Esta qualidade de homens é quasi a unica que se interessa nos negocios publicos; occupando todos os cargos da administração, constitue o que chamam opinião, domina as eleições e toma assento nas côrtes. D’ella se compõem ospoderes executivo e legislativo, sendo ao mesmo tempo governo e povo. O numero d’estes politicos não é consideravel, mas é demasiado relativamente ao magro orçamento de Portugal. (Lasterie,Portugaletc., naRevue des deux mond.1841)
Esta qualidade de homens é quasi a unica que se interessa nos negocios publicos; occupando todos os cargos da administração, constitue o que chamam opinião, domina as eleições e toma assento nas côrtes. D’ella se compõem ospoderes executivo e legislativo, sendo ao mesmo tempo governo e povo. O numero d’estes politicos não é consideravel, mas é demasiado relativamente ao magro orçamento de Portugal. (Lasterie,Portugaletc., naRevue des deux mond.1841)
«Cada governamental, dizia o conde da Taipa, é um artigo daCARTA.» E se, com effeito, o orçamento era magro de mais para sustentar os politicos; se o communismo burocratico era bem mais difficil de manter do que o monastico, pois os pedintes não se contentavam com o caldo e a brôa das portarias: é tambem facto que os homens de alguma cousa haviam de comer. E se não havia outra occupação para onde se voltassem?
Uma nação de empregadosÉ Portugal? Certamente.Até D. Miguel do thronoDe D. Maria é pretendente.
Uma nação de empregadosÉ Portugal? Certamente.Até D. Miguel do thronoDe D. Maria é pretendente.
Uma nação de empregadosÉ Portugal? Certamente.Até D. Miguel do thronoDe D. Maria é pretendente.
Uma nação de empregados
É Portugal? Certamente.
Até D. Miguel do throno
De D. Maria é pretendente.
(Bandeira,Artilheiro, n. 22).
Não podia ser de outro modo, e já vimos o porquê. Mas o orçamento era magro, magrissimo: se se pagava, honra seja á arte do nosso Law, que achára em Mendizabal um corretor e em Londres uma colonia excellente para a lavra das minas de libras. Comtudo essas fortunas sempre duram pouco; e o Thesouro soffria de intermittentes, com os ataques de escrupulo da opposição. Os pobres empregados viam-se n’uma situação triste: «Em que se parecem com os papa-moscas? Em que estão todos com a bocca aberta». (Ibid. 31)
Se é verdade que quem «ataca o governo não saiu despachado»; (Ibid. 8) não é menos verdade, comtudo, que seria injusto vêr na constituição da familia politica o mobil exclusivo da fome ou dacubiça. Outros motivos, não menos graves, concorriam para a formação dasgenteso para as rivalidades e luctas dos chefes e clientes. «Nunca póde haver ministros bons; e porque? Porque os ministros são seis e os pretendentes seis mil». (Ibid. 28) Nas velhas sociedades patriarchaes ou feudaes, a tradição e a lei mantinham o lugar de cada um; mas agora as fórmas de authoridade natural surgiam do seio da anarchia positiva, e a doutrina da anarchia individualista e da concorrencia livre de todos a tudo, consagrava a ambição do mando com a authoridade de uma theoria.
A ambição, eis ahi, pois, o principal dos motivos pessoaes, superior ainda á cubiça e á fome, cujo papel é mais anonymo e collectivo, mais talvez dos clientes do que dos patrões. A franqueza com que todas as portas se abriam a toda a gente; a segurança com que todo o «individuo» por soberano, se achava apto para tudo; osystema, que destruira a administração especialisada nas antigas juntas e conselhos, e confiava a solução de todos os negocios ás assembléas saídas do cháos da eleição; a victoria que «deitára tudo abaixo» e enchia de orgulhos os demolidores: tudo concorria para inchar as vaidades e aquecer as ambições. Pullulavam oshomens-novos, soletrando Volney e Mirabeau, Dupuy, Rousseau e oCitator, cheios de affirmações, philaucia, e desprezo desdenhoso pelo antigo saber fradesco. E ao lado dos pedantes, havia por todo o reino os ingenuos, cheios de crenças quasi religiosas n’um Evangelho novo. A camara de Ribaldeira escrevia assim a Passos Manuel:
Não somos doutrinarios nem aristocratas; muito presamos Montesquieu, mas não é só elle que fórma a nossapropria bibliotheca; desde Hobbes até Rousseau, desde Machiavelli até Batham (sic) algües outros temos lido; em nossas aldeas tambem consultamos a Historia dos Washingtons, dos Triunvirs (!) dos Neros, etc., etc. (Off. de 20 de dez. autogr. na corr. dos Passos)
Não somos doutrinarios nem aristocratas; muito presamos Montesquieu, mas não é só elle que fórma a nossapropria bibliotheca; desde Hobbes até Rousseau, desde Machiavelli até Batham (sic) algües outros temos lido; em nossas aldeas tambem consultamos a Historia dos Washingtons, dos Triunvirs (!) dos Neros, etc., etc. (Off. de 20 de dez. autogr. na corr. dos Passos)
Os jornaes diziam tudo, conheciam todas as questões, resolviam todos os problemas, porque nada ha mais atrevido do que a ignorancia. E sentados sobre as ruinas da patria assolada, cuspiam-lhe em cima, com desprezo, renegando-lhe a historia, com as cabecinhas empertigadas e occas voltadas para a França, acclamada em phrases banalmente pomposas. A emigração educára-os, e voltavam «enfatuados de sábia», escarnecendo dosgoticos, infelizes que nunca tinham saido de Portugal.
Muitos se julgavam sabios por aprender um cumprimento em francez, misturando de vez em quando umgood nightseguido de uma pirueta; por aprender meia duzia de nomes de autores, usar de charuto, alugar uma cara de tolo, raspar-lhe a vergonha, namorar a torto e a direito, entrar nos botequins, lêr por desfastio, fallar de politica e de não sei que contracto, metter a religião a ridiculo. (Bandeira,Art. 23).
Muitos se julgavam sabios por aprender um cumprimento em francez, misturando de vez em quando umgood nightseguido de uma pirueta; por aprender meia duzia de nomes de autores, usar de charuto, alugar uma cara de tolo, raspar-lhe a vergonha, namorar a torto e a direito, entrar nos botequins, lêr por desfastio, fallar de politica e de não sei que contracto, metter a religião a ridiculo. (Bandeira,Art. 23).
Tudo era necessario e natural, embora seja indubitavelmente grutesco. A pretensão de que aLIBERDADEera a formula absoluta, o systema a verdade revelada e a historia uma peta; a pretensão da infallibilidade da razão individual e da soberania das vontades humanas, tinham de forçosamente trazer os costumes a um estado que corresponde aos outros lados da physionomia social. A anarchia na escola era, e não podia deixar de ser, a anarchia na realidade; e a negação systematica da authoridade collectiva e do caracterorganico da sociedade, depois de condemnar a historia, condemnava a actualidade, valendo-se dos abundantes documentos que ella lhe fornecia. Tudo era peta, burla, infamia:
Em que consiste o direito de votar? É o direito banal pelo qual eu sou obrigado a conduzir um papel de que não faço caso ...Que são os grandes, os chefes, junto ao throno? São canos reaes por onde se despeja toda a immundicie da alma dos seus protectores; delegados á latere do vicio, vendem os interesses do povo por um crachá, fazem e desfazem ministerios com a mesma sem-ceremonia com que despejam o regio ourinol ...Leilões de generos avariados: Boa-fé no largo das Necessidades; Egualdade de Direitos nas secretarias d’Estado; Liberdade de voto, nas assembléas eleitoraes, etc.(Bandeira,Artilheiro, n. 2 e 23).
Em que consiste o direito de votar? É o direito banal pelo qual eu sou obrigado a conduzir um papel de que não faço caso ...
Que são os grandes, os chefes, junto ao throno? São canos reaes por onde se despeja toda a immundicie da alma dos seus protectores; delegados á latere do vicio, vendem os interesses do povo por um crachá, fazem e desfazem ministerios com a mesma sem-ceremonia com que despejam o regio ourinol ...
Leilões de generos avariados: Boa-fé no largo das Necessidades; Egualdade de Direitos nas secretarias d’Estado; Liberdade de voto, nas assembléas eleitoraes, etc.
(Bandeira,Artilheiro, n. 2 e 23).
Com effeito, os chefes não se tornavam crédores de um respeito demasiado.
Á morte de D. Pedro, segundo vimos, Palmella apoderou-se do governo, fundindo-se a sua clientela, ou partido, com o da regencia n’esse momento acabada. O caracter revolucionario do governo da dictadura terminára, e dos antigos ficavam no ministerio apenas Freire, e Carvalho o financeiro indispensavel. Era necessario pôr ponto no «deitar abaixo». Já Palmella, no conselho de Estado, tinha votado com a maioria contra a extincção dos conventos, que apezar d’isso Aguiar decretou em secreto accôrdo com D. Pedro; já pozera depois o seu veto ao remate do plano de Mousinho, a abolição dos morgados. Moderado sempre e aristocrata, o radicalismo dos philosophos parecia-lhe tão mau como a demagogia: quer a vencida demagogia miguelista, quer a demagogia ameaçadorada opposição radical. Com os olhos invariavelmente voltados para a Inglaterra, não concebia outro typo de nação, além do typo aristocratico, liberal e conservador. No governo succedia-lhe agora o que sempre lhe succedera: era antipathico e ninguem o recebia. Reconhecendo todos a sua habilidade, parecia a todos que só a ambição pessoal o movia. O povo, já minado pelas theorias democraticas, considerava-o um tyranno; e a cauda dos odios pessoaes que as intrigas e os erros da emigração lhe tinham feito, voltava-se agora e mordia-o. Quando pela terceira vez aCARTAse rasgou para casar (1 de dezembro de 34) a rainha com o primeiro dos seus dois maridos allemães, quando a opposição pedia «um fidalgo portuguez», dissera-se muito que Palmella pensava em fazer da rainha sua nora.
Mas esse principe contratado para dar herdeiros á corôa portugueza (os nossos visinhos hespanhoes chamamcoburgosa taes maridos) durou pouco; e a sua morte (28 de março de 35) foi motivo de uma crise. Lisboa appareceu crivada do pasquins accusando Palmella de envenenador, o attribuindo-lhe a ambição de querer para seu filho a mão da rainha: Wellington, de lá, apoiava o plano! O povo acreditou e saíu. Houve tumultos graves (29), pedindo-se a cabeça do traidor. Terceira que já em 27, nas Archotadas,carregara essa canalhadesembainhou outra vez a espada fiel e manteve a ordem.
Mas só uma ordem apparente, porque no fundo havia uma anarchia real. Varias clientelas, com os seus chefes e os seus programmas varios, ambicionavam o poder. Palmella era um estorvo e contra elle se fundiam as opposições todas, congregadas para o ataque.
Um pasteleiro queriaFabricar um pastelãoE porque tinha de nadaDeu-lhe o nome de fusãoArde o forno, o pastel dentroPrincipia a fermentarEntornou-se; perde a massa:Só ficou o alguidar.
Um pasteleiro queriaFabricar um pastelãoE porque tinha de nadaDeu-lhe o nome de fusãoArde o forno, o pastel dentroPrincipia a fermentarEntornou-se; perde a massa:Só ficou o alguidar.
Um pasteleiro queriaFabricar um pastelãoE porque tinha de nadaDeu-lhe o nome de fusão
Um pasteleiro queria
Fabricar um pastelão
E porque tinha de nada
Deu-lhe o nome de fusão
Arde o forno, o pastel dentroPrincipia a fermentarEntornou-se; perde a massa:Só ficou o alguidar.
Arde o forno, o pastel dentro
Principia a fermentar
Entornou-se; perde a massa:
Só ficou o alguidar.
(Bandeira,Artilh.12 set.)
Esse alguidar era Saldanha, que nunca pareceu mais vasio, mais de barro, que agora. O rival tinha um pensamento, elle apenas um nome. Palmella dispunha de uma clientela firme; Saldanha, já desacreditado perante os radicaes, embora ainda representasse o papel de seu chefe, era um general sem exercito, condemnado a presidir a um gabinete mixto. Esturrou-se logo o pastel, e o alguidar appareceu transbordando de gente radical: um ministerio puro de opposição. (Sá, Loulé, Caldeira, Campos, 25 de nov.)
Varios tempos, licções eloquentes, arrependimentos já tardios, enchiam a cabeça de Saldanha, lembrando-se do papel que fizera em 26-7, das cousas que authorisara com o seu nome em Paris. Achara-se levado por um ardor de gloria nas azas da revolução, e não tivera podido medir bem o destino d’esse vôo. Já de ha muito que reconsiderara. O leitor lembra-se dos episodios do Cartaxo. Mas, sem o talento do rival, que ficaria sendo, se deixasse de ser o chefe de um radicalismo já então por elle renegado? Uma espada apenas, prompta sempre a obedecer e incapaz de mandar, como Terceira? Não: isso não podia admittil-o a sua vaidade. Seria descer muito. Mas para não descer—elle provavelmente já nem queria subir mais—era impossivel ficar immovel. O partido deque se dizia chefe, tinha-o apenas como um rotulo, um pendão, sem dar a minima importancia ás suas vontades ou desejos pessoaes. Seguia o seu caminho, guiado por outros; e para que Saldanha, agora no governo, não fosse francamente renegado, era mistér que saísse da inacção e se declarasse o dictador que Passos foi no anno seguinte. Já em 27 succedera o mesmo, e lembrava esse episodio: quando faltava apenas extender o braço e sagrar-se chefe da revolução, Saldanha, tendo-a acompanhado até ahi, parava, tremia com escrupulos, fugindo.
Depois do Cartaxo quizera, como dissemos, remir os erros da emigração, encostado-se ao cartismo (Hontem, hoje e amanhan, op. anon.); mas os cartistas que lhe pagariam bem e usariam com prazer da sua espada, como faziam á de Terceira, não lhe davam importancia ás opiniões nem o reconheceriam chefe. Por seu lado os radicaes, vendo a fraqueza inconsistente d’esse chefe theatral, sem repellirem o instrumento que ainda lhes servia, já se esforçavam por mostrar bem claro que lhe não obedeciam. Nas eleições de 34, Saldanha acompanhara D. Pedro ao Porto. Ia n’uma posição singular, para convencer o principe do poder do seu partido, dando por tal fórma um grande peso á sua adhesão ao throno. D. Pedro, por seu lado, levava por fim bater no Porto, com a presença do marechal, a influencia do radicalismo dirigido pelos irmãos Passos; e com Saldanha á mão, Saldanha que lhe asseguraria a obediencia dos que ainda talvez suppozesse seus clientes, esperava tudo da conversão do caudilho militar ás opiniões conservadoras. (Macedo,Traços.)
Os chefes enthusiastas e fortes do futuro Setembrismo deram uma licção ao principe e ao seu acolyto.Saldanha, candidato, foi batido no primeiro escrutinio da eleição: onde estava o seu poder? Mas para dizer a D. Pedro que a victoria lhe não pertencia, e para dizer ao general que apesar do seu procedimento o não renegavam, usando de uma magnanimidade que talvez o desviasse do tortuoso caminho que seguia, elegeram-no no segundo escrutinio. (Macedo,Traços) Era uma victoria mortal, uma estocada em cheio no inchado balão das esperanças dos dois viajantes. Tornaram ambos a Lisboa corridos.
Saldanha, apesar de tudo, ainda foi sentar-se no ultimo e mais elevado banco da esquerda da camara. Illudir-se-hia ainda com a boa figura que fazia de lá a sua presença nobre e pomposa? Talvez; porque se tinha ingenuamente n’uma grande conta, e dava ouvidos abertos á adulação. (Hontem, hoje e am.) Quando Palmella teve de cahir, o chefe natural do governo era Saldanha: mas, como já vimos, a sua falsa posição creou umpastelmixto pouco duradouro; (4 de maio a 18 de nov.) e a entrada do seu partido obrigou-o a elle a sahir, (25 de nov.) corrido, desacreditado e renegado. Pagava o devido preço da sua politica dubia: via fugir-lhe toda a clientela; era um homem perdido e abandonado pelos que tinham sido os seus e o apeavam definitivamente de um throno que durara oito ou nove annos. Retirou para Cintra a ensaiar lavouras. (Carnota,Mem.)
Não foi a queda d’esse chefe que pouco podia e já nada queria fazer, foi a impotencia da nova clientela exaltada quem a precipitou do governo (19 de abril de 36). Voltou a antiga gente, menos Palmella que tambem no isolamento remia velhas culpas. Os dois próceres rivaes, por tanto tempo inimigos poderosos, achavam-se egualmente reduzidosa nada, agora que já se entendiam, depois de feitas as pazes. Havia um outro duque, sem idéas politicas á maneira do diplomata, sem fogachos de ambição e rompantes de soldado á maneira de Saldanha; um outro duque, boa pessoa, politicamente nulla e por isso sempre fiel, excellente individuo para pôr á frente de um governo onde a antiga gente (Freire, Aguiar, Carvalho) restaurada queria começar uma vida nova, pensando soffrear com o utilitarismo e uma administração energicamente pratica, o torvelino de confusões politicas, de ambições pessoaes. Seria outra dictadura. Mas onde estava D. Pedro? Terceira presidiu a esse ministerio que a revolução de setembro derrubou, encerrando o primeiro periodo da vida liberal portugueza.
Afflicto pelos pedintes, pois da sua clientela antiga só os mendigos restavam fieis, despeitado, ferido no seu orgulho, prejudicado nos seus interesses, Saldanha via-se na falsa posição de não poder ser cousa nenhuma. Para o governo, vivamente atacado e decidido a dissolver as camaras, o general buliçoso e ávido, era, porém, a ameaça viva de uma revolta militar. Accusaram-n’o os seus amigos de outr’ora de se ter vendido n’esta occasião: «desde aquella epocha, de deserções em deserções, chegou á situação em que hoje (1854) está, desprezado por todos os partidos: porque se algum ainda lhe faz festa não é porque o estime, é por ser um tronco velho, sobre que ainda alguem se sustenta». (Liberato,Mem.)
Como é desoladora, melancholica, a historia funebre de todos estes homens que a desesperança ou a fraqueza atiram como farrapos, successivamente, para o lixo das gerações! Que singular poder tem a anarchia das idéas, o imperio dosinstinctos soltos, das chimeras aladas fugitivas, para despedaçar os caracteres e perverter as intelligencias! Já um caíu—Mousinho; hoje é outro, o heroe de 26, o soldado do Porto—esse brilhante Saldanha! E ainda agora a procissão começa; ainda agora vae no principio o devorar impossivel do Baal daLIBERDADE, cujo ventre, como o do phrigio, pede honras, talentos, forças e sangue, para o seu consumir incessante!
Com o fim d’este primeiro periodo da anarchia positiva acaba Saldanha, da mesma fórma que Mousinho acabou ás mãos da sua anarchia theorica. Acaba, dizemos; porque, embora a sua vida se prolongue muito—demasiado!—ainda; embora o seu genio irrequieto, as suas necessidades, a sua ambição, lhe não consintam abdicar e sumir-se, como fez Mosinho e como fará Passos: a vida posterior que vae arrastar, se tem ainda momentos theatraes, é uma triste miseria. De chefe de um partido, passa a janisaro de um throno. De Cid, transforma-se em Wallenstein. O que brigara para não ser a espada de Palmella, vem a ser o punhal com que os Cabraes submettem o reino ao seu imperio. Sempre simples, seguro de si, crendo-se muito, não tem a consciencia de quanto desce. Lembra-se do que foi e poude; crê tudo o que os aduladores lhe dizem, confia no soldado que ama por instincto o genio; incha-se com as ovações que mais de uma vez ainda a turba ignara fará á sua sua figura theatral, aberta, viva e san, sempre moça, nas proprias cans da velhice que lhe emmolduram o rosto, augmentando ainda a seducção do aspecto d’esse actor politico: «estou persuadido que seria um bom rei n’um Estado qualquer!»
Rebellado ou submettido, contra ou pelo throno,no campo e em toda a parte, comprado ou temido, Saldanha, suppondo-se um arbitro, não sente quanto desce; não se reconhece um instrumento, nem que o deprimem as cousas que faz. A confiança que tem em si chega a ser infantil: com a mesma franqueza com que suppõe governar, imagina saber; e assim como as suas politicas são chimeras, são tolices as suas obras homeopathicas, ou inspiradas pelo catholicismo ardente que nunca perdeu. Quiz fazer concordar o Genesis com a Geologia, e essa tentativa, ainda quando soubesse o que não sabia, era a mesma que a sua propria pessoa apresentava: a concordancia de um catholico e jacobino. D’essas chimeras ficavam apenas livros maus e acções peiores. É verdade que os livros, luxuosamente impressos, tinham douraduras nas capas: também a vida do marechal tinha uma capa dourada de commendas, cordões e fardas bordadas, que sobre um vulto bem apessoado, com a sua face bella e a tradição da sua bravura, o faziam um excellente embaixador nas côrtes extrangeiras.
Depois, caíu ainda mais, sem o saber, sem o sentir: crendo-se sempre um grande homem. Agarraram-n’o os industriaes especuladores e serviram-se da sua pompa para os seus negocios, sujando-o com trapaças ... Assim acabou a historia a que agora vemos o começo. Em tão deploravel cousa veiu a parar o homem que em 26 fôra como um heroe e o arbitro dos destinos da patria.
Primeiro dos chefes politicos, reunindo á influencia parlamentar a cortezan e uma influencia militar superior á de todos, a segunda phase da vida de Saldanha devia ser esboçada aqui, n’este momento: é um typo revelador. Ninguem teve uma clientela maior. Abandonou-a, renegando-apelo paço; e esses antigos saldanhistas de Paris, livres do estorvo que já os sopeava, preparavam-se para o seu dia. Uma revolução andava no ar: revolução que forçaria Saldanha a desembainhar a espada contra os seus velhos clientes.
Approxima-se a crise; mas o leitor comprimirá a sua impaciencia, porque, se já viu as fórmas mansas do regabofe, o dissipar do dominio nacional, o beber a chuva de libras dos emprestimos inglezes, não viu o outro lado da scena. A orgia era tambem cruel. Havia banquetes e matanças. Estalava champagne, mas tambem estalavam repetidos, insistentes, os tiros dos trabucos na caça dos vencidos. O portuguez mostrava a outra fórma da sua sanha natural, respondendo com a bala á forca.
A eloquencia do nobre Passos conseguira que se revogasse o decreto iniquo das indemnisações:
Tendes vós calculado d’onde hão do saír os meios para provêr á miseria de tantas familias que nós vamos fazer desgraçadas? Ou havemos de tapar os ouvidos e fechar os olhos ao coração, para não vermos espectaculo tão lastimoso? Quando um filho vos pedir pão, dar-lhe-heis uma pedra, ou um punhal ou o cadafalso? (Disc. de 28 de janeiro de 35)
Tendes vós calculado d’onde hão do saír os meios para provêr á miseria de tantas familias que nós vamos fazer desgraçadas? Ou havemos de tapar os ouvidos e fechar os olhos ao coração, para não vermos espectaculo tão lastimoso? Quando um filho vos pedir pão, dar-lhe-heis uma pedra, ou um punhal ou o cadafalso? (Disc. de 28 de janeiro de 35)
A camara, como é sabido, aboliu o decreto, mas os miguelistas ainda pagaram muitas «perdas e damnos»; pouparam-nos ao cadafalso, mas deram-lhes pedras, punhaes e tiros de trabuco em desforra. A segurança de uma victoria tão custosa, tão disputada, sobretudo incerta por tanto tempo, embriagava homens que ouviam aos mestres doutrinas feitas a proposito para os desenfrear. Soltaram-secom effeito todas as cubiças e odios; pagaram-se a tiro todas as offensas; roubou-se e matou-se impunemente. O miguelista era uma victima, um inimigo derrubado: o vencedor punha-lhe o joelho no ventre e o punhal sobre a garganta. Caçavam-se como se caçam os lobos, e cada offensa anterior, cada crime, era punido com uma morte sem processo. Os vencedores, suppondo-se arbitros de uma soberania absoluta, retribuiam a cento por um o que antes haviam recebido.
Não era só, comtudo, a vingança que os movia, nem tambem a cubiça: era um grande medo de que o monstro vencido erguesse a cabeça, á maneira do que ás vezes faz o touro no circo, prostrado pelo bote do matador, levantando-se e investindo, matando ás vezes, já nas ancias da morte. Além do medo, havia ainda a fraqueza da authoridade liberal, fraqueza inevitavel em que prégava ao povo a sua soberania, fraqueza natural no dia seguinte ao da victoria; mas fraqueza infame, pois d’ella viviam os chefes, passando culpas aos seus clientes, fechando os olhos aos roubos e mortes: quando positivamente os não ordenavam para se livrarem de rivaes incommodos ou de inimigos perigosos. Tal é a ultima face da anarchia positiva; assim termina a serie de manifestações de uma doutrina aggravada pelas condições de um momento. Destruira-se na imaginação do povo o respeito da authoridade, condemnando-se-lhe o principio com argumentos de philosopho; destruira-se todo o organismo social; e em lugar d’elle via-se, portanto, a formação espontanea das clientelas, chocando-se, disputando-se, consummando a ruina total, explorando em proveito proprio a confusão dos elementos sociaes desaggregados.
Toda esta dança macabra de partidos e pessoascorria sobre uma nação faminta, apesar das libras que rodavam em Lisboa, e dos tivolis e dos bailes das Laranjeiras. Força fôra accudir com socorros aos lavradores. (Lei de 4 de outubro de 34) Uns queriam que o governo comprasse gados e sementes e os distribuisse; mas adoutrinaergueu-se, chamando a isso communismo, exigindoliberdade. Decidiu-se emprestar dinheiro—oh, tonta tyrannia dos systemas!—para que o pequeno lavrador comprasse grão e rezes n’um paiz assolado.[9]Toda esta dança macabra de bandidismo infrene, dizemos, corria por sobre um paiz devastado. No governo não havia força para impôr ordem, e havia interessados em fomentar a desordem. Cada Ministro tinha o seu bando, os seusbravi, para resolverem a tiro nos campos as pendencias que a phrases se levantavam nas camaras. Mas ainda quando isto assim não fosse, a condemnação em massa de todos os que no antigo regime exerciam as funcções publicas; essa universal substituição do pessoal do Estado, indispensavel para pagar osserviços, trazia aos lugares os aventureiros, os incapazes, e verdadeiros bandidos.
Em vão se tinha duplicado (de 70 a 140) o numero dos julgados: era impossivel corrigir uma desordem que a tantos convinha. Guerrilhas armadas levavam de assalto as casas do miguelista vencido, roubando, matando, dispersando as familias. Havia uma verdadeira, a unica absoluta liberdade—a da força! Na Beira houve exemplos de uma habilidade feroz singular. Matava-se a familia, deixandoa vida apenas ao chefe, em troca de um testamento a favor de alguem. Dias depois o pobre apparecia morto e enriquecia-se d’esse modo. (A dyn. e a revol. de set.)
Os tribunaes, com o seu novo jury, eram machinas de vingança. De Campo-maior, um bom homem escrevia a Manuel Passos o que observara. (29 de maio de 36; corr. autog. dos Passos) Saíra maguado de uma audiencia, em que um negociante da terra pedia seis contos de perdas e damnos a sete miguelistas que tinham deposto como testemunhas contra elle, no tempo do Usurpador. O povo invadira-lhe os armazens, partira lhe as janellas: nem uma testemunha, comtudo, accusava os réus de terem praticado ou ordenado esses actos; mas o advogado «concluiu dizendo aos jurados que já que não podiamos tirar a vida aos realistas por causa da convenção d’Evora-Monte, lhes tirassemos os bens, pois que era esse o unico mal que lhes podiamos fazer.—Os jurados eram quasi todos da guarda-nacional e querem tambem indemnisações: condemnaram os réus na conta pedida. Isto me fez tremer pela liberdade!» (Carta de José Nunes da Matta)
Os magistrados novos roubavam desaforadamente; e o juiz de Angeja conseguiu tornar-se notavel: só lhe faltou levar as portas e os telhados das casas. (A dyn. e a revol. de set.) Era um positivo saque. O povo creou tal raiva a esse ladrão que a gente do Pinheiro foi esperal-o, quando ia a Ovar, obrigando-o a fugir n’uma carreira que só parou no Alemtejo. (Ibid.) Na propria Lisboa succediam cousas incriveis. Por ordem do governo foi saqueada a casa do visconde de Azurara, ausente, e dois amigos do ministro ficaram-lhe com as mobilias. (Ibid.) O que succedeu ás dos conventos sabe-se—ou antes ninguem soube. Bandeira, o Esopo liberal, que bomfoi não ter morrido em 28, publicava no novo diccionario: «Delicto-Delirio.—A significação d’estas duas palavras ainda não está bem fixada, e varía em tempos e paizes diversos».
Não se imagine que escurecemos as côres do quadro. Leia qualquer as memorias do tempo, ouça os que ainda vivem, e ficará sabendo como a anarchia na doutrina, que era uma anarchia no governo, era tambem uma anarchia de bandidos por todo o reino, matando e roubando impunemente. E por cima de tudo isto pairava um medo positivo que entorpecia a acção dos mandantes, e justificava, no sentido de uma defeza feroz, a caça do miguelista.
Aos corcundas promette-se D. Miguel; aos liberaes vertiginosos a carta de 20: revoluçãosinha no Casal-dos-ovos; Juntinha na Pederneira; Juntinha em Barrozas: ahi está tudo em aguas turvas; e é então que D. Miguel pesca. D’um lado oEcco, oInteressante, oPercursore oContrabandista; e do outro oNacional, oDiabrete, oMarche-Marchee aVedetadão com vocês doidos; e no meio d’esta confusão chega ocasus fœderis, invoca-se a estupidez da nação, o desejo do absolutismo—e apparece o Homem! (Bandeira,Artilheiron.º 16)
Aos corcundas promette-se D. Miguel; aos liberaes vertiginosos a carta de 20: revoluçãosinha no Casal-dos-ovos; Juntinha na Pederneira; Juntinha em Barrozas: ahi está tudo em aguas turvas; e é então que D. Miguel pesca. D’um lado oEcco, oInteressante, oPercursore oContrabandista; e do outro oNacional, oDiabrete, oMarche-Marchee aVedetadão com vocês doidos; e no meio d’esta confusão chega ocasus fœderis, invoca-se a estupidez da nação, o desejo do absolutismo—e apparece o Homem! (Bandeira,Artilheiron.º 16)
Á sombra d’esta confusão e d’este medo havia impunidade para tudo; e n’um sentido era benemerito o bandido que assassinava e roubava o inimigo. De facto não terminara a guerra: continuava, sob a fórma de uma caçada. Em Setubal havia infinidade de ladrões e os proprios militares não se atreviam a sair sem armas. (Shaw,Letters) Os salteadores faziam batidas, traziam cadaveres que o povo, tomado de um furor egual ao antigo, mas inverso noobjecto, enterrava, cantando e bailando. Pareciam selvagens. (Ibid.) Serpa ficou celebre pela gente que ali foi morta a tiro, sem combate, pelas janellas e pelas portas. Batia-se: vinham abrir, e uma bala entrava e o infeliz morria. Era um miguelista: não vale a pena incommodos. A justiça não se movia; pagou culpas antigas! E os assassinos eram benemeritos. No Porto (20 de março de 35) o façanhudo Pita Bezerra, antigo carrasco cuja morte se comprehende melhor, indo á Relação a perguntas, foi assaltado pela multidão que o tirou á escolta, levando-o á Praça-Nova onde o matou; arrastando o cadaver puxado por uma corda, pela ponte, a Villa-nova, como quem mostra um lobo morto ás aldeias, e deitando-o por fim ao rio. As quadrilhas de Midões assolavam toda a Beira. Arganil, Avô, Coja, Folques, Goes, Villa-cova foram positivamente saqueadas, levando os bandidos o despejo em comboyos de carros. (Secco,Mem.) O bandoleirismo florescia n’essa região serrana, como raiz de uma velha planta que rebenta assim que bebe um raio de sol. Eram os descendentes de Viriato. O miguelismo armara-os, e agora, bafejados pelo ar benefico da anarchia, uns, implorados e defendidos pelos senhores de Lisboa a quem serviam, voltavam-se contra os miguelistas, indifferentes a partidos e opiniões, seguindo o seu instincto de uma vida aventurosa e bravia. Outros, porém, mantinham-se fieis aos padres, e nos broncos cerebros d’esses quasi selvagens apenas os fetiches do catholicismo[10]podiam ás vezes mais do que os instinctos espontaneos. Era uma Italia meridional, nas suas serras, o paiz que acabara sendo em Lisboa uma Napoles. As Beiras viviam, á maneira da Grecia de ha poucosannos, uma existencia primitiva da tribu armada, alimentando-se do roubo, admirando a destreza e a coragem dos seus chefes.
Havia na serra da Estrela a guerrilha miguelista do padre Joaquim, de Carragozela, irmão do celebre Luiz Paulino secretario da Universidade no tempo de D. Miguel. Havia contra ella as dos Brandões, de Midões, que serviam o Rodrigo e o Saldanha, chefes-de-partido em Lisboa. Fundiram-se um dia esses inimigos no convenio de Gavinhos; mas ficaram dessidentes os do Caca, fieis ao miguelismo, e acabaram queimados n’uma adega, depois de a defenderem contra os sitiantes. (Secco,Mem.) A fusão das guerrilhas da Beira creou na serra um verdadeiro terror, porque ninguem ousava desobedecer, e imperavam, saqueavam: houve casas queimadas e, á luz dos incendios, orgias de vinho e estupros. (Ibid.)
E nas revoluções e pronunciamentos que vão principiar em 36, n’essa segunda epocha em que a anarchia passa violentamente para o governo, tornando todo o exercito n’um corpo de guerrilhas, vê-se a tropa, ora alliada, ora inimiga dos bandidos; e os palikaras portuguezesfazendo eleições, pela Patuléa ou pelo Cabraes, levando as leis nas boccas dos trabucos e resolvendo a tiro as pendencias locaes.
Vem distante, porém, isso ainda. Agora a faina é saquear e eliminar o miguelista. De 34 a 39 só em Oliveira-do-Conde e nas Cabanas houve mais de trinta assassinatos impunes. (Ibid.) E nas côrtes e 38, Franzini apresentou uma nota do periodo de julho de 33 a 37, que diz assim:
O minhoto roubava melhor; na Beira e no Algarve matava-se com mais furia. No Porto houvera mais de quinhentos mortos; mas a capital, onde em um anno apenas (Disc. de Franzini, sess. de 38) se tinham visto 194 assassinatos e 614 roubos—homem morto, um dia sim um dia não, e dois roubos em cada dia!—a capital levava a palma a tudo. Não era ahi o centro, o foco, o tabernaculo?
Voltemos ao nosso Esopo: «Filho de burro não póde ser cavallo, dizia meu avô», e valendo-se da fórma popular da fabula, põe o burro em dialogo com a Liberdade:
Não fujas, diz-lhe o jumento,Burro, que havia eu fazer?Burro nasci e só burroÉ meu destino morrer!
Não fujas, diz-lhe o jumento,Burro, que havia eu fazer?Burro nasci e só burroÉ meu destino morrer!
Não fujas, diz-lhe o jumento,Burro, que havia eu fazer?Burro nasci e só burroÉ meu destino morrer!
Não fujas, diz-lhe o jumento,
Burro, que havia eu fazer?
Burro nasci e só burro
É meu destino morrer!
Burro, como se sabe, queria dizer miguelista; e o poeta exprimia a convicção intima da nossa incapacidade para comprehender a nova lei. Com effeito, assim parecia, ao observar-se o que se passava por toda a parte: a vergonhosa miseria dos caracteres, a absoluta impotencia das vontades no sentido de reconstituirem de qualquer modo o organismo derrubado pelos golpes do machado de Mousinho. As lascas do velho tronco, os ramos e as folhas da arvore antiga, caídos por terra, apodreciam no charco das lagrimas e das saudadesdos vencidos, do sangue copioso dos cadaveres. Era uma decomposição rapida e já tudo fermentava.
Mas no lodo dos paúes, nadando sobre as aguas esverdeadas e putridas, vê-se abrir, elegante e candida, a flôr do nenuphar. Assim brotava pura no charco nacional a esperança de um futuro, a miragem de um destino, a chimera de uma doutrina, o encanto de uma voz—a meiga voz de Passos, um messias, pedindo paz, ensinando amor.
Eu detesto os homens rancorosos. Essa gente é má. Quem aborrece e não ama, não póde ser virtuoso, nem póde ser livre,—porque a liberdade é a humanidade. (Disc. de 10 de set. de 34)
Eu detesto os homens rancorosos. Essa gente é má. Quem aborrece e não ama, não póde ser virtuoso, nem póde ser livre,—porque a liberdade é a humanidade. (Disc. de 10 de set. de 34)
A liberdade era para o novo apostolo uma cousa diversa, porque as expressões vagas consentem que cada qual introduza n’ellas os mais variados pensamentos. Para Mousinho fôra um estoicismo secco uma negação do passado, uma doutrina racional e utilitaria: agora surgia umaLIBERDADEnova, especie de vestal sagrada e evangelica, envolvida n’uma nuvem doirada de ambições poeticas. O liberalismo portuguez via nascer-lhe um Lamartine; e no descredito da primeira definição, as esperanças voltavam-se para a nova fórmula.
Temo muito a liberdade nos discursos, mas pouca nos corações. Ha muitos que a intendem, mas poucos que a saibam amar. Temos mais liberaes nas bibliothecas do que nas praças, nos tribunaes, no gabinete. Muitos ha que tém lido, que sabem toda a liberdade, e que ainda tém coração para a amarem, mas não o tém para a defenderem. (Disc. de 10 de nov. de 34)
Temo muito a liberdade nos discursos, mas pouca nos corações. Ha muitos que a intendem, mas poucos que a saibam amar. Temos mais liberaes nas bibliothecas do que nas praças, nos tribunaes, no gabinete. Muitos ha que tém lido, que sabem toda a liberdade, e que ainda tém coração para a amarem, mas não o tém para a defenderem. (Disc. de 10 de nov. de 34)
Ardia então na camara o odio aos vencidos, e as palavras de paz eram um acto de coragem.Essas palavras do parlamento, ainda ouvidas com attenção de colera ou de esperança, eram commentadas pelas provincias; e de muitos pontos, em numerosas cartas sem nome, chegavam ao tribuno eloquente os abraços, os applausos. «Não estranhe chamar-lhe amigo, sem nunca o ter conhecido: quem trabalha para o meu bem, tem jus á minha amisade», dizia um; e outro: «O modo por que se houve na questão das indemnisações denota um saber profundo. É nimiamente liberal porque é tolerante, e humano porque é sabio. Acceite o signal de reconhecimento de um militar que recebeu duas feridas na guerra e se gloria de pensar pela cabeça de v. s.» E assim outros, muitos. (Corr. authogr. dos Passos, 34-5)
Mas, por duros e resequidos que a guerra e a baixeza tornem os corações dos homens, raro será o instante em que os não commova uma palavra sentida, de uma bocca virtuosa. Intemerato no seu nome, seductor na sua voz, candido, ingenuo, virtuoso, tambem estoico, Passos destacava-se e erguia-se por sobre os outros com a superioridade dos genios caridosos sobre os espiritos sómente lucidos. Era mais do que uma rasão, era uma virtude; mais que um homem, quasi um santo. Em baixo, muito em baixo, ficavam, chafurdando em odios e vilezas, as turbas dos politicos. A palavra d’elle subia, evaporando-se nas nevoas de uma aspiração poetica, superior ao que a condição dos homens permitte realisar. Na sua caridosa chimera pedia mais do que paz, pedia egualdade e um estreito abraço dos vencedores e dos vencidos.
A minha firme convicção é que todas as opiniões devem ser representadas e que todas devem ter garantias. Isto que eu quero, querem-no tambem os opprimidos ... Nãoquero a pena de morte para nenhum cidadão portuguez: oxalá que nunca mais ella seja executada sobre a terra! Não quero tambem penas perpetuas, porque até no fundo de uma prisão a nenhum desgraçado deve faltar o balsamo consolador da Esperança ... Penso que as lagrimas de um parricida, regando o tumulo do pae trucidado, são bastantes para lhe fazer perdoar tão grande crime. (Disc. de 28 de jan. de 35)
A minha firme convicção é que todas as opiniões devem ser representadas e que todas devem ter garantias. Isto que eu quero, querem-no tambem os opprimidos ... Nãoquero a pena de morte para nenhum cidadão portuguez: oxalá que nunca mais ella seja executada sobre a terra! Não quero tambem penas perpetuas, porque até no fundo de uma prisão a nenhum desgraçado deve faltar o balsamo consolador da Esperança ... Penso que as lagrimas de um parricida, regando o tumulo do pae trucidado, são bastantes para lhe fazer perdoar tão grande crime. (Disc. de 28 de jan. de 35)
A liberdade é a humanidade, dissera o novo apostolo da doutrina; mas o seu Evangelho não era, como o antigo, apenas um discurso, falando ao sentimento indefinido, á piedade, á caridade, irreductivel a formulas e doutrinas, fundo de luz nebulosa do puro espirito humano, que o eleva acima da realidade triste e o poetisa amaciando-lhe as agruras e espinhos: o Evangelho de Passos era um canon, uma lei, uma doutrina—e por isso uma chimera. Era uma poesia, posta na prosa necessariamente rasteira da politica. D’esses miguelistas que a sua caridade perdoava, e a sua humanidade restaurava ao gremio de cidadãos, dizia:
Deixal-os ... se ainda não tém olhos para fitar a Urna e vêr que alli está a liberdade de todos os homens! (Disc. de 10 de nov. de 34)
Deixal-os ... se ainda não tém olhos para fitar a Urna e vêr que alli está a liberdade de todos os homens! (Disc. de 10 de nov. de 34)
Os bellos sentimentos tornavam-se opiniões, e faziam-se idolatria; das nuvens doiradas de esperanças e desejos ficava o pó de umas formulas e a illusão de um symbolo. A Urna era outra Cruz. E onde os artigos doutrinarios punham a soberania da razão individual e o absolutismo do direito do homem, a nova definição que Passos dava á Liberdade, rejuvenescendo o jacobinismo da sua infancia com a poesia da sua alma, punha a soberania do povo, a voz da multidão, congregada nosseus comicios. O paiz perdia-se por não a querer ouvir; Portugal caía por vêr na Liberdade uma doutrina de individualismo, não uma doutrina de democracia. Tudo o que se fizera fôra um erro: tudo havia a fazer de novo. Assim, nas ruinas da velha cidade portugueza assentára o dominio de um systema que, arruinado em dois annos, ia ceder o lugar a outro systema novo e a novas ruinas.
Havia cá fóra, para commentar e applaudir as palavras calorosas do tribuno, prégando a nova lei, um vasto numero de homens armados, e uma opinião unanime condemnando a gente velha. Havia, além d’isso, esse estado de espirito aventuroso, excitado, prompto a romper: estado de espirito proprio de quem chega de uma guerra. Ao voltarem á capital, os batalhões de voluntarios não tinham desarmado; percebiam vagamente que, apesar de terminada a campanha, a guerra não acabara ainda. Tudo o que o governo fez para os desarmar por boas foi inutil: punham guardas ás portas dos lugares indicados para a entrega das espingardas, afim de impedir que os pusillanimes obedecessem. (A dynastia e a revol. de set.) De arma ao hombro, pois, havia uma legião prompta a apoiar as palavras do tribuno que a força das cousas ia obrigar a descer da camara para a rua, do céu ethereo das suas esperanças para o triste fim das suas desillusões. Passos acabará, como acabou Mousinho.
De tal fórma termina o primeiro periodo d’esta historia: dois annos que principiaram com o acabar da grande guerra. Vamos estudar asegundaliberdade; depois estudaremos aterceira, aquarta, etc.—até ao fim.
NOTAS DE RODAPÉ:[1]Pela primeira vez tenho occasião de me referir ao interessante livro do snr. Macedo,Traços da historia contemporanea; e no decurso d’este trabalho o leitor verá quanto me valeram os subsidios que encerra e de que me utilisei a mãos largas. Quando este facto me não auctorisasse a confessa-lo, obrigava-me a isso a nimia benevolencia com que, inspirado por uma amisade que o levou a vêr em mim meritos que não possuo, o snr. Macedo me honrou dedicando-me o seu livro. Estas palavras são o testemunho de um agradecimento que devia ser publico, assim como a offerta o foi.[2]«Tudo sorria; e não se divisava pedaço de terra sem lavoura: o systema das irrigações lombardas era admiravelmente percebido e executado. Todas ascottages, respirando um bem-estar industrioso, tinham hortas bem resguardadas com seus meloaes e aboboras, sua fonte, e cepas, figueiras e macieiras em latadas. Os camponezes bem vestidos, olhavam-nos affavelmente, porque tinham o coração aberto pelo bom trato, os celleiros cheios, numerosos os rebanhos, e nos frades de Alcobaça senhorios, nem avarentos nem tyrannos.»Recollections, etc. (1794) do auct. de Vathek. (Beckford.)[3]Desde muito que, no conselho, Aguiar, contra a opinião da maioria, instava pela abolição dos conventos. No dia em que em Evora-Monte se assignava a convenção, terminando a guerra, Aguiar voltou a insistir e tornou a ser vencido. D. Pedro, porém, reteve-o, depois da saida dos collegas, e ordenou-lhe que lavrasse o decreto. O ministro foi do paço para a imprensa, ahi redigiu o decreto, que se compôz e imprimiu em segredo, á sua vista, e não saiu da imprensa senão quando oDiariosaiu tambem. Os collegas souberam, pois, pela folha, da decisão tomada, e que, a não ser assim, nunca se effectuaria.—Comm. verbal de Duarte Nazareth, que a houvera do proprio Aguiar.Eis aqui a estatistica das corporações monasticas e os seus rendimentos em 1834. (V.Mappa das corp. ext.pub. 42.)a) Ordens militaresChristocom3casasRendimentos34:482 m. rs.S. Thiago»1»Aviz»1»b) Ordens monachaesCruzios»12conv.e 5hosp.120:244m. rs.Loyos»8»e 1»55:066»Cartuxos»26:253»Bentos»22»4»106:665»Bernardos»15»1»63:178»Jeronymos»9»1»44:391»c) CongregaçõesNeris»8»30:053»Rilhafoles»4»9:015»Camillos»6»6:427»Congregados»1»1:674»Theatinos»1»1:116»d) Ordens mendicantesPaulistascom13conv.e 2hosp.25:963»Gracianos»17»2»45:749»Carmelitas»13»2»22:913»Dominicos»22»2»65:563»Trinos»8»1»15:335m. rs.Hospitaleiros»6»4:566»Franciscanos»57»4»19:437»e) Id. reformadasPaulistas»2»528»Grillos»173»14:790»Marianos»151»26:844»Trinos»2222»Capuchos»9910»19:794»Terceiros»201»13:289»Missionarios»4476»f) DiversosConceição»12»283»Minimos»11»2:051»Nazarenos»1»53»Barbadinhos»2»630»Carm. all.»1»3:124»Dom. irland.»13:364m. rs.Total: 389 estabelecimentos com o rendimento de 763 contos de réis; sem contar 12 conventos de freiras egualmente supprimidos.Para que se possa comparar a decadencia das corporações no periodo das luctas civis desde 20, eis aqui a estatistica doMappa, pub. em 22: Conventos e hospicios do sexo masculino, 402; com 6:249 pessoas, (sendo 628 creados) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 607 contos. Id. do sexo feminino, 132; com 5:863 pessoas, (sendo educandas 912 e 1:971 creadas) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 341 contos. O sr. Soriano (Utopias desmascaradas, op.) calcula assim o total dos bens-nacionaes provenientes das leis de 32-4:Rendimentos dos conventos supprimidos763contosDeduzindo o valor dos dizimos, direitos senhoriaes, quartas, oitavas, jugadas, etc. abolidos240»Rendimento da propriedade523»O que equivale a um capital de contos12:000Propriedade dos 12 conventos de freiras supprimidos?Alfaias de todos os conventos, sumidas(400)Bens da Universidade de Coimbra, da Patriarchal, de S. Maria-Maior, das capellas da corôa, das casas do Infantado e das Rainhas4:000Até 1836 tinham-se vendido cinco mil contos; e no orçamento de 1838-9 apparecem como para vender 11:595.[4]Se o leitor quizer exprimir o valor real dos numeros com que se denominam todos os emprestimos, expropriações etc. que vamos estudando, tem n’este preço um meio. Como se sabe, varias causas, e principalmente a descoberta das minas da California, diminuiram posteriormente o valor dos metaes preciosos. Se a libra sterlina valia (em 34) 3$750 rs. e hoje vale 4$500, é claro que os numeros que temos estudado têem da ser augmentados com a quinta parte. Assim, o valor dos bens dos conventos orçado em doze mil contos era o equivalente de 14:400 de hoje.[5]V. asContas, na sessão de 35 (9 de janeiro), de agosto 33 ao fim de junho 34:Receita:Ordinariacontos3:513Extraordinaria:Emprestimos7:847Prop. nacion.2:51610:36313:876Despeza:Ordinaria:Casa real177Reino, Extr. Justiça672Marinha1:299Guerra4:932Fazenda4117:491Especial:Serviço da divida e oper. de fundos3:415Diversas2:97012:876[6]V.Orçamentode 35-6, sessão de 35:ReceitaDespezaImp. directos1:638Serviço dos ministerios8:890» indirectos5:604Divida interna1:984Proprios e diversos1:178» externa1:870Ultramar1:482Ultramar1:612Deficit4:454Contos14:356Contos14:356[7]1.ª ed. (1881).[8]V.Quadro das instituições primitivas, pp. 57 e segg.[9]A lei de 4 de outubro de 34 mandou emprestar até 650 contos (a juro de 5 por cento e amortisação em 5 annos) assim distribuidos por provincias: Algarve 108; Alemtejo 123; Beira-Alta 21; Beira-Baixa 25; Douro 103; Extremadura 161; Minho 55; Traz-os-Montes 28.—Em novembro havia metade dos emprestimos feitos.[10]V.Syst. dos mythos relig., pp. 297 e segg.
[1]Pela primeira vez tenho occasião de me referir ao interessante livro do snr. Macedo,Traços da historia contemporanea; e no decurso d’este trabalho o leitor verá quanto me valeram os subsidios que encerra e de que me utilisei a mãos largas. Quando este facto me não auctorisasse a confessa-lo, obrigava-me a isso a nimia benevolencia com que, inspirado por uma amisade que o levou a vêr em mim meritos que não possuo, o snr. Macedo me honrou dedicando-me o seu livro. Estas palavras são o testemunho de um agradecimento que devia ser publico, assim como a offerta o foi.
[1]Pela primeira vez tenho occasião de me referir ao interessante livro do snr. Macedo,Traços da historia contemporanea; e no decurso d’este trabalho o leitor verá quanto me valeram os subsidios que encerra e de que me utilisei a mãos largas. Quando este facto me não auctorisasse a confessa-lo, obrigava-me a isso a nimia benevolencia com que, inspirado por uma amisade que o levou a vêr em mim meritos que não possuo, o snr. Macedo me honrou dedicando-me o seu livro. Estas palavras são o testemunho de um agradecimento que devia ser publico, assim como a offerta o foi.
[2]«Tudo sorria; e não se divisava pedaço de terra sem lavoura: o systema das irrigações lombardas era admiravelmente percebido e executado. Todas ascottages, respirando um bem-estar industrioso, tinham hortas bem resguardadas com seus meloaes e aboboras, sua fonte, e cepas, figueiras e macieiras em latadas. Os camponezes bem vestidos, olhavam-nos affavelmente, porque tinham o coração aberto pelo bom trato, os celleiros cheios, numerosos os rebanhos, e nos frades de Alcobaça senhorios, nem avarentos nem tyrannos.»Recollections, etc. (1794) do auct. de Vathek. (Beckford.)
[2]«Tudo sorria; e não se divisava pedaço de terra sem lavoura: o systema das irrigações lombardas era admiravelmente percebido e executado. Todas ascottages, respirando um bem-estar industrioso, tinham hortas bem resguardadas com seus meloaes e aboboras, sua fonte, e cepas, figueiras e macieiras em latadas. Os camponezes bem vestidos, olhavam-nos affavelmente, porque tinham o coração aberto pelo bom trato, os celleiros cheios, numerosos os rebanhos, e nos frades de Alcobaça senhorios, nem avarentos nem tyrannos.»Recollections, etc. (1794) do auct. de Vathek. (Beckford.)
[3]Desde muito que, no conselho, Aguiar, contra a opinião da maioria, instava pela abolição dos conventos. No dia em que em Evora-Monte se assignava a convenção, terminando a guerra, Aguiar voltou a insistir e tornou a ser vencido. D. Pedro, porém, reteve-o, depois da saida dos collegas, e ordenou-lhe que lavrasse o decreto. O ministro foi do paço para a imprensa, ahi redigiu o decreto, que se compôz e imprimiu em segredo, á sua vista, e não saiu da imprensa senão quando oDiariosaiu tambem. Os collegas souberam, pois, pela folha, da decisão tomada, e que, a não ser assim, nunca se effectuaria.—Comm. verbal de Duarte Nazareth, que a houvera do proprio Aguiar.Eis aqui a estatistica das corporações monasticas e os seus rendimentos em 1834. (V.Mappa das corp. ext.pub. 42.)a) Ordens militaresChristocom3casasRendimentos34:482 m. rs.S. Thiago»1»Aviz»1»b) Ordens monachaesCruzios»12conv.e 5hosp.120:244m. rs.Loyos»8»e 1»55:066»Cartuxos»26:253»Bentos»22»4»106:665»Bernardos»15»1»63:178»Jeronymos»9»1»44:391»c) CongregaçõesNeris»8»30:053»Rilhafoles»4»9:015»Camillos»6»6:427»Congregados»1»1:674»Theatinos»1»1:116»d) Ordens mendicantesPaulistascom13conv.e 2hosp.25:963»Gracianos»17»2»45:749»Carmelitas»13»2»22:913»Dominicos»22»2»65:563»Trinos»8»1»15:335m. rs.Hospitaleiros»6»4:566»Franciscanos»57»4»19:437»e) Id. reformadasPaulistas»2»528»Grillos»173»14:790»Marianos»151»26:844»Trinos»2222»Capuchos»9910»19:794»Terceiros»201»13:289»Missionarios»4476»f) DiversosConceição»12»283»Minimos»11»2:051»Nazarenos»1»53»Barbadinhos»2»630»Carm. all.»1»3:124»Dom. irland.»13:364m. rs.Total: 389 estabelecimentos com o rendimento de 763 contos de réis; sem contar 12 conventos de freiras egualmente supprimidos.Para que se possa comparar a decadencia das corporações no periodo das luctas civis desde 20, eis aqui a estatistica doMappa, pub. em 22: Conventos e hospicios do sexo masculino, 402; com 6:249 pessoas, (sendo 628 creados) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 607 contos. Id. do sexo feminino, 132; com 5:863 pessoas, (sendo educandas 912 e 1:971 creadas) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 341 contos. O sr. Soriano (Utopias desmascaradas, op.) calcula assim o total dos bens-nacionaes provenientes das leis de 32-4:Rendimentos dos conventos supprimidos763contosDeduzindo o valor dos dizimos, direitos senhoriaes, quartas, oitavas, jugadas, etc. abolidos240»Rendimento da propriedade523»O que equivale a um capital de contos12:000Propriedade dos 12 conventos de freiras supprimidos?Alfaias de todos os conventos, sumidas(400)Bens da Universidade de Coimbra, da Patriarchal, de S. Maria-Maior, das capellas da corôa, das casas do Infantado e das Rainhas4:000Até 1836 tinham-se vendido cinco mil contos; e no orçamento de 1838-9 apparecem como para vender 11:595.
[3]Desde muito que, no conselho, Aguiar, contra a opinião da maioria, instava pela abolição dos conventos. No dia em que em Evora-Monte se assignava a convenção, terminando a guerra, Aguiar voltou a insistir e tornou a ser vencido. D. Pedro, porém, reteve-o, depois da saida dos collegas, e ordenou-lhe que lavrasse o decreto. O ministro foi do paço para a imprensa, ahi redigiu o decreto, que se compôz e imprimiu em segredo, á sua vista, e não saiu da imprensa senão quando oDiariosaiu tambem. Os collegas souberam, pois, pela folha, da decisão tomada, e que, a não ser assim, nunca se effectuaria.—Comm. verbal de Duarte Nazareth, que a houvera do proprio Aguiar.
Eis aqui a estatistica das corporações monasticas e os seus rendimentos em 1834. (V.Mappa das corp. ext.pub. 42.)
Até 1836 tinham-se vendido cinco mil contos; e no orçamento de 1838-9 apparecem como para vender 11:595.
[4]Se o leitor quizer exprimir o valor real dos numeros com que se denominam todos os emprestimos, expropriações etc. que vamos estudando, tem n’este preço um meio. Como se sabe, varias causas, e principalmente a descoberta das minas da California, diminuiram posteriormente o valor dos metaes preciosos. Se a libra sterlina valia (em 34) 3$750 rs. e hoje vale 4$500, é claro que os numeros que temos estudado têem da ser augmentados com a quinta parte. Assim, o valor dos bens dos conventos orçado em doze mil contos era o equivalente de 14:400 de hoje.
[4]Se o leitor quizer exprimir o valor real dos numeros com que se denominam todos os emprestimos, expropriações etc. que vamos estudando, tem n’este preço um meio. Como se sabe, varias causas, e principalmente a descoberta das minas da California, diminuiram posteriormente o valor dos metaes preciosos. Se a libra sterlina valia (em 34) 3$750 rs. e hoje vale 4$500, é claro que os numeros que temos estudado têem da ser augmentados com a quinta parte. Assim, o valor dos bens dos conventos orçado em doze mil contos era o equivalente de 14:400 de hoje.
[5]V. asContas, na sessão de 35 (9 de janeiro), de agosto 33 ao fim de junho 34:Receita:Ordinariacontos3:513Extraordinaria:Emprestimos7:847Prop. nacion.2:51610:36313:876Despeza:Ordinaria:Casa real177Reino, Extr. Justiça672Marinha1:299Guerra4:932Fazenda4117:491Especial:Serviço da divida e oper. de fundos3:415Diversas2:97012:876
[5]V. asContas, na sessão de 35 (9 de janeiro), de agosto 33 ao fim de junho 34:
[6]V.Orçamentode 35-6, sessão de 35:ReceitaDespezaImp. directos1:638Serviço dos ministerios8:890» indirectos5:604Divida interna1:984Proprios e diversos1:178» externa1:870Ultramar1:482Ultramar1:612Deficit4:454Contos14:356Contos14:356
[6]V.Orçamentode 35-6, sessão de 35:
[7]1.ª ed. (1881).
[7]1.ª ed. (1881).
[8]V.Quadro das instituições primitivas, pp. 57 e segg.
[8]V.Quadro das instituições primitivas, pp. 57 e segg.
[9]A lei de 4 de outubro de 34 mandou emprestar até 650 contos (a juro de 5 por cento e amortisação em 5 annos) assim distribuidos por provincias: Algarve 108; Alemtejo 123; Beira-Alta 21; Beira-Baixa 25; Douro 103; Extremadura 161; Minho 55; Traz-os-Montes 28.—Em novembro havia metade dos emprestimos feitos.
[9]A lei de 4 de outubro de 34 mandou emprestar até 650 contos (a juro de 5 por cento e amortisação em 5 annos) assim distribuidos por provincias: Algarve 108; Alemtejo 123; Beira-Alta 21; Beira-Baixa 25; Douro 103; Extremadura 161; Minho 55; Traz-os-Montes 28.—Em novembro havia metade dos emprestimos feitos.
[10]V.Syst. dos mythos relig., pp. 297 e segg.
[10]V.Syst. dos mythos relig., pp. 297 e segg.