O SOLDADO.

E correr, e correr, troando ao longe,Nos liquidos desertos!Mas entre membros de lodoso barroA mente presa está!...Ergue-se em vão aos céus: precipitada,Rapido, em baixo dá.Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,Entre escarcéus erguidos,Que eu te invoco, pedindo-te feneçamMeus dias aborridos:Quebra duras prisões, que a naturezaLançou a esta alma ardente;Que ella possa voar, por entre os orbes,Aos pés do Omnipotente.Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvemDesça, e estourando a esmague,E a grossa proa, dos tufões ludibrio,Solta, sem rumo vague!Porém, não!... Dormir deixa os que me cercamO somno do existir;Deixa-os, vãos sonhadores de esperançasNas trévas do porvir.Doce mãe do repouso, extremo abrigoDe um coração oppresso,Que ao ligeiro prazer, á dor cançadaNegas no seio accésso,Não despertes, oh não! os que abominamTeu amoroso aspeito;Febricitantes, que se abraçam, loucos,Com seu dorído leito!Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,Calumniada morte;Tu, que entre os braços teus lhe dás asyloContra o furor da sorte;Tu, que esperas ás portas dos senhores,Do servo ao limiar,E eterna corres, peregrina, a terraE as solidões do mar,Deixa, deixa sonhar ventura os homens;Já filhos teus nasceram:Um dia acordarão desses delirios,Que tão gratos lhes eram.E eu que vélo na vida, e já não sonhoNem gloria, nem ventura;Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,O calix da amargura:Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcadoDe quanto ha vil no mundo,Sanctas inspirações morrer sentindoDo coração no fundo,Sem achar no desterro uma harmoniaDe alma, que a minha entenda,Porque seguir, curvado ante a desgraça,Esta espinhosa senda?Torvo o oceano vai! Qual dobre, soaFragor da tempestade,Psalmo de mortós, que retumba ao longe,Grito da eternidade!...Pensamento infernal! Fugir covardeAnte o destino iroso?Lançar-me, envolto em maldicções celestes,No abysmo tormentoso?Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-meNas lagrymas da terra;Guardarei minha estancia atribulada,Com meu desejo em guerra.O fiel guardador terá seu premio,O seu repouso, emfim,E atalaiar o sol de um dia extremoVirá outro após mim.Herdarei o morrer! Como é suaveBençam de pae querido.Será o despertar, ver meu cadaver,Ver o grilhão partido.Um consolo, entretanto, resta aindaAo pobre velador:Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,Doce amizade e amor.Tudo o mais é sepulchro branqueadoPor embusteira mão;Tudo o mais vãos prazeres, que só trazemRemorso ao coração.Passarei minha noite a luz tão meiga,Até o amanhecer;Até que suba á patria do repouso,Onde não ha morrer.O SOLDADO.I.Veia tranquilla e puraDo meu paterno rio,Dos campos, que elle réga,Mansi­ssimo armentio.Rocio matutino,Prados tão deleitosos,Valles, que assombram selvasDe sinceiraes frondosos,Terra da minha infancia,Tecto de meus maiores,Meu breve jardimzinho,Minhas pendidas flores,Harmonioso e sanctoSino do presbyterio,Cruzeiro venerandoDo humilde cemiterio.Onde os avós dormiram,E dormirão os paes;Onde eu talvez não durma,Nem rese, talvez, mais,Eu vos saúdo! e o longoSuspiro amarguradoVos mando. É quanto pódeMandar pobre soldado.Sobre as cavadas ondasDos mares procellosos,Por vós já fiz soarMeus cantos dolorosos.Na prôa resonanteEu me assentava mudo,E aspirava anciosoO vento frio e agudo;Porque em meu sangue ardiaA febre da saudade,Febre que só minoraSopro de tempestade;Mas que se irrita, e duraQuando é tranquillo o mar;Quando da patria o céuCéu puro vem lembrar;Quando, no extremo occaso,A nuvem vaporosa,Á frouxa luz da tarde,Na côr imita a rosa;Quando, do sol vermelhoO disco ardente crece,E paira sobre as aguas,E emfim desapparece;Quando no mar se estendeManto de negro dó;Quando, ao quebrar do vento,Noite e silencio é só;Quando sussurram meigasOndas que a nau separa,E a rapida ardentiaEm tôrno a sombra aclara.II.Eu já ouvi, de noite,Entre o pinhal fechado,Um fremito soturnoPassando o vento irado:Assim o murmurioDo mar, fervendo á prôa,Com o gemer do afflicto,Sumido, accorde sôa:E o scintillar das aguasGera amargura e dor,Qual lampada, que pendeNo templo do Senhor,Lá pela madrugada,Se o oleo lhe escaceia,E a espaços expirando,Affrouxa e bruxuleia.III.Bem abundante messeDe pranto e de saudadeO foragído erranteColhe na soledade!Para o que a patria perdeÉ o universo mudo;Nada lhe rí na vida;Mora o fastio em tudo;No meio das procellas,Na calma do oceano,No sopro do galerno,Que enfuna o largo panno,E no entestar co' a terraPor abrigado esteiro,E no pousar á sombraDo tecto do estrangeiro.IV.E essas memorias tristesMinha alma laceraram,E a senda da existenciaBem agra me tornaram:Porém nem sempre ferreoFoi meu destino escuro;Sulcou de luz um raioAs trévas do futuro.Do meu paiz queridoA praia ainda beijei,E o velho e amigo cedroNo valle ainda abracei!Nesta alma regeladaSurgiu ainda o goso,E um sonho lhe sorriuFugaz, mas amoroso.Oh, foi sonho da infanciaDesse momento o sonho!Paz e esperança vinhamAo coração tristonho.Mas o sonhar que monta,Se passa, e não conforta?Minh' alma deu em terra,Como se fosse morta.Foi a esperança nuvem,Que o vento some á tarde:Facho de guerra accesoEm labaredas arde!Do fratricidio a luvaIrmão a irmão lançara,E o grito:ai do vencido!Nos montes retumbara.As armas se hão cruzado:O pó mordeu o forte;Cahiu: dorme tranquillo:Deu-lhe repouso a morte.Ao menos, nestes camposSepulchro conquistou,E o adro dos estranhosSeus ossos não guardou.Elle herdará, ao menos,Aos seus honrado nome,Paga de curta vidaSer-lhe-ha largo renome.V.E a bala sibilando,E o trom da artilharia,E a tuba clamorosa,Que os peitos accendia,E as ameaças torvas,E os gritos de furor,E desses, que expiravam,Som cavo de estertor,E as pragas do vencido,Do vencedor o insulto,E a pallidez do morto,Nú, sanguento, insepulto,Eram um cá'os de doresEm convulsão horrivel,Sonho de accesa febre,Scena tremenda e incrivel!E suspirei: nos olhosMe borbulhava o pranto,E a dor, que trasbordava,Pediu-me infernal canto.Oh, sim! maldisse o instante,Em que buscar viera,Por entre as tempestades,A terra em que nascera.Que é, em fraternas lides,Um canto de victoria?É delirar maldicto;É triumphar sem gloria.Maldicto era o triumpho,Que rodeiava o horror,Que me tingia tudoDe sanguinosa côr!Então olhei saudosoPara o sonoro mar;Da nau do vagabundoMeigo me riu o arfar.De desespero um bradoSoltou, ímpio, o poeta.Perdão! Chegára o miseroDa desventura á meta.VI.Terra infame!—de servos aprisco,Mais chamar-me teu filho não sei:Desterrado, mendigo serei;De outra terra meus ossos serão!Mas a escravo, que pugna por ferros,Que herdará deshonrada memoria,Renegando da terra sem gloria,Nunca mais darei nome de irmão!Onde é livre tem patria o poeta,Que ao exilio condemna ímpia sorte.Sobre os plainos gelados do norteLuz do sol tambem desce do céu;Tambem lá se erguem montes, e o pradoDe boninas, em maio, se veste;Tambem lá se meneia o cypresteSobre o corpo que á terra desceu.Que me importa o loureiro da encosta?Que me importa da fonte o ruido?Que me importa o saudoso gemidoDa rollinha sedenta de amor?Que me importam outeiros cubertosDa verdura da vinha, no estio?Que me importa o remanso do rio,E, na calma, da selva o frescor?Que me importa o perfume dos campos,Quando passa da tarde a bafagem,Que se embebe, na sua passagem,Na fragrancia da rosa e aleli­?Que me importa? Pergunta insensata!É meu berço: a minha alma está lá...Que me importa... Esta bôca o dirá?!Minha patria, estou louco... menti!Eia, servos! O ferro se cruze.Assobie o pelouro nos ares;Estes campos convertam-se em mares,Onde o sangue se possa beber!Larga a valla! que, após a peleja,Todos nós dormiremos unidos!Lá vingados, e do odio esquecidos,Paz faremos... depois do morrer!VII.Assim, entre amarguras,Me delirava a mente;E o sol ia fugindoNo termo do occidente.E os fortes lá jaziamCo'a face ao céu voltada;Sorria a noite aos mortos,Passando socegada.Porém, a noite dellesNão era a que passava!Na eternidade a suaCorria, e não findava.Contrarios ainda ha pouco,Irmãos, emfim, lá eram!O seu thesouro de odio,Mordendo o pó, cederam.No limiar da morteAssim tudo fenece:Inimizades calam,E até o amor esquece!Meus dias rodeiadosForam de amor outr'ora;E nem um vão suspiroTerei, morrendo, agora,Nem o apertar da dextraAo desprender da vida,Nem lagryma fraternaSobre a feral jazida!Meu derradeiro alentoNão colherão os meus.Por minha alma atterradaQuem pedirá a Deus?Ninguem! Aos pés o servoMeus restos calcará,E o riso ímpio, odiento,Mofando soltará.O sino luctuosoNão lembrará meu fim:Preces, que o morto afagam,Não se erguerão por mim!O filho dos desertos,O lobo carniceiro,Ha-de escutar alegreMeu grito derradeiro!Oh morte, o somno teuSó é somno mais largo;Porém, na juventude,É o dormi-lo amargo;Quando na vida nasceEssa mimosa flor.Como a cecem suave,Delicioso amor;Quando a mente accendidaCrê na ventura e gloria;Quando o presente é tudo,E inda nada a memoria!Deixar a cara vida,Então, é doloroso,E o moribundo á terraLança um olhar saudoso.A taça da existenciaNo fundo fézes tem;Mas os primeiros tragosDoces, bem doces, vem.E eu morrerei agoraSem abraçar os meus,Sem jubiloso um hymnoAlevantar aos céus?Morrer, morrer, que importa?Final suspiro, ouvi-loHa-de a patria. Na terraIrei dormir tranquillo.Dormir? Só dorme o frioCadaver, que não sente;A alma voa a abrigar-seAos pés do Omnipotente.Reclinar-me-hei á sombraDo amplo perdão do Eterno;Que não conheço o crime,E erros não pune o inferno.E vós, entes queridos,Entes que tanto amei,Dando-vos liberdadeContente acabarei.Por mim livres chorarVós podereis um dia,E ás cinzas do soldadoErguer memoria pia.A VICTORIA E A PIEDADE.I.Eu nunca fiz soar meus pobres cantosNos paços dos senhores!Eu jámais consagrei hymno mentidoDa terra aos oppressores.Mal haja o trovador que vae sentar-seÁ porta do abastado,O qual com ouro paga a propria infamia,Louvor que foi comprado.Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouroProstitue o alaúde!Deus á poesia deu por alvo a patria,Deu a gloria e a virtude.Feliz ou infeliz, triste ou contente,Livre o poeta seja,E em hymno isento a inspiração transforme,Que na sua alma adeja.II.No despontar da vida, do infortunioMurchou-me o sopro ardente;E saudades curti em longes terrasDa minha terra ausente.O solo do desterro, ai, quanto ingratoÉ para o foragido,Ennevoado o céu, arido o prado,O rio adormecido!Eu lá chorei, na idade da esperaça,Da patria a dura sorte:Esta alma encaneceu; e antes de tempoErgueu hymnos á morte:Que a morte é para o misero risonha,Sancta da campa a imagem...Alli é que se afferra o porto amigo,Depois de ardua viagem.III.Mas quando o pranto me sulcava as faces,Pranto de atroz saudade,Deus escutou do vagabundo as preces,Delle teve piedade.«Armas!—bradaram no desterro os fortes,Como bradar de um só:Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-osIndissoluvel nó.Com seus irmãos as sacrosanctas juras,Beijando a cruz da espada,Repetiu o poeta:—Eia, partamos!Ao mar!»—Partia a armada.Pelas ondas azues correndo afoutos,As praias demandámosDo velho Portugal, e o balsão negroDa guerra despregámos;De guerra em que era infamia o ser piedoso,Nobreza o ser cruel,E em que o golpe mortal descia involtoDas maldicções no fel.IV.Fanatismo brutal, odio fraterno,De fogo céus toldados,A fome, a peste, o mar avaro, as turbasDe innumeros soldados;Comprar com sangue o pão, com sangue o lumeEm regelado inverno;Eis contra o que, por dias de amargura,Nos fez luctar o inferno.Mas de fera victoria, emfim, colhemosA c'roa de cypreste;Que a fronte ao vencedor em í­mpia luctaSó essa c'roa veste.Como ella torvo, soltarei um hymnoDepois do triumphar.Oh meus irmãos, da embriaguez da guerraBem triste é o acordar!Nessa alta encosta sobranceira aos campos,De sangue ainda impuros,Onde o canhão troou por mais de um annoContra invenciveis muros,Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;Pedir inspiraçõesÁ noite queda, ao genio que me ensinaSegredos das canções.V.Reina em silencio a lua: o mar não brame,Os ventos nem bafejam;Rasas co' a terra, só nocturnas avesEm gyros mil adejam.No plaino pardacento, juncto ao marcoTombado, ou rota sebe,Aqui e alli, de ossadas insepultasO alvejar se percebe.É que essa veiga, tão festiva outr'ora,Da paz tranquillo imperio,Onde ao carvalho a vide se enlaçava,É hoje um cemiterio!VI.Eis de esforçados mil inglorios restos,Depois de brava lida;De longo combater atroz mementoEm guerra fraticida.Nenhum padrão recordará aos homensSeus feitos derradeiros:Nem dirá:—aqui dormem portugueses;Aqui dormem guerreiros.»Nenhum padrão, que peça aos que passaremResa fervente e pia,E juncto ao qual entes queridos vertamO pranto da agonia!Nem hasteada cruz, consolo ao morto;Nem lagea que os protejaDo ardente sol, da noite humida e fria,Que passa e que roreja!Não! Lá hão-de jazer no esquecimentoDe deshonrada morte,Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,Não os dispersa o norte.VII.Quem, pois, consolará gementes sombras,Que ondeiam juncto a mim?Quem seu perdão da Patria implorar ousa,Seu perdão de Elohim?Eu, o christão, o trovador do exilio,Contrario em guerra crua,Mas que não sei verter o fel da affrontaSobre uma ossada nua.VIII.Lavradores, zagaes, descem dos montes,Deixando terras, gados,Para as armas vestir, dos céus em nome,Por phariseus chamados.De um Deus de paz hypocritas ministrosOs tristes enganaram:Foram elles, não nós, que estas cáveirasAos vermes consagraram.Maldicto sejas tu, monstro do inferno,Que do Senhor no templo,Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,Dás do furor o exemplo!Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensasteFolgar de nosso mal,E, entre as ruinas de cidade illustre,Soltar riso infernal.Tu, no teu coração insipiente,Disseste:—Deus não há!»Elle existe, malvado; e nós vencemos:Treme; que tempo é já!IX.Mas esses, cujos ossos espalhadosNo campo da pelejaJazem, exoram a piedade nossa;Piedoso o livre seja!Eu pedirei a paz dos inimigos,Mortos como valentes,Ao Deus nosso juiz, ao que distingueCulpados de innocentes.X.Perdoou, expirando, o Filho do HomemAos seus perseguidores:Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;Perdão, oh vencedores!Não insulteis o morto. Elle ha compradoBem caro o esquecimento,Vencido adormecendo em morte ignobil,Sem dobre ou monumento.É tempo d'olvidar odios profundosDe guerra deploravel.O forte é generoso, e deixa ao fracoO ser inexoravel.Oh, perdão para aquelle, a quem a morteNo seio agasalhou!Elle é mudo: pedi-lo já não póde;O dá-lo a nós deixou.Além do limiar da eternidadeO mundo não tem réus,O que legou á terra o pó da terraJulgá-lo cabe a Deus.E vós, meus companheiros, que não vistesNossa triste victoria,Não precisaes do trovador o canto;Vosso nome é da historia.XI.Assim, foi do infeliz sobre a jazidaQue um hymno murmurei,E, do vencido consolando a sombra,Por vós eu perdoei.A CRUZ MUTILADA.Amo-te, oh cruz, no vertice firmadaDe esplendidas igrejas;Amo-te quando á noite, sobre a campa,Juncto ao cypreste alvejas;Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,As preces te rodeiam;Amo-te quando em prestito festivoAs multidões te hasteiam;Amo-te erguida no cruzeiro antigo,No adro do presbyterio,Ou quando o morto, impressa no ataúde,Guias ao cemiterio;Amo-te, oh cruz, até, quando no valleNegrejas triste e só,Núncia do crime, a que deveu a terraDo assassinado o pó:Porém quando mais te amo,Oh cruz do meu Senhor,É se te encontro á tarde,Antes de o sol se pôr,Na clareira da serra,Que o arvoredo assombra,Quando á luz que feneceSe estira a tua sombra,E o dia ultimos raiosCom o luar mistura,E o seu hymno da tardeO pinheiral murmura.E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavasAo pôr do sol, e ao elevar-se a luaDetraz do calvo cerro. A soledadeNão te pôde valer contra a mão ímpia,Que te feriu sem dó. As linhas purasDe teu perfil, falhadas, tortuosas,Oh mutilada cruz, falam de um crimeSacrilego, brutal e ao í­mpio inutil!A tua sombra estampa-se no solo,Como a sombra de antigo monumento,Que o tempo quasi derrocou, truncada.No pedestal musgoso, em que te ergueramNossos avós, eu me assentei. Ao longe,Do presbyterio rustico mandavaO sino os simples sons pelas quebradasDa cordilheira, annunciando o instanteDaAve-Maria; da oração singela,Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homemSe mistura nos canticos saudosos,Que a natureza envia ao céu no extremoRaio de sol, passando fugitivoNa tangente deste orbe, ao qual trouxesteLiberdade e progresso, e que te pagaCom a injuria e o desprezo, e que te invejaAté, na solidão, o esquecimento!Foi da sciencia incredula o sectario,Acaso, oh cruz da serra, o que na faceAffrontas te gravou com mão profusa?Não! Foi o homem do povo, a quem consoloNa miseria e na dôr constante has sidoPor bem dezoito seculos: foi essePor cujo amor surgias qual remorsoNos sonhos do abastado ou do tyranno,Bradando—esmola!a um—piedade!ao outro.Oh cruz, se desde o Golgotha não fôrasSymbolo eterno de uma crença eterna;Se a n­ossa fé em ti fosse mentida,Dos oppressos de outr'ora os livres netosPor sua ingratidão dignos de opprobrio,Se não te amassem, ainda assim seriam.Mas és núncia do céu, e elles te insultam,Esquecidos das lágrymas perennesPor trinta gerações, que guarda a campa,Vertidas a teus pés nos dias torvosDo seu viver d'escravidão! Deslembram-seDe que, se a paz domestica, a purezaDo leito conjugal bruta violenciaNão vae contaminar, se a filha virgemDo humilde camponês não é ludibrioDo opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;Que por ti o cultor de ferteis camposColhe tranquillo da fadiga o premio,Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, duraLhe diga:—é meu, e és meu! A mim deleites,Liberdade, abundancia: a ti, escravo,O trabalho, a miseria unido á terra,Que o suor dessa fronte fertiliza,Emquanto, em dia de furor ou tedio,Não me apraz com teus restos fecunda-la.»Quando calada a humanidade ouviaEste atroz blasphemar, tu te elevasteLá do oriente, oh cruz, involta em gloria,E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:—Mentira!» E o servo alevantou os olhos,Onde a esperança scintillava, a medo,E viu as faces do senhor retinctasEm pallidez mortal, e errar-lhe a vistaTrépida, vaga. A cruz no céu do orienteDa liberdade annunciára a vinda.Cansado, o ancião guerreiro, que a existenciaDesgastou no volver de cem combates,Ao ver que, emfim, o seu paiz queridoJá não ousam calcar os pés d'estranhos,Vem assentar-se á luz meiga da tarde,Na tarde do viver, juncto do teixoDa montanha natal. Na fronte calva,Que o sol tostou e que enrugaram annos,Ha um como fulgor sereno e sancto.Da aldeia semideus, devem-lhe todosO tecto, a liberdade, e a honra e vida.Ao perpassar do veterano os velhosA mão que os protegeu apertam gratos;Com amorosa timidez os moçosSaúdam-no qual pae. Nas largas noitesDa gelada estação, sobre a lareiraNunca lhe falta o cepo incendiado;Sobre a mesa frugal nunca, no estio,Refrigerante pomo. Assim do velhoPelejador os derradeiros diasDerivam para o tumulo suaves,Rodeiados de affecto, e quando á terraA mão do tempo gastador o guia,Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparzeFlores, lagrymas, bençãos, que consolemDo defensor do fraco as cinzas frias.Pobre cruz! Pelejaste mil combates,Os gigantes combates dos tyrannos,E venceste. No solo libertado,Que pediste? Um retiro no deserto,Um pi­ncaro grani­tico, açoutadoPelas azas do vento e ennegrecidoPor chuvas e por soes. Para ameigar-teEste ar humido e gelido a segureNão foi ferir do bosque o rei. Do estioNo ardor canicular nunca disseste:—Dáe-me, sequer, do bravo medronheiroO despresado fruct­o! O teu vestidoEra o musgo, que tece a mão do inverno,E Deus creou para trajar as rochas.Filha do céu, o céu era o teu tecto,Teu escabelo o dorso da montanha.Tempo houve em que esses braços te adórnavaC'roa viçosa de gentis boninas,E o pedestal te rodeiavam preces.Ficaste em breve só, e a voz humanaFez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.Que te importava? As arvores da encostaCurvavam-se a saudar-te, e revoandoAs aves vinham circumdar-te de hymnos.Affagava-te o raio derradeiro,Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,E esperavas o tumulo. O teu tumuloDevera ser o seio destas serras,Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,Ellas nas fauces dos volcões descessem.Então para essa campa flores, bençãos,Ou de saudade lagrymas vertidas,Qual do velho soldado a lousa pede,Não pedíras á ingrata raça humana,Ao pé de ti no seu sudario involta.Este longo esperar do dia extremo,No esquecimento do ermo abandonada,Foi duro de soffrer aos teus remidos,Oh redemptora cruz. Eras, acaso,Como um remorso e accusação perenneNo teu rochedo alpestre, onde te viamPousar tristonha e só? Acaso, á noite,Quando a procella no pinhal rugia,Criam ouvir-te a voz accusadoraSobrelevar á voz da tempestade?Que lhes dizias tu? De Deus falavas,E do seu Christo, do divino martyr,Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldictaErgueu, purificou, clamando ao servo,No seu trance final:—Ergue-te, escravo!És livre, como é pura a cruz da infamia.Ella vil e tu vil, sanctos, sublimesSereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!Abraça tua irman: segue-a sem sustoNo caminho dos seculos. Da terraPertence-lhe o porvir, e o seu triumphoTrará da tua liberdade o dia.»Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-teNos rumores da noite, a antiga historiaRecontando do Golgotha, lembrando-lhesQue só ao Christo a liberdade devem,E que impio o povo ser é ser infame.Mutilado por elle, a pouco e pouco,Tu em fragmentos tombarás do cerro,Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanosAos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.Da gratidão a divida não pagaFicará, oh tremenda accusadora,Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;Sem que o remorso os corações lhes rasgue.Do Christo o nome passará na terra.Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divinaDeixar de ser perenne testemunhoDa avita crença, os montes, a espessura,O mar, a lua, o murmurar da fonte,Da natureza as vagas harmonias,Da cruz em nome, falarão do Verbo.Della no pedestal, então deserto,Do deserto no seio, ainda o poetaVirá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;E a voz da selva lhe dirá que é sanctoEste rochedo nú, e um hymno pioA solidão lhe ensinará e a noite.Do cantico futuro uma toadaNão sentes vir, oh cruz, de além dos temposDa brisa do crepusculo nas azas?É o porvir que te proclama eterna;É a voz do poeta a saúdar-te.

E correr, e correr, troando ao longe,Nos liquidos desertos!Mas entre membros de lodoso barroA mente presa está!...Ergue-se em vão aos céus: precipitada,Rapido, em baixo dá.Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,Entre escarcéus erguidos,Que eu te invoco, pedindo-te feneçamMeus dias aborridos:Quebra duras prisões, que a naturezaLançou a esta alma ardente;Que ella possa voar, por entre os orbes,Aos pés do Omnipotente.Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvemDesça, e estourando a esmague,E a grossa proa, dos tufões ludibrio,Solta, sem rumo vague!Porém, não!... Dormir deixa os que me cercamO somno do existir;Deixa-os, vãos sonhadores de esperançasNas trévas do porvir.Doce mãe do repouso, extremo abrigoDe um coração oppresso,Que ao ligeiro prazer, á dor cançadaNegas no seio accésso,Não despertes, oh não! os que abominamTeu amoroso aspeito;Febricitantes, que se abraçam, loucos,Com seu dorído leito!Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,Calumniada morte;Tu, que entre os braços teus lhe dás asyloContra o furor da sorte;Tu, que esperas ás portas dos senhores,Do servo ao limiar,E eterna corres, peregrina, a terraE as solidões do mar,Deixa, deixa sonhar ventura os homens;Já filhos teus nasceram:Um dia acordarão desses delirios,Que tão gratos lhes eram.E eu que vélo na vida, e já não sonhoNem gloria, nem ventura;Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,O calix da amargura:Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcadoDe quanto ha vil no mundo,Sanctas inspirações morrer sentindoDo coração no fundo,Sem achar no desterro uma harmoniaDe alma, que a minha entenda,Porque seguir, curvado ante a desgraça,Esta espinhosa senda?Torvo o oceano vai! Qual dobre, soaFragor da tempestade,Psalmo de mortós, que retumba ao longe,Grito da eternidade!...Pensamento infernal! Fugir covardeAnte o destino iroso?Lançar-me, envolto em maldicções celestes,No abysmo tormentoso?Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-meNas lagrymas da terra;Guardarei minha estancia atribulada,Com meu desejo em guerra.O fiel guardador terá seu premio,O seu repouso, emfim,E atalaiar o sol de um dia extremoVirá outro após mim.Herdarei o morrer! Como é suaveBençam de pae querido.Será o despertar, ver meu cadaver,Ver o grilhão partido.Um consolo, entretanto, resta aindaAo pobre velador:Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,Doce amizade e amor.Tudo o mais é sepulchro branqueadoPor embusteira mão;Tudo o mais vãos prazeres, que só trazemRemorso ao coração.Passarei minha noite a luz tão meiga,Até o amanhecer;Até que suba á patria do repouso,Onde não ha morrer.O SOLDADO.I.Veia tranquilla e puraDo meu paterno rio,Dos campos, que elle réga,Mansi­ssimo armentio.Rocio matutino,Prados tão deleitosos,Valles, que assombram selvasDe sinceiraes frondosos,Terra da minha infancia,Tecto de meus maiores,Meu breve jardimzinho,Minhas pendidas flores,Harmonioso e sanctoSino do presbyterio,Cruzeiro venerandoDo humilde cemiterio.Onde os avós dormiram,E dormirão os paes;Onde eu talvez não durma,Nem rese, talvez, mais,Eu vos saúdo! e o longoSuspiro amarguradoVos mando. É quanto pódeMandar pobre soldado.Sobre as cavadas ondasDos mares procellosos,Por vós já fiz soarMeus cantos dolorosos.Na prôa resonanteEu me assentava mudo,E aspirava anciosoO vento frio e agudo;Porque em meu sangue ardiaA febre da saudade,Febre que só minoraSopro de tempestade;Mas que se irrita, e duraQuando é tranquillo o mar;Quando da patria o céuCéu puro vem lembrar;Quando, no extremo occaso,A nuvem vaporosa,Á frouxa luz da tarde,Na côr imita a rosa;Quando, do sol vermelhoO disco ardente crece,E paira sobre as aguas,E emfim desapparece;Quando no mar se estendeManto de negro dó;Quando, ao quebrar do vento,Noite e silencio é só;Quando sussurram meigasOndas que a nau separa,E a rapida ardentiaEm tôrno a sombra aclara.II.Eu já ouvi, de noite,Entre o pinhal fechado,Um fremito soturnoPassando o vento irado:Assim o murmurioDo mar, fervendo á prôa,Com o gemer do afflicto,Sumido, accorde sôa:E o scintillar das aguasGera amargura e dor,Qual lampada, que pendeNo templo do Senhor,Lá pela madrugada,Se o oleo lhe escaceia,E a espaços expirando,Affrouxa e bruxuleia.III.Bem abundante messeDe pranto e de saudadeO foragído erranteColhe na soledade!Para o que a patria perdeÉ o universo mudo;Nada lhe rí na vida;Mora o fastio em tudo;No meio das procellas,Na calma do oceano,No sopro do galerno,Que enfuna o largo panno,E no entestar co' a terraPor abrigado esteiro,E no pousar á sombraDo tecto do estrangeiro.IV.E essas memorias tristesMinha alma laceraram,E a senda da existenciaBem agra me tornaram:Porém nem sempre ferreoFoi meu destino escuro;Sulcou de luz um raioAs trévas do futuro.Do meu paiz queridoA praia ainda beijei,E o velho e amigo cedroNo valle ainda abracei!Nesta alma regeladaSurgiu ainda o goso,E um sonho lhe sorriuFugaz, mas amoroso.Oh, foi sonho da infanciaDesse momento o sonho!Paz e esperança vinhamAo coração tristonho.Mas o sonhar que monta,Se passa, e não conforta?Minh' alma deu em terra,Como se fosse morta.Foi a esperança nuvem,Que o vento some á tarde:Facho de guerra accesoEm labaredas arde!Do fratricidio a luvaIrmão a irmão lançara,E o grito:ai do vencido!Nos montes retumbara.As armas se hão cruzado:O pó mordeu o forte;Cahiu: dorme tranquillo:Deu-lhe repouso a morte.Ao menos, nestes camposSepulchro conquistou,E o adro dos estranhosSeus ossos não guardou.Elle herdará, ao menos,Aos seus honrado nome,Paga de curta vidaSer-lhe-ha largo renome.V.E a bala sibilando,E o trom da artilharia,E a tuba clamorosa,Que os peitos accendia,E as ameaças torvas,E os gritos de furor,E desses, que expiravam,Som cavo de estertor,E as pragas do vencido,Do vencedor o insulto,E a pallidez do morto,Nú, sanguento, insepulto,Eram um cá'os de doresEm convulsão horrivel,Sonho de accesa febre,Scena tremenda e incrivel!E suspirei: nos olhosMe borbulhava o pranto,E a dor, que trasbordava,Pediu-me infernal canto.Oh, sim! maldisse o instante,Em que buscar viera,Por entre as tempestades,A terra em que nascera.Que é, em fraternas lides,Um canto de victoria?É delirar maldicto;É triumphar sem gloria.Maldicto era o triumpho,Que rodeiava o horror,Que me tingia tudoDe sanguinosa côr!Então olhei saudosoPara o sonoro mar;Da nau do vagabundoMeigo me riu o arfar.De desespero um bradoSoltou, ímpio, o poeta.Perdão! Chegára o miseroDa desventura á meta.VI.Terra infame!—de servos aprisco,Mais chamar-me teu filho não sei:Desterrado, mendigo serei;De outra terra meus ossos serão!Mas a escravo, que pugna por ferros,Que herdará deshonrada memoria,Renegando da terra sem gloria,Nunca mais darei nome de irmão!Onde é livre tem patria o poeta,Que ao exilio condemna ímpia sorte.Sobre os plainos gelados do norteLuz do sol tambem desce do céu;Tambem lá se erguem montes, e o pradoDe boninas, em maio, se veste;Tambem lá se meneia o cypresteSobre o corpo que á terra desceu.Que me importa o loureiro da encosta?Que me importa da fonte o ruido?Que me importa o saudoso gemidoDa rollinha sedenta de amor?Que me importam outeiros cubertosDa verdura da vinha, no estio?Que me importa o remanso do rio,E, na calma, da selva o frescor?Que me importa o perfume dos campos,Quando passa da tarde a bafagem,Que se embebe, na sua passagem,Na fragrancia da rosa e aleli­?Que me importa? Pergunta insensata!É meu berço: a minha alma está lá...Que me importa... Esta bôca o dirá?!Minha patria, estou louco... menti!Eia, servos! O ferro se cruze.Assobie o pelouro nos ares;Estes campos convertam-se em mares,Onde o sangue se possa beber!Larga a valla! que, após a peleja,Todos nós dormiremos unidos!Lá vingados, e do odio esquecidos,Paz faremos... depois do morrer!VII.Assim, entre amarguras,Me delirava a mente;E o sol ia fugindoNo termo do occidente.E os fortes lá jaziamCo'a face ao céu voltada;Sorria a noite aos mortos,Passando socegada.Porém, a noite dellesNão era a que passava!Na eternidade a suaCorria, e não findava.Contrarios ainda ha pouco,Irmãos, emfim, lá eram!O seu thesouro de odio,Mordendo o pó, cederam.No limiar da morteAssim tudo fenece:Inimizades calam,E até o amor esquece!Meus dias rodeiadosForam de amor outr'ora;E nem um vão suspiroTerei, morrendo, agora,Nem o apertar da dextraAo desprender da vida,Nem lagryma fraternaSobre a feral jazida!Meu derradeiro alentoNão colherão os meus.Por minha alma atterradaQuem pedirá a Deus?Ninguem! Aos pés o servoMeus restos calcará,E o riso ímpio, odiento,Mofando soltará.O sino luctuosoNão lembrará meu fim:Preces, que o morto afagam,Não se erguerão por mim!O filho dos desertos,O lobo carniceiro,Ha-de escutar alegreMeu grito derradeiro!Oh morte, o somno teuSó é somno mais largo;Porém, na juventude,É o dormi-lo amargo;Quando na vida nasceEssa mimosa flor.Como a cecem suave,Delicioso amor;Quando a mente accendidaCrê na ventura e gloria;Quando o presente é tudo,E inda nada a memoria!Deixar a cara vida,Então, é doloroso,E o moribundo á terraLança um olhar saudoso.A taça da existenciaNo fundo fézes tem;Mas os primeiros tragosDoces, bem doces, vem.E eu morrerei agoraSem abraçar os meus,Sem jubiloso um hymnoAlevantar aos céus?Morrer, morrer, que importa?Final suspiro, ouvi-loHa-de a patria. Na terraIrei dormir tranquillo.Dormir? Só dorme o frioCadaver, que não sente;A alma voa a abrigar-seAos pés do Omnipotente.Reclinar-me-hei á sombraDo amplo perdão do Eterno;Que não conheço o crime,E erros não pune o inferno.E vós, entes queridos,Entes que tanto amei,Dando-vos liberdadeContente acabarei.Por mim livres chorarVós podereis um dia,E ás cinzas do soldadoErguer memoria pia.A VICTORIA E A PIEDADE.I.Eu nunca fiz soar meus pobres cantosNos paços dos senhores!Eu jámais consagrei hymno mentidoDa terra aos oppressores.Mal haja o trovador que vae sentar-seÁ porta do abastado,O qual com ouro paga a propria infamia,Louvor que foi comprado.Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouroProstitue o alaúde!Deus á poesia deu por alvo a patria,Deu a gloria e a virtude.Feliz ou infeliz, triste ou contente,Livre o poeta seja,E em hymno isento a inspiração transforme,Que na sua alma adeja.II.No despontar da vida, do infortunioMurchou-me o sopro ardente;E saudades curti em longes terrasDa minha terra ausente.O solo do desterro, ai, quanto ingratoÉ para o foragido,Ennevoado o céu, arido o prado,O rio adormecido!Eu lá chorei, na idade da esperaça,Da patria a dura sorte:Esta alma encaneceu; e antes de tempoErgueu hymnos á morte:Que a morte é para o misero risonha,Sancta da campa a imagem...Alli é que se afferra o porto amigo,Depois de ardua viagem.III.Mas quando o pranto me sulcava as faces,Pranto de atroz saudade,Deus escutou do vagabundo as preces,Delle teve piedade.«Armas!—bradaram no desterro os fortes,Como bradar de um só:Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-osIndissoluvel nó.Com seus irmãos as sacrosanctas juras,Beijando a cruz da espada,Repetiu o poeta:—Eia, partamos!Ao mar!»—Partia a armada.Pelas ondas azues correndo afoutos,As praias demandámosDo velho Portugal, e o balsão negroDa guerra despregámos;De guerra em que era infamia o ser piedoso,Nobreza o ser cruel,E em que o golpe mortal descia involtoDas maldicções no fel.IV.Fanatismo brutal, odio fraterno,De fogo céus toldados,A fome, a peste, o mar avaro, as turbasDe innumeros soldados;Comprar com sangue o pão, com sangue o lumeEm regelado inverno;Eis contra o que, por dias de amargura,Nos fez luctar o inferno.Mas de fera victoria, emfim, colhemosA c'roa de cypreste;Que a fronte ao vencedor em í­mpia luctaSó essa c'roa veste.Como ella torvo, soltarei um hymnoDepois do triumphar.Oh meus irmãos, da embriaguez da guerraBem triste é o acordar!Nessa alta encosta sobranceira aos campos,De sangue ainda impuros,Onde o canhão troou por mais de um annoContra invenciveis muros,Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;Pedir inspiraçõesÁ noite queda, ao genio que me ensinaSegredos das canções.V.Reina em silencio a lua: o mar não brame,Os ventos nem bafejam;Rasas co' a terra, só nocturnas avesEm gyros mil adejam.No plaino pardacento, juncto ao marcoTombado, ou rota sebe,Aqui e alli, de ossadas insepultasO alvejar se percebe.É que essa veiga, tão festiva outr'ora,Da paz tranquillo imperio,Onde ao carvalho a vide se enlaçava,É hoje um cemiterio!VI.Eis de esforçados mil inglorios restos,Depois de brava lida;De longo combater atroz mementoEm guerra fraticida.Nenhum padrão recordará aos homensSeus feitos derradeiros:Nem dirá:—aqui dormem portugueses;Aqui dormem guerreiros.»Nenhum padrão, que peça aos que passaremResa fervente e pia,E juncto ao qual entes queridos vertamO pranto da agonia!Nem hasteada cruz, consolo ao morto;Nem lagea que os protejaDo ardente sol, da noite humida e fria,Que passa e que roreja!Não! Lá hão-de jazer no esquecimentoDe deshonrada morte,Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,Não os dispersa o norte.VII.Quem, pois, consolará gementes sombras,Que ondeiam juncto a mim?Quem seu perdão da Patria implorar ousa,Seu perdão de Elohim?Eu, o christão, o trovador do exilio,Contrario em guerra crua,Mas que não sei verter o fel da affrontaSobre uma ossada nua.VIII.Lavradores, zagaes, descem dos montes,Deixando terras, gados,Para as armas vestir, dos céus em nome,Por phariseus chamados.De um Deus de paz hypocritas ministrosOs tristes enganaram:Foram elles, não nós, que estas cáveirasAos vermes consagraram.Maldicto sejas tu, monstro do inferno,Que do Senhor no templo,Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,Dás do furor o exemplo!Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensasteFolgar de nosso mal,E, entre as ruinas de cidade illustre,Soltar riso infernal.Tu, no teu coração insipiente,Disseste:—Deus não há!»Elle existe, malvado; e nós vencemos:Treme; que tempo é já!IX.Mas esses, cujos ossos espalhadosNo campo da pelejaJazem, exoram a piedade nossa;Piedoso o livre seja!Eu pedirei a paz dos inimigos,Mortos como valentes,Ao Deus nosso juiz, ao que distingueCulpados de innocentes.X.Perdoou, expirando, o Filho do HomemAos seus perseguidores:Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;Perdão, oh vencedores!Não insulteis o morto. Elle ha compradoBem caro o esquecimento,Vencido adormecendo em morte ignobil,Sem dobre ou monumento.É tempo d'olvidar odios profundosDe guerra deploravel.O forte é generoso, e deixa ao fracoO ser inexoravel.Oh, perdão para aquelle, a quem a morteNo seio agasalhou!Elle é mudo: pedi-lo já não póde;O dá-lo a nós deixou.Além do limiar da eternidadeO mundo não tem réus,O que legou á terra o pó da terraJulgá-lo cabe a Deus.E vós, meus companheiros, que não vistesNossa triste victoria,Não precisaes do trovador o canto;Vosso nome é da historia.XI.Assim, foi do infeliz sobre a jazidaQue um hymno murmurei,E, do vencido consolando a sombra,Por vós eu perdoei.A CRUZ MUTILADA.Amo-te, oh cruz, no vertice firmadaDe esplendidas igrejas;Amo-te quando á noite, sobre a campa,Juncto ao cypreste alvejas;Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,As preces te rodeiam;Amo-te quando em prestito festivoAs multidões te hasteiam;Amo-te erguida no cruzeiro antigo,No adro do presbyterio,Ou quando o morto, impressa no ataúde,Guias ao cemiterio;Amo-te, oh cruz, até, quando no valleNegrejas triste e só,Núncia do crime, a que deveu a terraDo assassinado o pó:Porém quando mais te amo,Oh cruz do meu Senhor,É se te encontro á tarde,Antes de o sol se pôr,Na clareira da serra,Que o arvoredo assombra,Quando á luz que feneceSe estira a tua sombra,E o dia ultimos raiosCom o luar mistura,E o seu hymno da tardeO pinheiral murmura.E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavasAo pôr do sol, e ao elevar-se a luaDetraz do calvo cerro. A soledadeNão te pôde valer contra a mão ímpia,Que te feriu sem dó. As linhas purasDe teu perfil, falhadas, tortuosas,Oh mutilada cruz, falam de um crimeSacrilego, brutal e ao í­mpio inutil!A tua sombra estampa-se no solo,Como a sombra de antigo monumento,Que o tempo quasi derrocou, truncada.No pedestal musgoso, em que te ergueramNossos avós, eu me assentei. Ao longe,Do presbyterio rustico mandavaO sino os simples sons pelas quebradasDa cordilheira, annunciando o instanteDaAve-Maria; da oração singela,Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homemSe mistura nos canticos saudosos,Que a natureza envia ao céu no extremoRaio de sol, passando fugitivoNa tangente deste orbe, ao qual trouxesteLiberdade e progresso, e que te pagaCom a injuria e o desprezo, e que te invejaAté, na solidão, o esquecimento!Foi da sciencia incredula o sectario,Acaso, oh cruz da serra, o que na faceAffrontas te gravou com mão profusa?Não! Foi o homem do povo, a quem consoloNa miseria e na dôr constante has sidoPor bem dezoito seculos: foi essePor cujo amor surgias qual remorsoNos sonhos do abastado ou do tyranno,Bradando—esmola!a um—piedade!ao outro.Oh cruz, se desde o Golgotha não fôrasSymbolo eterno de uma crença eterna;Se a n­ossa fé em ti fosse mentida,Dos oppressos de outr'ora os livres netosPor sua ingratidão dignos de opprobrio,Se não te amassem, ainda assim seriam.Mas és núncia do céu, e elles te insultam,Esquecidos das lágrymas perennesPor trinta gerações, que guarda a campa,Vertidas a teus pés nos dias torvosDo seu viver d'escravidão! Deslembram-seDe que, se a paz domestica, a purezaDo leito conjugal bruta violenciaNão vae contaminar, se a filha virgemDo humilde camponês não é ludibrioDo opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;Que por ti o cultor de ferteis camposColhe tranquillo da fadiga o premio,Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, duraLhe diga:—é meu, e és meu! A mim deleites,Liberdade, abundancia: a ti, escravo,O trabalho, a miseria unido á terra,Que o suor dessa fronte fertiliza,Emquanto, em dia de furor ou tedio,Não me apraz com teus restos fecunda-la.»Quando calada a humanidade ouviaEste atroz blasphemar, tu te elevasteLá do oriente, oh cruz, involta em gloria,E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:—Mentira!» E o servo alevantou os olhos,Onde a esperança scintillava, a medo,E viu as faces do senhor retinctasEm pallidez mortal, e errar-lhe a vistaTrépida, vaga. A cruz no céu do orienteDa liberdade annunciára a vinda.Cansado, o ancião guerreiro, que a existenciaDesgastou no volver de cem combates,Ao ver que, emfim, o seu paiz queridoJá não ousam calcar os pés d'estranhos,Vem assentar-se á luz meiga da tarde,Na tarde do viver, juncto do teixoDa montanha natal. Na fronte calva,Que o sol tostou e que enrugaram annos,Ha um como fulgor sereno e sancto.Da aldeia semideus, devem-lhe todosO tecto, a liberdade, e a honra e vida.Ao perpassar do veterano os velhosA mão que os protegeu apertam gratos;Com amorosa timidez os moçosSaúdam-no qual pae. Nas largas noitesDa gelada estação, sobre a lareiraNunca lhe falta o cepo incendiado;Sobre a mesa frugal nunca, no estio,Refrigerante pomo. Assim do velhoPelejador os derradeiros diasDerivam para o tumulo suaves,Rodeiados de affecto, e quando á terraA mão do tempo gastador o guia,Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparzeFlores, lagrymas, bençãos, que consolemDo defensor do fraco as cinzas frias.Pobre cruz! Pelejaste mil combates,Os gigantes combates dos tyrannos,E venceste. No solo libertado,Que pediste? Um retiro no deserto,Um pi­ncaro grani­tico, açoutadoPelas azas do vento e ennegrecidoPor chuvas e por soes. Para ameigar-teEste ar humido e gelido a segureNão foi ferir do bosque o rei. Do estioNo ardor canicular nunca disseste:—Dáe-me, sequer, do bravo medronheiroO despresado fruct­o! O teu vestidoEra o musgo, que tece a mão do inverno,E Deus creou para trajar as rochas.Filha do céu, o céu era o teu tecto,Teu escabelo o dorso da montanha.Tempo houve em que esses braços te adórnavaC'roa viçosa de gentis boninas,E o pedestal te rodeiavam preces.Ficaste em breve só, e a voz humanaFez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.Que te importava? As arvores da encostaCurvavam-se a saudar-te, e revoandoAs aves vinham circumdar-te de hymnos.Affagava-te o raio derradeiro,Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,E esperavas o tumulo. O teu tumuloDevera ser o seio destas serras,Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,Ellas nas fauces dos volcões descessem.Então para essa campa flores, bençãos,Ou de saudade lagrymas vertidas,Qual do velho soldado a lousa pede,Não pedíras á ingrata raça humana,Ao pé de ti no seu sudario involta.Este longo esperar do dia extremo,No esquecimento do ermo abandonada,Foi duro de soffrer aos teus remidos,Oh redemptora cruz. Eras, acaso,Como um remorso e accusação perenneNo teu rochedo alpestre, onde te viamPousar tristonha e só? Acaso, á noite,Quando a procella no pinhal rugia,Criam ouvir-te a voz accusadoraSobrelevar á voz da tempestade?Que lhes dizias tu? De Deus falavas,E do seu Christo, do divino martyr,Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldictaErgueu, purificou, clamando ao servo,No seu trance final:—Ergue-te, escravo!És livre, como é pura a cruz da infamia.Ella vil e tu vil, sanctos, sublimesSereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!Abraça tua irman: segue-a sem sustoNo caminho dos seculos. Da terraPertence-lhe o porvir, e o seu triumphoTrará da tua liberdade o dia.»Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-teNos rumores da noite, a antiga historiaRecontando do Golgotha, lembrando-lhesQue só ao Christo a liberdade devem,E que impio o povo ser é ser infame.Mutilado por elle, a pouco e pouco,Tu em fragmentos tombarás do cerro,Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanosAos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.Da gratidão a divida não pagaFicará, oh tremenda accusadora,Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;Sem que o remorso os corações lhes rasgue.Do Christo o nome passará na terra.Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divinaDeixar de ser perenne testemunhoDa avita crença, os montes, a espessura,O mar, a lua, o murmurar da fonte,Da natureza as vagas harmonias,Da cruz em nome, falarão do Verbo.Della no pedestal, então deserto,Do deserto no seio, ainda o poetaVirá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;E a voz da selva lhe dirá que é sanctoEste rochedo nú, e um hymno pioA solidão lhe ensinará e a noite.Do cantico futuro uma toadaNão sentes vir, oh cruz, de além dos temposDa brisa do crepusculo nas azas?É o porvir que te proclama eterna;É a voz do poeta a saúdar-te.

E correr, e correr, troando ao longe,

Nos liquidos desertos!

Mas entre membros de lodoso barro

A mente presa está!...

Ergue-se em vão aos céus: precipitada,

Rapido, em baixo dá.

Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,

Entre escarcéus erguidos,

Que eu te invoco, pedindo-te feneçam

Meus dias aborridos:

Quebra duras prisões, que a natureza

Lançou a esta alma ardente;

Que ella possa voar, por entre os orbes,

Aos pés do Omnipotente.

Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem

Desça, e estourando a esmague,

E a grossa proa, dos tufões ludibrio,

Solta, sem rumo vague!

Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam

O somno do existir;

Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças

Nas trévas do porvir.

Doce mãe do repouso, extremo abrigo

De um coração oppresso,

Que ao ligeiro prazer, á dor cançada

Negas no seio accésso,

Não despertes, oh não! os que abominam

Teu amoroso aspeito;

Febricitantes, que se abraçam, loucos,

Com seu dorído leito!

Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,

Calumniada morte;

Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo

Contra o furor da sorte;

Tu, que esperas ás portas dos senhores,

Do servo ao limiar,

E eterna corres, peregrina, a terra

E as solidões do mar,

Deixa, deixa sonhar ventura os homens;

Já filhos teus nasceram:

Um dia acordarão desses delirios,

Que tão gratos lhes eram.

E eu que vélo na vida, e já não sonho

Nem gloria, nem ventura;

Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,

O calix da amargura:

Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado

De quanto ha vil no mundo,

Sanctas inspirações morrer sentindo

Do coração no fundo,

Sem achar no desterro uma harmonia

De alma, que a minha entenda,

Porque seguir, curvado ante a desgraça,

Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa

Fragor da tempestade,

Psalmo de mortós, que retumba ao longe,

Grito da eternidade!...

Pensamento infernal! Fugir covarde

Ante o destino iroso?

Lançar-me, envolto em maldicções celestes,

No abysmo tormentoso?

Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me

Nas lagrymas da terra;

Guardarei minha estancia atribulada,

Com meu desejo em guerra.

O fiel guardador terá seu premio,

O seu repouso, emfim,

E atalaiar o sol de um dia extremo

Virá outro após mim.

Herdarei o morrer! Como é suave

Bençam de pae querido.

Será o despertar, ver meu cadaver,

Ver o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda

Ao pobre velador:

Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,

Doce amizade e amor.

Tudo o mais é sepulchro branqueado

Por embusteira mão;

Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem

Remorso ao coração.

Passarei minha noite a luz tão meiga,

Até o amanhecer;

Até que suba á patria do repouso,

Onde não ha morrer.

Veia tranquilla e puraDo meu paterno rio,Dos campos, que elle réga,Mansi­ssimo armentio.Rocio matutino,Prados tão deleitosos,Valles, que assombram selvasDe sinceiraes frondosos,Terra da minha infancia,Tecto de meus maiores,Meu breve jardimzinho,Minhas pendidas flores,Harmonioso e sanctoSino do presbyterio,Cruzeiro venerandoDo humilde cemiterio.Onde os avós dormiram,E dormirão os paes;Onde eu talvez não durma,Nem rese, talvez, mais,Eu vos saúdo! e o longoSuspiro amarguradoVos mando. É quanto pódeMandar pobre soldado.Sobre as cavadas ondasDos mares procellosos,Por vós já fiz soarMeus cantos dolorosos.Na prôa resonanteEu me assentava mudo,E aspirava anciosoO vento frio e agudo;Porque em meu sangue ardiaA febre da saudade,Febre que só minoraSopro de tempestade;Mas que se irrita, e duraQuando é tranquillo o mar;Quando da patria o céuCéu puro vem lembrar;Quando, no extremo occaso,A nuvem vaporosa,Á frouxa luz da tarde,Na côr imita a rosa;Quando, do sol vermelhoO disco ardente crece,E paira sobre as aguas,E emfim desapparece;Quando no mar se estendeManto de negro dó;Quando, ao quebrar do vento,Noite e silencio é só;Quando sussurram meigasOndas que a nau separa,E a rapida ardentiaEm tôrno a sombra aclara.

Eu já ouvi, de noite,Entre o pinhal fechado,Um fremito soturnoPassando o vento irado:Assim o murmurioDo mar, fervendo á prôa,Com o gemer do afflicto,Sumido, accorde sôa:E o scintillar das aguasGera amargura e dor,Qual lampada, que pendeNo templo do Senhor,Lá pela madrugada,Se o oleo lhe escaceia,E a espaços expirando,Affrouxa e bruxuleia.

Bem abundante messeDe pranto e de saudadeO foragído erranteColhe na soledade!Para o que a patria perdeÉ o universo mudo;Nada lhe rí na vida;Mora o fastio em tudo;No meio das procellas,Na calma do oceano,No sopro do galerno,Que enfuna o largo panno,E no entestar co' a terraPor abrigado esteiro,E no pousar á sombraDo tecto do estrangeiro.

E essas memorias tristesMinha alma laceraram,E a senda da existenciaBem agra me tornaram:Porém nem sempre ferreoFoi meu destino escuro;Sulcou de luz um raioAs trévas do futuro.Do meu paiz queridoA praia ainda beijei,E o velho e amigo cedroNo valle ainda abracei!Nesta alma regeladaSurgiu ainda o goso,E um sonho lhe sorriuFugaz, mas amoroso.Oh, foi sonho da infanciaDesse momento o sonho!Paz e esperança vinhamAo coração tristonho.Mas o sonhar que monta,Se passa, e não conforta?Minh' alma deu em terra,Como se fosse morta.Foi a esperança nuvem,Que o vento some á tarde:Facho de guerra accesoEm labaredas arde!Do fratricidio a luvaIrmão a irmão lançara,E o grito:ai do vencido!Nos montes retumbara.As armas se hão cruzado:O pó mordeu o forte;Cahiu: dorme tranquillo:Deu-lhe repouso a morte.Ao menos, nestes camposSepulchro conquistou,E o adro dos estranhosSeus ossos não guardou.Elle herdará, ao menos,Aos seus honrado nome,Paga de curta vidaSer-lhe-ha largo renome.

E a bala sibilando,E o trom da artilharia,E a tuba clamorosa,Que os peitos accendia,E as ameaças torvas,E os gritos de furor,E desses, que expiravam,Som cavo de estertor,E as pragas do vencido,Do vencedor o insulto,E a pallidez do morto,Nú, sanguento, insepulto,Eram um cá'os de doresEm convulsão horrivel,Sonho de accesa febre,Scena tremenda e incrivel!E suspirei: nos olhosMe borbulhava o pranto,E a dor, que trasbordava,Pediu-me infernal canto.Oh, sim! maldisse o instante,Em que buscar viera,Por entre as tempestades,A terra em que nascera.Que é, em fraternas lides,Um canto de victoria?É delirar maldicto;É triumphar sem gloria.Maldicto era o triumpho,Que rodeiava o horror,Que me tingia tudoDe sanguinosa côr!Então olhei saudosoPara o sonoro mar;Da nau do vagabundoMeigo me riu o arfar.De desespero um bradoSoltou, ímpio, o poeta.Perdão! Chegára o miseroDa desventura á meta.

Terra infame!—de servos aprisco,Mais chamar-me teu filho não sei:Desterrado, mendigo serei;De outra terra meus ossos serão!Mas a escravo, que pugna por ferros,Que herdará deshonrada memoria,Renegando da terra sem gloria,Nunca mais darei nome de irmão!Onde é livre tem patria o poeta,Que ao exilio condemna ímpia sorte.Sobre os plainos gelados do norteLuz do sol tambem desce do céu;Tambem lá se erguem montes, e o pradoDe boninas, em maio, se veste;Tambem lá se meneia o cypresteSobre o corpo que á terra desceu.Que me importa o loureiro da encosta?Que me importa da fonte o ruido?Que me importa o saudoso gemidoDa rollinha sedenta de amor?Que me importam outeiros cubertosDa verdura da vinha, no estio?Que me importa o remanso do rio,E, na calma, da selva o frescor?Que me importa o perfume dos campos,Quando passa da tarde a bafagem,Que se embebe, na sua passagem,Na fragrancia da rosa e aleli­?Que me importa? Pergunta insensata!É meu berço: a minha alma está lá...Que me importa... Esta bôca o dirá?!Minha patria, estou louco... menti!Eia, servos! O ferro se cruze.Assobie o pelouro nos ares;Estes campos convertam-se em mares,Onde o sangue se possa beber!Larga a valla! que, após a peleja,Todos nós dormiremos unidos!Lá vingados, e do odio esquecidos,Paz faremos... depois do morrer!

Assim, entre amarguras,Me delirava a mente;E o sol ia fugindoNo termo do occidente.E os fortes lá jaziamCo'a face ao céu voltada;Sorria a noite aos mortos,Passando socegada.Porém, a noite dellesNão era a que passava!Na eternidade a suaCorria, e não findava.Contrarios ainda ha pouco,Irmãos, emfim, lá eram!O seu thesouro de odio,Mordendo o pó, cederam.No limiar da morteAssim tudo fenece:Inimizades calam,E até o amor esquece!Meus dias rodeiadosForam de amor outr'ora;E nem um vão suspiroTerei, morrendo, agora,Nem o apertar da dextraAo desprender da vida,Nem lagryma fraternaSobre a feral jazida!Meu derradeiro alentoNão colherão os meus.Por minha alma atterradaQuem pedirá a Deus?Ninguem! Aos pés o servoMeus restos calcará,E o riso ímpio, odiento,Mofando soltará.O sino luctuosoNão lembrará meu fim:Preces, que o morto afagam,Não se erguerão por mim!O filho dos desertos,O lobo carniceiro,Ha-de escutar alegreMeu grito derradeiro!Oh morte, o somno teuSó é somno mais largo;Porém, na juventude,É o dormi-lo amargo;Quando na vida nasceEssa mimosa flor.Como a cecem suave,Delicioso amor;Quando a mente accendidaCrê na ventura e gloria;Quando o presente é tudo,E inda nada a memoria!Deixar a cara vida,Então, é doloroso,E o moribundo á terraLança um olhar saudoso.A taça da existenciaNo fundo fézes tem;Mas os primeiros tragosDoces, bem doces, vem.E eu morrerei agoraSem abraçar os meus,Sem jubiloso um hymnoAlevantar aos céus?Morrer, morrer, que importa?Final suspiro, ouvi-loHa-de a patria. Na terraIrei dormir tranquillo.Dormir? Só dorme o frioCadaver, que não sente;A alma voa a abrigar-seAos pés do Omnipotente.Reclinar-me-hei á sombraDo amplo perdão do Eterno;Que não conheço o crime,E erros não pune o inferno.E vós, entes queridos,Entes que tanto amei,Dando-vos liberdadeContente acabarei.Por mim livres chorarVós podereis um dia,E ás cinzas do soldadoErguer memoria pia.

Eu nunca fiz soar meus pobres cantos

Nos paços dos senhores!

Eu jámais consagrei hymno mentido

Da terra aos oppressores.

Mal haja o trovador que vae sentar-se

Á porta do abastado,

O qual com ouro paga a propria infamia,

Louvor que foi comprado.

Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro

Prostitue o alaúde!

Deus á poesia deu por alvo a patria,

Deu a gloria e a virtude.

Feliz ou infeliz, triste ou contente,

Livre o poeta seja,

E em hymno isento a inspiração transforme,

Que na sua alma adeja.

No despontar da vida, do infortunio

Murchou-me o sopro ardente;

E saudades curti em longes terras

Da minha terra ausente.

O solo do desterro, ai, quanto ingrato

É para o foragido,

Ennevoado o céu, arido o prado,

O rio adormecido!

Eu lá chorei, na idade da esperaça,

Da patria a dura sorte:

Esta alma encaneceu; e antes de tempo

Ergueu hymnos á morte:

Que a morte é para o misero risonha,

Sancta da campa a imagem...

Alli é que se afferra o porto amigo,

Depois de ardua viagem.

Mas quando o pranto me sulcava as faces,

Pranto de atroz saudade,

Deus escutou do vagabundo as preces,

Delle teve piedade.

«Armas!—bradaram no desterro os fortes,

Como bradar de um só:

Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os

Indissoluvel nó.

Com seus irmãos as sacrosanctas juras,

Beijando a cruz da espada,

Repetiu o poeta:—Eia, partamos!

Ao mar!»—Partia a armada.

Pelas ondas azues correndo afoutos,

As praias demandámos

Do velho Portugal, e o balsão negro

Da guerra despregámos;

De guerra em que era infamia o ser piedoso,

Nobreza o ser cruel,

E em que o golpe mortal descia involto

Das maldicções no fel.

Fanatismo brutal, odio fraterno,

De fogo céus toldados,

A fome, a peste, o mar avaro, as turbas

De innumeros soldados;

Comprar com sangue o pão, com sangue o lume

Em regelado inverno;

Eis contra o que, por dias de amargura,

Nos fez luctar o inferno.

Mas de fera victoria, emfim, colhemos

A c'roa de cypreste;

Que a fronte ao vencedor em í­mpia lucta

Só essa c'roa veste.

Como ella torvo, soltarei um hymno

Depois do triumphar.

Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra

Bem triste é o acordar!

Nessa alta encosta sobranceira aos campos,

De sangue ainda impuros,

Onde o canhão troou por mais de um anno

Contra invenciveis muros,

Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;

Pedir inspirações

Á noite queda, ao genio que me ensina

Segredos das canções.

Reina em silencio a lua: o mar não brame,

Os ventos nem bafejam;

Rasas co' a terra, só nocturnas aves

Em gyros mil adejam.

No plaino pardacento, juncto ao marco

Tombado, ou rota sebe,

Aqui e alli, de ossadas insepultas

O alvejar se percebe.

É que essa veiga, tão festiva outr'ora,

Da paz tranquillo imperio,

Onde ao carvalho a vide se enlaçava,

É hoje um cemiterio!

Eis de esforçados mil inglorios restos,

Depois de brava lida;

De longo combater atroz memento

Em guerra fraticida.

Nenhum padrão recordará aos homens

Seus feitos derradeiros:

Nem dirá:—aqui dormem portugueses;

Aqui dormem guerreiros.»

Nenhum padrão, que peça aos que passarem

Resa fervente e pia,

E juncto ao qual entes queridos vertam

O pranto da agonia!

Nem hasteada cruz, consolo ao morto;

Nem lagea que os proteja

Do ardente sol, da noite humida e fria,

Que passa e que roreja!

Não! Lá hão-de jazer no esquecimento

De deshonrada morte,

Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,

Não os dispersa o norte.

Quem, pois, consolará gementes sombras,

Que ondeiam juncto a mim?

Quem seu perdão da Patria implorar ousa,

Seu perdão de Elohim?

Eu, o christão, o trovador do exilio,

Contrario em guerra crua,

Mas que não sei verter o fel da affronta

Sobre uma ossada nua.

Lavradores, zagaes, descem dos montes,

Deixando terras, gados,

Para as armas vestir, dos céus em nome,

Por phariseus chamados.

De um Deus de paz hypocritas ministros

Os tristes enganaram:

Foram elles, não nós, que estas cáveiras

Aos vermes consagraram.

Maldicto sejas tu, monstro do inferno,

Que do Senhor no templo,

Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,

Dás do furor o exemplo!

Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste

Folgar de nosso mal,

E, entre as ruinas de cidade illustre,

Soltar riso infernal.

Tu, no teu coração insipiente,

Disseste:—Deus não há!»

Elle existe, malvado; e nós vencemos:

Treme; que tempo é já!

Mas esses, cujos ossos espalhados

No campo da peleja

Jazem, exoram a piedade nossa;

Piedoso o livre seja!

Eu pedirei a paz dos inimigos,

Mortos como valentes,

Ao Deus nosso juiz, ao que distingue

Culpados de innocentes.

Perdoou, expirando, o Filho do Homem

Aos seus perseguidores:

Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;

Perdão, oh vencedores!

Não insulteis o morto. Elle ha comprado

Bem caro o esquecimento,

Vencido adormecendo em morte ignobil,

Sem dobre ou monumento.

É tempo d'olvidar odios profundos

De guerra deploravel.

O forte é generoso, e deixa ao fraco

O ser inexoravel.

Oh, perdão para aquelle, a quem a morte

No seio agasalhou!

Elle é mudo: pedi-lo já não póde;

O dá-lo a nós deixou.

Além do limiar da eternidade

O mundo não tem réus,

O que legou á terra o pó da terra

Julgá-lo cabe a Deus.

E vós, meus companheiros, que não vistes

Nossa triste victoria,

Não precisaes do trovador o canto;

Vosso nome é da historia.

Assim, foi do infeliz sobre a jazida

Que um hymno murmurei,

E, do vencido consolando a sombra,

Por vós eu perdoei.

Amo-te, oh cruz, no vertice firmada

De esplendidas igrejas;

Amo-te quando á noite, sobre a campa,

Juncto ao cypreste alvejas;

Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,

As preces te rodeiam;

Amo-te quando em prestito festivo

As multidões te hasteiam;

Amo-te erguida no cruzeiro antigo,

No adro do presbyterio,

Ou quando o morto, impressa no ataúde,

Guias ao cemiterio;

Amo-te, oh cruz, até, quando no valle

Negrejas triste e só,

Núncia do crime, a que deveu a terra

Do assassinado o pó:

Porém quando mais te amo,Oh cruz do meu Senhor,É se te encontro á tarde,Antes de o sol se pôr,Na clareira da serra,Que o arvoredo assombra,Quando á luz que feneceSe estira a tua sombra,E o dia ultimos raiosCom o luar mistura,E o seu hymno da tardeO pinheiral murmura.

E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavasAo pôr do sol, e ao elevar-se a luaDetraz do calvo cerro. A soledadeNão te pôde valer contra a mão ímpia,Que te feriu sem dó. As linhas purasDe teu perfil, falhadas, tortuosas,Oh mutilada cruz, falam de um crimeSacrilego, brutal e ao í­mpio inutil!A tua sombra estampa-se no solo,Como a sombra de antigo monumento,Que o tempo quasi derrocou, truncada.No pedestal musgoso, em que te ergueramNossos avós, eu me assentei. Ao longe,Do presbyterio rustico mandavaO sino os simples sons pelas quebradasDa cordilheira, annunciando o instanteDaAve-Maria; da oração singela,Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homemSe mistura nos canticos saudosos,Que a natureza envia ao céu no extremoRaio de sol, passando fugitivoNa tangente deste orbe, ao qual trouxesteLiberdade e progresso, e que te pagaCom a injuria e o desprezo, e que te invejaAté, na solidão, o esquecimento!Foi da sciencia incredula o sectario,Acaso, oh cruz da serra, o que na faceAffrontas te gravou com mão profusa?Não! Foi o homem do povo, a quem consoloNa miseria e na dôr constante has sidoPor bem dezoito seculos: foi essePor cujo amor surgias qual remorsoNos sonhos do abastado ou do tyranno,Bradando—esmola!a um—piedade!ao outro.Oh cruz, se desde o Golgotha não fôrasSymbolo eterno de uma crença eterna;Se a n­ossa fé em ti fosse mentida,Dos oppressos de outr'ora os livres netosPor sua ingratidão dignos de opprobrio,Se não te amassem, ainda assim seriam.Mas és núncia do céu, e elles te insultam,Esquecidos das lágrymas perennesPor trinta gerações, que guarda a campa,Vertidas a teus pés nos dias torvosDo seu viver d'escravidão! Deslembram-seDe que, se a paz domestica, a purezaDo leito conjugal bruta violenciaNão vae contaminar, se a filha virgemDo humilde camponês não é ludibrioDo opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;Que por ti o cultor de ferteis camposColhe tranquillo da fadiga o premio,Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, duraLhe diga:—é meu, e és meu! A mim deleites,Liberdade, abundancia: a ti, escravo,O trabalho, a miseria unido á terra,Que o suor dessa fronte fertiliza,Emquanto, em dia de furor ou tedio,Não me apraz com teus restos fecunda-la.»Quando calada a humanidade ouviaEste atroz blasphemar, tu te elevasteLá do oriente, oh cruz, involta em gloria,E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:—Mentira!» E o servo alevantou os olhos,Onde a esperança scintillava, a medo,E viu as faces do senhor retinctasEm pallidez mortal, e errar-lhe a vistaTrépida, vaga. A cruz no céu do orienteDa liberdade annunciára a vinda.Cansado, o ancião guerreiro, que a existenciaDesgastou no volver de cem combates,Ao ver que, emfim, o seu paiz queridoJá não ousam calcar os pés d'estranhos,Vem assentar-se á luz meiga da tarde,Na tarde do viver, juncto do teixoDa montanha natal. Na fronte calva,Que o sol tostou e que enrugaram annos,Ha um como fulgor sereno e sancto.Da aldeia semideus, devem-lhe todosO tecto, a liberdade, e a honra e vida.Ao perpassar do veterano os velhosA mão que os protegeu apertam gratos;Com amorosa timidez os moçosSaúdam-no qual pae. Nas largas noitesDa gelada estação, sobre a lareiraNunca lhe falta o cepo incendiado;Sobre a mesa frugal nunca, no estio,Refrigerante pomo. Assim do velhoPelejador os derradeiros diasDerivam para o tumulo suaves,Rodeiados de affecto, e quando á terraA mão do tempo gastador o guia,Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparzeFlores, lagrymas, bençãos, que consolemDo defensor do fraco as cinzas frias.Pobre cruz! Pelejaste mil combates,Os gigantes combates dos tyrannos,E venceste. No solo libertado,Que pediste? Um retiro no deserto,Um pi­ncaro grani­tico, açoutadoPelas azas do vento e ennegrecidoPor chuvas e por soes. Para ameigar-teEste ar humido e gelido a segureNão foi ferir do bosque o rei. Do estioNo ardor canicular nunca disseste:—Dáe-me, sequer, do bravo medronheiroO despresado fruct­o! O teu vestidoEra o musgo, que tece a mão do inverno,E Deus creou para trajar as rochas.Filha do céu, o céu era o teu tecto,Teu escabelo o dorso da montanha.Tempo houve em que esses braços te adórnavaC'roa viçosa de gentis boninas,E o pedestal te rodeiavam preces.Ficaste em breve só, e a voz humanaFez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.Que te importava? As arvores da encostaCurvavam-se a saudar-te, e revoandoAs aves vinham circumdar-te de hymnos.Affagava-te o raio derradeiro,Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,E esperavas o tumulo. O teu tumuloDevera ser o seio destas serras,Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,Ellas nas fauces dos volcões descessem.Então para essa campa flores, bençãos,Ou de saudade lagrymas vertidas,Qual do velho soldado a lousa pede,Não pedíras á ingrata raça humana,Ao pé de ti no seu sudario involta.Este longo esperar do dia extremo,No esquecimento do ermo abandonada,Foi duro de soffrer aos teus remidos,Oh redemptora cruz. Eras, acaso,Como um remorso e accusação perenneNo teu rochedo alpestre, onde te viamPousar tristonha e só? Acaso, á noite,Quando a procella no pinhal rugia,Criam ouvir-te a voz accusadoraSobrelevar á voz da tempestade?Que lhes dizias tu? De Deus falavas,E do seu Christo, do divino martyr,Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldictaErgueu, purificou, clamando ao servo,No seu trance final:—Ergue-te, escravo!És livre, como é pura a cruz da infamia.Ella vil e tu vil, sanctos, sublimesSereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!Abraça tua irman: segue-a sem sustoNo caminho dos seculos. Da terraPertence-lhe o porvir, e o seu triumphoTrará da tua liberdade o dia.»Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-teNos rumores da noite, a antiga historiaRecontando do Golgotha, lembrando-lhesQue só ao Christo a liberdade devem,E que impio o povo ser é ser infame.Mutilado por elle, a pouco e pouco,Tu em fragmentos tombarás do cerro,Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanosAos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.Da gratidão a divida não pagaFicará, oh tremenda accusadora,Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;Sem que o remorso os corações lhes rasgue.Do Christo o nome passará na terra.Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divinaDeixar de ser perenne testemunhoDa avita crença, os montes, a espessura,O mar, a lua, o murmurar da fonte,Da natureza as vagas harmonias,Da cruz em nome, falarão do Verbo.Della no pedestal, então deserto,Do deserto no seio, ainda o poetaVirá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;E a voz da selva lhe dirá que é sanctoEste rochedo nú, e um hymno pioA solidão lhe ensinará e a noite.Do cantico futuro uma toadaNão sentes vir, oh cruz, de além dos temposDa brisa do crepusculo nas azas?É o porvir que te proclama eterna;É a voz do poeta a saúdar-te.


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