«Vive, oh triste,Esquecido do mundo, e esquece o mundo!Nas solidões profundas da tua alma,Vazia das paixões que a assassinaram,Some os cantos que della transudavamPara correr n'um seculo sem vida,Sem virtude e sem fé, e em que desabamAs crenças todas do passado, e é sonhoA constancia e o amor.»Palavras estasExtremas foram do proscripto. Longe,Em praia estranha abandonando a barca,Qual o seu fado foi ninguem mais soube.N'UM ALBUM.Quando o Senhor enviaO trovador ao mundo,Faz devorar a essa almaFel amargoso e immundo;Porque lhe diz:—Poeta,Vai conhecer a terra;Prova dos seus deleites;Prova do mal que encerra.Desses e deste esgotaAs taças muitas vezes,Embora de uma e d'outraAches no fundo fézes:E quando bem souberesQue tudo é sonho vão;Que é nada a dor e o goso,Sólta o teu hymno então.»E o pobre desterradoVem seu mister cumprir.Nasce: homens e universo,Tudo lhe vê sorrir;E o seu balbuciarUm canto é d'innocencia:Mas outro foi seu fado;Guia-o a providencia.É cherubim precítoQu' inda entrevê o céu,Mas através da vida,Mas através de um véu.Em turbilhão d'affectos,Seu íntimo viverRapido lhe devoraSperança, amor e crer.Do goso nos deliriosDebalde busca o amor;Saudade melancholicaPede debalde á dor.Depois, desanimado,Pára a pensar em si,Acha no seio um ermo,E tristemente ri.É desde aquelle instanteDe um acordar atroz,Que ao condemnado lembraDo que o mandou a voz.Então entende e cumpreSeu barbaro destino;Então é que elle aprendeA modular um hymno.Virgem, ao que assim passaPor meio do existir,Calcando os frios restosDo crer e do sentir,Não peças te reveleSua alma na poesia,E dê aos pensamentosO encanto da harmonia;Porque lá, nesse abysmo,Não resta uma illusão:Só ha perpetua noite,E injuria e maldicção.Não entenderas, virgemAinda innocente e pura,O canto que surgiraDessa alma gasta e escura.Deixa-o seguir seu norte,Cumprir missão cruel;Deixa-o verter o escarneo;Deixa-o verter o fel;Deixa-o cuspir em facesOnde não ha pudor,E ao mundo, ebrio de si,Rindo ensinar a dor.As sanctas harmoniasDe cantico innocenteSabe-as o alvor do diaQuando rompe do oriente;Murmura-as o regato;Vibra-as o rouxinol;Vem no zumbir do insecto,No prado, ao pôr do sol;Vivem no puro affectoDa filial piedade,Nos sonhos e esperançasDa juvenil idade.Esta poesia é tua:Eu já a ouvi e amei;Mas hoje nem a entendo,Nem repeti-la sei.Assim, meu nome sóEscreverei aqui;Som vão, intelligivelApenas para ti;Extincto candelabroDo templo do Senhor,Que por algumas horasDeu luz, teve calor;Lenda de sepultura,Que fala em gloria e vida,E esconde ossada infectaDos vermes corroída;Pinheiro solitario,Que o raio fulminou,E que gemeu tombando,E não mais murmurou.A FELICIDADE.Era bello esse tempo da vida,Em que esta harpa falava de amores:Era bello quando o estro accendiamEm minha alma da guerra os terrores.Nesse tempo o balouço das vagasMe era grato, qual berço da infancia;E o sibillo da bala harmoniaSemelhante á de flauta em distancia.Eu corri pelos campos da gloria,D'entre o sangue colhendo uma palma,Para um dia a depor aos pés dessaQue reinou largo tempo nesta alma.Mas qual ha coração de donzella,Que responda a um suspiro de amor,Quando vibra nas cordas sonorasDo alaúde de pobre cantor?Triste o dom do poeta!—No seioTem volcão que as entranhas lhe accende;E a mulher que vestiu de seus sonhosNem sequer um olhar lhe compr'hende!E trahido, e passado de angustias,Ao amor este peito cerrara,E, quebrada, no tronco do cedroA minha harpa infeliz pendurara.Um véu negro cubriu-me a existencia,Que gelada, que inutil corria;Meu engenho tornou-se um mysterioQue ninguem neste mundo entendia.E embrenhei-me por entre os deleites;Mas tocando-o, fugia-me o goso;Se o colhia, durava um momento;Após vinha o remorso amargoso.Esqueci-me do Deus que adorara;O prestigio da gloria passou;E a minha alma, vazia de affectos,No limiar do porvir se assentou:Meus pulmões arquejaram com ancia,Buscando ar na amplidão do futuro,E sómente encontraram, por trévas,De sepulchros um halito impuro.Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;Eu te achei, oh milagre de amor!Outra vez vibrará um suspiroNo alaúde do pobre cantor.Eras tu, eras tu que eu sonhava;Eras tu quem eu já adorei,Quando aos pés de mulher enganosaMeu alento em canções derramei.Se na terra este amor de poetaCoração ha que o possa pagar,Serás tu, virgem pura dos campos,Quem virá a minha harpa acordarComo a luz duvidosa da tarde,Quando o sol leva ao mar mais um dia,Reverbera poesia e saudadeNa alma immensa de um rei da harmonia;Tal poesia e saudade em torrentesNo teu meigo sorrir eu aspiro,E no olhar que me lanças a furto,E no encanto de um mudo suspiro,Para mim és tu hoje o universo:Soa em vão o bulicio do mundo;Que este existe sómente onde existes:Tudo o mais é um ermo profundo.No silencio do amor, da ventura,Adorando-te, oh filha dos céus,Eu direi ao Senhor:—tu m'a déste:Em ti creio por ella, oh meu Deus!»OS INFANTES EM CEUTA.DRAMA LYRICO EM UM ACTO.(1415)O infante D. Duarte.O Infante D. Pedro.O Infante D. Henrique.Gulnar, filha do wali de Ceuta.Lobna, escrava.Haleva, escrava.Um pagem.Um sobrerolda.Côro de cavalleiros portugueses.Côro de cavalleiros mouros.Côro de escravas, e de eunuchos negros.SCENA I.Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. Duarte pára, cruza os braços e contemplapor um instante os cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o principe.D. DUARTE.Eia pois, cavalleiros! Breve os maresCruzaremos de novo além do Estreito!Os inimigos timidos refogemDa conquistada Ceuta.Pelas campinas pallidas, ao longe,Das altas torres espraiando os olhos,Não se vê alvejar lá no horisonteUm albornoz mourisco.Folgue o que volta á patria enriquecidoPela ganhada gloria: folgue aquelleA quem coube o desterro entre estes muros,Por conservar erguidaSobre a mesquita a cruz, sobre as ameiasO estandarte real: morrendo, é martyr:Seu nome eterno viverá na historia.Folgae, meus cavalleiros!CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,Para o velho homem d'armas d'elrei,Que ha trinta annos nos diz:—combatei!»Sem jámais a armadura largar!Sob o forro do elmo pulidoNossa fronte, senhor, se enrugou,E estes peitos robustos quebrouDos arnezes continuo pesar!Bem vinda a horaEm que voltemos,E emfim saudemosO nosso lar;Em que possamosNo patrio rioO sol do estioVer scintillar;E, dos sinceirosEntre a espessura,Da guerra duraIr repousar!CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.Parti vós, cavalleiros:A Portugal tornae;E o nosso nome ás bellasDonzellasLembrae!Dizei-lhes que, se ás lidesVotámos peito e braços,Por ellas suspiramos,E amamosSeus laços;E que destes labiosPalavra amorosaPor moura formosaJámais sairá.Opprobrio e vergonhaAo que as esquecer!Infamia ao que arderPor filha d'Allah!D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio dos cavalleiros.D. PEDRO E D. HENRIQUE.Infamia, dizeis vós?D. DUARTE.Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente da scena.Por Deus, calae-vos!Ignoram vosso amor esses guerreiros.Da patria elles falavam:Não a trahir juravam.E vós? Vós que sois filhosD'elrei de Portugal; vós, cavalleiros,Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,Vosso nome manchastesCom um affecto ignobil...D. PEDRO E D. HENRIQUE.Que ousaes dizer, senhor!D. DUARTE.Sim, ignobil affecto! Amor geradoEntre rios de sangue, ao lampejaremCruzados ferros, no aduar mouriscoÁ viva força entrado.Conduziu-vos, dissestes-me, o combateA suberbo palacio. Alto repousoEra de morte ahi: seus defensoresTinha-os o ferro português ceifado,Duas mouras formosas,Vencidas do terror, na fuga anciosas,Cahindo a vossos pés pediram vida,Liberdade, honra, e vós...D. PEDRO.Assegurámos-lhesLiberdade, honra e vida. Oh, somos filhosD'elrei de Portugal, e cavalleiros!Era o nosso dever.D. DUARTE.E era-o cederdesA um amor insensato; o prometterdesPelas nocturnas trévas conduzi-lasÁs naus que vão partir?D. HENRIQUE.Será rouba-lasÁ falsa crença do koran...D. DUARTE.Com vehemencia.E a infamiaLhes gravareis depois nas frontes puras?Isso é torpe! Isso é vil!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Senhor infante!D. DUARTE.Com ardor.Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alvaA armada partirá.D. PEDRO E D. HENRIQUE.Com inquietação.Zombaes?D. DUARTE.Ouvi-me!É o mandado d'elrei...Dirigindo-se aos cavalleiros.Meus velhos guerreiros,As armas tomae,E á praia frementeOs passos guiae;Que as náus já fluctuam:Não tarda o partir.Nos mares a auroraVeremos surgir.CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.Virgem! Esperança!Estrella do mar,Ouvi nosso orar;Mandae-nos bonança!Salvae-nos, salvae-nos!E á patria levae-nos!Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.Á patria levae-nos!...D. DUARTE.Guerreiros novéisAs armas vestí,E os muros de CeutaDe lanças cubrí.Bandeira da serpe,Bandeira d'elrei,No alcacer, nas torresGuardae, ou morrei!CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.Contentes saudamosOs dias de guerra:Ser dignos da terraDa infancia juramos.O braço não treme!...O peito não teme!...Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:O peito não teme!...D. DUARTE.Restam bem poucas horas:Salvos estaes infantes!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Sabe um amor immensoHoras fazer de instantes.D. DUARTE.Que!? Ousarieis 'inda?...D. PEDRO E D. HENRIQUE.Nós ousaremos tudo!D. DUARTE.Não! Filial piedadeVos servirá d'escudo!Com gesto supplicante.Pela memoria sanctaDe nossa mãe querida,Que na feral jazidaTal crime assombrará,Afugentae qual sonhoEsse insensato amor,Que o odio, que o furorDo céu accenderá!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Mas deste amor profundoQuem nos libertará?D. DUARTE.Vêde quem sois, e o mundoComo vos julgará!D. PEDRO E D. HENRIQUE.Duas formosas almasPor nós a fé ganhou.D. DUARTE.Antes por vós o sangueDe Aviz se deshonrou.UM PAGEM.Entrando apressado.Principe, elrei vos chama.D. DUARTE.Ide; eu vos sigo.Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe, D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.Oh meu Pedro, oh meu Henrique,Louco intento abandonaes?!Não passar de Ceuta as portasHoje, aqui, vós me juraes?!Os dous, volvendo olhar rapido um para o outroD. PEDRO E D. HENRIQUE.Senhor, do sceptro herdeiro,Vossos irmãos mandaes...De Ceuta as ferreas portasNão cruzaremos mais!D. DUARTE.Basta-me tal promessa!Só mentem desleaes.SCENA II.D. PEDRO E D. HENRIQUE.D. HENRIQUE.Olhando para o principe que sáe, e sorrindo.A promessa ha-de cumprir-se!Nobre infante, vae seguro!D. PEDRO.Com hesitação.Mas de Ceuta o erguido muroComo além, hoje, transpôr?...D. HENRIQUE.Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.Vedes vós, lá em baixo, esse vultoAmplo e negro da torre de Fez,Que inda ha pouco o mais forte pavezDo vencido muslim se ostentou?D. PEDRO.Vejo; e lembram-me as portas robustasQue a acha d'armas a custo desfez;E que nesse momento se fezUm silencio que instantes durou...D. HENRIQUE.E parámos; e ouvimos ao longeTinir d'armas, correr de corceis,E o confuso bradar d'infiéis,Restrugindo os seus gritos de dor...D. PEDRO.Subterraneo caminho os salvavaDas espadas dos nossos fiéis,Quando inuteis alfanges, broqueisLhes tornára profundo terror...D. HENRIQUE.O que ao mouro no trance tremendoDe destino cruento remiu,Esta noite, a quem nunca mentiuDe mentir uma vez salvará.D. PEDRO.Com grande jubilo.Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!Outras portas o amor nos abriu;Nossa estrella dos céus nos sorriu;O caminho, o caminho é por lá!D. HENRIQUE E D. PEDRO.Noite placida e formosa,Noite grata a um vivo affecto,Para nós no torvo aspectoTe deslisa almo prazer!Bella noite silenciosa,Sê propicia ao nosso intento;Com teu véu cobre o momentoDo partir e do volver!SCENA III.Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto. No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro de donzellas arabes cantando ao som de harpas.CÔRO.Dorme, dorme desgraçada!Dorme, filha do wali!Possa o somno sobre tiO consolo derramar.Quando dormes é teu gestoBrando e meigo qual de huri;Mas vingança nelle riFerozmente ao despertar.GULNAR.Erguendo-se lentamente.Oh, como é doce o som de vossas harpas,Desterradas de Ceuta!.. AdormecestesUm pouco minha dor. Senti correremDestes olhos as lagrymas... Ai! breve,Repentino terror veio enxuga-las.Meu pae... Que diz Levi?CÔRO.Oh Deus!GULNAR.Entendo:Não tenho que esperar?..CÔRO.Delira. Golfa o sangueDa profunda ferida,Por onde foge a vidaDo inerte corpo exangue.GULNAR.Com gesto ameaçador, e erguendo-se.Oh, basta! Inulto,Senhor de Ceuta, em cemiterio estranhoNão dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura!Lobna e Haleva onde estão?SCENA IV.LOBNA E HALEVA.Entrando apressadamente assustadas.LOBNA.Eis-nos, princesa!Os espias voltaram: tumultuandoNa marinha de Ceuta homens, ginetes,Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,Proas á terra: o esquife após o esquifeEntre a praia e as galés cruzando as ondas;Tudo do amir christão mostra a partida.GULNAR.O tigre português volta ao seu antro!Mas Ceuta...Com amargura.Profanada e serva és Ceuta!O que te amou qual pae jaz moribundoNo seu leito de dor. Foi por salvar-tePérola rica do Moghreb. InutilO sangue se verteu! Oh, sem vingançaNão ficaremos nós: nós ambas orphans,Eu desterrada e tu escrava. O nobreTeu senhor e meu pae, talvez, da auroraNão veja mais a luz. Mas trema o feroAmir de Portugal! Gulnar, a filhaDo vencido wali, ha-de vinga-lo.Lobna e Haleva esta noite...HALEVA.Hesitando.E quem vos disseQue elles hão-de voltar?..GULNAR.O juramento:O juramento seu!.. Já não sois servas,Bellas filhas do Caucaso; sois sociasDa implacavel Gulnar. A vós a gloriaDe tornar mais cruel su' hora extrema.Quanto ardente paixão tem de ternuraQuantas fascinações ha no amor virgem:Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,O pranto, o resistir tem de delirio;Tudo, tudo empregae! Raio de morte,Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.Erguendo as mãos.Escuta, emfim, meu pranto,Dos impios vencedor:Manda, propheta sancto,O anjo exterminador.Chore a roubada proleO português amir:Que o sangue me consoleAntes de o sol surgir.Cercae-os vós de goso:Sintam que é bom viver:Será mais horrorosoMeu brado:—Ide morrer!»Vem, oh terrivel hora,Hora do meu folgar,Hora em que vingadoraTriumphará Gulnar.Dirigindo-se ao côro.Ide; patenteDo alcacer seja o ádito: silencioProfundo reine em toda a parte: os gritosDos moribundos só... hão-de quebra-lo!Vingança a Bensalá.CÔRO.Vingança á patria!GULNAR.A Haleva e Lobna com gesto terrivel.Em breve me vereis!...SCENA V.LOBNA E HALEVA.Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois correm a lançar-se nos braços uma da outra.HALEVA.Ai, como foi mesquinhaA nossa escura sorte!Porque a terrivel morteOs tristes conduzir?LOBNA.Oh, se Gulnar os víra,De sangue inda banhados,Vencidos, humilhados,A nossos pés cahir!HALEVA.Que lhes valêra? Sangue,Sangue só quer a hyena:A cólera a aliena:Não póde perdoar!LOBNA.Haleva, minha Haleva,De susto eu titubeio:Tu imagina o meioDe as victimas salvar.HALEVA.Miseras! Só nos resta,Em festa sanguinosa,Sob a traidora rosaO aspide esconder.LOBNA.Que importa a pobre escravaDe susto e de amor trema?Embora chore e gema,Cumpre-lhe obedecer.HALEVA E LOBNA.Sólta o suave cantoCaptivo rouxinol,Quando o nascente solDerrama seu fulgor;E as aves vem, correndo,Pousar no umbroso til,Onde com arte vilAs prende o caçador.O canto da avesinhaFoi nosso amor fatal!E elles... destino igualLhes reservou o amor!SCENA VI.Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena, onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte inscripção:==Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415 annos.==É noite.D. DUARTE.Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.Viste-los vós?...SOBREROLDA.Jura-loPosso. Dous cavalleiros:Negras armas: cavalloNegro ambos. LigeirosVoam... Ouví!...D. Duarte chega ás ameias escutando.Ao largoAinda soa o tropel.D. DUARTE.Áparte com afflição e despeito.Oh pensamento amargo!Oh receiar cruel!Ao sobrerolda.E os homens d'armas?SOBREROLDA.Velam:Não falta um só.Escutando para a campanha.Ao seu correr, que anhelamVoltar antes do dia.D. DUARTE.Não mais...Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.Para a barreiraCem lanças o adailConduza: da dianteiraTodos; que valem mil!E eu lá serei em breve:E elles hão-de seguir-me.Sabe-lo elrei não deve.Ai do que ousar trahir-me!O sobrerolda sai.Sob o seu gesto candidoO engano se escondia!Era uma idéa perfidaQue na alma lhes surgia,Quando de Ceuta as portasJuravam não transpôr!Creram que a noite lobregaSeu crime esconderia!Perante o céu, oh miseros,Que importa a noite, o dia,Se de ira se ha turbadoA face do Senhor?Pausa: com terror.Mas se a suprema cóleraTerrivel já descesse!...Se, em vez do goso vívido,A morte os acolhesse!...Erguendo as mãos.Meu Deus perdoa aos tristes;Cede á fraterna dor!Oh minha mãe, da placidaMorada da ventura,Guia-me os passos tremulosPor esta noite escura,Para salvar teus filhos,Filhos de tanto amor!SCENA VII.A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da esquerda.LOBNA.No seu rapido gyro foge a noiteLigeira e socegada:Fulgor da madrugadaEm poucas horas subirá d'oriente.Não poderam voltar!... Respiro...HALEVA.Aproximando-se da gelosia.Escuta!Ouviste um silvo agudo?É o signal!...LOBNA.Eu tremo...Porém não... Quedo é tudo;Salvo um ruído sussurrando ao perto,De almogavar talvez...HALEVA.De dous ginetesO tropeiar parece... Elles!... São elles!Sobre trajos de ferro espadas tinem!Não ha que duvidar...LOBNA.Oh! desfalleço!Ouve-se um sibillo já perto.HALEVA.
«Vive, oh triste,
Esquecido do mundo, e esquece o mundo!Nas solidões profundas da tua alma,Vazia das paixões que a assassinaram,Some os cantos que della transudavamPara correr n'um seculo sem vida,Sem virtude e sem fé, e em que desabamAs crenças todas do passado, e é sonhoA constancia e o amor.»
Palavras estas
Extremas foram do proscripto. Longe,Em praia estranha abandonando a barca,Qual o seu fado foi ninguem mais soube.
Quando o Senhor enviaO trovador ao mundo,Faz devorar a essa almaFel amargoso e immundo;Porque lhe diz:—Poeta,Vai conhecer a terra;Prova dos seus deleites;Prova do mal que encerra.Desses e deste esgotaAs taças muitas vezes,Embora de uma e d'outraAches no fundo fézes:E quando bem souberesQue tudo é sonho vão;Que é nada a dor e o goso,Sólta o teu hymno então.»E o pobre desterradoVem seu mister cumprir.Nasce: homens e universo,Tudo lhe vê sorrir;E o seu balbuciarUm canto é d'innocencia:Mas outro foi seu fado;Guia-o a providencia.É cherubim precítoQu' inda entrevê o céu,Mas através da vida,Mas através de um véu.Em turbilhão d'affectos,Seu íntimo viverRapido lhe devoraSperança, amor e crer.Do goso nos deliriosDebalde busca o amor;Saudade melancholicaPede debalde á dor.Depois, desanimado,Pára a pensar em si,Acha no seio um ermo,E tristemente ri.É desde aquelle instanteDe um acordar atroz,Que ao condemnado lembraDo que o mandou a voz.Então entende e cumpreSeu barbaro destino;Então é que elle aprendeA modular um hymno.Virgem, ao que assim passaPor meio do existir,Calcando os frios restosDo crer e do sentir,Não peças te reveleSua alma na poesia,E dê aos pensamentosO encanto da harmonia;Porque lá, nesse abysmo,Não resta uma illusão:Só ha perpetua noite,E injuria e maldicção.Não entenderas, virgemAinda innocente e pura,O canto que surgiraDessa alma gasta e escura.Deixa-o seguir seu norte,Cumprir missão cruel;Deixa-o verter o escarneo;Deixa-o verter o fel;Deixa-o cuspir em facesOnde não ha pudor,E ao mundo, ebrio de si,Rindo ensinar a dor.As sanctas harmoniasDe cantico innocenteSabe-as o alvor do diaQuando rompe do oriente;Murmura-as o regato;Vibra-as o rouxinol;Vem no zumbir do insecto,No prado, ao pôr do sol;Vivem no puro affectoDa filial piedade,Nos sonhos e esperançasDa juvenil idade.Esta poesia é tua:Eu já a ouvi e amei;Mas hoje nem a entendo,Nem repeti-la sei.Assim, meu nome sóEscreverei aqui;Som vão, intelligivelApenas para ti;Extincto candelabroDo templo do Senhor,Que por algumas horasDeu luz, teve calor;Lenda de sepultura,Que fala em gloria e vida,E esconde ossada infectaDos vermes corroída;Pinheiro solitario,Que o raio fulminou,E que gemeu tombando,E não mais murmurou.
Era bello esse tempo da vida,Em que esta harpa falava de amores:Era bello quando o estro accendiamEm minha alma da guerra os terrores.Nesse tempo o balouço das vagasMe era grato, qual berço da infancia;E o sibillo da bala harmoniaSemelhante á de flauta em distancia.Eu corri pelos campos da gloria,D'entre o sangue colhendo uma palma,Para um dia a depor aos pés dessaQue reinou largo tempo nesta alma.Mas qual ha coração de donzella,Que responda a um suspiro de amor,Quando vibra nas cordas sonorasDo alaúde de pobre cantor?Triste o dom do poeta!—No seioTem volcão que as entranhas lhe accende;E a mulher que vestiu de seus sonhosNem sequer um olhar lhe compr'hende!E trahido, e passado de angustias,Ao amor este peito cerrara,E, quebrada, no tronco do cedroA minha harpa infeliz pendurara.Um véu negro cubriu-me a existencia,Que gelada, que inutil corria;Meu engenho tornou-se um mysterioQue ninguem neste mundo entendia.E embrenhei-me por entre os deleites;Mas tocando-o, fugia-me o goso;Se o colhia, durava um momento;Após vinha o remorso amargoso.Esqueci-me do Deus que adorara;O prestigio da gloria passou;E a minha alma, vazia de affectos,No limiar do porvir se assentou:Meus pulmões arquejaram com ancia,Buscando ar na amplidão do futuro,E sómente encontraram, por trévas,De sepulchros um halito impuro.Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;Eu te achei, oh milagre de amor!Outra vez vibrará um suspiroNo alaúde do pobre cantor.Eras tu, eras tu que eu sonhava;Eras tu quem eu já adorei,Quando aos pés de mulher enganosaMeu alento em canções derramei.Se na terra este amor de poetaCoração ha que o possa pagar,Serás tu, virgem pura dos campos,Quem virá a minha harpa acordarComo a luz duvidosa da tarde,Quando o sol leva ao mar mais um dia,Reverbera poesia e saudadeNa alma immensa de um rei da harmonia;Tal poesia e saudade em torrentesNo teu meigo sorrir eu aspiro,E no olhar que me lanças a furto,E no encanto de um mudo suspiro,Para mim és tu hoje o universo:Soa em vão o bulicio do mundo;Que este existe sómente onde existes:Tudo o mais é um ermo profundo.No silencio do amor, da ventura,Adorando-te, oh filha dos céus,Eu direi ao Senhor:—tu m'a déste:Em ti creio por ella, oh meu Deus!»
O infante D. Duarte.O Infante D. Pedro.O Infante D. Henrique.Gulnar, filha do wali de Ceuta.Lobna, escrava.Haleva, escrava.Um pagem.Um sobrerolda.Côro de cavalleiros portugueses.Côro de cavalleiros mouros.Côro de escravas, e de eunuchos negros.
Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. Duarte pára, cruza os braços e contemplapor um instante os cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o principe.
Eia pois, cavalleiros! Breve os maresCruzaremos de novo além do Estreito!Os inimigos timidos refogemDa conquistada Ceuta.Pelas campinas pallidas, ao longe,Das altas torres espraiando os olhos,Não se vê alvejar lá no horisonteUm albornoz mourisco.Folgue o que volta á patria enriquecidoPela ganhada gloria: folgue aquelleA quem coube o desterro entre estes muros,Por conservar erguidaSobre a mesquita a cruz, sobre as ameiasO estandarte real: morrendo, é martyr:Seu nome eterno viverá na historia.Folgae, meus cavalleiros!
Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,Para o velho homem d'armas d'elrei,Que ha trinta annos nos diz:—combatei!»Sem jámais a armadura largar!Sob o forro do elmo pulidoNossa fronte, senhor, se enrugou,E estes peitos robustos quebrouDos arnezes continuo pesar!
Bem vinda a horaEm que voltemos,E emfim saudemosO nosso lar;Em que possamosNo patrio rioO sol do estioVer scintillar;E, dos sinceirosEntre a espessura,Da guerra duraIr repousar!
Parti vós, cavalleiros:A Portugal tornae;E o nosso nome ás bellas
DonzellasLembrae!
Dizei-lhes que, se ás lidesVotámos peito e braços,Por ellas suspiramos,
E amamosSeus laços;
E que destes labiosPalavra amorosaPor moura formosaJámais sairá.Opprobrio e vergonhaAo que as esquecer!Infamia ao que arderPor filha d'Allah!
D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio dos cavalleiros.
Infamia, dizeis vós?
Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente da scena.
Por Deus, calae-vos!
Ignoram vosso amor esses guerreiros.Da patria elles falavam:Não a trahir juravam.E vós? Vós que sois filhosD'elrei de Portugal; vós, cavalleiros,Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,Vosso nome manchastesCom um affecto ignobil...
Que ousaes dizer, senhor!
Sim, ignobil affecto! Amor geradoEntre rios de sangue, ao lampejaremCruzados ferros, no aduar mouriscoÁ viva força entrado.Conduziu-vos, dissestes-me, o combateA suberbo palacio. Alto repousoEra de morte ahi: seus defensoresTinha-os o ferro português ceifado,Duas mouras formosas,Vencidas do terror, na fuga anciosas,Cahindo a vossos pés pediram vida,Liberdade, honra, e vós...
Assegurámos-lhes
Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhosD'elrei de Portugal, e cavalleiros!Era o nosso dever.
E era-o cederdes
A um amor insensato; o prometterdesPelas nocturnas trévas conduzi-lasÁs naus que vão partir?
Será rouba-lasÁ falsa crença do koran...
Com vehemencia.
E a infamia
Lhes gravareis depois nas frontes puras?Isso é torpe! Isso é vil!
Senhor infante!
Com ardor.
Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alvaA armada partirá.
Com inquietação.
Zombaes?
Ouvi-me!
É o mandado d'elrei...
Dirigindo-se aos cavalleiros.
Meus velhos guerreiros,As armas tomae,E á praia frementeOs passos guiae;Que as náus já fluctuam:Não tarda o partir.Nos mares a auroraVeremos surgir.
Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.
Virgem! Esperança!Estrella do mar,Ouvi nosso orar;Mandae-nos bonança!Salvae-nos, salvae-nos!E á patria levae-nos!
Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.
Á patria levae-nos!...
Guerreiros novéisAs armas vestí,E os muros de CeutaDe lanças cubrí.Bandeira da serpe,Bandeira d'elrei,No alcacer, nas torresGuardae, ou morrei!
Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.
Contentes saudamosOs dias de guerra:Ser dignos da terraDa infancia juramos.O braço não treme!...O peito não teme!...
Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:
O peito não teme!...
Restam bem poucas horas:Salvos estaes infantes!
Sabe um amor immensoHoras fazer de instantes.
Que!? Ousarieis 'inda?...
Nós ousaremos tudo!
Não! Filial piedadeVos servirá d'escudo!
Com gesto supplicante.
Pela memoria sanctaDe nossa mãe querida,Que na feral jazidaTal crime assombrará,Afugentae qual sonhoEsse insensato amor,Que o odio, que o furorDo céu accenderá!
Mas deste amor profundoQuem nos libertará?
Vêde quem sois, e o mundoComo vos julgará!
Duas formosas almasPor nós a fé ganhou.
Antes por vós o sangueDe Aviz se deshonrou.
Entrando apressado.
Principe, elrei vos chama.
Ide; eu vos sigo.
Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe, D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.
Oh meu Pedro, oh meu Henrique,Louco intento abandonaes?!Não passar de Ceuta as portasHoje, aqui, vós me juraes?!
Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro
Senhor, do sceptro herdeiro,Vossos irmãos mandaes...De Ceuta as ferreas portasNão cruzaremos mais!
Basta-me tal promessa!Só mentem desleaes.
Olhando para o principe que sáe, e sorrindo.
A promessa ha-de cumprir-se!Nobre infante, vae seguro!
Com hesitação.
Mas de Ceuta o erguido muroComo além, hoje, transpôr?...
Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.
Vedes vós, lá em baixo, esse vultoAmplo e negro da torre de Fez,Que inda ha pouco o mais forte pavezDo vencido muslim se ostentou?
Vejo; e lembram-me as portas robustasQue a acha d'armas a custo desfez;E que nesse momento se fezUm silencio que instantes durou...
E parámos; e ouvimos ao longeTinir d'armas, correr de corceis,E o confuso bradar d'infiéis,Restrugindo os seus gritos de dor...
Subterraneo caminho os salvavaDas espadas dos nossos fiéis,Quando inuteis alfanges, broqueisLhes tornára profundo terror...
O que ao mouro no trance tremendoDe destino cruento remiu,Esta noite, a quem nunca mentiuDe mentir uma vez salvará.
Com grande jubilo.
Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!Outras portas o amor nos abriu;Nossa estrella dos céus nos sorriu;O caminho, o caminho é por lá!
Noite placida e formosa,Noite grata a um vivo affecto,Para nós no torvo aspectoTe deslisa almo prazer!Bella noite silenciosa,Sê propicia ao nosso intento;Com teu véu cobre o momentoDo partir e do volver!
Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto. No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro de donzellas arabes cantando ao som de harpas.
Dorme, dorme desgraçada!Dorme, filha do wali!Possa o somno sobre tiO consolo derramar.Quando dormes é teu gestoBrando e meigo qual de huri;Mas vingança nelle riFerozmente ao despertar.
Erguendo-se lentamente.
Oh, como é doce o som de vossas harpas,Desterradas de Ceuta!.. AdormecestesUm pouco minha dor. Senti correremDestes olhos as lagrymas... Ai! breve,Repentino terror veio enxuga-las.Meu pae... Que diz Levi?
Oh Deus!
Entendo:
Não tenho que esperar?..
Delira. Golfa o sangueDa profunda ferida,Por onde foge a vidaDo inerte corpo exangue.
Com gesto ameaçador, e erguendo-se.
Oh, basta! Inulto,
Senhor de Ceuta, em cemiterio estranhoNão dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura!Lobna e Haleva onde estão?
Entrando apressadamente assustadas.
Eis-nos, princesa!
Os espias voltaram: tumultuandoNa marinha de Ceuta homens, ginetes,Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,Proas á terra: o esquife após o esquifeEntre a praia e as galés cruzando as ondas;Tudo do amir christão mostra a partida.
O tigre português volta ao seu antro!Mas Ceuta...
Com amargura.
Profanada e serva és Ceuta!
O que te amou qual pae jaz moribundoNo seu leito de dor. Foi por salvar-tePérola rica do Moghreb. InutilO sangue se verteu! Oh, sem vingançaNão ficaremos nós: nós ambas orphans,Eu desterrada e tu escrava. O nobreTeu senhor e meu pae, talvez, da auroraNão veja mais a luz. Mas trema o feroAmir de Portugal! Gulnar, a filhaDo vencido wali, ha-de vinga-lo.Lobna e Haleva esta noite...
Hesitando.
E quem vos disse
Que elles hão-de voltar?..
O juramento:
O juramento seu!.. Já não sois servas,Bellas filhas do Caucaso; sois sociasDa implacavel Gulnar. A vós a gloriaDe tornar mais cruel su' hora extrema.Quanto ardente paixão tem de ternuraQuantas fascinações ha no amor virgem:Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,O pranto, o resistir tem de delirio;Tudo, tudo empregae! Raio de morte,Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.
Erguendo as mãos.
Escuta, emfim, meu pranto,Dos impios vencedor:Manda, propheta sancto,O anjo exterminador.Chore a roubada proleO português amir:Que o sangue me consoleAntes de o sol surgir.Cercae-os vós de goso:Sintam que é bom viver:Será mais horrorosoMeu brado:—Ide morrer!»Vem, oh terrivel hora,Hora do meu folgar,Hora em que vingadoraTriumphará Gulnar.
Dirigindo-se ao côro.
Ide; patente
Do alcacer seja o ádito: silencioProfundo reine em toda a parte: os gritosDos moribundos só... hão-de quebra-lo!Vingança a Bensalá.
Vingança á patria!
A Haleva e Lobna com gesto terrivel.
Em breve me vereis!...
Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois correm a lançar-se nos braços uma da outra.
Ai, como foi mesquinhaA nossa escura sorte!Porque a terrivel morteOs tristes conduzir?
Oh, se Gulnar os víra,De sangue inda banhados,Vencidos, humilhados,A nossos pés cahir!
Que lhes valêra? Sangue,Sangue só quer a hyena:A cólera a aliena:Não póde perdoar!
Haleva, minha Haleva,De susto eu titubeio:Tu imagina o meioDe as victimas salvar.
Miseras! Só nos resta,Em festa sanguinosa,Sob a traidora rosaO aspide esconder.
Que importa a pobre escravaDe susto e de amor trema?Embora chore e gema,Cumpre-lhe obedecer.
Sólta o suave cantoCaptivo rouxinol,Quando o nascente solDerrama seu fulgor;E as aves vem, correndo,Pousar no umbroso til,Onde com arte vilAs prende o caçador.O canto da avesinhaFoi nosso amor fatal!E elles... destino igualLhes reservou o amor!
Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena, onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte inscripção:==Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415 annos.==É noite.
Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.
Viste-los vós?...
Jura-lo
Posso. Dous cavalleiros:Negras armas: cavalloNegro ambos. LigeirosVoam... Ouví!...
D. Duarte chega ás ameias escutando.
Ao largo
Ainda soa o tropel.
Áparte com afflição e despeito.
Oh pensamento amargo!Oh receiar cruel!
Ao sobrerolda.
E os homens d'armas?
Velam:
Não falta um só.
Escutando para a campanha.
Ao seu correr, que anhelamVoltar antes do dia.
Não mais...
Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.
Para a barreira
Cem lanças o adailConduza: da dianteiraTodos; que valem mil!E eu lá serei em breve:E elles hão-de seguir-me.Sabe-lo elrei não deve.Ai do que ousar trahir-me!
O sobrerolda sai.
Sob o seu gesto candidoO engano se escondia!Era uma idéa perfidaQue na alma lhes surgia,Quando de Ceuta as portasJuravam não transpôr!Creram que a noite lobregaSeu crime esconderia!Perante o céu, oh miseros,Que importa a noite, o dia,Se de ira se ha turbadoA face do Senhor?
Pausa: com terror.
Mas se a suprema cóleraTerrivel já descesse!...Se, em vez do goso vívido,A morte os acolhesse!...
Erguendo as mãos.
Meu Deus perdoa aos tristes;Cede á fraterna dor!Oh minha mãe, da placidaMorada da ventura,Guia-me os passos tremulosPor esta noite escura,Para salvar teus filhos,Filhos de tanto amor!
A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da esquerda.
No seu rapido gyro foge a noiteLigeira e socegada:Fulgor da madrugadaEm poucas horas subirá d'oriente.Não poderam voltar!... Respiro...
Aproximando-se da gelosia.
Escuta!
Ouviste um silvo agudo?É o signal!...
Eu tremo...
Porém não... Quedo é tudo;Salvo um ruído sussurrando ao perto,De almogavar talvez...
De dous ginetes
O tropeiar parece... Elles!... São elles!Sobre trajos de ferro espadas tinem!Não ha que duvidar...
Oh! desfalleço!
Ouve-se um sibillo já perto.