto presagio de suprema dita,E apontaste ao poeta a immensidadeNa ancia de gloria que em sua alma habita?A immensidade!... E que me importa herda-la,Se na terra passei sem ser sentido?Que val eterno vagueiar no espaço,Se nosso nome se afundou no olvido?O ANJO DA GUARDA.«I­mpio, silencio! A tua voz blasphemaDa noite a paz perturba.Verme, que te rebellasSob a mão do Senhor,Vês os milhões d'estrellasDe nitido fulgor,Que, em ordenada turba,A Deus entoam incessantes hymnos?Quantas vezes apagaDo livro da existenciaUm orbe a mão do Eterno!E o bello astro que expiraMaldiz a Providencia,Maldiz a mão que o esmaga?Acaso pára o cantico superno?Ou apenas suspiraO moribundo,Que se chamava um mundo?Quem vai pôr uma campa sobre os restosDesse inerte planeta,Que o destructor cometaIncinerou na rapida passagem?E tu, átomo obscuro,Que varre á tarde a aragem,Sóltas do seio impuroMaldicção insensata,Porque o teu Deus te evoca á eternidade?Que é o viver? O umbral, a que um momentoO espirito, surgindoDas solidões do nadaÁ voz do Creador, se encosta, e attentoContempla a luz e o céu; d'onde desataSeu vôo á immensidade.Geme acaso o passarinhoDe saudade,Quando as azas expande, e deixa o ninhoA vez primeira, a mergulhar nos ares?Volve olhos lachrymososAos mares tormentososO navegante, quando aproa ás plagasDa patria suspirada?Porque morres?! Pergunta á ProvidenciaPorque te fez nascer.Qual era o teu direito a ver o mundo;Teu jus á existencia?Olha no outono o ulmeiroQue o vendaval agita,E cujas tenues folhasAos centos precipita.São a folha do ulmeiro o nome e a fama,E o amar dos humanos:Ao nada do que foi assim se atiramNo vortice dos annos.Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,Que somem mil ruí­dos.E a voz da terra o que é, na voz immensaDos orbes reunidos?Amor! amor terreno!... Ai, se podessesComprehender a amargura,Com que te chóro, oh alma transviada!Eu, que te amei do berço, e qual doçuraHa no affecto que liga o anjo ao homem,Rindo despiras esse corpo enfermo,Para te unir a mim, para aspiraresO goso celestial de amor sem termo!Alma triste, que mesquinhaTe debruças sobre o inferno,Ouve o anjo, pobresinha;Vem ao goso sempiterno.Resigna-te e espera, e os dias de provaSerão para o crente quaes breves instantes.Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,Fendendo o infinito co' as asas radiantes.Depois, das alturas teu terreo vestidoSorrindo veremos na terra guardar,E ao hymno de Hosanna nos córos celestesA voz de um remido iremos junctar.»A GRAÇA.Que harmonia suaveÉ esta, que na menteEu sinto murmurar,Ora profunda e grave,Ora meiga e cadente,Ora que faz chorar?Porque da morte a sombra,Que para mim em tudoNegra se reproduz,Se aclara, e desassombraSeu gesto carrancudo,Banhada em branda luz?Porque no coraçãoNão sinto pesar tantoO ferreo pé da dor,E o hymno da oração,Em vez de irado canto,Me pede íntimo ardor?És tu, meu anjo, cuja voz divinaVem consolar a solidão do enfermo,E a contemplar com placidez o ensinaDe curta vida o derradeiro termo?Oh, sim! és tu, que na infantil idade,Da aurora á frouxa luz,Me dizias:—acorda, innocentinho,Faze o signal da cruz.»És tu, que eu via em sonhos, nesses annosDe inda puro sonhar,Em nuvem d'ouro e purpura descendoCo' as roupas a alvejar.És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga,Juncto ao bosque fremente,Me contavas mysterios, harmoniasDos céus, do mar dormente.És tu, és tu! que, lá, nesta alma absortaModulavas o canto,Que de noite, ao luar, sósinho erguiaAo Deus tres vezes sancto.És tu, que eu esqueci na idade ardenteDas paixões juvenis,E que voltas a mim, sincero amigo,Quando sou infeliz.Sinto a tua voz de novoQue me revoca a Deus:Inspira-me a esperança,Que te seguiu dos céus!...RESIGNAÇÃO«No teu seio reclinadoDormirei, Senhor, um dia,Quando for na terra friaMeu repouso procurar;Quando a lousa do sepulchroSohre mim tiver cahidoE este espirito affligidoVir a tua luz brilhar!No teu seio, de pesaresO existir não se entretece;Lá eterno o amor florece;Lá florece eterna paz:Lá bramir juncto ao poetaNão irão paixões e dores,Vãos desejos, vãos temoresDo desterro em que elle jaz.Hora extrema, eu te saúdo!Salve, oh trevas da jazida,D'onde espera erguer-se á vidaMeu espirito immortal!Anjo bom, não me abandonesNeste trance dilatado;Que contrito, resignadoMe acharás na hora fatal.E depois... Perdoa, oh anjo,Ao amor do moribundo,Que só deixa neste mundoPouco pó, muito gemer.Oh... depois... dize á mesquinhaUm segredo de doçura:Que na patria o amor se apura,Que o desterro viu nascer.Que é o céu a patria nossa;Que é o mundo exilio breve;Que o morrer é cousa leve;Que éprincipio, não éfim:Que duas almas que se amaramVão lá ter nova existencia,Confundidas n'uma essencia,A de um novo cherubim.»DEUS.Nas horas do silencio, á meia-noite,Eu louvarei o Eterno!Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,E os abysmos do inferno.Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,E a lua resplendentePare em seu gyro, ao resoar nest'harpaO hymno do Omnipotente.Antes de tempo haver, quando o infinitoMedia a eternidade,E só do vacuo as solidões enchiaDe Deus a immensidade,Elle existia, em sua essencia involto,E fóra delle o nada:No seio do Creador a vida do homemEstava ainda guardada:Ainda então do mundo os fundamentosNa mente se escondiamDe Jehovah, e os astros fulgurantesNos céus não se volviam.Eis o Tempo, o Universo, o MovimentoDas mãos sólta o Senhor:Surge o sol, banha a terra, e desabrochaSua primeira flor:Sobre o invisi­vel eixo range o globo:O vento o bosque ondeia:Retumba ao longe o mar: da vida a forçaA natureza anceia!Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,Ou cantar teu poder?Quem dirá de Teu braço as maravilhas,Fonte de todo o ser,No dia da creação; quando os thesourosDa neve amontoaste;Quando da terra nos mais fundos vallesAs aguas encerraste?!E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,Com dextra poderosa,Fez, por lei immutavel, se librassemNa mole ponderosa?Onde existia então? No typo immensoDas gerações futuras;Na mente do meu Deus. Louvor a ElleNa terra e nas alturas!Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,Do raio, e do trovão!Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,Da tarde a viração!Por sua Providencia nunca, embalde,Zumbiu minimo insecto;Nem volveu o elephante, em campo esteril,Os olhos inquieto.Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,Que ao ceifador esquece;Do norte ao urso o sol da primavera,Que o reanima e aquece?Não deu Elle á gazella amplos desertos,Ao cervo a amena selva,Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,No prado ao touro a relva?Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,Consolação e luz?Acaso em vão algum desventuradoCurvou-se aos pés da cruz?A quem não ouve Deus? Sómente ao impioNo dia da afflicção,Quando pésa sobre elle, por seus crimes,Do crime a punição.Homem, ente immortal, que és tu peranteA face do Senhor?És a junça do bréjo, harpa quebradaNas mãos do trovador!Olha o velho pinheiro, campeiandoEntre as neves alpinas:Quem irá derribar o rei dos bosquesDo throno das collinas?Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu diaExtremo Deus mandou!Lá correu o aquilão: fundas raizesAos ares lhe assoprou.Suberbo, sem temor, saíu na margemDo caudaloso Nilo,O corpo monstruoso ao sol voltando,Medonho crocodilo.De seus dentes em roda o susto habita;Vê-se a morte assentadaDentro em sua garganta, se descerraA bôca affogueada:Qual duro arnez de intrepido guerreiroÉ seu dorso escamoso;Como os ultimos ais de um moribundoSeu grito lamentoso:Fumo e fogo respira quando irado;Porém, se Deus mandou,Qual do norte impellida a nuvem passa,Assim elle passou!Teu nome ousei cantar!—Perdoa, oh Nume;Perdoa ao teu cantor!Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,Mas são hymnos de amor.Embora vís hypocritas te pintemQual barbaro tyranno:Mentem, por dominar com ferreo sceptroO vulgo cego e insano.Quem os crê é um ímpio! Receiar-teÉ maldizer-te, oh Deus;É o throno dos despotas da terraIr collocar nos céus.Eu, por mim, passarei entre os abrolhosDos males da existenciaTranquillo, e sem temor, á sombra postoDa tua Providencia.A TEMPESTADE.Sibilla o vento:—os torreões de nuvensPésam nos densos ares:Ruge ao largo a procella, e encurva as ondasPela extensão dos mares:A immensa vaga ao longe vem correndo,Em seu terror envolta;E, d'entre as sombras, rapidas centelhasA tempestade solta.Do sol no occaso um raio derradeiro,Que, apenas fulge, morre,Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,Para apaga-lo corre.Tal nos affaga em sonhos a esperança,Ao despontar do dia,Mas, no acordar, lá vem a conscienciaDizer que ella mentia!As ondas negro-azues se conglobaram;Serras tornadas são,Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,Bater, partir-se vão.Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,Da natureza açoite!Tu guias os bulcões, do mar princesa,E é teu vestido a noite!Quando pelos pinhaes, entre o granizo,Ao sussurrar das ramas,Vibrando sustos, pavorosa rugesE assolação derramas,Quem porfiar comtigo, então, ousáraDe gloria e poderio;Tu que fazes gemer pendido o cedro,Turbar-se o claro rio?Quem me dera ser tu, por balouçar-meDas nuvens nos castellos,E ver dos ferros meus, emfim, quebradosOs rebatidos élos!Eu rodeára, então, o globo inteiro;Eu sublevára as aguas;Eu dos volcões com raios accendêraAmortecidas fráguas;Do robusto carvalho e sobro antigoAcurvaria as frontes;Com furacões, os areiaes da LybiaConverteria em montes;Pelo fulgor da lua, lá do norteNo polo me assentára,E vira prolongar-se o gelo eterno,Que o tempo amontoára.Alli, eu solitario, eu rei da morte,Erguèra meu clamor,E dissera:—sou livre, e tenho imperio;Aqui, sou eu senhor!»Quem se podéra erguer, como estas vagas,Em turbilhões incertos,

Oh, que viesse o que não crê, comigo,Á vecejante Arrabida de noite,E se assentasse aqui sobre estas fragas,Escutando o sussurro incerto e tristeDas movediças ramas, que povôaDe saudade e de amor nocturna brisa;Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,E ouvisse o mar soando:—elle chorára,Qual eu chorei, as lagrymas do goso,E adorando o Senhor detestariaDe uma sciencia van seu vão orgulho.

É aqui neste valle, ao qual não chegaHumana voz e o tumultuar das turbas,Onde o nada da vida sonda livreO coração, que busca ir abrigar-seNo futuro, e debaixo do amplo mantoDa piedade de Deus: aqui serenaVem a imagem da campa, como a imagemDa patria ao desterrado; aqui, solemne,Brada a montanha, memorando a morte.Essas penhas, que, lá no alto das serrasNuas, crestadas, solitarias dormem,Parecem imitar da sepulturaO aspecto melancholico e o repousoTão desejado do que em Deus confia.Bem semelhante á paz, que se ha sentadoPor seculos, alli, nas cordilheirasÉ o silencio do adro, onde reunemOs cyprestes e a cruz, o céu e a terra.Como tu vens cercado de esperança,Para o innocente, oh placido sepulchro!Juncto das tuas bordas pavorosasO perverso recúa horrorisado:Após si volve os olhos; na existenciaDeserto árido só descobre ao longe,Onde a virtude não deixou um trilho.Mas o justo, chegando á meta extrema,Que separa de nós a eternidade,Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.O infeliz e o feliz lá dormem ambos,Tranquillamente: e o trovador mesquinho,Que peregrino vagueiou na terra,Sem encontrar um coração ardenteQue o entendesse, a patria de seus sonhos,Ignota, por lá busca; e quando as erasVierem juncto ás cinzas collocar-lheTardios louros, que escondera a inveja,Elle não erguerá a mão mirrada,Para os cingir na regelada fronte.Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,Ao pé da sepultura, é som perdidoDe harpa eolia esquecida em brenha ou selva:O despertar um pae, que saboreiaEntre os braços da morte o extremo somno,Já não é dado ao filial suspiro;Em vão o amante, alli, da amada suaDe rosas sobre a c'roa debruçado,Réga de amargo pranto as murchas floresE a fria pedra: a pedra é sempre fria,E para sempre as flores se murcharam.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,Aspirando o futuro além da vidaE um halito dos ceus, gemer atadaÁ columna do exilio, a que se chamaEm lingua vil e mentirosa o mundo.Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filhoDos sonhos meus. A imagem do desertoGuarda-la-hei no coração, bem junctoCom minha fé, meu unico thesouro.Qual pomposo jardim de verme illustre,Chamado rei ou nobre, ha-de comtigoComparar-se, oh deserto? Aqui não cresceEm vaso de alabastro a flor captiva,Ou arvore educada por mão de homem,Que lhe diga—és escrava» e erga um ferroE lhe decepe os troncos. Como é livreA vaga do oceano é livre no ermoA bonina rasteira e o freixo altivo!Não lhes diz—nasce aqui, ou lá não cresças»Humana voz. Se baqueou o freixo,Deus o mandou: se a flor pendida murcha,É que o rocío não desceu de noite,E da vida o Senhor lhe nega a vida.Céu livre, terra livre, e livre a mente,Paz intima, e saudade, mas saudadeQue não dóe, que não mirra, e que consola,São as riquezas do ermo, onde sorriemDas procellas do mundo os que o deixaram.

Alli naquella encosta, hontem de noite,Alvejava por entre os medronheirosDo solitario a habitação tranquilla:E eu vagueei por lá. Patente estavaO pobre alvergue do eremita humilde,Onde jazia o filho da esperançaSob as asas de Deus, á luz dos astros,Em leito, duro sim, não de remorsos.Oh, com quanto socego o bom do velhoDormia! A leve aragem lhe ondeiavaAs raras cans na fronte, onde se liaA bella historia de passados annos.De alto choupo através passava um raioDa lua—astro de paz, astro que chamaOs olhos para o céu, e a Deus a mente—E em luz pallida as faces lhe banhava:E talvez neste raio o Pae celesteDa patria eterna lhe enviava a imagem,Que o sorriso dos labios lhe fugia,Como se um sonho de ventura e gloriaNa terra de antemão o consolasse.E eu comparei o solitario obscuroAo inquieto filho das cidades:Comparei o deserto silenciosoAo perpetuo ruido que sussurraPelos palacios do abastado e nobre,Pelos paços dos reis; e condoí-meDo cortezão suberbo, que só curaDe honras, haveres, gloria, que se compramCom maldicções e perennal remorso.Gloria! A sua qual é? Pelas campinas,Cubertas de cadaveres, regadasDe negro sangue, elle segou seus louros;Louros que vão cingir-lhe a fronte altivaAo som do choro da viuva e do orpham;Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,Os homens, seus irmãos, flagella e opprimeLá o filho do pó se julga um nume,Porque a terra o adorou: o desgraçadoPensa, talvez, que o verme dos sepulchrosNunca se ha-de chegar para traga-loAo banquete da morte, imaginandoQue uma lagea de marmore, que escondeO cadaver do grande, é mais duravelDo que esse chão sem inscripção, sem nome,Por onde o oppresso, o misero, procuraO repouso, e se atira aos pés do thronoDo Omnipotente, a demandar justiçaContra os fortes do mundo, os seus tyrannos.

Oh cidade, cidade, que trasbordasDe vicios, de paixões, e de amarguras!Tu lá estás, na tua pompa involta,Suberba prostituta, alardeiandoOs theatros, e os paços, e o ruidoDas carroças dos nobres, recamadasDe ouro e prata, e os prazeres de uma vidaTempestuosa, e o tropeiar continuoDos férvidos ginetes, que alevantamO pó e o lodo cortezão das praças;E as gerações corruptas de teus filhosLá se revolvem, qual montão de vermesSobre um cadaver putrido!—Cidade,Branqueado sepulchro, que misturasA opulencia, a miseria, a dôr e o goso,Honra e infamia, pudor e impudicicia,Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloriaDa humanidade?—O que o souber que o diga!Bem negra avulta aqui, na paz do valle,A imagem desse povo, que reflueDas moradas á rua, á praça, ao templo;Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;Absurdo mixto de baixeza extremaE de extrema ousadia; vulto enorme,Ora aos pés de um vil despota estendido,Ora surgindo, e arremessando ao nadaAs memorias dos seculos que foram,E depois sobre o nada adormecendo.Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-seEm joelhos nos atrios dos tyrannos,Onde, entre o lampejar de armas de servos,O servo popular adora um tigre?Esse tigre é o idolo do povo!Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lheO ferreo sceptro: ide folgar em rodaDe cadafalsos, povoados sempreDe victimas illustres, cujo arrancoSeja como harmonia, que adormenteEm seus terrores o senhor das turbas.Passae depois. Se a mão da ProvidenciaEsmigalhou a fronte á tyrannia;Se o despota cahiu, e está deitadoNo lodaçal da sua infamia, a turbaLá vai buscar o sceptro dos terrores,E diz—é meu»; e assenta-se na praça,E involta em roto manto, e julga, e reina.Se um ímpio, então, na affogueada bôccaDe volcão popular sacode um facho,Eis o incendio que muge, e a lava sóbe,E referve, e trasborda, e se derramaPelas ruas além: clamor retumbaDe anarchia impudente, e o brilho de armasPelo escuro transluz, como um presagioDe assolação, e se amontoam vagasDesse mar d'abjecção, chamado o vulgo;Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnosCava fundo da Patria a sepultura.Onde, abraçando a gloria do passadoE do futuro a ultima esperança,As esmaga comsi­go, e ri morrendo.Tal és, cidade, licenciosa ou serva!Outros louvem teus paços sumptuosos,Teu ouro, teu poder:—sentina impuraDe corrupções, teus não serão meus hymnos!

Cantor da solidão, vim assentar-meJuncto do verde cespede do valle,E a paz de Deus do mundo me consola.Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,Um pobre conventinho. Homem piedosoO alevantou ha seculos, passando,Como orvalho do céu, por este sitio,De virtudes depois tão rico e fertil.Como um pae de seus filhos rodeado,Pelos matos do outeiro o vão cercandoOs tugurios de humildes eremitas,Onde o cilicio e a compuncção apagamDa lembrança de Deus passados errosDo peccador, que reclinou a frontePenitente no pó. O sacerdoteDos remorsos lhe ouviu as amarguras;E perdoou-lhe, e consolou-o em nomeDo que expirando perdoava, o JustoQue entre os humanos não achou piedade.

Religião! do misero conforto,Abrigo extremo de alma, que ha mirradoO longo agonisar de uma saudade,Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo,Que renovou o corrompido mundo,E que mil povos pouco a pouco ouviram.Nobre, plebeu, dominador, ou servo,O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,Da desgraça no dia ajoelharamNo limiar do solitario templo.Ao pé desse portal, que veste o musgo,Encontrou-os chorando o sacerdote,Que da serra descia á meia-noite,Pelo sino das preces convocado:Ahi os viu ao despontar do dia,Sob os raios do sol, ainda chorando.Passados mezes, o burel grosseiro,O leito de cortiça, e a fervorosaE contínua oração foram cerrandoNos corações dos miseros as chagas,Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.Aqui, depois, qual halito suaveDa primavera, lhes correu a vida,Até sumir-se no adro do convento,Debaixo de uma lagea tosca e humilde,Sem nome, nem palavra, que recordeO que a terra abrigou no somno extremo.Eremiterio antigo, oh, se podessesDos annos que lá vão contar a historia;Se ora, á voz do cantor, possivel fosseTransudar desse chão, gelado e mudo,O mudo pranto, em noites dolorosas,Por naufragos do mundo derramadoSobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis,Broncas pedras, falar, o que dirieis!Quantos nomes mimosos da ventura,Convertidos em fabula das gentes,Despertariam o eccho das montanhas,Se aos negros troncos do sobreiro antigoMandasse o Eterno sussurrar a historiaDos que vieram desnudar-lhe o cepo,Para um leito formar, onde velassemDa mágua, ou do remorso as longas noites!Aqui veiu, talvez, buscar asyloUm poderoso, outr'ora anjo da terra,Despenhado nas trévas do infortunio;Aqui gemeu, talvez, o amor trahido,Ou pela morte convertido em cancroDe infernal desespero; aqui soaramDo arrependido os ultimos gemidos,Depois da vida derramada em gosos,Depois do goso convertido em tedio.Mas quem foram? Nenhum, depondo em terraVestidura mortal, deixou vestigiosDe seu breve passar. E isso que importa,Se Deus o viu; se as lagrymas do tristeElle contou, para as pagar com gloria?

Ainda em curvo outeiro, ao fim da sendaQue serpeia do monte ao fundo valle,Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,Como um pharol de vida em mar de escolhos:Ao christão infeliz acolhe no ermo,E consolando-o, diz-lhe—a patria tuaÉ lá no céu: abraça-te comigo.»Juncto della esses homens, que passaramAcurvados na dôr, as mãos ergueramPara o Deus, que perdoa, e que é confortoDos que aos pés deste symbolo da esp'rançaVem derramar seu coração afflicto:É do deserto a historia a cruz e a campa;E sobre tudo o mais pousa o silencio.

Feliz da terra, os monges não maldigas;Do que em Deus confiou não escarneças!Folgando segue a trilha, que ha juncado,Para teus pés, de flores a fortuna,E sobre a morta crença em paz descança.Que mal te faz, que goso vae roubar-teO que ensanguenta os pés no tojo agreste,E sobre a fria pedra encosta a fronte?Que mal te faz uma oração erguida,Nas solidões, por voz sumida e frouxa,E que, subindo aos céus, só Deus escuta?Oh, não insultes lagrymas alheias,E deixa a fé ao que não tem mais nada!...E se estes versos te contristam, rasga-os.Teus menestreis te venderão seus hymnos,Nos banquetes opiparos, emquantoO negro pão repartirá comigo,Seu trovador, o pobre anachoreta,Que não te inveja as ditas, como as c'roasDo prazer ao cantor eu não invejo;Tristes coroas, sob as quaes às vezesEstá gravada uma inscripção d'infamia.

Solevantado o corpo, os olhos fitos,As magras mãos cruzadas sobre o peito,Vêde-o, tão moço, velador de angustias,Pela alta noite em solitario leito.Por essas faces pallidas, cavadas,Olhae, em fio as lagrymas deslisam;E com o pulso, que apressado bate,Do coração os éstos harmonisam.É que nas veias lhe circula a febre;É que a fronte lhe alaga o suor frio;É que lá dentro á dor, que o vai roendo,Responde horrivel íntimo ciclo.Encostando na mão o rosto acceso,Fitou os olhos humidos de prantoNa lampada mortal alli pendente,E lá comsigo modulou um canto.É um hymno de amor e de esperança?É oração de angustia e de saudade?Resignado na dor, saúda a morte,Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?É isso tudo, tumultuando incertoNo delírio febril daquella menteQue, balouçada á borda do sepulchro,Volve após si a vista longamente.É a poesia a murmurar-lhe na almaUltima nota de quebrada lyra;É o gemido do tombar do cedro;É triste adeus do trovador que expira.

«Meia-noite bateu, volvendo ao nadaUm dia mais, e caminhando eu sigo!Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!Qual tufão, que ao passar agita o pégo.Meu placido existir turvou a sorte.Halito impuro de pulmões raladosMe diz que nelles se assentou a morte.Em quanto mil e mil no largo mundoDormem em paz sorrindo, eu vélo e penso,E julgo ouvir as preces por finados,E ver a tumba e o fumegar do incenso.Se dormito um momento, acórdo em sustos;Pulos me dá o coração no peito,E abraço e beijo de uma vida extinctaO ultimo socio, o doloroso leito.De um abysmo insondado ás agras bordasInsanavel doença me ha guiado,E disse-me:—no fundo o esquecimento:Desce; mas desce com andar pausado.»E eu lento vou descendo, e sondo as trévas:Busco parar; parar um só instante!Mas a cruel, travando-me da dextra,Me faz cahir mais fundo, e grita:—ávante!»Porque escutar o transito das horas?Alguma dellas trar-me-ha conforto?Não! Esses golpes, que no bronze ferem,São para mim como dobrar por morto.«Morto! morto!—me clama a consciencia:Diz-m'o este respirar rouco e profundo.Ai! porque fremes, coração de fogo,Dentro de um seio corrompido e immundo?Beber um ar diaphano e suave,Que renovou da tarde o brando vento,E converte-lo, no aspirar contínuo,Em bafo apodrecido e peçonhento!Estender para o amigo a mão mirrada,E elle negar a mão ao pobre amigo;Querer uni-lo ao seio descarnado,E elle fugir, temendo o seu perigo!E ver após um dia ainda cem dias,Nús d'esperança, ferteis de amargura;Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo,E só, bem lá no extremo, a sepultura!Agora!... quando a vida me sorria:Agora!... que meu estro se accendêra;Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças,Como se enlaça pelo choupo a hera,Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo;Varrer-me o nome escuro esquecimento:Não ter um eccho de louvor, que affagueDo desgraçado o humilde monumento!Oh tu, sêde de um nome glorioso,Que tão fagueiros sonhos me tecias,Fugiste, e só me resta a pobre herançaDe ver a luz do sol mais alguns dias.Vestem-se os campos do verdor primeiro:Já das aves canções no bosque ecchoam:Não para mim, que só escuto attentoFunereos dobres que no templo soam!Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,Irei tão cedo repousar na terra?!Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;Um louro só... e meu sepulchro cerra!É tão bom respirar, e a luz brilhanteDo sol oriental saudar no outeiro!Ai, na manhan sauda-la posso ainda;Mas será este inverno o derradeiro!Quando de pomos o vergel for cheio;Quando ondeiar o trigo na planura;Quando pender com aureo fructo a vide,Eu tambem penderei na sepultura.Dos que me cercam no turbado aspecto,Na voz que prende desusado enleio,No pranto a furto, no fingido risoFatal sentença de morrer eu leio.Vistes vós criminoso, que hão lançadoSeus juizes nos trances da agonia,Em oratorio estreito, onde não entraSuavissima luz do claro dia;Diante a cruz, ao lado o sacerdote,O cadafalso, o crime, o algoz na mente,O povo tumultuando, o extremo arranco,E céu, e inferno, e as maldicções da gente?Se adormece, lá surge um pesadelo,Com os martyrios da sua alma acorde;Desperta logo, e á terra se arremessa,E os punhos cerra, e delirante os morde.Sobre as lageas do duro pavimentoDe vergões e de sangue o rosto cobre.Ergue-se e escuta com cabellos hirtosDo sino ao longe o compassado dobre.Sem esperança!...

Não! Do cadafalso

Sóbe as escadas o perdão ás vezes;Porém a mim... não me dirão:—és salvo!»E o meu supplicio durará por mezes.Dizer posso:—existi: que a dor conheço!Do goso a taça só provei por horas:E serei teu, calado cemiterio,Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.Se o furacão rugiu, e o debil troncoDe arvore tenra espedaçou passando,Quem se doeu de a ver jazendo em terra?Tal é o meu destino miserando!Numen de sancto amor, mulher querida,Anjo do céu, encanto da existencia,Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te.Por ti me salve a mão da Providencia.Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge!Um beijo ardente aos labios teus voára:E neste beijo venenoso a morteTalvez este infeliz só te entregára!Se eu podesse viver... como teus diasCercaria de amor suave e puro!Como te fôra placido o presente;Quanto risonho o aspecto do futuro!Porém, medonho espectro ante meus olhos,Como sombra infernal perpetuo ondeia,Bradando-me que vai partir-se o fioCom que da minha vida se urde a teia.Entregue á seducção em quanto eu durmo,No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!Quem velará por ti, pomba innocente?Quem do perjurio poderá salvar-te?Quando eu cerrar os olhos moribundosTu verterás por mim pranto saudoso;Mas quem me diz que não virá o risoBanhar teu rosto triste e lachrymoso?Ai, o extincto só herda o esquecimento!Um novo amor te agitará o peito:E a dura lagea cubrirá meus ossosFrios, despidos sobre terreo leito!...Oh Deus, porque este calix de agoniaAté as bordas de amargor me encheste?Se eu devia acabar na juventude,Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?Virgem do meu amor, porque perde-la?Porque entre nós a campa ha-de assentar-se?Tua suprema paz com goso ou dores,Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?Não haver quem me salve! e vir um diaEm que de minha o nome ainda lhe désse!Então, Senhor, o umbral da eternidade,Talvez sem um queixume, transposesse.Mas, qual flor em botão pendida e murcha,Sem de fragrancias perfumar a brisa,Eu poeta, eu amante, ir esconder-meSob uma lousa desprezada e lisa!Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?Em te adorar que fui, senão insano?...O teu fatal poder hoje maldigo!O que te chama pae, mente: és tyranno.E se aos pés de teu throno os ais não chegam;Se os gemidos da terra os ares somem;Se a Providencia é crença van, mentida,Porque geraste a intelligencia do homem?Porque da virgem no sorrir posesteSancto presagio de suprema dita,E apontaste ao poeta a immensidadeNa ancia de gloria que em sua alma habita?A immensidade!... E que me importa herda-la,Se na terra passei sem ser sentido?Que val eterno vagueiar no espaço,Se nosso nome se afundou no olvido?

«I­mpio, silencio! A tua voz blasphemaDa noite a paz perturba.Verme, que te rebellasSob a mão do Senhor,Vês os milhões d'estrellasDe nitido fulgor,Que, em ordenada turba,A Deus entoam incessantes hymnos?Quantas vezes apagaDo livro da existenciaUm orbe a mão do Eterno!E o bello astro que expiraMaldiz a Providencia,Maldiz a mão que o esmaga?Acaso pára o cantico superno?Ou apenas suspiraO moribundo,Que se chamava um mundo?Quem vai pôr uma campa sobre os restosDesse inerte planeta,Que o destructor cometaIncinerou na rapida passagem?E tu, átomo obscuro,Que varre á tarde a aragem,Sóltas do seio impuroMaldicção insensata,Porque o teu Deus te evoca á eternidade?Que é o viver? O umbral, a que um momentoO espirito, surgindoDas solidões do nadaÁ voz do Creador, se encosta, e attentoContempla a luz e o céu; d'onde desataSeu vôo á immensidade.Geme acaso o passarinhoDe saudade,Quando as azas expande, e deixa o ninhoA vez primeira, a mergulhar nos ares?Volve olhos lachrymososAos mares tormentososO navegante, quando aproa ás plagasDa patria suspirada?Porque morres?! Pergunta á ProvidenciaPorque te fez nascer.Qual era o teu direito a ver o mundo;Teu jus á existencia?Olha no outono o ulmeiroQue o vendaval agita,E cujas tenues folhasAos centos precipita.São a folha do ulmeiro o nome e a fama,E o amar dos humanos:Ao nada do que foi assim se atiramNo vortice dos annos.Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,Que somem mil ruí­dos.E a voz da terra o que é, na voz immensaDos orbes reunidos?Amor! amor terreno!... Ai, se podessesComprehender a amargura,Com que te chóro, oh alma transviada!Eu, que te amei do berço, e qual doçuraHa no affecto que liga o anjo ao homem,Rindo despiras esse corpo enfermo,Para te unir a mim, para aspiraresO goso celestial de amor sem termo!Alma triste, que mesquinhaTe debruças sobre o inferno,Ouve o anjo, pobresinha;Vem ao goso sempiterno.Resigna-te e espera, e os dias de provaSerão para o crente quaes breves instantes.Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,Fendendo o infinito co' as asas radiantes.Depois, das alturas teu terreo vestidoSorrindo veremos na terra guardar,E ao hymno de Hosanna nos córos celestesA voz de um remido iremos junctar.»

Que harmonia suaveÉ esta, que na menteEu sinto murmurar,Ora profunda e grave,Ora meiga e cadente,Ora que faz chorar?Porque da morte a sombra,Que para mim em tudoNegra se reproduz,Se aclara, e desassombraSeu gesto carrancudo,Banhada em branda luz?Porque no coraçãoNão sinto pesar tantoO ferreo pé da dor,E o hymno da oração,Em vez de irado canto,Me pede íntimo ardor?És tu, meu anjo, cuja voz divinaVem consolar a solidão do enfermo,E a contemplar com placidez o ensinaDe curta vida o derradeiro termo?Oh, sim! és tu, que na infantil idade,Da aurora á frouxa luz,Me dizias:—acorda, innocentinho,Faze o signal da cruz.»És tu, que eu via em sonhos, nesses annosDe inda puro sonhar,Em nuvem d'ouro e purpura descendoCo' as roupas a alvejar.És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga,Juncto ao bosque fremente,Me contavas mysterios, harmoniasDos céus, do mar dormente.És tu, és tu! que, lá, nesta alma absortaModulavas o canto,Que de noite, ao luar, sósinho erguiaAo Deus tres vezes sancto.És tu, que eu esqueci na idade ardenteDas paixões juvenis,E que voltas a mim, sincero amigo,Quando sou infeliz.

Sinto a tua voz de novoQue me revoca a Deus:Inspira-me a esperança,Que te seguiu dos céus!...

«No teu seio reclinadoDormirei, Senhor, um dia,Quando for na terra friaMeu repouso procurar;Quando a lousa do sepulchroSohre mim tiver cahidoE este espirito affligidoVir a tua luz brilhar!No teu seio, de pesaresO existir não se entretece;Lá eterno o amor florece;Lá florece eterna paz:Lá bramir juncto ao poetaNão irão paixões e dores,Vãos desejos, vãos temoresDo desterro em que elle jaz.Hora extrema, eu te saúdo!Salve, oh trevas da jazida,D'onde espera erguer-se á vidaMeu espirito immortal!Anjo bom, não me abandonesNeste trance dilatado;Que contrito, resignadoMe acharás na hora fatal.E depois... Perdoa, oh anjo,Ao amor do moribundo,Que só deixa neste mundoPouco pó, muito gemer.Oh... depois... dize á mesquinhaUm segredo de doçura:Que na patria o amor se apura,Que o desterro viu nascer.Que é o céu a patria nossa;Que é o mundo exilio breve;Que o morrer é cousa leve;Que éprincipio, não éfim:Que duas almas que se amaramVão lá ter nova existencia,Confundidas n'uma essencia,A de um novo cherubim.»

Nas horas do silencio, á meia-noite,

Eu louvarei o Eterno!

Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,

E os abysmos do inferno.

Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,

E a lua resplendente

Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa

O hymno do Omnipotente.

Antes de tempo haver, quando o infinito

Media a eternidade,

E só do vacuo as solidões enchia

De Deus a immensidade,

Elle existia, em sua essencia involto,

E fóra delle o nada:

No seio do Creador a vida do homem

Estava ainda guardada:

Ainda então do mundo os fundamentos

Na mente se escondiam

De Jehovah, e os astros fulgurantes

Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento

Das mãos sólta o Senhor:

Surge o sol, banha a terra, e desabrocha

Sua primeira flor:

Sobre o invisi­vel eixo range o globo:

O vento o bosque ondeia:

Retumba ao longe o mar: da vida a força

A natureza anceia!

Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,

Ou cantar teu poder?

Quem dirá de Teu braço as maravilhas,

Fonte de todo o ser,

No dia da creação; quando os thesouros

Da neve amontoaste;

Quando da terra nos mais fundos valles

As aguas encerraste?!

E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,

Com dextra poderosa,

Fez, por lei immutavel, se librassem

Na mole ponderosa?

Onde existia então? No typo immenso

Das gerações futuras;

Na mente do meu Deus. Louvor a Elle

Na terra e nas alturas!

Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,

Do raio, e do trovão!

Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,

Da tarde a viração!

Por sua Providencia nunca, embalde,

Zumbiu minimo insecto;

Nem volveu o elephante, em campo esteril,

Os olhos inquieto.

Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,

Que ao ceifador esquece;

Do norte ao urso o sol da primavera,

Que o reanima e aquece?

Não deu Elle á gazella amplos desertos,

Ao cervo a amena selva,

Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,

No prado ao touro a relva?

Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,

Consolação e luz?

Acaso em vão algum desventurado

Curvou-se aos pés da cruz?

A quem não ouve Deus? Sómente ao impio

No dia da afflicção,

Quando pésa sobre elle, por seus crimes,

Do crime a punição.

Homem, ente immortal, que és tu perante

A face do Senhor?

És a junça do bréjo, harpa quebrada

Nas mãos do trovador!

Olha o velho pinheiro, campeiando

Entre as neves alpinas:

Quem irá derribar o rei dos bosques

Do throno das collinas?

Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia

Extremo Deus mandou!

Lá correu o aquilão: fundas raizes

Aos ares lhe assoprou.

Suberbo, sem temor, saíu na margem

Do caudaloso Nilo,

O corpo monstruoso ao sol voltando,

Medonho crocodilo.

De seus dentes em roda o susto habita;

Vê-se a morte assentada

Dentro em sua garganta, se descerra

A bôca affogueada:

Qual duro arnez de intrepido guerreiro

É seu dorso escamoso;

Como os ultimos ais de um moribundo

Seu grito lamentoso:

Fumo e fogo respira quando irado;

Porém, se Deus mandou,

Qual do norte impellida a nuvem passa,

Assim elle passou!

Teu nome ousei cantar!—Perdoa, oh Nume;

Perdoa ao teu cantor!

Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,

Mas são hymnos de amor.

Embora vís hypocritas te pintem

Qual barbaro tyranno:

Mentem, por dominar com ferreo sceptro

O vulgo cego e insano.

Quem os crê é um ímpio! Receiar-te

É maldizer-te, oh Deus;

É o throno dos despotas da terra

Ir collocar nos céus.

Eu, por mim, passarei entre os abrolhos

Dos males da existencia

Tranquillo, e sem temor, á sombra posto

Da tua Providencia.

Sibilla o vento:—os torreões de nuvens

Pésam nos densos ares:

Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas

Pela extensão dos mares:

A immensa vaga ao longe vem correndo,

Em seu terror envolta;

E, d'entre as sombras, rapidas centelhas

A tempestade solta.

Do sol no occaso um raio derradeiro,

Que, apenas fulge, morre,

Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,

Para apaga-lo corre.

Tal nos affaga em sonhos a esperança,

Ao despontar do dia,

Mas, no acordar, lá vem a consciencia

Dizer que ella mentia!

As ondas negro-azues se conglobaram;

Serras tornadas são,

Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,

Bater, partir-se vão.

Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,

Da natureza açoite!

Tu guias os bulcões, do mar princesa,

E é teu vestido a noite!

Quando pelos pinhaes, entre o granizo,

Ao sussurrar das ramas,

Vibrando sustos, pavorosa ruges

E assolação derramas,

Quem porfiar comtigo, então, ousára

De gloria e poderio;

Tu que fazes gemer pendido o cedro,

Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouçar-me

Das nuvens nos castellos,

E ver dos ferros meus, emfim, quebrados

Os rebatidos élos!

Eu rodeára, então, o globo inteiro;

Eu sublevára as aguas;

Eu dos volcões com raios accendêra

Amortecidas fráguas;

Do robusto carvalho e sobro antigo

Acurvaria as frontes;

Com furacões, os areiaes da Lybia

Converteria em montes;

Pelo fulgor da lua, lá do norte

No polo me assentára,

E vira prolongar-se o gelo eterno,

Que o tempo amontoára.

Alli, eu solitario, eu rei da morte,

Erguèra meu clamor,

E dissera:—sou livre, e tenho imperio;

Aqui, sou eu senhor!»

Quem se podéra erguer, como estas vagas,

Em turbilhões incertos,


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