IIPASSOS MANUEL

IIPASSOS MANUEL

A antiga gente do governo não se achava melhor com a substituição de Palmella por Terceira: o segundo duque valia pouco e estava ameaçado de cair depressa. Esse primeiro semestre de 36 corria prenhe de ameaças. Já Carvalho não podia sacar dinheiro de fóra e a sua fecundidade desacreditava-se. Succedia-lhe atrazar os pagamentos, como a qualquer outro. Já se deviam 15:000 contos, por vencimentos e despezas dos ministerios (5:426), por letras e escriptos do Thesouro (3:610), por adiantamentos do banco, (4:494—V.Rel. de Passos, sess. de 37) sem falar na matilha de credores por divida mansa não reconhecida, ou esquecida, em 34. N’um regime de communismo burocratico, como o nosso, isto era gravissimo: casa onde não ha pão ...

Por isso, não falando dos clamores das ruas, havia no seio da camara uma opposição vehemente e applaudida. Eram os dois Passos e Sampaio, era José Estevão e o banqueiro Rio-Tinto; eram Costa-Cabral, o Nunes, Sá-Nogueira e Julio Gomes. O ministerio sentia-se tão mal que em julho (14) dissolvera a camara, para reunir gente sua, convocada para setembro. De fóra batia-o oNacional, á frente da imprensa inimiga; e no club celebre dosCamillos (os ministros diziamCamellos) troava acima de todas a voz de Costa Cabral pedindo uma tyrannia de plebe, o sangue dos aristocratas e dizem que até a cabeça da rainha. (Costa Cabral em relevo, anon.) Era o nosso Marat: porque nós, copiando a França, imitavamos sempre os figurinos de Paris.

O governofezas eleições, que foram como todas; e como sempre,venceu. O reino inteiro o queria com uma unanimidade e um enthusiasmo, que poucas semanas bastaram para demonstrar. Venceu em toda a parte: salvo no Porto rebelde, imperio, cidadella, dos irmãos Passos, de Bouças. Já que tudo era copia, digamos tambem que a chegada dos deputados do Porto a Lisboa foi como a dos marselhezes a Paris.

Succedeu isso no dia 9, no Terreiro-do-Paço, onde gente armada foi esperar os recemvindos e acclamal-os, com morras áCARTAe ao governo, vivas á constituição de 1820 (ou 22) e á revolução. «Indo-nos deitar na cama á sombra daCARTA, acordámos debaixo das leis da constituição dada pelo povo no anno de 1820. Todos esfregavam os olhos e perguntavam se era um sonho o que ouviam: mas era com effeito uma realidade.» (Liberato,Mem.) Foi assim, com esta simplicidade, que as cousas mudaram; o que prova, não a força dos que venciam, mas a podridão das cousas vencidas. Havia a consciencia de que a machina social, por desconjuntada, não marchava; e um tal sentimento deu o caracter de umasaldanhadaá revolução de setembro, contra a qual ninguem protestou. No dia 10, de madrugada, a guarda-nacional foi ao Paço exigir a queda do gabinete e a proclamação da constituição de 20. No dia 11 o ministerio caía, e de tarde foi a rainha aos Paços do concelho jurar a nova—ou antiga—constituição. Inutil édizer que a camarafeitanão se reuniu: era necessariofazeroutra, de feitio diverso. Entretanto acclamara-se a dictadura de Passos, Vieira de Castro e Sá da Bandeira. A victoria surprehendera a todos, e mais do que ninguem aos vencedores que a não esperavam. Era mistér decisão, porque o barometro não é fiel quando sobe rapidamente. Chamou-se a capitulo: o dictador-em-chefe, com Leonel e Julio Gomes, deviam ordenar a maneira de eleger as novas côrtes. O Rio-Tinto offerecia dinheiro. Havia um formigar espesso de gente dedicada, prompta a sacrificar-se pela patria, pedindo os lugares que os vencidosdevoravamhavia tempo demasiado. Passos «tinha o braço cançado de assignar demissões».

Nós já conhecemos, desde 26, o tribuno do Porto elevado ao fastigio do poder. Os dois Passos, filhos de um proprietario de Bouças, pertenciam a essa burguezia do norte do reino por estirpe e temperamento. Tinham nascido na abastança, desconhecendo as privações crueis da infancia que umas vezes formam os homens, mas muitas mais os estragam. Seus paes, sem grandes propriedades ruraes—ninguem as tem no Minho—possuiam bastos capitaes moveis, o que tambem no Minho é commum: em 28 tinham na companhia dos vinhos e em casas de commercio do Porto o melhor de sessenta mil cruzados. Na casa de Guifões havia frequentes banquetes á antiga portugueza, servidos em velhas pratas; e os dois moços foram mandados a Coimbra, onde só iam os abastados. O pae destinava o mais velho, José, ao clero; o segundo talvez á magistratura.Por quarenta mil cruzados a dinheiro tinha contratada a compra do priorado de Cedofeita para o que veiu a ser vice-presidente da junta em 46, bacharel formado em Canones. 1828 destruiu todos estes planos, arrastando os dois irmãos á emigração, onde a riqueza da familia começou a fundir-se. De 28 a 31 a mãe mandou-lhes trinta mil cruzados para Paris: ahi os moços irmãos Passos, dos raros emigrados ricos, eram uma providencia dos companheiros pobres, entre os quaes estava Saldanha. (Corresp. de Port.13 de dez. 80)

Agora, supprimida aCARTA, começava-lhes uma vida nova, e um reinado; mas a seu lado vê-se um nome que não ficaria decerto esquecido depois dos louros de honra conquistados no exodo para a Galliza, em 28.

Sá da Bandeira nascera em 29 de setembro de 1795. Tinha pois agora quarenta annos: o vigor da vida, e um braço de menos levado por uma bala no lugar que, mutilando-o, lhe accrescentou o nome. Cadete em 1810, aos quinze annos, foi para a guerra da Peninsula, ficando até á paz prisioneiro em França. O liberalismo entre cesarista e demagogo do imperio napoleonico aprendeu-o, pois, na infancia. Voltou a Portugal com a paz, e esteve ao lado dos jacobinos em 20, tornado a França do seu degredo de Almeida. Intelligencia recta e caracter forte, nem podia perceber asnuancesdas cousas, nem dobrar-se ao imperio das conveniencias. Militar fiel á bandeira, subdito fiel ao rei, cidadão fiel á patria, espirito fiel aosprincipios, Sá-da-Bandeira não podia ser umcondottierecomo Saldanha, nem umpoliticocomo Palmella, nem simplesmente um instrumento militar como Terceira, nem tampouco um tribuno, idolo revolucionario, como Passos.

A reacção de 1823 acha-o em Lisboa com vinte e oito annos e não o seduz. Em vez de pregar no peito a medalhada poeira, como fizeram Saldanha e Villa-Flôr, emigra outra vez; para regressar em 26, collocando-se ao lado do governo, fazendo a campanha contra os apostolicos e acabando-a em 27, nomeado major por distincção. No anno seguinte foi prestar os seus serviços á Junta do Porto, e bem se póde dizer que lhe salvou o exercito e a honra militar na retirada para a Galliza que o fez chorar de amargura. Tinha trinta e tres annos.

Sereno e firme, estoico o virtuoso, julgava-se ohomme-ligeda liberdade portugueza. Ligado por principios ao radicalismo, andou separado das suas intrigas na emigração. Viu sempre a questão como uma guerra e sobretudo queria desembainhar a sua espada, obedecendo, sem ambições de mandar, com a serena ambição de seguir o seu dever, servindo onde, como e quando fosse necessario. Por isso, logo em 29 passou de Inglaterra á Terceira; e tendo sido aprisionado pelo cruzeiro miguelista, escapou da cadeia de S. Miguel, indo apresentar-se a Villa-flôr com o qual fez a campanha dos Açores.

Veiu com a expedição ao reino; e D. Pedro nomeou-o governador militar do Porto em 26 de julho, substituindo o antecessor (D. Thomaz Mascarenhas) que fugira na noite panica de 23-4. Depois foi ministro; e em 34 governador do Algarve, para bater as guerrilhas do Remechido. Consolidada a paz, tributado o preito de fidelidade ao throno que a guerra levantára, embainhou a espada e sentou-se na camara do lado esquerdo, pois, no seu entender, de ambos os lados se era egualmente fiel á monarchia liberal. Imperturbavel na sua serenidade, com um systema de opiniões assaz concatenadas para um espirito avesso a profundaras cousas, a humanidade era a sua religião, o dever a sua moral, a monarchia o seu principio, a espada o seu amor, opovoo seu dilecto. Estava pois longe de ser um demagogo como os dos Camillos, nem um tribuno da plebe, á maneira dos de Roma—como do facto era Passos.

A revolução de setembro surprehendeu-o tanto como a todos; mas inquietou-o mais, porque desorganisava a ordem da sua vida, pondo em conflicto diversos aspectos da sua opinião. Decidira-se pela unica solução adequada ao seu genio—abster-se. Mas se na rua o amavam, no paço conheciam-no. Elle era o homem unico para evitar que a monarchia, assaltada, caisse. Talvez esperassem fazer d’elle um Monk, ou um Saldanha, mas se assim pensavam, illudiam-se, e illudiram-se. Sá-da-Bandeira foi um Lafayette. Trahir era um verbo que elle desconhecia por instincto. Se a monarchia julgava que nem a revolução, nem os principios de 1820 eram inconciliaveis, elle, que no fundo do seu coraçãoamavao povo, elle para quem a liberdade era ahumanidade, folgava em não ter de mentir a nenhum dos seus deveres; e faria o possivel por alcançar a conciliação, corrigindo todas as demasias democraticas que puzessem em perigo a solidez do throno. Instado, acceitou, porque lhe disseram ser isso, exactamente isso, o que lealmente se queria; e com leal serenidade foi sentar-se ao lado do tribuno para o aconselhar, moderando.

Ora o paço esperava sempre que elle fizesse mais alguma cousa: não conhecia o fundo do seu estoicismo, e logo que o percebeu mudou de rumo.

É verdade que, tambem, a marcha das cousas arrastava-o e via-se perdido no meio da onda da demagogia solta, que já o não renegava a elle só, mas até ao seu antigo idolo, ao nobre, adorado Passos. Os Camillos rugiam pela bocca de José-Estevão que se julgava um Danton, e de Costa-Cabral pseudo-Marat. Havia ahi quem, tirando classicamente o punhal da algibeira da sobrecasaca e brandindo-o, ameaçasse medir com elle a distancia das Necessidades ao caes-do-Tojo. E José Estevão, agarrando a golla de pelle de cabrito da pseudo-toga do pseudo-Bruto, gritava-lhe: «Calla-te, miseravel!»—N’um momento de franqueza inconsequente, natural dos bons, Passos exclamara: «A nossa imprensa! Eu não tenho com que a comparar senão com o theatro do Salitre ... Desgraçada nação, se tivesse de ser governada pelos arbitrios dos follicularios!» (Disc. de 16 de jan. de 36) Mais de uma vez, tambem, condemnara as dictaduras em nome da rigidez dos principios. E agora a fatalidade das cousas, erguendo-se para dissipar as illusões, fazia-o servo d’essa imprensa e obrigava-o a ser umvil despota. «É o governo dictador sobre as leis; dictadora a imprensa sobre o governo: dictadores os assassinos sobre o governo. Ninguem contacom o seu emprego, nem com a sua reputação, nem com o futuro da sua patria.» (O Tribuno portuguez, outubro) Oempregoapparece á frente, como é dever n’um communismo burocratico. Doía o braço do dictador assignando demissões, mas nem assim conseguia vencer a fome dos pedintes. Antes, era uma oligarchia mais facil de contentar; agora, ademocracia, o governo de todos, obrigaria a uma partilha universal, se se quizesse saciar os desejos universaes. «Não ha quem se não lembre d’essas medonhas colunmas de descamisadosque, vindo em cardumes do Porto e de outras partes do reino, pejavam as escadas das secretarias e atulhavam as avenidas de todas as repartições publicas». (Hontem, hoje e amanhã, op. anon.) A guarda-nacional imperava; havia toques de rebate em permanencia e um susto constante na população. Que seria ámanhan? Quem podia contar com o futuro, quando tudo estava á mercê dasmarcas, que dominando a milicia civica, faziam d’ella um instrumento de agitação permanente? Tocava o rebate nos sinos, e por toda a parte soava o rebate da extravagancia das opiniões, da embriaguez da basofia, com que todos,liberalmente, dotados de uma soberania indiscutivel e de um conhecimento das cousas mais especiaes, dissertavam, debatiam, decidiam, cada qual certo de possuir a formula infallivel para dar remedio a tudo.

Se queres sabio ser,recipe: TomaDe Benjamin, Rousseau, outavas duasE nos theatros, nos cafés, nas ruasFalla em comicios, em Catões, em Roma.Corta o cossaco audaz que strue, que domaDa porta no Balkan o esforço, as luas;Falla d’Egas tambem, Magriço e Fuas,De Palmira, Paris, London, Sodoma.Do Palmella a politica retalha,Abocanha o Carvalho em porcas phrasesE sobre a chamorrice grita e malha.Estas do sabio são agora as bases:Terás os bravos da servil canalha.Serás um sabichão dos mais capazes.

Se queres sabio ser,recipe: TomaDe Benjamin, Rousseau, outavas duasE nos theatros, nos cafés, nas ruasFalla em comicios, em Catões, em Roma.Corta o cossaco audaz que strue, que domaDa porta no Balkan o esforço, as luas;Falla d’Egas tambem, Magriço e Fuas,De Palmira, Paris, London, Sodoma.Do Palmella a politica retalha,Abocanha o Carvalho em porcas phrasesE sobre a chamorrice grita e malha.Estas do sabio são agora as bases:Terás os bravos da servil canalha.Serás um sabichão dos mais capazes.

Se queres sabio ser,recipe: TomaDe Benjamin, Rousseau, outavas duasE nos theatros, nos cafés, nas ruasFalla em comicios, em Catões, em Roma.

Se queres sabio ser,recipe: Toma

De Benjamin, Rousseau, outavas duas

E nos theatros, nos cafés, nas ruas

Falla em comicios, em Catões, em Roma.

Corta o cossaco audaz que strue, que domaDa porta no Balkan o esforço, as luas;Falla d’Egas tambem, Magriço e Fuas,De Palmira, Paris, London, Sodoma.

Corta o cossaco audaz que strue, que doma

Da porta no Balkan o esforço, as luas;

Falla d’Egas tambem, Magriço e Fuas,

De Palmira, Paris, London, Sodoma.

Do Palmella a politica retalha,Abocanha o Carvalho em porcas phrasesE sobre a chamorrice grita e malha.

Do Palmella a politica retalha,

Abocanha o Carvalho em porcas phrases

E sobre a chamorrice grita e malha.

Estas do sabio são agora as bases:Terás os bravos da servil canalha.Serás um sabichão dos mais capazes.

Estas do sabio são agora as bases:

Terás os bravos da servil canalha.

Serás um sabichão dos mais capazes.

(Bandeira,son.abril de 36).

A allusão é transparente. O sabio é Passos, com a sua confusa massa de doutrinas e de factos,de naturalismo e idealismo, de tradições antigas, maximas moraes, e opiniões singulares sobre a historia nacional. N’esse vasto mar do conhecimentos anarchicos, apenas a poesia da sua imaginação e o stoicismo e a santidade do seu caracter mascaravam a inconsistencia do seu pensamento. Era um cháos de elementos intellectuaes sobre que pairava, como Jehovah na Biblia, a luminosa ingenuidade da sua alma.

A desordem que elle tanto concorrera pura desencadear, sob a nova fórma demagogica, com o encanto e a seducção da sua palavra, já começava a affligil-o, por não saber com que meios dominal-a. Embaraçado na teia das suas opiniões contradictorias, inspirado por um vivo amor pelopovo, crente na verdade mysteriosa, quasi mystica da voz da multidão, Passos via approximar-se o momento da sua queda infallivel e desejava-o ardentemente. Era um sonho que se ia esvaindo, uma nuvem que se dissipava. Por isso, quando caíu de facto, achou-se apenas com os doces affectos domesticos, e, destruidas as esperanças, maldisse da patria, fazendo-a a ella responsavel pela inviabilidade da doutrina.

Ainda esse instante não chegou, porém. Ainda o dictador impera, com o seu aberto sorriso, com a lhaneza popular que na praça encanta a turba. Ainda impera, e o seu dia melhor, mais glorioso não passou ainda. Ainda impera; e se organisa a seu modo a machina eleitoral e administrativa (cod. de dezembro 10)—porque sem ella não póde viver a revolução; porque é necessario substituir pela democracia o liberalismo da legislação do Mousinho—espera tudo da restauração da instrucção publica. «Eduquem o povo, e elle saberá serlivre»; porque a liberdade era um rotulo que se pregava emtodas as cousas. «Continuado o pensamento interrompido de Mousinho da Silveira, disse com a maxima impropriedade Rebello da Silva, e applicando as forças da sua dictadura triumphante, o primeiro ministro da revolução de setembro verificou na esphera dos interesses moraes e administrativos o que o de D. Pedro já consummara na das grandes reformas politicas e econonomicas». (Passos Manuel, naRev. contemp.) Á dictadura de Passos devemos, com effeito, as escholas polytechnicas de Lisboa e Porto, as duas menos felizes academias de Bellas-artes, e o conservatorio da capital; mas á sua doutrina da paz na liberdade democratica pela instrucção, não respondem acaso as revoluções dos nossos dias, ecommunascomo a de Paris «o cerebro do mundo», na phrase de muita gente simples? mas á doutrina da solidariedade da instrucção e daliberdade, não repondem os paizes instruidos que não sãolivres?

Passos era a incarnação de todas asphrasesdemocraticas; mas como essas expressões, ainda vagas e indeterminadas, continham em si a semente de verdades criticas, os homens que com ellas formavam a sua alma eram poetas, sim, e por isso chimericos, sendo ao mesmo tempo, como os poetas são sempre, nuncios de um futuro longiquo, victimas de um presente cruel.

Essa crueldade estava nos desvarios demagogicos e na reacção decididamente planeada pelo paço. Sabemos que a rainha enviuvara: em abril (10) tornou a casar-se com o joven príncipe de Coburgo,D. Fernando. O rei dos belgas, Leopoldo, com a influencia que exercia sobre a tambem joven soberana de Inglaterra, foi durante um certo periodo o accessor dos monarchas portuguezes. Com o principe veiu para Lisboa Van der Weyer, trazendo na sua pasta de ministro da Belgica o rol de instrucções necessarias para chamar Portugal á razão, para consolidar a dynastia e organisar o liberalismo entre nós. Leopoldo era então o pontifice da doutrina, e a Inglaterra não só o ouvia, como punha ás ordens dos seus planos portuguezes as suas forças navaes. E quando a Inglaterra assim obedecia, que haviam de fazer senão, convencidos, agradecidos, obedecer tambem os dois monarchas portuguezes, moços sem experiencia do mundo, e sem conhecimento directo do paiz sobre que reinavam?

Tal era a situação na côrte, quando os marselhezes chegaram do Porto em setembro. Na tarde de 9, á espera do vapor, o Terreiro-do-Paço estava cheio de gente e os vivas e foguetes estalaram ao desembarque. De noite tocou a rebate e a guarda-nacional reuniu-se, proclamando a constituição de 22. Mandaram-se tropas contra ella, mas essas tropas fraternisaram.[11](Sá,Lettre au comte Goblet, etc.) No paçohavia uma grande inquietação e Van der Weyer exigia do moço rei que montasse a cavallo e fosse com os batalhões fieis suffocar a revolta: D. Fernando recusou-se. (Goblet,Établ. des Cobourg.) Reconhecendo então não haver para onde appellar, o accessor dos reis lembrou Sá-da-Bandeira que foi chamado, e veiu á presença dos tres. Que impressão faria no espirito grave do nosso militar achar-se de tal modo perante uma rainha que nascera no Brazil de mãe austriaca, perante um rei allemão, e um belga que os governava a ambos, em nome do seu rei e com o apoio da Inglaterra: achar-se, dizemos, perante esse grupo, dando em francez leis a Portugal rebellado? Pois uma tal desnacionalisação do governo não influiria no animo de Sá-da-Bandeira no sentido de o inclinar ainda mais para opovo, pelo qual tinha um grande fraco? Elle não o diz: mas deve-se crer. Em todo o caso, fosse pelo que fosse, recusou o papel de salvador que lhe queriam confiar. Mas a guarda-nacional clamava na praça e os seus gritos chegavam á sala. D. Fernando, affavel, bondoso, e já talvez sceptico apesar de ser ainda moço, tomou-lhe do braço, seduzindo-o: «Era um grande favor!»—O nobre general que amando opovo, queria muito á monarchia,cedeu então. Não esperassem d’elle os serviços de um Monk; não. Era pelo povo; reconhecia os erros daCARTA, e detestava a politica seguida até alli. O seu plano consistia em defender os principios da revolução, harmonisando quanto possivel aCARTA, (26) com aCONSTITUIÇÃO(22). Sob taes condições resignava-se a acceitar. (Sá,Lettre au comte Goblet, etc.) Rainha, rei e o belga olhavam-se: que remedio? Ainda era a melhor solução; e sobre tudo não se tinham podido prevenir as cousas. Fôra uma surpresa: remediar-se-hia. A conta em que os extrangeiros podiam ter-nos, infere-se da historia deploravel da emigração e da guerra, de certo conhecida por elles, melhor ainda do que nós a conhecemos e a contámos. A convicção de sermos um povo que necessitava de tutella era geral.

Sá-da-Bandeira saíu, formou se a trindade dos dictadores, publicou-se o decreto revogando aCARTAe proclamando a constituição de 22, que seria reformada pelas côrtes. A mão da rainha hesitava, tremia, ao assignar o papel. (Ibid.) E que admira? Esse decreto reduzia-lhe a corôa a cousa nenhuma; tirava-lhe o direito dovetoe todos os direitos soberanos; ficava sendo, ella, a nobre senhora tão cheia de caracter e vontade, o mesmo que fôra seu avô; e não tinha, como tivera D. JoãoVI, fleugma bastante para se sentar de manhan rindo e abrir aGazeta«a vêr o que tinha mandado na vespera». Rainha no sangue, homem no caracter, o pensamento de uma desforra talvez partisse d’ella; e se não partiu, mas sim dos conselhos do ministro belga, é certo que o abraçou, e peior lhe queriamos se o não tivesse feito. Deploravel condição de um systema que exige dos reis a falta de brio, nos conflictos da corôa com o povo, ou a indifferença sceptica pelos debates dasquestões do povo sobre que lhes diz reinarem! Deploravel idéa a que obriga a acclamar presidencia de uma nação a fraqueza, a indolencia, a indifferença!

O caracter da rainha era o inverso de tudo isso; mas os conselhos belgas e a protecção ingleza faziam com que, em vez de buscar apoio e força dentro da nação, os acceitasse de fóra, tornando-se de tal modo ré de um crime que desvirtua o merito da sua energia. Que nacionalismo se podia, comtudo, esperar de uma côrte inteiramente extrangeira? É verdade que, nem Saldanha, nem Terceira, tinham querido jurar a constituição restaurada: mas o ultimo em uma espada apenas e não um partido, e o primeiro descera á condição dosbravi, desde que renegára o eminente papel de chefe dos jacobinos. Podiam juntos levantar alguns batalhões e fizeram-n’o depois; mas não conseguiam com isso senão aggravar a situação de um throno, que o povo já desadorava por causa das influencias extrangeiras, e mais desadoraria quando o visse pretender impôr-se, defendido por batalhões de janizaros.

Não tinha, não, é facto, o nobre caracter da rainha outra força a que apoiar-se, mais do que esses dois generaes, mais do que as tropas e os navios inglezes, mandados para o Tejo por conselho do rei dos belgas e corretagem do seu omnipotente embaixador. D’este modo, o plano da reacção, coevo de setembro, amadureceu com o desbragamento crescente das cousas da revolução; e dois mezes d’ella, achando-se maduro bastante, decidiu-se dar o golpe d’Estado.

Quando Terceira ia para Belem tomar a parte que lhe tinham destinado, encontrou Passos, o tribuno do povo de Lisboa. Falaram, altercaram. Eos ministros porque não restabelecem aCARTA? perguntava-lhe o duque.—«Porque não são traidores» respondia-lhe Passos com uma pompa mais apparente do que sincera; «encarregam-lhes a defeza da revolução e ella será defendida. A revolução tem sido generosa, porque é forte; mas se tomam a nossa generosidade por fraqueza, se appellarem para as armas, se provocarem a guerra civil, ai, dos vencidos!»—E tomando um ar terrivel, o bondoso homem fazia a voz grossa, a vêr se intimidava: «Em duas horas hei de ter fusilado maischamorrosdo que tenho demittido em mezes ...»—E a prova de que a ameaça era fingida está no tom com que prosegue: «Estamos na vespera da guerra civil: ámanhan v. ex.ª vae commandar os exercitos da Rainha e eu os da Republica: se a espada de Bouças se medir com a espada de Asseiceira, nem por isso ficaremos inimigos». (V.Discursode Passos, 18 de out. de 44)

Estava-se com effeito na vespera de uma guerra civil que duraria quinze annos, mais ou menos ensanguentados. Tudo em sombra e duvida no edificio daliberdade; e que melhor symptoma o demonstra do que a mistura de ameaças e ironias, com reminiscencias classicas (Republica), rhetoricas, e laivos de um scepticismo que punha por cima das amizades politicas as amizades pessoaes? O tribuno aperta a mão do general na vespera da batalha? Que singular comedia é esta? e que papel têem n’ella os pobres córos de um povo trazido para a rua pelas phrases ardentes da tribuna? Entendeu-se os actores, e representam uma tragedia em que o povo, soberano, omnipotente, origem de toda a auctoridade e destino de toda a acção, é um comparsa apenas? É assim, é.

Mas não se despedace a bella estatua do tribuno, porque elle era sincero na sua dobrez. A fatalidade póde mais do que os homens, e muito mais ainda do que os poetas, no momento em que as visões de esperança começam a dissipar-se. Era o que succedia a Manuel Passos, já abatido e semi-acabado por dois mezes de dictadura. O seu melhor dia, comtudo, não chegára ainda, e, como o cysne da fabula, ia entoar o seu canto, nas vesperas de morrer.

Van der Weyer preparára tudo; o dia estava aprazado. Era indispensavel vingar o brio da joven rainha (17 annos) que debulhada em lagrimas tinha jurado a constituição (Macedo,Traços)[12]; era necessario acreditar o reinado do moço (20 annos) D. Fernando, que o monarcha da Belgica enviára para cá. O corpo diplomatico tinha pedido garantias; os pares da direita, presididos por Palmella, tinham protestado. Passos e Sá tinham sido chamados a palacio, a dar explicações perante o belga, perante o inglez Howard. Temia-se tudo: o miguelismo, a republica, a regencia de Isabel-Maria, velha preoccupação de outros tempos, ou da imperatriz viuva em quem se falava agora. Os dictadores affirmavam a sua lealdade ao throno, garantiam, asseguravam que se lhe não boliria (Ibid.); mas o caminho que as cousas tomavamfazia com effeito receiar que não tivessem força egual á boa vontade.

Van der Weyer poz, portanto, em execução as instrucções que trazia. Tutor dos jovens e obedientes monarchas, metteu mãos á obra. Seria um golpe d’Estado rapido, a que tudo se submetteria; mas o belga, tendo estudado Portugal, estudára pouco a inteireza do animo heroico do seu ephemero dictador. Não fosse elle, e o plano teria vingado. Tudo estava combinado com o rei Leopoldo, que mandaria tropas suas; mas emquanto não chegavam, Palmerston, de accôrdo—porque a rainha Victoria adorava o tio—pozera ás ordens uma esquadra com tropas de desembarque, fundeada no Tejo. Nada se faz sem dinheiro: Portugal não o tinha, e claro esta que havia de pagar o preço da sua educação liberal. A Belgica adeantava o necessario, mas com penhor, porque os belgas são seguros e mercadores; e o penhor seria uma das possessões de Africa. (Sá,Lettre au comte Goblet, etc.) Oh, pobre Portugal, mandado por todos, ludibrio das gentes, triste nação já saqueada do que possuias no Oriente, para ganhares a dynastia brigantina, e agora ameaçada de perderes a Africa, para conservares os teus reis liberaes e forasteiros!

Elles, que não tinham nas veias sangue portuguez, não córavam de vender a nação; mas tampouco fervia o sangue dos cartistas que, ávidos, contavam com o regresso dos tempos perdidos. Foi o dia dois de novembro, dia lugubre dos finados, o da tenebrosa combinação. Armados a bordo, com as lanchas equipadas, estavam os inglezes; e os conspiradores a postos esperavam que as fardas vermelhas chegassem, ou a rainha fosse para bordo. Não se tinha D. JoãoVIrefugiado tambem naWindsor Castle? Sermos uma especie de Tunisparecia natural aos homens gastos por tantas aventuras, tão varias intrigas, onde lhes tinha ficado todo o brio e caracter que a natureza lhes déra; sem parecer extranho ao rei extrangeiro, aos diplomatas sabedores da nossa historia, e á rainha que havia ganho o throno á força de batalhas n’um paiz inimigo.

Mas Passos disse, terminantemente—não! E a sua ordem era apoiada por Lisboa em armas havia tres dias. Foi ao paço, no dia de finados; e pareciam-lhe cadaveres, cousas mortas, esses portuguezes que, ladeados pelos extrangeiros, á sombra d’elles lhe exigiam a restauração daCARTA, e que renegasse a revolução, isto é, o seu nome, o seu brio, a sua honra. Foi, ouviu-os, e á rainha disse que se fugisse para bordo dos navios inglezes era o mesmo que se abdicasse; e se chamasse para terra os soldados extrangeiros, era como se declarasse a guerra á nação sobre que reinava. Já não sorria, como quando falara ao duque da Terceira. Agora, o sangue pulava-lhe e a sua bella face illuminava-se com o enthusiasmo: era a imagem da honra nacional. Se a rainha tramasse a contra-revolução, arrepender-se-hia; se o não fizesse, veria quanto era amada. (Macedo,Traços) As palavras saíam-lhe fluentes, com um timbre sereno porque brotavam sinceras, candidas, da sua grande alma. E, como finados, os conspiradores ouviam-no, calados, corridos—cousas mortas que eram. Mas na alma da joven rainha não havia uma corda que respondesse ao bater incessante da palavra eloquente do procurador dos povos? Quem sabe? É natural que hesitasse entre os dois que a disputavam.

Os ministros offereceram-lhe a demissão, que ella nem acceitou, nem negou. (Ibid.) Se hesitava decidiu-sepor fim pelo belga, contra o portuguez. Seduzida a guarnição pelos generaes, tudo estava combinado e previsto. Caía a tarde do dia 3, quando a côrte saíu das Necessidades para Belem, onde os regimentos de Lisboa foram juntar-se, sem ordem do governo, obedecendo aos generaes conspiradores. Rodeada de soldados, á sombra dos navios inglezes, a rainha sublevada mandou chamar os ministros. Eram dez horas da noite e estavam reunidos em casa de Passos. Delegaram Vieira-de-Castro, e sem rebate, caladamente, reuniu-se a guarda-nacional. O emissario voltou: ainda bem que não tinham ido todos, porque o plano era prendel-os: a contra-revolução estava consummada.—Isso não! respondeu Passos; e levantando-se, decidiu que fossem a Belem, á frente da guarda-nacional, vêr cara a cara o inimigo. Sá-da-Bandeira ficaria em Lisboa. Tocasse-se a rebate em todos os sinos, rufassem todos os tambores, houvesse alarme contra uma côrte inimiga: a ameaça a forçaria a recuar.—Fez-se como o dictador mandou; mas a côrte, vendo-o chegar com Lumiares e Vieira-de-Castro, escarneceu-os, demittindo-os, pondo em lugar d’elles um ministerio, do dia em que fôra combinado—um gabinete de finados!

A noite acabou em paz. Em Belem contava-se ganha a victoria; mas em Lisboa ninguem dormia, todos se preparavam.

O dia 4 começou com um assassinio. Já a turba armada, com os animos excitados, fazia das ruas baluartes, fortificando-se á espera de uma invasão. Já as avenidas de Belem estavam guarnecidas, para impedir o passo aos que pretendessem ir apoiar osconspiradores. De Belem chamava-se a capitulo: viesse toda a velha guarda liberal, fiel áCARTA, que o extrangeiro estava prompto a restaural-a. Agostinho José Freire vestia-se, fardava-se de encarnado, todo recamado de ouro, para ir receber as ordens da sua rainha, isto é, para voltar a um poder de que a revolução o expulsara.

Freire nascera em 28 de agosto de 1780; contava 56 annos, mas apesar da vida trabalhosa, estava robusto e são. Seguira a carreira militar sendo porém sempre politico. Appareceu aos quarenta annos secretario das côrtes em 20, emigrando em 23, voltando em 26, tornando a emigrar em 28. D. Pedro chamara-o a si em França, nomeando-o ministro da guerra, lugar em que o vimos quando o historiámos. (Vida e tragico fim de A. J. Freire, anon.)

Agora afivelava o espadim, pendurava os crachás sobre a farda vermelha, preparava-se, brunia-se, para apparecer glorioso no paço onde o chamavam. Era um velho, todo branco, alto, magro, elegante, com uma phisionomía fina que revelava o seu temperamento nervoso e excitavel. Falava com elle Aguiar, mais positivo, e tambem convidado para ir a Belem; falava, aconselhando-lhe prudencia: eram odiados, bem o sabiam, e podiam reconhecel-os no camínho e soffrer algum insulto. Freire não concordava. A sege esperava-o em baixo, e já fardado descia, convidando o collega a acompanhal-o. Aguiar recusou; saiu a pé, abotoado, sem insignias nem fardamento, direito a um caes para embarcar. Ainda assim o reconheceram, largando botes a perseguil-o: deveu a vida ao pulso dos seus quatro remadores. (A dynastia e a revol. de set.)

Sopeada pelos cavallos, travada, corridas as cortinas engraixadas, a sege de Agostinho José Freire descia a ladeira ingreme da Pampulha. Em baixo,onde vêem dar as viellas que dizem para o rio, havia um posto de guarda-nacional de arma ao hombro, para impedir as viagens a Belem. Fizeram parar a sege, correr as cortinas, e deram em cheio com o personagem na sua farda vermelha constellada de commendas e bordaduras. Conheceram-no todos? De certo não; mas o facto é que a farda bastava para denunciar um inimigo, e o commandante do 15.º batalhão deu-lhe a voz de preso. Estalou um tiro quando Freire se apeiava: dobrou-se e cahiu morto. (Vida e tragico fim, etc.)

Logo que um caso d’estes succede, vem a sanha, como de cannibaes, a aggravar o acto commettido. Ha muitos a querer a honra do feito; ha muitos mais a afogar n’um desvario de atrocidades o remorso espontaneo de um crime. Sobre o cadaver ferviam os tiros. Despojaram-no de tudo, deixando-o de rastos, semi-nu, contra um lado da rua, crivado de feridas, escorrendo em sangue, com uma tijella de barro ao lado para receber as esmolas dos transeuntes. Mais tarde foi levado em maca ao cemiterio, seguido por uma turba furiosa que duas vezes o exhumou, negando-lhe a paz na propria cova. (Ibid.)

Essa furia da populaça, victimando o ministro, fazia-o expiar os crimes de muita gente. Os juizos do povo são como os que se attribuem a Deus:[13]cégos, apparentemente injustos muitas vezes, são os juizos do Fado que, indifferente a nomes, escolhe á sorte um homem para victima expiatoria de crimes mais ou menos seus. Da mesma fórma o povo escolhe os idolos e os réus.

Essa furia da populaça era a consequencia daexaltação em que o acto aggressivo do paço lançava Lisboa e o seu povo, jásoberanosegundo a lei, verdadeiramente soberano agora que as guardas nacionaes imperavam armadas. Ao som do rebate, formavam, em ordem de batalha, no Campo-de-Ourique na manhan do dia 4. Parecia imminente um combate entre ellas e a guarnição reunida em Belem, em torno da rainha. Passos estava no seu posto á frente dopovo armado, quando vieram do paço chamar o dictador. Que lhe queriam? Fosse o que fosse, elle partiu, arriscando a vida.

Sá-da-Bandeira, a quem a Junta do Campo-de-Ourique convidára para o commando, recusára a principio, da mesma fórma que antes havia recusado o papel de Monk offerecido por Howard; mas agora a agitação crescente, a imminencia da crise obrigavam-n’o, e ficava, mais para conter do que para guiar o povo armado. (Lettre au comte Goblet.)

Passos entrou no palacio, e dir-se-hia que voltavam essas antigas scenas da Edade-media, quando os tribunos da plebe iam á frente dos monarchas. Em volta da rainha estavam o rei e os diplomatas e os pares do reino, os conselheiros d’Estado, a infanta D. Isabel Maria, e a imperatriz viuva. Era toda a côrte reunida para ouvir, para condemnar, para seduzir? Era toda a côrte, perante o homem de Bouças, rei verdadeiro de Lisboa. Passos curvou-se, beijou a mão da rainha, e esperou que lhe dissessem o que d’elle pretendiam.

Então, pela soberana falou—quem? O seu ministerio dos finados? Não. O inglez Howard, o belga Van der Weyer, e só depois dos extrangeiros, Villa-Real, Lavradio e Palmella no fim. Asfalas eram mansas; não se alludia ao ministerio dos finados, porque a attitude de Lisboa, de manhan, infundira medo. Tratava-se de seduzir, não de ameaçar. S. M. não podia consentir na abolição daCARTA, mas estava decidida a reformal-a: entretanto, o inglez affirmava que o seu governo não toleraria em Portugal a constituição quasi republicana de 22. Involuntariamente, os olhos dirigiam-se para o rio onde o vento soltava a bandeira vermelha da Inglaterra na pôpa das suas naus. E do lado da rainha todos continuavam a não extranhar a figura de idiotas que faziam.

Repetia-se a scena da vespera; e Passos repetiu, em francez, mas com uma firmeza mais calma e triste, o que disséra na vespera. Fôra nomeado ministro com a constituição de 22, e não com aCARTA, a cuja sombra se desbaratara a riqueza nacional por não haver garantias politicas contra a oligarchia reinante. Não renegaria a revolução, embora desde o principio tivesse affirmado a necessidade de emendas que consolidassem o throno. Não era uma questão de fórmas, era a questão do principio, da origem da authoridade. ACARTAfôra um dom do throno, aconstituiçãouma conquista da soberania popular. Socegasse, entretanto, S. M. que o povo não queria mal ao throno: haveria duas camaras,vetoabsoluto, e direito de dissolução, «como naCARTA. Será como na Belgica, dizia a Van der Weyer: não podereis condemnar».—E voltando-se para o inglez impertigado e impertinente, dizia-lhe que a lealdade portugueza não recebia lições britannicas. Eramos um povo livre, e não acceitavamos a intervenção de ninguem. As cousas inglezas que elle amava e admirava, haviam de entrar ás boas, em navios mercantes, para terem despacho livre. Vindo em navios de guerra, as leisda Inglaterra só serviriam para lh’as devolver sob a fórma de cartuchos. S.M. teria dignidade bastante para repellir as offertas da Inglaterra; se as não acceitasse, Portugal deixaria por uma vez de ser uma prefeitura britannica e o seu soberano uma especie de commissario das ilhas Jonias. «Se desembarcarem, dizia por fim a Howard, serão batidos». Á rainha, convidava-a a ir para o Campo d’Ourique, onde veria que amor lhe tinham os subditos; e aos generaes em ultima instancia: «A Inglaterra ameaça-nos: ninguem se deshonrará. O vosso logar é no Campo de Ourique, á frente dos portuguezes que ahi defendem a independencia da patria» (Macedo,Traços, etc.)

Era um doido, varrido,poeta. Pôr os pontos nos ii, falar com sinceridade em politica! E uma audacia! E um orgulho, n’esse indigena! Howard estava absorto, o belga confundido, a rainha perplexa, os seus portuguezes corridos. Havia silencio, ouvia-se o arfar do peito do tribuno que derramara a flux as ondas da sua indignação ... E o facto é que talvez se não enganasse: Lisboa era por elle ... Talvez os inglezes fossem batidos, talvez os regimentos portuguezes fraternisassem como em setembro.[14]Talvez ... Talvez ... E havia uma hesitação singular, e uma longa pausa, quando a voz lenta e fanhosa do moço rei, n’uma phrase indiscreta, exprimiu em francez o seu despeito colerico.Monsieur le roi Passos, comment vont vos sujets à Lisbonne?—Reprimindo-se, elle respondeuque não tinha subditos: eram-no da rainha. E D. Fernando objectou: Mas não lhe obedecem!—«Porque S. M. manda o que não póde—e o que não deve!» E outra vez excitado pela temeraria ironia do rei, voltou dizendo que ordenára uma resistencia energica—até ao fim: «Se morrermos, morreremos bem!» (Ibid.)

Ninguem duvidava de que elle fosse capaz de morrer. A scena, começada com o apparato de uma opera, para a seducção de um tyranno plebeu, acabava n’um drama pungente. Na face da sua côrte, á frente dos embaixadores, a soberana estava abatida e humilhada pela soberania d’esse homem, que não era só o idolo de um povo prompto a defendel-o: era um heroe para quem não valiam lisonjas, nem adulações, um estoico indomavel, uma virtude inaccessivel. Em vez de seduzido, Passos acabava seduzindo os proprios inimigos. Os que se não penitenciavam do erro, sumiam-se corridos. Trigoso dizia á rainha que depois de uma tal imprudencia só uma solução restava.—E qual? perguntava ella, arfando.—Abdicar.—Pois não haverá outro recurso?—Para reinar com honra, nenhum; para reinar .. um só.—Então qual?—Entregarmo-nos á discrição do Manuel Passos ... (Macedo,Traços, etc.)

A rainha queria reinar. E o tempo corria, sem que nada resultasse das habilidades com que Palmella buscava embaír orei de Lisboa. E começava o fogo das avançadas nos seus postos (pois correra que Passos não voltava por estar preso) sendo necessario um bilhete d’elle para cessarem os tiros. Quem valeria em taes angustias, senão o fiel Sá da Bandeira, para impedir á rainha a vergonha de se render á discrição do seu émulo da capital? Era já noite quando Passos regressou á cidade;e, na manhan de 5 Sá-da-Bandeira partiu para Belem a cobrir a retirada da infeliz rainha.

Mas, durante essa noite, os seus conselheiros, ou impenitentes ou timoratos, fizeram desembarcar na Junqueira seis ou setecentos soldados inglezes. Era a guerra. Era apenas uma tolice? uma ordem mal cumprida? O facto é que a guarda-nacional desceu do Campo d’Ourique a Alcantara, gritando em côro—a Belem! E se lá chegasse a ir, ai da rainha e de todos! Na vespera, o nobre Passos defendera o povo perante a côrte: hoje, contra o povo enfurecido, defendia a vida da rainha. A cavallo, atravessado sobre a ponte do ribeiro que corta a estrada, vedava em Alcantara a unica passagem da turba enfurecida, falava-lhe, acalmava-a, ameaçava-a. «Para Belem não se passa, senão por cima do meu cadaver!» E não era uma phrase banal, porque o podiam esmagar n’uma onda que viesse rolando de mais longe. O povo desforrava-se, gritando, blasphemando, exprimindo nas suas phrases grutescas o nenhum conhecimento que tinha dos motivos do conflicto, e como ia arrastado por uma fatalidade, sem consciencia, movido por instinctos: «Querem duas camaras? deixem estar que não se lhes ha de dar nem uma!» Passos, ouvindo isto e o mais, sentia invadil-o uma nevoa de tristeza que varria a luz das suas esperanças ... Tal era opovo, o soberano, cuja sabedoria lhe tinham ensinado tantos livros inchados de periodos rotundos! E a mó da gente, clamando, revolvia-se, fluindo, refluindo, contra a ponte, onde Passos, a cavallo, parado, se julgava a si e julgava opovo.

Sá-da-Bandeira conferenciava então com Saldanha no palacio do conde da Junqueira, e exigindo como condição prévia da composição o reembarquedas tropas inglezas, exigia o cumprimento da promessa da vespera: que a rainha demittisse os ministros do golpe d’Estado, nomeando-o a elle presidente do conselho, restaurando o ministerio anterior. A demora fazia nascer suspeitas e mal se podia conter a populaça em Alcantara, onde Sá tambem foi acalmal-a a pedido da rainha, d’onde voltava dizendo que, sem o decreto assignado, nada se conseguiria. (Sá,Lettre au comte Goblet).

Saíram pois os decretos, restaurou-se o ministerio, voltaram as tropas para bordo dos navios, e com ellas se sumiram tambem a bordo os ministros de finados e a gente de Belem. Á tarde a rainha, confessando-se devedora do throno e da vida a Manuel Passos, voltou egualmente de Belem para as Necessidades, vencida, humilhada, por entre as alas das forçassetembristasque occupavam as ruas. (Ibid.) A noite acalmára tudo; e D. Maria II continuava a reinar. Com honra?

Ut arundo fragilis, como o seu primeiro avô Affonso,ferebatur.[15]A rainha, ou por ella os que a aconselhavam, cediam á força—mas só momentaneamente. Fôra um plano mal traçado: voltar-se-hia á carga, logo que as circumstancias o permittissem. Na guerra é licito proceder assim; e D. MariaIIdeclarara, ou tinham-n’a feito declarar guerra á nação setembrista. Van der Weyer olhava para Terceira, para Saldanha, dizendo comsigo que, se não serviam para isso, de que serviam então?...

Era obrigação dos diplomatas, que tinham lançadoa côrte na aventura frustrada de Belem, garantir a sorte dos numerosos refugiados a bordo dos navios inglezes e dos não refugiados, mas compromettidos. Howard exigiu de Sá-da-Bandeira um perdão, que tanto elle como Passos como Vieira de Castro, os triumviros, desejavam dar. (Sá,Lettre au comte Goblet.) A clemencia é virtude dos bons, a magnanimidade symptoma da força. Com o resultado dos dois dias de Belem, o setembrismo ganhára uma auctoridade que ia baixando muito. Rendida, sem ficar convertida, a côrte reconhecia o poder da revolução: era mister agora cumprir o que se promettera, discutindo e votando uma constituição que resalvasse o principio de origem na soberania popular, dando porém ao throno o veto e o direito de dissoluçaõ e ás altas classes uma segunda camara. Uma semana depois da Belemzada saía (12) o decreto convocatorio; e a 26 de janeiro de 37 reunia-se em Lisboa o congresso constituinte. Abolida aCARTA, havia que reconstruir o mechanismo politico, e as divergencias de interesses e doutrinas accentuavam-se.

Expulsos do poder, os cartistas eram obrigados a construir em partido o que antes fôra um aggregado de bandos cada qual com seu chefe, porque agora apparecia no governo uma doutrina adversa á de todos elles. Gorjão Henriques definia no congresso esta attitude com apartidade apresentar aCARTApor emenda ao projecto de constituição. Eram dois unicos os deputados cartistas, e apenas podiam protestar, esperando a decomposição fatal dos vencedores. Por seu lado, os miguelistas começavam a crear esperanças, perante a desorganisação do novo Portugal. Alguns soldados velhos saíram de Lisboa para as Marnotas, (13 de maio) entre Loures e Friellas—a esperar os touros? não,a proclamar D. Miguel. Mas os camponezes, já esquecidos, crendo-os salteadores, prenderam-nos e destroçaram-nos.[16]

Não era pois das direitas que o governo tinha a temer: era da cauda temivel da sua esquerda demagogica.

Ferviam os clubs, d’onde os tribunos levavam para a camara as exigencias mais radicaes. Leonel-Tavares mandava doBurjaca. Costa-Cabral não consentia que ninguem lhe passasse á frente, porque toda a preoccupação do tempo era ser maisavançadodo que o visinho. Cabral tinha o seu club tambem, no Arsenal (que depois fechou), e ahi discutia pausadamente com os carpinteiros da Ribeira, com o philanthropo Formiga, a maneira de dar maior latitude ás ideias democraticas. (Dicc. bio-pol.) Era todo mansidão, deferencia, quasi humildade, para com opovo soberano, ao qual pedia que o illustrasse e o dirigisse. Aconselhado, vinha secco e hirto, petulante como quem traz o rei em certas visceras, aggredir no congresso o governo e a sua moderação, exigir que houvesse uma camara apenas, e não houvesse veto, e nem sombra de peias á liberdade de imprensa. (V.Diar.Sessão de 37; e oDicc.cit.) Ao lado d’esse homem frio que, ou mudou inteiramente depois, ou seguia o exemplo antigo dos tyrannos, conquistando o poder pelo caminho da demagogia: ao seu lado via-se um rapaz emquem um sangue generoso pulava com ardor, discipulo melhorado,avançado, de Manuel Passos, a exemplo do que este fôra para com Fernandes-Thomaz. No seio do liberalismo era proprio que cada geração progredisse no sentido da anarchia; pois os moços, cada vez menos doutos, incapazes de perceber as distincções e subtilezas da eschola, viam osprincipiosem grosso, e exigiam, com a violencia propria dos temperamentos generosos da Peninsula, que os principios se tornassem factos.

José Estevão nascera em Aveiro em 26 de dezembro de 1809: contava agora 27 annos apenas. Aos dezenove alistara-se no batalhão academico, militando sob o commando do cachetico Refoios em Morouços e no Vouga. Emigrara para a Galliza, depois para Inglaterra, d’onde foi á Terceira e de lá veiu ao Porto, cabendo-lhe um lugar na defeza da Serra. (F. Oliveira,Esboço historico) Bravo, honrado, a sua mocidade contava já uma historia meritoria. Possuia todos os dotes de um temperamento peninsular, com os defeitos correspondentes: tinha a hombridade castelhana, o valor portuguez, a eloquencia de um andaluz, e uma face aberta, illuminada, sympathica, a que a voz e a fala davam um poder de seducção. Mas nem tinha saber, nem juizo, nem prudencia, nem a consistencia, portanto, sem a qual não ha homem verdadeiramente superior. Era o bello vehiculo de um instrumento composto de sentimentos valorosos e nobres, expresso em phrases que saíam e soavam como arias. Foi o primeiro, talvez o unico, dostenoressinceros daliberdadeportugueza.

No congresso declarava «pertencer á seita da mocidade e glorificar-se d’isto.» (Disc. de 25 de abril) E essa seita da mocidade, na qual tinha a seu lado Cabral, Vasconcellos, Santos-Cruz, sentava-se na extremaesquerda, e reclamava: «Juiz só, a julgar só; um rei só, com ministros responsaveis a executar só; uma camara só—eis a minha monarchia, eis o meu governo representativo». (José Estevão,Disc. de 5 de abril) Era simples, claro como agua: um solo de instituições abstractas, uma aria de abstracções liberaes. Como não lembrava ainda que a logica exigia uma purificação maior: o governo do povo pelo povo, o governo directo, ou antes nenhum governo, nem sombra de Estado, a anarchia absoluta? Nem a tradição, nem a economia das forças sociaes, nem o estado das classes, nem cousa alguma do que real e positivamente constitue uma nação, se tinha em vista n’essas opiniõesavançadasque obedeciam á tyrannia terrivel das fórmulas abstractas. Triste, pois, desanimado, o demagogo lamentava-se: «Vejo que o throno póde demittir os legisladores populares, póde estorvar que a lei se faça; vejo que o throno tem o veto absoluto, o direito de dissolver, e o de nomear senadores ...» (Disc. de 5 de abril)

E todas essasconcessões—porque assim, forçosamente, eram considerados os direitos soberanos pelos defensores da soberania popular—enchiam a opposição de colera contra o governo que se dizia ter renegado a Revolução. E os clubs, onde Cabral e José Estevão iam chorar as suas maguas: o doBurjaca, de Leonel Tavares; o doArsenal, onde reinavam Françaque tinha coração(Hontem, Hoje e am.) e Soares-Caldeira, ambos athletas, ambos ignorantes e queridos do povo: os clubs commentavam o proceder do governo não poupando já o proprio Passos por ter dado a mão aos moderados (Sabrosa, Raivoso, Derramado, Taipa, etc.) em vez de a extender ao puro setembrismo, patuléa, descamisado.

O singular da revolução de setembro, e o que particularmente assignala o estado da nação, não é a cauda de radicaes que todas as revoluções criam. O singular é o desanimo dos chefes, a espontaneidade immediata com que se accusavam dos proprios actos. Veremos a que estado melancolico de scepticismo politico chegou Passos; mas Taipa logo na primeira sessão do congresso (18 de janeiro) se levantava para fazer o seu acto de contrição: «Aboliu-se aCARTA, mas todos sabemos que nem aCARTAé um codigo tão insufficiente para as nossas circumstancias que valesse a pena de uma revolução para o destruir, nem a constituição de 22 tão perfeita que valesse a pena de uma revolução para a restaurar». (V. Sá,Lettre au comte Goblet, etc.) E, entretanto, era contra aCARTAque desde 30, ou ainda antes, todos esses homens vinham clamando, como causa dos males nacionaes. Chega a revolução que a supprime, e todos a lamentam; seguem por não poder deixar de ser, mas «ninguem a desejava, ninguem a applaude» (Ibid.) Porque declamavam, pois? Porque lançavam á terra de um povo anarchisado a semente de uma revolução? Vêem-na germinar, e lamentam?

O porquê é simples. Não mediam nem sabiam o alcance do que diziam; e agora, a braços com as consequencias, deitavam á culpa dos homens o que provinha da natureza das cousas, por não terem a coragem ou a lucidez bastante para se confessarem desilludidos, mortos, como fez Passos. Os mais arrependidos mas não confessos, affectando uma segurança que não possuiam, só buscavam alijar sem muita deshonra um fardo que lhes pezava. Rasgar o programma ou o rotulo, sentiam que seria despedaçarem-se a si proprios, porque, para dentro das suas pessoas de politicos, não tinham,como o grande tribuno, uma alma feita de sinceridade estoica e virtude santa. Destruir a revolução sem a negar; cortar a cauda incommoda dos descamisados, defendendo-se contra os inimigos da direita para não perderem o posto; equilibrar, ponderar as cousas; fazer uma constituição tão parecida com aCARTAque para o paço fosse a mesma cousa, sem deixar de serCONSTITUIÇÃOno nome—eis ahi o pensamento dominante nos homens que, mau grado seu, se viam mandatarios da revolução. (Sá,Lettre, etc.) Evidentemente, isto daria de si um pender gradual para o estado anterior a setembro, e assim foi: a Passos succede Sá, depois de Sá vem Pizarro, (ou Sabrosa, segundo o baronato que teve), depois de Sabrosa, Bomfim, depois Aguiar, Palmella, Terceira e por fim a restauração daCARTA(1842).

Agora, com a demissão de Passos, (1 de julho) andava-se a primeira legua. Que motivos expulsavam do governo o vencedor da rainha em Belem? O pretexto foi o voto que a maioria do congresso deu contra os sub-secretariados de Estado por elle propostos. O motivo foi, provavelmente, essa victoria de que todos se arrependiam tanto, que Sá-da-Bandeira, contando o drama em que foi actor, (Lettre au comte Goblet) a esconde tão cuidadosamente que se não percebe porque razão teria cedido a rainha, rasgando a nomeação dos seus ministros, restaurando orei de Lisboae todos os decretos da sua dictadura de dois mezes.[17]Além d’este motivo,porém, havia outro, muito doloroso: era a penuria extrema, eram ospontos, ossaltos, nos vencimentos dos cidadãos de um communismo burocratico; era tambem a agiotagem escandalosa que, brotando espontanea sob todos os governos de todos os partidos, tirava ao setembrista o credito que tinha quando clamava contra osdevoristasde 35, contra os argentarios engordados por Law-Carvalho.

Não tinham os setembristas um Law, nem podiam tel-o com os principios de honestidade estoica dos seus chefes. Campos chorara, chorava: mas em vez de pagar em ouro, pagava em explicações longas, massadoras, recheiadas da adhesão á causa popular. (Hontem, hoje e am.) Essa sinceridade, inimiga das finanças, desacreditára o unico financeiro do partido; e a principalpastaem um paiz devorado, teve de ficar nas mãos pouco habeis, mas limpissimas de Sá, de Passos Manuel, cujo estoicismo desprezava o dinheiro, cujo verbo ou cuja espada desdenhavam dos algarismos e das contas.

Entretanto, o que peior lhes fizera fôra a sua rectidão: deixaram de pagar quando não tinham com quê; exigiram dos contribuintes a decima que os antecessores, para não afugentar partidarios, prescindiam de cobrar. Ella dava agora mais do dobro: e comparando os numeros, Passos na sessão de 37, tinha motivos para se gabar. O deficit que encontrára (36-7) calculado era de (18:600-11:800) 6:800 contos, devendo-se ao banco 4:834 e a outros 800; havendo ainda 3:516 contos de papel-moeda em junho (36) e 4:087 de titulos admissiveis na compra de bens nacionaes. (Lei de 15 de abril de 35) O governo amortisára 500 contos de papel-moeda e 2:876 de titulos; e o orçamento para 37-8 não apresentava um deficit superior a(11:217-9:294) 1:923 contos. E com isto não se tomára emprestimo nenhum de fóra, e os encargos da divida total, se tinham subido de 2:334 a 2:500 contos, era porque se reconhecera o direito esquecido dos possuidores dePadrões, convertendo-os em titulos de 4 por cento, por 2:960 contos com o juro de 118. (V.Relatorio de 24 de abril de 1837)

«Quando entrei, dizia Passos, achei nos cofres da capital seis contos, e não havia com que pagar os dividendos em Londres. (Disc. de 21 de jan. de 37) E defendendo-se a si e aos actos da sua dictadura, sentindo que o tempo corria e o fim se approximava, definia todo o seu pensamento: «A rainha não tem prerogativas, tem attribuições: é o primeiro magistrado da nação. Eu fui o primeiro ministro que executou o programma doHotel de Villede Paris: cerquei o throno de instituições republicanas ... Não houve só liberdade de imprensa, houve licença, houve desafôro». (Ibid.)

Liberdade e licença! liberdade e desaforo! Mas que linha as divide, ou qual é o criterio que as distingue? Ah! eis ahi onde a doutrina naufraga, assim que a põem a navegar no barco de uma constituição. Uns pilotos caçam logo as velas e bolinam; outros mettem de capa; outros dão a pôpa ao vento e correm desarvorados acclamando o temporal da anarchia que os leva ... onde? Contra uma pedra a despedaçarem-se.

Passos não era homem para nada d’isto: nem bolinava, como outros; nem se mettia de capa, esperando e resistindo ao vendaval; nem lhe obedecia. No meio das nuvens cerradas, com o vento a assobiar, elle teimava em vêr uma nesga de céu azul, prenuncio de bonança e fortuna. A linha que dividia a liberdade da licença, esse criterio suppostoseguro, tinha-o elle na sua humanidade, na sua virtude. Não era mister theoria, bastavam sentimento a caracter ... Mas se todos fossemos Passos, para quê, leis, governos e forças organisadas?

Elle, no seu optimismo, teimava em pensar que eramos, ou seriamos, ou deviamos ser optimos, o que é bem diverso. Uma nação affigurava-se-lhe uma familia de irmãos, e a lei um osculo de Paz. Annos passados, depois de toda a sua historia acabada, e da revolução extincta, ainda glorioso, lembrava como o amor o a humanidade tinham vencido tudo:


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