Rubião não sabia mais que dissesse; afinal tornou atraz e explicou-se; eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos Maria piscou o olho; Freitas interveiu dizendo que, agora, sim, senhor, estava explicado; mas que, a principio, o mysterio, o arranjo da cestinha, o ar dos proprios morangos,—morangos adulteros, disse elle, rindo,—todas essas cousas davam ao negocio um aspecto immoral e peccaminoso; mas tudo ficara acabado.
Tomaram em silencio o café; depois passaram á sala. Rubião desfazia-se em obsequios, mas preoccupado. Corridos alguns minutos, estava satisfeito com a primeira supposição dos dous convivas: a de um amor adultero; achou até que se defendera com demasiado calor. Uma vez que não dissesse o nome de ninguem, podia ter confessado que era, em verdade, um negocio intimo. Mas tambem podia acontecer que o proprio calor da negativa deixasse alguma duvida no animo dos dous, alguma suspeita... Aqui sorriu consolado.
Carlos Maria consultou o relogio; eram duas horas, ia-se embora. Rubião agradeceu-lhe muito e muito o obsequio e pediu-lhe que repetisse; podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigavel.
—Apoiado! bradou Freitas aproximando-se.
Tinha mettido meia duzia de charutos no bolso, e ao sair, disse ao ouvido do Rubião:
—Cá vae a lembrança do costume; seis dias de delicias, uma delicia por dia.
—Leve mais.
—Não; virei busca-los depois.
Rubião acompanhou-os ao portão de ferro. Quincas Borba, logo que ouviu vozes, correu do fundo do jardim e veiu saudal-os, particularmente ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quiz lamber-lhe a mão; o rapaz affastou-se com repugnancia. Rubião deu um pontapé no cachorro, que o fez gritar e fugir. Afinal despediram-se todos.
—O senhor para onde vae? perguntou Carlos Maria ao Freitas.
Freitas calculou que elle iria a alguma visita para os lados de S. Clemente, e quiz acompanhal-o.
—Vou até o fim da praia, disse.
—Eu volto para traz, tornou o outro.
Rubião viu-os ir, entrou, metteu-se na sala, e ainda uma vez leu o bilhete de Sophia. Cada palavra d'essa pagina inesperada era um mysterio; a assignatura uma capitulação.Sophiaapenas; nenhum outro nome da familia ou do casal.Verdadeira amigaera evidentemente uma metaphora. Quanto ás primeiras palavras:Mando-lhe estas fructinhas para o almoçorespiravam a candidez de uma alma boa e generosa. Rubião viu, sentiu, palpou todas essas cousas pela unica força do instincto e deu por si beijando o papel,—digo mal, beijando o nome, o nome dado na pia de baptismo, repetido pela mãe, entregue ao marido como parte da escriptura moral do casamento, e agora roubado a todas essas origens e posses para lhe ser mandado a elle, no fim d'uma folha de papel... Sophia! Sophia! Sophia!
—Por que veiu tão tarde? perguntou-lhe Sophia, logo que elle appareceu á porta do jardim, em Santa Thereza.
—Depois do almoço, que acabou ás duas horas, estive arranjando uns papeis. Mas não é tão tarde assim, continuou Rubião vendo o relogio; são quatro horas e meia.
—Sempre é tarde para os amigos, replicou Sophia em ar de censura.
Rubião cahiu em si; mas não teve tempo de emendar a mão. Deante delle, ao pé da casa, estavam sentadas em bancos de ferro umas quatro senhoras, caladas, olhando para elle, curiosas; eram visitas de Sophia que esperavam a vinda de um capitalista Rubião. Já tinham ouvido fallar delle. Sophia foi apresental-o a ellas. Tres d'ellas eram casadas, uma solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove annos, e uns olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um major Siqueira, que d'ahi a alguns minutos appareceu no jardim.
—O nosso Palha já me tinha fallado em Vossa Excellencia, disse o major depois de apresentado ao Rubião. Juro que é seu amigo ás direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente, as melhores amizades são essas. Eu, em trinta e tantos, pouco antes da Maioridade, tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquelle tempo, que conheci assim por um acaso, na botica do Bernardos, por alcunha oJoão das pantorrilhas... Creio que usou d'ellas, em rapaz, entre 1801 e 1812. O certo é que a alcunha ficou. A botica era na rua de S. José, ao desembocar na da Misericordia...João das pantorrilhas... Sabe que era um modo de engrossar a perna... Bernardes era o nome delle, João Alves Bernardes... Tinha a botica na rua de S. José. Conversava-se alli muito, á tarde, e á noite. Ia a gente com o seu capote, e bengalão; alguns levavam lanterna. Eu não; levava só o meu capote... Ia-se de capote; o Bernardes,—João Alves Bernardes era o nome todo delle; era filho de Maricá, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro...João das pantorrilhasera a alcunha; diziam que elle andára de pantorrilhas, em rapaz, e parece que foi um dos petimetres da cidade. Nunca me esqueci:João das pantorrilhas... Ia-se de capote...
A alma do Rubião bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras; mas, estava n'um becco sem sahida por um lado nem por outro. Tudo muralhas. Nenhuma porta aberta, nenhum corredor, e a chuva a cahir. Se pudesse olhar para as moças viria, ao menos, que era objecto de curiosidade de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas não podia; escutava, e o major chovia a cantaros. Foi o Palha que lhe trouxe um guarda-chuva. Sophia tinha ido dizer ao marido que o Rubião acabára de chegar; d'ahi a nada estava o Palha no jardim, e saudava o amigo, dizendo-lhe que viera tarde. O major, que explicava ainda uma vez a alcunha do boticario, abandonou a presa, e foi ter com as moças; depois sahiu á rua.
As senhoras casadas eram bonitas; a mesma solteira não devia ter sido feia, aos vinte e cinco annos; mas Sophia primava entre todas ellas.
Não seria tudo o que o nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquella casta de mulheres que o tempo, como um esculptor vagaroso, não acaba logo, e vae polindo ao passar dos longos dias... Essas esculpturas lentas são miraculosas; Sophia rastejava os vinte e oito annos; estava mais bella que aos vinte e sete; era de suppor que só aos trinta désse o esculptor os ultimos retoques, senão quizesse prolongar ainda o trabalho, por dous ou tres annos.
Os olhos, por exemplo, não são os mesmos da estrada de ferro, quando o nosso Rubião fallava com o Palha, e elles iam sublinhando a conversação... Agora, parecem mais negros, e já não sublinham nada; compõem logo as cousas, por si mesmos, em lettra vistosa e gorda, e não é uma linha nem duas, são capitulos inteiros. A boca parece mais fresca. Hombros, mãos, braços, são melhores, e ella ainda os faz optimos por meio de attitudes e gestos escolhidos. Uma feição que a dona nunca póde supportar,—cousa que o proprio Rubião achou a principio que destoava do resto da cara,—o excesso de sobrancelhas,—isso mesmo, sem ter diminuido, como que lhe dá ao todo um aspecto mui particular.
Traja bem; comprime a cintura e os seios no corpinho de lã fina côr de castanha, obra simples, e traz nas orelhas duas perolas verdadeiras,—mimo que o nosso Rubião lhe deu pela Pascoa.
A bella dama é filha de um velho funccionario publico. Casou aos vinte annos com este Christiano de Almeida e Palha, zangão da praça, que então contava vinte e cinco. O marido ganhava dinheiro, era geitoso, activo, e tinha o faro dos negocios e das situações. Em 1864, apezar de recente no officio, adivinhou,—não se póde empregar outro termo,—adivinhou as fallencias bancarias.
—Nós temos cousa, mais dia menos dia; isto anda por arames. O menor brado de alarma leva tudo.
O peior é que elle despendia todo o ganho e mais. Era dado á boa chira; reuniões frequentes, vestidos caros e joias para a mulher, adornos de casa, mórmente se eram de invenção ou adopção recente,—levavam-lhe os lucros presentes e futuros. Salvo em comidas, era escasso consigo mesmo. Ia muita vez ao theatro sem gostar delle, e a bailes, em que se divertia um pouco,—mas ia menos por si que para apparecer com os olhos da mulher, os olhos e os seios. Tinha essa vaidade singular; decotava a mulher sempre que podia, e até onde não podia, para mostrar aos outros as suas venturas particulares. Era assim um rei Candaules, mais restricto por um lado, e, por outro, mais publico.
E aqui façamos justiça á nossa dama. A principio, cedeu sem vontade aos desejos do marido; mas taes foram as admirações colhidas, e a tal ponto o uso accommoda a gente ás circumstancias, que ella acabou gostando de ser vista, muito vista, para recreio e estimulo dos outros. Não a façamos mais santa do que é, nem menos. Para as despezas da vaidade, bastavam-lhe os olhos, que eram ridentes, inquietos, convidativos, e só convidativos: podemos comparal-os á lanterna de uma hospedaria em que não houvesse commodos para hospedes. A lanterna fazia parar toda a gente, tal era a lindeza da côr, e a originalidade dos emblemas; parava, olhava e andava. Para que escancarar as janellas? Escancarou-as, finalmente; mas a porta, se assim podemos chamar ao coração, essa estava trancada e retrancada.
—Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo! pensava Rubião, á noite, ao canto de uma janella, de costas para fóra, olhando para Sophia, que olhava para elle.
Cantava uma senhora. Os tres maridos de fóra, que alli estavam de visita, interromperam o voltarete, em attenção á cantora, e vieram á sala, por alguns instantes; a cantora era mulher de um d'elles. O Palha, que a acompanhava ao piano, não via o contemplação mutua da esposa e do capitalista. Não sei se todas as outras pessoas estavam no mesmo caso. Uma dellas, sim, essa sei que os via: D. Tonica, a filha do major.
—Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo! continuava a pensar o Rubião, encostado á janella, de costas para fóra, com os olhos esquecidos na bella dama, que olhava para elle.
Entende-se bem que D. Tonica observasse a contemplação dos dous. Desde que Rubião alli chegou, não cuidou ella mais que de attrahil-o. Os seus pobres olhos de trinta e nove annos, olhos sem parceiros na terra, indo já a resvalar do cançaço na desesperança, acharam em si algumas fagulhas. Volvel-os uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo officio d'elles: Não lhe custou nada armal-os contra o capitalista.
O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma cousa lhe dizia que esse mineiro rico era destinado pelo ceu a resolver o problema do matrimonio. Rico era ainda mais do que ella pedia; não pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem a consideração pecuniaria; nos ultimos tempos ia baixando, baixando, baixando; a ultima foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se o ceu não lhe destinava justamente um homem rico? D. Tonica tinha fé em sua madrinha, Nossa Senhora da Conceição, e investiu a fortaleza com muita arte e valor.
—Todas as outras são casadas, pensou ella.
Não tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sophia caminhavam uns para os outros; notou, porém, que os de Sophia eram menos frequentes e menos demorados, phenomeno que lhe pareceu explicavel, pelas cautellas naturaes da situação. Podia ser que se amassem... Esta ideia affligiu-a; mas o desejo e a esperança mostraram-lhe que um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar. A questão era captal-o; a idéa de casar e ter familia podia ser que acabasse de matar qualquer outra inclinação da parte delle, se alguma houvesse.
Eil-a que redobra esforços. Todas as suas graças foram chamadas a postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos de labios, olhos obliquos, marchas, contra-marchas para mostrar bem a elegancia do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era o velho formulario em acção; nada lhe rendera até alli, mas a loteria é assim mesmo: lá vem um bilhete que resgata os perdidos.
Agora, porém, á noite, por occasião do canto ao piano, é que D. Tonica deu com elles embebidos um no outro. Não teve mais duvida; não eram olhares apparentemente fortuitos, breves, como até alli, era uma contemplação que eliminava o resto da sala. D. Tonica sentiu o grasnar do velho corvo da desesperança.Quoth the Raven: NEVERMORE.
Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubião viesse sentar-se ao pé della, por alguns minutos, e tratou de dizer cousas bonitas, phrases que lhe ficaram de romances, outras que a propria melancholia da situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e respondia, mas inquieto, quando Sophia deixava a sala, e não menos quando tornava a ella. Uma das vezes a distracção foi excessiva. D. Tonica confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que taes eram os ares?
—Os ares, repetiu machinalmente o outro.
Olhava para Sophia, que estava então em pé, de costas para elle, fallando a duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez a figura, o busto bem talhado, estreito em baixo, largo em cima, emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de folhas sae de dentro de um vaso. A cabeça podia então dizer-se que era como uma magnolia unica, direita, espetada no centro do ramo. Era isto que Rubião mirava, quando D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e elle repetiu a palavra della, sem lhe dar sequer a mesma fórma interrogativa.
Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sophia pareceu convidar a delle, com tamanha instancia, a voarem juntas até ás terras clandestinas, donde ellas tornam, em geral, velhas e cançadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande numero não passa da beira dos telhados...
A lua era magnifica. No morro, entre o céo e a planicie, a alma menos audaciosa era capaz de ir contra um exercito inimigo, e destroçal-o. Vede o que não seria com este exercito amigo. Estavam no jardim. Sophia enfiara o braço no delle, para irem ver a lua. Convidára D. Tonica, mas a pobre dama respondeu que tinha um pé dormente, que já ia, e não foi.
Os dous ficaram calados algum tempo. Pelas janellas abertas viam-se as outras pessoas conversando, e até os homens, que tinham acabado o voltarete. O jardim era pequeno; mas a voz humana tem todas as notas, e os dous podiam dizer poemas sem ser ouvidos.
Rubião lembrou-se de uma comparação velha, mui velha, apanhada em não sei que decima de 1850, ou qualquer outra pagina em prosa de todos os tempos. Essa ideia foi chamar aos olhos de Sophia as estrellas da terra, e ás estrellas os olhos do céu. Tudo isso baixinho e tremulo.
Sophia ficou pasmada. De subito endireitou o corpo, que até alli viera pesando no braço do Rubião. Estava tão acostumada á timidez do homem... Estrellas? olhos? Quiz dizer que não caçoasse com ella, mas não achou como dar fórma á resposta, sem rejeitar uma ideia que tambem era sua, ou então sem animal-o a ir adeante. Dahi um longo silencio.
—Com uma differença, continuou Rubião. As estrellas são ainda menos lindas que os seus olhos, e afinal nem sei mesmo o que ellas sejam; Deus, que as poz tão alto, é porque não poderão ser vistas de perto, sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, não; estão aqui, ao pé de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o céu...
Loquaz, destemido, Rubião parecia totalmente outro. Não parou alli; fallou ainda muito, mas não deixou o mesmo circulo de ideias. Tinha poucas; e a situação, apezar da repentina mudança do homem, tendia antes a cerceal-as, que a inspirar-lhe novas. Sophia é que não sabia que fizesse. Trouxera ao collo um pombinho, manso e quieto, e sae-lhe um gavião,—um gavião adunco e faminto.
Era preciso responder, fazel-o parar, dizer que ia por onde ella não queria ir, e tudo isso, sem que elle se zangasse, sem que se fosse embora... Sophia procurava alguma cousa; não achava, porque esbarrava na questão, para ella insoluvel, se era melhor mostrar que entendia, ou que não entendia. Aqui lembraram-lhe os proprios gestos della, as palavrinhas doces, as attenções particulares; concluia que, em tal situação, não podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas confessar que entendia, e não despedil-o de casa, eis ahi o ponto melindroso.
Em cima, as estrellas pareciam rir daquella situação inextricavel.
Vá que a lua os visse! A lua não sabe escarnecer; e os poetas, que a acham saudosa, terão percebido que ella amou outr'ora algum astro vagabundo, que a deixou ao cabo de muitos seculos. Pode ser até que ainda se amem. Os seus eclypses (perdôe-me a astronomia) talvez não sejam mais que entrevistas amorosas. O mytho de Diana descendo a encontrar-se com Endymião bem pode ser verdadeiro. Descer é que é de mais. Que mal ha em que os dous se encontrem alli mesmo no céo, como os grilos entre as folhagens cá de baixo? A noite, mãe caritativa, encarrega-se de velar a todos.
Depois, a lua é solitaria. A solidão faz a pessoa seria. As estrellas, em chusma, são como as moças entre quinze e vinte annos, alegres, palreiras, rindo e fallando a um tempo de tudo e de todos.
Não nego que são castas; mas tanto peor,—terão rido do que não entendem... Castas estrellas! é assim que lhes chama Othello, o terrível, e Tristram Shandy, o jovial. Esses extremos do coração e do espirito estão de accordo n'um ponto: as estrellas são castas. E ellas ouviam tudo (castas estrellas!) tudo o que a boca temeraria de Rubião ia entornando na alma pasmada de Sophia.O recatado de longos mezes era agora (castas estrellas!) nada menos que um libertino. Dissereis que o Diabo andára a enganar a moça com as duas grandes azas de archanjo que Deus lhe poz; de repente, metteu-as na algibeira, e desbarretou-se para mostrar as duas pontas malignas, fincadas na testa. E rindo, daquelle riso obliquo das mãos, propunha comprar-lhe não só a alma, mas a alma e o corpo... Castas estrellas!
—Vamos para dentro, murmurou Sophia.
Quiz tirar o braço; mas o delle reteve-lh'o com força. Não; ir para que? Estavam alli bem, muito bem... Que melhor? Ou seria que elle a estivesse aborrecendo? Sophia acudiu que não, ao contrario, mas precisava ir fazer sala ás visitas... Ha quanto tempo estavam alli!
—Não ha dez minutos, disse o Rubião. Que são dez minutos?
—Mas podem ter dado pela nossa ausencia...
Rubião estremeceu diante deste possessivo:nossaausencia. Achou-lhe um principio de complicidade. Concordou que podiam dar pelanossaausencia. Tinha razão, deviam separar-se; só lhe pedia uma cousa, duas cousas; a primeira é que não esquecesse aquelles dez minutos sublimes; a segunda é que, todas as noites, ás dez horas, fitasse o Cruzeiro, elle o fitaria tambem, e os pensamentos de ambos iriam achar-se alli juntos, intimos, entre Deus e os homens.
O convite era poetico, mas só o convite. Rubião, em quanto fallava, ia devorando a moça com olhos de fogo, e segurava-lhe uma das mãos para que ella não fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham poesia nenhuma. Sophia esteve a ponto de dizer alguma palavra aspera, mas engoliu-a logo, ao advertir que Rubião era um bom amigo da casa. Quiz rir, mas não pôde; mostrou se então arrufada, logo depois resignada, afinal supplicante; pediu-lhe pela alma da mãe delle, que devia estar no ceu... Rubião não sabia do ceu nem da mãe, nem de nada. Que era mãe? que era ceu? parecia dizer a cara delle.
—Ai, não me quebre os dedos! suspirou baixinho a moça.
Aqui é que elle começou a voltar a si; afrouxou a pressão, sem soltar-lhe os dedos.
—Vá, disse elle, mas primeiro...
Inclinava-se para beijar a mão, quando uma voz, a alguns passos, veiu accordal-o inteiramente.
—Olá! estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados... Sim, deliciosa... Ha muito que não vejo uma noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gaz... Deliciosa! para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icarahy...
Era Siqueira, o terrivel major. Rubião não sabia que dissesse; Sophia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava em dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se ás de Barbacena, e, a proposito disso, referira uma anecdota de um padre Mendes... Não era Mendes?
—Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou o Rubião.
O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas, a cabeça do Rubião meia inclinada, o movimento rapido de ambos, quando elle entrou no jardim; e sae-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou para Sophia; viu-a risonha, tranquilla, impenetravel. Nenhum medo, nenhum acanhamento; fallava com tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas o Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relogio para ver as horas, leval-o ao ouvido, como se lhe parecesse que não andava, depois limpal-o com o lenço, devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro...
—Bem, conversem, vou vêr as amigas, que não podem estar sós. Os homens já acabaram o maldito voltarete?
—Já, respondeu o major olhando curiosamente para Sophia. Já, e até perguntaram por este senhor; por isso é que eu vim ver se o achava no jardim. Mas estavam aqui ha muito tempo?
—Agora mesmo, disse Sophia.
Depois, batendo carinhosamente no hombro do major,passou do jardim á casa; não entrou pela porta da sala de visitas, mas por outra que dava para a de jantar; de maneira que, quando chegou áquella pelo interior, era como se acabasse de dar ordens para o chá.
Rubião, voltando a si, ainda não achou que dizer, e comtudo urgia dizer alguma cousa. Boa ideia era a anecdota do padre Mendes; o peior é que não havia padre nem anecdota, e elle era incapaz de inventar nada. Pareceu-lhe bastante isto:
—O padre! o Mendes! Muito engraçado o padre Mendes!
—Conheci-o, disse o major sorrindo. O padre Mendes? Conheci-o; morreu conego. Esteve algum tempo em Minas?
—Creio que esteve, murmurou o outro, espantado.
—Era filho aqui de Saquarema; era um que não tinha este olho, continuou o major levando o dedo ao olho esquerdo. Conheci-o muito, se é que é o mesmo; póde ser que seja outro.
—Póde ser.
—Morreu conego. Era homem de bons costumes, mas amigo de ver moças bonitas, como se mira um painel de mestre; e que maior mestre que Deus? dizia elle. Esta D. Sophia, por exemplo, nunca elle a viu na rua que me não dissesse: Hoje vi aquella bonita senhora do Palha... Morreu conego; era filho de Saquarema... E, na verdade, tinha bom gosto... Realmente, a mulher do nosso Palha, é um primor, bella de cara e de figura; eu ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?
—Parece que sim...
—E boa pessoa, excellente dona de casa; continuou o major accendendo um charuto.
A luz do phosphoro deu á cara do major uma expressão de escarneo, ou de outra cousa menos dura, mas não menos adversa. Rubião sentiu correr-lhe um frio pela espinha. Teria ouvido? visto? adivinhado? Estava alli um indiscreto, um mexeriqueiro? A cara do homem dizia que sim e que não; em todo caso, era mais seguro crer no peior. Aqui temos o nosso heroe como alguem que, depois de navegar cosido com a praia, longos annos, acha-se um dia entre as ondas do alto mar; felizmente o medo tambem é official de ideias, e deu-lhe alli uma, lisongear o interlocutor. Não hesitou em achal-o gracioso e interessante, e dizer-lhe que tinha uma casa ás suas ordens, na praia de Botafogo, numero tantos. Dava-lhe muita honra em travar relações com elle. Contava poucos amigos aqui: o Palha, a quem devia grandes obsequios,—D. Sophia que era uma senhora de rara gravidade, e mais tres ou quatro pessoas. Vivia só; podia ser até que se retirasse para Minas.
—Já?
—Não digo já, mas póde ser que me não demore. Sabe que uma pessoa que viveu toda a sua vida em um logar, custa-lhe muito a acostumar-se em outro.
—Isso conforme.
—Sim, conforme... Mas é a regra.
—Regra será, mas o senhor vae ser uma excepção. A côrte é o diabo; apanha-se uma paixão como se apanha uma constipação; basta uma fresta de ar, fica-se perdido. Olhe, eu não me dava de apostar que o senhor, antes de seis mezes, está casado...
—Não viu nada, pensou Rubião.
E depois, alegre:
—Póde ser, mas tambem em Minas ha casamentos; nem lá faltam padres.
—Falta o padre Mendes, acudiu rindo o major.
Rubião sorriu constrangido, não entendendo se a palavra do major era innocente ou maliciosa. Este é que colheu as rédeas ao assumpto, e fallou de outras cousas, do tempo, da cidade, do ministerio, da guerra, e do marechal Lopez. E vede o contraste da occasião: esse aguaceiro, maior que o da entrada, pareceu um raio de sol ao nosso Rubião. Eil-o que espaneja a alma ao calor do discurso infinito do major, intercallando alguma palavrinha, se pode, e sempre cabeceando com applauso. E pensava outra vez que não, que elle não vira nada.
—Papae Papae está ahi? disse uma voz á porta que dava para o jardim.
Era D. Tonica; vinha chamal-o para irem embora. O chá estava na meza, é verdade; mas não podia esperar mais, tinha dor de cabeça, disse ella ao pae, baixinho. Depois estendeu os dedos ao Rubião; este pediu-lhe que ficasse ainda alguns minutos; o estimavel major...
—Perde o seu tempo, interrompeu o major; ella é que me governa.
Rubião offereceu-lhe a casa com instancia; exigiu até que lhe marcasse um dia, n'aquella mesma semana, mas o major acudiu que não podia dispor de dia certo; iria, logo que lhe fosse possivel. A vida delle era muito trabalhosa; tinha os negocios do arsenal, que já eram muitos, e tinha mais...
—Papae! vamos!
—Vamos. Está vendo? Não posso conversar um instante. Já te despediste? Onde está o meu chapéo?
Ladeira abaixo, D. Tonica foi ouvindo o resto do discurso do pae, que mudou de assumpto, sem mudar de estylo,—diffuso e derramado. Ouvia sem entender. Ia mettida em si mesma, absorta, remoendo a noite,recompondo os olhares de Sophia e de Rubião.
Chegaram a casa na rua do Senado; o pae foi dormir, a filha não se deitou logo, deixou-se estar em uma cadeirinha, ao pé da commoda, onde tinha uma imagem da Virgem. Não trazia ideias de paz nem de candura. Sem conhecer o amor, tinha noticia do adulterio, e a pessoa de Sophia pareceu-lhe hedionda. Via nella agora um monstro, metade gente, metade cobra, e sentiu que a aborrecia, que era capaz de vingar-se exemplarmente, de dizer tudo ao marido.
—Conto-lhe tudo,—ia pensando—ou de viva voz, ou por uma carta... Carta não; digo-lhe tudo um dia, em particular.
E imaginando o colloquio, antevia o espanto do homem, depois o agastamento, depois os improperios, as palavras duras que elle havia de dizer á mulher, miseravel, indigna, vil... Todos esses nomes soavam bem aos ouvidos do seu desejo; ella fazia derivar por elles a propria colera; fartava-se de a rebaixar assim, de a pôr debaixo dos pés do marido, já que o não podia fazer por si mesma... Vil, indigna, miseravel...
Durou muito tempo essa explosão de raiva interior,—perto de vinte minutos; mas a alma cançou, e tornou a si. A imaginação não podia mais, e a realidade proxima attrahiu-lhe a vista. Olhou em volta de si, mirou a alcova de solteira, arrumadinha com arte,—dessa arte engenhosa que faz da chita seda e de um retalho velho uma fita, que recama, enlaça, alegra o mais que póde a nudez das cousas, enfeita as paredes tristes, aprimora os trastes modestos e poucos. E tudo alli parecia feito para receber um noivo amado.
Onde li eu que uma tradicção antiga fazia esperar a uma virgem de Israel, durante certa noite do anno, a concepção divina? Seja onde fôr, comparemol-a á desta outra, que só differe daquella em não ter noite fixa, mas todas, todas, todas... O vento, zunindo fóra, nunca lhe trouxe o varão esperado, nem a madrugada alva e menina lhe disse em que ponto da terra é que elle móra. Era só esperar, esperar...
Agora, aquietada a imaginação e o resentimento, mira e remira a alcova solitaria; recorda as amigas do collegio e de familia, as mais intimas, casadas todas. A derradeira dellas desposou aos trinta annos um official de marinha, e foi ainda o que reverdeceu as esperanças á amiga solteira, que não pedia tanto, posto que a farda de aspirante foi a primeira cousa que lhe seduziu os olhos, aos quinze annos... Onde iam elles? Mas lá passaram cinco annos, cumpriu os trinta e nove, e os quarenta não tardam. Quarentona, solteirona; D. Tonica teve um calafrio. Olhou ainda, recordou tudo, ergueu-se de golpe, deu duas voltas e atirou-se á cama chorando...
Não vão crer que a dor aqui foi mais verdadeira que a colera; foram eguaes em si mesmas, os effeitos é que foram diversos. A colera deu em nada; a humilhação debulhou-se em lagrimas legitimas. E contudo não faltaram a esta senhora impetos de estrangular Sophia, calcal-a aos pés, arrancar-lhe o coração aos pedaços, dizendo-lhe na cara os nomes crus que attribuia ao marido... Tudo imaginações! Crede-me: ha tyrannos de intenção. Quem sabe? Na alma desta senhora passou agora um tenue fio de Caligula...
E em quanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monotono, tudo rindo cançativo; mas uma boa distribuição de lagrimas e polkas, soluços e sarabandas, acaba por trazer á alma das cousas a variedade necessaria, e faz-se o equilibrio da vida.
A outra que ri é a alma do Rubião. Escutai a cantiga alegre, brilhante, com que ella desce o morro, dizendo as cousas mais intimas ás estrellas,—ás castas estrellas,—especie de rhapsodia feita de uma linguagem que ninguem nunca alphabetou, por ser impossivel achar um signal que lhe exprima os vocabulos. Cá em baixo, as ruas desertas parecem-lhe povoadas, o silencio é um tumulto, e de todas as janellas debruçam-se vultos de mulher, caras bonitas e grossas sobrancelhas, todas Sophias e uma Sophia unica. Uma ou outra vez, Rubião acha que foi temerario, indiscreto, recorda o caso do jardim, a resistencia, o enfado da moça, e chega a arrepender-se; tem então calefrios, fica atterrado com a ideia de que podem fechar-lhe a porta, e cortar inteiramente as relações; tudo porque precipitou os acontecimentos. Sim, devia esperar; a occasião não era propria; visitas, muitas luzes, que ideia foi aquella de fallar de amores, sem cautellas, desbragadamente...? Achava-lhe razão; era bem feito que o despedisse logo.
—Fui um maluco! dizia em voz alta.
Não fallava do jantar, que foi lauto, nem dos vinhos, que eram generosos, nem da electricidade propria de uma sala em que ha senhoras, galantes; achava-se maluco, completamente maluco.
Logo depois, a mesma alma que se accusava, defendia-se. Sophia parecia tel-o animado ao que fez; os olhos frequentes, depois fixos, os modos, os requebros, a distincção de o mandar sentar ao pé de si, á mesa de jantar, de só cuidar delle, de lhe dizer melodiosamente cousas affaveis, que era tudo isso mais que exhortações e solicitações? E a boa alma explicava a contradicção da moça, depois, no jardim: era a primeira vez que ouvia taes palavras, fóra do gremio conjugal, e alli perto de todos, devia tremer naturalmente; demais, elle expandira-se muito, e precipitou tudo. Nenhuma graduação; devia ter ido pé ante pé, e nunca segurar-lhe as mãos com tanta força que chegasse a molestal-a. Em conclusão, achava-se grosseiro. Voltava o receio de lhe fecharem a porta; depois, tornava ás consolações da esperança, á analyse das acções da moça, á propria invenção do padre Mendes, mentira de complicidade; pensava tambem na estima do marido.. Aqui estremeceu. A estima do marido deu-lhe remorsos. Não só merecia a confiança delle, mas accrescia certa divida pecuniaria, e umas tres lettras que Rubião aceitou por elle.
—Não posso, não devo, ia dizendo a si mesmo, não é bonito ir adeante. Tambem é verdade que, a rigor, não sou autor de nada; ella é que, desde muito, me anda desafiando. Pois que desafie agora! Sim, é preciso resistir-lhe... Emprestei o dinheiro quasi sem pedido, porque elle precisava muito e eu devia-lhe obsequios; as lettras, sim, as lettras foi elle que me pediu que assignasse, mas não me pediu mais nada. Sei, que é honrado, que trabalha muito; o diabo da mulher é que fez mal em metter-se de permeio, com os lindos olhos e a figura... Que admiravel figura, meu pae do ceu! Hoje então estava divina. Quando o braço della roçava no meu, á meza, apezar da minha manga...
Confuso, incerto, ia a cuidar na lealdade que devia ao amigo, mas a consciencia partia-se em duas, uma increpando a outra, a outra explicando-se, e ambas desorientadas...
Deu por si na praça da Constituição. Viera andando á toa. Teve ideia de ir ao theatro, mas era tarde. Então dirigiu-se ao largo de S. Francisco para metter-se em um tilbury e ir para Botafogo. Achou tres, que vieram logo ao encontro delle, oferecendo os seus serviços e louvando principalmente o cavallo, um bom cavallo,—um animal excellente.
O rumor das vozes e dos vehiculos acordou um mendigo que dormia nos degráos da egreja. O pobre diabo sentou-se, viu o que era, depois tomou a deitar-se, mas accordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no ceu. O ceu fitava-o tambem, impassivel como elle, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um ceu claro, estrellado, socegado, olympico, tal qual presidiu ás bodas de Jacob e ao suicidio de Lucrecia. Olhavam-se n'uma especie de jogo do sizo, com certo ar de majestades rivaes e tranquillas, sem arrogancia, nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao ceu:
—Afinal, não me hasde cair em cima.
E o ceu:
—Nem tu me hasde escalar.
Rubião não era philosopho; a comparação que alli fez entre os seus cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe á alma uma sombra de inveja. Aquelle malandro não pensa em nada, disse elle comsigo; d'aqui a pouco está dormindo, emquanto eu...
—Meu amo, entre que o animal é bom. Vamos lá em quinze minutos.
Os outros dois cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quasi por eguaes palavras:
—Meu amo, venha aqui e verá...
—Olhe o meu cavallinho...
—Faça favor; são treze minutos de viagem. Em treze minutos está em casa.
Rubião, depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tilbury que lhe ficava á mão, e mandou tocar para Botafogo. Então lembrou-se de um velho episodio esquecido, ou foi o episodio que lhe deu inconscientemente a solução. Uma ou outra cousa, Rubião guiou o pensamento, com o fim de escapar ás sensações daquella noite.
La iam longos annos. Elle era então muito rapaz, e pobre. Um dia, ás oito horas da manhã, sahiu de casa, que era na rua do Cano (Sete do Setembro), entrou no largo do S. Francisco do Paula; d'alli desceu pela rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa de um amigo, que começava a tratal-o como hospede de tres dias, e elle ja o era de quatro semanas. Dizem que os de trez dias cheiram mal; muito antes d'isso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto antes. Póde crer-se que desde que sahiu de casa, entrou no largo de S. Francisco, e desceu a rua do Ouvidor até a dos Ourives, não viu nem ouviu cousa nenhuma.
Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um prestito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos. Mas, as principaes figuras eram dous pretos. Um delles, mediano, magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a côr fula, e levava uma corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava com galhardia a curiosidade publica. Lido o papel, o prestito seguiu pela rua dos Ourives adeante; vinha do aljube e ia para o largo do Moura.
Rubião naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve como agora á escolha de um tilbury. Forças intimas offereciam-lhe o seu cavallo, umas que voltasse para traz ou descesse para ir aos seus negocios,—outras que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um enforcado! Senhor, em vinte minutos está tudo findo!—Senhor, vamos tratar de outras cousas! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se ir ao acaso. O acaso, em vez de leval-o pela rua do Ouvidor abaixo até á da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atraz do prestito. Não iria ver a execução, pensou elle; era só ver a marcha do réo, a cara do carrasco, as cerimonias... Não queria ver a execução. De quando em quando, parava tudo, chegava gente ás portas e janellas, e o porteiro dos auditorios relia a sentença. Depois, o prestito continuava a andar com a mesma solemnidade. Os curiosos iam narrando o crime,—um assassinato em Mata-porcos. O assassino era dado como homem frio e feroz. A noticia dessas qualidades fez bem a Rubião; deu-lhe força para encarar o réo, sem deliquios de piedade. Não era já a cara do crime; o terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo da execução. Já alli havia bastante gente. Com a que vinha formou-se multidão compacta.
—Voltemos, disse elle consigo.
Verdade é que o réo ainda não subira a forca; não o matariam de relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, porque não fecharia os olhos, como fez certo Alypio deante do expectaculo das feras? Note-se bem que Rubião nada sabia desse tal rapaz antigo; ignorava, não só que fechára os olhos, mas tambem que os abrira logo depois, devagarinho e curioso...
Eis o réo que sobe a forca. Passou pela turba um fremito. O carrasco pôz mãos á obra. Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma curva na direcção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrario, deixou-se estar; lutaram alguns instantes... Olhe o meu cavallo!—Veja, é um rico animal!—Não seja máo!—Não seja medroso! Rubião esteve assim alguns segundos, os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos fixaram-se no mesmo ponto, como os delle. Rubião não podia entender que bicho era que lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe pegavam da alma e a retinham alli. O instante fatal foi realmente um instante; o réo esperneou, contrahiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um grito, e não viu mais nada.
Vossa Senhoria hade ter visto que o cavallinho é bom...
Rubião abriu os olhos, meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia ao de leve a pontinha do chicote para espertar o animal. Interiormente zangou-se com o homem, que o veiu tirar de recordações antigas. Não eram bellas, mas eram antigas,—antigas e enfermeiras, porque lhe davam a beber um elixir que de todo parecia cural-o do presente. E vae o cocheiro empurra-o e accorda-o. Iam subindo a rua da Lapa; o cavallo, em verdade, comia o espaço como se fosse a descer.
—Este cavallo tem-me uma amizade, continuou o cocheiro, que se não acredita. Podia contar cousas extraordinarias. Ha pessoas que até dizem que é mentira minha; mas, não, senhor, não é. Quem não sabe que cavallo e cachorro são os animaes que mais gostam da gente? Cachorro parece que inda gosta mais...
Cachorro trouxe á memoria de Rubião o Quincas Borba, que lá devia estar em casa, á espera delle, ancioso. Rubião não esquecia a condição do testamento; jurava cumpril-a á risca. Convem dizer que, de envolta com o receio de vel-o fugir, entrava o de vir a perder os bens. Não valiam affirmações do advogado; não ha, dizia-lhe este, não ha no testamento clausula reversivel para outrem, no caso de fuga do cachorro; os bens não podiam sair-lhe das mãos. Que lhe importava a fuga, se era até melhor, um cuidado menos? Rubião aceitava apparentemente a explicação, mas lá ficava a duvida, o exemplo de longas demandas, a variedade das opiniões juridicas sobre uma só materia, a acção de algum invejoso ou inimigo, e, o que resumia tudo, o terror de ficar sem nada. Dahi os rigores da reclusão; dahi tambem o remorso de ter passado a tarde e a noute sem pensar uma só vez no Quincas Borba.
—Sou um ingrato! disse comsigo.
Emendou-se logo; mais ingrato era não ter pensado no outro Quincas Borba, que lhe deixou tudo. Vae se não quando, teve uma ideia extraordinaria, a de serem os dous Quincas Borbas a mesma creatura, por effeito da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a purgar os seus peccados que a vigiar o dono. Foi uma preta de S. João d'El-rei que lhe metteu, em creança, essa ideia de transmigração. Dizia ella que a alma cheia de peccados ia para o corpo de um bruto; chegou a jurar que conhecera um escrivão que acabou feito gambá...
—Vossa Senhoria, não se esqueça de dizer onde é a casa, disse-lhe repentinamente o cocheiro.
—Pare. Já passámos, é aquella.
O tilbury deu volta e foi parar á porta; Rubião pagou e desceu.
O cão ladrou de dentro; mas, logo que Rubião entrou, recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em caricias. A idéa de poder estar alli o testador dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; alli ficaram por alguns instantes, á luz do lampeão que Rubião mandára deixar acceso. Rubião era mais credulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada:—terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa. A vida da côrte deu-lhe até uma particularidade; entre incredulos, chegava a ser incredulo...
Olhou para o cão, emquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão olhava para elle, de tal geito que parecia estar alli dentro o proprio e defuncto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do philosopho, quando examinava as cousas humanas... Novo arrepio; mas o medo, que era grande, não era tão grande que lhe atasse as mãos. Rubião estendeu-as sobre a cabeça do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.
—Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é muito amigo de Quincas Borba...
E o cão movia devagar a cabeça, para a esquerda e para a direita, ajudando a distribuição das caricias ás duas orelhas pendentes; depois levantava o queixo, para que lhe coçasse em baixo, e o dono obedecia; mas então os olhos do cão, meio fechados de gosto, tinham um ar dos olhos do philosopho, na cama, contando-lhe cousas de que elle entendia pouco ou nada... Rubião fechava os seus. Abriram-lhe a porta; despediu-se do cão, mas com taes carinhos, que era o mesmo que pedir-lhe que entrasse. O creado hespanhol incumbiu-se de o levar para baixo.
—Não lhe dê pancadas, recommendou Rubião.
Não lhe deu pancadas; mas só a descida era dolorosa, e o cão amigo gemeu por muito tempo no jardim. Rubião entrou, despiu-se e deitou-se. Ah! tinha vivido um dia cheio de sensações diversas e contrarias, desde as recordações da manhã, e o almoço aos dous amigos, até aquella ultima ideia de metempsycose, passando pela lembrança do enforcado, e por uma declaração de amor não aceita, mal repellida, parece que adivinhada por outros... Misturava tudo; o espirito ia de um para outro lado como bola de borracha entre mãos de creanças. Comtudo, a sensação maior era a do amor. Rubião estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas o arrependimento era obra da consciencia, ao passo que a imaginação não soltava por nenhum preço a figura da bella Sophia... Uma, duas, tres horas... Sophia ao longe, os latidos do cão embaixo... O somno esquivo... Onde iam já as tres horas? Tres e meia... Emfim, depois de muito cuidar, appareceu-lhe o somno, espremeu os classicas papoulas, o foi um instante; Rubião dormiu antes das quatro.
Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que se passou entre Sophia e o Palha, depois que todos se foram embora. Póde ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado.
Tende paciencia; é vir agora outra vez a Santa Thereza. A sala está ainda alumiada, mas por um bico de gaz; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o ultimo, quando o Palha mandou que o creado esperasse um pouco la dentro. A mulher ia a sair, o marido deteve-a, ella estremeceu.
—A nossa festa esteve bem bonita, disse elle.
—Esteve.
—O Siqueira é um cacete, mas paciencia; é alegre. A filha não estava mal arranjada. Viste o Ramos como devorava tudo o que se lhe poz no prato? Tu verás que elle um dia engole a mulher.
—A mulher? disse Sophia, sorrindo.
—É gorda, concordo; mas a primeira era muito mais gorda, e creio que não morreu, elle enguliu-a, com certeza.
Sophia reclinada no canapé, ria das graças do marido. Criticaram ainda alguns episodios da tarde e da noite; depois, Sophia, acariciando os cabellos do marido, disse-lhe de repente:
—E você ainda não sabe do melhor episodio da noite.
—Que foi?
—Adivinhe.
Palha ficou algum tempo calado, olhando para a mulher, a ver se adivinhava qual tinha sido o melhor episodio da noite. Não podia acertar; acudia-lhe isto ou aquillo, nada; Sophia abanava a cabeça.
—Mas então que foi?
—Não sei; adivinha.
—Não posso. Dize logo.
—Com uma condição, accudiu ella; não quero zangas nem barulhos.
Palha foi ficando mais serio. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser? pensava elle. Já se não ria; tinha só um resto de sorriso forçado e resignado. Olhou bem para ella, e perguntou-lhe o que era.
—Você promette o que lhe disse?
—Vá lá. Que foi?
—Pois saiba que ouvi nada menos que uma declaração de amor.
Palha empallideceu. Não promettera deixar de empallidecer. Gostava da mulher, como sabemos, até o ponto singular de publical-a; não podia ouvir a frio a noticia. Sophia viu a pallidez, e gostou da má impressão causada; para saboreal-a mais, inclinou o busto, soltou o cabello atraz, que a incommodava um pouco, recolheu os grampos em um lenço, depois sacudiu a cabeça, respirou largo, e pegou nas mãos do marido, que ficara de pé.
—É verdade, meu velho, namoraram-te a mulher.
—Mas quem foi o patife? disse elle impaciente.
—Mau, se vamos assim, não digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi? Hade ouvir quietinho. Foi o Rubião.
—O Rubião?
—Nunca imaginei tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que não é o habito que faz o monge. De tantos homens que aqui vêm, e até rapazes solteiros, não ouvi nunca a menor cousa. Olhava para mim; naturalmente, porque não sou feia... Para que estás andando assim de um lado para outro? Pára, que não quero levantar a voz... Bem, assim... Vamos ao caso. Não me fez declaração positiva...
—Ah! não? accudiu vivamente o marido.
—Não, mas vem a dar na mesma.
E depois de contar o que se passara no jardim, desde que alli chegaram os dous, até que o major appareceu:
—Foi só isso, concluiu; mas é bastante para ver que se elle não disse amor é porque não lhe chegou a lingua, mas chegou-lhe a mão, que me apertou os dedos... Só isso, e é demais. Ainda bem que te não zangas; mas é preciso trancar-lhe a porta,—ou de uma vez ou aos poucos; eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?
Mordendo o beiço inferior, Palha ficou a olhar para ella a modo de estupido. Sentou-se no canapé, mas não fallou logo. Considerava o negocio. Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a captivar um homem,—e Rubião podia ser esse homem; mas confiava tanto no Rubião, que o bilhete que Sophia mandara a este, acompanhando os morangos, foi redigido por elle mesmo; a mulher limitou-se a copial-o, assignal-o e mandal-o. Nunca, entretanto, lhe passou pela cabeça que o amigo chegasse a declarar amor a alguem, menos ainda a Sophia, se é que era amor deveras; podia ser gracejo de intimidade. Rubião olhava para ella muita vez, é certo; parece tambem que Sophia, em algumas occasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, emfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios delles. Não havia de ter ciumes do nervo optico, ia pensando o marido. Sophia levantou-se, foi pôr o lenço com os grampos em cima do piano, e deu uma olhada ao espelho para ver-se com a tranca cahida. Quando voltou ao canapé, o marido pegou-lhe na mão, rindo:
—Parece-me que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos de uma moça ás estrellas, e as estrellas aos olhos, afinal de contas é cousa que até se póde fazer á vista de todos, em familia, e em prosa ou verso para o publico. A culpa é de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas, sabes que elle é ainda matuto...
—Então o diabo tambem é matuto, porque elle pareceu-me nada menos que o diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro, afim de que as nossas almas se encontrassem?
—Isso, sim, isso já cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vês que é um pedido de alma candida. É assim que as moças fallam aos quinze annos; é assim que fallam os tolos em todos os tempos, e os poetas tambem; mas elle nem é moça nem poeta.
—Creio que não; mas segurar-me nas mãos para reter-me no jardim?
Palha teve um calefrio; a ideia do contacto das mãos e da força empregada para reter a mulher é que o mortificava mais. Francamente, se pudesse, era capaz de ir ter com elle, e deitar-lhe as mãos ao gasnate. Outras ideias, porém, acudiram e dissiparam o effeito da primeira; de modo que, cuidando Sophia havel-o irritado, viu-o dar de hombros com desprezo, e responder-lhe que effectivamente era um acto de grosseria.
—E depois, Sophia, que ideia foi essa de convidal-o a ir ver a lua, não me dirás?
—Chamei D. Tonica para ir comnosco.
—Mas uma vez que D. Tonica recusou, devias ter achado meios e modos de não ir ao jardim. São cousas que acodem logo. Tu é que déste occasião...
Sophia olhou para elle, contrahindo as grossas sobrancelhas; ia responder, mas calou-se. Palha continuou a desenvolver a mesma ordem de ideias; a culpa era della, não devia ter dado occasião...
—Mas você mesmo não me tem dito que devemos tratal-o com attenções particulares? Seguramente, que eu não iria ao jardim, se pudesse imaginar o que se passou. Mas nunca esperei que um homem tão pacato, tão não sei como, se tirasse dos seus cuidados para rir dizer-me cousas esquisitas...
—Pois daqui em diante evita a lua e o jardim, disse o marido, procurando sorrir.
—Mas, Christiano, como queres tu que lhe falle a primeira vez que elle cá vier? Não tenho cara para tanto; olha, o melhor de tudo é acabar com as relações.
Palha atravessou uma perna sobre a outra e começou a rufar no sapato. Durante alguns segundos ficaram calados; cada um delles pensava em alguma cousa. Palha cuidava na proposta de acabar com as relações, não que quizesse acceital-a, mas não sabia como responder á mulher, que mostrava tanto resentimento, e se portava com tal dignidade. Era preciso nem desapproval-a, nem aceitar a proposta, e não lhe acendia nada. Levantou-se, metteu as mãos nas algibeiras das calças, e depois de alguns passos, parou defronte de Sophia.
—Talvez nos estejamos a incommodar com um simples effeito de vinhos. Olha que elle não mandou o seu quinhão ao vigario; cabeça fraca, um pouco de abalo, e entornou o que tinha dentro... Sim, eu não nego que lhe possas ter causado certa impressão, como tantas outras senhoras. Ha dias foi a um baile no Cattete, e fallou-me depois encantado das senhoras que lá vira, de uma principalmente, a viuva Mendes...
Sophia interrompeu-o:
—Porque é que não convidou essa belleza a ver o Cruzeiro?
—Não jantou lá, naturalmente, e não havia jardim nem lua. O que eu quero dizer é que onosso amigonão estaria em si. Talvez se ache a agora arrependido do que fez, envergonhado, sem saber como se hade explicar, ou se não explicará nada... É muito possível até que se ausente...
—Era melhor.
—...Se o não chamarmos, concluiu Palha.
—Mas para que chamal-o?
—Sophia, disse-lhe o marido, sentando-se ao pé della. Não quero entrar em minudencias; digo só que não permitto que alguem te falte ao respeito...
Houve uma pequena pausa; Sophia olhava para elle, esperando.
—Não permitto, e ai d'aquelle que o fizesse, assim como ai de ti se o consentires; sabes que sou de ferro, a este respeito, e que a certeza da tua amizade,—ou, vá logo tudo,—do amor que me tens é que me tranquillisa. Pois bem, nada me abala relativamente ao Rubião. Crê que o Rubião é nosso amigo, devo-lhe obrigações...
—Alguns presentes, algumas joias, camarotes no theatro, não são motivos para que eu fite o Cruzeiro com elle.
—Prouvera a Deus que fosse só isso! suspirou o zangão.
—Que ha mais?
—Não entremos em minudencias... Ha outras cousas... Fallaremos depois... Mas fica certa que nada me faria recuar, se visse no que contaste alguma gravidade. Não ha nenhuma. O homem é um simplorio.
—Não.
—Não?
Sophia levantou-se; tambem não queria entrar em minudencias. O marido pegou-lhe na mão, ella ficou de pé e calada. Palha, com a cabeça reclinada nas costas do sophá, olhava sorrindo, sem achar que dizer. Ao cabo de alguns minutos, ponderou a mulher que era tarde, que ia mandar apagar tudo.
—Bem, tornou o Palha depois de breve silencio; escrevo-lhe amanhã que não ponha aqui os pés.
Olhou para a mulher esperando alguma recusa. Sophia coçava as sobrancelhas, e não respondeu nada. Palha repetiu a solução; e póde ser que desta vez com sinceridade. A mulher então com ar de tedio:
—Ora, Christiano... Quem é que te pede cartas? Já estou arrependida de haver fallado nisto. Contei-te um acto de desrespeito, e disse que era melhor cortar as relações,—aos poucos ou de uma vez.
—Mas como se hão de cortar as relações de uma vez?
—Fechar-lhe a porta, mas não digo tanto; basta, se queres, aos poucos...
Era uma concessão; Palha aceitou-a; mas immediatamente ficou sombrio, soltou a mão da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura, disse em voz mais alta do que até então:
—Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro.
Sophia tapou-lhe a boca e olhou assustada para o corredor.
—Está bom, disse, não fallemos mais nisto. Verei como elle se comporta, e tratarei de ser mais fria... Nesse caso, tu é que não deves mudar, para que não pareça que sabes alguma cousa. Verei o que posso fazer.
—Você sabe, cousas do negocio, algumas perdas... é preciso tapar um buraco daqui, outro dalli... o diabo! É por isso que... Mas riamos, meu bem; não vale nada. Sabes que confio em ti...
—Vamos, que é tarde.
—Vamos, repetiu o Palha dando-lhe um beijo na face.
—Estou com muita dor de cabeça, murmurou ella. Creio que foi do sereno, ou desta historia... Estou com muita dor de cabeça...
Banhado, barbeado, meio vestido, Palha lia os jornaes, á espera do almoço, quando viu entrar a mulher no gabinete, um tanto pallida.
—Estás peior?
Sophia respondeu com um gesto dos labios, que tanto negava como affirmava. Palha acreditou que, pelo dia adeante, passaria o incommodo; a agitação da vespera, o jantar tarde... Depois, pediu que lhe deixasse acabar de ler um artigo relativo a certo negocio da praça. Era uma briga entre dous commerciantes, a proposito de uns saques; na vespera escrevêra um delles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa, disse elle acabando a leitura; e explicou longamente á mulher a questão dos saques, o mecanismo da cousa, a situação dos dous adversarios, os boatos da praça, tudo com o vocabulario technico. Sophia ouvia e suspirava; mas para o despotismo da profissão não ha suspiros de mulher, nem cortezia de homem. Felizmente, o almoço estava na mesa.
Ficando só, a nossa amiga, que apenas tomou um caldo, lá para as duas horas, foi sentar-se á porta de casa, no jardim. Naturalmente, voltou a pensar no lance da vespera. Não estava bem em si nem fóra de si, nem com Deus nem com o diabo. Arrependia-se de haver contado o episodio ao marido, e ao mesmo tempo irritava-se com as tentativas de explicação que este lhe deu. No meio das reflexões, ouviu distinctamente as palavras do major: «Olá! estão apreciando a lua?» como se as folhas as tivessem guardado, e repetido agora que a aragem começava a movel-as. Sophia teve um calefrio. Sequeira era indiscreto,—indiscreto em farejar e indagar das cousas alheias; sel-o-hia ao ponto de publical-as? Sophia considerava-se já objecto de suspeita ou de calumnia... Formava planos. Não visitaria ninguem; ou iria para fóra, para Nova Friburgo ou mais longe. A exigencia do marido em receber o Rubião, como d'antes, era excessiva; maiormente pela causa dada. Não querendo obedecer nem desobedecer, cuidava em deixar a cidade, pretextando o que quer que fosse.
—A culpa foi minha! suspirou ella comsigo.
A culpa eram as attenções especiaes com o homem, carinhos, lembranças, obsequios familiares, e, na vespera, aquelles olhos tão longamente pregados nelle... Se não fosse isso... Ia-se assim perdendo em reflexões multiplicadas. Tudo a aborrecia, plantas, moveis, uma cigarra que cantava, um rumor de vozes, na rua, outro de pratos, em casa, o andar das escravas, e até um pobre preto velho que, em frente á casa della, trepava com dificuldade um pedaço de morro. As cautellas do preto boliam-lhe com os nervos.
Nisto passou um rapaz alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente. Sophia cortejou-o tambem, um pouco espantada da pessoa e da acção.
—Quem é este sujeito? pensou ella.
E entrou a cogitar donde é que o conhecia, porque, em verdade, a cara não lhe era extranha, nem as maneiras, nem os olhos placidos e grandes. Onde é que o teria visto? Percorreu varias casas, sem acertar com a verdadeira; afinal pensou em certo baile,—no mez anterior,—em casa de um advogado que fazia annos. Era isso; viu-o lá, dansaram uma quadrilha, por simples condescendencia delle, que não dansava nunca; lembrava-se de lhe ter ouvido muitas cousas agradaveis, relativamente á belleza da mulher, que, dizia elle, consistia principalmente nos olhos e nos hombros. Os della, como sabemos, eram magnificos. E quasi não tratou de outra cousa,—os hombros e os olhos;—a proposito de uns e outros contou varias anecdotas succedidas com elle, algumas sem interesse, mas fallava tão bem! e o assumpto era tão della! É verdade; lembrava-se agora que, apenas elle a deixou, Palha veiu ter com ella, sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque ella não ouvira bem á pessoa que lh'o apresentara era Carlos Maria,—o proprio do almoço do nosso Rubião.
—É a primeira figura do salão, disse-lhe o marido com orgulho de vêr que se occupára tanto tempo com ella.
—Entre os homens, explicou Sophia.
—Entre as senhoras és tu, acudiu elle mirando-se no collo da mulher, e circulando depois os olhos pela sala, com uma expressão de posse e dominio, que a mulher já conhecia e que lhe fazia bem.
Quando acabou de recordar tudo, já iria longe o rapaz; ao menos, foi uma interrupção na serie de tedios que lhe tomavam a alma. Tinha uma dor nas costas, que se calára por instantes. Voltou logo, teimosa, aborrecida; Sophia reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Quiz ver se passava pelo somno, mas não pôde. Os pensamentos eram tão teimosos como a dor, e ainda mais ruins que ella. De quando em quando um bater de azas, rapido, quebrava o silencio: eram as pombas de uma casa visinha que tornavam ao pombal. Sophia a principio abriu os olhos, umas duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a cabeça, suppondo que era Carlos Maria que regressava; era um carteiro que lhe trazia uma carta da roça. Entregou-lh'a em mão. Ao sair do jardim, tropeçou o carteiro no pé de um banco e caiu de bruços, espalhando as cartas no chão. Sophia não pôde conter o riso.
Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassocego, a noite mal passada, o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inopportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os deuses de Homero,—e mais eram deuses,—debatiam uma vez no Olympo, gravemente, e até furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos colloquios de Thetis e Jupiter em favor de Achilles, interrompe o filho de Saturno. Jupiter troveja e ameaça; a esposa treme de colera. Os outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de nectar, e vae coxeando servir a todos, rompe no Olympo uma enorme gargalhada inextinguivel. Porque? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.
Ás vezes, nem é preciso que elle caia; outras vezes nem é sequer preciso que exista. Basta imaginal-o ou recordal-o. A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projecta-se no meio da paixão mais aborrecivel, e o sorriso vem ás vezes á tona da cara, leve que seja,—um nada. Deixemol-a rir, e ler a sua carta da roça.
Quinze dias depois, estando Rubião em casa, appareceu-lhe o marido de Sophia. Vinha perguntar-lhe o que era feito delle? onde se tinha mettido que não apparecia? estivera doente? ou já não cuidava dos pobres? Rubião mastigava as palavras, sem acabar de compor uma phrase unica. No meio disto, Palha viu que havia na sala um homem mirando os quadros, e abafou a voz.
—Desculpe, não vi que estava com visitas, disse elle.
—Desculpar o que? é um amigo, como o senhor. Doutor, aqui está o meu amigo Christiano de Almeida e Palha. Creio que já lhe fallei delle. Este é o meu amigo Dr. Camacho,—João de Souza Camacho.
Camacho fez um signal de cabeça, disse uma ou duas cousas, e quiz sair; mas Rubião acudiu, que não, senhor, que ficasse. Eram ambos amigos; e depois a lua não tardava a illuminar a bella enseada de Botafogo.
A lua,—outra vez a lua,—e esta phrase:Creio que já lhe fallei delle, atordoaram de tal geito o recem-chegado, que não lhe foi possivel proferir uma palavra durante algum tempo. Bom é accrescentar que o dono da casa tambem não sabia que dissesse. Estavam os tres sentados, Rubião no canapé, Palha e Camacho em cadeiras defronte um do outro. Camacho, que conservára a bengala na mão, pol-a verticalmente nos joelhos, batendo no nariz e olhando para o tecto. Fóra, rumor de carros, tropel de cavallos, e algumas vozes. Eram sete horas e meia da noite, ou mais, perto de oito. O silencio foi mais longo do que era licito na occasião; nem Rubião nem Palha davam por elle. Camacho é que, aborrecido, foi á janella, e exclamou dalli para os dous:
—Lá vem o luar entrando!
Rubião fez um gesto, Palha outro; mas quão differentes! Rubião era para transportar-se á janella; Palha ia a agarral-o pela gola. Cedia menos á divulgação possivel da aventura do que á lembrança da violencia com que elle pegára nas mãos da mulher para attrahil-a a si. Um e outro contiveram-se; logo depois, Rubião, cruzando a perna esquerda sobre a direita, voltou-se para o Palha, e perguntou-lhe:
—Sabe que vou deixal-os?
Tudo esperava o outro, menos isto. Dahi o espanto em que se dissolveu a colera; dahi tambem uma sombrinha de pezar, que é o que o leitor menos espera. Deixal-os? Naturalmente ia-se embora do Rio de Janeiro; era o castigo que a si mesmo impunha, pela acção ruim que praticára, em Santa Thereza; logo, vexára-se, arrependera-se... Não tinha cara de apparecer á esposa do amigo... Tal foi a primeira conclusão do Palha; mas vieram outras hypotheses... Por exemplo, a paixão podia persistir, e a sahida delle era um modo de affastar-se da pessoa amada... tambem podia acontecer que entrasse ahi algum plano de casamento.
A ultima hypothese trouxe á physionomia do Palha um elemento novo, que não sei como chame. Desappontamento? Já o elegante Garrett não achava outro termo para taes sensações, e nem por ser inglez o desprezava. Vá desappontamento. Misturem-lhe o espanto da noticia de separação, e a sombrinha de pezar; não se esqueçam da colera que primeiro trovejou surdamente, e não faltará quem ache que a alma deste homem é uma colxa de retalhos.
Póde ser; mas as colxas inteiriças são tão raras! O principal é que as cores se não desmintam umas ás outras,—quando não possam obedecer á symetria e regularidade. Era o caso do nosso homem. Tinha o aspecto baralhado á primeira vista; mas attentando bem, por mais oppostos que fossem os matizes, lá se achava a unidade moral da pessoa.
Mas, porque é que Rubião ia deixal-os? Que razão? Que negocio?
No dia seguinte ao do caso de Santa Thereza, acordou oppresso. Almoçou mal. Não cuidou de nada; calçou as chinellas africanas sem interesse, não cuidou das cousas bellas, ou simplesmente ricas, que lhe enchiam a casa. Não pôde supportar as caricias do cão mais de dous minutos; tão depressa o recebeu na sala, como o mandou embora. Elle é que enganou os criados e tornou ao amo; mas, tal foi o tabefe que recebeu na orelha, que não repetiu os affagos: estirou-se no chão com os olhos no amigo.
Rubião estava arrependido, irritado, envergonhado. No cap. X deste livro ficou escripto que os remorsos deste homem eram faceis, mas de pouca dura; faltou explicar a natureza das acções que os podiam fazer curtos ou compridos. Lá tratava-se daquella carta escripta pelo finado Quincas Borba, tão expressiva do estado mental do autor, e que elle occultou do medico, podendo ser util á sciencia ou á justiça. Se entrega a carta, não teria remorsos, nem talvez legado,—o pequeno legado que então esperava do enfermo. No caso presente, era uma tentativa de adulterio. Certo que elle suspirava ha muito, e tinha impetos interiores; mas foi só a animação indiscreta da moça, e a propria excitação do momento que o levou a fazer a declaração repellida. Passados os vapores da noite, não era só vexame que sentia, mas tambem remorsos. A moral é uma, os peccados são differentes.
Saltemos por cima de tudo o que elle sentiu e pensou durante os primeiros dias. Chegou a esperar alguma cousa no domingo, um bilhete como o do anterior,—com morangos ou sem elles. Na segunda feira estava determinado a ir a Minas passar uns dous mezes; tinha necessidade de restaurar a alma aos ventos de Barbacena. Não contava com o Dr. Camacho.
—Deixar-nos? perguntou finalmente o Palha.
—Creio que sim; vou a Minas.
Camacho, voltando da janella, sentou-se na cadeira em que estivera antes.
—Que Minas? disse elle sorrindo.—Deixe-se de Minas por ora; lá irá quando fôr preciso, e não se demorará muito que o seja.
Palha não ficou menos admirado das palavras deste que das do outro. Donde surgira semelhante homem, com ar de dominar o Rubião? Olhou para elle; era pessôa de estatura media, rosto estreito, pouca barba, queixo comprido, orelhas de pavilhão largo e aberto. Foi tudo o que pôde observar rapidamente. Viu tambem que a roupa era fina, sem luxo, e que os pés não estavam mal calçados. Não examinou os olhos, nem o sorriso, nem as maneiras; não chegou a reparar no principio de calva, nem nas mãos magras e cabelludas.