Chapter 3

Camacho era homem politico. Formado em direito em 1844, pela faculdade do Recife, voltara para a provincia natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já na academia, escrevera um jornal politico, sem partido definido, mas com muitas ideias colhidas aqui e alli, e expostas em estylo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros fructos de Camacho fez um indice dos seus principios e aspirações:—ordem pela liberdade, liberdade pela ordem;—a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si propria;—a vida dos principios é a necessidade moral das nações novas como das nações velhas;—dai-me boas finanças, dar-vos-hei boa politica(Barão Louis);—mergulhemos no Jordão constitucional;—dai passagem aos valentes, homem do poder; elles serão os vossos sustentaculos, etc, etc.

Na provincia natal, essa ordem de ideias teve de ceder a outras; e o mesmo se pode dizer do estylo. Fundou alli um jornal; mas, sendo a politica local menos abstracta, Camacho aparou as azas e desceu dos intermundios de Epicuro ás nomeações de delegados, ás obras provinciaes, ás gratificações, á luta com a folha adversa, e aos nomes proprios e improprios. A adjectivação exigiu grande apuro. Nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, foram os termos obrigados, emquanto atacou o governo; mas, logo que, por uma mudança de presidente, passou a defendel-o, as qualificações mudaram tambem: energico, illustrado, justiceiro, fiel aos principios, verdadeira gloria da administração, etc., etc. Esse tiroteio durou tres annos. No fim delles, a paixão politica dominava a alma do joven bacharel.

Membro da assemblea provincial, logo depois da camara dos deputados, presidente de uma provincia de segunda ordem, onde, por natural mudança do destino, leu nas folhas da opposição todos os nomes que escrevera outr'ora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, Camacho teve dias grandes e pequenos, andou fóra e dentro da camara, fallou, escreveu, lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital do imperio. Deputado da conciliação dos partidos, viu governar o marquez de Paraná, e instou por algumas nomeações, em que foi attendido; mas, se é certo que o marquez lhe pedia conselhos, e usava confiar-lhe os planos que trazia, ninguem podia affirmal-o, porque elle, em se tratando da propria consideração, mentia sem difficuldade.

O que se pode crer é que queria ser ministro, e trabalhou por obtel-o. Aggregou-se a varios grupos, segundo lhe parecia acertado; na camara discorria largamente sobre materias de administração, accumulava algarismos, artigos de legislação, pedaços de relatorio, trechos de autores francezes, embora mal traduzidos. Mas, entre a espiga e a mão, está o muro de que falla o poeta; e por mais que o nosso homem estendesse a mão do seu desejo para colhel-a, a espiga la ficava do lado opposto, d'onde a arrancavam outras mãos, mais ou menos soffregas, ou até descuidadas.

Ha solteirões na politica. Camacho ia entrando nessa categoria melancolica, em que todos os sonhos nupciaes se evaporam com o tempo; mas não tinha a superioridade de abandonal-a. Ninguem que organisasse um gabinete se atrevia, ainda que o desejasse, a dar-lhe uma pasta. Camacho ia-se sentindo cair; para simular influencia, tratava familiarmente os poderosos do dia, contava em voz alta as visitas aos ministros e a outras dignidades do Estado; mas nem por isso dava um passo adeante.

Não lhe faltava que comer. A familia era pequena; mulher, uma filha, que ia nos dezoito annos, um afilhado de nove, e para isso dava a advocacia. Mas trazia a politica no sangue; não lia, quasi não fallava de outra cousa. De litteratura, sciencias naturaes, historia, philosophia, artes, não se preoccupava absolutamente nada. Tambem não conhecia grandes cousas de direito; guardava algum do que lhe dera a academia, e mais a legislação posterior e as praticas forenses. Com isso ia arrazoando e ganhando.

Dias antes, indo passar a noite em casa de um conselheiro, viu alli Rubião. Fallava-se da chamada dos conservadores ao poder, e da dissolução da camara. Rubião assistira á sessão em que o ministerio Itaborahy pediu os orçamentos. Tremia ainda ao contar as suas impressões, descrevia a camara, tribunas, galerias cheias que não cabia um alfinete, o discurso de José Bonifacio, a moção, a votação... Toda essa narrativa nascia de uma alma simples; era claro. A desordem dos gestos, o calor da palavra tinham a eloquencia da sinceridade. Camacho escutava-o attento. Teve modo de o levar a um canto da janella, e fazer-lhe considerações graves sobre a situação. Rubião opinava de cabeça, ou por palavras soltas e approbatorias.

—Os conservadores não se demoram no poder, disse-lhe finalmente Camacho.

—Não?

—Não; elles não querem a guerra, e tem de cahir por força. Veja como andei bem no programma da folha.

—Que folha?

—Conversaremos depois.

No dia seguinte, almoçaram noHotel de la Bourse, a convite de Camacho. Este referiu ao outro que fundára, mezes antes, uma folha com o unico programma de continuar a guerra a todo o transe... Andava muito accesa a dissenção entre liberaes; pareceu-lhe que o melhor modo de servir ao proprio partido era dar-lhe um terreno neutro e nacional.

—E isto agora serve-nos, concluiu elle, porque o governo inclina-se á paz. Já amanhã sae um artigo meu, furibundo.

Rubião ouvia tudo, quasi sem tirar os olhos do outro, comendo rapidamente, nos intervallos em que o proprio Camacho inclinava a cabeça ao prato. Folgava de vêr-se confidente politico; e, para dizer tudo, a ideia de entrar em luta para colher alguma cousa depois, um logar na camara, por exemplo, espanejou as azas de ouro no cerebro do nosso amigo. Camacho não lhe fallou em mais nada; procurou-o no dia seguinte, e não o achou. Agora, pouco depois de entrar, vinha o Palha interrompel-os.

—Sim, mas eu preciso ir a Minas, teimou Rubião.

—Para que? perguntou Camacho.

E o Palha fez-lhe egual pergunta. Para que iria a Minas, salvo se era negocio de pouco tempo. Ou já estava aborrecido da Corte?

—Não, aborrecido não estou; ao contrario...

Ao contrario, gostava muito della; mas a terra natal—por menos bonita que seja,—um logarejo,—dá saudades á gente;—ainda mais quando a pessoa veiu de lá homem. Queria ver Barbacena. E Barbacena era a primeira terra do mundo. Durante alguns minutos, Rubião pode subtrahir-se á acção dos outros. Tinha a terra natal em si mesmo: ambições, vaidades da rua, prazeres ephemeros, tudo cedia ao mineiro saudoso da provincia. Se a alma delle foi alguma vez dissimulada, e escutou a voz do interesse, agora era a simples alma de um homem arrependido do goso, e mal accommodado na propria riqueza.

Palha e Camacho olharam um para o outro... Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre as duas consciencias. Nenhuma disse o seu segredo, mas viram os nomes no cartão, e comprimentaram-se. Sim, era preciso impedir que o Rubião sahisse; Minas podia retel-o. Concordaram que lá fosse, mas depois,—alguns mezes depois;—e talvez o Palha fosse tambem. Nunca vira Minas; seria excellente occasião.

—O senhor? perguntou Rubião.

—Sim, eu; ha muito que desejo ir a Minas e a S. Paulo. Olhe, ha mais de anno que estivemos vae não vae... Sophia é companheira para estas cousas. Lembra-se quando nos encontrámos no trem da estrada de ferro?... Vinhamos de Vassouras; mas esta ideia de Minas nunca nos deixou. Iremos os tres.

Rubião agarrou-se ás eleições proximas; mas aqui interveiu Camacho, affirmando que não era preciso, que a serpente devia ser esmagada cá mesmo na capital; não faltaria tempo depois para ir matar saudades e receber a recompensa... Rubião agitou-se no canapé. A recompensa era, com certeza, o diploma de deputado. Visão magnifica, ambição que nunca teve, quando era um pobre diabo... Eil-a que o toma, que lhe aguça todos os appetites de grandeza e gloria... Entretanto, ainda insistiu por poucos dias de viagem, e, para ser exacto, devo jurar que o fez sem desejo de que lhe aceitassem a a proposta.

A lua estava então brilhante; a enseada, vista pelas janellas, apresentava aquelle aspecto seductor que nenhum carioca póde crêr que exista em outra parte do mundo. A figura de Sophia passou ao longe, na encosta do morro, e diluiu-se no luar; a ultima sessão da camara, tumultuosa, resoou aos ouvidos do Rubião... Camacho foi até á janella e voltou logo.

—Mas quantos dias? perguntou elle.

—Isso é que não sei, mas poucos.

—Em todo o caso, amanhã fallaremos.

Camacho despediu-se. Palha ficou ainda alguns instantes, para dizer-lhe que seria exquisito voltar a Minas, sem que elles liquidassem as contas... Rubião interrompeu-o. Contas? Quem lhe fallava em contas?

—Bem se vê que o senhor não é homem de comercio, redarguiu Christiano.

Não sou, é verdade; mas as contas pagam-se quando se podem. Entre nós, tem sido isto. Ou, quem sabe? Seja franco; precisa de algum dinheiro?

Não, não preciso. Obrigado. Tenho que propor um negocio, mas hade ser mais demoradamente. Vim vel-o para não botar annuncios nos jornaes: «Desappareceu um amigo, por nome Rubião, que tem um cachorro...»

Rubião gostou da facecia. Palha saiu e elle foi accompanhal-o até a esquina da rua marquez de Abrantes. Ao despedir-se prometteu visital-o em Santa Thereza, antes de ir a Minas.

Pobre Minas! Rubião voltou para casa, sosinho, a passo lento, pensando no modo de lá não ir agora. E as palavras dos dous andavam-lhe no cerebro, como peixinhos de ouro em globo de vidro, abaixo, acima, rutilantes: «aqui é que se deve esmagar a cabeça da cobra;»—«Sophia é companheira para estas cousas.» Pobre Minas!

No dia seguinte recebeu um jornal que nunca vira antes, aAtalaia.O artigo editorial desancava o ministerio; a conclusão, porém estendia-se a todos os partidos e á nação inteira:—Mergulhemos no Jordão constitucional.Rubião achou-o excellente; tratou de ver onde se imprimia a folha para assignal-a. Era na rua da Ajuda; lá foi, logo que saiu de casa; lá soube que o redactor era o Dr. Camacho. Correu ao escriptorio delle.

Mas, em caminho na mesma rua:

—Deolindo! Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher á porta de uma colchoaria.

Rubião ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que descia e uma creança de tres ou quatro annos que atravessava a rua. Os cavallos vinham quasi em cima della, por mais que o cocheiro os sofreasse. Rubião atirou-se aos cavallos e arrancou o menino ao perigo. A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião, não podia fallar; estava pallida, tremula, e chorava. Algumas pessoas puzeram-se a altercar com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando. O cocheiro obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veiu fóra, já o carro dobrava a esquina de S. José.

—Ia quasi morrendo, disse a mãe. Se não fosse este senhor, não sei o que seria do meu pobre filho.

Era uma novidade no quarteirão. Visinhos entravam a vêr o que succedêra ao pequeno; na rua, creanças e moleques, espiavam pasmados. A creança tinha apenas um arranhão no hombro esquerdo, produzido pela queda.

—Não foi nada, disse Rubião; em todo caso, não deixem o menino sair á rua; é muito pequenino.

—Obrigado, acudiu o pae; mas onde está o seu chapéo?

Rubião advertiu então que perdêra o chapéo. Um rapazinho esfarrapado, que o apanhára, estava á porta da colchoaria, aguardando a occasião de restituil-o. Rubião deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o rapazinho não cuidára, ao ir apanhar o chapéo. Não o apanhou senão para ter uma parte na gloria e nos serviços. Entretanto, aceitou os cobres com prazer; foi talvez a primeira ideia que lhe deram da venalidade das acções.

—Mas, espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?

Com effeito, a mão do nosso amigo tinha sangue; havia um ferimento na palma, cousa pequena, e que elle não podia saber se era obra do dente do cavallo, se de algum ferrão das correias. A verdade é que só agora começou a sentil-o. A mãe do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha, apezar de dizer o Rubião que não era nada, que não valia a pena. Veiu a agua; emquanto elle lavava a mão, o colchoeiro correu á pharmacia proxima, e trouxe um pouco de arnica. Rubião curou-se, atou o lenço na mão; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéo; e, quando elle sahiu, um e outro agradeceram-lhe muito o beneficio da salvação do filho. A outra gente, que estava á porta e na calçada, fez-lhe alas.

—Que é que tem ahi na mão? inquiriu Camacho, logo que Rubião entrou no escriptorio.

Rubião narrou o incidente da rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas perguntas sobre a creança, os paes, o numero da casa; mas, o proprio Rubião pôz termo ás respostas.

—Não sabe, ao menos, o nome do pequeno?

—Ouvi chamar Deolindo. Vamos ao que importa. Venho assignar a sua folha; recebi um numero, e quero contribuir para...

Camacho acudiu que não precisava de assignaturas. Em assignaturas, a folha ia bem. O que ella precisava era de material typographico e desenvolvimento no texto; ampliar a materia, pôr-lhe mais noticiario, variedades, traducção de algum romance para o folhetim, movimento do porto, da praça, etc. Tinha annuncios, como viu.

—Sim, senhor.

—Estou com o capital quasi subscripto. Bastam dez pessoas, e já somos oito; eu e mais sete. Faltam dous. Com mais duas pessoas está completo o capital.

—Quanto será? pensou Rubião.

Camacho batia com um canivete na beira da escrevaninha, calado, olhando ás furtadellas para o outro. Rubião passou uma vista á sala, poucos moveis, alguns autos sobre um tamborete ao pé do advogado, estante com livros, Lobão, Pereira e Souza, Dalloz,Ordenações do reino, um retrato na parede, deante da escrevaninha.

—Conhece? disse Camacho apontando para o retrato.

—Não, senhor.

—Veja se conhece.

—Não posso saber. Nunes Machado?

—Não, acudiu o ex-deputado dando á cara um ar pesaroso. Não pude obter um bom retrato delle. Vendem-se ahi umas lithographias que me não parecem boas. Não; aquelle é o marquez.

—De Barbacena?

—Não, de Paraná; é o grande marquez, meu particular amigo. Tentou conciliar os partidos, e foi por isso que me achei com elle. Morreu cedo; a obra não pôde ir adeante. Hoje, se elle a quizesse, ter-me-hia contra si. Não! nada de conciliações; guerra de morte. Havemos de destruil-os; leia aAtalaia, meu bom companheiro de lutas; recebel-a-ha em casa...

—Não, senhor.

—Porque não?

Rubião baixou os olhos deante do nariz interrogativo do Camacho.

—Não, senhor; sou firme, desejo ajudar os amigos. Receber a folha de graça...

—Mas, se já lhe disse que de assignaturas vamos bem, retorquiu Camacho.

—Sim, senhor, mas não disse tambem que faltam duas pessoas para o capital?

—Duas, sim; temos oito...

—Quanto é o capital?

—O capital é de cincoenta contos; cinco por pessoa.

—Pois entro com cinco.

Camacho agradeceu-lh'o em nome das ideias. Tinha intenção de convidal-o para entrar com elles; era um direito adquirido pela convicção, pela fidelidade, pelo amor aos negocios publicos do seu recente amigo. Uma vez que espontaneamente se alistou, pedia-lhe que o desculpasse... Mostrou-lhe a lista dos outros; Camacho era o primeiro; entrava com a folha, o material existente, as assignaturas, e o trabalho herculeo... Ia a emendar-se, mas repetiu corajosamente: trabalho herculeo. Podia dizer que o era, sem deslustre, nem mentira; esganou cobras, em creança. Já agora era um vicio; gostava da luta, morreria nella, envolvido na bandeira...

Rubião despediu-se. No corredor passou por elle uma senhora alta, vestida de preto, com um arruido de seda e vidrilhos. Indo a descer a escada, ouviu a voz do Camacho, mais alta do que até então:—Oh! senhora baroneza!

No primeiro degráo parou. A voz argentina da senhora começou a dizer as primeiras palavras; era uma demanda... Baroneza! E o nosso Rubião ia descendo a custo, de manso, para não parecer que ficára ouvindo. O ar mettia-lhe pelo nariz acima um aroma fino e raro, cousa de tontear, o aroma deixado por ella. Baroneza! Chegou á porta da rua; viu parado umcoupê; o lacaio, em pé, na calçada, o cocheiro na almofada, olhando; fardados ambos... Que novidade podia haver em tudo isso? Nenhuma. Uma senhora titular, cheirosa e rica, talvez demandista para matar o tedio. Mas o caso particular é que elle, Rubião, sem saber porque, e apezar do seu proprio luxo, sentia-se o mesmo antigo professor de Barbacena...

Na rua, encontrou Sophia com uma senhora edosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições desta; todo elle foi pouco para Sophia. Fallaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu caminho. Rubião parou adeante, e olhou para traz; mas as tres senhoras iam andando sem voltar a cabeça. Depois do jantar, comsigo:

—Irei lá hoje?

Reflexionou muito sem adeantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo exquisito; mas lembrava-se que sorriu,—pouco, mas sorriu. Poz o caso á sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, nopoufcentral, olhando. Veiu logo um tilbury da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Thereza. Mas aqui a consciencia reagiu; queria os proprios termos da proposta: um carro. Tilbury não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma victoria... D'ahi a pouco vieram chegando da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.

Sophia deu-lhe a mão gentilmente, sem sombra de rancor. As duas senhoras do passeio estavam com ella, em trajes caseiros; apresentou-as. A moça era prima, a velha era tia,—aquella tia da roça, autora da carta que Sophia recebeu no jardim das mãos do carteiro, que logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta; tinha uma fazendola, alguns escravos e dividas, que lhe deixára o marido, alem das saudades. A filha era Maria Benedicta,—nome que a vexava, por ser de velha, dizia ella; mas a mãe retorquia-lhe que as velhas foram algum dia moças e meninas, e que os nomes adequados ás pessoas eram cousas de poetas e contadores de historias. Maria Benedicta era o nome da avó della, afilhada de Luiz de Vasconcellos, o vice-rei. Que queria mais?

Contaram isto ao Rubião, sem que ella se vexasse. Sophia, ou por attenuar o caso, ou por outro motivo, accrescentou que os mais feios nomes eram lindos, segundo a pessoa. Maria Benedicta era lindissimo.

—Não lhe parece? concluiu voltando-se para Rubião.

—Deixa de caçoada, prima! acudiu Maria Benedicta, rindo.

Podemos crer que a velha nem Rubião entenderam o dito,—a velha, porque começava a cochilar,—Rubião porque affagava um cãosinho que tinham dado a Sophia, pequeno, delgado, leve, boliçoso, olhos negros, com um guizo ao pescoço. Mas, insistindo a dona da casa, elle respondeu que sim, sem saber o que era. Maria Benedicta deu um muchocho. Em verdade, não era bonita; não lhe pedissem olhos que fascinam, nem d'essas boccas que segredam alguma cousa, ainda caladas. Altinha, mãos grandes, grandes olhos attonitos quando escutavam somente, mas que sabiam fallar, se a bocca fallava tambem,—ahi fica o principal das feições da moça. Era natural, sem acanho de roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia as incoherencias do vestido.

Nascera na roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguassú. De longe em longe vinha á cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos dous primeiros, já estava anciosa por tornar a casa. A educação foi summaria: ler, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos ultimos tempos (ia em dezenove annos), Sophia apertou com ella para apprender piano; a tia consentiu; Maria Benedicta veiu para a casa da prima, e alli esteve uns dezoito dias. Não pôde mais; doeram-lhe as saudades da mãe e voltou para a roça, deixando consternado o professor, que annunciou n'ella, desde os primeiros dias, um grande talento musical.

—Oh! sem duvida, um grande talento!

Maria Benedicta riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pode ver a serio o homem. Ás vezes, no meio de uma licção, deitava a rir; Sophia contrahia as sobrancelhas, a modo de ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia de ser alguma lembrança de moça, e continuava a licção. Nem piano nem francez,—outra lacuna, que Sophia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não comprehendia a consternação da sobrinha. Para que francez? A sobrinha dizia-lhe que era indispensavel para conversar, para ir ás lojas, para ler um romance...

—Sempre fui feliz sem francez, respondia a velha; e os meia-linguas da roça são a mesma cousa: não vivem peior que os creoulos.

Um dia accrescentou:

—Nem por isso lhe hão de faltar noivos. Póde casar, já lhe disse que póde casar quando quizer, que eu tambem casei; e até deixar-me na roça, sosinha, morrer como uma besta velha...

—Mamãe!

—Não tenha pena; é só apparecer o noivo. Em apparecendo, vá com elle, e deixe-me ficar. Olha Maria José o que fez commigo? Vive lá pelo Ceará...

—Mas se o marido é juiz de direito, ponderava Sophia.

—Torto que seja! Para mim é a mesma cousa. Cá fica o frangalho da velha. Casa, Maria Benedicta, casa depressa; eu morrerei com Deus... Não terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que é mãe de todos. Casa, anda, casa!

Toda essa rabugem era calculo; tinha em mira arredar a filha do matrimonio, excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos, retardar-lh'o. Não creio que revelasse esse peccado ao confessor, nem que chegasse a entendel-o: era obra de um egoismo edoso e melindroso. D . Maria Augusta fora longamente querida; a mãe era douda por ella, o marido amou-a até o ultimo dia com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as suas saudades filiaes e matrimoniaes foram postas na cabeça das duas filhas. Uma fugira-lhe, casando. Ameaçada da solidão, se a outra casasse tambem, D. Maria Augusta fazia tudo o que podia por evitar o desastre.

Curta foi a visita de Rubião. As nove horas levantou-se elle discretamente, esperando qualquer palavra de Sophia, um pedido para que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido que já vinha, um espanto que fosse:Já!mas nem isso. Sophia estendeu-lhe a mão, em que elle mal pôde tocar. Comtudo, a moça, durante a visita, mostrou-se tão natural, tão sem azedume... Não teve seguramente os olhos longos e loquazes, como d'antes; parecia até que não houvera nada, nem bem nem mal, nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não achava palavras; ella achava todas as que queria, e, se era preciso olhar para elle, fazia-o direitamente, tranquillamente...

—Lembranças ao nosso Palha, murmurou elle de chapéo e bengala na mão.

—Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; hade ser elle.

Não era elle; era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver alli, mas achou logo que a presença da fazendeira e da filha explicaria tudo; podia ser até que fossem aparentados.

—Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver sentado ao pé de D. Maria Augusta.

—Ah! respondeu o outro, olhando para o retrato de Sophia.

Sophia foi até á porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que o marido ficaria com pena de não estar em casa; mas que a visita era imperiosa. Negocios... Iria pedir-lhe desculpa.

—Que desculpa? acudiu Rubião.

Parece que quiz dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sophia e a reverencia que esta lhe fez, deram-lhe o signal de despedida. Rubião inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria, na sala:

—Vou denunciar seu marido, minha senhora; é homem de muito mau gosto, ele mauvais goût mène au crime...

Rubião parou.

—Porque? disse Sophia.

—Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é muito mais bella, infinitamente mais bella que a pintura... Comparem, minhas senhoras.

—Como elle diz aquellas cousas tão naturalmente! pensou Rubião, em casa, relembrando as palavras de Carlos Maria. Desfazer no retrato só para elogiar a pessoa! Note-se que o retrato é muito parecido...

De manhã, na cama, teve um sobresalto. O primeiro jornal que abriu foi aAtalaia.Leu o artigo editorial, uma correspondencia, e algumas noticias. De repente, deu com o seu nome.

—Que é isto?

Era o seu proprio nome impresso, rutilante, multiplicado, nada menos que uma noticia do caso da rua da Ajuda. Depois do sobresalto, aborrecimento. Que diacho de ideia aquella de imprimir uma cousa particular, contada em confiança? Não quiz ler nada; desde que percebeu o que era, deitou a folha ao chão, e pegou em outra. Infelizmente, perdera a serenidade, lia por alto, pulava algumas cousas, não entendia outras, ou dava por si no fim de vinte linhas sem saber como viera escorregando até alli...

Ao levantar-se, sentou-se na poltrona, ao pé da cama, e pegou daAtalaia.Lançou os olhos pela noticia: era mais de uma columna. Columna e tanto para cousa tão diminuta! pensou comsigo. E afim de ver como é que Camacho enchera o papel, leu tudo, um pouco ás pressas, vexado dos adjectivos e da descripção dramatica do caso.

—Foi bem feito! disse em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo?

Passou ao banho, vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice da folha, acanhado com a publicação de um negocio, que elle reputava minimo, e ainda mais pelo encarecimento que lhe dera o escriptor, como se se tratasse de dizer bem ou mal em politica. Ao café, pegou novamente na folha, para ler outras cousas, nomeações do governo, um assassinato em Garanhuns, meteorologia, até que a vista desastrada foi cair na noticia, e leu-a então com pausa. Aqui confessou Rubião que bem podia crer na sinceridade do escriptor. O enthusiasmo da linguagem explicava-se pela impressão que lhe ficou do facto; tal foi ella que lhe não permittiu ser mais sobrio. Naturalmente é o que foi. Rubião recordou a sua entrada no escriptorio do Camacho, o modo porque fallou; e dahi tornou atraz, ao proprio acto. Estirado no gabinete, evocou a scena: o menino, o carro, os cavallos, o grito, o salto que deu, levado de um impeto, irresistivel:—Agora mesmo não podia explicar o negocio; foi como se lhe tivesse passado uma cousa pelos olhos... Atirou-se á creança, e aos cavallos, cego e surdo, sem attender ao proprio risco... E podia ficar alli, embaixo dos animaes, esmagado pelas rodas, morto ou ferido; ferido que fosse... Podia ou não podia? Era impossivel negar que a situação foi grave... A prova é que os paes e a visinhança...

Rubião interrompeu as reflexões para ler ainda a noticia. Que era bem escripta, era. Trechos havia que releu com muita satisfação. O diabo do homem parecia ter assistido á scena. Que narração! que viveza de estylo! Alguns pontos estavam accrescentados,—confusão de memoria,—mas o accrescimo não ficava mal. E certo orgulho que lhe notou ao repetir-lhe o nome? «O nosso amigo, o nosso distinctissimo amigo, o nosso valente amigo...»

Ao almoço, riu-se de si mesmo; achou-se mortificado em demasia. Afinal, que tinha que o outro désse aos seus leitores uma cousa que era verdadeira, que era interessante, dramatica,—e, seguramente,—não vulgar? Sahindo, recebeu alguns comprimentos; Freitas chamou-lhe S. Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia, diminuia-se, não era nada...

—Nada? replicou alguem. Dê-me muitos desses nadas... Salvar uma creança com risco da propria vida...

Rubião ia concordando, ouvindo, sorrindo; contava a scena a alguns curiosos, que a queriam da propria bocca do autor. Certos ouvintes respondiam com proezas suas,—um que salvara uma vez um homem, outro uma menina, prestes a afogar-se no boqueirão do Passeio, estando a tomar banho. Vinham tambem suicidios malogrados, por intervenção do ouvinte, que tomou a pistola ao infeliz, e fel-o jurar... Cada gloriasinha occulta picava o ovo, e punha a cabeça de fóra, olho aberto, sem pennas, em volta da gloria maxima do Rubião. Tambem teve invejosos, alguns que nem o conheciam, só por ouvil-o louvar em voz alta. Rubião foi agradecer a noticia ao Camacho, não sem alguma censura pelo abuso de confiança, mas uma censura molle, ao canto da bocca... D'alli foi comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a noticia; elle, a conselho do Freitas, fel-a reimprimir nosa pedidosdoJornal do Commercio, interlinhada.

Maria Benedicta consentiu finalmente em apprender francez e piano. Durante quatro dias a prima teimou com ella, a todas as horas, de tal arte e maneira, que a mãe da moça resolveu appressar a volta á fazenda, para evitar que ella acabasse aceitando. A filha resistiu muito; respondia que eram cousas superfluas, que moça de roça não precisa de prendas da cidade. Uma noite, porém, estando alli Carlos Maria, pediu-lhe este que tocasse alguma cousa; Maria Benedicta fez-se vermelha. Sophia acudiu com uma mentira:

—Não lhe peça isso; ainda não tocou depois que veiu. Diz que agora só toca para os roceiros.

—Pois faça de conta que somos roceiros, insistiu o moço.

Felizmente, fallou logo de outra cousa, do baile da baroneza do Piauhy (casualmente, a mesma que o nosso amigo Rubião encontrou no escriptorio do Camacho), um baile esplendido, oh! esplendido! A baroneza presava-o muito. No dia seguinte, Maria Benedicta declarou á prima que estava prompta a apprender piano e francez, rabeca e até russo, se quizesse. A difficuldade era vencer a mãe. Esta, quando soube da resolução da filha, poz as mãos na cabeça. Que francez? que piano? Bradou que não, ou então que deixasse de ser sua filha; podia ficar, tocar, cantar, fallar cabinda ou a lingua do diabo que os levasse a todos. Palha é que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por mais superfluas que lhe parecessem aquellas prendas, eram o minimo dos adornos de uma educação de sala...

—Mas eu criei minha filha na roça e para a roça, interrompeu a tia.

—Para a roça? Quem sabe lá para que cria os filhos? Meu pae destinara-me a padre; é por isso que arranho algum latim. A senhora não hade viver sempre; os seus negocios andam atrapalhados. Pode acontecer que Maria Benedicta fique ao desamparo... Ao desamparo, não digo; emquanto vivermos somos todos uma só pessoa. Mas não é melhor prevenir? Podia ser até que, se lhe faltassemos todos, ella vivesse á larga, só com ensinar francez e piano... Basta que os saiba para estar em condições melhores. É bonita, como a senhora foi no seu tempo; e possue raras qualidades moraes. Pode achar marido rico... Sabe a senhora se já tenho alguem em vista, pessoa séria?

—Sim? Então ella vae apprender francez, piano e namoro?

—Que namoro? Fallo-lhe de pensamentos intimos, de um plano que me parece adequado á felicidade della e de sua mãe. Pois eu havia... Ora, tia Augusta!

Palha mostrou-se tão mortificado, que a tia deixou o tom aspero pelo tom secco. Resistiu ainda; mas a noite deu-lhe bons conselhos O estado dos seus negocios, e a possibilidade de um genro abastado fizeram mais que outras razões. Os melhores genros da roça alliavam-se a outras fazendas, a familias de representação e riqueza segura. Dous dias depois acharam ummodus vivendi: Maria Benedicta ficaria com a prima; iriam de quando em quando á roça, e a tia tambem viria á capital, para vel-os. Palha chegou a dizer que, logo que o estado da praça o permittisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negocios e transportal-a para aqui. Mas a isto a boa senhora abanou a cabeça.

Não se pense que tudo isso foi tão facil como ahi fica escripto. Na pratica, vieram os obices, amofinações, saudades, rebelliões de Maria Benedicta. Dezoito dias depois da volta da mãe á fazenda, quiz ir visital-a, e a prima acompanhou-a; estiveram lá uma semana. A mãe, dous mezes depois, veiu passar uns dias aqui. Sophia acostumava habilmente a prima ás distracções da cidade; theatros, visitas, passeios, reuniões em casa, vestidos novos, chapéos lindos, joias. Maria Benedicta era mulher, posto que mulher exquisita; gostou de taes cousas, mas tinha para si que, logo que quizesse, podia arrebentar todos esses liames, e andar para a roça. A roça vinha ter com ella, ás vezes, em sonho ou simples devaneio. Depois dos primeiros saráos, quando voltava para casa, não eram as sensações da noite que lhe enchiam a alma, eram as saudades de Iguassú. Cresciam-lhe mais a certas horas do dia, quando a quietação da casa e da rua era completa. Então batia as azas para a varanda da velha casa, onde bebia café, ao pé da mãe; pensava na escravaria, nos moveis antigos, nas bonitas chinellas que lhe mandara o padrinho, um fazendeiro rico de S. João d'El-rey,—e que lá ficaram em casa. Sophia não consentiu que ella as trouxesse.

Os mestres de francez e piano eram homens sabedores do officio. Sophia teve modo de dizer-lhes em particular que a prima vexava-se de apprender tão tarde, e pediu-lhes que não fallassem nunca de tal discipula. Prometteram que sim; o de piano apenas referiu o pedido a alguns collegas d'arte, que lhe acharam graça, e contaram outras anedoctas da clientela. O certo é que Maria Benedicta apprendia com singular facilidade, estudava com afinco, quasi todas as horas, a tal ponto que a mesma prima julgava acertado interrompel-a.

—Descança, filha de Deus!

—Deixa recobrar o tempo perdido, respondia ella rindo.

Então Sophia inventava passeios, á toa, para fazel-a descançar. Ora um bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedicta não perdia tempo: lia as taboletas francezas, e perguntava pelos substantivos novos, que a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram, tão estrictamente adequado era o seu vocabulario ás cousas do vestido, da sala e do galanteio.

Mas não era só nessas disciplinas que Maria Benedicta fazia progressos rapidos. A pessoa ajustára-se ao meio, mais depressa do que fariam crer o gosto natural e a vida da roça. Já competia com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e não sei que expressão particular que, para assim dizer, dava côr a todas as linhas e gestos da figura. Não obstante essa differença, é certo que a outra era vista e notada ao pé della, de tal geito que Sophia, que começára por louval-a em toda a parte, não a deslouvava agora, mas ouvia calada as admirações. Fallava bem;—mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus «calundús». Contradansava sem vida, que é a perfeição desse genero de recreio; gostava muito de ver polkar e valsar. Sophia, imaginando que era por medo que a prima não valsava nem polkava, quiz dar-lhe algumas lições em casa, sosinhas, com o marido ao piano; mas a prima recusava sempre.

—Isso é ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sophia.

Maria Benedicta sorriu de um modo tão particular, que a outra não insistiu. Não foi riso de vexame, nem de despeito, nem de desdem. Desdem, porque? Comtudo, é certo que o riso parecia vir de cima. Não menos o é que Sophia polkava e valsava com ardor, e ninguem se pendurava melhor do hombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro dansar, só valsava com Sophia,—dous ou tres giros, dizia elle;—Maria Benedicta contou uma noite quinze minutos.

Os quinze minutos foram contados no relogio do Rubião, que estava ao pé da Maria Benedicta, e a quem ella perguntou duas vezes que horas eram, no principio e no fim da valsa. A propria moça inclinou-se para ver bem o ponteiro dos minutos.

—Está com somno? perguntou Rubião.

Maria Benedicta olhou para elle de soslaio. Viu-lhe o rosto placido, sem intenção nem riso.

—Não, respondeu; digo-lhe até que estou com medo que prima Sophia se lembre de ir cedo para casa.

—Não vae cedo. Já acabou a desculpa de Santa Thereza, por causa da subida. A casa fica perto daqui.

De facto, as duas moravam agora na praia do Flamengo, e o baile era na rua dos Arcos.

É de saber que tinham decorrido oito mezes desde o principio do capitulo anterior, e muita cousa estava mudada. Rubião é socio do marido de Sophia, em uma casa de importação, á rua da Alfandega, sob a firma Palha & Comp. Era o negocio que este ia propor-lhe, naquella noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo. Apezar de facil, Rubião, recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de réis, não entendia de commercio, não lhe tinha inclinação. Demais, os gastos particulares eram já grandes; o capital precisava do regimen do bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O regimen que lhe indicavam não era claro; Rubião não podia comprehender os algarismos do Palha, calculos de lucros, tabellas de preço, direitos da alfandega, nada; mas, a linguagem fallada suppria a escripta. Palha dizia cousas extraordinarias, aconselhava ao amigo que aproveitasse a occasião para pôr o dinheiro a caminho, multiplical-o. Se tinha medo, era outra cousa; elle, Palha, faria o negocio com John Roberts socio que foi da casa Wilkinson, fundada em 1844, cujo chefe voltou para a Inglaterra, e era agora membro do parlamento.

Rubião não cedeu logo, pediu prazo, cinco dias. Consigo era mais livre; mas desta vez a liberdade só servia para atordoal-o. Computou os dinheiros despendidos, avaliou os rombos feitos no cabedal, que lhe deixára o philosopho. Quincas Borba, que estava com elle no gabinete, deitado, levantou casualmente a cabeça e fitou-o, Rubião estremeceu; a idéa de que naquelle Quincas Borba podia estar a alma do outro nunca se lhe varreu inteiramente do cerebro. Desta vez chegou a ver-lhe um tom de censura nos olhos; riu-se, era tolice; cachorro não podia ser homem. Insensivelmente, porém, abaixou a mão e coçou as orelhas ao animal, para captal-o.

Atraz dos motivos de recusa, vieram outros contrarios. E se o negocio rendesse? Se realmente lhe multiplicasse o que tinha? Accrescia que a posição era respeitavel, e podia trazer-lhe vantagens na eleição, quando houvesse de propor-se ao parlamento, como o velho chefe da casa Wilkinson. Outra razão mais forte ainda era o receio de magoar o Palha, de parecer que lhe não confiava dinheiros, quando era certo que, dias antes, recebera parte da divida antiga, e a outra parte restante devia ser-lhe restituida dentro de dous mezes.

Nenhum desses motivos era pretexto de outro; vinham de si mesmos. Sophia só appareceu no fim, sem deixar de estar nelle, desde o principio, ideia latente, inconsciente, uma das causas ultimas do acto, e a unica dissimulada. Rubião abanou a cabeça para expellil-a, e levantou-se. Sophia (dona astuta!) recolheu-se á inconsciencia do homem, respeitosa da liberdade moral, e deixou-o resolver por si mesmo que entraria de socio com o marido, mediante certas clausulas de segurança. Foi assim que se fez a sociedade commercial; assim é que Rubião legalisou a assiduidade das suas visitas.

—Senhor Rubião, disse Maria Benedicta depois de alguns segundos de silencio, não lhe parece que minha prima é bem bonita?

—Não desfazendo na senhora, acho.

—Bonita e bem feita.

Rubião aceitou o complemento. Um e outro acompanharam com os olhos o par de valsistas, que passeava ao longo do salão. Sophia estava magnifica. Trajava de azul escuro, mui decotada,—pelas razões ditas no cap. XXXVIII, os braços nús, cheios, com uns tons de ouro claro, ajustavam-se ás espaduas e aos seios, tão acostumados ao gaz do salão. Diadema de perolas feitiças, tão bem acabadas, que iam de par com as duas perolas naturaes, que lhe ornavam as orelhas, e que Rubião lhe dera um dia...

Ao lado della, Carlos Maria não ficava mal. Era um rapaz galhardo, como sabemos, e trazia os mesmos olhos placidos do almoço do Rubião. Não tinha as maneiras subditas, nem as curvas reverentes dos outros rapazes; fallava com a graça de um rei benevolo. Entretanto, se, á primeira vista, parecia fazer apenas um obsequio áquella senhora, não é menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais esbelta mulher da noite. Os dous sentimentos não se contradiziam; fundiam-se ambos na adoração que este moço tinha de si mesmo. Assim, o contacto de Sophia era para elle como a prosternação de uma devota. Não se admirava de nada. Se um dia accordasse imperador, só se admiraria da demora do ministerio em vir comprimental-o.

—Vou descançar um pouco, disse Sophia.

—Está cançada ou... aborrecida? perguntou-lhe o braceiro.

—Oh! cançada apenas!

Carlos Maria, arrependido de haver supposto a outra hypothese, deu-se pressa em climinal-a.

—Sim, creio; porque é que estaria aborrecida? Mas eu affirmo que é capaz de fazer me o sacrificio de passear ainda algum tempo. Cinco minutos?

—Cinco minutos.

—Nem mais um que seja? Pela minha parte, passearia a eternidade.

Sophia abaixou a cabeça.

—Com a senhora, note bem.

Sophia deixou-se ir com os olhos no chão, sem contestar, sem concordar, sem agradecer, ao menos. Podia não ser mais que uma galanteria, e as galanterias é de uso que se agradeçam. Já lhe tinha ouvido outr'ora palavras analogas, dando-lhe a primazia entre as mulheres deste mundo. Deixou de as ouvir durante seis mezes,—quatro que elle gastou em Petropolis,—dous em que lhe não appareceu. Ultimamente é que tornou a frequentar a casa, a dizer-lhe finezas daquellas, ora em particular, ora á vista de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos foram andando calados, calados, calados,—até que elle rompeu o silencio, notando-lhe que o mar defronte da casa della, batia com muita força, na noite anterior.

—Passou lá? perguntou Sophia.

—Estive lá; ia pelo Cattete, já tarde, e lembrou-me descer á praia do Flamengo. A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu quasi que ouvia a sua respiração...

Sophia tentou sorrir; elle continuou:

—O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente;—com esta differença que o mar é estupido, bate sem saber porquê, e o meu coração sabe que batia pela senhora.

—Oh! murmurou Sophia.

Com espanto? Com indignação? Com medo? São muitas perguntas a um tempo. Estou que a propria dama não poderia responder exactamente, tal foi o abalo que lhe trouxe a declaração do moço. Em todo caso, não foi com incredulidade. Não posso dizer mais senão que a exclamação saiu tão frouxa, tão abafada que elle mal pode ouvil-a. Pela sua parte, Carlos Maria disfarçou bem, ante os olhos de toda a sala; nem antes, nem durante, nem depois das palavras, mostrou no rosto a menor commoção; tinha até umas sombras de riso caustico, um riso de seu uso, quando mofava de alguem; parecia ter dito um epigramma. Comtudo, mais de um olho de mulher espreitava a alma de Sophia, estudava o gesto da moça, tal ou qual acanhado, e as palpebras teimosamente cahidas.

—A senhora está perturbada, disse elle; disfarce com o leque.

Sophia machinalmente entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que muitos outros a fitavam, e empallideceu. Os minutos iam correndo, com a mesma brevidade dos annos; os primeiros cinco e os segundos iam longe; estavam no decimo terceiro, atraz deste iam apontando as azas de outro, e mais outro. Sophia disse ao braceiro que queria sentar-se.

—Vou deixal-a e retiro-me.

—Não, disse ella precipitadamente.

Depois, emendou-se:

—O baile está bonito.

—E tá, mas eu quero levar commigo a melhor recordação da noite. Qualquer outra palavra que ouça agora será como o coaxar das rãs, depois do canto de um lindo passaro, um dos seus passaros lá de casa. Onde quer que a deixe?

—Ao lado de minha prima.

Rubião cedeu a cadeira, e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a sala, e foi até o gabinete da entrada, onde estavam os sobretudos e uns dez homens conversando. Antes que o rapaz entrasse no gabinete, Rubião pegou-lhe do braço, familiarmente, para lhe perguntar alguma cousa,—fosse o que fosse,—mas, em verdade, para retel-o comsigo, e procurar sondal-o. Começava a crer possivel ou real uma ideia que o atormentava desde muitos dias. Agora, a conversação dilatada, os modos della...

Carlos Maria não tinha noticia da longa paixão do mineiro, guardada, mortificada, não se podendo confessar a ninguem,—esperando os beneficios do acaso,—contentando-se de pouco, da simples vista da pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro para as operações mercantis... Que elle não tinha ciumes do marido. Nunca a intimidade do casal lhe excitara os odios contra o legitimo senhor. E lá iam mezes e mezes, sem alteração do sentimento, nem morte da esperança... Mas a possibilidade de um rival de fóra veiu atordoal-o; aqui é que o ciume trouxe ao nosso amigo uma dentada de sangue.

—Que é? disse Carlos Maria voltando-se.

Ao mesmo tempo entrou no gabinete, onde os dez homens tratavam de politica, porque este baile,—ia-me esquecendo dizel-o,—era dado em casa de Camacho, a proposito dos annos da mulher. Quando os dous alli entraram, a conversação era geral, o assumpto o mesmo, e todos fallavam para todos,—um turbilhão de ditos, de pareceres, de affirmações diversas... Um, que era doutrinario, conseguiu dominar os outros, que se calaram por instantes, fumando.

—Podem fazer tudo, disse o doutrinario, mas a punição moral é certa. As dividas dos partidos pagam-se com juros até o ultimo real e até a ultima geração. Principios não morrem; os partidos que o esquecem expiram no lodo e na ignominia.

Outro, meio calvo, não acreditava na punição moral, e dizia porquê; mas um terceiro, fallou da demisão de uns collectores, e os espiritos, meio tontos com a doutrina, tomaram pé. Os collectores não tinham outra culpa, alem da opinião; e nem ao menos se podia defender o acto com o merecimento dos substitutos. Um destes trazia ás costas um desfalque; outro era cunhado de um tal Marques que dera um tiro de garrucha no delegado, em S. José dos Campos... E os novos tenentes-coroneis? Verdadeiros réos de policia...

—Já se vae embora? perguntou Rubião ao moço, quando o viu tirar o sobretudo d'entre os outros.

—Já; estou com somno. Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com somno.

—Mas ainda é cedo; fique. O nosso Camacho não deseja que os rapazes saiam; quem é que hade dansar com a moças?

Carlos Maria replicou sorrindo que era pouco dado a dansas. Valsára com D. Sophia, por ser mestra no officio; senão, nem isso. Estava com somno; preferia a cama á orchestra. E estendeu-lhe a mão com benignidade; Rubião apertou-lh'a, meio incerto.

Não sabia que pensasse. O facto de sair, de a deixar no baile, em vez de esperar para acompanhal-a á carroagem, como de outras vezes... Podia ser engano delle... E pensava, recordava a noite de Santa Thereza, quando elle ousou declarar á moça, o que sentia, pegando-lhe na bella mão delicada... O major interrompera-os; mas porque não insistiu elle mais tarde? Nem ella o maltratou, nem o marido percebera cousa nenhuma... Aqui voltava a ideia do possivel rival; é certo que se retirára com somno, mas os modos della... Rubião ia á porta do salão, para ver Sophia, depois chegava-se a um canto ou á meza do voltarete, inquieto, aborrecido.

Em casa, ao despentear-se, Sophia fallou daquelle saráo como de uma cousa enfadonha. Bocejava, doiam-lhe as pernas. Palha discordava; era má disposição della. Se lhe doiam as pernas é porque dançára muito. Ao que retorquiu a mulher que, se não dançasse, teria morrido de tedio. E ia tirando os grampos, deitando-os a um vaso de crystal; os cabellos cahiam-lhe aos poucos sobre os hombros, mal cobertos pela camisola de cambraia. Palha, por traz della, disse-lhe que o Carlos Maria valsava muito bem. Sophia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era placido. Concordou que não valsava mal.

—Não, senhora, valsa muito hem.

—Você louva os outros porque sabe que ninguem é capaz de o desbancar. Anda, meu vaidoso, já te conheço.

Palha, estendendo a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para elle. Vaidoso, porque? porque é que elle era vaidoso?

—Ai, gemeu Sophia; não me machuques.

Palha beijou-lhe a espadua; ella sorriu, sem tedio, sem dor de cabeça, ao contrario daquella noite de Santa Theresa, em que relatou ao marido os atrevimentos do Rubião. É que os morros serão doentios, e as praias saudaveis...

No dia seguinte, Sophia acordou cedo, ao som dos trillos da passarada de casa, que parecia dar-lhe um recado de alguem. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver melhor.

Ver melhor o que? Não, seguramente, os morros doentios. A praia era outra cousa. Posta á janella, dalli a meia hora, Sophia contemplava as ondas que vinham morrer defronte, e, ao longe, as que se levantavam e desfaziam á entrada da barra. A imaginosa dama perguntava a si mesma se aquillo era a valsa das aguas, e deixava-se ir por essa torrente de ideias abaixo, sem velas nem remos. Deu comsigo olhando para a rua, ao pé do mar, como procurando os signaes do homem que alli estivera, na ante-vespera, alta noite... Não juro, mas cuido que achou os signaes. Ao menos, é certo que cotejou o achado com o texto da conversação:

«A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu quasi que ouvia a sua respiração... O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta differença que o mar é estupido, bate sem saber porque, e o meu coração sabe que batia pela senhora...»

Sophia teve um calefrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo: «A noite era clara...»

Entre duas phrases, sentiu que alguem lhe punha a mão no hombro; era o marido, que acabava de tomar café e ia para a cidade. Despediram-se affectuosamente; Christiano recommendou-lhe Maria Benedicta, que acordara muito aborrecida.

—Já de pé! exclamou Sophia.

—Quando eu desci, já a achei na sala de jantar. Accordou com ideias de ir para a roça; teve um sonho... não sei que...

—Calundús! concluiu Sophia.

E com os dedos habeis e leves concertou a gravata ao marido, puxou-lhe a gola do fraque para deante, e despediram-se outra vez. Palha desceu e sahiu; Sophia deixou-se estar á janella. Antes de dobrar a esquina, elle voltou a cabeça, e, na fórma do costume, disseram adeus com a mão.

«A noite era clara; fiquei cerca de uma hora entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que...»

Quando Sophia pôde arrancar-se de todo á janella, o relogio de baixo batia nove horas. Zangada, arrependida, jurou a si mesma, pela alma da mãe, não pensar mais em semelhante episodio. Considerou que não valia nada; o erro foi deixar que o rapaz chegasse ao fim dos seus atrevimentos. Verdade é que, procedendo assim, evitou algum grande escandalo, porque elle era capaz de a acompanhar até a cadeira e dizer-lhe o resto ao pé de outras pessoas. E o resto repetia-se ainda uma vez na memoria della, como um trecho musical teimoso, as mesmas palavras, e a mesma voz: «A noite era clara; fiquei cerca de uma hora...»

Emquanto ella repetia a declaração da vespera, Carlos Maria abria os olhos, estirava os membros, e, antes de ir para o banho, vestir-se e dar um passeio a cavallo, reconstruiu a vespera. Tinha esse costume; achava sempre nos successos do dia anterior algum facto, algum dito, alguma cousa que lhe fazia bem. Ahi é que o espirito se demorava; ahi eram as estalagens do caminho, onde elle descavalgava o corpo, para beber vagarosamente um golpe d'agua fresca. Se não havia successo nenhum desses,—ou se os havia só contrarios, nem por isso as sensações eram desconfortativas; bastava-lhe o sabor de alguma palavra que elle mesmo houvesse dito,—de algum gesto que fizesse, a contemplação subjectiva, o gosto de se ter sentido viver,—para que a vespera não fosse um dia perdido.

Na vespera figurava Sophia. Parece até que foi o principal da reconstrucção, a fachada do edificio, larga e magnifica. Carlos Maria saboreou de memoria toda a conversação da noite, mas, quando se lembrou da confissão de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um estorvo, uma obrigação; e, posto que o beneficio corrigisse o tedio, o rapaz ficou entre uma e outra sensação, sem plano. Ao recordar-se da noticia que lhe deu de haver ido á praia do Flamengo, na outra noite, não pôde suster o riso, porque não era verdade. Nascera-lhe a ideia da propria conversação; mas nem lá foi nem pensara nisso. Afinal susteve o riso, e até arrependeu-se delle; o facto de haver mentido trouxe-lhe uma sensação de inferioridade, que o abateu. Chegou a pensar em rectificar o que dissera, logo que estivesse com Sophia, mas reconheceu que a emenda era peor que o soneto, e que ha bonitos sonetos mentirosos.

Depressa ergueu a alma. Viu de memoria a sala, os homens, as mulheres, os leques impacientes, os bigodes despeitados, e estirou-se todo n'um banho de inveja e admiração. De inveja alheia, note-se bem; elle carecia desse sentimento ruim. A inveja e a admiração dos outros é que lhe davam ainda agora uma delicia intima. A princeza do baile entregava-se-lhe. Definia assim a superioridade de Sophia, posto lhe conhecesse um defeito capital,—a educação. Achava que as maneiras polidas da moça vinham da imitação adulta, após o casamento, ou pouco antes, e ainda assim não subiam muito do meio em que vivia.

Outras mulheres vieram ali,—as que o preferiam aos demais homens no trato e na contemplação da pessoa. Se as requestava ou requestára todas? Não se sabe. Algumas, vá: é certo, porém, que se deleitava com todas ellas. Taes havia de provada honestidade que folgavam de o trazer ao pé de si, para gostar o contacto de um bello homem, sem a realidade nem o perigo da culpa,—como o expectador que se regala das paixões de Othello, e sae do theatro com as mãos limpas da morte de Desdemona.

Vinham todas rodear o leito de Carlos Maria, tecendo-lhe a mesma grinalda. Nem todas seriam moças em flor; mas a distincção suppria a juvenilidade. Carlos Maria recebia-as, como um deus antigo devia receber, quieto no marmore, as lindas devotas e suas offerendas. No borborinho geral distinguia as vozes de todas,—não todas a um tempo,—mas ás tres e ás quatro.

A derradeira dellas foi a da recente Sophia; escutou-a ainda namorado, mas sem o alvoroço do principio, porque a lembrança das outras donas, pessoas de qualidade, diminuia agora a importancia desta. Comtudo, não podia negar que era mui attractiva e que valsava perfeitamente. Chegaria a amar com força? Nisto appareceu-lhe outra vez a mentira da praia. Levantou-se aborrecido da cama.

—Quem diabo me mandou dizer semelhante cousa?

Tornou a encarar a ideia de restabelecer a verdade; e desta vez mais seriamente que da outra. Mentir, pensava elle, era para os lacaios e seus congeneres.

D'ahi a meia hora, trepava ao cavallo e sahia de casa, que era na rua dos Invalidos. Cattete adeante, veiu-lhe á ideia que a casa de Sophia era na praia do Flamengo; nada mais natural que torcer a redea, descer uma das ruas perpendiculares ao mar, e passar pela porta da valsista. Achal-a-hia, talvez á janella; vel-a-hia córar, comprimental-o. Tudo isto passou pela cabeça ao rapaz, em poucos segundos; chegou a dar um geito á redea, mas a alma,—não o cavallo,—a alma empinou—; era ir muito depressa atraz della. Deu outro geito á redea, e continuou o passeio.

Montava bem. Toda a gente que passava, ou estava ás portas não se fartava de mirar a postura do moço, o garbo, a tranquilidade régia com que se deixava ir. Carlos Maria,—e este era o ponto em que cedia á multidão,—recolhia as admirações todas, por infimas que fossem. Para adoral-o, todos os homens faziam parte da humanidade.

—Já de pé! repetiu Sophia, ao ver a prima lendo os jornaes.

Maria Benedicta teve um sobresalto, mas aquietou-se logo; dormira mal, e accordou cedo. Não estava para aquellas folias até tão tarde, disse ella, mas a outra replicou logo que era preciso acostumar-se, a vida do Rio de Janeiro não era a mesma da roça, dormir com as galinhas e accordar com os gallos. E depois perguntou-lhe que impressões trouxera do baile; Maria Benedicta levantou os hombros com indifferença, mas verbalmente respondeu que boas. Custava-lhe fallar, as palavras sahiam-lhe poucas e molles. Sophia, entretanto, ponderou-lhe que dansara muito, salvo polkas e valsas. E porque não havia de polkar e valsar tambem? A prima lançou-lhe uns olhos máos.

—Não gosto.

—Qual não gosta! É medo.

—Medo?

—Falta de costume, explicou Sophia.

A outra teve uma ideia, e quiz retel-a; mas a ideia escapou-lhe, a despeito do exforço:

—Não gosto que um homem me aperte o corpo ao seu corpo, e ande commigo, assim, á vista dos outros. Tenho vexame.

Sophia tornou-se séria; não se defendeu nem continuou, fallou-lhe da roça, perguntou-lhe se era certo o que lhe dissera Christiano, que ella queria ir para casa. Então a prima, que folheava os jornaes, á toa, respondeu animadamente que sim; não podia viver sem a mãe.

—Mas porque? Você não estava tão contente comnosco?

Maria Benedicta não disse nada; passeou os olhos em um dos jornaes, como se procurasse alguma cousa, trincando o beiço, tremula, inquieta. Sophia teimou em querer saber a causa daquella mudança repentina; pegou-lhe nas mãos, achou-as frias.

—Você precisa casar, disse finalmente. Tenho já um noivo.

Era Rubião; o Palha queria acabar por ahi, casando o socio com a prima; tudo ficava em casa, dizia elle á mulher. Esta tomou a si guiar o negocio. Accudia-lhe agora a promessa; tinha um noivo prompto, era só fallar.

—Quem? perguntou Maria Benedicta.

—Uma pessoa.

Crel-o-heis, posteros? Sophia não pôde soltar o nome de Rubião. Já uma vez, dissera ao marido haver fallado nelle, e era mentira. Agora, indo a fallar deveras, o nome não lhe sahiu da boca. Ciumes? Seria singular que esta mulher, que não tinha amor áquelle homem, não quizesse dal-o de noivo á prima, mas a natureza é capaz de tudo, amigo e senhor. Inventou o ciume de Othello e o do cavalleiro Desgrieux, podia inventar este outro de uma pessoa que não quer ceder o que não quer possuir.

—Mas quem? repetiu Maria Benedicta.

—Direi depois, deixe-me arranjar as cousas, respondeu Sophia, e mudou de conversa.

Maria Benedicta trocou de rosto; a boca encheu-se-lhe de riso, um riso de alegria e de esperança. Os olhos agradeceram a promessa e o trabalho, e disseram palavras que ninguem podia ouvir nem entender, palavras curiosas e obscuras:

—Gosta de valsar; é o que é.

Gosta de valsar quem? Provavelmente a outra. Tinha valsado tanto na vespera, com o mesmo Carlos Maria, que bem se poderia achar na dansa um pretexto; Maria Benedicta concluia agora que era o proprio e unico motivo. Conversaram muito nos intervallos, é certo, mas naturalmente era della que fallavam, uma vez que a prima tinha a peito casal-a, e só lhe pedia que deixasse arranjar as cousas. Talvez elle a achasse feia, ou sem graça. Uma vez, porém, que a prima queria arranjar as cousas... Tudo isso diziam os olhos gaios da menina.

Rubião é que não perdeu a suspeita assim tão facilmente. Teve ideia de fallar a Carlos Maria, interrogal-o, e chegou a ir á rua dos Invalidos, no dia seguinte, tres vezes; não o encontrando, mudou de parecer. Encerrou-se por alguns dias; o major Siqueira arrancou-o á solidão. Ia participar-lhe que se mudara para a rua Dous de Dezembro. Gostou muito da casa do nosso amigo, das alfaias, do luxo, de todas as minucias, ouros e bambinellas. Sobre este assumpto fallou longamente, relembrando alguns moveis antigos. Como só elle fallasse, parou de repente, para dizer que o achava aborrecido; era natural, faltava-lhe alli um complemento.

—O senhor é feliz, mas falta-lhe aqui uma cousa; falta-lhe mulher. O senhor precisa casar. Case-se, e diga que eu o engano.

Rubião lembrou-se de Santa Thereza,—daquella famosa noite da conversação com Sophia,—e sentiu correr-lhe um frio pelas costas; mas a voz do major não tinha nenhum sarcasmo. Tambem não lhe fallava por interesse. A filha estava ainda qual a deixámos no capitulo XLXIII, com a differença que os quarenta annos vieram. Quarentona, solteirona. Gemeu-os comsigo, logo de manhã, no dia em que os completou; não poz fita nem rosa no cabello. Nenhuma festa; tão sómente um discurso do pae, ao almoço, lembrando-lhe cousas de criança, anecdotas da mãe e da avó, um dominó de baile de mascaras, um baptisado de 1848, a solitaria de um coronel Clodomiro, varias cousas assim de mistura, para entreter as horas. D. Tonica mal podia ouvil-o; mettida em si mesma, ia roendo o pão da solitude moral, ao passo que se arrependia dos ultimos exforços empregados na busca de um marido. Quarenta annos; era tempo de parar.

Nada disso lembrava agora ao major. Fallou sinceramente; achou que a casa de Rubião não tinha alma. E repetiu, ao despedir-se:

—Case-se, e diga que eu o engano.

—E por que não? perguntou uma voz, depois que o major sahiu.

Rubião, apavorado, olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado, olhando para elle. Era tão absurdo crer que a pergunta viria do proprio Quincas Borba,—ou antes do outro Quincas Borba, cujo espirito estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu com desdem; mas, ao mesmo tempo, executando o gesto do capitulo XLIX, estendeu a mão, e coçou amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro,—acto proprio a dar satisfação ao possivel espirito do finado.

Era assim que o nosso amigo se desdobrava, sem publico, deante de si mesmo.

Mas a voz repetiu:—E porque não? Sim, porque não havia de casar, continuou elle raciocinando. Mataria a paixão que o ia comendo aos poucos, sem esperança nem consolação. Demais, era a porta de um mysterio. Casar, sim, casar logo e bem.

Estava ao portão, quando esta idéa começou a abotoar;—foi dalli para dentro, subindo os degráos de pedra, abrindo a porta, sem consciencia de nada. Ao fechar a porta, é que um pulo do Quincas Borba, que o viera acompanhando, fel-o dar por si. Onde ficara o major? Quiz descer para vel-o, mas advertiu a tempo que acabava de o acompanhar até á rua. As pernas tinham feito tudo; ellas é que o levaram por si mesmas, direitas, lucidas, sem tropeço, para que ficasse á cabeça tão sómente a tarefa de pensar. Boas pernas! pernas amigas! muletas naturaes do espirito!

Santas pernas! Ellas o levaram ainda ao canapé, estenderam-se com elle, devagarinho, emquanto o o espirito trabalhava a ideia do casamento. Era um modo de fugir a Sophia; podia ser ainda mais alguma cousa.

Sim, podia ser tambem um modo de restituir á vida a unidade que perdera, com a troca do meio e da fortuna; mas esta consideração não era propriamente filha do espirito nem das pernas, mas de outra causa, que elle não distinguia bem nem mal, como a aranha. Que sabe a aranha a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. O gato, que nunca leu Kant, é talvez um animal metaphysico. Em verdade, o casamento podia ser o laço da unidade perdida. Rubião sentia-se disperso; os proprios amigos de transito, que elle amava tanto, que o cortejavam tanto, davam-lhe á vida um aspecto de viagem, em que a lingua mudasse com as cidades, ora hespanhol, ora turco. Sophia contribuia para esse estado; era tão diversa de si mesma, ora isto, ora aquillo, que os dias iam passando sem accôrdo fixo, nem desengano perpetuo.

Rubião não tinha que fazer; para matar os dias longos e varios, ia as sessões do jury, á camara dos deputados, á passagem dos batalhões, dava grandes passeios, fazia visitas desnecessarias, á noite, ou ia aos theatros, sem prazer. A casa era ainda um bom repouso ao espirito, com o seu luxo rutilante e os sonhos que vagavam no ar.

Ultimamente, occupava-se muito em ler; lia romances, mas só os historicos de Dumas pae, ou os contemporaneos de Feuillet, estes com difficuldade, por não conhecer bem a lingua original. Dos primeiros sobravam traducções. Arriscava-se a algum mais, se lhe achava o principal dos outros, uma sociedade fidalga e régia. Àquellas scenas da côrte de França, inventadas pelo maravilhoso Dumas, e os seus nobres espadachins e aventureiros, as condessas e os duques de Feuillet, mettidos em estufas ricas, todos elles com palavras mui compostas, polidas, altivas ou graciosas, faziam-lhe passar o tempo ás carreiras. Quasi sempre, acabava com o livro cahido e os olhos no ar, pensando. Talvez algum velho marquez defuncto lhe repetisse anedoctas de outras eras.

Antes de cuidar da noiva, cuidou do casamento. Naquelle dia e nos outros, compoz de cabeça as pompas matrimoniaes, os coches,—se ainda os houvesse antigos e ricos, quaes elle via gravados nos livros de usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como elle gostava de ir esperar o Imperador, nos dias de grande gala, á porta do paço da cidade, para ver chegar o prestito imperial, especialmente o coche de Sua Magestade, vastas proporções, fortes molas, finas e velhas pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim tão grandes que enchiam os olhos.

Um desses outros, ou ainda algum menor, podia servir-lhe ás bodas, se toda a sociedade não estivesse já nivellada pelo vulgarcoupé.Mas, emfim, iria decoupé; imaginava-o forrado magnificamente, de que? De uma fazenda que não fosse commum, que elle mesmo não distinguia, por ora; mas que daria ao vehiculo o ar que não tinha. Parelha rara. Cocheiro fardado de ouro. Oh! mas de um ouro nunca visto. Convidados de primeira ordem, generaes, diplomatas, senadores, um ou dous ministros, muitas summidades do commercio; e as damas, as grandes damas? Rubião nomeava-as de cabeça; via-as entrar, elle no alto da escada de um palacio, com o olhar perdido por aquelle tapete abaixo,—ellas atravessando o saguão, subindo os degraus com os seus sapatinhos de setim, breves e leves,—a principio, poucas,—depois mais, e mais, e ainda mais. Carruagens após carruagens... Lá vinham os condes de Tal, um varão guapo e uma singular dama... «Caro amigo, aqui estamos», dir-lhe-hia o conde, no alto; e, mais tarde, a condessa: «Senhor Rubião, a festa é esplendida...»

De repente, o internuncio... Sim, esquecera-se que o internuncio devia casal-os; lá estaria elle, com as suas meias roxas de monsenhor, e os grandes olhos napolitanos, em conversação com o ministro da Russia. Os lustres de crystal e ouro allumiando os mais bellos collos da cidade, casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques que se abriam e fechavam, dragonas e diademas, a orchestra dando signal para uma valsa. Então os braços negros, em angulo, iam buscar os braços nús, enluvados até o cotovello, e os pares saiam girando pela sala, cinco, sete, dez, doze, vinte pares. Ceia explendida. Crystaes da Bohemia, louça da Hungria, vasos de Sèvres, criadagem lesta e fardada, com as iniciaes do Rubião na gola.


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