IALEXANDRE HERCULANO

IALEXANDRE HERCULANO

O homem que em 1826 iniciou a historia liberal é o proprio que agora vae desembainhar a espada para encerrar com uma sedição militar a serie depronunciamentosa que temos assistido. As successivas physionomias politicas de Saldanha são o traço eminente do seu retrato e do dos tempos em que existiu. Homem sem idéas, os partidos e programmas são para elle occasiões, e nada mais; e como esses programmas e partidos nasciam, cresciam, desfaziam-se constantemente, na atmosphera duplamente movediça de um paiz arruinado e de uma doutrina inconsistente, o marechal encontrava-se, ao decaír da vida, tão carregado de annos comode opiniões diversas, sem que os annos abatessem a sua rija constituição, nem as contradicções podessem affligir um espirito que, a serio, bem no fundo da alma, só tinha uma crença enraizada: o catholicismo portuguez,beato, quasi fetichista.

Em 1822 vira-se Saldanha applaudir a Constituição jacobina; em 23 recuar, com Terceira e muitos mais, até Villa-Franca, na jornada dapoeira, e applaudir a suppressão das côrtes. Em 1826 apparece-nos proclamando aCARTA, seu ministro, e elevado a conde. É então e por alguns annos o chefe da opposição ao regente, e isso o affasta da campanha começada em 32. Nos apuros do Porto vem de Paris; e successivamente general de um exercito, marquez, dotado com 100 contos de bens nacionaes, vae pouco a pouco inclinando para a direita, até que em 1835 preside um ministerio cartista. A corôa conquistou-o. E desde então começou a pôr ás ordens d’ella a sua influencia e a sua espada. Conspira em Belem contra os setembristas; subleva-se no anno seguinte. A constituição de 38 tral-o da emigração ao reino, e até 46 não bole. No 6 de outubro é porém elle a espada com que a rainha expulsa os setembristas do governo; e por mais de dois annos, até ao meiado de junho de 49, é o presidente do conselho cabralista, embora em dezembro de 47 queira impedir a volta ao reino do eminente chefe do seu partido. Cedendo-lhe em 49 o governo, virou-se logo contra elle, e d’ahi começou a guerra declarada que veiu a acabar na Regeneração.

Mas que podia regenerar quem, depois de tantas aventuras, devia achar-se dorido, e mais ou menos enlameiado depois de tão largas viagens?

É vaidoso e cheio de si. Demasiado abatido na má fortuna, enfunado e boiante na prosperidade, e pouco agradecido aos amigos do infortunio. É mudavel e contradictorio. Está muito velho e russo, e como signaes de edade temos notado n’elle um pendor e turno decidido para a mystica, onde parece que acabará como todos os bourbons, nos braços de uma supersticiosa devoção; e tambem pensamos que se hoje houvesse frades iria, por imitação do grande condestavel, vestir a roupeta do Carmello. Montalembert e Valdegamas converteram-no em Paris. Estuda theologia. (Rocha,Rev. de Port.1851)

É vaidoso e cheio de si. Demasiado abatido na má fortuna, enfunado e boiante na prosperidade, e pouco agradecido aos amigos do infortunio. É mudavel e contradictorio. Está muito velho e russo, e como signaes de edade temos notado n’elle um pendor e turno decidido para a mystica, onde parece que acabará como todos os bourbons, nos braços de uma supersticiosa devoção; e tambem pensamos que se hoje houvesse frades iria, por imitação do grande condestavel, vestir a roupeta do Carmello. Montalembert e Valdegamas converteram-no em Paris. Estuda theologia. (Rocha,Rev. de Port.1851)

O retratista perspicaz, que tão a proposito notava a physionomia de Saldanha, esboçando-o como um typo medieval, entre barão e monge, não esquecia, porém, um traço que é commum aos heroes da Edade-media, aos modernos, e aos de todos os tempos: a necessidade de dinheiro. «Allega que não póde passar sem vinte contos por anno», (Ibid.) e as cousas tinham-no forçado a demittir-se de todos os seus rendosos cargos. Como viveria sem os vinte contos? Não foi Saldanha o primeiro dos barões rebellados por dinheiro; mas em caracteres taes, de si confusos, sem lucidez nos planos e designios, não se póde dizer que o dinheiro seja o estimulo immediato e directo, como é nos genios frios, politicos, em que a habilidade predomina.

Com effeito, erraria quem suppozesse o marechal avarento ou sybarita. Pelo contrario: no fundo tinha uma bondade ingenua e simples que, misturada com o orgulho balofo, lhe impedia de vêr a realidade das cousas. Se nem quando o compravam o percebia! Se ingenuamente o confessava! Ouçamos as suas proprias palavras:

Sou pobre de fortuna, mas rico de amigos. Em dezembro de 49, o conde de Thomar declarou-me guerra de morte, e dois mezes depois era eu demittido de todos os meus cargos. Alguns dias passados, procuraram-me os srs. Silva Ferrão e Tavares d’Almeida dizendo-me que segundo estavaencarregado por alguns amigos de me pagar mensalmente o equivalente dos meus vencimentos. Uma condição havia n’esta generosa offerta a que eu me submetti com reluctancia. Era que eu não indagaria os nomes de quem tão nobremente contribuia. Desde então no primeiro de cada mez e cebo oitenta e duas libras. (Disc. 26 de março de 51)

Sou pobre de fortuna, mas rico de amigos. Em dezembro de 49, o conde de Thomar declarou-me guerra de morte, e dois mezes depois era eu demittido de todos os meus cargos. Alguns dias passados, procuraram-me os srs. Silva Ferrão e Tavares d’Almeida dizendo-me que segundo estavaencarregado por alguns amigos de me pagar mensalmente o equivalente dos meus vencimentos. Uma condição havia n’esta generosa offerta a que eu me submetti com reluctancia. Era que eu não indagaria os nomes de quem tão nobremente contribuia. Desde então no primeiro de cada mez e cebo oitenta e duas libras. (Disc. 26 de março de 51)

Esta simplicidade, esta ingenuidade, esta sinceridade, espantam-nos. Orgulhava-se de ser pobre, de ter amigos: mas não é verdade que só se pede para pão? e que, por grande que fosse o clientela de Saldanha, nunca o pão importaria em tanto? Elle não o percebia: por isso o confessava; e se a uma compra habil chamava amisade, continuava a suppôr-se arbitro, quando era cada vez mais aquelletroncoem que falara José Liberato. Satisfeito, simples, bom, irresponsavel como uma creança, esfregando as mãos contente, ou quebrando os joguetes, militares, politicos, nos seus despeitos infantis, o marechal, entrado na velhice, ia, com a sua espectaculosa espontaneidade, seduzir um grupo de homens ainda não desilludidos.

A sua vida tinha sido já tão longa e cheia de aventuras e descreditos, que eram raros os que não tinham tido occasião de o vêr e avaliar por dentro.

Os antigosordeiros, com Rodrigo á frente, estavam promptos a seguil-o para confiscar a victoria, fazendo do vencedor a unica cousa para que servia: um rotulo brilhante de bordaduras e crachás, um pseudo-chefe de parada, á sombra do qual viveriam, lisongeando-o e pagando-lhe. Mas teriam os ordeiros, por si sós, força bastante para mover o paiz contra o tyranno que rematara a sua obra amordaçando a imprensa? Seria mistér acceitar as offertas dos velhos companheiros de Paris, a quem Saldanha voltara as costas desde 35,contra quem combatera: esses setembristas em cujo seio a influencia de José-Estevão creava um grupo novo, filho da velha-guarda dos Passos, neto da quasi extincta geração dosvintistas? Porque não? Saldanha confundia o seu despeito com o interesse publico, da mesma maneira que confundia o seu orgulho com a sua falta de meios.

Tendo-se recusado a acceitar a embaixada de Paris, com que em 49 Thomar pretendia evital-o, (como Rodrigo o evitara em 40, mandando-o para Vienna) Saldanha, que n’um breve intervallo de ocio se occupara em Cintra da creação das vaccas de leite (Carnota,Mem.), depois de em Vienna se ter occupado da existencia de Deus e da immortalidade da alma: Saldanha desmascarou breve as suas baterias, pedindo á rainha a queda do ministerio. Reconheceria elle agora o seu erro de 46? lembrar-se-hia dos conselhos de Howard:be cautious? Veria o papel de janisaro que desempenhara? Talvez. Arrependia-se, pois; e voltava-se contra o partido de que fôra a espada. Não se tornava, porém, um chefe da democracia como até 34, embora tivesse feito as pazes com os seus inimigos da Maria-da-Fonte. Antas visitava-o; mas quando lhe propoz o plano de uma sediçãosetembrista, o marechal, affavelmente, rindo, senhor de si, respondeu que não. Tambem elle tinha a sua revolução, uma boa, afortunada revolução a fazer: veria! (Carnota,Mem.)

Que esperanças novas eram essas?

Conquistar um grupo de homens, mais pensadores do que politicos, liberaes sem serem democratas, cartistas sem serem cabralistas, homens como Ferrer, Soure, Pestana, no meio dos quaes se destacava o talento já consagrado de Herculano, com um pensamento de pura liberdade doutrinaria.

Herculano emigrára, e ouvimol-o chorar na solidão do exilio. Emquanto, porém, a sua musa lyrica lhe inspirava poesias selladas com um profundo cunho de sinceridade e belleza, o poeta, homem vigoroso no temperamento intellectual, portuguez de lei, affirmativo e duro, o inverso do artista Garrett: o poeta aprendia na mocidade, como Mousinho já quasi na velhice, os dogmas e principios da crença liberal. A critica de Kant mostrava-lhe no Individuo um rei, na Consciencia um deus; ao mesmo tempo que os sabios, com a nova direcção dos seus estudos, lhe mostravam na tradição e na historia as raizes das sociedades deploravelmente abaladas pelo jacobinismo. As contradicções que produziu esta dupla concepção, individualista e social, nunca em Portugal se manifestaram tanto como no espirito do homem eminente que, talvez unico, media o valor das doutrinas.

As tendencias eruditas e litterarias do seu genio philosophico fizeram-no metter mãos á obra do renascimento das lettras portuguezas, assim que no Porto houve lugar para pôr de lado a espingarda. Assistira, combatera em todo o cêrco; e, terminado elle, entrou como bibliothecario da livraria municipal. N’um paiz revolucionado, a politica é absorvente, e por isso Herculano, ao mesmo tempo que iniciava os seus trabalhos historicos, acompanhava a agitação dos partidos. Setembro, isto é, a acclamação do jacobinismo que o philosopho suppunha para sempre refutado e condemnado, provocou-lhe uma ira portugueza que se vasou nos threnos biblicos daVoz-do-Propheta. Demittiu-se em 37 para não jurar a constituição de 20; mas dois annos depois, apaziguada a procella, retirado Passos, restaurada aordem, reconhece a constituição de 38 e abraça a fusão. Em 40 vae deputado áscamaras, confiado em que oliberalismotal como elle o concebia ia afinal enraizar-se; mas breve se desenganou e sumiu-se. Foi então que o rei D. Fernando o convidou para bibliothecario da Ajuda, e d’ahi, afastado, vivendo com os documentos da historia, entregue aos estudos com uma energia ardente, conquistava a passo e passo o primeiro lugar entre os escriptores nacionaes do nosso seculo, ao mesmo tempo que lá por fóra seguia, desorientada e ferina, a procissão das revoltas e o desvario dos governos.

Em tal estado o veiu encontrar Saldanha, convidando-o a prestar a authoridade do seu nome e do seu conselho á empreza em que ia lançar-se.[33]Herculano, como todos os que lidam mais com idéas do que com homens, era quasi infantilmente ingenuo. Intelligencia fomalista, não era tampouco dotado da perspicacia que adivinha os caracteres, deslindando as confusões da inconsciencia alheia, e definindo com clareza as situações. A sua imaginação poetica viu no marechal um penitente de antigos erros, a sua nobreza ingenita viu uma dedicação nobre; e o seu patriotismo e a sua doutrina viram tambem chegado o momento da paz, da ordem, da organisação definitiva do liberalismo. Entregou-se todo, de corpo e alma, e abriu as portas da sua casa da Ajuda ás reuniões dos conjurados. Alli se pactuaram as reformas urgentes que o marechal realisaria assim que tornasse vencedor: as eleições directas, a abolição da hereditariedade nos pares, a dos vinculos gradualmente convertidos empequena propriedade emphytheotica. Herculano exigiu que tudo se fizesse com gentenova, excluindo os velhos todos, «de outra fórma seria o mesmo que d’antes»; exigindo para si que o não fizessem ministro. Trabalharia, ajudaria com o seu conselho, mas para governar «não tinha queda». Saldanha, provavelmente sincero, applaudia, enthusiasmava-se, obedecia, promettia.

No dia 7 de abril de 51 saiu Saldanha parafazer a revoluçãono Porto. Mas o governo, sem força para o prender, seguia-lhe os passos e machinações. Arevolução, como invariavelmente succedia, devia ser o pronunciamento da tropa; porém Saldanha viu com magua quanto havia descido, pois nem os commandantes nem os officiaes se prestavam a acompanhal-o. Os progressistas do Porto consideravam tudo perdido, e o marechal fugia tristemente para Hespanha, indo parar a Lobios aquelle que para ahi mandara em 28 o seu exercito. Já estavam presos na Relação os officiaes conjurados, e Victorino Damasio, antigo soldado daJUNTA, engenheiro emprehendedor que ficara no Porto creando fabricas; Damasio, appellando para os sargentos, e vendo que o governo tambem os prendia, appellou para os cabos: appellaria para o seu regimento de operarios em ultima instancia! Não foi necessario, porque com chaves falsas forjadas no Bolhão, introduziu Salvador da França no quartel de Santo-Ovidio, e os cabos e soldados do 18 proclamaram aRevolução. (Delgado,Elog. hist. de J. V. Damasio) Saldanha regressou, e, com a tropa atraz de si, foi sobre Coimbra.

De Lisboa para Coimbra tambem saíra o generalissimo D. Fernando com tropa atraz; mas, quando tinha de atravessar a ponte do Mondego, achou uma tranca passada de lado a lado e os estudantes que lhe seguraram as redeas do cavallo, mandando-lhe tirar o chapéu e dar vivas ao Saldanha. O rei, que era a urbanidade em pessoa, não podia recusar-se, e fel-o; retirando logo para Lisboa a contar a tranca da ponte, e a reclamar a queda do ministerio. Ministerios e partidos valiam acaso o trabalho de partir por meio um madeiro? Não valiam; ninguem já tinha força para cousa alguma. Derreados e desilludidos, todos, no aborrecimento universal, admittiam tudo, e tinham razão para isso. O maior crime do conde do Thomar era desconhecer o tempo de agora, querendo usar da força contra uma resistencia pastosa e molle. Raivoso e desesperado, quando viu chegar D. Fernando no seu cavallo a passo, e opinar pela queda do ministerio com a voz fanhosa e arrastada com que dera os vivas ao Saldanha; raivoso, «a gente do paço dizia que o conde do Thomar chorara grossas lagrimas e com as suas mãos labregas se agarrara ao puro manto da rainha: valha-me senhora! proteja o seu fiel ministro!» (Rocha,Rev. de Port.) Não é natural que a rainha costumasse andar por casa depuro manto, embora seja de crer que o ministro apellasse para aquella que tanto lhe devia, que chorasse de raiva observando as deserções rapidas dos homens que elle tirara do nada. Se até o proprio irmão, o José-dos-conegos, se voltou contra elle no dia em que Saldanha se bandeara!

Teve do fugir outra vez, e o duque da Terceira occupou-lhe o posto (26 de abril) conservando o ministerio decapitado. Era a esperança do manter opartido, sacrificando o chefe? ou o conde de Thomar pensava em ir repetir a campanha diplomatica de 46, e pedir aos seus amigos de fóra que o viessem restaurar? Esses amigos, porém, tinham caído. O doutrinarismo morrera com Guizot em fevereiro de 48, e já não havia miguelistas. Taes fortunas não se repetem na vida: d’esta vez a quéda era para sempre. O doutrinarismo, dissemos, morrera em 48, e a França vivia ao tempo sob o governo republicano: iria pois haver uma republica entre nós? Não faltava quem o desejasse: Sampaio e José-Estevão, Cazal, Braamcamp, Nazareth—os homens novos do velho setembrismo. Portugal, porém, caminhara mais depressa do que a França: a republica de 48 tivera-a em 36, e o imperio de 52 vinha sendo reclamado desde 49: era a traducção real da palavra nova,REGENERAÇÃO. Rodrigo era um Morny, beirão e burguez. Que motivo havia para este nosso adiantamento? Um motivo evidente e simples: a superior consistencia social da França, a nossa extrema miseria, a nossa fraqueza singular. O principio do individualismo anarchico e liberal, destruidor do passado e da tradição, creador de uma nova classe de ricos saídos da concorrencia, tinha de acabar n’um scepticismo systematico e n’uma confissão formal da idolatria da Utilidade, depois de ter percorrido o circulo de experiencias e ensaios possiveis dentro das fórmulas, e depois de ter demonstrado o vazio de todas ellas. N’um paiz caduco, essa evolução fazia-se muito mais rapidamente: por isso era já impossivel saír do doutrinarismo para o idealismo republicano, como em França; por isso os moços republicanos como José-Estevão adheriram áregeneração, proclamando a necessidade demelhoramentos materiaes; (Oliveira,Esb. hist.) porisso Rodrigo, um precursor, batido por um intruso em 42, ia vencer definitivamente em 51.

Na capital havia uma anciedade singular pela volta do triumphador. Tinham-lhe mandado vapores, para elle com a sua gente vir do Porto, e cada qual fazia o possivel para o conquistar para si. Choviam as cartas. Os ordeiros pediam-lhe prudencia, Antas pedia-lhe audacia: «Ponha de parte todos os obstaculos: colloque-se na situação de um chefe revolucionario». (Carta de 5 de maio; em Carnota.Mem.) No paço, D. Fernando chorava—porque? e a rainha anciosa entrevia a possibilidade de uma abdicação forçada. Que faria Saldanha? Deixar-se-hia seduzir pelas acclamações de regente que a turba lhe ia dar ao desembarque? Outros temiam uma traição palaciana para o abafar, matal-o—quem sabe? A rainha em pessoa era forçada a escrever-lhe, protestando a sua lealdade. (V. a carta em 8 de maio; em Carnota,ibid.) Uns aconselhavam-lhe que não desembarcasse no Terreiro-do Paço, que fosse á Pampulha—os vivas eram perigosos! outros aconselhavam-lhe Cascaes: havia machinas armadas para o matar! Este via a esquadra franceza apresando os vapores na costa, aquelle os navios inglezes apresando-os no Tejo: venha por terra! E o proprio Herculano, assustado, lhe escrevia: «Marechal! marechal! lembre-se de que a sua vida, a sua salvação, a sua liberdade, são a vida, a salvação e a liberdade do paiz!» (V. a carta;ibid.)

A entrada de Saldanha em Lisboa (15 de maio) foi um triumpho. Tomou posse do governo, e o rei entregou-lhe o bastão do commando-em-chefe. Contente, radiante, Saldanha despicara-se. A rainhaem pessoa, no theatro, teve de acclamar, de pé na sua tribuna, o—mais uma vez—rei de Portugal. Chamavam-lhe de novo D. JoãoVII. E o bom do marechal acreditava-se ingenuamente um Augusto, vencedor de Lepido Cabral e de Antonio-Passos, dos cartistas e dos setembristas, fundador do novo imperioregenerado. Em vão Terceira e José Cabral, no club da rua dos Mouros, palacio do Galvão, projectavam restaurar aCARTApura de cabralismo, tentando sublevar a guarnição de Lisboa. (18 de maio)

Saldanha tinha-se compromettido a abandonar ao seu descredito os homens velhos, a consolidar com gente nova a paz dos partidos; e no primeiro momento, afogueado com a sinceridade satisfeita de vencer, implorava de Herculano que acceitasse a pasta do Reino, ao que o escriptor terminantemente se oppoz, ficando de fóra como um conselheiro dedicado, leal e convicto. Soure e Pestana de um lado, Atouguia pelos ordeiros, Franzinipreenchendoas finanças pelos cartistas, e Loulé por parte do setembrismo: eis o ministerio que havia de regenerar a nação, convocando uma camara que fosse alegitimarepresentante da vontade do paiz.

Mas, na commissão da lei eleitoral debatia-se um problema grave: teriam, não teriam voto os guardas do tabaco? Continuaria, não continuaria a ser ocontracto(inteiramente affecto aoordeiroRodrigo, ainda de fóra) um poder do Estado? um patrono daURNA? Fontes, homem novo, de instinctos imperiaes, amanhados por seu mestre e protector Rodrigo, era pelos guardas, a que se não podia negar o direito de cidadãos, etc.—discursos e phrases que irritavam Herculano e o levavam a protestar desabridamente contra a falta de brio da mocidade. O ingenuo philosopho appellava ingenuamentepara Saldanha, agradecido ao favor de amigo, com que, em confidencias intimas, o marechal lhe contava os embaraços da sua bolsa.—E se mettessemos o Rodrigo? dizia Saldanha; e Herculano respondia que sairia elle, pois seria continuar a vida antiga, quando o seu proposito era crear uma vida nova de liberdade, sinceridade, honra, brio, e nobreza moral. O marechal applaudia, abraçava-o; e no dia seguinte voltava: «E se mettessemos o Rodrigo?»—contando mais uma vez os apuros em que se achava e os embaraços crescentes cada dia.

Herculano começou a reparar, a meditar, e descobriu por fim a razão das confidencias e perguntas insistentes. Era um Portugal regenerado, era, mas havia modos varios de conceber a regeneração; e Saldanha debatia-se entre o modo de Herculano que inspirava o ministerio, e o modo de Rodrigo, modo pratico e politico, que se propunha substituil-o e o havia de conseguir. Estavam pelo seu lado a fraqueza podre de todas as clientelas, a anemia da nação exhausta por uma serie de catastrophes, a começar da primeira, a vinda dos francezes. Chegara o dia da victoria do scepticismo antigo, e do utilitarismo moderno. Rodrigo e Fontes, um velho e um moço, duas faces de um só pensamento, mestre e discipulo, o antigo letradorabulae o novo engenheiro habil, janota e pratico, são as figuras eminentes da definitiva regeneração. (Min. de 7 de julho)

O breve intervallo de uma esperança de reforma moral terminava. Saldanha voltava á realidade. «A sua bondade levou o a crêr na santidade dos homens e na possibilidade de formar um governo de anjos», dizia Algés (V. Carnota,Mem.) que não era nenhum anjo, applaudindo a isenção com que o marechal saccudira a tyrannia. Levado pela mão deRodrigo, respirava bem, porque só o adulavam, não o importunando com exigencias estoicas. A Regeneração foi o ultimo acto de Saldanha, porque o seu 19 de maio (1870),saldanhadapor excellencia, é um episodio da senectude, só proprio para demonstrar a cachexia politica da nação. Já ocioso no governo, o marechal pôde mostrar que tambem seregenerara, quando caíu do poder em 56. Entregou-se a outras batalhas: e o que fôra bandeira de revoluções passou a rotulo de companhias. (Luso-Hespanhola,Guano chimico,Minas de Leiria) Boiara sempre á mercê dos acontecimentos: eram elles que o levavam para o campo das contendas. Assim como sonhara sempre com a pompa clamorosa e balofa, assim agora, acabando, sonhava fortunas, dividendos, riqueza para toda a sua familia de pedintes: «Não haverá parentes pobres!» (Carnota,Mem.) O bom marechal não era cubiçoso: era apenas simples. Simples no gabinete, simples no escriptorio das emprezas, simples na carteira do escriptor: depois da Fé, entregara os ocios á Pecuaria; e por fim acabou na Homœopathia, vencedor do dr. Bernardino. (1858) Castilho, com a sua lisonja ironica de litterato, escrevia-lhe: «Adeus, meu caro Achilles; guerreiro, medico e escriptor a um tempo: porém Achilles banhado na preciosa agua da vida desde a cabeça até ao calcanhar—inclusivamente». (V. carta;ibid.) Ingenuo, o marechal tomava-se sempre a sério. Não é triste vêr assim escarnecida a figura de um como que heroe, pela gargalhada perfida do litterato?

Saldanha acabou. Voltemos á Regeneração.

Publicado o Acto addiccional, não se boliu mais na constituição; ficaram em paz os pares, os vinculos,o Contracto. Já em 32 tinham escapado, sem se saber como, á furia de Mousinho: salvavam-se agora milagrosamente das ameaças de Herculano.

O excentrico, sem ambições, voltou aos seus estudos. Ainda em 56 o vemos inscripto no centro eleitoral progressista, mas as suas esperanças poeticas morreram. Como não chegara a governar, como não vira desmanchar-se-lhe nas mãos a sua chimera liberal, ficou pensando que a liberdade era excellente, apenas detestaveis os seus sacerdotes. Como vinha depois do cartismo e do setembrismo, como aprendera com a queda de Guizot e com os desvarios da segunda republica franceza, a sua intelligencia descobria lhe respostas e emendas a todos os erros, pois a doutrina que chegou a conceber e formular trazia raizes de varias origens. Era radical como kantista, era municipalista como erudito, sem ser democrata, mas tendo laivos de socialismo pratico: era sobretudo a concepção de uma sociedade de estoicos, á imagem do caracter do que a formara. Era a condemnação do materialismo pratico, do scepticismo: a condemnação d’esse movimento em que entrara, por não ter a perspicacia bastante para ver que a nação pedia exactamente o inverso do que elle queria dar-lhe. Portugal já não tinha nervos para ser nem virtuoso, nem doutrinario de especie alguma.

E o philosopho, voltando aos seus estudos, levou a sciencia d’este facto, que mais ainda o empedernia no fanatismo da sua opinião. Sem o temperamento poetico e doce de um Passos, a sua descrença não se traduzia em perdões humanitarios, formulava-se em sentenças terriveis; e mais forte, intelligente e sabio do que o democrata, o desmanchar das suas esperanças não destruia a sua convicção no valor dos systemas e idéas. A singularphysionomia de um homem que de fóra da vida publica tanta influencia exerceu sobre ella, ha de obrigar-nos e estudal-o no seu exilio voluntario.

Escarmentado pela maneira por que fôra illudido a sua colera rompeu violenta nos dias immediatos á verdadeira Regeneração:

A historia politica é uma serie de desconchavos, de torpezas, de inepcias, de incoherencias, ligadas por um pensamento constante,—o de se enriquecerem os chefes do partido. Idéas, não se encontram em toda essa historia, senão as que esses homens beberam nos livros francezes mais vulgares e banaes. Hoje achal-os-heis progressistas, ámanhan reaccionarios; hoje conservadores, ámanhan reformadores: olhae porém com attenção e encontral-os-heis sempre nullos. (Paiz, 29 de outubro)

A historia politica é uma serie de desconchavos, de torpezas, de inepcias, de incoherencias, ligadas por um pensamento constante,—o de se enriquecerem os chefes do partido. Idéas, não se encontram em toda essa historia, senão as que esses homens beberam nos livros francezes mais vulgares e banaes. Hoje achal-os-heis progressistas, ámanhan reaccionarios; hoje conservadores, ámanhan reformadores: olhae porém com attenção e encontral-os-heis sempre nullos. (Paiz, 29 de outubro)

Esta condemnação formal dos homens, de todos os homens, exprime a misanthropia do que não entende nem obedece á corrente fatal que arrasta a sociedade:

O erro deploravel dos adeptos de certa eschola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no melhoramento moral e social dos povos e aquelle que só melhora a sua condição physica. (Os vinculos)

O erro deploravel dos adeptos de certa eschola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no melhoramento moral e social dos povos e aquelle que só melhora a sua condição physica. (Os vinculos)

Era essa eschola que o vencia e batia; e Herculano, sem reconhecer que, como conclusão natural da anarchialiberalse chegava ao scepticismo; sem reconhecer que para isso concorriam as novas classes aristocraticas formadas pela concorrencia, as novas forças organisadas com os capitaes moveis e a terra livre, a tendencia industrial fomentada pelas descobertas scientificas; sem ver quetaes phenomenos eram communs a toda a Europa: Herculano attribuía tudo á perversidade dos seus conterraneos e á mesquinhez da sua patria.

Em civilisação,—dizia, e era verdade—estamos dois furos abaixo da Turquia e outros tantos acima dos hottentotes. Agitamo-nos no circulo estreito das revoluções incessantes e estereis; a legalidade tornou-se impossivel, a acção governativa um problema insoluvel. (Paiz, 24 de julho)

Em civilisação,—dizia, e era verdade—estamos dois furos abaixo da Turquia e outros tantos acima dos hottentotes. Agitamo-nos no circulo estreito das revoluções incessantes e estereis; a legalidade tornou-se impossivel, a acção governativa um problema insoluvel. (Paiz, 24 de julho)

Rodrigo era ministro havia dias e ia desmentil-o. Desmentiu-o com effeito, dando á nação o governo que ella pedia, e ao tempo aquella legalidade apparente, aquelle systema de burlas, indispensavel ao funccionar da machina constitucional.

E tanto Rodrigo tinha razão, tanto o estoicismo nobre de Herculano vinha fóra de tempo, que toda a gente acclamou vencedora a rapoza ordeira, com a sua cria, brunida, sécia e petulante. Toda a gente apedrejava o conde de Thomar—um importuno! todos, Passos—um louco! todos, Herculano—um caturra de genio azêdo! O proprio Garrett, ajanotado, com os cabellos pintados, espartilho e colletes mirabolantes, artista que, obedecendo á moda romantica, chamara ao mundo «uma vasta Barataria em que domina el-rei Sancho» (Viagens), ordeiro que assim condemnava o cabralismo precursor:

Plantae batatas, ó geração do vapor e do pó-de-pedra; macadamisae estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Icaro, para andar a qual mais depressa estas horas de uma vida toda material, massuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu tão differente do que a vivemos hoje. Andae, ganha-pães, andae; reduzí tudo a cifras, todas a considerações d’este mundo a equações de interesse corporal, comprae, vendei, agiotae.—No fimde tudo isto, que lucrou a especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se já calcularam o numero de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho desproporcionado, á desmoralisação, á infamia, á ignorancia crapulosa, á desgraça invencivel, á penuria absoluta para produzir um rico? (Viagens)

Plantae batatas, ó geração do vapor e do pó-de-pedra; macadamisae estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Icaro, para andar a qual mais depressa estas horas de uma vida toda material, massuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu tão differente do que a vivemos hoje. Andae, ganha-pães, andae; reduzí tudo a cifras, todas a considerações d’este mundo a equações de interesse corporal, comprae, vendei, agiotae.—No fimde tudo isto, que lucrou a especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se já calcularam o numero de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho desproporcionado, á desmoralisação, á infamia, á ignorancia crapulosa, á desgraça invencivel, á penuria absoluta para produzir um rico? (Viagens)

O inconsequente artista, com todas as fraquezas proprias d’esse typo de homens, brunido, pintado, postiço, encobrindo a edade depois de ter inventado o nome para se afidalgar, (V. Amorim,Garrett) tambem consagra a victoria da geração do vapor, sentando-se (4 de março de 52) no ministerio entre Rodrigo e Fontes. A sua vaidade pueril exigia-lhe esse prazer; mas a sua intuição maravilhosa descobrira o caracter da edade-nova: o fim do romantismo e daliberdade, sua filha legitima; o comêço de uma historia que, principiando pelo imperio anarchico da aristocracia dos ricos, pelo governo immoral da corrupcão intima de todas as cousas, pela adoração do bezerro-d’ouro, havia de, por tal preço, reconstituir primeiro as forças economicas das sociedades abaladas por longas crises doutrinarias, para depois voltar á moral e ao direito, reconstituindo os orgãos e funcções sociaes. Entre o romantismo liberal e a democracia futura está aregeneração(nome portuguez docapitalismo), um periodo triste, mas indispensavel como consequencia do antecedente e preparação do ulterior.

A nova esperança de Herculano appareceu como episodio fortuito no meio da evolução natural; e a corrente das cousas fataes envolveu-a, rolou-a, deixando-a á margem, abandonada como objecto singular e anachronico.

Vidente, especie de Jeremias, sobre as ruinasdo Templo, ficou o philosopho, a quem a politica—tyrannia fatal das nações minusculas!—interrompia, perturbava, levava a abandonar os seus estudos sabios. Os tempos foram correndo, e a miseria nacional crescendo. Veiu um rei, especie de D. Sebastião liberal, tambem anachronico, e Herculano acaso teve ainda alguma esperança. Amou-o. «Se eu tivesse um filho e me morresse, não me custava mais a morte d’elle do que me custou a d’aquelle pobre rapaz!» Mas D. Pedro V acabou cedo, moço: foi-se como uma apparição, levado n’uma onda de lagrimas; e o philosopho preparou-se para morrer, enterrando-se n’um exilio voluntario. Ahi, essa imagem viva de outros homens, deu calor, vida, licção e amisade a muitos homens novos que aprenderam com elle a condemnar o presente, embora o fizessem com idéas e principios que lhe irritavam a intelligencia, sem diminuirem a amisade do antigo e inconvertivel romantico.

A sua hora chegou por fim, e, ao sentil-a vir, affagou-a. Olhava em roda e dizia comsigo: «Isto dá vontade da gente morrer!» Pato, (Ultimos mom. de A. H.)Isto, deviam ser muitas cousas: a Liberdade naufragada, a vida vivida em vão, a patria miseravel, os homens cada vez mais razos! Elle foi o ultimo dos que possuiram alma bastante para protestar, para accusar. Depois d’elle, as gerações convertidas ao optimismo, commodo para a intelligencia que assim descansa e para o corpo que assim engorda, acharam que viviamos no melhor dos mundos possiveis; que Portugal é pequeno «mas um torrão de assucar», como dizia a Link o corregedor de Vizeu. Os Pancracios ou Falstaffs achavam afinal averdadeiraliberdade: consummara-se a revolução definitiva, morria afinal o ultimo e importuno Jeremias.

«Portugal é uma vasta Barataria em que reina (liberalmente) el-rei Sancho.»

A cova do cemiterio de Azoia onde baixou o cadaver de Herculano no verão de 77 é, no seu isolamento, o symbolo da insensibilidade com que Portugal o sepultou. Os camponezes arrancavam das oliveiras do Val-de-Lobos tristes ramos d’essas pardas arvores melancolicas, em memoria do que vivera entre elles: sejam tambem estas palavras, esboçadas pouco depois da morte de Herculano[34]e agora de novo escriptas: sejam tambem como um ramo de saudades deposto por mão fielmente amiga sobre a pedra do sepulchro.

Os camponezes celebravam, poetica, ruralmente, um saímento que deixava indifferentes os grandes homens de Lisboa; e assim devia ser, porque o morto fôra em vida um açoite para os poderosos, e um pae, um protector, um amigo, para esses humildes em cuja sociedade vivia. Como um Voltaire no seu retiro, Herculano era uma especie de patrono dos camponezes, defendendo-os contra os casos arbitrarios de uma justiça, de uma politica, muitas vezes cruel. O mesmo que já reclamara uma esmola para as pobres freiras de Lorvão, era o que salvava do degredo um condemnado da Azoia, victima de um erro judiciario, sem poder evitar que a cadeia o matasse com as doenças alli ganhas. Herculano, procurador do infeliz, vinha a Lisboa, pedia, batia de porta em porta, subia ás casas dos conselheiros—e com que ironia contava a sorte a que se via reduzido!—para alcançar o perdãoda victima injustamente condemnada em todas as instancias. Sob uma descrença convicta nos homens, elle, afinal, tinha no coração uma ingenuidade feminina, e sob o aspecto rude de uma quasi affectada dureza, uma verdadeira meiguice, uma caridade doce, uma candura diaphana.

O seu genio produzia o seu pensamento. Era uma intelligencia lucida enkystada em fórmulas duras, e um coração bondoso e meigo, encoberto pela educação, sob um exterior rigido e apparentemente hostil. Quem o ouvia, depois de o ter lido, irritava-se muitas vezes; quem o tratava não podia deixar de o amar. Ingenuo como uma creança, mais de uma vez foi visto dando o braço, nas suas palestras peripateticas do Chiado, a algum janota a quem expunha a theoria de Savigny sobre os municipios da Edade-média: o janota ouvia, orgulhoso, mostrando-se,—porque então era moda, como alguem disse, «trazer o Herculano ao peito». Se o advertiam, elle, sem se offender, ao contrario, respondia com uma fala arrastada e séria: oh, di.a.bo!

Era a candura propria dos bons; mas o singular no genio de Herculano estava na força de uma convicção que, em vez de religiosa, era civica, e que, portanto, em lugar de se affirmar condemnando abstractamente o mundo como um mystico, affirmava-se condemnando individualmente os homens, pelos seus nomes, como um Juvenal ou um Suetonio. Ninguem lhe falasse no Saldanha, no Rodrigo! E esta direcção que o seu estoicismo tomára levado pela vida de Portugal, fazia com que, para muita gente, Herculano passasse por um ser duro, aspero, intractavel, construido apenas com orgulhos e odios.

Mas, se no fundo do seu coração havia notasdoces de meiguice e uma candidez ingenua, não foi sem duvida este o traço dominante do seu caracter. Ao lado da humanidade tinha Herculano a dureza e a força lusitana; e por cima da espontaneidade, abafando muitas vezes o coração, dando sempre uma fórma intelligivel á força, viera a educação racionalista dar uma unidade, mais ou menos consistente, aos seus pensamentos e aos seus sentimentos. Assim, a palavra que o retrata é o Caracter, porque n’elle a vida moral e intellectual eram uma e unica: o contrario do sceptico, não raro santo, o proprio do estoico, não raro obtuso.

Dizemos pois Caracter no sentido e valor que a palavra teve na Antiguidade, e não na vaga accepção moderna. Não é a vida intemerata, não é o desprezo dos bens mundanos, o odio á ostentação van, a recusa desabrida de titulos, de honras, de lugares, que em si constituem o Caracter: embora a repugnancia pelas cousas mesquinhas seja consequencia indispensavel d’esse modo de existir que consiste essencialmente na afinação perfeita das regras da moral e dos principios da intelligencia, da vida do cidadão e da existencia do philosopho. O typo do caracter á antiga é o estoico, e este é o nome que propriamente define a physionomia de Herculano; este é o typo que passo a passo veiu crescendo até dominar nos ultimos annos, quando as licções successivas do mundo, nunca estoico e muito menos do que nunca em nossos dias, e muito menos do que em parte alguma em Portugal: quando os desenganos do mundo o degredaram para o exilio, não como um martyr, mas como um homem que, protestando sempre, se não converte, nem se corrompe.

Por isso o estoico é por natureza austero e duro; e na pessoa de Herculano esse genero aggravava-secom effeito por varios motivos: já pelo seu temperamento lusitano, já pela deploravel baixeza do nivel moral da sociedade portugueza, já pelo saber consideravel systematisado pelo philosopho e sem duvida alguma desproporcionado para a illustração média do paiz em que vivia. Olhando para as miserias alheias e para a alheia ignorancia, por modesto que fosse—e não o era—viu-se muito acima, como homem e como sabedor. Isto, e não a cohorte dos aduladores ineptos a que não dava importancia, embora a sua bondade os não fustigas-se, fazia-o inconscientemente orgulhoso, porque nenhum orgulho nem pedantismo tinha para com todos os que via crédores de attenção e respeito.

Do accôrdo da intelligencia e da moral vem ao estoico um pensamento bem diverso e até opposto ao dos santos, que do antagonismo sentido partem para as soluções mysticas. Esse pensamento é o individualismo, cujo traço fundamental consiste na idéa de que o homem é em si um ser completo e a unica verdadeira realidade social; a idéa de que a razão humana é a fonte do conhecimento certo e absoluto, a consciencia a origem da moral imperativa, e a liberdade, portanto, a fórmula da existencia social. D’este modo de vêr as cousas nasce aquillo a que podemos chamar o orgulho transcendente, isso que os antigos estoicos disseram Caracter, quando pela primeira vez uma tal fórma de pensamento appareceu systematisada em doutrina.

Se na mocidade, pois, ao vêr terminada a iniciação dolorosa que as suas poesias nos contam, Herculano, ainda impellido por illusões generosas, ainda incerto do destino fatal do seu genio, entrou na batalha da vida como soldado, esperando chegar a vêr realisadas as normas esboçadas em seuespirito, esse enthusiasmo caíu depressa; e já no ardor com que escreveu aVoz do Propheta, para condemnar a democracia, anti-liberal em sou conceito, se vê esboçada fugitivamente a condemnação futura dos partidos todos sob a fórma artificial do um estylo prophetico, á Lammenais. O momento de se convencer das razões de uma tal sentença chegou em 1851, quando fugiu corrido de vergonha e tédio perante uma corrupção que se lhe figurava excepcional e unica. Passou á condição de caturra para os homens practicos, de orgulhoso para os simples, e de protesto symbolico contra a decadencia portugueza, e contra o abatimento universal da Europa, utilitaria eimperialista, para os que, de fóra do mundo, como criticos, observam e classificam os phenomenos. Tornou-se o remorso vivo de uma nação degenerada. É n’este momento que as cousas levam o genio de Herculano a definir-se na sua pureza; e é por isso que ao extinguirem-se-lhe as illusões politicas, principia a tornar-se um typo o caracteristico da nossa vida contemporanea. Póde dizer-se que, ao morrer para o mundo, nasce para a historia. O lugar que lhe compete, na galeria dos nossos homens modernos, é este. Embora já antes o seu nome tivesse andado nos programmas e polemicas, a sua individualidade não se destacava ainda senão pelo valor addicional da reputação litteraria conquistada.

No revolver da vida agitada em que se achára, iam pouco a pouco reunindo-se, como que cristalisando, os elementos da individualidade futura, distincta e typica. A nobreza e a rectidão ideal do seu espirito tinham na sua profundidade o motivo de uma cegueira systematica para pesar e medir as cousas reaes com a imparcialidade fria de um critico, ou com a caridade de um santo. Com o seumetro absoluto e integro, Herculano, na agitação do mundo, corria atraz da chimera de achar aquelles homens que o seu estoicismo concebia, aquelles raros, dos quaes elle era em Portugal um e unico. O critico, se é politico, manobra com os homens como um general com um exercito, auscultando as vontades e os caprichos, dirigindo as forças direito a um fim, sem attenção pelos instrumentos d’elle. Perante os homens, o santo tem na piedade uma força intima: a coragem que não abranda; tem o enthusiasmo que o move e a caridade que lhe explica e lhe faz comprehender, em Deus, as fraquezas e as miserias da terra. Combate, pois, sem recuar, levando nos labios a palavra de uncção e o sorriso de uma ironia boa, ao mesmo tempo cauterio e balsamo. O estoico, porém, ferido, pára. O mundo era elle e nada mais além da sua razão, da sua consciencia, da sua liberdade. E quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrages são profundos e agudos como os que expulsaram da politica—e tambem das lettras—Alexandre Herculano, o estoico, repetindo a phrase historica do Africano, suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o caracter apparece em toda a sua pureza.

Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de uma doutrina imperfeita. Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si que foge a um mundo rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um acto de fé. Só a differença dos tempos fez que no suicidio do Herculano não entrasse o ferro, como entrou nos suicidios estoicos da Antiguidade. A vida assim coroada, o homem assim transfigurado n’um typo e a sua palavra e o seu exemplo n’um protesto, superior ao mundo e ás suas fraquezas, ficam aureolados como forte clarão dos heroes, lume que aos navegantes, errando no mar escuro da vida, guia a derrota e indica o porto.

O racionalismo kantista foi o molde onde se vasaram em systema as tendencias naturaes do espirito de Herculano, um D. João de Castro da burguezia e do seculoXIX. O antigo estoicismo portuguez era catholico e monarchico; o estoico de agora foi romantico e individualista, exprimindo a reacção contra a religião dos jesuitas e contra a doutrina da Razão-d’Estado que, depois de ter feito as monarchias absolutas, fizera a Convenção e Napoleão.

O kantismo como philosophia, o individualismo como politica, o livre-cambio como economia, eis ahi as tres phases da doutrina que, por ser um philosopho, Herculano medía em todo o seu alcance.

Eu, meu caro democrata e republicano, nunca fui muito para as idéas que mais voga tém hoje entre os moços e queprovavelmente virão a predominarpor algum tempo no seculoXX, predominio que as não tornará nem peiores, nem melhores do que são. A liberdade humana sei o que é: uma verdade da consciencia, como Deus. Por ella chego facilmente ao direito absoluto; por ella sei apreciar as instituições sociaes. Sei que a esphera dos meus actos livres só tem por limites naturaes a esphera dos actos livres dos outros e por limites facticios restricções a que me convem submetter-me para a sociedade existir, e para eu achar n’ella a garantia do exercicio das minhas outras liberdades. Todas as instituições que não respeitarem estas idéas serão pelo menos viciosas. Absolutamente falando, o complexo das questões sociaes e politicas contém-se na questão da liberdade individual. Por mais remotas que pareçam, lá vão filiar-se. Mantenham-me esta, que pouco me incommoda que outrem se assente n’um throno, n’uma poltrona ou n’uma tripeça. Que as leis se affiram pelos principioseternos do bom e do justo, e não perguntarei se estão accordes ou não com a vontade de maiorias ignaras. (Extr. da corresp. com o A. carta de 10 de dez. de 1870)

Eu, meu caro democrata e republicano, nunca fui muito para as idéas que mais voga tém hoje entre os moços e queprovavelmente virão a predominarpor algum tempo no seculoXX, predominio que as não tornará nem peiores, nem melhores do que são. A liberdade humana sei o que é: uma verdade da consciencia, como Deus. Por ella chego facilmente ao direito absoluto; por ella sei apreciar as instituições sociaes. Sei que a esphera dos meus actos livres só tem por limites naturaes a esphera dos actos livres dos outros e por limites facticios restricções a que me convem submetter-me para a sociedade existir, e para eu achar n’ella a garantia do exercicio das minhas outras liberdades. Todas as instituições que não respeitarem estas idéas serão pelo menos viciosas. Absolutamente falando, o complexo das questões sociaes e politicas contém-se na questão da liberdade individual. Por mais remotas que pareçam, lá vão filiar-se. Mantenham-me esta, que pouco me incommoda que outrem se assente n’um throno, n’uma poltrona ou n’uma tripeça. Que as leis se affiram pelos principioseternos do bom e do justo, e não perguntarei se estão accordes ou não com a vontade de maiorias ignaras. (Extr. da corresp. com o A. carta de 10 de dez. de 1870)

Herculano é o legitimo discipulo de Mousinho, que tanto admirava; e, depois do que dissemos ácerca da theoria individualista, ao estudar o primeiro defensor d’ella entre nós, parece-nos desnecessario entrar em repetições. Já avaliámos o merecimento, já tambem vimos as consequencias practicas de uma idéa que, supprimindo toda a especie de authoridade collectiva, resumindo na consciencia individual a origem do direito, funda a sociedade sobre uma nova especie do antigopactodos juristas. Renegando o direito-divino dos monarchas, expressão tradicional, renega a soberania popular da democracia, expressão ainda com effeito por definir, ensaio rude, arithmetico, tyrannia brutal do numero, imperio demaiorias ignaras; mas expressão embryonaria da futura authoridade organica do Estado.

Tomando a nuvem por Juno, o individualismo não distinguia o que necessariamente tem de grosseiro e rude um primeiro ensaio. Ainda então as sciencias naturaes não tinham caracterisado definitivamente o movimento das idéas do seculo, nem a verdadeira natureza organica das sociedades humanas, outra especie de colmeias ou formigueiras;[35]ainda o espiritualismo fazia do homem um milagre e das suas sociedades actos voluntarios, pactuaes. Mas, inconsequente, o individualismo não propõe afinal outra fórmula senão a do governo dos numeros brutos, das maiorias ignaras: que ha de propôr, senão essa fórma inexpressiva de uma forçapositiva indispensavel á cohesão social, desde que não ha nas idéas um principio organico?


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