POESIASIMPRENSA NACIONALPOESIASPORA. HERCULANOsegunda ediçãoLISBOAEM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOSaos martyres, n.º 73m dccc lxLIVRO PRIMEIROA HARPA DO CRENTE.A SEMANA SANCTA.Der Gedanke Gott weckt einenfurchlerlichen Nachbar auf. SeinName heisst Richter.Schiller.I.Tibio o sol entre as nuvens do occidente,Já lá se inclina ao mar. Grave e solemneVai a hora da tarde!—O oeste passaMudo nos troncos da alameda antiga,Que á voz da primavera os gomos brota:O oeste passa mudo, e cruza o atrioPonteagudo do templo, edificadoPor mãos duras de avós, em monumentoDe uma herança de fé, que nos legaram,A nós seus netos, homens de alto esforço,Que nos rimos da herança, e que insultamosA cruz e o templo e a crença de outras eras;Nós, homens fortes, servos de tyrannos,Que sabemos tão bem rojar seus ferrosSem nos queixar, menosprezando a PatriaE a liberdade, e o combater por ella.Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e esperoNo Deus das almas generosas, puras,E os despotas maldigo.—EntendimentoBronco, lançado em seculo fundidoNa servidão de goso ataviada,Creio que Deus é Deus e os homens livres!II.Oh sim!—rude amador de antigos sonhos,Irei pedir aos tumulos dos velhosReligioso enthusiasmo, e canto novoHei-de tecer, que os homens do futuroEntenderão; um canto escarnecidoPelos filhos dest' epocha mesquinha,Em que vim peregrino a ver o mundo.E chegar a meu termo, e reclinar-meÁ branda sombra de cypreste amigo.III.Passa o vento os do portico da igrejaEsculpidos umbraes: correndo as navesSussurrou, sussurrou entre as columnasDe gothico lavor: no orgam do côroVeiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.IV.Mas porque sôa o vento?—Está deserto,Silencioso ainda o sacro templo:Nenhuma voz humana ainda recordaOs hymnos do Senhor. A naturezaFoi a primeira em celebrar seu nomeNeste dia de lucto e de saudade!Trévas da quarta feira eu vos saúdo!Negras paredes, mudos monumentosDe todas essas orações de mágua,De gratidão, de susto ou de esperança,Depositadas ante vós nos diasDe fervorosa crença, a vós que enluctaA solidão e o dó, venho eu saudar-vos.A loucura da cruz não morreu todaApós dezoito seculos!—Quem choreDo soffrimento o Heroe existe ainda.Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—Pelo Amigo do povo, assassinadoPor tyrannos, e hypocritas, e turbasEnvilecidas, barbaras, e servas.V.Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,D'onde mergulhas no oceano a vista;Tu que do trovador á mente arrojasQuanto ha nos céus esperançoso e bello,Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,Quanto ha nos mares magestoso e vago,Hoje te invoco!—oh vem!—lança em minha almaA harmonia celeste e o fogo e o genio,Que dêm vida e vigor a um carme pio.VI.A noite escura desce: o sol de todoNos mares se atufou. A luz dos mortos,Dos brandões o clarão, fulgura ao longeNo cruzeiro sómente e em volta da ara:E pelas naves começou ruídoDe compassado andar. Fiéis acodemÁ morada de Deus, a ouvir queixumesDo vate de Sião. Em breve os monges,Suspirosas canções aos céus erguendo,Sua voz unirão á voz desse orgam,E os sons e os ecchos reboarão no templo.Mudo o côro depois, neste recinctoDentro em bem pouco reinará silencio,O silencio dos tumulos, e as trévasCubrirão por esta área a luz escaçaDespedida das lampadas, que pendemAnte os altares, bruxuleando frouxas.Imagem da existencia!—Em quanto passamOs dias infantis, as paixões tuas,Homem, qual então és, são debeis todas.Cresceste:—ei-las torrente, em cujo dorsoSobrenadam a dôr e o pranto e o longoGemido do remorso, a qual lançar-seVai com rouco estridor no antro da morte,Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.Da vida tua instantes florescentesForam dous, e não mais: as cans e rugas,Logo, rebate de teu fim te deram.Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,Murmurou, esqueceu, passou no espaço.E a casa do Senhor ergueu-se.—O ferroCortou a penedia; e o canto enormePulído alveja alli no espesso pannoDo muro colossal, que éra após éra,Como onda e onda ao desdobrar na areia,Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.O ulmo e o choupo no cahir rangeramSob o machado: a trave affeiçoou-se;Lá no cimo pousou: restruge ao longeDe martellos fragor, e eis ergue o templo,Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.Homem, do que és capaz! Tu, cujo alentoSe esvái, como da cerva a leve pistaNo pó se apaga ao respirar da tarde,Do seio dessa terra, em que és estranho,Sair fazes as moles seculares,Que por ti, morto, falem; dás na idéaEterna duração ás obras tuas.Tua alma é immortal, e a prova a déste!VII.Anoiteceu.—Nos claustros resoandoAs pisadas dos monges ouço: eis entram;Eis se curvaram para o chão, beijandoO pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!Igual vos cubrirá a cinza um dia,Talvez em breve—e a mim. Consolo ao mortoÉ a pedra do tumulo. Sê-lo-hiaMais, se do justo só a herança fòra;Mas tambem ao malvado é dada a campa.E o criminoso dormirá quietoEntre os bons sotterrado?—Oh não! Em quantoNo templo ondeiam silenciosas turbas,Exultarão do abysmo os moradores,Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,Que escarnece do Eterno, e a si se engana;Vendo o que julga que orações apagamVicios e crimes, e o motejo e o risoDado em resposta ás lagrymas do pobre;Vendo os que nunca ao infeliz disseramDe consolo palavra ou de esperança.Sim:—malvados tambem hão-de pisar-lhesOs frios restos que separa a terra,Um punhado de terra, a qual os ossosDestes ha-de cubrir em tempo breve,Como cubriu os seus; qual vai sumindoNo segredo da campa a humana raça.VIII.Eis que a turba rareia. Ermam bem poucosDo templo na amplidão: só lá no escuroDe afumada capella o justo as precesErgue pio ao Senhor, as preces purasDe um coração que espera, e não mentidasDe labios de impostor, que engana os homensCom seu meneio hypocrita, calandoNa alma lodosa da blasphemia o grito.Então exultarão os bons, e o ímpio,Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,Da voz, do respirar o som confusoVem confundir-se no ferver das praças,E pela galilé só ruge o vento.Em trévas não ficou silenciosasO sagrado recincto: os candieiros,No gelado ambiente ardendo a custo,Espalham debeis raios, que reflectemDas pedras pela alvura; o negro mocho,Companheiro do morto, horrido pioSolta lá da cornija: pelas fendasDos sepulchros deslisa fumo espesso;Ondeia pela nave, e esvái-se. LongoSuspirar não se ouviu?—Olhae! lá se erguem.Sacudindo o sudario, em peso os mortos!Mortos, quem vos chamou? O som da tubaAinda do Josaphat não fere os valles.Dormí, dormí: deixae passar as eras...IX.Mas foi uma visão: foi como scenaD'imaginar febril. Creou-se, acaso,Do poeta na mente, ou desvendou-lheA mão de Deus o íntimo ver da alma,Que devassa a existencia mysteriosaDo mundo dos espiritos? Quem sabe?Dos vivos ja deserta, a igreja torvaRepovoou-se, para mim ao menos,Dos extinctos, que ao pé das sanctas arasLeito commum na somnolencia extremaBuscaram. O terror, que arreda o homemDo limiar do templo ás horas mortas,Não vem de crença van. Se fulgem astros,Se a luz da lua estira a sombra eternaDa cruz gigante (que campeia erguidaNo vertice do timpano, ou no cimoDo corucheu do campanario) ao longoDos inclinados tectos, afastae-vos!Afastae-vos d'aqui, onde se passamÁ meia-noite insolitos mysterios;D'aqui, onde desperta a voz do archanjoOs dormentes da morte; onde reuneO que foi forte e o que foi fraco, o pobreE o opulento, o orgulhoso e o humilde,O bom e o mau, o ignorante e o sabio,Quantos, emfim, depositar vieramJuncto do altar o que era seu no mundo,Um corpo nú, e corrompido e inerte.X.E seguia a visão.—Cria ainda achar-me,Alta noite, na igreja solitariaEntre os mortos, que, erectos sobre as campas,Eram ha pouco um fumo que ondeiavaPelas fisgas do vasto pavimento.Olhei. Do erguido tecto o panno espessoRareava; rareava-me ante os olhos,Como tenue cendal; mais tenue ainda,Como o vapor de outono em quarto d'alva,Que se libra no espaço antes que desçaA consolar as plantas conglobadoEm matutino orvalho. O firmamentoEra profundo e amplo. Involto em gloria,Sobre vagas de nuvens, rodeiadoDas legiões do céu, o Ancião dos dias,O Sancto, o Deus descia. Ao summo acenoParava o tempo, a immensidade, a vidaDos mundos a escutar. Era esta a horaDo julgamento desses que se alçavamÁ voz de cima sobre as sepulturas?XI.Era ainda a visão,—Do templo em meioDo anjo da morte a espada flammejanteCrepitando bateu. Bem como insectos,Que á flôr de pego pantanoso e tristeSe balouçavam—quando a tempestadeVeiu as azas molhar nas aguas turvas,Que marulhando sussurraram—surgemVolteando, zumbindo em dança douda,E lassos, vão pousar em longas filasNas margens do paul, de um lado e de outro;Tal o murmurio e a agitação incertaCiciava das sombras remoinhandoAnte o sopro de Deus. As melodiasDos córos celestiaes, longinquas, frouxas,Com frémito infernal se misturavamEm cahos de dôr e jubilo.Dos mortosParava, emfim, o vortice enredado;E os grupos vagos em distinctas turmasSe enfileiravam de uma parte e de outra.Depois, o gladio do anjo entre os dous bandosFicou, unica luz, que se estiravaDesde o cruzeiro ao portico, e feríaDe reflexo vermelho os largos pannosDas paredes de marmore, bem comoMar de sangue, onde inertes fluctuassemDe humanos vultos indecisas fórmas.XII.E seguia a visão.—Do templo á esquerda,Méstas as faces, inclinada a fronte,Da noite as larvas tinham sobre o sóloFito o espantado olhar, e as dilatadasBaças pupillas lhes tingia o susto.Mas, como zona lucida de estrellas,Nessa atmosphera crassa e afogueadaPela espada rubente, refulgiamDa direita os espiritos, banhadoDe inenarravel placidez seu gesto.Era inteiro o silencio, e no silencioUma voz resoou—Eleitos vinde!—Ide precítos!»—Vacillava a terra,E ajoelhando eu me curvei tremendo.XIII.Quando me ergui e olhei, no céu profundoUm rastilho de luz pura e serenaSe ia embebendo nesses mares de orbesInfinitos, perdidos no infinito,A que chamâmos o universo. Um hymnoDe saudade e de amor, quasi inaudivelParecia romper desde as alturasDe tempo a tempo. Vinha como involtoNas lufadas do vento, até perder-seEm socego mortal.O curvo tectoDo templo, então, se condensou de novo,E para a terra o meu olhar volveu-se.Da direita os espiritos radiososJá não estavam lá. Chispando a espaços,Qual o ferro na incude, a espada do anjoO mortiço rubor mandava, apenas,D'aurora boreal quando se extingue.XIV.Proseguia a visão.—Da esquerda ás sombrasAnciava o seio a dôr: tinham no gestoImpressa a maldicção, que lhes seccáraEternamente a seiva da esperança.Como se vê, em noite estiva e negra,Scintillar sobre as aguas a ardentia,D'umas frontes ás outras vagueiavamCeruleos lumes no esquadrão dos mortos,E ao estalar das lousas, grito immensoSubterraneo, abafado e delirante,Ineffavel compendio de agonias,Misturado se ouviu com rir do inferno,E a visão se desfez. Era ermo o templo:E despertei do pesadelo em trevas.XV.Era loucura ou sonho? Entre as tristezasE os terrores e angustias, que resumeNeste dia e logar a avita crença,Irresistivel força arrebatou-meDa sepultura a devassar segredos,Para dizer:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—A justiça de Deus visita os mortos,Embora a cruz da redempção protejaA pedra tumular; embora a hostiaDo sacrificio o sacerdote eleveSobre as vizinhas aras. Quando a igrejaRodeiam trevas, solidão e medos,Que a resguardam co'as asas acurvadasDa vista do que vive, a mão do EternoSepara o joio do bom grão, e arrojaPara os abysmos a ruim semente.XVI.Não!—não foi sonho vão, vago delirioDe imaginar ardente. Eu fui levado,Galgando além do tempo, ás tardas horas,Em que se passam scenas de mysterio,Para dizer:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—Vejo ainda o que vi: da sepulturaAinda o halito frio me enregelaO suor do pavor na fronte; o sangueHesita immoto nas inertes veias;E embora os labios murmurar não ousem,Ainda, incessante, me repete na almaÍntima voz:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—XVII.Mas troa a voz do monge, e, emfim, despertoO coração bateu. Eia, retumbemPelos ecchos do templo os sons dos psalmos,Que em dia de afflicção ignoto vateTeceu, banhado em dôr. Talvez foi elleO primeiro cantor que em varias córdas,Á sombra das palmeiras da Iduméa,Soube entoar melodioso um hymno.Deus inspirava então os trovadoresDo seu povo querido, e a Palestina,Rica dos meigos dons da natureza,Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.Virgem o genio ainda, o estro puroLouvava Deus sómente, á luz da aurora,E ao esconder-se o sol entre as montanhasDe Bethoron.—Agora o genio é mortoPara o Senhor, e os cantos dissolutosDe lodoso folguedo os ares rompem,Ou sussurram por paços de tyrannos,Assellados de putrida lisonja,Por preço vil, como o cantor que os tece.XVIII.O PSALMO.Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chegaO seu poder immenso!Elle abaixou os céus, desceu, calcandoUm nevoeiro denso.Dos cherubins nas asas radiosasLibrando-se, voou;E sobre turbilhões de rijo ventoO mundo rodeiou.Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,E os mares assustadosBramem ao longe, e os montes lançam fumo,Da sua mão tocados.Se pensou no Universo, ei-lo patenteAnte a face do Eterno:Se o quiz, o firmamento os seios abre,Abre os seios o inferno.Dos olhos do Senhor, homem, se pódes,Esconde-te um momento:Vê onde encontrarás logar que fiqueDa sua vista isento:Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo,Lá teu Deus has-de achar;Elle te guiará, e a dextra suaLá te ha-de sustentar:Desce á sombra da noite, e no seu mantoInvolver-te procura...Mas as trévas para elle não são trévas.Nem é a noite escura.No dia do furor, em vão buscárasFugir ante o Deus forte,Quando do arco tremendo, irado, impelleSetta em que pousa a morte.Mas o que o teme dormirá tranquilloNo dia extremo seu,Quando na campa se rasgar da vidaDas illusões o véu.XIX.Calou-se o monge: sepulchral silencioÁ sua voz seguiu-se. Uma toadaDe orgam rompeu do côro. AssemelhavaO suspiro saudoso, e os ais de filha,Que chora solitaria o pae, que dormeSeu ultimo, profundo e eterno somno.Melodias depois soltou mais docesO severo instrumento: e ergueu-se o canto,O doloroso canto do propheta,Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,Sentado entre ruinas, contemplandoSeu avito esplendor, seu mal presente,A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,Modulando o Nebel, via-se o vateNos derribados porticos, abrigoDo immundo stellio e gemedora poupa,Extasiado—e a lua scintillandoNa sua calva fronte, onde pesavamAnnos e annos de dôr. Ao venerandoNas encovadas faces fundos regosTinham aberto as lagrymas. Ao longe,Nas margens do Kedron, a ran grasnandoQuebrava a paz dos tumulos. Que tumuloEra Sião!—o vasto cemiterioDos fortes de Israel. Mais venturososQue seus irmãos, morreram pela patria;A patria os sepultou dentro em seu seio.Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,Passam de escravos miseranda vida,Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,A dextra lhe vergou. Não mais no temploA nuvem repousára, e os céus de bronzeDos prophetas aos rogos se amostravam.O vate de Anathot a voz soltáraEntre o povo infiel, de Eloha em nome:Ameaças, promessas, tudo inutil;De bronze os corações não se dobraram.Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonhoJerusalem passou: sua grandezaSómente existe em derrocadas pedras.O vate de Anathot, sobre seus restos,Com triste canto deplorou a patria.Hymno de morte alçou: da noite as larvasO som lhe ouviram: squallido esqueleto,Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgosDo portico do templo erguia um pouco,Alvejando, a caveira.—Era-lhe allivioDo sagrado cantor a voz suaveDesferida ao luar, triste, no meioDa vasta solidão que o circumdava.O propheta gemeu: não era o estro,Ou o vívido jubilo que outr'oraInspirára Moysés: o sentimentoFoi sim pungente de silencio e morte,Que da patria lhe fez sobre o cadaverA elegia da noite erguer e o prantoDerramar da esperança e da saudade.XX.A LAMENTAÇÃO.Como assim jaz e solitaria e quèdaEsta cidade outr'ora populosa!Qual viuva ficou e tributariaA senhora das gentes.Chorou durante a noite; em pranto as faces,Sósinha, entregue á dôr, nas penas suasNinguem a consolou: os mais queridosContrarios se tornaram.Ermas as praças de Sião e as ruas,Cobre-as a verde relva: os sacerdotesGemem; as virgens pallidas suspiramInvoltas na amargura.Dos filhos de Israel nas cavas facesEstá pintada a macilenta fome;Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,Um pão de infamia eivado.O tremulo ancião, de longe, os olhosVolve a Jerusalem, della fugindo;Vê-a, suspira, cahe, e em breve expiraCom seu nome nos labios.Que horror!—ímpias as mães os tenros filhosDespedaçaram: barbaras quaes tigres,Os sanguinosos membros palpitantesNo ventre sepultaram.Deus, compassivo olhar volve a nós tristes:Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,Servos de servos em paiz estranho.Tem dó de nossos males!Acaso serás Tu sempre inflexivel?Esqueceste de todo a nação tua?O pranto dos hebreus não Te commove?És surdo a seus lamentos?XXI.Doce era a voz do velho: o som do NabloSonoro: o céu sereno: clara a terraPelo brando fulgor do astro da noite:E o propheta parou. Erguidos tinhaOs olhos para o céu, onde buscavaUm raio de esperança e de conforto:E elle calára já, e ainda os ecchos,Entre as ruinas sussurrando, ao longeÍam os sons levar de seus queixumes.XXII.Choro piedoso, o choro consagradoÁs desditas dos seus. Honra ao propheta!Oh margens do Jordão, paiz formosoQue fostes e não sois, tambem suspiroCondoído vos dou.—Assim fenecemImperios, reinos, solidões tornados!...Não:—nenhum deste modo: o peregrinoPára em Palmyra e pensa. O braço do homemA sacudiu á terra, e fez dormissemO seu ultimo somno os filhos della—E elle o veio dormir pouco mais longe...Mas se chega a Sião treme, enxergandoSeus lacerados restos. Pelas pedras,Aqui e alli dispersas, ainda escriptaParece ver-se uma inscripção de agouros,Bem como aquella que aterrou um ímpioQuando, no meio de ruidosa festa,Blasphemava dos céus, e mão ignotaO dia extremo lhe apontou dos crimes.A maldicção do Eterno está vibradaSobre Jerusalem!—Quanto é terrivelA vingança de Deus! O Israelita,Sem patria e sem abrigo, vagabundo,Ódio dos homens, neste mundo arrastaUma existencia mais cruel que a morte,E que vem terminar a morte e inferno.Desgraçada nação!—Aquelle soloOnde manava o mel, onde o carvalho,O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,Tão grato á vista, em bosques misturavam;Onde o lyrio e a cecem nos prados tinhamCrescimento espontaneo entre as roseiras,Hoje, campo de lagrymas, só criaHumilde musgo de escalvados cerros.XXIII.Ide vós a Mambré.—Lá, bem no meioDe um valle, outr'ora de verdura ameno,Erguia-se um carvalho magestoso.Debaixo de seus ramos largos diasAbrahão repousou. Na primaveraVinham os moços adornar-lhe o troncoDe capellas cheirosas de boninas,E coreias gentis traçar-lhe em roda.Nasceu com o orbe a planta veneravel,Viu passar gerações, julgou seu diaFinal fosse o do mundo, e quando airosaPor entre as densas nuvens se elevava,Mandou o Nume aos aquilões rugissem,Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosquesServiu de pasto aos tragadores vermes.Deus estendeu a mão:—no mesmo instanteA vinha se mirrou: juncto aos ribeirosDa Palestina os platanos frondososNão mais cresceram, como d'antes, bellos:O armento, em vez de relva, achou nos pradosSómente ingratas, espinhosas urzes.No Golgotha plantada, a Cruz clamára—Justiça!»—A tal clamor horrido espectroNo Moriá surgiu. Era seu nomeAssolação.—E despregando um grito,Cahiu com longo som de um povo a campa.Assim a herança de Judá, outr'oraGrata ao Senhor, existe só nos ecchosDo tempo que já foi, e que ha passadoComo hora de prazer entre desditas.....................................................XXIV.Minha Patria onde existe?É lá sómente!Oh lembrança da Patria acabrunhadaUm suspiro tambem tu me has pedido;Um suspiro arrancado aos seios d'almaPela offuscada gloria, e pelos crimesDos homens que ora são, e pelo opprobrioDa mais illustre das nações da terra!A minha triste Patria era tão bella,E forte, e virtuosa! e ora o guerreiroE o sabio e o homem bom acolá dormem,Acolá, nos sepulchros esquecidos,Que a seus netos infames nada contamDa antiga honra e pudor e eternos feitos.O escravo português agrilhoadoCarcomir-se lhes deixa juncto ás lousasOs decepados troncos desse arbusto,Por mãos delles plantado á liberdade,E por tyrannos derribado em breve,Quando patrias virtudes se acabaram,Como um sonho da infancia!...O vil escravo,Immerso em vicios, em bruteza e infamia,Não erguerá os macerados olhosPara esses troncos, que destroem vermesSobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,Não surgirá jámais?—Não ha na terraCoração português, que mande um bradoDe maldicção atroz, que vá cravar-seNa vigilia e no somno dos tyrannos,E envenenar-lhes o prazer por noitesDe vil prostituição, e em seus banquetesDe embriaguez lançar fel e amarguras?Não!—Bem como um cadaver já corrupto,A nação se dissolve: e em seu lethargoO povo, involto na miseria, dorme.XXV.Oh, talvez, como o vate, ainda algum diaTerei de erguer á Patria hymno de morte,Sobre seus mudos restos vagueiando!Sobre seus restos?—Nunca! Eterno, escutaMinhas preces e lagrymas:—se em breve,Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;Se o anjo do exterminio ha-de risca-laDo meio das nações, que d'entre os vivosRisque tambem meu nome, e não me deixeNa terra vagueiar, orpham de Patria.XXVI.Cessou da noite a grão solemnidadeConsagrada á tristeza, e a memorandasRecordações:—os monges se prostraram,A face unida á pedra. A mim, a todosCorrem dos olhos lagrymas suavesDe compuncção. Atheu, entra no templo;Não temas esse Deus, que os labios negam,E o coração confessa. A corda do arcoDa vingança, em que a morte se debruça,Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.Tu para quem a morte ou vida é fórma,Fórma sómente de mais puro barro,Que nada crês, e em nada esperas, olha,Olha o conforto do christão. Se o calisDa amargura a provar os céus lhe deram,Elle se consolou: balsamo sanctoPiedosa fé no coração lhe verte.—«Deus compaixão terá!—Eis seu gemido:Porque a esperança lhe sussurra em torno:—Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»Atheu, a quem o mal fizera escravo,Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?No dia da afflicção emmudecesteAnte o espectro do mal. E a quem alçárasO gemente clamor?—Ao mar, que as ondasNão altera por ti?—Ao ar, que somePela sua amplidão as queixas tuas?Aos rochedos alpestres, que não sentem,Nem sentir podem teu gemido inutil?Tua dôr, teu prazer existem, passam,Sem porvir, sem passado, e sem sentido.Nas angustias da vida, o teu consoloO suicidio é só, que te prometteRica messe de goso, a paz do nada!—E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso,No limiar da morte indo assentar-te!Alli grita uma voz no ultimo instanteDo passamento: a voz atterradoraDa consciencia é ella. E has-de escuta-laMau grado teu: e tremerás em sustos,Desesperado aos céus erguendo os olhosIrados, de través, amortecidos;Aos céus, cujo caminho a EternidadeCo'a vagarosa mão te vai cerrando,Para guiar-te á solidão das dôres,Onde maldigas teu primeiro alento,Onde maldigas teu extremo arranco,Onde maldigas a existencia e a morte.XXVII.Calou tudo no templo: o céu é puro,A tempestade ameaçadora dorme.No espaço immenso os astros scintillantesO Rei da creação louvam com hymnos,Não ouvidos por nós nas profundezasDo nosso abysmo. E aos cantos do Universo,Ante milhões de estrellas, que recamamO firmamento, ajunctará seu cantoMesquinho trovador?—Que vale uma harpaMortal no meio da harmonia etherea,No concerto da noite? Oh, no silencio,Eu pequenino verme irei sentar-meAos pés da Cruz nas trévas do meu nada.Assim se apaga a lampada nocturnaAo despontar do sol o alvor primeiro:Por entre a escuridão deu claridade;Mas do dia ao nascer, que já rutíla,As torrentes de luz vertendo ao longe,Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,Nesse fulgido mar, que inunda a terra.A VOZ.É tão suave ess' hora,Em que nos foge o dia,E em que suscita a luaDas ondas a ardentia,Se em alcantis marinhos,Nas rochas assentado,O trovador meditaEm sonhos enleiado!O mar azul se encrespaCo'a vespertina brisa,E no casal da serraA luz ja se divisa.E tudo em roda calaNa praia sinuosa,Salvo o som do remansoQuebrando em furna algosa.Alli folga o poetaNos desvarios seus,E nessa paz que o cércaBemdiz a mão de Deus.Mas despregou seu gritoA alcyone gemente,E nuvem pequeninaErgueu-se no occidente:E sóbe, e cresce, e immensaNos céus negra fluctua,E o vento das procellasJá varre a fraga nua.Turba-se o vasto oceano,Com horrido clamor;Dos vagalhões nas ribasExpira o vão furorE do poeta a fronteCubriu véu de tristeza:Calou, á luz do raio,Seu hymno á natureza.Pela alma lhe vagavaUm negro pensamento,Da alcyone ao gemido,Ao sibillar do vento.Era blasphema idéa,Que triumphava emfim;Mas voz soou ignota,Que lhe dizia assim:—«Cantor, esse queixumeDa nuncia das procellas,E as nuvens, que te roubamMyriadas de estrellas,E o frémito dos euros,E o estourar da vaga,Na praia, que revolve,Na rocha, onde se esmaga,Onde espalhava a brisaSussurro harmonioso,Em quanto do ether puroDescia o sol radioso,Typo da vida do homem,É do universo a vida;Depois do afan repouso,Depois da paz a lida.Se ergueste a Deus um hymnoEm dias de amargura;Se te amostraste gratoNos dias de ventura,Seu nome não maldigasQuando se turba o mar:No Deus, que é pae, confia,Do raio ao scintillar.Elle o mandou: a causaDisso o universo ignora,E mudo está. O nume,Como o universo, adora!»—Oh sim, torva blasphemiaNão manchará seu canto!Brama a procella embora;Pése sobre elle o espanto;Que de sua harpa os hymnosDerramará contenteAos pés de Deus, qual oleoDo nardo recendente.A ARRABIDA.I.Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!Salve, oh patria da paz, deserto sancto,Onde não ruge a grande voz das turbas!Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundoO poeta fugir, cingir-se ao ermo,Qual ao freixo robusto a fragil hera,E a romagem do tumulo cumprindo,Só conhecer, ao despertar na morte,Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,Que íntima voz contínuo nos prometteNo transito chamado o viver do homem.II.Suspira o vento no alamo frondoso;As aves soltam matutino canto;Late o lebreu na encosta, e o mar sussurraDos alcantís na base carcomida:Eis o ruído de ermo!—Ao longe o negro,Insondado oceano, e o céu ceruleoSe abraçam no horisonte.—Immensa imagemDa eternidade e do infinito, salve!III.Oh, como surge magestosa e bella,Com viço da creação, a naturezaNo solitario valle!—E o leve insectoE a relva e os matos e a fragrancia puraDas boninas da encosta estão contandoMil saudades de Deus, que os ha lançado,Com mão profusa, no regaço amenoDa solidão, onde se esconde o justo.E lá campeiam no alto das montanhasOs escalvados pincaros, severos,Quaes guardadores de um logar que é sancto;Atalaias que ao longe o mundo observam,Cerrando até o mar o ultimo abrigoDa crença viva, da oração piedosa,Que se ergue a Deus de labios innocentes.Sobre esta scena o sol verte em torrentesDa manhan o fulgor; a brisa esvaí-sePelos rosmaninhaes, e inclina os toposDo zimbro e alecrineiro, ao rez sentadosDesses thronos de fragas sobrepostas,Que alpestres matas de medronhos vestem;O rocío da noite á branca rosaNo seio derramou frescor suave,E 'inda existencia lhe dará um dia.Formoso ermo do sul, outra vez, salve!IV.Negro, esteril rochedo, que contrastas,Na mudez tua, o placido sussurroDas arvores do valle, que vecejamRicas d'encantos, co' a estação propicia;Suavissimo aroma, que, manandoDas variegadas flores, derramadasNa sinuosa encosta da montanha,Do altar da solidão subindo aos ares,És digno incenso ao Creador erguido;Livres aves, vós filhas da espessura,Que só teceis da natureza os hymnos,O que crê, o cantor, que foi lançado,Estranho ao mundo, no bulicio delle,Vem saudar-vos, sentir um goso puro,Dos homens esquecer paixões e opprobrio,E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.Comvosco eu sou maior; mais longe a mentePelos seios dos céus se immerge livre,E se desprende de mortaes memoriasNa solidão solemne, onde, incessante,Em cada pedra, em cada flor se escutaDo Sempiterno a voz, e vê-se impressaA dextra sua em multiforme quadro.V.Escalvado penedo, que repousasLá no cimo do monte, ameaçandoRuina ao roble secular da encosta,Que somnolento move a coma estivaAnte a aragem do mar, foste formoso;Já te cubriram cespedes virentes;Mas o tempo voou, e nelle involtaA formosura tua. DespedidosDas negras nuvens o chuveiro espessoE o granizo, que o sólo fustigandoTritura a tenra lanceolada relva,Durante largos seculos, no inverno,Dos vendavaes no dorso a ti desceram,Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,Que, maculando virginal pureza,Do pudor varre a aureola celeste,E deixa, em vez de um seraphim na terra,Queimada flor que devorou o raio.VI.Cáveira da montanha, ossada immensa,É tua campa o céu: sepulchro o valleUm dia te será. Quando sentiresRugir com som medonho a terra ao longe,Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,Lançar á praia vagalhões cruzados;Tremer-te a larga base, e sacudir-teDe sobre si, o fundo deste valleTe vai servir de tumulo; e os carvalhosDo mundo primogenitos, e os sobros,Arrastados por ti lá da collina,Comtigo hão-de jazer. De novo a terraTe cubrirá o dorso sinuoso:Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,Do seu puro candor hão-de adornar-te;E tu, ora medonho e nú e triste,Ainda bello serás, vestido e alegre.VII.Mais que o homem feliz!—Quando eu no valleDos tumulos cahir; quando uma pedraOs ossos me esconder, se me fôr dada,Não mais reviverei; não mais meus olhosVerão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,Se em turbilhões de purpura, que ondeiamPelo extremo dos céus sobre o occidente,Vai provar que um Deus ha a estranhos povosE além das ondas trémulo sumir-se;Nem, quando, lá do cimo das montanhas,Com torrentes de luz inunda as veigas:Não mais verei o refulgir da luaNo irrequieto mar, na paz da noite,Por horas em que véla o criminoso,A quem íntima voz rouba o socego,E em que o justo descança, ou, solitario,Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.VIII.Hontem, sentado n'um penhasco, e pertoDas aguas, então quêdas, do oceano,Eu tambem o louvei sem ser um justo:E meditei, e a mente extasiadaDeixei correr pela amplidão das ondas.Como abraço materno era suaveA aragem fresca do cahir das trévas,Emquanto, involta em gloria, a clara luaSumia em seu fulgor milhões d'estrellas.Tudo calado estava: o mar sómenteAs harmonias da creação soltava,Em seu rugido; e o ulmeiro do desertoSe agitava, gemendo e murmurando,Ante o sopro de oeste:—alli dos olhosO pranto me correu sem que o sentisse,E aos pés de Deus se derramou minha alma.IX.
POESIASIMPRENSA NACIONALPOESIASPORA. HERCULANOsegunda ediçãoLISBOAEM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOSaos martyres, n.º 73m dccc lxLIVRO PRIMEIROA HARPA DO CRENTE.A SEMANA SANCTA.Der Gedanke Gott weckt einenfurchlerlichen Nachbar auf. SeinName heisst Richter.Schiller.I.Tibio o sol entre as nuvens do occidente,Já lá se inclina ao mar. Grave e solemneVai a hora da tarde!—O oeste passaMudo nos troncos da alameda antiga,Que á voz da primavera os gomos brota:O oeste passa mudo, e cruza o atrioPonteagudo do templo, edificadoPor mãos duras de avós, em monumentoDe uma herança de fé, que nos legaram,A nós seus netos, homens de alto esforço,Que nos rimos da herança, e que insultamosA cruz e o templo e a crença de outras eras;Nós, homens fortes, servos de tyrannos,Que sabemos tão bem rojar seus ferrosSem nos queixar, menosprezando a PatriaE a liberdade, e o combater por ella.Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e esperoNo Deus das almas generosas, puras,E os despotas maldigo.—EntendimentoBronco, lançado em seculo fundidoNa servidão de goso ataviada,Creio que Deus é Deus e os homens livres!II.Oh sim!—rude amador de antigos sonhos,Irei pedir aos tumulos dos velhosReligioso enthusiasmo, e canto novoHei-de tecer, que os homens do futuroEntenderão; um canto escarnecidoPelos filhos dest' epocha mesquinha,Em que vim peregrino a ver o mundo.E chegar a meu termo, e reclinar-meÁ branda sombra de cypreste amigo.III.Passa o vento os do portico da igrejaEsculpidos umbraes: correndo as navesSussurrou, sussurrou entre as columnasDe gothico lavor: no orgam do côroVeiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.IV.Mas porque sôa o vento?—Está deserto,Silencioso ainda o sacro templo:Nenhuma voz humana ainda recordaOs hymnos do Senhor. A naturezaFoi a primeira em celebrar seu nomeNeste dia de lucto e de saudade!Trévas da quarta feira eu vos saúdo!Negras paredes, mudos monumentosDe todas essas orações de mágua,De gratidão, de susto ou de esperança,Depositadas ante vós nos diasDe fervorosa crença, a vós que enluctaA solidão e o dó, venho eu saudar-vos.A loucura da cruz não morreu todaApós dezoito seculos!—Quem choreDo soffrimento o Heroe existe ainda.Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—Pelo Amigo do povo, assassinadoPor tyrannos, e hypocritas, e turbasEnvilecidas, barbaras, e servas.V.Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,D'onde mergulhas no oceano a vista;Tu que do trovador á mente arrojasQuanto ha nos céus esperançoso e bello,Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,Quanto ha nos mares magestoso e vago,Hoje te invoco!—oh vem!—lança em minha almaA harmonia celeste e o fogo e o genio,Que dêm vida e vigor a um carme pio.VI.A noite escura desce: o sol de todoNos mares se atufou. A luz dos mortos,Dos brandões o clarão, fulgura ao longeNo cruzeiro sómente e em volta da ara:E pelas naves começou ruídoDe compassado andar. Fiéis acodemÁ morada de Deus, a ouvir queixumesDo vate de Sião. Em breve os monges,Suspirosas canções aos céus erguendo,Sua voz unirão á voz desse orgam,E os sons e os ecchos reboarão no templo.Mudo o côro depois, neste recinctoDentro em bem pouco reinará silencio,O silencio dos tumulos, e as trévasCubrirão por esta área a luz escaçaDespedida das lampadas, que pendemAnte os altares, bruxuleando frouxas.Imagem da existencia!—Em quanto passamOs dias infantis, as paixões tuas,Homem, qual então és, são debeis todas.Cresceste:—ei-las torrente, em cujo dorsoSobrenadam a dôr e o pranto e o longoGemido do remorso, a qual lançar-seVai com rouco estridor no antro da morte,Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.Da vida tua instantes florescentesForam dous, e não mais: as cans e rugas,Logo, rebate de teu fim te deram.Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,Murmurou, esqueceu, passou no espaço.E a casa do Senhor ergueu-se.—O ferroCortou a penedia; e o canto enormePulído alveja alli no espesso pannoDo muro colossal, que éra após éra,Como onda e onda ao desdobrar na areia,Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.O ulmo e o choupo no cahir rangeramSob o machado: a trave affeiçoou-se;Lá no cimo pousou: restruge ao longeDe martellos fragor, e eis ergue o templo,Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.Homem, do que és capaz! Tu, cujo alentoSe esvái, como da cerva a leve pistaNo pó se apaga ao respirar da tarde,Do seio dessa terra, em que és estranho,Sair fazes as moles seculares,Que por ti, morto, falem; dás na idéaEterna duração ás obras tuas.Tua alma é immortal, e a prova a déste!VII.Anoiteceu.—Nos claustros resoandoAs pisadas dos monges ouço: eis entram;Eis se curvaram para o chão, beijandoO pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!Igual vos cubrirá a cinza um dia,Talvez em breve—e a mim. Consolo ao mortoÉ a pedra do tumulo. Sê-lo-hiaMais, se do justo só a herança fòra;Mas tambem ao malvado é dada a campa.E o criminoso dormirá quietoEntre os bons sotterrado?—Oh não! Em quantoNo templo ondeiam silenciosas turbas,Exultarão do abysmo os moradores,Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,Que escarnece do Eterno, e a si se engana;Vendo o que julga que orações apagamVicios e crimes, e o motejo e o risoDado em resposta ás lagrymas do pobre;Vendo os que nunca ao infeliz disseramDe consolo palavra ou de esperança.Sim:—malvados tambem hão-de pisar-lhesOs frios restos que separa a terra,Um punhado de terra, a qual os ossosDestes ha-de cubrir em tempo breve,Como cubriu os seus; qual vai sumindoNo segredo da campa a humana raça.VIII.Eis que a turba rareia. Ermam bem poucosDo templo na amplidão: só lá no escuroDe afumada capella o justo as precesErgue pio ao Senhor, as preces purasDe um coração que espera, e não mentidasDe labios de impostor, que engana os homensCom seu meneio hypocrita, calandoNa alma lodosa da blasphemia o grito.Então exultarão os bons, e o ímpio,Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,Da voz, do respirar o som confusoVem confundir-se no ferver das praças,E pela galilé só ruge o vento.Em trévas não ficou silenciosasO sagrado recincto: os candieiros,No gelado ambiente ardendo a custo,Espalham debeis raios, que reflectemDas pedras pela alvura; o negro mocho,Companheiro do morto, horrido pioSolta lá da cornija: pelas fendasDos sepulchros deslisa fumo espesso;Ondeia pela nave, e esvái-se. LongoSuspirar não se ouviu?—Olhae! lá se erguem.Sacudindo o sudario, em peso os mortos!Mortos, quem vos chamou? O som da tubaAinda do Josaphat não fere os valles.Dormí, dormí: deixae passar as eras...IX.Mas foi uma visão: foi como scenaD'imaginar febril. Creou-se, acaso,Do poeta na mente, ou desvendou-lheA mão de Deus o íntimo ver da alma,Que devassa a existencia mysteriosaDo mundo dos espiritos? Quem sabe?Dos vivos ja deserta, a igreja torvaRepovoou-se, para mim ao menos,Dos extinctos, que ao pé das sanctas arasLeito commum na somnolencia extremaBuscaram. O terror, que arreda o homemDo limiar do templo ás horas mortas,Não vem de crença van. Se fulgem astros,Se a luz da lua estira a sombra eternaDa cruz gigante (que campeia erguidaNo vertice do timpano, ou no cimoDo corucheu do campanario) ao longoDos inclinados tectos, afastae-vos!Afastae-vos d'aqui, onde se passamÁ meia-noite insolitos mysterios;D'aqui, onde desperta a voz do archanjoOs dormentes da morte; onde reuneO que foi forte e o que foi fraco, o pobreE o opulento, o orgulhoso e o humilde,O bom e o mau, o ignorante e o sabio,Quantos, emfim, depositar vieramJuncto do altar o que era seu no mundo,Um corpo nú, e corrompido e inerte.X.E seguia a visão.—Cria ainda achar-me,Alta noite, na igreja solitariaEntre os mortos, que, erectos sobre as campas,Eram ha pouco um fumo que ondeiavaPelas fisgas do vasto pavimento.Olhei. Do erguido tecto o panno espessoRareava; rareava-me ante os olhos,Como tenue cendal; mais tenue ainda,Como o vapor de outono em quarto d'alva,Que se libra no espaço antes que desçaA consolar as plantas conglobadoEm matutino orvalho. O firmamentoEra profundo e amplo. Involto em gloria,Sobre vagas de nuvens, rodeiadoDas legiões do céu, o Ancião dos dias,O Sancto, o Deus descia. Ao summo acenoParava o tempo, a immensidade, a vidaDos mundos a escutar. Era esta a horaDo julgamento desses que se alçavamÁ voz de cima sobre as sepulturas?XI.Era ainda a visão,—Do templo em meioDo anjo da morte a espada flammejanteCrepitando bateu. Bem como insectos,Que á flôr de pego pantanoso e tristeSe balouçavam—quando a tempestadeVeiu as azas molhar nas aguas turvas,Que marulhando sussurraram—surgemVolteando, zumbindo em dança douda,E lassos, vão pousar em longas filasNas margens do paul, de um lado e de outro;Tal o murmurio e a agitação incertaCiciava das sombras remoinhandoAnte o sopro de Deus. As melodiasDos córos celestiaes, longinquas, frouxas,Com frémito infernal se misturavamEm cahos de dôr e jubilo.Dos mortosParava, emfim, o vortice enredado;E os grupos vagos em distinctas turmasSe enfileiravam de uma parte e de outra.Depois, o gladio do anjo entre os dous bandosFicou, unica luz, que se estiravaDesde o cruzeiro ao portico, e feríaDe reflexo vermelho os largos pannosDas paredes de marmore, bem comoMar de sangue, onde inertes fluctuassemDe humanos vultos indecisas fórmas.XII.E seguia a visão.—Do templo á esquerda,Méstas as faces, inclinada a fronte,Da noite as larvas tinham sobre o sóloFito o espantado olhar, e as dilatadasBaças pupillas lhes tingia o susto.Mas, como zona lucida de estrellas,Nessa atmosphera crassa e afogueadaPela espada rubente, refulgiamDa direita os espiritos, banhadoDe inenarravel placidez seu gesto.Era inteiro o silencio, e no silencioUma voz resoou—Eleitos vinde!—Ide precítos!»—Vacillava a terra,E ajoelhando eu me curvei tremendo.XIII.Quando me ergui e olhei, no céu profundoUm rastilho de luz pura e serenaSe ia embebendo nesses mares de orbesInfinitos, perdidos no infinito,A que chamâmos o universo. Um hymnoDe saudade e de amor, quasi inaudivelParecia romper desde as alturasDe tempo a tempo. Vinha como involtoNas lufadas do vento, até perder-seEm socego mortal.O curvo tectoDo templo, então, se condensou de novo,E para a terra o meu olhar volveu-se.Da direita os espiritos radiososJá não estavam lá. Chispando a espaços,Qual o ferro na incude, a espada do anjoO mortiço rubor mandava, apenas,D'aurora boreal quando se extingue.XIV.Proseguia a visão.—Da esquerda ás sombrasAnciava o seio a dôr: tinham no gestoImpressa a maldicção, que lhes seccáraEternamente a seiva da esperança.Como se vê, em noite estiva e negra,Scintillar sobre as aguas a ardentia,D'umas frontes ás outras vagueiavamCeruleos lumes no esquadrão dos mortos,E ao estalar das lousas, grito immensoSubterraneo, abafado e delirante,Ineffavel compendio de agonias,Misturado se ouviu com rir do inferno,E a visão se desfez. Era ermo o templo:E despertei do pesadelo em trevas.XV.Era loucura ou sonho? Entre as tristezasE os terrores e angustias, que resumeNeste dia e logar a avita crença,Irresistivel força arrebatou-meDa sepultura a devassar segredos,Para dizer:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—A justiça de Deus visita os mortos,Embora a cruz da redempção protejaA pedra tumular; embora a hostiaDo sacrificio o sacerdote eleveSobre as vizinhas aras. Quando a igrejaRodeiam trevas, solidão e medos,Que a resguardam co'as asas acurvadasDa vista do que vive, a mão do EternoSepara o joio do bom grão, e arrojaPara os abysmos a ruim semente.XVI.Não!—não foi sonho vão, vago delirioDe imaginar ardente. Eu fui levado,Galgando além do tempo, ás tardas horas,Em que se passam scenas de mysterio,Para dizer:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—Vejo ainda o que vi: da sepulturaAinda o halito frio me enregelaO suor do pavor na fronte; o sangueHesita immoto nas inertes veias;E embora os labios murmurar não ousem,Ainda, incessante, me repete na almaÍntima voz:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—XVII.Mas troa a voz do monge, e, emfim, despertoO coração bateu. Eia, retumbemPelos ecchos do templo os sons dos psalmos,Que em dia de afflicção ignoto vateTeceu, banhado em dôr. Talvez foi elleO primeiro cantor que em varias córdas,Á sombra das palmeiras da Iduméa,Soube entoar melodioso um hymno.Deus inspirava então os trovadoresDo seu povo querido, e a Palestina,Rica dos meigos dons da natureza,Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.Virgem o genio ainda, o estro puroLouvava Deus sómente, á luz da aurora,E ao esconder-se o sol entre as montanhasDe Bethoron.—Agora o genio é mortoPara o Senhor, e os cantos dissolutosDe lodoso folguedo os ares rompem,Ou sussurram por paços de tyrannos,Assellados de putrida lisonja,Por preço vil, como o cantor que os tece.XVIII.O PSALMO.Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chegaO seu poder immenso!Elle abaixou os céus, desceu, calcandoUm nevoeiro denso.Dos cherubins nas asas radiosasLibrando-se, voou;E sobre turbilhões de rijo ventoO mundo rodeiou.Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,E os mares assustadosBramem ao longe, e os montes lançam fumo,Da sua mão tocados.Se pensou no Universo, ei-lo patenteAnte a face do Eterno:Se o quiz, o firmamento os seios abre,Abre os seios o inferno.Dos olhos do Senhor, homem, se pódes,Esconde-te um momento:Vê onde encontrarás logar que fiqueDa sua vista isento:Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo,Lá teu Deus has-de achar;Elle te guiará, e a dextra suaLá te ha-de sustentar:Desce á sombra da noite, e no seu mantoInvolver-te procura...Mas as trévas para elle não são trévas.Nem é a noite escura.No dia do furor, em vão buscárasFugir ante o Deus forte,Quando do arco tremendo, irado, impelleSetta em que pousa a morte.Mas o que o teme dormirá tranquilloNo dia extremo seu,Quando na campa se rasgar da vidaDas illusões o véu.XIX.Calou-se o monge: sepulchral silencioÁ sua voz seguiu-se. Uma toadaDe orgam rompeu do côro. AssemelhavaO suspiro saudoso, e os ais de filha,Que chora solitaria o pae, que dormeSeu ultimo, profundo e eterno somno.Melodias depois soltou mais docesO severo instrumento: e ergueu-se o canto,O doloroso canto do propheta,Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,Sentado entre ruinas, contemplandoSeu avito esplendor, seu mal presente,A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,Modulando o Nebel, via-se o vateNos derribados porticos, abrigoDo immundo stellio e gemedora poupa,Extasiado—e a lua scintillandoNa sua calva fronte, onde pesavamAnnos e annos de dôr. Ao venerandoNas encovadas faces fundos regosTinham aberto as lagrymas. Ao longe,Nas margens do Kedron, a ran grasnandoQuebrava a paz dos tumulos. Que tumuloEra Sião!—o vasto cemiterioDos fortes de Israel. Mais venturososQue seus irmãos, morreram pela patria;A patria os sepultou dentro em seu seio.Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,Passam de escravos miseranda vida,Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,A dextra lhe vergou. Não mais no temploA nuvem repousára, e os céus de bronzeDos prophetas aos rogos se amostravam.O vate de Anathot a voz soltáraEntre o povo infiel, de Eloha em nome:Ameaças, promessas, tudo inutil;De bronze os corações não se dobraram.Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonhoJerusalem passou: sua grandezaSómente existe em derrocadas pedras.O vate de Anathot, sobre seus restos,Com triste canto deplorou a patria.Hymno de morte alçou: da noite as larvasO som lhe ouviram: squallido esqueleto,Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgosDo portico do templo erguia um pouco,Alvejando, a caveira.—Era-lhe allivioDo sagrado cantor a voz suaveDesferida ao luar, triste, no meioDa vasta solidão que o circumdava.O propheta gemeu: não era o estro,Ou o vívido jubilo que outr'oraInspirára Moysés: o sentimentoFoi sim pungente de silencio e morte,Que da patria lhe fez sobre o cadaverA elegia da noite erguer e o prantoDerramar da esperança e da saudade.XX.A LAMENTAÇÃO.Como assim jaz e solitaria e quèdaEsta cidade outr'ora populosa!Qual viuva ficou e tributariaA senhora das gentes.Chorou durante a noite; em pranto as faces,Sósinha, entregue á dôr, nas penas suasNinguem a consolou: os mais queridosContrarios se tornaram.Ermas as praças de Sião e as ruas,Cobre-as a verde relva: os sacerdotesGemem; as virgens pallidas suspiramInvoltas na amargura.Dos filhos de Israel nas cavas facesEstá pintada a macilenta fome;Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,Um pão de infamia eivado.O tremulo ancião, de longe, os olhosVolve a Jerusalem, della fugindo;Vê-a, suspira, cahe, e em breve expiraCom seu nome nos labios.Que horror!—ímpias as mães os tenros filhosDespedaçaram: barbaras quaes tigres,Os sanguinosos membros palpitantesNo ventre sepultaram.Deus, compassivo olhar volve a nós tristes:Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,Servos de servos em paiz estranho.Tem dó de nossos males!Acaso serás Tu sempre inflexivel?Esqueceste de todo a nação tua?O pranto dos hebreus não Te commove?És surdo a seus lamentos?XXI.Doce era a voz do velho: o som do NabloSonoro: o céu sereno: clara a terraPelo brando fulgor do astro da noite:E o propheta parou. Erguidos tinhaOs olhos para o céu, onde buscavaUm raio de esperança e de conforto:E elle calára já, e ainda os ecchos,Entre as ruinas sussurrando, ao longeÍam os sons levar de seus queixumes.XXII.Choro piedoso, o choro consagradoÁs desditas dos seus. Honra ao propheta!Oh margens do Jordão, paiz formosoQue fostes e não sois, tambem suspiroCondoído vos dou.—Assim fenecemImperios, reinos, solidões tornados!...Não:—nenhum deste modo: o peregrinoPára em Palmyra e pensa. O braço do homemA sacudiu á terra, e fez dormissemO seu ultimo somno os filhos della—E elle o veio dormir pouco mais longe...Mas se chega a Sião treme, enxergandoSeus lacerados restos. Pelas pedras,Aqui e alli dispersas, ainda escriptaParece ver-se uma inscripção de agouros,Bem como aquella que aterrou um ímpioQuando, no meio de ruidosa festa,Blasphemava dos céus, e mão ignotaO dia extremo lhe apontou dos crimes.A maldicção do Eterno está vibradaSobre Jerusalem!—Quanto é terrivelA vingança de Deus! O Israelita,Sem patria e sem abrigo, vagabundo,Ódio dos homens, neste mundo arrastaUma existencia mais cruel que a morte,E que vem terminar a morte e inferno.Desgraçada nação!—Aquelle soloOnde manava o mel, onde o carvalho,O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,Tão grato á vista, em bosques misturavam;Onde o lyrio e a cecem nos prados tinhamCrescimento espontaneo entre as roseiras,Hoje, campo de lagrymas, só criaHumilde musgo de escalvados cerros.XXIII.Ide vós a Mambré.—Lá, bem no meioDe um valle, outr'ora de verdura ameno,Erguia-se um carvalho magestoso.Debaixo de seus ramos largos diasAbrahão repousou. Na primaveraVinham os moços adornar-lhe o troncoDe capellas cheirosas de boninas,E coreias gentis traçar-lhe em roda.Nasceu com o orbe a planta veneravel,Viu passar gerações, julgou seu diaFinal fosse o do mundo, e quando airosaPor entre as densas nuvens se elevava,Mandou o Nume aos aquilões rugissem,Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosquesServiu de pasto aos tragadores vermes.Deus estendeu a mão:—no mesmo instanteA vinha se mirrou: juncto aos ribeirosDa Palestina os platanos frondososNão mais cresceram, como d'antes, bellos:O armento, em vez de relva, achou nos pradosSómente ingratas, espinhosas urzes.No Golgotha plantada, a Cruz clamára—Justiça!»—A tal clamor horrido espectroNo Moriá surgiu. Era seu nomeAssolação.—E despregando um grito,Cahiu com longo som de um povo a campa.Assim a herança de Judá, outr'oraGrata ao Senhor, existe só nos ecchosDo tempo que já foi, e que ha passadoComo hora de prazer entre desditas.....................................................XXIV.Minha Patria onde existe?É lá sómente!Oh lembrança da Patria acabrunhadaUm suspiro tambem tu me has pedido;Um suspiro arrancado aos seios d'almaPela offuscada gloria, e pelos crimesDos homens que ora são, e pelo opprobrioDa mais illustre das nações da terra!A minha triste Patria era tão bella,E forte, e virtuosa! e ora o guerreiroE o sabio e o homem bom acolá dormem,Acolá, nos sepulchros esquecidos,Que a seus netos infames nada contamDa antiga honra e pudor e eternos feitos.O escravo português agrilhoadoCarcomir-se lhes deixa juncto ás lousasOs decepados troncos desse arbusto,Por mãos delles plantado á liberdade,E por tyrannos derribado em breve,Quando patrias virtudes se acabaram,Como um sonho da infancia!...O vil escravo,Immerso em vicios, em bruteza e infamia,Não erguerá os macerados olhosPara esses troncos, que destroem vermesSobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,Não surgirá jámais?—Não ha na terraCoração português, que mande um bradoDe maldicção atroz, que vá cravar-seNa vigilia e no somno dos tyrannos,E envenenar-lhes o prazer por noitesDe vil prostituição, e em seus banquetesDe embriaguez lançar fel e amarguras?Não!—Bem como um cadaver já corrupto,A nação se dissolve: e em seu lethargoO povo, involto na miseria, dorme.XXV.Oh, talvez, como o vate, ainda algum diaTerei de erguer á Patria hymno de morte,Sobre seus mudos restos vagueiando!Sobre seus restos?—Nunca! Eterno, escutaMinhas preces e lagrymas:—se em breve,Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;Se o anjo do exterminio ha-de risca-laDo meio das nações, que d'entre os vivosRisque tambem meu nome, e não me deixeNa terra vagueiar, orpham de Patria.XXVI.Cessou da noite a grão solemnidadeConsagrada á tristeza, e a memorandasRecordações:—os monges se prostraram,A face unida á pedra. A mim, a todosCorrem dos olhos lagrymas suavesDe compuncção. Atheu, entra no templo;Não temas esse Deus, que os labios negam,E o coração confessa. A corda do arcoDa vingança, em que a morte se debruça,Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.Tu para quem a morte ou vida é fórma,Fórma sómente de mais puro barro,Que nada crês, e em nada esperas, olha,Olha o conforto do christão. Se o calisDa amargura a provar os céus lhe deram,Elle se consolou: balsamo sanctoPiedosa fé no coração lhe verte.—«Deus compaixão terá!—Eis seu gemido:Porque a esperança lhe sussurra em torno:—Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»Atheu, a quem o mal fizera escravo,Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?No dia da afflicção emmudecesteAnte o espectro do mal. E a quem alçárasO gemente clamor?—Ao mar, que as ondasNão altera por ti?—Ao ar, que somePela sua amplidão as queixas tuas?Aos rochedos alpestres, que não sentem,Nem sentir podem teu gemido inutil?Tua dôr, teu prazer existem, passam,Sem porvir, sem passado, e sem sentido.Nas angustias da vida, o teu consoloO suicidio é só, que te prometteRica messe de goso, a paz do nada!—E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso,No limiar da morte indo assentar-te!Alli grita uma voz no ultimo instanteDo passamento: a voz atterradoraDa consciencia é ella. E has-de escuta-laMau grado teu: e tremerás em sustos,Desesperado aos céus erguendo os olhosIrados, de través, amortecidos;Aos céus, cujo caminho a EternidadeCo'a vagarosa mão te vai cerrando,Para guiar-te á solidão das dôres,Onde maldigas teu primeiro alento,Onde maldigas teu extremo arranco,Onde maldigas a existencia e a morte.XXVII.Calou tudo no templo: o céu é puro,A tempestade ameaçadora dorme.No espaço immenso os astros scintillantesO Rei da creação louvam com hymnos,Não ouvidos por nós nas profundezasDo nosso abysmo. E aos cantos do Universo,Ante milhões de estrellas, que recamamO firmamento, ajunctará seu cantoMesquinho trovador?—Que vale uma harpaMortal no meio da harmonia etherea,No concerto da noite? Oh, no silencio,Eu pequenino verme irei sentar-meAos pés da Cruz nas trévas do meu nada.Assim se apaga a lampada nocturnaAo despontar do sol o alvor primeiro:Por entre a escuridão deu claridade;Mas do dia ao nascer, que já rutíla,As torrentes de luz vertendo ao longe,Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,Nesse fulgido mar, que inunda a terra.A VOZ.É tão suave ess' hora,Em que nos foge o dia,E em que suscita a luaDas ondas a ardentia,Se em alcantis marinhos,Nas rochas assentado,O trovador meditaEm sonhos enleiado!O mar azul se encrespaCo'a vespertina brisa,E no casal da serraA luz ja se divisa.E tudo em roda calaNa praia sinuosa,Salvo o som do remansoQuebrando em furna algosa.Alli folga o poetaNos desvarios seus,E nessa paz que o cércaBemdiz a mão de Deus.Mas despregou seu gritoA alcyone gemente,E nuvem pequeninaErgueu-se no occidente:E sóbe, e cresce, e immensaNos céus negra fluctua,E o vento das procellasJá varre a fraga nua.Turba-se o vasto oceano,Com horrido clamor;Dos vagalhões nas ribasExpira o vão furorE do poeta a fronteCubriu véu de tristeza:Calou, á luz do raio,Seu hymno á natureza.Pela alma lhe vagavaUm negro pensamento,Da alcyone ao gemido,Ao sibillar do vento.Era blasphema idéa,Que triumphava emfim;Mas voz soou ignota,Que lhe dizia assim:—«Cantor, esse queixumeDa nuncia das procellas,E as nuvens, que te roubamMyriadas de estrellas,E o frémito dos euros,E o estourar da vaga,Na praia, que revolve,Na rocha, onde se esmaga,Onde espalhava a brisaSussurro harmonioso,Em quanto do ether puroDescia o sol radioso,Typo da vida do homem,É do universo a vida;Depois do afan repouso,Depois da paz a lida.Se ergueste a Deus um hymnoEm dias de amargura;Se te amostraste gratoNos dias de ventura,Seu nome não maldigasQuando se turba o mar:No Deus, que é pae, confia,Do raio ao scintillar.Elle o mandou: a causaDisso o universo ignora,E mudo está. O nume,Como o universo, adora!»—Oh sim, torva blasphemiaNão manchará seu canto!Brama a procella embora;Pése sobre elle o espanto;Que de sua harpa os hymnosDerramará contenteAos pés de Deus, qual oleoDo nardo recendente.A ARRABIDA.I.Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!Salve, oh patria da paz, deserto sancto,Onde não ruge a grande voz das turbas!Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundoO poeta fugir, cingir-se ao ermo,Qual ao freixo robusto a fragil hera,E a romagem do tumulo cumprindo,Só conhecer, ao despertar na morte,Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,Que íntima voz contínuo nos prometteNo transito chamado o viver do homem.II.Suspira o vento no alamo frondoso;As aves soltam matutino canto;Late o lebreu na encosta, e o mar sussurraDos alcantís na base carcomida:Eis o ruído de ermo!—Ao longe o negro,Insondado oceano, e o céu ceruleoSe abraçam no horisonte.—Immensa imagemDa eternidade e do infinito, salve!III.Oh, como surge magestosa e bella,Com viço da creação, a naturezaNo solitario valle!—E o leve insectoE a relva e os matos e a fragrancia puraDas boninas da encosta estão contandoMil saudades de Deus, que os ha lançado,Com mão profusa, no regaço amenoDa solidão, onde se esconde o justo.E lá campeiam no alto das montanhasOs escalvados pincaros, severos,Quaes guardadores de um logar que é sancto;Atalaias que ao longe o mundo observam,Cerrando até o mar o ultimo abrigoDa crença viva, da oração piedosa,Que se ergue a Deus de labios innocentes.Sobre esta scena o sol verte em torrentesDa manhan o fulgor; a brisa esvaí-sePelos rosmaninhaes, e inclina os toposDo zimbro e alecrineiro, ao rez sentadosDesses thronos de fragas sobrepostas,Que alpestres matas de medronhos vestem;O rocío da noite á branca rosaNo seio derramou frescor suave,E 'inda existencia lhe dará um dia.Formoso ermo do sul, outra vez, salve!IV.Negro, esteril rochedo, que contrastas,Na mudez tua, o placido sussurroDas arvores do valle, que vecejamRicas d'encantos, co' a estação propicia;Suavissimo aroma, que, manandoDas variegadas flores, derramadasNa sinuosa encosta da montanha,Do altar da solidão subindo aos ares,És digno incenso ao Creador erguido;Livres aves, vós filhas da espessura,Que só teceis da natureza os hymnos,O que crê, o cantor, que foi lançado,Estranho ao mundo, no bulicio delle,Vem saudar-vos, sentir um goso puro,Dos homens esquecer paixões e opprobrio,E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.Comvosco eu sou maior; mais longe a mentePelos seios dos céus se immerge livre,E se desprende de mortaes memoriasNa solidão solemne, onde, incessante,Em cada pedra, em cada flor se escutaDo Sempiterno a voz, e vê-se impressaA dextra sua em multiforme quadro.V.Escalvado penedo, que repousasLá no cimo do monte, ameaçandoRuina ao roble secular da encosta,Que somnolento move a coma estivaAnte a aragem do mar, foste formoso;Já te cubriram cespedes virentes;Mas o tempo voou, e nelle involtaA formosura tua. DespedidosDas negras nuvens o chuveiro espessoE o granizo, que o sólo fustigandoTritura a tenra lanceolada relva,Durante largos seculos, no inverno,Dos vendavaes no dorso a ti desceram,Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,Que, maculando virginal pureza,Do pudor varre a aureola celeste,E deixa, em vez de um seraphim na terra,Queimada flor que devorou o raio.VI.Cáveira da montanha, ossada immensa,É tua campa o céu: sepulchro o valleUm dia te será. Quando sentiresRugir com som medonho a terra ao longe,Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,Lançar á praia vagalhões cruzados;Tremer-te a larga base, e sacudir-teDe sobre si, o fundo deste valleTe vai servir de tumulo; e os carvalhosDo mundo primogenitos, e os sobros,Arrastados por ti lá da collina,Comtigo hão-de jazer. De novo a terraTe cubrirá o dorso sinuoso:Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,Do seu puro candor hão-de adornar-te;E tu, ora medonho e nú e triste,Ainda bello serás, vestido e alegre.VII.Mais que o homem feliz!—Quando eu no valleDos tumulos cahir; quando uma pedraOs ossos me esconder, se me fôr dada,Não mais reviverei; não mais meus olhosVerão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,Se em turbilhões de purpura, que ondeiamPelo extremo dos céus sobre o occidente,Vai provar que um Deus ha a estranhos povosE além das ondas trémulo sumir-se;Nem, quando, lá do cimo das montanhas,Com torrentes de luz inunda as veigas:Não mais verei o refulgir da luaNo irrequieto mar, na paz da noite,Por horas em que véla o criminoso,A quem íntima voz rouba o socego,E em que o justo descança, ou, solitario,Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.VIII.Hontem, sentado n'um penhasco, e pertoDas aguas, então quêdas, do oceano,Eu tambem o louvei sem ser um justo:E meditei, e a mente extasiadaDeixei correr pela amplidão das ondas.Como abraço materno era suaveA aragem fresca do cahir das trévas,Emquanto, involta em gloria, a clara luaSumia em seu fulgor milhões d'estrellas.Tudo calado estava: o mar sómenteAs harmonias da creação soltava,Em seu rugido; e o ulmeiro do desertoSe agitava, gemendo e murmurando,Ante o sopro de oeste:—alli dos olhosO pranto me correu sem que o sentisse,E aos pés de Deus se derramou minha alma.IX.
POESIASPORA. HERCULANOsegunda ediçãoLISBOAEM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOSaos martyres, n.º 73m dccc lx
Der Gedanke Gott weckt einenfurchlerlichen Nachbar auf. SeinName heisst Richter.
Schiller.
Tibio o sol entre as nuvens do occidente,Já lá se inclina ao mar. Grave e solemneVai a hora da tarde!—O oeste passaMudo nos troncos da alameda antiga,Que á voz da primavera os gomos brota:O oeste passa mudo, e cruza o atrioPonteagudo do templo, edificadoPor mãos duras de avós, em monumentoDe uma herança de fé, que nos legaram,A nós seus netos, homens de alto esforço,Que nos rimos da herança, e que insultamosA cruz e o templo e a crença de outras eras;Nós, homens fortes, servos de tyrannos,Que sabemos tão bem rojar seus ferrosSem nos queixar, menosprezando a PatriaE a liberdade, e o combater por ella.Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e esperoNo Deus das almas generosas, puras,E os despotas maldigo.—EntendimentoBronco, lançado em seculo fundidoNa servidão de goso ataviada,Creio que Deus é Deus e os homens livres!
Oh sim!—rude amador de antigos sonhos,Irei pedir aos tumulos dos velhosReligioso enthusiasmo, e canto novoHei-de tecer, que os homens do futuroEntenderão; um canto escarnecidoPelos filhos dest' epocha mesquinha,Em que vim peregrino a ver o mundo.E chegar a meu termo, e reclinar-meÁ branda sombra de cypreste amigo.
Passa o vento os do portico da igrejaEsculpidos umbraes: correndo as navesSussurrou, sussurrou entre as columnasDe gothico lavor: no orgam do côroVeiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.
Mas porque sôa o vento?—Está deserto,Silencioso ainda o sacro templo:Nenhuma voz humana ainda recordaOs hymnos do Senhor. A naturezaFoi a primeira em celebrar seu nomeNeste dia de lucto e de saudade!Trévas da quarta feira eu vos saúdo!Negras paredes, mudos monumentosDe todas essas orações de mágua,De gratidão, de susto ou de esperança,Depositadas ante vós nos diasDe fervorosa crença, a vós que enluctaA solidão e o dó, venho eu saudar-vos.A loucura da cruz não morreu todaApós dezoito seculos!—Quem choreDo soffrimento o Heroe existe ainda.Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—Pelo Amigo do povo, assassinadoPor tyrannos, e hypocritas, e turbasEnvilecidas, barbaras, e servas.
Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,D'onde mergulhas no oceano a vista;Tu que do trovador á mente arrojasQuanto ha nos céus esperançoso e bello,Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,Quanto ha nos mares magestoso e vago,Hoje te invoco!—oh vem!—lança em minha almaA harmonia celeste e o fogo e o genio,Que dêm vida e vigor a um carme pio.
A noite escura desce: o sol de todoNos mares se atufou. A luz dos mortos,Dos brandões o clarão, fulgura ao longeNo cruzeiro sómente e em volta da ara:E pelas naves começou ruídoDe compassado andar. Fiéis acodemÁ morada de Deus, a ouvir queixumesDo vate de Sião. Em breve os monges,Suspirosas canções aos céus erguendo,Sua voz unirão á voz desse orgam,E os sons e os ecchos reboarão no templo.Mudo o côro depois, neste recinctoDentro em bem pouco reinará silencio,O silencio dos tumulos, e as trévasCubrirão por esta área a luz escaçaDespedida das lampadas, que pendemAnte os altares, bruxuleando frouxas.Imagem da existencia!—Em quanto passamOs dias infantis, as paixões tuas,Homem, qual então és, são debeis todas.Cresceste:—ei-las torrente, em cujo dorsoSobrenadam a dôr e o pranto e o longoGemido do remorso, a qual lançar-seVai com rouco estridor no antro da morte,Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.Da vida tua instantes florescentesForam dous, e não mais: as cans e rugas,Logo, rebate de teu fim te deram.Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,Murmurou, esqueceu, passou no espaço.E a casa do Senhor ergueu-se.—O ferroCortou a penedia; e o canto enormePulído alveja alli no espesso pannoDo muro colossal, que éra após éra,Como onda e onda ao desdobrar na areia,Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.O ulmo e o choupo no cahir rangeramSob o machado: a trave affeiçoou-se;Lá no cimo pousou: restruge ao longeDe martellos fragor, e eis ergue o templo,Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.Homem, do que és capaz! Tu, cujo alentoSe esvái, como da cerva a leve pistaNo pó se apaga ao respirar da tarde,Do seio dessa terra, em que és estranho,Sair fazes as moles seculares,Que por ti, morto, falem; dás na idéaEterna duração ás obras tuas.Tua alma é immortal, e a prova a déste!
Anoiteceu.—Nos claustros resoandoAs pisadas dos monges ouço: eis entram;Eis se curvaram para o chão, beijandoO pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!Igual vos cubrirá a cinza um dia,Talvez em breve—e a mim. Consolo ao mortoÉ a pedra do tumulo. Sê-lo-hiaMais, se do justo só a herança fòra;Mas tambem ao malvado é dada a campa.E o criminoso dormirá quietoEntre os bons sotterrado?—Oh não! Em quantoNo templo ondeiam silenciosas turbas,Exultarão do abysmo os moradores,Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,Que escarnece do Eterno, e a si se engana;Vendo o que julga que orações apagamVicios e crimes, e o motejo e o risoDado em resposta ás lagrymas do pobre;Vendo os que nunca ao infeliz disseramDe consolo palavra ou de esperança.Sim:—malvados tambem hão-de pisar-lhesOs frios restos que separa a terra,Um punhado de terra, a qual os ossosDestes ha-de cubrir em tempo breve,Como cubriu os seus; qual vai sumindoNo segredo da campa a humana raça.
Eis que a turba rareia. Ermam bem poucosDo templo na amplidão: só lá no escuroDe afumada capella o justo as precesErgue pio ao Senhor, as preces purasDe um coração que espera, e não mentidasDe labios de impostor, que engana os homensCom seu meneio hypocrita, calandoNa alma lodosa da blasphemia o grito.Então exultarão os bons, e o ímpio,Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,Da voz, do respirar o som confusoVem confundir-se no ferver das praças,E pela galilé só ruge o vento.Em trévas não ficou silenciosasO sagrado recincto: os candieiros,No gelado ambiente ardendo a custo,Espalham debeis raios, que reflectemDas pedras pela alvura; o negro mocho,Companheiro do morto, horrido pioSolta lá da cornija: pelas fendasDos sepulchros deslisa fumo espesso;Ondeia pela nave, e esvái-se. LongoSuspirar não se ouviu?—Olhae! lá se erguem.Sacudindo o sudario, em peso os mortos!Mortos, quem vos chamou? O som da tubaAinda do Josaphat não fere os valles.Dormí, dormí: deixae passar as eras...
Mas foi uma visão: foi como scenaD'imaginar febril. Creou-se, acaso,Do poeta na mente, ou desvendou-lheA mão de Deus o íntimo ver da alma,Que devassa a existencia mysteriosaDo mundo dos espiritos? Quem sabe?Dos vivos ja deserta, a igreja torvaRepovoou-se, para mim ao menos,Dos extinctos, que ao pé das sanctas arasLeito commum na somnolencia extremaBuscaram. O terror, que arreda o homemDo limiar do templo ás horas mortas,Não vem de crença van. Se fulgem astros,Se a luz da lua estira a sombra eternaDa cruz gigante (que campeia erguidaNo vertice do timpano, ou no cimoDo corucheu do campanario) ao longoDos inclinados tectos, afastae-vos!Afastae-vos d'aqui, onde se passamÁ meia-noite insolitos mysterios;D'aqui, onde desperta a voz do archanjoOs dormentes da morte; onde reuneO que foi forte e o que foi fraco, o pobreE o opulento, o orgulhoso e o humilde,O bom e o mau, o ignorante e o sabio,Quantos, emfim, depositar vieramJuncto do altar o que era seu no mundo,Um corpo nú, e corrompido e inerte.
E seguia a visão.—Cria ainda achar-me,Alta noite, na igreja solitariaEntre os mortos, que, erectos sobre as campas,Eram ha pouco um fumo que ondeiavaPelas fisgas do vasto pavimento.Olhei. Do erguido tecto o panno espessoRareava; rareava-me ante os olhos,Como tenue cendal; mais tenue ainda,Como o vapor de outono em quarto d'alva,Que se libra no espaço antes que desçaA consolar as plantas conglobadoEm matutino orvalho. O firmamentoEra profundo e amplo. Involto em gloria,Sobre vagas de nuvens, rodeiadoDas legiões do céu, o Ancião dos dias,O Sancto, o Deus descia. Ao summo acenoParava o tempo, a immensidade, a vidaDos mundos a escutar. Era esta a horaDo julgamento desses que se alçavamÁ voz de cima sobre as sepulturas?
Era ainda a visão,—Do templo em meioDo anjo da morte a espada flammejanteCrepitando bateu. Bem como insectos,Que á flôr de pego pantanoso e tristeSe balouçavam—quando a tempestadeVeiu as azas molhar nas aguas turvas,Que marulhando sussurraram—surgemVolteando, zumbindo em dança douda,E lassos, vão pousar em longas filasNas margens do paul, de um lado e de outro;Tal o murmurio e a agitação incertaCiciava das sombras remoinhandoAnte o sopro de Deus. As melodiasDos córos celestiaes, longinquas, frouxas,Com frémito infernal se misturavamEm cahos de dôr e jubilo.
Dos mortos
Parava, emfim, o vortice enredado;E os grupos vagos em distinctas turmasSe enfileiravam de uma parte e de outra.Depois, o gladio do anjo entre os dous bandosFicou, unica luz, que se estiravaDesde o cruzeiro ao portico, e feríaDe reflexo vermelho os largos pannosDas paredes de marmore, bem comoMar de sangue, onde inertes fluctuassemDe humanos vultos indecisas fórmas.
E seguia a visão.—Do templo á esquerda,Méstas as faces, inclinada a fronte,Da noite as larvas tinham sobre o sóloFito o espantado olhar, e as dilatadasBaças pupillas lhes tingia o susto.Mas, como zona lucida de estrellas,Nessa atmosphera crassa e afogueadaPela espada rubente, refulgiamDa direita os espiritos, banhadoDe inenarravel placidez seu gesto.Era inteiro o silencio, e no silencioUma voz resoou—Eleitos vinde!—Ide precítos!»—Vacillava a terra,E ajoelhando eu me curvei tremendo.
Quando me ergui e olhei, no céu profundoUm rastilho de luz pura e serenaSe ia embebendo nesses mares de orbesInfinitos, perdidos no infinito,A que chamâmos o universo. Um hymnoDe saudade e de amor, quasi inaudivelParecia romper desde as alturasDe tempo a tempo. Vinha como involtoNas lufadas do vento, até perder-seEm socego mortal.
O curvo tecto
Do templo, então, se condensou de novo,E para a terra o meu olhar volveu-se.Da direita os espiritos radiososJá não estavam lá. Chispando a espaços,Qual o ferro na incude, a espada do anjoO mortiço rubor mandava, apenas,D'aurora boreal quando se extingue.
Proseguia a visão.—Da esquerda ás sombrasAnciava o seio a dôr: tinham no gestoImpressa a maldicção, que lhes seccáraEternamente a seiva da esperança.Como se vê, em noite estiva e negra,Scintillar sobre as aguas a ardentia,D'umas frontes ás outras vagueiavamCeruleos lumes no esquadrão dos mortos,E ao estalar das lousas, grito immensoSubterraneo, abafado e delirante,Ineffavel compendio de agonias,Misturado se ouviu com rir do inferno,E a visão se desfez. Era ermo o templo:E despertei do pesadelo em trevas.
Era loucura ou sonho? Entre as tristezasE os terrores e angustias, que resumeNeste dia e logar a avita crença,Irresistivel força arrebatou-meDa sepultura a devassar segredos,Para dizer:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—A justiça de Deus visita os mortos,Embora a cruz da redempção protejaA pedra tumular; embora a hostiaDo sacrificio o sacerdote eleveSobre as vizinhas aras. Quando a igrejaRodeiam trevas, solidão e medos,Que a resguardam co'as asas acurvadasDa vista do que vive, a mão do EternoSepara o joio do bom grão, e arrojaPara os abysmos a ruim semente.
Não!—não foi sonho vão, vago delirioDe imaginar ardente. Eu fui levado,Galgando além do tempo, ás tardas horas,Em que se passam scenas de mysterio,Para dizer:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—Vejo ainda o que vi: da sepulturaAinda o halito frio me enregelaO suor do pavor na fronte; o sangueHesita immoto nas inertes veias;E embora os labios murmurar não ousem,Ainda, incessante, me repete na almaÍntima voz:—Tremei! Do altar á sombraTambem ha mau-dormir de somno extremo!»—
Mas troa a voz do monge, e, emfim, despertoO coração bateu. Eia, retumbemPelos ecchos do templo os sons dos psalmos,Que em dia de afflicção ignoto vateTeceu, banhado em dôr. Talvez foi elleO primeiro cantor que em varias córdas,Á sombra das palmeiras da Iduméa,Soube entoar melodioso um hymno.Deus inspirava então os trovadoresDo seu povo querido, e a Palestina,Rica dos meigos dons da natureza,Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.Virgem o genio ainda, o estro puroLouvava Deus sómente, á luz da aurora,E ao esconder-se o sol entre as montanhasDe Bethoron.—Agora o genio é mortoPara o Senhor, e os cantos dissolutosDe lodoso folguedo os ares rompem,Ou sussurram por paços de tyrannos,Assellados de putrida lisonja,Por preço vil, como o cantor que os tece.
Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chega
O seu poder immenso!
Elle abaixou os céus, desceu, calcando
Um nevoeiro denso.
Dos cherubins nas asas radiosas
Librando-se, voou;
E sobre turbilhões de rijo vento
O mundo rodeiou.
Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,
E os mares assustados
Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,
Da sua mão tocados.
Se pensou no Universo, ei-lo patente
Ante a face do Eterno:
Se o quiz, o firmamento os seios abre,
Abre os seios o inferno.
Dos olhos do Senhor, homem, se pódes,
Esconde-te um momento:
Vê onde encontrarás logar que fique
Da sua vista isento:
Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo,
Lá teu Deus has-de achar;
Elle te guiará, e a dextra sua
Lá te ha-de sustentar:
Desce á sombra da noite, e no seu manto
Involver-te procura...
Mas as trévas para elle não são trévas.
Nem é a noite escura.
No dia do furor, em vão buscáras
Fugir ante o Deus forte,
Quando do arco tremendo, irado, impelle
Setta em que pousa a morte.
Mas o que o teme dormirá tranquillo
No dia extremo seu,
Quando na campa se rasgar da vida
Das illusões o véu.
Calou-se o monge: sepulchral silencioÁ sua voz seguiu-se. Uma toadaDe orgam rompeu do côro. AssemelhavaO suspiro saudoso, e os ais de filha,Que chora solitaria o pae, que dormeSeu ultimo, profundo e eterno somno.Melodias depois soltou mais docesO severo instrumento: e ergueu-se o canto,O doloroso canto do propheta,Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,Sentado entre ruinas, contemplandoSeu avito esplendor, seu mal presente,A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,Modulando o Nebel, via-se o vateNos derribados porticos, abrigoDo immundo stellio e gemedora poupa,Extasiado—e a lua scintillandoNa sua calva fronte, onde pesavamAnnos e annos de dôr. Ao venerandoNas encovadas faces fundos regosTinham aberto as lagrymas. Ao longe,Nas margens do Kedron, a ran grasnandoQuebrava a paz dos tumulos. Que tumuloEra Sião!—o vasto cemiterioDos fortes de Israel. Mais venturososQue seus irmãos, morreram pela patria;A patria os sepultou dentro em seu seio.Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,Passam de escravos miseranda vida,Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,A dextra lhe vergou. Não mais no temploA nuvem repousára, e os céus de bronzeDos prophetas aos rogos se amostravam.O vate de Anathot a voz soltáraEntre o povo infiel, de Eloha em nome:Ameaças, promessas, tudo inutil;De bronze os corações não se dobraram.Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonhoJerusalem passou: sua grandezaSómente existe em derrocadas pedras.O vate de Anathot, sobre seus restos,Com triste canto deplorou a patria.Hymno de morte alçou: da noite as larvasO som lhe ouviram: squallido esqueleto,Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgosDo portico do templo erguia um pouco,Alvejando, a caveira.—Era-lhe allivioDo sagrado cantor a voz suaveDesferida ao luar, triste, no meioDa vasta solidão que o circumdava.O propheta gemeu: não era o estro,Ou o vívido jubilo que outr'oraInspirára Moysés: o sentimentoFoi sim pungente de silencio e morte,Que da patria lhe fez sobre o cadaverA elegia da noite erguer e o prantoDerramar da esperança e da saudade.
Como assim jaz e solitaria e quèdaEsta cidade outr'ora populosa!Qual viuva ficou e tributaria
A senhora das gentes.
Chorou durante a noite; em pranto as faces,Sósinha, entregue á dôr, nas penas suasNinguem a consolou: os mais queridos
Contrarios se tornaram.
Ermas as praças de Sião e as ruas,Cobre-as a verde relva: os sacerdotesGemem; as virgens pallidas suspiram
Involtas na amargura.
Dos filhos de Israel nas cavas facesEstá pintada a macilenta fome;Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
Um pão de infamia eivado.
O tremulo ancião, de longe, os olhosVolve a Jerusalem, della fugindo;Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira
Com seu nome nos labios.
Que horror!—ímpias as mães os tenros filhosDespedaçaram: barbaras quaes tigres,Os sanguinosos membros palpitantes
No ventre sepultaram.
Deus, compassivo olhar volve a nós tristes:Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,Servos de servos em paiz estranho.
Tem dó de nossos males!
Acaso serás Tu sempre inflexivel?Esqueceste de todo a nação tua?O pranto dos hebreus não Te commove?
És surdo a seus lamentos?
Doce era a voz do velho: o som do NabloSonoro: o céu sereno: clara a terraPelo brando fulgor do astro da noite:E o propheta parou. Erguidos tinhaOs olhos para o céu, onde buscavaUm raio de esperança e de conforto:E elle calára já, e ainda os ecchos,Entre as ruinas sussurrando, ao longeÍam os sons levar de seus queixumes.
Choro piedoso, o choro consagradoÁs desditas dos seus. Honra ao propheta!Oh margens do Jordão, paiz formosoQue fostes e não sois, tambem suspiroCondoído vos dou.—Assim fenecemImperios, reinos, solidões tornados!...Não:—nenhum deste modo: o peregrinoPára em Palmyra e pensa. O braço do homemA sacudiu á terra, e fez dormissemO seu ultimo somno os filhos della—E elle o veio dormir pouco mais longe...Mas se chega a Sião treme, enxergandoSeus lacerados restos. Pelas pedras,Aqui e alli dispersas, ainda escriptaParece ver-se uma inscripção de agouros,Bem como aquella que aterrou um ímpioQuando, no meio de ruidosa festa,Blasphemava dos céus, e mão ignotaO dia extremo lhe apontou dos crimes.A maldicção do Eterno está vibradaSobre Jerusalem!—Quanto é terrivelA vingança de Deus! O Israelita,Sem patria e sem abrigo, vagabundo,Ódio dos homens, neste mundo arrastaUma existencia mais cruel que a morte,E que vem terminar a morte e inferno.Desgraçada nação!—Aquelle soloOnde manava o mel, onde o carvalho,O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,Tão grato á vista, em bosques misturavam;Onde o lyrio e a cecem nos prados tinhamCrescimento espontaneo entre as roseiras,Hoje, campo de lagrymas, só criaHumilde musgo de escalvados cerros.
Ide vós a Mambré.—Lá, bem no meioDe um valle, outr'ora de verdura ameno,Erguia-se um carvalho magestoso.Debaixo de seus ramos largos diasAbrahão repousou. Na primaveraVinham os moços adornar-lhe o troncoDe capellas cheirosas de boninas,E coreias gentis traçar-lhe em roda.Nasceu com o orbe a planta veneravel,Viu passar gerações, julgou seu diaFinal fosse o do mundo, e quando airosaPor entre as densas nuvens se elevava,Mandou o Nume aos aquilões rugissem,Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosquesServiu de pasto aos tragadores vermes.Deus estendeu a mão:—no mesmo instanteA vinha se mirrou: juncto aos ribeirosDa Palestina os platanos frondososNão mais cresceram, como d'antes, bellos:O armento, em vez de relva, achou nos pradosSómente ingratas, espinhosas urzes.No Golgotha plantada, a Cruz clamára—Justiça!»—A tal clamor horrido espectroNo Moriá surgiu. Era seu nomeAssolação.—E despregando um grito,Cahiu com longo som de um povo a campa.Assim a herança de Judá, outr'oraGrata ao Senhor, existe só nos ecchosDo tempo que já foi, e que ha passadoComo hora de prazer entre desditas.....................................................
Minha Patria onde existe?
É lá sómente!
Oh lembrança da Patria acabrunhadaUm suspiro tambem tu me has pedido;Um suspiro arrancado aos seios d'almaPela offuscada gloria, e pelos crimesDos homens que ora são, e pelo opprobrioDa mais illustre das nações da terra!A minha triste Patria era tão bella,E forte, e virtuosa! e ora o guerreiroE o sabio e o homem bom acolá dormem,Acolá, nos sepulchros esquecidos,Que a seus netos infames nada contamDa antiga honra e pudor e eternos feitos.O escravo português agrilhoadoCarcomir-se lhes deixa juncto ás lousasOs decepados troncos desse arbusto,Por mãos delles plantado á liberdade,E por tyrannos derribado em breve,Quando patrias virtudes se acabaram,Como um sonho da infancia!...
O vil escravo,
Immerso em vicios, em bruteza e infamia,Não erguerá os macerados olhosPara esses troncos, que destroem vermesSobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,Não surgirá jámais?—Não ha na terraCoração português, que mande um bradoDe maldicção atroz, que vá cravar-seNa vigilia e no somno dos tyrannos,E envenenar-lhes o prazer por noitesDe vil prostituição, e em seus banquetesDe embriaguez lançar fel e amarguras?Não!—Bem como um cadaver já corrupto,A nação se dissolve: e em seu lethargoO povo, involto na miseria, dorme.
Oh, talvez, como o vate, ainda algum diaTerei de erguer á Patria hymno de morte,Sobre seus mudos restos vagueiando!Sobre seus restos?—Nunca! Eterno, escutaMinhas preces e lagrymas:—se em breve,Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;Se o anjo do exterminio ha-de risca-laDo meio das nações, que d'entre os vivosRisque tambem meu nome, e não me deixeNa terra vagueiar, orpham de Patria.
Cessou da noite a grão solemnidadeConsagrada á tristeza, e a memorandasRecordações:—os monges se prostraram,A face unida á pedra. A mim, a todosCorrem dos olhos lagrymas suavesDe compuncção. Atheu, entra no templo;Não temas esse Deus, que os labios negam,E o coração confessa. A corda do arcoDa vingança, em que a morte se debruça,Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.Tu para quem a morte ou vida é fórma,Fórma sómente de mais puro barro,Que nada crês, e em nada esperas, olha,Olha o conforto do christão. Se o calisDa amargura a provar os céus lhe deram,Elle se consolou: balsamo sanctoPiedosa fé no coração lhe verte.—«Deus compaixão terá!—Eis seu gemido:Porque a esperança lhe sussurra em torno:—Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»Atheu, a quem o mal fizera escravo,Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?No dia da afflicção emmudecesteAnte o espectro do mal. E a quem alçárasO gemente clamor?—Ao mar, que as ondasNão altera por ti?—Ao ar, que somePela sua amplidão as queixas tuas?Aos rochedos alpestres, que não sentem,Nem sentir podem teu gemido inutil?Tua dôr, teu prazer existem, passam,Sem porvir, sem passado, e sem sentido.Nas angustias da vida, o teu consoloO suicidio é só, que te prometteRica messe de goso, a paz do nada!—E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso,No limiar da morte indo assentar-te!Alli grita uma voz no ultimo instanteDo passamento: a voz atterradoraDa consciencia é ella. E has-de escuta-laMau grado teu: e tremerás em sustos,Desesperado aos céus erguendo os olhosIrados, de través, amortecidos;Aos céus, cujo caminho a EternidadeCo'a vagarosa mão te vai cerrando,Para guiar-te á solidão das dôres,Onde maldigas teu primeiro alento,Onde maldigas teu extremo arranco,Onde maldigas a existencia e a morte.
Calou tudo no templo: o céu é puro,A tempestade ameaçadora dorme.No espaço immenso os astros scintillantesO Rei da creação louvam com hymnos,Não ouvidos por nós nas profundezasDo nosso abysmo. E aos cantos do Universo,Ante milhões de estrellas, que recamamO firmamento, ajunctará seu cantoMesquinho trovador?—Que vale uma harpaMortal no meio da harmonia etherea,No concerto da noite? Oh, no silencio,Eu pequenino verme irei sentar-meAos pés da Cruz nas trévas do meu nada.Assim se apaga a lampada nocturnaAo despontar do sol o alvor primeiro:Por entre a escuridão deu claridade;Mas do dia ao nascer, que já rutíla,As torrentes de luz vertendo ao longe,Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
É tão suave ess' hora,Em que nos foge o dia,E em que suscita a luaDas ondas a ardentia,Se em alcantis marinhos,Nas rochas assentado,O trovador meditaEm sonhos enleiado!O mar azul se encrespaCo'a vespertina brisa,E no casal da serraA luz ja se divisa.E tudo em roda calaNa praia sinuosa,Salvo o som do remansoQuebrando em furna algosa.Alli folga o poetaNos desvarios seus,E nessa paz que o cércaBemdiz a mão de Deus.Mas despregou seu gritoA alcyone gemente,E nuvem pequeninaErgueu-se no occidente:E sóbe, e cresce, e immensaNos céus negra fluctua,E o vento das procellasJá varre a fraga nua.Turba-se o vasto oceano,Com horrido clamor;Dos vagalhões nas ribasExpira o vão furorE do poeta a fronteCubriu véu de tristeza:Calou, á luz do raio,Seu hymno á natureza.Pela alma lhe vagavaUm negro pensamento,Da alcyone ao gemido,Ao sibillar do vento.Era blasphema idéa,Que triumphava emfim;Mas voz soou ignota,Que lhe dizia assim:—«Cantor, esse queixumeDa nuncia das procellas,E as nuvens, que te roubamMyriadas de estrellas,E o frémito dos euros,E o estourar da vaga,Na praia, que revolve,Na rocha, onde se esmaga,Onde espalhava a brisaSussurro harmonioso,Em quanto do ether puroDescia o sol radioso,Typo da vida do homem,É do universo a vida;Depois do afan repouso,Depois da paz a lida.Se ergueste a Deus um hymnoEm dias de amargura;Se te amostraste gratoNos dias de ventura,Seu nome não maldigasQuando se turba o mar:No Deus, que é pae, confia,Do raio ao scintillar.Elle o mandou: a causaDisso o universo ignora,E mudo está. O nume,Como o universo, adora!»—Oh sim, torva blasphemiaNão manchará seu canto!Brama a procella embora;Pése sobre elle o espanto;Que de sua harpa os hymnosDerramará contenteAos pés de Deus, qual oleoDo nardo recendente.
Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!Salve, oh patria da paz, deserto sancto,Onde não ruge a grande voz das turbas!Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundoO poeta fugir, cingir-se ao ermo,Qual ao freixo robusto a fragil hera,E a romagem do tumulo cumprindo,Só conhecer, ao despertar na morte,Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,Que íntima voz contínuo nos prometteNo transito chamado o viver do homem.
Suspira o vento no alamo frondoso;As aves soltam matutino canto;Late o lebreu na encosta, e o mar sussurraDos alcantís na base carcomida:Eis o ruído de ermo!—Ao longe o negro,Insondado oceano, e o céu ceruleoSe abraçam no horisonte.—Immensa imagemDa eternidade e do infinito, salve!
Oh, como surge magestosa e bella,Com viço da creação, a naturezaNo solitario valle!—E o leve insectoE a relva e os matos e a fragrancia puraDas boninas da encosta estão contandoMil saudades de Deus, que os ha lançado,Com mão profusa, no regaço amenoDa solidão, onde se esconde o justo.E lá campeiam no alto das montanhasOs escalvados pincaros, severos,Quaes guardadores de um logar que é sancto;Atalaias que ao longe o mundo observam,Cerrando até o mar o ultimo abrigoDa crença viva, da oração piedosa,Que se ergue a Deus de labios innocentes.Sobre esta scena o sol verte em torrentesDa manhan o fulgor; a brisa esvaí-sePelos rosmaninhaes, e inclina os toposDo zimbro e alecrineiro, ao rez sentadosDesses thronos de fragas sobrepostas,Que alpestres matas de medronhos vestem;O rocío da noite á branca rosaNo seio derramou frescor suave,E 'inda existencia lhe dará um dia.Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
Negro, esteril rochedo, que contrastas,Na mudez tua, o placido sussurroDas arvores do valle, que vecejamRicas d'encantos, co' a estação propicia;Suavissimo aroma, que, manandoDas variegadas flores, derramadasNa sinuosa encosta da montanha,Do altar da solidão subindo aos ares,És digno incenso ao Creador erguido;Livres aves, vós filhas da espessura,Que só teceis da natureza os hymnos,O que crê, o cantor, que foi lançado,Estranho ao mundo, no bulicio delle,Vem saudar-vos, sentir um goso puro,Dos homens esquecer paixões e opprobrio,E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.Comvosco eu sou maior; mais longe a mentePelos seios dos céus se immerge livre,E se desprende de mortaes memoriasNa solidão solemne, onde, incessante,Em cada pedra, em cada flor se escutaDo Sempiterno a voz, e vê-se impressaA dextra sua em multiforme quadro.
Escalvado penedo, que repousasLá no cimo do monte, ameaçandoRuina ao roble secular da encosta,Que somnolento move a coma estivaAnte a aragem do mar, foste formoso;Já te cubriram cespedes virentes;Mas o tempo voou, e nelle involtaA formosura tua. DespedidosDas negras nuvens o chuveiro espessoE o granizo, que o sólo fustigandoTritura a tenra lanceolada relva,Durante largos seculos, no inverno,Dos vendavaes no dorso a ti desceram,Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,Que, maculando virginal pureza,Do pudor varre a aureola celeste,E deixa, em vez de um seraphim na terra,Queimada flor que devorou o raio.
Cáveira da montanha, ossada immensa,É tua campa o céu: sepulchro o valleUm dia te será. Quando sentiresRugir com som medonho a terra ao longe,Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,Lançar á praia vagalhões cruzados;Tremer-te a larga base, e sacudir-teDe sobre si, o fundo deste valleTe vai servir de tumulo; e os carvalhosDo mundo primogenitos, e os sobros,Arrastados por ti lá da collina,Comtigo hão-de jazer. De novo a terraTe cubrirá o dorso sinuoso:Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,Do seu puro candor hão-de adornar-te;E tu, ora medonho e nú e triste,Ainda bello serás, vestido e alegre.
Mais que o homem feliz!—Quando eu no valleDos tumulos cahir; quando uma pedraOs ossos me esconder, se me fôr dada,Não mais reviverei; não mais meus olhosVerão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,Se em turbilhões de purpura, que ondeiamPelo extremo dos céus sobre o occidente,Vai provar que um Deus ha a estranhos povosE além das ondas trémulo sumir-se;Nem, quando, lá do cimo das montanhas,Com torrentes de luz inunda as veigas:Não mais verei o refulgir da luaNo irrequieto mar, na paz da noite,Por horas em que véla o criminoso,A quem íntima voz rouba o socego,E em que o justo descança, ou, solitario,Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.
Hontem, sentado n'um penhasco, e pertoDas aguas, então quêdas, do oceano,Eu tambem o louvei sem ser um justo:E meditei, e a mente extasiadaDeixei correr pela amplidão das ondas.Como abraço materno era suaveA aragem fresca do cahir das trévas,Emquanto, involta em gloria, a clara luaSumia em seu fulgor milhões d'estrellas.Tudo calado estava: o mar sómenteAs harmonias da creação soltava,Em seu rugido; e o ulmeiro do desertoSe agitava, gemendo e murmurando,Ante o sopro de oeste:—alli dos olhosO pranto me correu sem que o sentisse,E aos pés de Deus se derramou minha alma.