Chapter 6

Tinhamos a luctar contra o partido cartista ... D. Miguel preparava uma insurreição em Portugal e nas ilhas. O Remechido estava levantado no Algarve. A causa da rainha Christina soffrera innumeros revezes; o general carlista Sanz marchava sobre a nossa fronteira do norte e o general Gomez com uma força connsideravel chegou a tocar o territorio de Portugal ... O governo armou a guarda nacional e ficou esperando ... A revolta de Belem foi aniquilada e os vencidos foram recebidos nos nossos braços. A revolta miguelista não appareceu.—Escrevi aos administradores geraes para que fizessem saber aos realistas que nenhum d’elles seria inquietado nem perseguido, mas que todo o atacante seria punido. (Disc. de 18 de out. de 1844)

Tinhamos a luctar contra o partido cartista ... D. Miguel preparava uma insurreição em Portugal e nas ilhas. O Remechido estava levantado no Algarve. A causa da rainha Christina soffrera innumeros revezes; o general carlista Sanz marchava sobre a nossa fronteira do norte e o general Gomez com uma força connsideravel chegou a tocar o territorio de Portugal ... O governo armou a guarda nacional e ficou esperando ... A revolta de Belem foi aniquilada e os vencidos foram recebidos nos nossos braços. A revolta miguelista não appareceu.—Escrevi aos administradores geraes para que fizessem saber aos realistas que nenhum d’elles seria inquietado nem perseguido, mas que todo o atacante seria punido. (Disc. de 18 de out. de 1844)

E não se arrependia do que fizera. A paz, o perdão, o amor, eram as ancoras das nações: em verdade os homens não o criam, mas nem por isso elle chegava a perder a sua esperança, embora deixasse um governo em que se achava deslocado. Saíu em julho, como dissemos; mas não abandonou os seus antigos companheiros, senão quando elles mais tarde, perante o cartismo sublevado, abandonaram a doutrina do perdão pela do castigo, atulhando de presos aspersigangas. (Ibid.)Foi então que descreu dos homens, e se voltou para dentro de si, como um eremita—por estar longe, muito longe, a salvação da terra, pela paz e pelo amor!

Quando os inimigos viram expulso ou retirado do governo esse homem temido, e que em seu lugar ficava apenas, além de politicos, o bom e fiel Sá-da-Bandeira, as esperanças nasceram. A revolução estava suffocada. Havia porém insoffridos que se não conformavam com a demora dos caminhos ordinarios; e ninguem mais se exasperava do que Van der Weyer, talvez com a vista no penhor do territorio africano. Não houve meio de o conter; disse então aos marechaes que a hora tinha soado—«Hombro, armas!»

Van der Weyer mandou-os marchar, e elles foram. O belga esperava poder armar em Lisboa um pronunciamento cartista, pôr o reino inteiro n’uma desordem maior do que havia já, para d’ahi saír com um bocado de Africa entre os dentes. Portugal decerto resistiria á restauração daCARTA, mas viriam os extrangeiros impol-a. Entretanto Palmerston, ou avisado pela triste figura que as suas fardas vermelhas tinham feito na Junqueira, ou desconfiando do zelo belga, resistia, como resistiu depois, em 47, ás solicitações da Hespanha. Cedeu mais tarde perante a força das cousas, mas agora o mau exito da aventura veiu auxiliar os seus desejos. (Goblet,Etab. des Cobourg.)

Com effeito, nem Van der Weyer pôde conseguir que Lisboa se pronunciasse, nem os marechaes que o exercito obedecesse, conforme convinha. A correria foi rapida e o resultado grutesco, para tãonobres personagens. O barão de Leiria principiou, acclamando aCARTA(12 de julho) na Barca. Declarou-se logo o estado-de-sitio, dividindo-se o reino em duas lugar-tenencias militares: Sá-da-Bandeira, com José Passos por secretario, no norte; Bomfim, com Costa-Cabral, no Alemtejo. Saldanha partiu de Cintra a 26, Tejo acima até Abrantes e Castello-branco, chamando á revolta os regimentos com que veiu descendo pela serra até Coimbra. Eram 10 de agosto quando ahi entrou. Em 15 estava em Leiria, em 22 em Torres-Vedras, onde se lhe reuniu Terceira, saído de Lisboa a 17 ou 18. A 23, os dois marechaes e a sua tropa chegavam ao Campo-grande, ás portas da capital, esperando o promettido pronunciamento que não apparecia. (Sá,Lettre, etc).

Quatro dias esperaram em vão. Que faziam entretanto as tropas do governo? Bomfim recolhera a Lisboa, porque as guarnições do Alemtejo tinham fugido para Saldanha. Nas visinhanças da capital devia dar-se a batalha inevitavel, mas os marechaes, vendo a mudez da cidade, retiraram (27) para Rio-Maior; e o exercito do governo achou-se em frente d’elles, a 28, no lugar do Chão-da-Feira.

Começou a acção, e quando chegava o instante decisivo viu-se um caso singular. Corriam a galope esquadrões de cavallaria, com a lança em riste ou a espada erguida, ameaçando fazerem-se pedaços; e n’um momento, em frente uns dos outros, os soldados paravam, olhando-se, levantavam as lanças, baixavam as espadas, dando vivas, de um lado, áCARTA, do outro áCONSTITUIÇÃO. Não se bandeavam, mas tinham resolvido não combater. (Sá,Lettre, etc.) Ás vezes, nas touradas em Hespanha, quando a féra mostra mais juizo do que os toureiros, o povo das bancadas acclama o toiro: é o que nósagora fazemos aos soldados! Com um juizo superior, deram uma lição aos generaes, aos diplomatas, á rainha, á côrte, e a todos.

Começou então uma scena egual ás muitas que se conhecem dos tempos medievaes, quando os bandos dos senhores e das communas se encontravam nas suas contendas. Os generaes avançaram para o meio das columnas armadas, e para o quadro acabar como cumpria, devia seguir-se umbufurdio, um juizo-de-Deus.[18]Mas os tempos eram outros, mais pacificos. E os generaes, á maneira dos soldados, não queriammorrer por ello. Combinaram um armisticio, retirando os sublevados para Alcobaça e os do governo para Leiria, a vêr se podiam entender-se. Vieram á fala em 30, em Aljubarrota; e ao outro dia, por não conseguirem nada, recomeçaram as hostilidades. (Sá,Lettre, etc.) Que houve então? Muito sangue? batalhas mal-feridas? Oh, não! Os marechaes vão-se embora para a Beira-baixa, Bomfim deixa-se ficar em Santarem, e Sá regressa a Lisboa. (Ibid.) Se os soldados, com todo o juizo, não queriam bater-se!

Andava por esse tempo em Hespanha, auxiliando a rainha contra os carlistas, uma divisão portugueza, sob o commando do conde das Antas. Mandou-se voltar; mas quando ella entrou por Traz-os-Montes em direcção do Porto, já os marechaes tinham chegado a Moncorvo, e furtaram-lhe uma brigada de infantaria. Reduzido, chegou pois Antas ao Porto, onde encontrou já Sá-da-Bandeira, vindo de Lisboa (setembro, 13) com um unico batalhão de caçadores. Os marechaes tinham Traz-os-Montes; Leiria, desde que se pronunciara na Barca, possuia o Minho. Por aqui se devia começara batida, para não deixar a rectaguarda ao inimigo. Antas, com effeito, occupou Famalicão a 15 e Braga a 16. Leiria recuava pelo Cavado, a reunir-se aos marechaes em Traz-os-Montes: fortificou-se em Ruivães; mas o inimigo desalojou-o d’ahi, depois de um breve combate (18) obrigando-o a seguir até Chaves. Antas vinha quente das guerras de Hespanha: as suas tropas, costumadas, não se recusavam a marchar. Proseguiu, e os marechaes, vendo-se perdidos, propozeram a capitulação na noite de 19-20. Antes uma composição má, do que uma boa demanda, pensavam; e do lado opposto não havia tambem vontade de levar as cousas ás do cabo. Fôra uma experiencia, a vêr: não vingou? Pois bem: nem se fale mais n’isso! Bem no fundo, eram todos amigos: tinham combatido juntos contra D. Miguel, e isto agora não passava de arrufos. As tropas haviam de submetter-se ao governo, é claro; os marechaes não podiam deixar de emigrar, é evidente; que figura viriam fazer para Lisboa? que diriam a Van der Weyer?—Mas os pobres officiaes que não tinham culpa, não podiam ficar sem pão: conservavam-se-lhes as patentes, com o soldo de reformados. (Sá,Lettre, etc.)

Assim acabou em nada a revolta dos Marechaes, que saíram d’alli para Hespanha, indo acolher-se a Paris, á espera de tempos melhores. Acabou esta revolta, mas o exemplo de generaes transformados emcondottieriestava dado e fructificaria: este ensaio era uma iniciação. De lado a lado se começava a sentir a necessidade dos golpes-de-mão e das resistencias violentas. Declarara-se a guerra, e osliberaesappellavam para a força. Durante o conflicto referido, o governador civil de Aveiro avisava Passos (16 de agosto) de que chamara tudo ás armas,«o que não vier voluntariamente, ha de vir constrangido». Se o Joäo Carlos (Saldanha) entrasse no districto e algumas pessoas d’elle o acompanhassem, o governador estava resolvido-a, «não os podendo apanhar e passar pelas armas, arrazar-lhes as casas». Eram as unicas medidas adequadas ás circumstancias. Começara por querer levar tudo por meios brandos e de suasão, mas vendo o nenhum resultado, virara-se para o lado opposto. (Corr. autogr. dos Passos) Assim tambem D. Pedro fôra forçado a libertar-nos!

Por seu lado o belga, frustrado duas vezes o plano de nos fazer felizes, já em Belem, já agora em Traz-os-Montes, perdendo a esperança do pedaço de Africa, abandonou-nos á nossa sorte. Van der Weyer foi substituido. (Goblet,Etabliss. des Cobourg) Mudou de politica a Belgica, mas o inglez que ella servia ainda de Lisboa aconselhava Saldanha, já emigrado em Londres: «Porque não levanta um corpo de tropas em Hespanha para salvar a rainha? Talvez isso lhe proporcionasse o meio de voltar aqui, ao sue paiz, coméclat». (Carta de Howard a Sald. 4 de out. de 37; em Carnota,Mem.) Não pôde ou não quiz Saldanha seguir o conselho, e a Inglaterra mudou tambem de plano. Em vez de promover as revoltas no reino, declarou uma guerra diplomatica ao governo.

Mas as licções dadas aos jovens monarchas prepararam-lhes, educaram-lhes o espirito. Iniciada a rainha, senhora varonil e nobre, nas cabalas da resistencia; ensinada desprezar as fórmulas constitucionaes e a pôr em pratica as conspirações, a fomentar os pronunciamentos, a servir-se dos generaes comobravide um tyranno á italiana, e a contar com a força estrangeira para dominar uma nação de que tudo a separavara: iniciada a rainha,dizemos, estes primeiros episodios do governo são o prologo de aventuras maiores, mais serias.

Emquanto a sedição lavrava no campo, ia o congresso debatendo-se contra os vivos ataques de uma esquerda acirrada pelo medo da reacção, esporeada pelos clubs que zumbiam em Lisboa armados. Havia declamações, invectivas chimericas, apostrophes eloquentes, theorias radicaes, formulas, phrases: peior do que em 1820! O ministerio, desconjuntado, podia pouco ou nada contra a onda da demagogia: Campos não se calava; e Julio-Gomes, que pedia ordem, via-se renegado pelos ultras, Bernardo da Rocha e Barreto-Feio. Mais o peior, o mais doloroso de tudo isso, era a penuria universal em que se vivia. Depois da saída de Passos entrara na fazenda um homem novo, rico, sem politica, banqueiro, inglezado: Tojal, de quem se esperava muito. Os portuguezes não provavam ser habeis para a finança: mas agora esteinglezapparecia como successor de José da Silva Carvalho, unico entre os antigos. Com a saída de Passos o gabinete ia todos os dias pronunciando-se mais moderado, maisrasoavel; e ao mesmo tempo, apezar da irritação das esquerdas no parlamento e nos clubs, a constituição progredia por fórma que viria a ser a propriaCARTA. Em outubro (14) ganhou-se uma batalha grave: duas camaras. Era um senado electivo por seis annos. E á força de trabalhos, depois de serias campanhas, conseguiu-se por fim votar, jurar (4 de abril do 1838) uma constituição muito soffrivel. Sá-da-Bandeira, acreditava ingenua e seriamente ter concluido a éra das revoluções: via chegada a paz desejada e considerava-secrédor das melhores graças do seu paiz. (V.Lettre au comte Goblet.)

O pelatão clamaroso dos demagogos não o assustava muito: eram opovo, o bom povo seu dilecto, a quem elle queria como os avós aos netos, achando-lhes graça em tudo, mas não chegando a comprehendel-os quando um dia começam a falar como homens. Do povo não tinha medo; para conquistar o paço fôra admittindo no governo homens quasi cartistas, muito moderados, como Bomfim. Mas não ficava, elle, sempre? Não era elle a garantia? Opovonão o julgava assim, na primavera de 38. A ingenuidade de Sá-da-Bandeira creara dios governos n’um só gabinete: Bomfim e os moderados, contra Campos e os da montanha que se entendiam com os clubistas. Eis ahi a paz que havia.

OsCamillostinham-se fechado; Costa-Cabral mudára muito: já não perorava, e adherira á moderação. AAssociação civicapassara para o Arsenal, club do batalhão de operarios navaes de que era chefe o capitão-tenente França. A marinha estava á frente da demagogia, que tinha um imperio nos estaleiros. O capitão-de-fragata Limpo, inspector do Arsenal, era clubista; e a segurança de Lisboa estava nas mãos do vermelho Soares-Caldeira, deputado, administrador-geral (nome dos governadores-civis d’então), e por isso director da guarda-nacional da capital. Sá-da-Bandeira, repetimos, não receiava nada d’isso: confiava de mais em si e na pureza das suas intenções. Era optimista por bondade. Tinha os seus espias entre os demagogos; e um era o judeu Pacifico de quem recebia as partes em arabe, porque o general sempre amara o saber. Conhecia o que elles queriam, mas não acreditava que se demandassem: bulhas dos rapazes!Ralhou paternalmente; e Limpo, enxofrado, demittiu-se. (Sá,Lettre, etc.)

A guarda-nacional reunia mensalmente, por ordem do director: a 4 de março Caldeira chamou-a e representou com ella á rainha, pedindo a queda dos ministros moderados, isto é, Bomfim. Foi então que Sá-da-Bandeira se offendeu contra a audacia dos rapazes. Deitavam as mãos de fóra: déra-lhes armas para se distrahirem, e voltavam-se contra elle! Que lhe doesse, não via remedio senão castigal-os. Por isso demittiu Caldeira (7) e poz em lugar d’elle Costa-Cabral, que dava esperanças de submissão, e promettiareprimir a anarchia. Atacados assim, rudemente, os radicaes responderam na manhan do dia 9, apparecendo em armas o batalhão do Arsenal e parte da guarda-nacional, exigindo um ministeriopuro. Era no Pelourinho, a cuja esquina havia ainda o antigo botequim, politicamente celebre, do Marcos-Philippe. A tropa cercava os sublevados, e no rio estava de canhões corridos um navio prompto a metralhar o Arsenal, baluarte da sedição. Mas Sá-da-Bandeira não queria que se derramasse sangue, nem podia desejar que se esmagasse opovo: não iria logo o poder caír nas mãos dos cartistas que o esperavam?

N’esta situação dubia e triste, não quiz vencer: pactuou a convenção de Marcos-Philippe, promettendo impunidade e conseguindo a dispersão das forças. Não podia comtudo deixar de demittir o França, nem de dissolver o seu batalhão: isso fez, (Decr. de 9 de março) com grave escandalo dos condemnados que lhe chamavam traidor. A opposição rugia nas camaras e o ministerio caíu no mesmo dia: moderados (Julio-Gomes, Bomfim) e radicaes (Campos) tiveram egual sorte. Ficou apenas Sá-da-Bandeira,com o homem da Fazenda, o Tojal que não tinha côr politica?

Não é assim: pois detraz do governo e mais governo do que elle, estava o administrador de Lisboa, Costa-Cabral, cujo verdadeiro destino começava a desenhar-se. Convinha á sua ambição a posição falsa do ministro, e ao seu genio tenaz, sem apparato, o trabalhar debaixo do nome de outro, preparando o futuro em favor proprio. N’este momento já elle, evidentemente, sabia o caminho que tinha a seguir. Não havia um homem: sel-o-hia! Não havia uma doutrina, na desordem de opiniões que se chocavam: elle restauraria a antiga doutrina daCARTA. Os marechaes, por isso mesmo que estavam exilados e compromettidos, seriam instrumentos doceis. E a rainha, porque era varonil e cheia de talento, comprehenderia a rasão de ser de taes vistas, a sabedoria do plano e a capacidade do homem.

Fôra demagogo? Tambem Saldanha. Isso nada importava á politica: nem provavelmente o affligia a elle. Ou tivera de facto essas opiniões e mudara, cousa que o devia fortalecer na opinião de agora; ou desde o começo representara um papel, caminhando por vias tortuosas direito a um fim, e isso dar-lhe-hia um grande orgulho, quando via confirmadas as suas previsões. Arrependimento ou apotheose, a sua mudança não diminuia a força propria do seu genio. Para os simples havia de passar por traidor e falso: que importa? sempre os politicos o foram; e para governar basta uma cousa, sem a qual toda a virtude é fumo: a força victoriosa. O politico ha de ser temido e não amado: ai, dos que esperam e crêem nos bons instinctos dos homens, como o fraco e virtuoso Sá-da-Bandeira, reduzido á condicção de pára-choquesentre o povo e a côrte, reduzido a nada, renegado por todos!

A demagogia não se calara e reclamava uma desforra do dia 9. O ministro nada podia, porque em vez de a vencer, obedecera-lhe, para depois a acirrar com os decretos da tarde. Clamava-se pela revogação d’elles; e o paço andam pallido de susto. Diz-se que d’então data o primeiro accordo entre a rainha e Costa-Cabral. Diz-se que elle foi, e prometteu resolver a crise; expoz o seu plano, e de tal modo, manifestando a sua força, logo seduziu a rainha. Afinal encontrava-se um homem! Com a tropa desarmaria o povo, e sem espingardas a democracia, restaurar-se-hia a ordem. Era simples, era pratico e seguro. Permittil-o-hia porém Sá-da-Bandeira? Até certo ponto permittiria; depois não. Mas para esse tempo estaria já desacreditado de todo, e deitava-se fóra. Talvez a rainha nem o planeasse, nem pensasse tão cruamente. Costa-Cabral não podia pensar de outro modo.

Sá-da-Bandeira tinha mau genio, era teimoso e rabugento na sua bondade. A teima e as ameaças com que lhe exigiam a revogação dos decretos de 9 irritavam-no, dispondo-o bem para o papel que aos novos planos convinha que elle representasse, e com effeito representou no dia 13. De madrugada a guarda-nacional appareceu a postos com os seus commandantes que exigiam a reintegração de França. Tocava a rebate em todos os sinos, rufava o tambor por toda a cidade. A tropa formava no largo da Estrella para defender as Côrtes, e no das Necessidades para defeza do paço. Cabral mandava, Sá obedecia, e Bomfim, Reguengo, preparavam-se para daruma lição. Haveria mortes? Provavelmente. Marcharam as tropas, e a sua primeiraacção foi desalojar os rebeldes do convento de Jesus, tomado de assalto: correu ahi sangue, mas pouco. Dos outros pontos a guarda-nacional debandou: não para fugir, mas para ir reunir-se, com artilheria, no largo da Graça. A Estrella e a Graça estão nos dois confins oeste e leste da cidade, que ardia toda em desordem e gritos. E gritando orava no Congresso a esquerda, confiando no exito da revolta que trabalhava por sua conta lá fóra.

Costa-Cabral levou Sá-da-Bandeira á Graça, e depois de muito falar conseguiu que os revoltosos descessem. Era um ardil de guerra. Quando chegaram ao Rocio, viram-se cercados por Bomfim que de todos os lados, nas ruas das encostas, fechava essa baixa, de molde feita para curral de gado tresmalhado. Houve ahi tiroteio e cousa de uma duzia de mortos. Caía então a noite: estava acabada a funcção. Os sediciosos debandavam e Costa-Cabral celebrava uma victoria incontestavel. Cumprira o que promettera, mostrando ser homem para muito mais. Sá-da-Bandeira agradecia-lhe, punha-se ás suas ordens, considerava-o o seu braço direito. Se essa gente vencesse? que seria de tudo? Com effeito, não podiam dar-se armas ao povo que tão mal usava d’ellas. Em urgente dissolver os batalhões: não direi todos, mas os peiores, os mais vermelhos ... Cabral começou pois a trabalhar, a dissolver batalhões; e era em Lisboa, na administração, um Pina Manique: mais! o principio de um Pombal. O genio organisador, administrador apparecia, depois da arte e da bravura com que esmagara a revolta. Fazia regulamentos, organisava cadastros, arruava as mulheres de má vida. Evidentemente subia, e não se descortinava quem lhe fizesse sombra. A rainha dera-lhe a commendada Conceição—oh, tempos antigos! (V.Costa Cabral apont. hist.anon.)

Quatro dias depois do 13, o moderado Bomfim voltava para o governo; e Sá-da-Bandeira, sempre crente, cheio de esperança, considerava terminado o episodio dos tumultos, sellada a paz—com sangue, é verdade!—e conquistado para a sua obra um homem novo, precioso. No principio de abril, em sessão solemne (4), a rainha e o rei foram jurar a constituição nova, bem rasoavel. Todos approvavam, todos estavam satisfeitos, todos gabavam Sá-da-Bandeira, ou antes, acreditava elle isso. Howard e a Inglaterra, Goblet e a Belgica, appoiavam decididamente. Tinham terminado ambas as revoltas, a do povo, e a dos marechaes que de Paris se submettiam, jurando o novo codigo. Era umaregeneração, de lealdade e de virtude; ainda que o vencedor não deixava de ter uma vaidade ingenua pelo modo como conseguira desviar a revolução do perigoso caminho onde a levava o seu bom amigo Passos. Illusões desculpaveis de um espirito todopoesia! Elle, via-se pratico, sabio. Ia coroar-se a rainha Victoria em Londres; e Palmella, afinal riquissimo com a fortuna da herdeira da Povoa sua nora; Palmella que desde 36 amuara, fazia as pazes, indo ostentar o seu luxo na terra onde passara dias tão crueis. (Sá,Lettre, etc.)

Mas que singular tumulto é esse, no meio de uma paz tão firme? que desordem se levanta no dia do Corpo-de-Deus? Era já tarde (14 de junho), a procissão recolhia á Sé. Que surpreza, para os ouvidos de quem se julgava acclamado, os insultos despedidos contra o rei, contra a rainha, e contraelle proprio, o crédor da paz universal?—Maledicos disseram que essa paz fazia mal á ambição do homem-novo: só nas bulhas podia mostrar bem quem era e quem seria. Se elle, com effeito, arranjou essa desordem para seu uso proprio, o resultado ia-lhe sendo ficar sem vida.

A triste procissão entrou na Sé destroçada. Luziam as bayonetas agitando-se, e as vozes do povo armado pediam sangue e cabeças. Cada qual fugira para seu lado, escondendo-se pelos escadas. Era grutesco vêr as fardas bordadas com espadins e commendas, os chapeus de plumas e mantos de filó; era grutesco vêr os personagens correr, sumirem-se, atarantados com o susto. O Law portuguez reformado e o Pombal nascente, um passado e um futuro, encontraram-se socios no perigo, escondidos n’uma escada, cuja porta defendia, irritado mas firme, o ministro surprehendido. Uma bayoneta luziu com a ponta direita ao peito de Sá-da-Bandeira, vindo cravar-se-lhe no crachá, a que deveu a vida: como as condecorações ás vezes servem! Omarca, falhado o golpe, via-se perdido; mas Sá-da-Bandeira mandou que deixassem «passar esse homem». O homem fugiu, a soldadesca popular foi correndo, clamando atraz da sege, onde,batendo, um bolieiro salvava Costa-Cabral e Silva-Carvalho. Em Santa-Justa, Cabral extendeu o braço, disparou a pistola contra a turba que o seguia, como lobos. E a segebatia, fugia, até entrar no Castello, onde se refugiaram. A carruagem de Costa-Cabral, vasia, foi corrida á pedrada. (Apontamentos historicos, anon.)

Que surpreza singular! O ministro não caia em si. De certo, não havia remedio: força era supprimir mais batalhões, inclinar ainda mais á direita, dar todo o apoio ao homem novo, o unico homemcapaz de pôr cobro ásdemasiasde um povo que teimava em não ser cordato: uma pena! Costa-Cabral, commendador em março, subia a conselheiro, e no fim do anno passava, da administração, para a camara. Voltava ahi com uma pelle nova, homem inteiramente diverso do antigo deputado da montanha. Descendo a bancos mais baixos—subia, subia sempre.

Faltava agora, ao infeliz Sá-da-Bandeira, depois da ingratidão do povo, a das potencias! Que a sessão parlamentar de 39 havia de ser borrascosa, já o esperava: haviam de o accusar, e accusavam-n’o, por pender para a direita, por atacar na guarda-nacional o palladio da liberdade, etc. Estava preparado para isso, sabia o que devia responder, e tinha na camara o seu Costa-Cabral. Mas o comportamento da Inglaterra? Pois era o mesmo Howard, o proprio que o anno passado lhe dava parabens, felicitando-o, approvando tudo? Agora se desilludia: a Inglaterra que intrigára sempre contra Setembro; a Inglaterra da Belemzada via chegado o momento de apunhalar n’elle opovo. Eram exigencias sobre as questões do cruzeiro,[19]quando ninguem tinha mais a peito abolir a escravatura. Havia um proposito ... Pedia-se a bolsa ou a vida, exigindo-se meio milhão esterlino de contas de soldos atrazados, ou em compensação a India. (Sá,Lettre au comte Goblet, etc.) Havia um pensamento: obrigal-o a saír, expulsal-o do governo. Porquê? Teriam já adiantado os planos entre o homem-novo e a corôa para restaurar aCARTA? e seria uma fórma diversa, mais cavillosa, de Belemzada? Quem sabe? Começaria Sá-da-Bandeira a desconfiar do papel que representava? Voltar-se para opovo, já o não podia: talvez tivesse tido mais juizo o Passos, retirando-se ...

Que havia um proposito, era fóra de duvida. Não se exigem impossiveis. E podia elle dar a India? E podia elle dar o meio milhão, quando o Thesouro, como sempre, estava phtisico? De certo não. As finanças, essas malditas finanças, iam de mal a peior. Tojal, por fim, não dera nada. Á falta de homens fôra mistér restaurar (17 de abril de 38) o antigo barão de Chancelleiros, que deixára os negocios desde 28. Nem um, nem outro: ninguem era capaz de pôr ordem n’esse cháos, que era o descredito da revolução. Agora vinha a Inglaterra pedir meio milhão! Era bom de pedir; mas como não havia que dar, Sá-da-Bandeira percebeu que a exigencia encobria outra vontade—a de o expulsar do governo. Abdicou, pois (18 de abril de 39).

O tempo que separava Costa Cabral do poder corria. Os successivos momentos do seu plano realisavam-se. Não se podia ainda precipitar a acção, nem isso convinha. O resto que havia de força na gente setembrista consumil-o-hia um governo ephemero, maismoderado, o governo do sagaz Pizarro, malicioso e astuto, improvisador facil sem eloquencia, habilidoso sem talento, aristocrata por indole, setembrista por ter sido inimigo de D. Pedro: do inconsciente Pizarro, feito barão da Ribeira de Sabrosa. (Hontem, hoje e amanhan, op. anon.)

A exigencia do meio milhão vinha a ponto, opportuna,porque nada desacreditára tanto o setembrismo como a sua gerencia financeira. Á ruina conhecida do paiz juntava-se a incapacidade de homens sem talento para gerir, nem artes, nem caracter para mascarar. Via-se ás claras, aggravado, o sudario que um Silva Carvalho enrolava habilmente no bolso. Elle com a sua arte chamava, os setembristas com a sua franqueza afugentavam o judeu de Londres, que era a melhor fonte, o ultimo recurso do Thesouro de uma nação queimada. Em vão o setembrismo creava aprotecção, em pautas quasi prohibitivas para muitos generos: a industria não surgia; encareciam apenas as cousas, e engrossava o numero d’esses operarios fabrís que em Lisboa eram asmarcasda guarda-nacional com que se faziam tumultos.

Para animar e favorecer a nossa agricultura, industria e artes, devem marcar-se direitos protectores a todos os generos e mercadorias que produzimos e fabricamos, em ponto tal que possa dispensar-nos já ou vir a dispensar-nos da producção ou manufactura estrangeira. (Rel.de José Passos; ref. de pautas; sess. de 39)

Para animar e favorecer a nossa agricultura, industria e artes, devem marcar-se direitos protectores a todos os generos e mercadorias que produzimos e fabricamos, em ponto tal que possa dispensar-nos já ou vir a dispensar-nos da producção ou manufactura estrangeira. (Rel.de José Passos; ref. de pautas; sess. de 39)

«Já temosalgumafiação, observava com esperança o relator, e se a legislação não mudar, teremos mais.» Talvez a Inglaterra não applaudisse o novo pombalismo da revolução. Se o temia, fazia mal, porque elle só creava elementos de desordem muito mais dispendiosa do que o augmento de receita das alfandegas. A pobreza não cessára de crescer. Pela legislação de 34 todo o papel-moeda devia acabar em 38, traduzindo-se em metal as obrigações contractuaes anteriores. Mas como pagar tres mil contos ou mais, ainda em circulação? Força foi, portanto, deixar á sua extincção natural, indefinida, o que restava, prejudicando muitograves interesses; pois que as especies contractuaes anteriores se prorogavam indefinidamente tambem, nem podia ser de outra fórma. (D. de 31 de dezembro de 37) Era mais uma banca-rota, a sommar aos successivospontos,saltos, conversões de vencimentos, etc. em titulos de uma divida de que não havia com que pagar o juro. Uma nação de empregados tinha caimbras de fome. Todos os estomagos davam horas.

Passos conseguira que a decima produzisse o dobro, de mil a dois mil contos; mas isso era um copo de agua no mar. O orçamento para 38-9 apresentava um deficit de 7:259 contos (16:835-9576) no qual entravam 5:107 de vencimentos atrazados. E a divida, que era de 70:580 com o juro de 2:417 em dezembro de 36, chegava a 79:235 com o juro de 2:885 em dezembro de 38. (A. Albano,A div. pub. port., 1839) A maré subia, subia, de um modo assustador. (V. os numeros anteriores em 28 e 35)

Um anno depois, em novembro de 39, já não eram 80, eram 85 mil contos, pois se iam capitalisando vencimentos, dividendos. E não escolhemos um inimigo, antes um defensor e ex-ministro da revolução, que para a defender compara os dois periodos de setembro de 36 e novembro de 39, denunciando um accrescimo de cinco mil contos ao anno. (Sanches,O est. da divida pub., 1849)

E a Inglaterra pedia meio milhão ou a India! Sá-da-Bandeira demittira-se; Sabrosa em novembro, ao saír, dizia que a côrte era a serva da Inglaterra que o expulsava: «Fômos despedidos com mais sem-cerimonia do que costumo despedir os meus creados». (Liberato,Mem.) Foram despedidos. A revolução acaba, e começa, com aORDEM, uma historia de novas desordens. Bomfim serve deplastronás duas figuras seccas e frias, sem illusões,Rodrigo e Costa Cabral que se acotovelam no gabinete (26 de novembro). Qual d’elles vencerá?

Rodrigo tem a ironia e o scepticismo: «a questão ingleza são alguns saccos de ouro.» (Liberato,Mem.) Cabral tem a violencia e um plano. Dissolveram a velha camara (25 de fevereiro de 40); e emquanto um acceitava a constituição, acceitava tudo, porque tinha fé nas suas manhas e artes; o outro, como doutrinario, puzera a peito organisar as cousas sob um typo novo de instituições. Qual dos dois vencerá? Primeiro, o doutrinario; porque o paço partilha as suas ideias, porque ainda ha quem espere e creia. Depois, quando esse novo typo, fórma deliberdade, tiver tido o destino natural, e tudo ficar em farrapos, os principios e as esperanças, os marechaes e os partidos, então, sobre as ruinas das chimeras, no seio do cansaço universal, reinará o perfil ironico de Rodrigo, vencedor final ...

O futuro pertence agora a ambos ainda, e só a elles: porque um passado que não voltará mais atirou com os coripheus do setembrismo para longe. Sá-da-Bandeira sóme-se; Pizarro vae enterrar-se em Chaves onde morre; Passos, o nobre Passos, já esquecido, no seu exilio de Alpiarça, aguarda o momento de voltar a publico fazer uma confissão geral, dizer as novas impressões e idéas que o exame directo da realidade acordou em seu espirito.

O anno de 44, pelo outomno, ouviu a final confissão do tribuno. Seis annos ou sete havia que deixara o governo e se exilara. N’esse periodo tinham occorrido cousas graves. Costa Cabral vencera Rodrigo, restaurando aCARTAem 42, começando oseu reinado; e no principio do anno em que Passos Manuel orou, frustrara-se a sedição (de Torres-Novas), preparada para galvanisar o setembrismo. Passos já sabia que elle estava bem morto: não adheriu. A sedição fôra suffocada.

N’um dia passou por Alpiarça o tenente Portugal, que ia juntar-se aos revoltosos. No dia seguinte passou o coronel Pina, que ia unir-se ás forças do governo. Nem offendemos um, nem coadjuvámos o outro. Eu era estranho a estes movimentos que não tinha aconselhado, cuja conveniencia não conhecia ... Quando a revolta triumphasse não esperava d’ella grandes beneficios nem melhoramentos para o paiz. Alpiarça não queria ser elevada a cidade; nem eu nem os meus visinhos a paes da patria. Não tinhamos nada com estas bambochatas. (Disc. de 18 de out. de 44)

N’um dia passou por Alpiarça o tenente Portugal, que ia juntar-se aos revoltosos. No dia seguinte passou o coronel Pina, que ia unir-se ás forças do governo. Nem offendemos um, nem coadjuvámos o outro. Eu era estranho a estes movimentos que não tinha aconselhado, cuja conveniencia não conhecia ... Quando a revolta triumphasse não esperava d’ella grandes beneficios nem melhoramentos para o paiz. Alpiarça não queria ser elevada a cidade; nem eu nem os meus visinhos a paes da patria. Não tinhamos nada com estas bambochatas. (Disc. de 18 de out. de 44)

Bambochata, a revolução!Quantum mutatus ab illo... Sim! Bambochata fôra para elle todo o cartismo até 36, emquanto punha a sua fé e as suas esperanças na Democracia, expressão genuina, verdadeira e pura da Liberdade. Bambochata fôra a vida de todos esses homens, a quem o governo coubera até setembro: mas depois? Depois tambem, reconhecia-o agora, quando á empreza para restaurar a democracia dava um nome egual; porque a gente a quem fôra confiada a defeza dos principios não pudera com o peso do encargo:

Se a Revolução está morta, não foram os seus inimigos que a mataram. (Ibid.)

Se a Revolução está morta, não foram os seus inimigos que a mataram. (Ibid.)

O tribuno presentira o passamento, e retirou-se para não assistir ás exequias. Era uma grande agonia, uma afflicção dolorosa que o tomavam? Não; eram as nauseas do desengano.

Este fastio, esta indifferença, vieram-me no dia em que o meu proprio partido commetteu um grande erro, e, direi francamente, um grande crime; foi no dia da presiganga ...Desde então considerei a revolução como perdida, porque estava deshonrada ... e assisti melancholico ao seu passamento e ás suas exequias. Retirei-me da vida publica e fui buscar o descanço e as consolações da vida privada. (Ibid.)

Este fastio, esta indifferença, vieram-me no dia em que o meu proprio partido commetteu um grande erro, e, direi francamente, um grande crime; foi no dia da presiganga ...Desde então considerei a revolução como perdida, porque estava deshonrada ... e assisti melancholico ao seu passamento e ás suas exequias. Retirei-me da vida publica e fui buscar o descanço e as consolações da vida privada. (Ibid.)

Mas o erro de uns homens não póde ser a condemnação de um principio. Como Cincinato, Passos tomava o arado, á espera que a doutrina o chamasse outra vez ao campo? Não nos illudamos, conforme elle parece querer illudir-se. É muito doloroso e difficil de confessar que a nossa opinião foi um sonho, uma chimera, ou um erro; mas quando se tem a sinceridade propria das grandes almas, essa confissão vem do pensamento aos labios e faz-se. Era o que succedia n’essa hora ao tribuno. Em vão encobrira as ruinas das suas idéas com o fastio pelos homens a que tinham sido confiadas. A sua descrença, a sua indifferença abraçava homens e idéas, restando apenas a energia dos sentimentos do poeta e do moralista. Eram estes que condemnavam como inuteis e vans as doutrinas e systemas.

O melhor governo será sempre aquelle que applacar e não inflammar os odios civis; o que souber inspirar amor e não inimisade; o que fôr mais humano e não o que fôr mais cruel ... A generosidade é o predicado da força, o laurel da victoria. Só a cobardia é vingativa: o medo não póde ser magnanimo ... Nada póde ennobrecer tanto os homens publicos e os partidos politicos, como a firmeza na adversidade e a moderação no triumpho. (Ibid.)

O melhor governo será sempre aquelle que applacar e não inflammar os odios civis; o que souber inspirar amor e não inimisade; o que fôr mais humano e não o que fôr mais cruel ... A generosidade é o predicado da força, o laurel da victoria. Só a cobardia é vingativa: o medo não póde ser magnanimo ... Nada póde ennobrecer tanto os homens publicos e os partidos politicos, como a firmeza na adversidade e a moderação no triumpho. (Ibid.)

E a coragem, a audacia, a fé, para propagar e impôr uma doutrina? Pois já o politico não é um philosopho e um apostolo? Não, não é. As illusões perderam-se, veiu o outomno e as folhas caíram: eram sonhos as doutrinas, chimeras as esperanças. O veneno do scepticismo invadiu a alma do antigo apostolo;e elle que fôra por mais de dez annos o S. Paulo da democracia, despia agora o ardor de outr’ora e ficava um Christo de amor, de paz, de meiguice ternamente compassiva, levemente ironica. Os homens não mereciam mais. Portugal não lhe inspirava outro sentimento. Essa Liberdade que nas phrases occas dos vaidosos fôra uma conquista, era de facto um dom do acaso: não a tinham ganho, dera-lh’a um destino.

Quem inspirou a Portugal o amor da liberdade? Foi Manuel Fernandes Thomaz, o patriarcha? Foi o venerando Manuel Borges Carneiro? Foram esses oradores das nossas primeiras camaras? Não! não! foram os sanguinarios ministros de D. Miguel que, abusando da inexperiencia do principe, em seu nome exerceram sobre o paiz a mais insupportavel tyrannia.Se D. Miguel em 1828 não procedesse com a precipitação de Minucio, se por mais tempo tivesse conservado o escudo da carta constitucional, e se como regente em nome de D. Pedro tivesse desligado uns apoz outros os commandantes dos corpos, a revolução de 16 de maio de 1828 seria impossivel; o throno de D. Pedro, a liberdade do paiz teriam caído então como caíram em 1823, sem que se disparasse um tiro em sua defensa, sem que uma gota de sangue se derramasse pela liberdade do povo.

Quem inspirou a Portugal o amor da liberdade? Foi Manuel Fernandes Thomaz, o patriarcha? Foi o venerando Manuel Borges Carneiro? Foram esses oradores das nossas primeiras camaras? Não! não! foram os sanguinarios ministros de D. Miguel que, abusando da inexperiencia do principe, em seu nome exerceram sobre o paiz a mais insupportavel tyrannia.

Se D. Miguel em 1828 não procedesse com a precipitação de Minucio, se por mais tempo tivesse conservado o escudo da carta constitucional, e se como regente em nome de D. Pedro tivesse desligado uns apoz outros os commandantes dos corpos, a revolução de 16 de maio de 1828 seria impossivel; o throno de D. Pedro, a liberdade do paiz teriam caído então como caíram em 1823, sem que se disparasse um tiro em sua defensa, sem que uma gota de sangue se derramasse pela liberdade do povo.

Estas palavras resumem e confirmam a historia que nós contámos; mas na bocca de um dos chefes vencedores, não serão um triste commentario da propria obra? uma annotação grave ás palavras de outro tempo? Caíram os homens, caíram os systemas: pois agora tambem se apaga no espirito do tribuno a victoria da Liberdade! O ar é muito mais transparente, a vista muito mais penetrante pela tarde, ao descair do sol: em pleno dia o clarão offusca. Na tarde da sua vida, Passos era mais perspicaz. A victoria? um acaso. As doutrinas? vaidades. Os homens? bambochas.—Como deveser melancolico o approximar do tumulo, envolvido no renegar de uma existencia inteira!

Felizes, porém, os poetas que, acaso por verem mais longe, vêem pouco e mal o que está perto! Assim Passos, no meio das ruinas, appellando para o amor, para a paz, appellava tambem para a ordem e para a legalidade.

Acredito nos meios legaes ainda que debeis, no triumpho da liberdade ainda que tardio: não ambiciono a gloria militar, nem corôas de louro ... Na politica não ha atalhos: a estrada real é a legalidade.

Acredito nos meios legaes ainda que debeis, no triumpho da liberdade ainda que tardio: não ambiciono a gloria militar, nem corôas de louro ... Na politica não ha atalhos: a estrada real é a legalidade.

Singulares expressões na bocca do dictador erguido por uma revolução, do homem do Campo-de-Ourique, no dia da Belemzada, á frente da guarda-nacional contra o throno! Singulares expressões que se diriam uma apotheose do governocartista, sentado alli a ouvil-o, a apoial-o de certo: elle que em nome da legalidade restaurara aCARTA, chamando a todo o periodo setembrista um crime contra a lei.

Lei, legalidade: mas qual? Se se discute a origem do proprio poder. Onde está? no throno como uns querem, reconhecendo aCARTAque o throno deu; ou no povo, como querias, oh nobre, inconsequente orador? Como póde haver lei, quando se discute a propria origem da authoridade que dá força ás leis?—Passos protestava, sim, contra as sedições militares, não queria «corôas de louros»; mas desde que a origem tradicional do poder se contestara; desde que a nova origem, democratica, não podia enraizar-se, como o provára a historia de 36-39; desde que vingava o constitucionalismo hybrido em que a authoridade, nem por ter (ou antes por isso mesmo) duas fontes, deixa de ser uma anarchia doutrinaria; desde que, finalmente,a victoria da liberdade fôra um acaso—que podia ser a vida do paiz senão uma serie de sedições e revoltas?

Triste, desoladora sorte, a de Portugal! Nem homens, nem systemas, nem a propria religião nova, daLIBERDADEvingava! Não era para descrer da patria? Não era para interrogar a historia, a vêr se nós não seriamos um erro—como tantos!—que o tempo arrasta pelos seculos?

Sou franco. Fui sempre grande partidista da união de Hespanha a Portugal: desejava muito que a politica não separasse por mais tempo aquelles que a natureza tinha unido. No estado actual da Europa as nações pequenas soffrem muito. Era bello vêr a rica peninsula iberica representar no mundo como grande potencia, como nação que a natureza fez cabeça da Europa!

Sou franco. Fui sempre grande partidista da união de Hespanha a Portugal: desejava muito que a politica não separasse por mais tempo aquelles que a natureza tinha unido. No estado actual da Europa as nações pequenas soffrem muito. Era bello vêr a rica peninsula iberica representar no mundo como grande potencia, como nação que a natureza fez cabeça da Europa!

A independencia portugueza era com effeito uma tradição da monarchia que a fundara, e, salvas ambições intercorrentes, a defendera sempre. Agora que a tradição caíra, e que, varridas todas as idéas antigas, os homens buscavam na Natureza o principio das cousas achando só desolação e anarchia, era justo, era necessario que a confissão do tribuno acabasse por um renegar da historia. Não começara Mousinho renegando-a tambem, com as suas opiniões de jurista e de economista, nas instituições e no organismo? Afinal a politica, indo tambem ao fundo, auscultar o seio de uma Natureza que suppunha prenhe de todas as verdades, chegava onde devia chegar: á negação de uma nação feita contra ella pelas artes dos homens; chegava onde ao moralista conduzia o espectaculo da sua actual miseria—á condemnaçãoformal. «No estado actual da Europa as nações pequenas soffrem muito».[20]

E muito, acaso mais do que ninguem, soffria Portugal, assolado, queimado, com os seusbravida tribuna e do campo, ceifeiros desapiedados que devoravam as searas sem deixarem grão nem para a semente. Passos, já ensinado pela experiencia, respondera aos de Torres-Novas:

Estou muito gordo para me dar á vida aventurosa e romantica das guerrilhas: não tenho pressa de entrar no Pantheon. A gordura e o casamento são duas grandes garantias de ordem ... Continúo no meu remanso a apanhar a minha azeitona, a comer os meus feijões e a lêr a minha gazeta, sem ter mais parte nos negocios publicos, depois que me retirei inteiramente á vida privada.

Estou muito gordo para me dar á vida aventurosa e romantica das guerrilhas: não tenho pressa de entrar no Pantheon. A gordura e o casamento são duas grandes garantias de ordem ... Continúo no meu remanso a apanhar a minha azeitona, a comer os meus feijões e a lêr a minha gazeta, sem ter mais parte nos negocios publicos, depois que me retirei inteiramente á vida privada.

Precipitára-o pois a politica no scepticismo absoluto ou n’um pessimismo amargurado? Não. A poesia salvava-o; e se perdera a confiança nos homens, nos systemas, nos principios, na historia e na patria, não perdera aquillo que tinha no fundo intimo da sua alma: o seu amor, a sua virtude, a paz serena da sua consciencia, a luminosa e meiga doçura da sua bondade.

Se a politica me irrita, tenho uma cataplasma emmoliente a que me soccorro. Tomo a minha filha nos braços, aperto-a contra o meu peito, e procuro assim esquecer os infortunios da minha patria.

Se a politica me irrita, tenho uma cataplasma emmoliente a que me soccorro. Tomo a minha filha nos braços, aperto-a contra o meu peito, e procuro assim esquecer os infortunios da minha patria.

Quem não vê d’aqui o grupo suave, melancolico? o homem cuja face sorri caridosamente para a innocencia? o homem que é uma ruina, mas com uma flôr no seio, como succede aos edificios derrocados?

Assim, embalando nos joelhos a filha, abraçando-a, beijando-a, acaba aquelle que nós vimos começar, estoico, em 26 ao jurar daCARTAno Porto. Viveu annos ainda, mas ficou outro e que pouco importa á historia. Dos soldados que aANARCHIAmatou, elle é o segundo: Mousinho fôra o primeiro. Entra agora aORDEMa fazer victimas: Cabral, Rodrigo, Herculano. Vel-os-hemos morrer de varios modos: oxalá tivessem acabado todos, como acabou Passos: com a filha sobre os joelhos, embalando-a, beijando-a!

Esses beijos eram o despedir, o finar-se da chimera setembrista; mas o amôr que traduziam tinha sido e é ainda o symbolo de uma idéa futura, mal concebida nos dias de hoje—o symbolo da democracia, egualisadora dos homens ...

Com Passos caíu a segunda definição do liberalismo: a ruina da idéa derrubava o seu defensor.Mas, agora, apparecia em 39, com o ministerioordeiro, uma definição nova—d’esta vez a genuina, a pura, a definitiva? Repellia ao mesmo tempo o radicalismo de Mousinho e a idolatria da soberania-nacional setembrista. Voltava aos tempos de 30, ás doutrinas estudadas com ardor na emigração pelos livros dos mestres. Queria e pedia tudo á liberdade individual, condemnando a democracia; mas em vez de renegar a historia, ia buscar á tradição a base para um throno vacillante. Tornava-se á «melhor das republicas», e o coripheu d’essa opinião em Rodrigo, se é que o sceptico estadista possuia opinião; se é que não preferia esta exactamente por ser parda: côr sobre que assentam bem quasi todas as outras. Não é pois á politica, é á litteratura que nós iremos pedir a explicação do novo systema, prenhe de esperanças, que só durariam dois annos. (39-42, restauração da Carta).

NOTAS DE RODAPÉ:[11]Eis aqui um documento authentico: (Corr. de Rezende)Regimento4 de cav.ªIll.ᵐᵒ Sr.He do meu dever levar no conhecimento de V.S.ª que hontem alguns sargentos e soldados do Regimento dicérão que não querião para os Commandar o Major Taborda Capitães Leal, Amaral e Cunha e só sim a todos os subalternos sendo eu o Commandante, o que V.S.ª já saberá; em consequencia d’istro tratei de conservar a disciplina (!) e boa ordem, em que nada se ácha alterada (?); hoje por oucazião da Parada de Missa fiz ver ao Regimento q. éra preciso segundo minha opinião, que viessem os officiaes e Major para o Regimento e bem assim V. S.ª ao que me responderão que só querião V. S.ª, e que nada dos outros, visto isto pesso a V. S.ª que quanto antes queira vir tomar o Commando do Regimento, e então V. S.ª verá o modo de fazer o q. julgar conveniente para ver se os Soldᵒˢ anuem á recepção dos nossos Camaradas no R.º, podendo eu asseverar a V. S.ª q. só dezejooportunidadee boa camaradage no R.º.Deos Gd.ᵉ a V. S.ª Quartel em Belem 11 de setembro de 1836.Ill.ᵐᵒ Snr. João X.ᵉʳ de Rezende.Francisco Maria VieiraT.ᵉPrecursor opportunista, o nosso tenente![12]A narrativa do episodio da Belemzada, conforme se acha no livro citado do sr. Macedo, é transcripta doEcho Popular, jornal de José Passos, no Porto, e que Manuel, de Alpiarça, inspirava em 57 quando a noticia viu a luz. É certo, portanto, que se Manuel Passos a não escreveu, como se suppõe, viu-a, emendou-a: tem pois o caracter authentico.[13]V.Instit. primitivas, pp. 156-66.[14]Foi antes ou depois d’isto que a artilheria engatou em Belem para fugir para Lisboa, sendo necessario mandar cavallaria cortar-lhe a vanguarda; sendo necessario que D. Fernando fosse pela estrada fóra, a galope, escapando por um triz á cutilada que um soldado lhe despediu?[15]V.Hist. de Portugal, (3.ª ed.)I, pp. 66-9.[16]«Em quanto as Marnotas e que V. erra de todo; era uma vasta conspiração, abortada pela denuncia d’um miguelista que se vendeu, e annos depois pagou a traição com a vida».Cartado sr. Carreira de Mello ao A.[17]O sr. R. de F. (Port. Contemp.) attribue a outra causa (inveja? despeito?) o silencio de Sá-da-Bandeira ácerca do episodio do paço de Belem: crendo tambem que Passos deixou o governo, forçado mas não descrente. Não me parece isso a mim, á vista dos antecedentes e dos consequentes.[18]V.Hist. de Portugal(3.ª ed.)I. p. 66; eInstit. primit.pp. 162-6.[19]V.O Brazil e as colon. port.II,I.[20]Accusa-me o sr. R. de F. (Port. cont.) de ter interpretado erradamente o famoso discurso de Manuel Passos, especialmente n’este ponto. Relendo o texto vejo que, effectivamente, é licito inferir-se do que escrevi que em 44 Passos veiu á camara prégar o iberismo. Não é assim. Depois do periodo transcripto, o orador diz: «Comtudo, depois do que tenho visto praticar no reino visinho ... eu não podia agora dar o meu voto para uma união ... Se vierem, ainda pegarei n’uma espingarda e farei fogo aos invasores».Esclareçamos pois este ponto, já que assim se julga necessario. Passos quer ou não o iberismo? Quer;comtudo, não o queragora. É pois uma questão de opportunidade e occasião que nada altera o fundo do seu pensamento: por isso julguei que, embora necessaria esta nota, não devia alterar o que diz o texto.Accrescenta o meu amavel critico que o discurso de 44 não sãofolhas caidas; que ahi se diz aos setembristas: «não desespereis nunca da causa da patria; ella será salva pela efficacia da lei, pela perseverança dos chefes, e pela confiança dos cidadãos»; que Passos Manuel ainda continuou a figurar na politica, etc.São modos de ver. Figurar, figurou: mas como? Ouve-se já por ventura a fé, o enthusiasmo de outros tempos? Figurar na politica torna-se um habito, e, como habito, necessidade. A voz do antigo tribuno amolleceu, porque se lhe entibiou a fé. Que attitude propõe, que programma formula aos seus partidarios? Uma attitude passiva, um programma delegalidade. Ponha-se isto ao lado das palavras transcriptas no texto, e concordar-se-ha que sãofolhas caidas.

[11]Eis aqui um documento authentico: (Corr. de Rezende)Regimento4 de cav.ªIll.ᵐᵒ Sr.He do meu dever levar no conhecimento de V.S.ª que hontem alguns sargentos e soldados do Regimento dicérão que não querião para os Commandar o Major Taborda Capitães Leal, Amaral e Cunha e só sim a todos os subalternos sendo eu o Commandante, o que V.S.ª já saberá; em consequencia d’istro tratei de conservar a disciplina (!) e boa ordem, em que nada se ácha alterada (?); hoje por oucazião da Parada de Missa fiz ver ao Regimento q. éra preciso segundo minha opinião, que viessem os officiaes e Major para o Regimento e bem assim V. S.ª ao que me responderão que só querião V. S.ª, e que nada dos outros, visto isto pesso a V. S.ª que quanto antes queira vir tomar o Commando do Regimento, e então V. S.ª verá o modo de fazer o q. julgar conveniente para ver se os Soldᵒˢ anuem á recepção dos nossos Camaradas no R.º, podendo eu asseverar a V. S.ª q. só dezejooportunidadee boa camaradage no R.º.Deos Gd.ᵉ a V. S.ª Quartel em Belem 11 de setembro de 1836.Ill.ᵐᵒ Snr. João X.ᵉʳ de Rezende.Francisco Maria VieiraT.ᵉPrecursor opportunista, o nosso tenente!

[11]Eis aqui um documento authentico: (Corr. de Rezende)

Regimento4 de cav.ªIll.ᵐᵒ Sr.He do meu dever levar no conhecimento de V.S.ª que hontem alguns sargentos e soldados do Regimento dicérão que não querião para os Commandar o Major Taborda Capitães Leal, Amaral e Cunha e só sim a todos os subalternos sendo eu o Commandante, o que V.S.ª já saberá; em consequencia d’istro tratei de conservar a disciplina (!) e boa ordem, em que nada se ácha alterada (?); hoje por oucazião da Parada de Missa fiz ver ao Regimento q. éra preciso segundo minha opinião, que viessem os officiaes e Major para o Regimento e bem assim V. S.ª ao que me responderão que só querião V. S.ª, e que nada dos outros, visto isto pesso a V. S.ª que quanto antes queira vir tomar o Commando do Regimento, e então V. S.ª verá o modo de fazer o q. julgar conveniente para ver se os Soldᵒˢ anuem á recepção dos nossos Camaradas no R.º, podendo eu asseverar a V. S.ª q. só dezejooportunidadee boa camaradage no R.º.Deos Gd.ᵉ a V. S.ª Quartel em Belem 11 de setembro de 1836.Ill.ᵐᵒ Snr. João X.ᵉʳ de Rezende.Francisco Maria VieiraT.ᵉPrecursor opportunista, o nosso tenente!

Regimento4 de cav.ª

Ill.ᵐᵒ Sr.

He do meu dever levar no conhecimento de V.S.ª que hontem alguns sargentos e soldados do Regimento dicérão que não querião para os Commandar o Major Taborda Capitães Leal, Amaral e Cunha e só sim a todos os subalternos sendo eu o Commandante, o que V.S.ª já saberá; em consequencia d’istro tratei de conservar a disciplina (!) e boa ordem, em que nada se ácha alterada (?); hoje por oucazião da Parada de Missa fiz ver ao Regimento q. éra preciso segundo minha opinião, que viessem os officiaes e Major para o Regimento e bem assim V. S.ª ao que me responderão que só querião V. S.ª, e que nada dos outros, visto isto pesso a V. S.ª que quanto antes queira vir tomar o Commando do Regimento, e então V. S.ª verá o modo de fazer o q. julgar conveniente para ver se os Soldᵒˢ anuem á recepção dos nossos Camaradas no R.º, podendo eu asseverar a V. S.ª q. só dezejooportunidadee boa camaradage no R.º.

Deos Gd.ᵉ a V. S.ª Quartel em Belem 11 de setembro de 1836.

Ill.ᵐᵒ Snr. João X.ᵉʳ de Rezende.

Francisco Maria VieiraT.ᵉ

Precursor opportunista, o nosso tenente!

[12]A narrativa do episodio da Belemzada, conforme se acha no livro citado do sr. Macedo, é transcripta doEcho Popular, jornal de José Passos, no Porto, e que Manuel, de Alpiarça, inspirava em 57 quando a noticia viu a luz. É certo, portanto, que se Manuel Passos a não escreveu, como se suppõe, viu-a, emendou-a: tem pois o caracter authentico.

[12]A narrativa do episodio da Belemzada, conforme se acha no livro citado do sr. Macedo, é transcripta doEcho Popular, jornal de José Passos, no Porto, e que Manuel, de Alpiarça, inspirava em 57 quando a noticia viu a luz. É certo, portanto, que se Manuel Passos a não escreveu, como se suppõe, viu-a, emendou-a: tem pois o caracter authentico.

[13]V.Instit. primitivas, pp. 156-66.

[13]V.Instit. primitivas, pp. 156-66.

[14]Foi antes ou depois d’isto que a artilheria engatou em Belem para fugir para Lisboa, sendo necessario mandar cavallaria cortar-lhe a vanguarda; sendo necessario que D. Fernando fosse pela estrada fóra, a galope, escapando por um triz á cutilada que um soldado lhe despediu?

[14]Foi antes ou depois d’isto que a artilheria engatou em Belem para fugir para Lisboa, sendo necessario mandar cavallaria cortar-lhe a vanguarda; sendo necessario que D. Fernando fosse pela estrada fóra, a galope, escapando por um triz á cutilada que um soldado lhe despediu?

[15]V.Hist. de Portugal, (3.ª ed.)I, pp. 66-9.

[15]V.Hist. de Portugal, (3.ª ed.)I, pp. 66-9.

[16]«Em quanto as Marnotas e que V. erra de todo; era uma vasta conspiração, abortada pela denuncia d’um miguelista que se vendeu, e annos depois pagou a traição com a vida».Cartado sr. Carreira de Mello ao A.

[16]«Em quanto as Marnotas e que V. erra de todo; era uma vasta conspiração, abortada pela denuncia d’um miguelista que se vendeu, e annos depois pagou a traição com a vida».Cartado sr. Carreira de Mello ao A.

[17]O sr. R. de F. (Port. Contemp.) attribue a outra causa (inveja? despeito?) o silencio de Sá-da-Bandeira ácerca do episodio do paço de Belem: crendo tambem que Passos deixou o governo, forçado mas não descrente. Não me parece isso a mim, á vista dos antecedentes e dos consequentes.

[17]O sr. R. de F. (Port. Contemp.) attribue a outra causa (inveja? despeito?) o silencio de Sá-da-Bandeira ácerca do episodio do paço de Belem: crendo tambem que Passos deixou o governo, forçado mas não descrente. Não me parece isso a mim, á vista dos antecedentes e dos consequentes.

[18]V.Hist. de Portugal(3.ª ed.)I. p. 66; eInstit. primit.pp. 162-6.

[18]V.Hist. de Portugal(3.ª ed.)I. p. 66; eInstit. primit.pp. 162-6.

[19]V.O Brazil e as colon. port.II,I.

[19]V.O Brazil e as colon. port.II,I.

[20]Accusa-me o sr. R. de F. (Port. cont.) de ter interpretado erradamente o famoso discurso de Manuel Passos, especialmente n’este ponto. Relendo o texto vejo que, effectivamente, é licito inferir-se do que escrevi que em 44 Passos veiu á camara prégar o iberismo. Não é assim. Depois do periodo transcripto, o orador diz: «Comtudo, depois do que tenho visto praticar no reino visinho ... eu não podia agora dar o meu voto para uma união ... Se vierem, ainda pegarei n’uma espingarda e farei fogo aos invasores».Esclareçamos pois este ponto, já que assim se julga necessario. Passos quer ou não o iberismo? Quer;comtudo, não o queragora. É pois uma questão de opportunidade e occasião que nada altera o fundo do seu pensamento: por isso julguei que, embora necessaria esta nota, não devia alterar o que diz o texto.Accrescenta o meu amavel critico que o discurso de 44 não sãofolhas caidas; que ahi se diz aos setembristas: «não desespereis nunca da causa da patria; ella será salva pela efficacia da lei, pela perseverança dos chefes, e pela confiança dos cidadãos»; que Passos Manuel ainda continuou a figurar na politica, etc.São modos de ver. Figurar, figurou: mas como? Ouve-se já por ventura a fé, o enthusiasmo de outros tempos? Figurar na politica torna-se um habito, e, como habito, necessidade. A voz do antigo tribuno amolleceu, porque se lhe entibiou a fé. Que attitude propõe, que programma formula aos seus partidarios? Uma attitude passiva, um programma delegalidade. Ponha-se isto ao lado das palavras transcriptas no texto, e concordar-se-ha que sãofolhas caidas.

[20]Accusa-me o sr. R. de F. (Port. cont.) de ter interpretado erradamente o famoso discurso de Manuel Passos, especialmente n’este ponto. Relendo o texto vejo que, effectivamente, é licito inferir-se do que escrevi que em 44 Passos veiu á camara prégar o iberismo. Não é assim. Depois do periodo transcripto, o orador diz: «Comtudo, depois do que tenho visto praticar no reino visinho ... eu não podia agora dar o meu voto para uma união ... Se vierem, ainda pegarei n’uma espingarda e farei fogo aos invasores».

Esclareçamos pois este ponto, já que assim se julga necessario. Passos quer ou não o iberismo? Quer;comtudo, não o queragora. É pois uma questão de opportunidade e occasião que nada altera o fundo do seu pensamento: por isso julguei que, embora necessaria esta nota, não devia alterar o que diz o texto.

Accrescenta o meu amavel critico que o discurso de 44 não sãofolhas caidas; que ahi se diz aos setembristas: «não desespereis nunca da causa da patria; ella será salva pela efficacia da lei, pela perseverança dos chefes, e pela confiança dos cidadãos»; que Passos Manuel ainda continuou a figurar na politica, etc.

São modos de ver. Figurar, figurou: mas como? Ouve-se já por ventura a fé, o enthusiasmo de outros tempos? Figurar na politica torna-se um habito, e, como habito, necessidade. A voz do antigo tribuno amolleceu, porque se lhe entibiou a fé. Que attitude propõe, que programma formula aos seus partidarios? Uma attitude passiva, um programma delegalidade. Ponha-se isto ao lado das palavras transcriptas no texto, e concordar-se-ha que sãofolhas caidas.


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