{V}Em dous grandes cyclos póde naturalmente dividir-se a historia portugueza, cada um dos quaes abrange algumas epochas mais ou menos importantes; no primeiro a nação constitue-se, desenvolve-se, fortifica-se, estende o seu poder pelas terras de Africa, senhoreia ignotos mares, dicta leis ao Oriente, ganha vastos e productivos terrenos na America, abre caminho ao engrandecimento dos outros povos da Europa, e a final decae rapidamente{VI}até chegar á sepultura de 1580; no segundo resurge, reconquistando n'um dia a antiga independencia politica, e, procurando depois rehaver no decurso de seculos não o poderio de outras eras, mas os fóros de liberdade, e a robustez e firmeza, que são os meios mais poderosos com que as nações, assim como os individuos, podem luctar contra a adversidade e vencel-a.Traçando este humilde esboço historico quiz o author rememorar alguns factos e algumas phases do primeiro cyclo, que julga mais fecundo em lição e exemplos; e publicando-o agora suppõe fazel-o em occasião opportuna. Quando, no meio das dissensões partidarias, dos erros politicos e das aberrações populares, nos fere os ouvidos a ameaça de que a nossa autonomia e independencia não podem durar muito, é justo e util buscar no estudo dos{VII}fastos nacionaes os titulos do nosso direito, a memoria do que fizemos, e por ventura nobres estimulos para que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem ao mundo que, se já não somos potencia maritima ou continental, pesando com decisiva força na balança dos acontecimentos politicos, queremos, todavia, e devemos ser respeitados pela sciencia, pelo trabalho, pela energia, pelo amor da liberdade, pela severidade dos costumes, unicas armas com que o espirito da nossa epocha ensina as nações civilisadas a combaterem n'uma lucta generosa.Possa esta tentativa não ser de todo perdida, e servir ao menos de incentivo para que obreiros mais robustos levantem o monumento grandioso das tradições nacionaes.{VIII}{9}QUADROSDEHISTORIA PORTUGUEZAIFundação da monarchia1097 A 1179Bem como a vida dos individuos a vida dos povos é dilatada ou curta. Assim muitas nações, que existiam robustas e altivas durante a edade média, annullaram-se ou desappareceram, absorvidas umas por estados mais poderosos, desmembradas outras pelas conveniencias politicas; e Portugal, apparentemente{10}debil na origem, mas que por milagres d'esforço e de perseverança chegou a constituir a nação mais forte e audaz da Europa, vive ainda, e encontrará a sua defensão em saberem seus filhos repellir, com energia, quaesquer suggestões traiçoeiras ou tentativas violentas contra a terra que livres herdaram, e onde livres querem morrer.Qual tem sido, porém, a causa d'essa longa vida, d'esse vigor da juventude e da edade viril, d'essa tenacidade que se conserva ainda no seio da decrepidez? É o que procuraremos descobrir, examinando rapidamente a historia dos seus primeiros annos.Logo que o imperio wisigodo se desmoronou ao embate impetuoso do fanatismo dos arabes, a reacção christã e europêa começou immediatamente. Desde a batalha do Chryssus até o{11}recontro de Cangas de Onis mediou curto espaço, mas tanto bastou para que os mussulmanos gastassem nas dissensões intestinas o provado valor, e para que os godos, retemperados pelo infortunio, recuperassem a ousadia e firmeza, que são as mais seguras armas dos povos ameaçados na sua existencia. O poderio christão foi, pois, crescendo de novo e prosperando, lenta mas persistentemente, e já, meado o seculo XI, Affonso VI, reinava sem resistencia nas Asturias, Galliza, Leão e Castella, e conquistava ou fazia tributarias as principaes cidades e provincias dos sarracenos da Peninsula.Para as suas guerras brilhantes muitos cavalleiros francezes atravessaram os Pyrineos. Impellia-os a tendencia guerreira e aventurosa da epocha; animava-os a idéa religiosa, que attrahia a pelejar contra os infieis quantos homens{12}de fé viva tinha n'esse tempo a Europa; dava-lhes esforço, por ventura, a esperança de encontrarem fortuna n'um paiz onde, no tumultuar de incessantes combates, se offereciam frequentes conjuncturas para adquirir riqueza e gloria. Entre os estrangeiros mais notaveis vieram a Hespanha Raymundo, conde de Borgonha, e Henrique seu primo co-irmão. Ao primeiro deu Affonso VI em casamento sua filha D. Urraca, havida da rainha Constancia, encarregando-o ao mesmo tempo do governo da Galliza e da terra portugalense; a Henrique concedeu D. Thereza, sua filha bastarda e da nobre dama Ximena Muniones, entregando-lhe com esta alliança o governo do districto de Braga, como condado dependente de seu primo. Em breve, porém, todo o territorio desde as margens do Minho até o Tejo foi destroncado{13}definitivamente da Galliza, para constituir um vasto senhorio, regido pelo conde Henrique, e sujeito apenas á supremacia da corôa leoneza.O illustre cavaleiro francez, que via realisados os seus designios ainda para além do que imaginára, applicou provavelmente então toda a actividade á guerra com os sarracenos, e posto que a viagem que emprehendeu á Syria nos primeiros mezes de 1103 devesse retardar a sua influencia e conquistas, é certo que já em 1106 havia concebido as idéas de engrandecimento e independencia, a que deveu acaso Portugal a sua existencia como nação. O pacto secreto celebrado entre elle e Raymundo para a repartição dos estados do sogro, alliança que a morte do conde de Galliza inutilisou; as sollicitações perante Affonso VI moribundo;{14}e finalmente o modo por que soube valer-se das discordias civis, a que o fallecimento do rei de Leão deu origem, ligando-se ora com D. Urraca, ora com o monarcha de Aragão, e ainda com os fidalgos de Galliza, traduzem um pensamento unico:—converter o senhorio, que lhe fôra concedido para reger como simples consul, em nucleo de um poderoso estado ao occidente da Europa. E no meio das tempestades politicas, que varreram o solo ensanguentado da Peninsula durante o governo de D. Urraca, teria decerto satisfeito essa arrojada ambição, se a morte não viesse ceifar-lhe os designios junto dos muros de Astorga.Fallecido Henrique (1 de maio de 1114) e contando o infante Affonso Henriques apenas tres annos de edade, tomou D. Thereza o governo, e{15}com elle o encargo de continuar a obra politica do marido. Apresentava-se ardua e arriscada a empreza, mas a filha de Affonso VI não desdizia das nobres tradições da sua raça. A leôa defendeu o antro com o ardor e constancia de que seu fero senhor lhe deixára assombrosos exemplos. Cercada dos seus vassallos, identificada com certo instincto de nacionalidade, que já então animava todos, ambiciosa, astuta, energica e tenaz, luctou durante quatorze annos para conservar intacta a independencia da terra que lhe chamava rainha. Submettendo-se ao rigor das circumstancias, inclinou por vezes o collo á soberania da côrte leoneza; mas não hesitando em quebrar solemnes promessas, o que aliás era frequente n'esses tempos de bruteza, e ainda hoje não é raro a despeito da civilisação, recusou sempre{16}a obediencia quando julgou possivel resistir. Seguindo, emfim, o caminho traçado pelo conde Henrique, alimentou habilmente rivalidades e rancores entre sua irmã D. Urraca, e o cubiçoso e soberbo bispo de Compostella, e não obstante os damnos e calamidades provenientes das invasões de christãos e sarracenos, augmentou a extensão dos seus dominios ao oriente e ao norte, dando-lhes ao mesmo tempo incremento em população, em riquezas e em forças militares.A affeição intima a Fernando Peres, um dos mais illustres ricos-homens da Galliza, quebrou-lhe nos ultimos annos a cadeia brilhante de uma vida aventurosa e feliz. Esquecida de que o terrivel neto de Roberto de Borgonha deixára no mundo um successor do seu genio, a formosa rainha entregára ao amante a administração dos{17}districtos do Porto e Coimbra, e é de presumir que lhe outorgasse tambem a supremacia sobre os outros condes ou tenentes do paiz. Nenhum acto indica, talvez, que a intervenção de Fernando Peres fosse desleal ou funesta para a independencia da provincia, que procurava desmembrar-se dos vastos estados leonezes; mas a fortuna do valido excitára desde o principio o descontentamento e ciume dos barões portuguezes, e estes, aproveitando o enthusiasmo de nacionalidade já então radicado no povo, e a sede de poder que devorava Affonso Henriques, lançaram entre a mãe e o filho o facho da discordia, e accenderam a guerra civil, quer conforme todos os indicios, começou em 1127, para se decidir, decorrido um anno, na batalha do campo de S. Mamede, junto de Guimarães, onde o exercito de D. Thereza{18}foi desbaratado, e ella ficou prisioneira.Assumindo o poder que tanto ambicionára, o moço principe não se limitou a recusar obediencia ao rei de Leão, cujo dominio toda a Hespanha christã e ainda parte da França mais ou menos reconheciam; ousou invadir por vezes as provincias limitrophes, fundando-se, por ventura, nas convenções feitas com seu pae, e sobretudo na posse que D. Thereza tivera dos districtos de Limia e Tuy. No meio de graves difficuldades, Affonso VII, que por morte de D. Urraca empunhára irrevocavelmente o sceptro de Leão e Castella, não poude a principio impedir essas correrias, nem procurar submetter seu primo; mas em breve, favorecido pela fortuna, aprestou um numeroso exercito, e dirigindo-se aos territorios de Galliza, avassallados{19}pelos portuguezes, repelliu de toda a provincia os invasores. Entretanto, apesar das vantagens obtidas, não se attreveu a proseguir na aggressão, e Portugal, que n'aquelle tempo abrangia apenas metade do actual territorio, conservou sempre hasteado o pendão da independencia.Assim duraram as cousas até que o anno de 1137 viu de novo rebentar a guerra. Seguindo a direcção do enthusiasmo popular e a do seu genio inquieto e bellicoso, Affonso Henriques alliou-se com os condes Gomes Nunes e Rodrigo Peres e com o monarcha de Navarra, e em quanto este, quebrando a especie de vassallagem que prestára, rompia as hostilidades contra Affonso VII, o principe portuguez caminhava de victoria em victoria, sujeitava os districtos meridionaes da Galliza, desbaratava os mais illustres{20}capitães inimigos, e iria ávante em novas conquistas, se a tomada de Leiria pelos sarracenos e as suas tragicas consequencias não lhe attrahissem a attenção para a defensa dos proprios estados.Depois de asserenada a tempestade, que expunha parte das fronteiras ás irrupções dos arabes, Affonso Henriques voltou a Galliza, onde já estava tambem o rei de Leão; mas avistando-se em Tuy, os dous primos celebraram pazes, e como de accordo volveram os olhos para mais nobre empreza:—o proseguir n'essa longa, patriotica e tenaz cruzada da Peninsula contra os mussulmanos, lucta encetada havia mais de quatro seculos, e cujas probabilidades de completo triumpho já claramente se mostravam favoraveis áquelle dos dous contendores, que, combatendo pelo christianismo, tinha{21}por si a força e o enthusiasmo, fructo de convicções profundas e da certeza moral do dever.A guerra contra os infieis foi favoravel ao filho do conde Henrique.Penetrando até o coração do Al-Gharb, onde nunca desde a invasão dos arabes os christãos haviam chegado, ganhou a batalha de Ourique, e saldou assim com os sarracenos os ultimos damnos recebidos. A tradição engrandeceu a pouco e pouco o facto, exaggerando o numero dos vencidos, inventando apparições e milagres, e tecendo uma notavel lenda, que as regras da boa critica historica irrefutavelmente condemnam. Se as circumstancias, porém, são fabulosas, nem por isso foram pouco importantes os resultados moraes d'essa batalha, que, habituando os portuguezes a affrontar em campanha os agarenos, lhes deu{22}animo e vigor para futuras conquistas.Terminada esta empreza, volveu o intrepido principe á lucta com os leonezes. Apoz varios successos, em que a fortuna das armas ora pendeu para Affonso VII, ora para o infante de Portugal, o grosso dos dous exercitos avistou-se perto de Valdevez; mas o captiveiro dos mais notaveis fidalgos de Leão, que em recontros singulares foram vencidos, a conhecida ousadia dos cavalleiros. e homens d'armas portuguezes, e emfim a vantajosa posição que estes occupavam, tudo isso e talvez algumas outras causas, que as memorias do tempo nos não dizem, constrangeram o orgulhoso filho de D. Urraca a sollicitar a paz. Ajustaram-se então tregoas, deu-se liberdade aos prisioneiros, restituiram-se os castellos reciprocamente conquistados, e{23}os dous principes abraçaram-se no campo de batalha.Estes acontecimentos converteram a separação de Portugal em facto consummado e completo. Tomando o titulo de rei, que havia muitos annos recebia já dos seus subditos, Affonso Henriques realisou, em fim, o altivo pensamento concebido por seu pae, desenvolvido largamente por D. Thereza, e abraçado com ardor pelos barões portuguezes; e quando em 1143 os dous primos assentaram em Samora uma concordia definitiva, o imperador das Hespanhas ou de toda a Hespanha, como se intitulava nos seus diplomas Affonso VII, não poude escusar reconhecer a realeza do principe que pozera magestoso remate no edificio da independencia portugueza.Prevendo, todavia, futuras disputas sobre a legitimidade d'esse facto, que{24}aliás nem as armas nem os tractados tinham conseguido impedir, Affonso I resolveu collocar o throno á sombra do solio pontificio. N'aquelles rudes tempos, em que a exaltação das crenças se associava intimamente com a ferocidade e soltura dos costumes, o poder dos papas tornára-se uma especie de dictadura, que todos os monarchas christãos directa ou indirectamente reconheciam; e a influencia da côrte de Roma era a espada suspensa por um fio sobre os thronos mais firmes, e ao mesmo tempo como que a columna de fogo, que dirigia as dynastias recentes na carreira das suas ambições. Acceitando as doctrinas theocraticas então por assim dizer incontestadas, e aproveitando-as para o intento quasi exclusivo a que se votára, o novo soberano fez homenagem do reino ao summo pontifice, promettendo{25}obediencia a S. Pedro, sujeição nominal mais supportavel do que o preito ao imperador; e depois de longas evasivas e ambiguidades, vicio que já então caracterisava a politica da sé apostolica, alcançou a confirmação da dignidade real por bulla de Alexandre III de 23 de maio de 1179.A esse tempo havia já o monarcha comprado o titulo por bem caro preço em quarenta annos de lides contra os infieis. Depois da larga campanha com o imperio leonez os portuguezes tinham escolhido para theatro das suas emprezas os territorios sarracenos; á lucta de desmembração succedêra a de assimilação; e as conquistas de Santarem, Lisboa, Cintra, Almada e Palmella em 1147, as de Alcacer do Sal e de Beja em 1158 e 1162, e finalmente as de Evora, Serpa, Moura e Aljustrel em 1166 haviam constituido{26}a nacionalidade portugueza com a seiva e robustez bastantes para resistir ás procellas que agitavam a Peninsula.Taes são os lineamentos capitaes da historia da fundação da monarchia. Julgando imparcialmente os homens e as cousas, não hesitâmos em affirmar que o esforço dos portuguezes neste longo periodo é uma das manifestações mais solemnes dessa tenacidade heroica, que nem se inebria com o triumpho nem desanima com os revezes; desse affecto generoso e altivo, que nos leva a luctar com a fome, com a sede, com a morte para defender a terra que cobre as cinzas de nossos paes; dessa abnegação nobilissima, que no meio da rudeza da epocha constitue gloria pura e immarcessivel. Volvamos, pois, os olhos para as velhas glorias da patria. O tracto dos que foram grandes e fortes{27}livrar-nos-ha, talvez, do lethargo febril que nos consome, revocar-nos-ha, por ventura, á energia social e aos vividos affectos de nacionalidade. No meio da indifferença ou do terror, que cérca a geração actual, ouvem-se como que umas melodias suaves que vem consolar-nos dos males que nos affligem, e dar-nos animo e ousadia para arrostar as tempestades que se enxergam no futuro. É o cantico de recordações que nos legou o passado, recordações tanto mais fecundas, quanto nos alimentam a esperança de que este paiz tem ainda nobres destinos a cumprir antes de se envolver na bandeira do fundador da monarchia, e de ir, emfim, occupar no cemiterio da historia o largo jazigo das nações que morrem.{28}{29}IIUltimos annos de D. Sancho II1245 A 1247Era deveras tumultuaria a situação do reino na epocha que pretendemos esboçar. Bandos de salteadores, para quem o viver era acaso e a morte espectaculo quotidiano, assolavam os campos, infestavam as povoações, e refugiando-se nos logares do asylo zombavam do castigo; os officiaes publicos, attentos principalmente a saciar a propria crueldade e cubiça, commettiam em nome do fisco toda a casta de prepotencias;{30}e a propriedade, invadida e devastada, em vão pedia segurança e invocava as leis. Na côrte o desbarate das rendas publicas tornava desastrado e temeroso o estado da fazenda, os ministros succediam-se rapidamente, e as luctas de valimento multiplicavam-se, não se astringindo á guerra de tenebrosos enredos, mas semeando cruentas discordias, que depois encontravam nos solares, nos mosteiros, nas municipalidades,nos herdamentos, nas maladias, nos páramosterreno fertil para germinarem, crescerem e fructificarem. A anarchia, emfim, era por todo o paiz como os fogos de terreno vulcanico; ao passo que n'uma parte se extinguia o incendio, rebentavam em outras turbilhões de chammas.Dotado de indole generosa, D. Sancho II procurára ao principio attrahir{31}todos os animos turbulentos e ambiciosos para um pensamento unico, collocando-se á frente dos barões, dos cavalleiros nobres, dos homens d'armas, da cavallaria e besteiros dos concelhos para continuar a guerra de crença e de raça, no seio da qual a nação surgira, e que parecia ser para ella um dos primeiros elementos de vitalidade e robustez. Nos campos de batalha, sobresahindo entre os guerreiros mais esforçados, mostrára-se digno neto do fundador da monarchia, conquistára muitas povoações mussulmanas de grande monta, taes como Elvas, Serpa, Jurumenha, Aljustrel, Arronches, Mertola, Ayamonte e Tavira, e finalmente dera á auctoridade real o prestigio das victorias; mas as desordens do governo interno invalidaram em grande parte o resultado das batalhas com que se dilatavam as fronteiras{32}pelos dominios sarracenos. Depois o principe, que durante largo espaço quasi nunca descançára a espada de conquistador, e que ao mesmo tempo pretendêra pôr em pratica as severas leis de seu pae com relação ao clero, deixára esmorecer o esplendor da gloria em annos de indolente repouso; e os prelados portuguezes, aproveitando os descontentamentos e perturbações que enfraqueciam a acção da corôa, começaram a trabalhar com fundada esperança n'essa longa têa de enredos, de corrupção e de hypocrisia, cujo remate tinha de ser a deposição do monarcha.Varias circumstancias, dentro e fóra do paiz, favoreciam mais ou menos os designios facciosos. Consistia a principal na situação em que estava o papa, cuja intervenção era indispensavel, não obstante já ter Roma perdido,{33}pela dobrez e perfidia da sua politica, grande parte da força immensa que havia conseguido com as virtudes austeras dos primitivos padres. A Gregorio IX succedêra na thiara Innocencio IV, intelligencia vasta e energica, mas irascivel, ambiciosa e indomita, que logo mostrára querer sustentar com vigor as antigas doutrinas de Gregorio VII e de Innocencio III. Era o novo papa affeiçoado a Frederico II, imperador da Allemanha, mas este só viu no exito da eleição a perda de um amigo, e não teve esperança de que terminassem as luctas implacaveis e freneticas, que, accendendo a irritação em todos os animos, dividiam o sacerdocio e a realeza. De feito, depois de muitas negociações e tumultos, Innocencio, perseguido e expulso de Italia pelo imperador, e repellido de França por S. Luiz, de Hespanha pelo{34}rei de Aragão, de Inglaterra por Henrique III,dirigiu-se a Lyão, e ahi tractou logo de reunir um concilio para depôr Frederico. No seu animo deviam, pois, causar profunda impressão as amargas queixas dos prelados portuguezes, e movel-o a desthronisar o principe que ousava resistir ao poder ecclesiastico, esquecendo-se não só de que a sociedade civil era apenas imagem grosseira da sociedade catholica, mas até do signal de vassallagem, que outr'ora se offerecêra á sé apostolica, e que tornava o paiz de certo modo tributario do solio pontificio.As circumstancias internas favoreciam tambem a empreza. Os interesses oppostos, os ciumes do poder, os odios que resultavam da vehemencia das paixões, a cubiça, a soltura de costumes, o amor de licenciosa independencia, todas as desordens communs{35}em tempos de ignorancia e fereza, achavam então ensejo favoravel para se patentearem com audacia; muitos fidalgos, além dos que haviam seguido a França o conde de Bolonha, eram adversos a D. Sancho; e o povo, offendido pelo esforço brutal com que os nobres exerciam impunes tanta oppressão, quanta lhe permittiam a extensão dos seus dominios e a fortaleza dos seus castellos, parecia indifferente á sorte do monarcha. Finalmente D. Sancho, impellido pela mais energica das paixões humanas, o amor contrariado e impetuoso, casára com a viuva de Alvaro Peres de Castro, D. Mecia Lopez, filha do senhor de Biscaya, Lopo Dias de Haro, e de D. Urraca, bastarda de Affonso IX de Leão; e esse consorcio augmentára ainda a desorganisação interna do reino, pela desigualdade da alliança, e pelas emulações{36}e despeitos que desde logo suscitára.Em tal conjunctura só faltava aos conspiradores encontrar um chefe, capaz de substituir no throno o desditoso monarcha. D. Affonso, irmão de D. Sancho, e conde de Bolonha pelo seu casamento com a condessa Mathilde, foi o indigitado. Talento militar e politico, fôra elle um dos que mais se tinham distinguido na famosa batalha de Saintes, dada por S. Luiz a Henrique III de Inglaterra; ambição energica e tenaz, podia pela nobreza do nascimento, pela indole altiva e valorosa, e pela influencia dos fidalgos que de Portugal o haviam acompanhado, reunir em volta de si todos os interesses feridos, e ser efficaz instrumento do trabalho dos conjurados.Julgando, portanto, o terreno preparado, e tendo a quasi certeza de{37}realisar amplamente esperanças por muito tempo affagadas, partiram para Lyão os prelados do Porto e de Coimbra e outros descontentes a reunir-se com o arcebispo de Braga, e ahi se queixaram ao pontifice, attribuindo a D. Sancho o estado lastimoso a que havia chegado o reino. Acolheu Innocencio de bom grado os prelados portuguezes, predisposto já em seu favor pelas negociações anteriores, expoz o assumpto ao concilio, e na semana immediata ao encerramento d'essa notavel assembléa, expediu aos barões, concelhos, cavalleiros e povo de Portugal uma bulla, declarando os varios delictos praticados por D. Sancho, e nomeando para a regencia do reino o conde de Bolonha.Escudado com as comminações do pontifice, e depois de ter assignado as vergonhosas promessas de subserviencia{38}ao poder absoluto, illimitado, omnimodo do clero, promessas que só esqueceu quando viu que o podia fazer sem perigo, partiu D. Affonso para Portugal, onde de feito chegou nos principios de 1246. Não alcançou, porém, immediatamente a realisação dos seus desejos. Muitas povoações importantes sustentaram seu preito ao monarcha, muitos cavalleiros-villãos e besteiros dos municipios resistiram á usurpação, e entre os proprios membros do clero encontrou D. Sancho quem não fraqueasse ante as poderosas armas do conde de Bolonha, e o stygma espiritual das censuras.Teve, pois, o infante de recorrer, por um lado aos assedios e batalhas, por outro ás dadivas, ás promessas, ás seducções de toda a especie; e se em muitos cavalleiros e alcaides de castellos os calculos interesseiros, as{39}ligações de parentesco, a recordação de antigos aggravos tomaram o passo sem escrupulo ás mais justas considerações, alguns houve tambem que pelo nobre procedimento constituem exemplos memoraveis de lealdade e energia. A defensa de Coimbra por Martim de Freitas, em que este teve de vencer a audacia e vantagem dos sitiadores, e o desalento e desespero da propria guarnição, abatida pelas fadigas, pela fome, pela sede, e acaso pelos terrores que gerára o anathema pontificio, é d'aquelles grandes factos que symbolisam uma epocha; mas quando a tradição não referisse outros, ou quando a todos faltassem bons testemunhos historicos, a diuturnidade da contenda, em tempo que não existiam exercitos permanentes, provaria por si só o denodo e constancia dos fieis partidarios de D. Sancho.{40}Apesar de tudo, porém, a fortuna das armas pendeu para o lado do infante, e o infeliz monarcha, depois de se ter defendido com a coragem que sempre mostrára no fervor dos combates, teve, emfim, de soccorrer-se á alliança com Castella. Um corpo de tropas castelhanas, capitaneado pelo valente conquistador de Murcia, o filho primogenito de Fernando III, e de que tambem fazia parte Diogo Lopez de Haro, irmão de D. Mecia, veiu dar novo alimento á guerra, que se protrahiu até os fins de 1247. Chegou já tarde, comtudo, esse soccorro. A ambição e astucia de D. Affonso, juntas a valor intrepido, tinham aproveitado todos os recursos para se firmar em bases solidas o novo poder, e os intuitos generosos, tanto da invasão, como das diligencias perante a curia romana, a que ainda recorreu o principe{41}castelhano, foram completamente mallogrados.Vergado o animo pela desdita, D. Sancho preferiu o desterro a viver captivo na patria, debaixo do jugo do irmão, e escolheu Toledo para residir. O exilio veiu então completar-lhe a escola do infortunio. O orgulho offendido, o desejo de vingança, a compaixão pelas desgraças da patria, os remorsos dos erros commettidos, as vãs esperanças, emfim, que nunca abandonam o desgraçado, rebatiam-se, travavam-se, recuavam, succediam-se consumindo-lhe o coração. As memorias saudosas da terra de que fôra senhor, gravadas como sêllo de amargura no intimo d'alma, tornavam-lhe detestavel o presente pelo contraste do passado. Capitão victorioso em muitos combates, açoute e terror dos sarracenos, tinha-se engrandecido com gloriosos{42}feitos de armas no conceito de amigos e de inimigos, de naturaes e de estranhos; depois conhecêra por dolorosa experiencia as intrigas da politica, as conspirações dos partidos, as ingratidões e perfidias dos validos, o ciume e rancor dos despeitados; e a final via-se deshonrado por uma sentença calumniosa e infamante, despresivel para o povo que só applaude o triumpho, e podendo a custo desafogar em actos de piedade e penitencia a dôr causada na sua alma pelos vicios, pelas torpezas, pelas traições, pelas negruras d'aquelles de quem mais devia esperar lealdade e verdadeiro affecto.Na solidão irremediavel do desterro abreviou-se-lhe a existencia, a fronte curvou-se para a terra, e antes de passar um anno depois de foragido (janeiro de 1248) falleceu em Toledo,{43}pedindo em testamento que o sepultassem no mosteiro de Alcobaça, onde jaziam as cinzas paternas. Nem essa ultima vontade, porém, lhe foi cumprida. Ha infortunios que perseguem o homem ainda além da campa.{44}{45}IIIBatalha do Salado1340Reinava em Portugal D. Affonso IV, e em Castella seu genro Affonso XI. Protrahia-se com varia fortuna a guerra entre as duas nações, porque os laços de familia não tinham podido suffocar as discordias entre os principes, quando o rei de Fez,Aly-Abul-Hassan, preparando-se para invadir a Hespanha, reuniu um dos mais famosos exercitos, que atravessaram o Estreito emquanto o crescente dominou{46}na Peninsula. Apparelhado tudo para a expedição, começou o embarque dos sarracenos, e no decurso de cinco mezes quasi não se passou um dia, sem que as galés muslemicas viessem lançar nos portos de Gibraltar e Algeziras novos esquadrões de soldados. Reuniram-se a estes as tropas do rei de Granada, Jusef-ben-Ismail, e sitiou-se logo Tarifa, povoação importante e excellente ponto estrategico para proseguir a invasão e conquista.Defendia-se energicamente a guarnição da fortaleza. A presença da armada christã, que fundeára proximo á cidade, impedia de algum modo o transporte de viveres e munições para o campo dos mussulmanos; e dava ao mesmo tempo aos cercados a esperança de soccorro ou de refugio. Em breve, porém, uma terrivel borrasca destruiu-a completamente, e tudo então{47}pareceu annunciar que ia bater a derradeira hora do dominio da cruz n'aquellas terras, regadas já com o sangue de tantos martyres.Em presença do perigo, o orgulhoso Affonso XI tractou de celebrar pazes com o sogro e de lhe sollicitar a alliança, a fim de resistir á procella que ameaçava rebentar sobre os seus estados. Cedendo á força das circumstancias, e humilhando-se perante aquella que tanto offendêra e ainda odiava, enviou sua mulher a el-rei de Portugal, rogando-lhe prompto e poderoso auxilio; e depois veiu elle proprio pedil-o, ponderando a multidão dos barbaros, o aperto do sitio em que estava Tarifa, o risco com que se defendiam os cercados, e o muito que importava a brevidade de soccorro, da qual dependia talvez a sorte de toda a Hespanha. Satisfez D. Affonso IV a instante{48}supplica, e dentro de breve tempo partia para Sevilha, á frente de uma lustrosa companhia de gente escolhida, posto que pouco numerosa, adiantando-se ao grosso do exercito, que tinha de marchar mais lentamente por causa dos petrechos de guerra e provimentos.Juntos os dous monarchas, convocaram-se os prelados, os barões, os mestres das ordens militares, os ricos homens, e entre todos se disputou a conveniencia de soccorrer Tarifa. O susto fez ahi seu officio, e muitos aconselharam se entregasse a praça aos mouros como condição de paz, evitando-se uma lucta, que n'aquella conjunctura só por milagre não seria funesta. Venceu, porém, o voto contrario, que foi o do rei portuguez e o dos seus vassallos, e depressa o enthusiasmo substituiu pela confiança o{49}temor. Achavam-se ali reunidos os principaes cavalleiros das duas nações rivaes; tinham de ser julgados uns pelos outros; tinham de se julgar mutuamente; e tanto bastou para que a emulação d'esforço se accendesse em todas as veias, exaltasse todos os animos, dominasse todas as vontades. Resolvida, pois, a guerra, dirigiram-se sobre Tarifa os dous monarchas, fazendo pequenas jornadas por esperarem as tropas que de instante a instante engrossavam o exercito; e no dia 27 de outubro, ao cahir da tarde, avistaram, emfim, a multidão dos infieis, cujas tendas, derramadas pelas raizes dos montes e pelos cimos dos outeiros, formavam como que uma cidade vastissima, cercada por selva de lanças.Logo que nas asperas cumiadas dePeña del Ciervofluctuaram os pendões de Castella e de Portugal, juntos ao{50}estandarte da cruzada, as tropas mussulmanas, que se calculavam em sessenta mil homens de cavallaria e quatrocentos mil infantes, unindo-se com a rapidez do relampago e deixando o recinto das tendas, arrojaram-se para as margens do Salado, e ahi aguardaram firmes o acommettimento dos inimigos. A noite, porém, aproximára-se, e os principes christãos não quizeram no meio das trevas começar a terrivel batalha, em que a fortuna das armas tinha de resolver se os filhos da Peninsula deviam de novo curvar-se ao jugo dos africanos.No dia seguinte já o sol ia alto, quando o som das trombetas, dos tambores, das charamellas, dos anafis, dos atabales deu o signal de combate. O exercito portuguez, entoando o psalmoExurgat Deus, arremeça-se pela planicie, transpõe o rio por entre milhares{51}de frechas, que sibilam nos ares como saraiva espessa, e encontrando-se com a hoste do rei de Granada trava uma lucta implacavel, frenetica, vertiginosa. No meio da ebriedade do sangue, baralham-se amigos e inimigos; as espadas faiscam nas espadas; as lanças, topando em cheio nos escudos, nos capacetes, nos arnezes dão um som profundo, que se mistura com o estalar d'aquellas que voam despedaçadas; muitos ginetes correm á solta, nitrindo d'espanto e de terror; muitos cavalleiros pelejam a pé; e os elmos e cervilheiras rolam pelo chão fendidos e amolgados. A final os mussulmanos vacillam, e as suas fileiras, vergadas em semicirculos, recuam ante a gente portugueza, ondeam, espalham-se e abandonam o campo, procurando na fuga a salvação. Por outro lado as tropas castelhanas, capitaneadas{52}pelo principe de Vilhena D. João Manuel, dirigem-se contra o exercito de Abul-Hassan, e depois de renhida peleja conseguem romper aquellas grossas muralhas de homens, affoutos e impavidos no primeiro conflicto, mas incapazes de resistir tenazmente ao embate incessante dos cavalleiros christãos, que, poucos mas bem armados, investem como leões onde mais acceso vae o travar da batalha. Não ignoram elles que da sua audacia depende nessa hora talvez a sorte e a gloria da patria. Emfim a guarnição de Tarifa, sahindo da fortaleza, apodera-se dos arrayaes mouriscos; fere, mata, vence quasi sem combate os que encontra; e derrama assim a ruina entre os inimigos, que, no meio de completa anarchia, chegam a pelejar uns contra os outros, ou expiram sem defensa nem gloria debaixo{53}dos pés dos cavallos e dos troços de infanteria.Então o terror consumma o desbarato; e, pela volta da tarde, apenas do brilhante exercito dos mouros de Africa e de Hespanha alguns milhares de fugitivos, acompanhando os reis de Fez e de Granada, correm desalentados diante dos cavalleiros christãos, que os perseguem incançaveis até perto de Algeziras.Grande numero de mussulmanos ficaram captivos, e foi immenso o despojo em ouro, prata, armas e preciosidades de toda a casta. Convidado a escolher d'entre essas riquezas a parte que lhe aprouvesse, D. Affonso IV acceitou sómente alguns alfanges e bandeiras, e um clarim que pertencêra ao rei de Granada. Os despojos, porém, daquella famosa batalha constituiam o preço de menos valia para o{54}monarcha portuguez. Mais graves eram, sem duvida, os resultados de ordem moral. Sahindo victorioso da empreza em que nobremente se empenhára, D. Affonso IV cingira-se ás tradições, por tanto tempo esquecidas, das instituições wisigothicas, que consideravam como dever impreterivel do principe estar sempre á frente dos seus subditos, na hora dos grandes perigos e das grandes glorias; renovára o brado de guerra contra os infieis, que parecia ter de todo emmudecido desde a conquista do Algarve; patenteára ao rei de Castella qual era ainda a ousadia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes; e sobretudo livrára a Peninsula da invasão dos africanos, e dera a estes uma aspera demonstração de que não era empreza facil, nem talvez possivel, subjugar de novo a Hespanha e o christianismo.{55}IVMorte de D. Maria Telles1377De todas as obras da creação é a mulher aquella em que mais profundamente está gravado o verbo indefectivel e supremo da providencia omnipotente. O seu nome resoa-nos como o de um ente predestinado para nos servir de guia e amparo nos trabalhos e alegrias da vida; as suas graças infiltram-se por cada sentido, e são para cada desventura um balsamo, para cada descrença um milagre;{56}o gesto, a voz, os meneios, o volver de olhos, a ternura do sorrir, o perfume e brilhantismo dos cabellos, tudo tem encanto indecifravel, que domina as vontades mais isentas; mas no coração principalmente é que ha thesouros inexhauriveis de generosidade e innocencia, e uma suave melancolia, que parece não ter objecto, e que só é por ventura a saudade incerta mas indelevel da sua origem divina. No meio das tempestades da existencia acalma-nos as aspirações insensatas, as paixões fervidas, as esperanças mesquinhas e heterogeneas, e consegue salvar-nos de nós mesmos, esquecendo resignada as proprias dores, e exaltando-nos pela ternura e pela constancia ás regiões ideaes e bem-aventuradas do puro sentimento. Ás vezes, porém, anjo despenhado, a mulher{57}arrasta-nos comsigo; devora-nos, entre fingidas lagrimas e seductoras caricias, os annos, a energia, os nobres affectos, os sentimentos honestos, as noções da verdade e do dever; suscita-nos, desenvolve-nos, completa-nos as más paixões e os ruins instinctos, e faz com que aquelle, a quem um louco amor fascina, desça ao infimo grau da abjecção. Uma dessas mulheres, excepções que infelizmente não são raras, foi decerto Leonor Telles, de cuja terrivel historia, longa iliada de crimes, procuraremos narrar um episodio.A affeição cega de D. Fernando havia já annos que tinha satisfeito as ambições da mulher de João Lourenço da Cunha, alma soberba e ousada, cubiçosa e perfida, que não se contentára de vêr a seus pés, desvairado pela paixão, o moço e generoso monarcha.{58}A corôa real, por tantas vezes divisada em sonhos, sentia-a, emfim, segura na formosa fronte; os ultrages, que recebêra durante a lucta, lavára-os largamente com o sangue dos homens que mais odiava; e perante o seu olhar, sublime de altivez e energia, não havia cabeça que se não curvasse, nem coração que não estremecesse.Fôra-lhe para isso preciso supplantar considerações sagradas; vencer obstaculos poderosos; derramar pelo reino a devastação e a miseria; aviltar o homem que tudo lhe sacrificára, riquezas, poderio, gloria, a honra propria e a do nome herdado; mas que importam desgraças alheias a um animo profundamente egoista? As balizas, que separam a iniquidade e a justiça, o crime e a virtude, a abominação e a sanctidade, desapparecem aos olhos{59}do espirito reconcentrado n'um pensamento unico, e contra uma vontade assim inabalavel póde haver difficuldades, mas não ha impossiveis. Um processo de divorcio, julgado por juizes affectos a D. Leonor, livrára-a de seu primeiro marido, que atterrado fugira da patria. O repudio da infante de Castella, cujo casamento fôra contractado em celebração de pazes, annullára o outro obstaculo. A alliança com o duque de Lencastre, tractado impolitico e perfido, que só póde disculpar-se por ser obra de animo turbado por suggestões estranhas, fizera com que D. Henrique, entrando de repente em Portugal, tomasse Almeida, Pinhel, Linhares, Celorico e Vizeu, atravessasse a Beira, offerecesse proximo a Santarem batalha a el-rei D. Fernando, que este não ousou acceitar, e cercasse e destruisse na sua{60}melhor parte a capital do reino, realisando assim os calculos de fria e paciente vingança, que o instincto de tigre ensinára a D. Leonor pelas affrontas ahi recebidas. Finalmente a influencia irresistivel da rainha no espirito fraco do soberano conservára na côrte só aquelles d'entre os nobres, que por sympathia, por gratidão, por temor, por intuitos interesseiros ou por ligações de parentesco se mostravam inclinados á nova ordem de cousas, e substituira á severidade dos antigos tempos o brilho e a devassidão de uma côrte voluptuaria.Apesar de tudo, porém, no regaço da opulencia e do poder, essa mulher, ora hypocrita e vil, ora insolente e orgulhosa, receiava a cada instante ver derrubado o edificio da sua fortuna, cimentado com o sangue de tantas victimas. Quando a vida lhe sorria sómente{61}esperanças e venturas, parecia que descortinava no horisonte a victoria definitiva dos adversarios, e acaso se lembraria de que semeára odios na terra, e de que ainda não colhêra o fructo.Entre os nobres que mais temia contavam-se os filhos de D. Ignez de Castro. D. Diniz, o filho predilecto do rei justiceiro, achava-se em Castella, e era odiado pelo povo que aos seus conselhos attribuia a invasão de D. Henrique em Portugal. D. João, todavia, era geralmente bem quisto, e no caso de fallecer o monarcha, podia ser um emulo poderoso contra os direitos da filha de D. Leonor. Demais, levado por amor que reputava sincero, e que talvez então o fosse, o infante casára clandestinamente com D. Maria Telles, a qual, apesar de não ter já o viço da primavera da{62}vida, conservava ainda a flor e a graça de uma formosura rica de seiva, pura nas fórmas, e dotada do enlevo que mais prende e mais seduz, o de uma alma cheia de bondade e affecto.Irmã da rainha e viuva de Alvaro Dias de Sousa, fidalgo illustre e de linhagem real, D. Maria era respeitada pela severa virtude do seu caracter, e querida pelas mercês que fazia, para as quaes lhe subministravam fartos meios as rendas das suas muitas propriedades, e as do mestrado de Christo, que lhe fôra dado para o filho, e que em grande parte usufruia. Vendo-a, e accendendo-se-lhe a imaginação com essas mil seducções, concedidas pela natureza ao sexo fragil, para que não haja alma que se lhe não franqueie, ousára o infante confessar-lhe o seu amor, e como a{63}bella viuva, entre indignada e piedosa, lhe respondesse que de reis tambem vinha ella, e que não era dama que se sacrificasse aos devaneios ephemeros de um capricho, crescêra com os rigores o affecto, e D. João recebêra-a por mulher, celebrando um desses casamentos clandestinos, vulgares na epocha que tentâmos descrever, epocha em que a hypocrisia estava já longe de ser tão rara como geralmente se cuida, posto que as paixões ainda se mostrassem muitas vezes grosseiras, impetuosas, indomitas.Chegada a noticia ao conhecimento da rainha, esta em vez de se lisongear com tal consorcio, que lhe podia servir de esteio na situação a que se tinha elevado, julgou-o contrario aos planos que formára para collocar na cabeça da filha a corôa de D. Fernando, e desde logo a morte da irmã foi resolvida.{64}N'aquelle peito de marmore só existia um sentimento sancto e suave, o amor materno; e esse mesmo affecto apenas lhe inspirou o desenho de novos crimes. Como conseguir, porém, sacrificar a irmã, e desfazer ao mesmo tempo o favor popular de que D. João já gosava pelo genio aventuroso e esforçado? Soprando na alma d'este as duas paixões mais ferozes do coração humano, a ambição e o ciume.N'uma conferencia com o infante communicou-lhe João Affonso Tello, irmão da rainha e inteiramente dedicado aos seus interesses, que esta desejára a sua alliança com a princeza Beatriz, e que se o casamento d'elle infante não tivesse vindo destruir designios e projectos de longo tempo affagados, a preferiria muito á do duque de Benavente, principe de origem{65}castelhana, odiosa por em quanto aos portuguezes, em cuja memoria não se tinham desvanecido antigas inimisades, e cruentos e recentes aggravos.A perfida insinuação produziu o desejado exito. Dominado pela cubiça de succeder no throno depois da morte do irmão, o filho de Ignez de Castro só pensou nos meios de se livrar da que havia escolhido por mulher, mais n'um impeto de ardor brutal e ephemero, do que por esse affecto intenso e intimo, que se dilata com sereno contentamento até os extremos horisontes da vida. Acceitando como verdadeiras accusações injustissimas, ou, o que por ventura está mais proximo da verdade, creando elle proprio essas calumnias, partiu logo para Coimbra, onde então estava D. Maria Telles, e dirigindo-se a furto ás casas que esta habitava, mandou{66}arrombar as portas. Acordada de subito, a irmã de D. Leonor levantou-se assustada e afflicta, e envolvendo-se n'uma colcha que lhe cobria o leito, perguntou ao infante a causa d'aquelle procedimento que tanto a offendia. Na voz, no gesto, nas lagrimas da desditosa mulher traduzia-se a innocencia e a candura; no arrebatamento de pudor e de colera, que lhe abrasava as faces, havia um energico protesto contra a suspeita infame; mas D. João tornára-se inaccessivel á justiça e á piedade. Accusando-a em altas vozes de divulgar o segredo do seu casamento e de trahir a fé conjugal, arrancou-lhe a unica vestidura que lhe velava a formosa nudez, e com um bulhão, com que nas vesperas o presenteára o conde de Barcellos como que indicando-lhe o destino, a feriu no seio e no ventre. Um grito indizivel{67}de angustia partiu dos labios da pobre victima, que, cerrando para sempre os olhos enxutos, porque n'elles a afflicção estancára as lagrimas, teve apenas tempo para invocar com o ultimo suspiro a misericordia de Deus.Então em todos os rostos se viu pintado o espanto e o terror; a triste noticia percorreu logo a cidade, e no povo a irritação dos animos depressa chegou ao seu auge, mas o infante já havia sahido de Coimbra, e dentro de pouco tempo, tendo alcançado o perdão d'el-rei, era acolhido na côrte, como se não tivesse sido o assassino feroz de sua mulher. Entretanto só para arrependimento lhe serviu o crime commettido. Lançado o cadaver da irmã sobre a estrada por onde suppunha que a filha subiria ao throno, D. Leonor Telles nem tratou{68}de disfarçar quanto se inclinava de preferencia ao casamento de Beatriz com um principe castelhano; e o infante, perdida de todo a fé no amparo e protecção da côrte, fugiu para as provincias do norte, e d'ahi para Castella, onde acabou a vida no meio da saudade e dos remorsos, justa punição que se tornou ainda mais dura, quando depois da morte de D. Fernando conheceu que tinha destruido toda a possibilidade de succeder no throno, ao qual de certo o elevaria o povo se não fôra o seu crime.Nos livros dos chronistas e nos contos populares se perpetuou esta triste historia; e ainda hoje no antigo castello dos templarios, theatro do tragico successo, se mostra o quarto onde foi assassinada a boa e desditosa irmã da nossa Lucrecia Borgia.{69}
Em dous grandes cyclos póde naturalmente dividir-se a historia portugueza, cada um dos quaes abrange algumas epochas mais ou menos importantes; no primeiro a nação constitue-se, desenvolve-se, fortifica-se, estende o seu poder pelas terras de Africa, senhoreia ignotos mares, dicta leis ao Oriente, ganha vastos e productivos terrenos na America, abre caminho ao engrandecimento dos outros povos da Europa, e a final decae rapidamente{VI}até chegar á sepultura de 1580; no segundo resurge, reconquistando n'um dia a antiga independencia politica, e, procurando depois rehaver no decurso de seculos não o poderio de outras eras, mas os fóros de liberdade, e a robustez e firmeza, que são os meios mais poderosos com que as nações, assim como os individuos, podem luctar contra a adversidade e vencel-a.
Traçando este humilde esboço historico quiz o author rememorar alguns factos e algumas phases do primeiro cyclo, que julga mais fecundo em lição e exemplos; e publicando-o agora suppõe fazel-o em occasião opportuna. Quando, no meio das dissensões partidarias, dos erros politicos e das aberrações populares, nos fere os ouvidos a ameaça de que a nossa autonomia e independencia não podem durar muito, é justo e util buscar no estudo dos{VII}fastos nacionaes os titulos do nosso direito, a memoria do que fizemos, e por ventura nobres estimulos para que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem ao mundo que, se já não somos potencia maritima ou continental, pesando com decisiva força na balança dos acontecimentos politicos, queremos, todavia, e devemos ser respeitados pela sciencia, pelo trabalho, pela energia, pelo amor da liberdade, pela severidade dos costumes, unicas armas com que o espirito da nossa epocha ensina as nações civilisadas a combaterem n'uma lucta generosa.
Possa esta tentativa não ser de todo perdida, e servir ao menos de incentivo para que obreiros mais robustos levantem o monumento grandioso das tradições nacionaes.{VIII}
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Bem como a vida dos individuos a vida dos povos é dilatada ou curta. Assim muitas nações, que existiam robustas e altivas durante a edade média, annullaram-se ou desappareceram, absorvidas umas por estados mais poderosos, desmembradas outras pelas conveniencias politicas; e Portugal, apparentemente{10}debil na origem, mas que por milagres d'esforço e de perseverança chegou a constituir a nação mais forte e audaz da Europa, vive ainda, e encontrará a sua defensão em saberem seus filhos repellir, com energia, quaesquer suggestões traiçoeiras ou tentativas violentas contra a terra que livres herdaram, e onde livres querem morrer.
Qual tem sido, porém, a causa d'essa longa vida, d'esse vigor da juventude e da edade viril, d'essa tenacidade que se conserva ainda no seio da decrepidez? É o que procuraremos descobrir, examinando rapidamente a historia dos seus primeiros annos.
Logo que o imperio wisigodo se desmoronou ao embate impetuoso do fanatismo dos arabes, a reacção christã e europêa começou immediatamente. Desde a batalha do Chryssus até o{11}recontro de Cangas de Onis mediou curto espaço, mas tanto bastou para que os mussulmanos gastassem nas dissensões intestinas o provado valor, e para que os godos, retemperados pelo infortunio, recuperassem a ousadia e firmeza, que são as mais seguras armas dos povos ameaçados na sua existencia. O poderio christão foi, pois, crescendo de novo e prosperando, lenta mas persistentemente, e já, meado o seculo XI, Affonso VI, reinava sem resistencia nas Asturias, Galliza, Leão e Castella, e conquistava ou fazia tributarias as principaes cidades e provincias dos sarracenos da Peninsula.
Para as suas guerras brilhantes muitos cavalleiros francezes atravessaram os Pyrineos. Impellia-os a tendencia guerreira e aventurosa da epocha; animava-os a idéa religiosa, que attrahia a pelejar contra os infieis quantos homens{12}de fé viva tinha n'esse tempo a Europa; dava-lhes esforço, por ventura, a esperança de encontrarem fortuna n'um paiz onde, no tumultuar de incessantes combates, se offereciam frequentes conjuncturas para adquirir riqueza e gloria. Entre os estrangeiros mais notaveis vieram a Hespanha Raymundo, conde de Borgonha, e Henrique seu primo co-irmão. Ao primeiro deu Affonso VI em casamento sua filha D. Urraca, havida da rainha Constancia, encarregando-o ao mesmo tempo do governo da Galliza e da terra portugalense; a Henrique concedeu D. Thereza, sua filha bastarda e da nobre dama Ximena Muniones, entregando-lhe com esta alliança o governo do districto de Braga, como condado dependente de seu primo. Em breve, porém, todo o territorio desde as margens do Minho até o Tejo foi destroncado{13}definitivamente da Galliza, para constituir um vasto senhorio, regido pelo conde Henrique, e sujeito apenas á supremacia da corôa leoneza.
O illustre cavaleiro francez, que via realisados os seus designios ainda para além do que imaginára, applicou provavelmente então toda a actividade á guerra com os sarracenos, e posto que a viagem que emprehendeu á Syria nos primeiros mezes de 1103 devesse retardar a sua influencia e conquistas, é certo que já em 1106 havia concebido as idéas de engrandecimento e independencia, a que deveu acaso Portugal a sua existencia como nação. O pacto secreto celebrado entre elle e Raymundo para a repartição dos estados do sogro, alliança que a morte do conde de Galliza inutilisou; as sollicitações perante Affonso VI moribundo;{14}e finalmente o modo por que soube valer-se das discordias civis, a que o fallecimento do rei de Leão deu origem, ligando-se ora com D. Urraca, ora com o monarcha de Aragão, e ainda com os fidalgos de Galliza, traduzem um pensamento unico:—converter o senhorio, que lhe fôra concedido para reger como simples consul, em nucleo de um poderoso estado ao occidente da Europa. E no meio das tempestades politicas, que varreram o solo ensanguentado da Peninsula durante o governo de D. Urraca, teria decerto satisfeito essa arrojada ambição, se a morte não viesse ceifar-lhe os designios junto dos muros de Astorga.
Fallecido Henrique (1 de maio de 1114) e contando o infante Affonso Henriques apenas tres annos de edade, tomou D. Thereza o governo, e{15}com elle o encargo de continuar a obra politica do marido. Apresentava-se ardua e arriscada a empreza, mas a filha de Affonso VI não desdizia das nobres tradições da sua raça. A leôa defendeu o antro com o ardor e constancia de que seu fero senhor lhe deixára assombrosos exemplos. Cercada dos seus vassallos, identificada com certo instincto de nacionalidade, que já então animava todos, ambiciosa, astuta, energica e tenaz, luctou durante quatorze annos para conservar intacta a independencia da terra que lhe chamava rainha. Submettendo-se ao rigor das circumstancias, inclinou por vezes o collo á soberania da côrte leoneza; mas não hesitando em quebrar solemnes promessas, o que aliás era frequente n'esses tempos de bruteza, e ainda hoje não é raro a despeito da civilisação, recusou sempre{16}a obediencia quando julgou possivel resistir. Seguindo, emfim, o caminho traçado pelo conde Henrique, alimentou habilmente rivalidades e rancores entre sua irmã D. Urraca, e o cubiçoso e soberbo bispo de Compostella, e não obstante os damnos e calamidades provenientes das invasões de christãos e sarracenos, augmentou a extensão dos seus dominios ao oriente e ao norte, dando-lhes ao mesmo tempo incremento em população, em riquezas e em forças militares.
A affeição intima a Fernando Peres, um dos mais illustres ricos-homens da Galliza, quebrou-lhe nos ultimos annos a cadeia brilhante de uma vida aventurosa e feliz. Esquecida de que o terrivel neto de Roberto de Borgonha deixára no mundo um successor do seu genio, a formosa rainha entregára ao amante a administração dos{17}districtos do Porto e Coimbra, e é de presumir que lhe outorgasse tambem a supremacia sobre os outros condes ou tenentes do paiz. Nenhum acto indica, talvez, que a intervenção de Fernando Peres fosse desleal ou funesta para a independencia da provincia, que procurava desmembrar-se dos vastos estados leonezes; mas a fortuna do valido excitára desde o principio o descontentamento e ciume dos barões portuguezes, e estes, aproveitando o enthusiasmo de nacionalidade já então radicado no povo, e a sede de poder que devorava Affonso Henriques, lançaram entre a mãe e o filho o facho da discordia, e accenderam a guerra civil, quer conforme todos os indicios, começou em 1127, para se decidir, decorrido um anno, na batalha do campo de S. Mamede, junto de Guimarães, onde o exercito de D. Thereza{18}foi desbaratado, e ella ficou prisioneira.
Assumindo o poder que tanto ambicionára, o moço principe não se limitou a recusar obediencia ao rei de Leão, cujo dominio toda a Hespanha christã e ainda parte da França mais ou menos reconheciam; ousou invadir por vezes as provincias limitrophes, fundando-se, por ventura, nas convenções feitas com seu pae, e sobretudo na posse que D. Thereza tivera dos districtos de Limia e Tuy. No meio de graves difficuldades, Affonso VII, que por morte de D. Urraca empunhára irrevocavelmente o sceptro de Leão e Castella, não poude a principio impedir essas correrias, nem procurar submetter seu primo; mas em breve, favorecido pela fortuna, aprestou um numeroso exercito, e dirigindo-se aos territorios de Galliza, avassallados{19}pelos portuguezes, repelliu de toda a provincia os invasores. Entretanto, apesar das vantagens obtidas, não se attreveu a proseguir na aggressão, e Portugal, que n'aquelle tempo abrangia apenas metade do actual territorio, conservou sempre hasteado o pendão da independencia.
Assim duraram as cousas até que o anno de 1137 viu de novo rebentar a guerra. Seguindo a direcção do enthusiasmo popular e a do seu genio inquieto e bellicoso, Affonso Henriques alliou-se com os condes Gomes Nunes e Rodrigo Peres e com o monarcha de Navarra, e em quanto este, quebrando a especie de vassallagem que prestára, rompia as hostilidades contra Affonso VII, o principe portuguez caminhava de victoria em victoria, sujeitava os districtos meridionaes da Galliza, desbaratava os mais illustres{20}capitães inimigos, e iria ávante em novas conquistas, se a tomada de Leiria pelos sarracenos e as suas tragicas consequencias não lhe attrahissem a attenção para a defensa dos proprios estados.
Depois de asserenada a tempestade, que expunha parte das fronteiras ás irrupções dos arabes, Affonso Henriques voltou a Galliza, onde já estava tambem o rei de Leão; mas avistando-se em Tuy, os dous primos celebraram pazes, e como de accordo volveram os olhos para mais nobre empreza:—o proseguir n'essa longa, patriotica e tenaz cruzada da Peninsula contra os mussulmanos, lucta encetada havia mais de quatro seculos, e cujas probabilidades de completo triumpho já claramente se mostravam favoraveis áquelle dos dous contendores, que, combatendo pelo christianismo, tinha{21}por si a força e o enthusiasmo, fructo de convicções profundas e da certeza moral do dever.
A guerra contra os infieis foi favoravel ao filho do conde Henrique.Penetrando até o coração do Al-Gharb, onde nunca desde a invasão dos arabes os christãos haviam chegado, ganhou a batalha de Ourique, e saldou assim com os sarracenos os ultimos damnos recebidos. A tradição engrandeceu a pouco e pouco o facto, exaggerando o numero dos vencidos, inventando apparições e milagres, e tecendo uma notavel lenda, que as regras da boa critica historica irrefutavelmente condemnam. Se as circumstancias, porém, são fabulosas, nem por isso foram pouco importantes os resultados moraes d'essa batalha, que, habituando os portuguezes a affrontar em campanha os agarenos, lhes deu{22}animo e vigor para futuras conquistas.
Terminada esta empreza, volveu o intrepido principe á lucta com os leonezes. Apoz varios successos, em que a fortuna das armas ora pendeu para Affonso VII, ora para o infante de Portugal, o grosso dos dous exercitos avistou-se perto de Valdevez; mas o captiveiro dos mais notaveis fidalgos de Leão, que em recontros singulares foram vencidos, a conhecida ousadia dos cavalleiros. e homens d'armas portuguezes, e emfim a vantajosa posição que estes occupavam, tudo isso e talvez algumas outras causas, que as memorias do tempo nos não dizem, constrangeram o orgulhoso filho de D. Urraca a sollicitar a paz. Ajustaram-se então tregoas, deu-se liberdade aos prisioneiros, restituiram-se os castellos reciprocamente conquistados, e{23}os dous principes abraçaram-se no campo de batalha.
Estes acontecimentos converteram a separação de Portugal em facto consummado e completo. Tomando o titulo de rei, que havia muitos annos recebia já dos seus subditos, Affonso Henriques realisou, em fim, o altivo pensamento concebido por seu pae, desenvolvido largamente por D. Thereza, e abraçado com ardor pelos barões portuguezes; e quando em 1143 os dous primos assentaram em Samora uma concordia definitiva, o imperador das Hespanhas ou de toda a Hespanha, como se intitulava nos seus diplomas Affonso VII, não poude escusar reconhecer a realeza do principe que pozera magestoso remate no edificio da independencia portugueza.
Prevendo, todavia, futuras disputas sobre a legitimidade d'esse facto, que{24}aliás nem as armas nem os tractados tinham conseguido impedir, Affonso I resolveu collocar o throno á sombra do solio pontificio. N'aquelles rudes tempos, em que a exaltação das crenças se associava intimamente com a ferocidade e soltura dos costumes, o poder dos papas tornára-se uma especie de dictadura, que todos os monarchas christãos directa ou indirectamente reconheciam; e a influencia da côrte de Roma era a espada suspensa por um fio sobre os thronos mais firmes, e ao mesmo tempo como que a columna de fogo, que dirigia as dynastias recentes na carreira das suas ambições. Acceitando as doctrinas theocraticas então por assim dizer incontestadas, e aproveitando-as para o intento quasi exclusivo a que se votára, o novo soberano fez homenagem do reino ao summo pontifice, promettendo{25}obediencia a S. Pedro, sujeição nominal mais supportavel do que o preito ao imperador; e depois de longas evasivas e ambiguidades, vicio que já então caracterisava a politica da sé apostolica, alcançou a confirmação da dignidade real por bulla de Alexandre III de 23 de maio de 1179.
A esse tempo havia já o monarcha comprado o titulo por bem caro preço em quarenta annos de lides contra os infieis. Depois da larga campanha com o imperio leonez os portuguezes tinham escolhido para theatro das suas emprezas os territorios sarracenos; á lucta de desmembração succedêra a de assimilação; e as conquistas de Santarem, Lisboa, Cintra, Almada e Palmella em 1147, as de Alcacer do Sal e de Beja em 1158 e 1162, e finalmente as de Evora, Serpa, Moura e Aljustrel em 1166 haviam constituido{26}a nacionalidade portugueza com a seiva e robustez bastantes para resistir ás procellas que agitavam a Peninsula.
Taes são os lineamentos capitaes da historia da fundação da monarchia. Julgando imparcialmente os homens e as cousas, não hesitâmos em affirmar que o esforço dos portuguezes neste longo periodo é uma das manifestações mais solemnes dessa tenacidade heroica, que nem se inebria com o triumpho nem desanima com os revezes; desse affecto generoso e altivo, que nos leva a luctar com a fome, com a sede, com a morte para defender a terra que cobre as cinzas de nossos paes; dessa abnegação nobilissima, que no meio da rudeza da epocha constitue gloria pura e immarcessivel. Volvamos, pois, os olhos para as velhas glorias da patria. O tracto dos que foram grandes e fortes{27}livrar-nos-ha, talvez, do lethargo febril que nos consome, revocar-nos-ha, por ventura, á energia social e aos vividos affectos de nacionalidade. No meio da indifferença ou do terror, que cérca a geração actual, ouvem-se como que umas melodias suaves que vem consolar-nos dos males que nos affligem, e dar-nos animo e ousadia para arrostar as tempestades que se enxergam no futuro. É o cantico de recordações que nos legou o passado, recordações tanto mais fecundas, quanto nos alimentam a esperança de que este paiz tem ainda nobres destinos a cumprir antes de se envolver na bandeira do fundador da monarchia, e de ir, emfim, occupar no cemiterio da historia o largo jazigo das nações que morrem.{28}
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Era deveras tumultuaria a situação do reino na epocha que pretendemos esboçar. Bandos de salteadores, para quem o viver era acaso e a morte espectaculo quotidiano, assolavam os campos, infestavam as povoações, e refugiando-se nos logares do asylo zombavam do castigo; os officiaes publicos, attentos principalmente a saciar a propria crueldade e cubiça, commettiam em nome do fisco toda a casta de prepotencias;{30}e a propriedade, invadida e devastada, em vão pedia segurança e invocava as leis. Na côrte o desbarate das rendas publicas tornava desastrado e temeroso o estado da fazenda, os ministros succediam-se rapidamente, e as luctas de valimento multiplicavam-se, não se astringindo á guerra de tenebrosos enredos, mas semeando cruentas discordias, que depois encontravam nos solares, nos mosteiros, nas municipalidades,nos herdamentos, nas maladias, nos páramosterreno fertil para germinarem, crescerem e fructificarem. A anarchia, emfim, era por todo o paiz como os fogos de terreno vulcanico; ao passo que n'uma parte se extinguia o incendio, rebentavam em outras turbilhões de chammas.
Dotado de indole generosa, D. Sancho II procurára ao principio attrahir{31}todos os animos turbulentos e ambiciosos para um pensamento unico, collocando-se á frente dos barões, dos cavalleiros nobres, dos homens d'armas, da cavallaria e besteiros dos concelhos para continuar a guerra de crença e de raça, no seio da qual a nação surgira, e que parecia ser para ella um dos primeiros elementos de vitalidade e robustez. Nos campos de batalha, sobresahindo entre os guerreiros mais esforçados, mostrára-se digno neto do fundador da monarchia, conquistára muitas povoações mussulmanas de grande monta, taes como Elvas, Serpa, Jurumenha, Aljustrel, Arronches, Mertola, Ayamonte e Tavira, e finalmente dera á auctoridade real o prestigio das victorias; mas as desordens do governo interno invalidaram em grande parte o resultado das batalhas com que se dilatavam as fronteiras{32}pelos dominios sarracenos. Depois o principe, que durante largo espaço quasi nunca descançára a espada de conquistador, e que ao mesmo tempo pretendêra pôr em pratica as severas leis de seu pae com relação ao clero, deixára esmorecer o esplendor da gloria em annos de indolente repouso; e os prelados portuguezes, aproveitando os descontentamentos e perturbações que enfraqueciam a acção da corôa, começaram a trabalhar com fundada esperança n'essa longa têa de enredos, de corrupção e de hypocrisia, cujo remate tinha de ser a deposição do monarcha.
Varias circumstancias, dentro e fóra do paiz, favoreciam mais ou menos os designios facciosos. Consistia a principal na situação em que estava o papa, cuja intervenção era indispensavel, não obstante já ter Roma perdido,{33}pela dobrez e perfidia da sua politica, grande parte da força immensa que havia conseguido com as virtudes austeras dos primitivos padres. A Gregorio IX succedêra na thiara Innocencio IV, intelligencia vasta e energica, mas irascivel, ambiciosa e indomita, que logo mostrára querer sustentar com vigor as antigas doutrinas de Gregorio VII e de Innocencio III. Era o novo papa affeiçoado a Frederico II, imperador da Allemanha, mas este só viu no exito da eleição a perda de um amigo, e não teve esperança de que terminassem as luctas implacaveis e freneticas, que, accendendo a irritação em todos os animos, dividiam o sacerdocio e a realeza. De feito, depois de muitas negociações e tumultos, Innocencio, perseguido e expulso de Italia pelo imperador, e repellido de França por S. Luiz, de Hespanha pelo{34}rei de Aragão, de Inglaterra por Henrique III,dirigiu-se a Lyão, e ahi tractou logo de reunir um concilio para depôr Frederico. No seu animo deviam, pois, causar profunda impressão as amargas queixas dos prelados portuguezes, e movel-o a desthronisar o principe que ousava resistir ao poder ecclesiastico, esquecendo-se não só de que a sociedade civil era apenas imagem grosseira da sociedade catholica, mas até do signal de vassallagem, que outr'ora se offerecêra á sé apostolica, e que tornava o paiz de certo modo tributario do solio pontificio.
As circumstancias internas favoreciam tambem a empreza. Os interesses oppostos, os ciumes do poder, os odios que resultavam da vehemencia das paixões, a cubiça, a soltura de costumes, o amor de licenciosa independencia, todas as desordens communs{35}em tempos de ignorancia e fereza, achavam então ensejo favoravel para se patentearem com audacia; muitos fidalgos, além dos que haviam seguido a França o conde de Bolonha, eram adversos a D. Sancho; e o povo, offendido pelo esforço brutal com que os nobres exerciam impunes tanta oppressão, quanta lhe permittiam a extensão dos seus dominios e a fortaleza dos seus castellos, parecia indifferente á sorte do monarcha. Finalmente D. Sancho, impellido pela mais energica das paixões humanas, o amor contrariado e impetuoso, casára com a viuva de Alvaro Peres de Castro, D. Mecia Lopez, filha do senhor de Biscaya, Lopo Dias de Haro, e de D. Urraca, bastarda de Affonso IX de Leão; e esse consorcio augmentára ainda a desorganisação interna do reino, pela desigualdade da alliança, e pelas emulações{36}e despeitos que desde logo suscitára.
Em tal conjunctura só faltava aos conspiradores encontrar um chefe, capaz de substituir no throno o desditoso monarcha. D. Affonso, irmão de D. Sancho, e conde de Bolonha pelo seu casamento com a condessa Mathilde, foi o indigitado. Talento militar e politico, fôra elle um dos que mais se tinham distinguido na famosa batalha de Saintes, dada por S. Luiz a Henrique III de Inglaterra; ambição energica e tenaz, podia pela nobreza do nascimento, pela indole altiva e valorosa, e pela influencia dos fidalgos que de Portugal o haviam acompanhado, reunir em volta de si todos os interesses feridos, e ser efficaz instrumento do trabalho dos conjurados.
Julgando, portanto, o terreno preparado, e tendo a quasi certeza de{37}realisar amplamente esperanças por muito tempo affagadas, partiram para Lyão os prelados do Porto e de Coimbra e outros descontentes a reunir-se com o arcebispo de Braga, e ahi se queixaram ao pontifice, attribuindo a D. Sancho o estado lastimoso a que havia chegado o reino. Acolheu Innocencio de bom grado os prelados portuguezes, predisposto já em seu favor pelas negociações anteriores, expoz o assumpto ao concilio, e na semana immediata ao encerramento d'essa notavel assembléa, expediu aos barões, concelhos, cavalleiros e povo de Portugal uma bulla, declarando os varios delictos praticados por D. Sancho, e nomeando para a regencia do reino o conde de Bolonha.
Escudado com as comminações do pontifice, e depois de ter assignado as vergonhosas promessas de subserviencia{38}ao poder absoluto, illimitado, omnimodo do clero, promessas que só esqueceu quando viu que o podia fazer sem perigo, partiu D. Affonso para Portugal, onde de feito chegou nos principios de 1246. Não alcançou, porém, immediatamente a realisação dos seus desejos. Muitas povoações importantes sustentaram seu preito ao monarcha, muitos cavalleiros-villãos e besteiros dos municipios resistiram á usurpação, e entre os proprios membros do clero encontrou D. Sancho quem não fraqueasse ante as poderosas armas do conde de Bolonha, e o stygma espiritual das censuras.
Teve, pois, o infante de recorrer, por um lado aos assedios e batalhas, por outro ás dadivas, ás promessas, ás seducções de toda a especie; e se em muitos cavalleiros e alcaides de castellos os calculos interesseiros, as{39}ligações de parentesco, a recordação de antigos aggravos tomaram o passo sem escrupulo ás mais justas considerações, alguns houve tambem que pelo nobre procedimento constituem exemplos memoraveis de lealdade e energia. A defensa de Coimbra por Martim de Freitas, em que este teve de vencer a audacia e vantagem dos sitiadores, e o desalento e desespero da propria guarnição, abatida pelas fadigas, pela fome, pela sede, e acaso pelos terrores que gerára o anathema pontificio, é d'aquelles grandes factos que symbolisam uma epocha; mas quando a tradição não referisse outros, ou quando a todos faltassem bons testemunhos historicos, a diuturnidade da contenda, em tempo que não existiam exercitos permanentes, provaria por si só o denodo e constancia dos fieis partidarios de D. Sancho.{40}
Apesar de tudo, porém, a fortuna das armas pendeu para o lado do infante, e o infeliz monarcha, depois de se ter defendido com a coragem que sempre mostrára no fervor dos combates, teve, emfim, de soccorrer-se á alliança com Castella. Um corpo de tropas castelhanas, capitaneado pelo valente conquistador de Murcia, o filho primogenito de Fernando III, e de que tambem fazia parte Diogo Lopez de Haro, irmão de D. Mecia, veiu dar novo alimento á guerra, que se protrahiu até os fins de 1247. Chegou já tarde, comtudo, esse soccorro. A ambição e astucia de D. Affonso, juntas a valor intrepido, tinham aproveitado todos os recursos para se firmar em bases solidas o novo poder, e os intuitos generosos, tanto da invasão, como das diligencias perante a curia romana, a que ainda recorreu o principe{41}castelhano, foram completamente mallogrados.
Vergado o animo pela desdita, D. Sancho preferiu o desterro a viver captivo na patria, debaixo do jugo do irmão, e escolheu Toledo para residir. O exilio veiu então completar-lhe a escola do infortunio. O orgulho offendido, o desejo de vingança, a compaixão pelas desgraças da patria, os remorsos dos erros commettidos, as vãs esperanças, emfim, que nunca abandonam o desgraçado, rebatiam-se, travavam-se, recuavam, succediam-se consumindo-lhe o coração. As memorias saudosas da terra de que fôra senhor, gravadas como sêllo de amargura no intimo d'alma, tornavam-lhe detestavel o presente pelo contraste do passado. Capitão victorioso em muitos combates, açoute e terror dos sarracenos, tinha-se engrandecido com gloriosos{42}feitos de armas no conceito de amigos e de inimigos, de naturaes e de estranhos; depois conhecêra por dolorosa experiencia as intrigas da politica, as conspirações dos partidos, as ingratidões e perfidias dos validos, o ciume e rancor dos despeitados; e a final via-se deshonrado por uma sentença calumniosa e infamante, despresivel para o povo que só applaude o triumpho, e podendo a custo desafogar em actos de piedade e penitencia a dôr causada na sua alma pelos vicios, pelas torpezas, pelas traições, pelas negruras d'aquelles de quem mais devia esperar lealdade e verdadeiro affecto.
Na solidão irremediavel do desterro abreviou-se-lhe a existencia, a fronte curvou-se para a terra, e antes de passar um anno depois de foragido (janeiro de 1248) falleceu em Toledo,{43}pedindo em testamento que o sepultassem no mosteiro de Alcobaça, onde jaziam as cinzas paternas. Nem essa ultima vontade, porém, lhe foi cumprida. Ha infortunios que perseguem o homem ainda além da campa.{44}
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Reinava em Portugal D. Affonso IV, e em Castella seu genro Affonso XI. Protrahia-se com varia fortuna a guerra entre as duas nações, porque os laços de familia não tinham podido suffocar as discordias entre os principes, quando o rei de Fez,Aly-Abul-Hassan, preparando-se para invadir a Hespanha, reuniu um dos mais famosos exercitos, que atravessaram o Estreito emquanto o crescente dominou{46}na Peninsula. Apparelhado tudo para a expedição, começou o embarque dos sarracenos, e no decurso de cinco mezes quasi não se passou um dia, sem que as galés muslemicas viessem lançar nos portos de Gibraltar e Algeziras novos esquadrões de soldados. Reuniram-se a estes as tropas do rei de Granada, Jusef-ben-Ismail, e sitiou-se logo Tarifa, povoação importante e excellente ponto estrategico para proseguir a invasão e conquista.
Defendia-se energicamente a guarnição da fortaleza. A presença da armada christã, que fundeára proximo á cidade, impedia de algum modo o transporte de viveres e munições para o campo dos mussulmanos; e dava ao mesmo tempo aos cercados a esperança de soccorro ou de refugio. Em breve, porém, uma terrivel borrasca destruiu-a completamente, e tudo então{47}pareceu annunciar que ia bater a derradeira hora do dominio da cruz n'aquellas terras, regadas já com o sangue de tantos martyres.
Em presença do perigo, o orgulhoso Affonso XI tractou de celebrar pazes com o sogro e de lhe sollicitar a alliança, a fim de resistir á procella que ameaçava rebentar sobre os seus estados. Cedendo á força das circumstancias, e humilhando-se perante aquella que tanto offendêra e ainda odiava, enviou sua mulher a el-rei de Portugal, rogando-lhe prompto e poderoso auxilio; e depois veiu elle proprio pedil-o, ponderando a multidão dos barbaros, o aperto do sitio em que estava Tarifa, o risco com que se defendiam os cercados, e o muito que importava a brevidade de soccorro, da qual dependia talvez a sorte de toda a Hespanha. Satisfez D. Affonso IV a instante{48}supplica, e dentro de breve tempo partia para Sevilha, á frente de uma lustrosa companhia de gente escolhida, posto que pouco numerosa, adiantando-se ao grosso do exercito, que tinha de marchar mais lentamente por causa dos petrechos de guerra e provimentos.
Juntos os dous monarchas, convocaram-se os prelados, os barões, os mestres das ordens militares, os ricos homens, e entre todos se disputou a conveniencia de soccorrer Tarifa. O susto fez ahi seu officio, e muitos aconselharam se entregasse a praça aos mouros como condição de paz, evitando-se uma lucta, que n'aquella conjunctura só por milagre não seria funesta. Venceu, porém, o voto contrario, que foi o do rei portuguez e o dos seus vassallos, e depressa o enthusiasmo substituiu pela confiança o{49}temor. Achavam-se ali reunidos os principaes cavalleiros das duas nações rivaes; tinham de ser julgados uns pelos outros; tinham de se julgar mutuamente; e tanto bastou para que a emulação d'esforço se accendesse em todas as veias, exaltasse todos os animos, dominasse todas as vontades. Resolvida, pois, a guerra, dirigiram-se sobre Tarifa os dous monarchas, fazendo pequenas jornadas por esperarem as tropas que de instante a instante engrossavam o exercito; e no dia 27 de outubro, ao cahir da tarde, avistaram, emfim, a multidão dos infieis, cujas tendas, derramadas pelas raizes dos montes e pelos cimos dos outeiros, formavam como que uma cidade vastissima, cercada por selva de lanças.
Logo que nas asperas cumiadas dePeña del Ciervofluctuaram os pendões de Castella e de Portugal, juntos ao{50}estandarte da cruzada, as tropas mussulmanas, que se calculavam em sessenta mil homens de cavallaria e quatrocentos mil infantes, unindo-se com a rapidez do relampago e deixando o recinto das tendas, arrojaram-se para as margens do Salado, e ahi aguardaram firmes o acommettimento dos inimigos. A noite, porém, aproximára-se, e os principes christãos não quizeram no meio das trevas começar a terrivel batalha, em que a fortuna das armas tinha de resolver se os filhos da Peninsula deviam de novo curvar-se ao jugo dos africanos.
No dia seguinte já o sol ia alto, quando o som das trombetas, dos tambores, das charamellas, dos anafis, dos atabales deu o signal de combate. O exercito portuguez, entoando o psalmoExurgat Deus, arremeça-se pela planicie, transpõe o rio por entre milhares{51}de frechas, que sibilam nos ares como saraiva espessa, e encontrando-se com a hoste do rei de Granada trava uma lucta implacavel, frenetica, vertiginosa. No meio da ebriedade do sangue, baralham-se amigos e inimigos; as espadas faiscam nas espadas; as lanças, topando em cheio nos escudos, nos capacetes, nos arnezes dão um som profundo, que se mistura com o estalar d'aquellas que voam despedaçadas; muitos ginetes correm á solta, nitrindo d'espanto e de terror; muitos cavalleiros pelejam a pé; e os elmos e cervilheiras rolam pelo chão fendidos e amolgados. A final os mussulmanos vacillam, e as suas fileiras, vergadas em semicirculos, recuam ante a gente portugueza, ondeam, espalham-se e abandonam o campo, procurando na fuga a salvação. Por outro lado as tropas castelhanas, capitaneadas{52}pelo principe de Vilhena D. João Manuel, dirigem-se contra o exercito de Abul-Hassan, e depois de renhida peleja conseguem romper aquellas grossas muralhas de homens, affoutos e impavidos no primeiro conflicto, mas incapazes de resistir tenazmente ao embate incessante dos cavalleiros christãos, que, poucos mas bem armados, investem como leões onde mais acceso vae o travar da batalha. Não ignoram elles que da sua audacia depende nessa hora talvez a sorte e a gloria da patria. Emfim a guarnição de Tarifa, sahindo da fortaleza, apodera-se dos arrayaes mouriscos; fere, mata, vence quasi sem combate os que encontra; e derrama assim a ruina entre os inimigos, que, no meio de completa anarchia, chegam a pelejar uns contra os outros, ou expiram sem defensa nem gloria debaixo{53}dos pés dos cavallos e dos troços de infanteria.
Então o terror consumma o desbarato; e, pela volta da tarde, apenas do brilhante exercito dos mouros de Africa e de Hespanha alguns milhares de fugitivos, acompanhando os reis de Fez e de Granada, correm desalentados diante dos cavalleiros christãos, que os perseguem incançaveis até perto de Algeziras.
Grande numero de mussulmanos ficaram captivos, e foi immenso o despojo em ouro, prata, armas e preciosidades de toda a casta. Convidado a escolher d'entre essas riquezas a parte que lhe aprouvesse, D. Affonso IV acceitou sómente alguns alfanges e bandeiras, e um clarim que pertencêra ao rei de Granada. Os despojos, porém, daquella famosa batalha constituiam o preço de menos valia para o{54}monarcha portuguez. Mais graves eram, sem duvida, os resultados de ordem moral. Sahindo victorioso da empreza em que nobremente se empenhára, D. Affonso IV cingira-se ás tradições, por tanto tempo esquecidas, das instituições wisigothicas, que consideravam como dever impreterivel do principe estar sempre á frente dos seus subditos, na hora dos grandes perigos e das grandes glorias; renovára o brado de guerra contra os infieis, que parecia ter de todo emmudecido desde a conquista do Algarve; patenteára ao rei de Castella qual era ainda a ousadia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes; e sobretudo livrára a Peninsula da invasão dos africanos, e dera a estes uma aspera demonstração de que não era empreza facil, nem talvez possivel, subjugar de novo a Hespanha e o christianismo.{55}
De todas as obras da creação é a mulher aquella em que mais profundamente está gravado o verbo indefectivel e supremo da providencia omnipotente. O seu nome resoa-nos como o de um ente predestinado para nos servir de guia e amparo nos trabalhos e alegrias da vida; as suas graças infiltram-se por cada sentido, e são para cada desventura um balsamo, para cada descrença um milagre;{56}o gesto, a voz, os meneios, o volver de olhos, a ternura do sorrir, o perfume e brilhantismo dos cabellos, tudo tem encanto indecifravel, que domina as vontades mais isentas; mas no coração principalmente é que ha thesouros inexhauriveis de generosidade e innocencia, e uma suave melancolia, que parece não ter objecto, e que só é por ventura a saudade incerta mas indelevel da sua origem divina. No meio das tempestades da existencia acalma-nos as aspirações insensatas, as paixões fervidas, as esperanças mesquinhas e heterogeneas, e consegue salvar-nos de nós mesmos, esquecendo resignada as proprias dores, e exaltando-nos pela ternura e pela constancia ás regiões ideaes e bem-aventuradas do puro sentimento. Ás vezes, porém, anjo despenhado, a mulher{57}arrasta-nos comsigo; devora-nos, entre fingidas lagrimas e seductoras caricias, os annos, a energia, os nobres affectos, os sentimentos honestos, as noções da verdade e do dever; suscita-nos, desenvolve-nos, completa-nos as más paixões e os ruins instinctos, e faz com que aquelle, a quem um louco amor fascina, desça ao infimo grau da abjecção. Uma dessas mulheres, excepções que infelizmente não são raras, foi decerto Leonor Telles, de cuja terrivel historia, longa iliada de crimes, procuraremos narrar um episodio.
A affeição cega de D. Fernando havia já annos que tinha satisfeito as ambições da mulher de João Lourenço da Cunha, alma soberba e ousada, cubiçosa e perfida, que não se contentára de vêr a seus pés, desvairado pela paixão, o moço e generoso monarcha.{58}A corôa real, por tantas vezes divisada em sonhos, sentia-a, emfim, segura na formosa fronte; os ultrages, que recebêra durante a lucta, lavára-os largamente com o sangue dos homens que mais odiava; e perante o seu olhar, sublime de altivez e energia, não havia cabeça que se não curvasse, nem coração que não estremecesse.
Fôra-lhe para isso preciso supplantar considerações sagradas; vencer obstaculos poderosos; derramar pelo reino a devastação e a miseria; aviltar o homem que tudo lhe sacrificára, riquezas, poderio, gloria, a honra propria e a do nome herdado; mas que importam desgraças alheias a um animo profundamente egoista? As balizas, que separam a iniquidade e a justiça, o crime e a virtude, a abominação e a sanctidade, desapparecem aos olhos{59}do espirito reconcentrado n'um pensamento unico, e contra uma vontade assim inabalavel póde haver difficuldades, mas não ha impossiveis. Um processo de divorcio, julgado por juizes affectos a D. Leonor, livrára-a de seu primeiro marido, que atterrado fugira da patria. O repudio da infante de Castella, cujo casamento fôra contractado em celebração de pazes, annullára o outro obstaculo. A alliança com o duque de Lencastre, tractado impolitico e perfido, que só póde disculpar-se por ser obra de animo turbado por suggestões estranhas, fizera com que D. Henrique, entrando de repente em Portugal, tomasse Almeida, Pinhel, Linhares, Celorico e Vizeu, atravessasse a Beira, offerecesse proximo a Santarem batalha a el-rei D. Fernando, que este não ousou acceitar, e cercasse e destruisse na sua{60}melhor parte a capital do reino, realisando assim os calculos de fria e paciente vingança, que o instincto de tigre ensinára a D. Leonor pelas affrontas ahi recebidas. Finalmente a influencia irresistivel da rainha no espirito fraco do soberano conservára na côrte só aquelles d'entre os nobres, que por sympathia, por gratidão, por temor, por intuitos interesseiros ou por ligações de parentesco se mostravam inclinados á nova ordem de cousas, e substituira á severidade dos antigos tempos o brilho e a devassidão de uma côrte voluptuaria.
Apesar de tudo, porém, no regaço da opulencia e do poder, essa mulher, ora hypocrita e vil, ora insolente e orgulhosa, receiava a cada instante ver derrubado o edificio da sua fortuna, cimentado com o sangue de tantas victimas. Quando a vida lhe sorria sómente{61}esperanças e venturas, parecia que descortinava no horisonte a victoria definitiva dos adversarios, e acaso se lembraria de que semeára odios na terra, e de que ainda não colhêra o fructo.
Entre os nobres que mais temia contavam-se os filhos de D. Ignez de Castro. D. Diniz, o filho predilecto do rei justiceiro, achava-se em Castella, e era odiado pelo povo que aos seus conselhos attribuia a invasão de D. Henrique em Portugal. D. João, todavia, era geralmente bem quisto, e no caso de fallecer o monarcha, podia ser um emulo poderoso contra os direitos da filha de D. Leonor. Demais, levado por amor que reputava sincero, e que talvez então o fosse, o infante casára clandestinamente com D. Maria Telles, a qual, apesar de não ter já o viço da primavera da{62}vida, conservava ainda a flor e a graça de uma formosura rica de seiva, pura nas fórmas, e dotada do enlevo que mais prende e mais seduz, o de uma alma cheia de bondade e affecto.
Irmã da rainha e viuva de Alvaro Dias de Sousa, fidalgo illustre e de linhagem real, D. Maria era respeitada pela severa virtude do seu caracter, e querida pelas mercês que fazia, para as quaes lhe subministravam fartos meios as rendas das suas muitas propriedades, e as do mestrado de Christo, que lhe fôra dado para o filho, e que em grande parte usufruia. Vendo-a, e accendendo-se-lhe a imaginação com essas mil seducções, concedidas pela natureza ao sexo fragil, para que não haja alma que se lhe não franqueie, ousára o infante confessar-lhe o seu amor, e como a{63}bella viuva, entre indignada e piedosa, lhe respondesse que de reis tambem vinha ella, e que não era dama que se sacrificasse aos devaneios ephemeros de um capricho, crescêra com os rigores o affecto, e D. João recebêra-a por mulher, celebrando um desses casamentos clandestinos, vulgares na epocha que tentâmos descrever, epocha em que a hypocrisia estava já longe de ser tão rara como geralmente se cuida, posto que as paixões ainda se mostrassem muitas vezes grosseiras, impetuosas, indomitas.
Chegada a noticia ao conhecimento da rainha, esta em vez de se lisongear com tal consorcio, que lhe podia servir de esteio na situação a que se tinha elevado, julgou-o contrario aos planos que formára para collocar na cabeça da filha a corôa de D. Fernando, e desde logo a morte da irmã foi resolvida.{64}N'aquelle peito de marmore só existia um sentimento sancto e suave, o amor materno; e esse mesmo affecto apenas lhe inspirou o desenho de novos crimes. Como conseguir, porém, sacrificar a irmã, e desfazer ao mesmo tempo o favor popular de que D. João já gosava pelo genio aventuroso e esforçado? Soprando na alma d'este as duas paixões mais ferozes do coração humano, a ambição e o ciume.
N'uma conferencia com o infante communicou-lhe João Affonso Tello, irmão da rainha e inteiramente dedicado aos seus interesses, que esta desejára a sua alliança com a princeza Beatriz, e que se o casamento d'elle infante não tivesse vindo destruir designios e projectos de longo tempo affagados, a preferiria muito á do duque de Benavente, principe de origem{65}castelhana, odiosa por em quanto aos portuguezes, em cuja memoria não se tinham desvanecido antigas inimisades, e cruentos e recentes aggravos.
A perfida insinuação produziu o desejado exito. Dominado pela cubiça de succeder no throno depois da morte do irmão, o filho de Ignez de Castro só pensou nos meios de se livrar da que havia escolhido por mulher, mais n'um impeto de ardor brutal e ephemero, do que por esse affecto intenso e intimo, que se dilata com sereno contentamento até os extremos horisontes da vida. Acceitando como verdadeiras accusações injustissimas, ou, o que por ventura está mais proximo da verdade, creando elle proprio essas calumnias, partiu logo para Coimbra, onde então estava D. Maria Telles, e dirigindo-se a furto ás casas que esta habitava, mandou{66}arrombar as portas. Acordada de subito, a irmã de D. Leonor levantou-se assustada e afflicta, e envolvendo-se n'uma colcha que lhe cobria o leito, perguntou ao infante a causa d'aquelle procedimento que tanto a offendia. Na voz, no gesto, nas lagrimas da desditosa mulher traduzia-se a innocencia e a candura; no arrebatamento de pudor e de colera, que lhe abrasava as faces, havia um energico protesto contra a suspeita infame; mas D. João tornára-se inaccessivel á justiça e á piedade. Accusando-a em altas vozes de divulgar o segredo do seu casamento e de trahir a fé conjugal, arrancou-lhe a unica vestidura que lhe velava a formosa nudez, e com um bulhão, com que nas vesperas o presenteára o conde de Barcellos como que indicando-lhe o destino, a feriu no seio e no ventre. Um grito indizivel{67}de angustia partiu dos labios da pobre victima, que, cerrando para sempre os olhos enxutos, porque n'elles a afflicção estancára as lagrimas, teve apenas tempo para invocar com o ultimo suspiro a misericordia de Deus.
Então em todos os rostos se viu pintado o espanto e o terror; a triste noticia percorreu logo a cidade, e no povo a irritação dos animos depressa chegou ao seu auge, mas o infante já havia sahido de Coimbra, e dentro de pouco tempo, tendo alcançado o perdão d'el-rei, era acolhido na côrte, como se não tivesse sido o assassino feroz de sua mulher. Entretanto só para arrependimento lhe serviu o crime commettido. Lançado o cadaver da irmã sobre a estrada por onde suppunha que a filha subiria ao throno, D. Leonor Telles nem tratou{68}de disfarçar quanto se inclinava de preferencia ao casamento de Beatriz com um principe castelhano; e o infante, perdida de todo a fé no amparo e protecção da côrte, fugiu para as provincias do norte, e d'ahi para Castella, onde acabou a vida no meio da saudade e dos remorsos, justa punição que se tornou ainda mais dura, quando depois da morte de D. Fernando conheceu que tinha destruido toda a possibilidade de succeder no throno, ao qual de certo o elevaria o povo se não fôra o seu crime.
Nos livros dos chronistas e nos contos populares se perpetuou esta triste historia; e ainda hoje no antigo castello dos templarios, theatro do tragico successo, se mostra o quarto onde foi assassinada a boa e desditosa irmã da nossa Lucrecia Borgia.{69}