Chapter 4

Esses sonhos iam e vinham. Que mysterioso Prospero transformava assim uma ilha banal em mascarada sublime? «Vae; Ariel, traze aqui os teus companheiros, para que eu mostre a este joven casal alguns feitiços da minha feitiçaria.» As palavras seriam as mesmas da comedia; a ilha é que era outra, a ilha e a mascarada. Aquella era a propria cabeça do nosso amigo; esta não se compunha de deusas nem de versos, mas de gente humana e prosa de sala. Mais rica era. Não esqueçamos que o Prospero de Shakespeare era um duque de Milão; e, eis ahi, talvez, porque se metteu na ilha do nosso amigo.

Em verdade, as noivas que appareciam ao lado do Rubião, naquelles sonhos de bodas, eram sempre titulares. Os nomes eram os mais sonoros e faceis da nossa nobiliarchia. Eis aqui a explicação: poucas semanas antes, Rubião apanhou um almanack de Laemmert,e, entrando a folheal-o, deu com o capitulo dos titulares. Se elle sabia de alguns, estava longe de os conhecer a todos. Comprou um almanack, e lia-o muitas vezes, deixando escorregar os olhos por alli abaixo, desde os marquezes até os barões, voltava atraz, repetia os nomes bonitos, trazia a muitos de cór. Ás vezes, pegava da penna e de uma folha de papel, escolhia um titulo moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o proprio dono e assignasse alguma cousa:

Marquez de BarbacenaMarquez de BarbacenaMarquez de BarbacenaMarquez de BarbacenaMarquez de BarbacenaMarquez de Barbacena

Ia assim, até o fim da lauda, variando a lettra, ora grossa, ora miuda, cabida para traz, em pé, de todos os feitios. Quando acabava a folha, pegava nella, e comparava as assignaturas; deixava o papel e perdia-se no ar.

D'ahi a jerarchia das noivas. O peor é que todas traziam a cara de Sophia;—podiam parecer-se nos primeiros instantes com alguma visinha, ou com a moça que elle comprimentára, á tarde, na rua; podiam começar muito magras ou gordas;—mas não tardavam em mudar de figura, encher ou desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto da bella Sophia, com os seus mesmos olhos amotinados ou quietos. Não havia fugir, ainda casando? Rubião chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia, ao sahir da casa delle, tendo-lhe ouvido a ella uma porção de cousas bonitas e vagas. Grande foi a sensação de ventura, posto que elle repellisse dahi a pouco a ideia, como um ruim agouro. Dias depois, trocadas as maneiras, tornava elle definitivamente aos seus planos. Mais de uma vez,era o proprio Palha que o accordava daquelles sonhos conjugaes.

—Tem onde ir hoje á noite?

—Não.

—Pegue lá uma entrada para o Theatro Lyrico; camarote n. 8, primeira ordem, á esquerda.

Rubião chegava mais cedo, ia esperar por elles, e dava o braço a Sophia. Si ella estava de bom humor, a noite era das melhores do mundo. Si não, era um martyrio, para repetir as proprias palavras delle, ao cão, um dia:

—Vim hontem de um martyrio, meu pobre amigo.

—Case-se, e diga que eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba.

—Sim, meu pobre amigo, accudiu elle pegando-lhe nas patas deanteiras e collocando-as sobre os joelhos. Você tem razão; precisa de uma boa amiga que lhe dê cuidados que não posso ou não sei dar. Quincas Borba, você ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom amigo meu, grande amigo, eu tambem fui amigo delle, dous grandes amigos. Se fosse vivo, seria o padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,—ao menos, o de honra, aos noivos;—e seria por um copo de ouro e diamantes, que eu lhe mandaria fazer de proposito... Grande Quincas Borba!

E o espirito de Rubião pairava sobre o abysmo.

Um dia, como houvesse sahido mais cedo de casa, e não soubesse onde passar a primeira hora, caminhou para o armazem. Desde uma semana que não ia á praia do Flamengo, por haver Sophia entrado em um dos seus periodos de sequidão. Achou o Palha de luto; morrera a tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a noticia chegara na ante-vespera, á tarde.

—A mãe daquella mocinha?

—Justo.

Palha fallou da defuncta com muitos encarecimentos; depois contou a dôr de Maria Benedicta; estava que mettia pena. Perguntou-lhe porque é que não ia ao Flamengo, logo á noite, para ajudal-os a distrail-a? Rubião prometteu ir.

—Vá, é favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. Não imagina que primor alli está. Boa educação, muito severa; e quanto a prendas de sociedade, se não as teve em criança, ressarsiu o tempo perdido com rapidez extraordinaria. Sophia é a mestra. E dona de casa? Isso, meu amigo, não sei se em tal edade, se achará pessoa tão completa. Já agora fica comnosco. Tem uma irmã, Maria José, casada com um juiz de direito, no Ceará; tem tambem o padrinho, em S. João d'El-rei. A defuncta fallava delle com elogio; não creio que elle a mande buscar, mas ainda que mande, não a dou. Já agora é nossa. Não hade ser pelo que o padrinho lhe quizer deixar em testamento que nos desfaremos della. Aqui ficará, concluiu tirando com o dedo um pouco de poeira da gola do Rubião.

Rubião agradeceu. Depois, como estavam no escriptorio, ao fundo, olhou por entre as grades, e viu entrar uns fardos no armazem. Perguntou que traziam.

—São uns morins inglezes.

—Morins inglezes, repetiu Rubião, com indifferença.

—A proposito, sabe que a casa Moraes & Cunha, paga a todos os credores, integralmente?

Rubião não sabia nada, nem se a casa existia, nem se elles eram credores della; ouviu a noticia, respondeu que estimava muito, e dispoz-se a ir embora. Mas o socio reteve-o ainda alguns instantes. Estava alegre agora; parecia que não lhe morrera ninguem. Voltou a fallar de Maria Benedicta. Tinha intenção de casal-a bem; nem ella era moça de dar lerias a pelintras, nem se deixava ir por phantasias tolas; era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa seria.

—Sim, senhor, ia dizendo Rubião.

—Olhe, murmurou de repente o socio; não se admire do que lhe vou dizer. Creio que você é que casa com ella.

—Eu? acudiu Rubião, espantado. Não, senhor. E em seguida, para attenuar o effeito da recusa: Não nego que seja moça digna e perfeita; mas... por ora... não penso em casar...

—Ninguem lhe diz que seja amanhã ou depois; casamento não é cousa que se improvise. O que eu digo é que tenho cá um palpite. São cousas; palpites. Sophia nunca lhe fallou neste meu palpite?

—Nunca.

—É exquisito, disse-me que lhe fallára uma vez, ou duas, não me lembro bem.

—Pode ser, sou muito distrahido. Que queriam casar-me com a moça?

—Não, que eu tinha um palpite. Mas, não fallemos mais n'isto. Demos tempo ao tempo.

—Adeus.

—Adeus; vá cedo.

Com que então, Sophia queria casal-o? sahiu pensando o Rubião; era naturalmente o processo mais expedito para descartar-se d'elle. Casal-o, fazel-o seu primo. Rubião palmilhou muita rua, antes que chegasse a esta outra hypothese:—Talvez Sophia não se houvesse esquecido de fallar, mas mentisse de proposito ao marido para não dar andamento ao projecto. N'este caso o sentimento era outro. Esta explicação pareceu-lhe logica; a alma voltou á serenidade anterior.

Mas não ha serenidade moral que corte uma polegada siquer ás abas do tempo, quando a pessoa não tem maneira de o fazer mais curto. Ao contrario, a ancia de ir ao Flamengo, á noite, vinha tornar as horas mais arrastadas. Era cedo, cedo para tudo, para ir á rua do Ouvidor, para voltar a Botafogo. O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um réo no jury. Não havia divertimento algum publico; festa nem sermão. Nada. Rubião, profundamente aborrecido, trocava as pernas, á toa, lendo as taboletas, ou detendo-se ao simples incidente de um atropello de carros. Em Minas, não se aborrecia tanto, porque? Não achou solução ao enigma, uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrahir, e que o distrahia deveras; mas havia aqui horas de um tedio mortal.

Felizmente, ha um deus para os enojados. Accudiu á memoria de Rubião que o Freitas,—aquelle Freitas tão alegre—estava gravemente enfermo; Rubião chamou um tilbury e foi visital-o á Praia Formosa, onde morava. Gastou alli perto de duas horas, conversando com o doente; este adormeceu, elle despediu-se da mãe,—um caco de velha,—e á porta antes de sair:

—A senhora hade ter tido seus apertos de dinheiro, disse o Rubião; e, vendo-a morder o beiço e baixar os olhos: Não se envergonhe; necessidade afflige, mas não envergonha. Eu o que queria era que a senhora acceitasse alguma cousa, que lhe vou deixar para acudir á despeza; pagará um dia, se puder...

Tinha aberto a carteira, tirou seis notas de vinte mil reis, fez um bolo de todas ellas, e deixou-lh'o na mão. Abriu a porta e saiu. A velha, espantada, nem teve alma para agradecer; só ao rodar do tilbury, é que correu á janella, mas já não podia ver o bemfeitor.

Tudo aquillo saiu tão expontaneamente ao Rubião, que elle só teve tempo de reflectir, depois que o tilbury começou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina do postigo; a velha ia entrando; viu-lhe ainda o resto do braço. Rubião sentiu toda a vantagem de não estar invalido. Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para a praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vel-a.

—Vossa Senhoria está gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom freguez que tinha.

—Acho bonito.

—Nunca veiu aqui?

—Creio que vim, ha muitos annos, quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Que eu sou de Minas... Pare, moço.

O cocheiro fez parar o cavallo; Rubião desceu, e disse-lhe que fosse andando de vagar.

Em verdade, era curioso. Aquellas grandes braçadas de matto, brotando do lodo, e postas alli ao pé da cara do Rubião, davam-lhe vontade de ir ter com ellas. Tão perto da rua! Rubião nem sentia o sol. Esquecera o doente e a mãe do doente. Assim sim,—dizia elle comsigo,—fosse o mar todo uma cousa daquelle feitio, alastrado de terras e verduras, e valia a pena navegar. Para lá daquillo ficava a praia dos Lazaros e a de S. Christovão. Uma pernada apenas.

—Praia Formosa, murmurou elle; bem posto nome.

Entretanto, a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Sacco do Alferes, vinham as casas edificadas do lado do mar. De quando em quando, não eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para o ar. Ao pé de uma dessas canoas, viu meninos brincando, em camisa e descalços, em volta de um homem que estava de barriga para baixo. Todos elles riam; um ria mais que os outros porque não acabava de fixar o pé do homem no chão. Era um pecurrucho do tres annos; agarrava-se-lhe á perna e ia-a estendendo até nivelal-a com o chão, mas o homem fazia um gesto e levava pelo ar o pé e o menino.

Rubião deteve-se alguns minutos deante daquillo. O sujeito, vendo-se objecto de attenção, redobrou o exforço no brinco; perdeu a naturalidade. Os outros meninos mais edosos detiveram-se a olhar espantados. Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Sacco do Alferes, passou a Gamboa, parou deante do cemiterio dos inglezes, com os seus velhos sepulchros trepados pelo morro, e afinal chegou á Saude. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, beccos, muita casa antiga, algumas do tempo do rei, comidas, gretadas, estripadas, o caio encardido, e a vida lá dentro. E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Nostalgia do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que andava nelle transformou tudo. Era tão bom não ser pobre!

Rubião chegou ao fim da rua da Saude. Ia á toa com os olhos espraiados e desattentos. Rente com elle, passou uma mulher, não bonita, nem feia, singella sem elegancia, antes pobre que remediada, mas fresca de feições; contaria vinte e cinco annos, e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião.

—Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço.

Rubião inclinara-se ao pequeno, para amparal-o.

—Muito obrigada, desculpe, disse ella sorrindo; e comprimentou-o.

Rubião tirou o chapéo, e sorriu tambem. A visão da familia apoderou-se delle outra vez.—«Case-se, e diga que eu o engano!»—Parou, olhou para traz, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé della, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, pensando em varias mulheres que podia escolher muito bem, para executar, a quatro mãos, a sonata conjugal, musica séria, regular e classica. Chegou a pensar na filha do major, que apenas sabia umas velhas mazurkas. De repente, ouvia a guitarra do peccado, tangida pelos dedos de Sophia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições; pensava na moça da Saude, modos tão bonitos, creancinha pela mão...

A vista do tilbury fez-lhe lembrar o doente da praia Formosa.

—Pobre Freitas! suspirou.

Logo depois, pensou tambem no dinheiro que deixára á mãe do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez a ideia de haver dado uma ou duas notas de mais esvoaçou por alguns segundos no cerebro do nosso amigo; elle a sacudiu depressa, não sem se zangar consigo, e, para esquecel-a de todo, exclamou ainda em voz alta:

—Boa velha! pobre velha!

Como a ideia tornasse ainda, Rubião atirou-se depressa ao tilbury, entrou e sentou-se, faltando ao cocheiro, para fugir a si mesmo.

—Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquellas praias, aquellas ruas, é differente dos outros bairros. Gósto disto. Heide vir mais vezes.

O cocheiro sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse máo sentido; mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e communs. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar do principio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversação.

—Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? disse elle. Hade deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não é para offender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que aggrave um freguez serio; mas não creio que esteja admirado do bairro.

—Porque? aventurou Rubião.

O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer,—não porque o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito, Rubião ratificou a primeira affirmação; tinha ido alli muitos annos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não se lembrava da nada. E o cocheiro ria; e, á medida que o freguez ia demonstrando, elle ia ficando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com a mão.

—Já sei disso, concluiu elle. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira porque olhou para aquella moça que passou ainda agora? Basta só isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gósta...

Rubião, lisongeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo:

—Que moça?

—Que lhe dizia eu? redarguiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não ha muitos dias trouxe aqui um bello moço, muito bem vestido, pessoa fina,—já se sabe, negocio de rabo de saia.

—Mas eu... interrompeu o Rubião.

Mal podia conter-se; a supposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que elle dissimulava a culpa.

—Olhe, eu bem digo,—continuou elle; tal qual o moço da rua dos Invalidos. Vossa Senhoria póde ficar descançado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro ás ordens, vem andando a pé desde a praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veiu ao logar marcado, a pessoa não veiu...

—Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer.

—Tal qual o moço da rua dos Invalidos, repetiu o homem. Esse veiu ver uma costureira da mulher, como se fosse casado...

—Da rua dos Invalidos? perguntou Rubião, que só agora attentava no nome da rua.

—Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da rua dos Invalidos, bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu tambem se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por elle... Ella não sei d'onde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um peixão.

E vendo que o freguez o escutava com os olhos arregalados:

—Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta por um veu, cousa papafina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom.

—Mas... como foi? murmurou Rubião.

—Ora, como foi! Elle chegou como Vossa Senhoria, no meu tilbury, apeou-se e entrou n'uma casa de rotula; disse que ia ver a costureira da mulher. Como eu não lhe perguntei nada, e elle tinha vindo calado toda a viagem, muito cheio de si, comprehendi logo a finura. Agora, podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que mora na casa da rua da Harmonia...

—Da Harmonia? repetiu Rubião.

—Máo! Vossa Senhoria está arrancando o meu segredo; fallemos de outra cousa; não digo mais nada.

Rubião olhava attonito para o homem, que de facto se calou por dous ou tres minutos, mas logo depois continuou:

—Tambem não ha muita cousa mais. O moço entrou; eu fiquei esperando; meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; ella veiu, veiu, devagar, olhando disfarçadamente para todos os lados; ao passar pela casa, não lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas magicas, a rotula abriu-se por si, e ella enfiou por alli dentro. Se eu já conheço isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe alguma cousa mais? O preço da tabella mal dá para comer; é preciso fazer estes ganchos.

—Não, não podia ser ella, reflectiu Rubião, em casa, vestindo-se de preto.

Desde que chegara, não pensou em outra cousa que não fosse o caso contado pelo cocheiro do tilbury. Tentou esquecel-o, arranjando papeis, ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos para ver pular o Quincas Borba; mas a visão perseguia-o. Dizia-lhe a razão que ha muitas senhoras de boa figura, e nada provava que a da rua da Harmonia fosse ella; mas o bom effeito era curto. Dahi a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a propria Sophia, e andava, e entrava de repente pela porta de uma casa, que se fechava logo...Beati quorum tecta sunt peccata.Assim rangia a porta em mau e litteral sentido. A visão foi tal, em certa occasião, que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se alli estivesse a rotula da rua Harmonia. De imaginação, fez uma serie de acções:—bateu, entrou, lançou a mão ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver a dama, que era outra, não era Sophia. Quando Rubião voltou a si, sentiu-se vexado.

—Não, não podia ser ella.

Vestiu o collete, e foi abotoal-o deante de uma das janellas, que dava os fundos, no momento em que uma caravana de formigas ia passando pelo peitoril. Quantas vira passar outr'ora! Mas desta vez, nunca soube como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropellou as tristes formigas, matando uma porção dellas. Talvez alguma lhe pareceu «boa figura e bonita de corpo». Logo depois arrependeu-se do acto; e realmente, que tinham as formigas com as suas suspeitas? Felizmente, começou a cantar uma cigarra, com tal propriedade e significação, que o nosso amigo parou no quarto botão do collete.Sôôôô... fia, fia, fia, fia, fia, fia... Sôóóô... fia, fia, fia, fia, fia...

Oh! precaução sublime e piedosa da natureza, que põe uma cigarra viva ao pé de vinte formigas mortas, para compensal-as. Essa reflexão é do leitor. Do Rubião não póde ser. Nem era capaz de approximar as cousas, e concluir dellas,—nem o faria agora que está a chegar ao ultimo botão do collete, todo ouvidos, todo cigarra... Pobres formigas mortas! Ide agora ao vosso Homero gaulez, que vos pague a fama; a cigarra é que se ri, emendando o texto:

Vous marchiez? J'en suis fort aise.Eh bien! mourez maintenant.

Vous marchiez? J'en suis fort aise.Eh bien! mourez maintenant.

Soou a campainha do jantar; Rubião compoz o rosto, para que os seus habituados (tinha sempre quatro ou cinco) não percebessem nada. Achou-os na sala de visitas, conversando, á espera; ergueram-se todos, foram apertar-lhe a mão, alvoroçadamente. Rubião teve aqui um impulso curioso,—dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si proprio.

De noite, correu á praia do Flamengo. Não pôde fallar a Maria Benedicta, que estava em cima, no quarto, com duas moças da visinhança, amigas della. Sophia veiu recebel-o á porta, e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O marido acabava de chegar; ainda não descera.

—Sente-se aqui, disse ella.

Tomou conta delle; estava divina. As palavras sabiam-lhe carinhosas e graves, entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Fallou-lhe da tia, da prima, do tempo, dos criados, dos expectaculos, da falta d'agua, de uma multidão de cousas diversas, vulgares ou não, mas que passando pela bocca da moça, mudavam de natureza e de aspecto. Rubião ouvia fascinado. Ella, para não estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando a conversação fazia pausa, Rubião era pouco para comer-lhe as mãos ageis, que pareciam brincar com a agulha.

—Sabe que estou formando uma commissão de senhoras? perguntou ella.

—Não sabia; para que?

—Não leu a noticia daquella epidemia n'uma cidade das Alagoas?

Contou-lhe que ficara tão penalisada, que resolveu logo organisar uma commissão de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar, passada a missa do setimo dia. E perguntou que lhe parecia.

—Parece-me bem. Não ha homens na commissão?

—Ha só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu rindo.

Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obrigar os que viessem depois. Era tudo verdade. Era tambem verdade que a commissão ia pôr em evidencia a pessoa de Sophia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas não eram da roda da nossa dama, e só uma a comprimentava; mas, por intermedio de certa viuva, que brilhára entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira que todas entrassem naquella obra de caridade. Desde alguns dias não pensara em outra cousa. Ás vezes, á noite, antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço; não dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Comprehende-se que este fosse o assumpto principal da conversação; mas, Sophia tornava de quando em quando ao presente amigo. Porque é que elle fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias, e mais? Rubião respondeu que por nada, mas tão commovido, que uma das costureiras bateu no pé da outra. Dahi em deante, ainda quando o silencio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merinó, das tesouradas, dos rasgados, uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso amigo, com os olhos fisgados na dona da casa.

Veiu uma visita de pesames,—um homem, director de banco. Foram chamar logo o Palha, que desceu a recebel-o. Sophia, pediu licença ao Rubião, por alguns segundos; ia ver Maria Benedicta.

Rubião, ficando só com as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, abafando os passos, para não incommodar ninguem. Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha: «Em todo o caso, pode crer...»—«Nem a administração de um banco é cousa de brincadeira...»—-«Positivamente...» O director fallava pouco, secco e baixo.

Uma das costureiras dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, carreteis de linha, de retroz. Era tarde; ia-se embora.

—Dondon, espera um bocado que eu vou tambem.

—Não, não posso. O senhor faz favor de dizer que horas são?

—São oito e meia, respondeu Rubião.

—Jesus! é muito tarde.

Rubião, para dizer alguma cousa, perguntou-lhe porque não esperava, como a outra pedia.

—Só espero D. Sophia, acudiu Dondon com respeito; mas o senhor sabe onde é que esta móra? Móra na rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos na rua da Harmonia. Olhe que daqui á rua da Harmonia é um estirão.

Sophia desceu logo, achou Rubião transtornado, fugindo com os olhos. Perguntou-lhe o que era; elle respondeu que nada. Dondon sahiu, o director do banco despedia-se; Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saude. Onde estava o chapéo? Achou-o; deu-lhe tambem o sobretudo; e, parecendo que elle procurava outra cousa, perguntou se era a bengala.

—Não, senhor, é o guarda chuva. Creio que é este; é este. Adeus.

—Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapéo, está humido, não faça ceremonias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas suas, e curvado em angulo.

Voltando ao gabinete, deu com o socio, que teimava em sair. Instou tambem; disse-lhe que tomasse uma chicara de chá, que lhe passava logo; Rubião recusou tudo.

—A sua mão está fria, observou o moça ao Rubião, apertando-lh'a; porque não espera? Agua de melissa é muito bom. Vou buscar.

Rubião deteve-a; não era preciso; conhecia aquelles achaques, curavam-se com o somno. Palha quiz mandar vir um tilbury; mas o outro accudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Cattete acharia conducção.

—Vou agarral-a antes de chegar ao Cattete, disse Rubião subindo pela rua do Principe.

Calculou que a costureira teria ido por alli. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e outro lado; um delles pareceu-lhe de mulher. Hade ser ella, pensou; e picou o passo. Entende-se naturalmente que levava a cabeça atordoada: rua da Harmonia, costureira, uma dama, e todas as rotulas abertas. Não admira que, fóra de si, e andando rápido, désse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher tambem andava depressa.

E o homem empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o director de banco, o que acabava de fazer a visita de pesames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranquillamente.

Convem dizer, para explicar a indifferença do homem, que elle tivera, no espaço de uma hora commoções oppostas. Fora primeiro á casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacifico. O director expoz atrapalhadamente o negocio, tornando atraz, saltando adeante, ligando e desligando as cousas. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; elle, animado, deu respostas longas, extremamente longas, e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até á varanda. Ahi fez o director duas cortezias,—uma em cheio, antes de descer a escada,—outra em vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco, e na varanda, pendente do tecto, o lampião de gaz. Enterrou o chapéu, e sahiu. Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negocio que o affligia, mas os comprimentos que fez, as desculpas que pediu, as attitudes subalternas, um rosario de actos sem proveito. Foi assim que chegou á casa do Palha.

Em dez minutos, tinha a alma espanada, e restituida a si mesma, taes foram as mesuras do dono da casa, osapoiadosde cabeça, e um raio de sorriso perenne, não contando offerecimentos de chá e charutos. O director fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar com desdem a venta esquerda, a proposito de uma ideia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não foram delle as cortezias, mas do dono da casa.

Estava outro, quando chegou á rua; dahi o andar socegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a si propria, e a indifferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memoria dos seus rapapés; agora o que elle rumina saborosamente são os rapapés de Christiano Palha.

Quando Rubião chegou á esquina do Cattete, a costureira conversava com um homem, que a esperara, e que lhe dou logo depois o braço; e viu-os ir ambos, conjugalmente, para o lado da Gloria. Casados? amigos? Perderam-se na primeira dobra da rua, emquanto Rubião ficou parado, recordando as palavras do cocheiro, a rotula, o moço de bigodes, a senhora de bonito corpo, a rua da Harmonia... Rua da Harmonia; ella dissera rua da Harmonia.

Deitou-se tarde. Parte do tempo esteve á janella, matutando, charuto acceso, sem acabar do explicar aquelle negocio. Dondon era por força a terceira nos amores; devia ser, tinha olhos sonsos, pensava Rubião.

—Amanhã vou lá, saio mais cedo, vou esperal-a na esquina; dou-lhe cem mil réis, duzentos, quinhentos; ella hade confessar-me tudo.

Quando cançou, olhou para o céo; lá estava o Cruzeiro... Oh! se ella houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constellação pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a miral-a, a compôr mil cousas lindas e namoradas,—a viver do que podia ter sido. Quando a alma se fartou de amores nunca desbrochados, accudiu á mente do nosso amigo que o Cruzeiro não é só uma constellação, é tambem uma ordem honorifica. D'aqui passou a outra série de pensamentos. Achou genial a ideia de fazer do Cruzeiro uma distincção nacional e previlegiada. Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores publicos. Era bella, mas principalmente rara.

—Tanto melhor! disse elle em voz alta.

Era perto de duas horas quando sahiu da janella; fechou-a e foi metter-se na cama, dormiu logo; accordou ao som da voz do creado hespanhol, que lhe trazia um bilhete.

Rubião sentou-se na cama, estremunhado, não reparou na lettra do sobrescripto; abriu o bilhete, e leu:

«Ficamos hontem muito inquietos, depois que osenhor sahiu. Christiano não vae lá agora, porqueaccordou tarde, e tem de ir fallar ao inspector daalfandega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembrançasde Maria Benedicta e daSua amiga e obrigadaSophia.»

—Diga ao portador que espere.

Dahi a vinte minutos a resposta chegou á mão do moleque que trouxera o bilhete; foi o proprio Rubião que lh'a entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube que bem; deu-lhe dez tostões, recommendando-lhe que, quando precisasse alguma cousa, viesse procural-o. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometteu tudo.

—Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubião.

E ficou parado, emquanto o portador descia os poucos degráus. Indo este a meio do jardim, ouviu bradar o Rubião:

—Espera!

Voltou para acudir ao chamado; Rubião já tinha descido os degráus; foram um ao outro, e pararam, calados. Correram dous minutos, sem que Rubião abrisse a boca. Afinal, perguntou alguma cousa, se as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de ha pouco; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubião deixou vagar os olhos pelo jardim. As rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos desabrochavam, outras flores e folhagens, begonias e trepadeiras, todo esse pequeno mundo parecia estender os olhos invisiveis ao Rubião, e bradar-lhe:

—Alma sem vigor, acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos...

—Bem, disse finalmente Rubião; lembranças ás senhoras. Não se esqueça do que lhe disse; precisando de mim, venha cá. Guardou a carta?

—Está aqui, sim, senhor.

—É melhor mettel-a no bolso, mas olhe não machuque.

—Não machuco, não, senhor, retorquiu o criado accommodando a carta.

Sahiu o moleque; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos nos bolsos do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e até de obrigação para pagar uma cortezia com outra. Fez mal; correu ao portão, mas já o moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto excluia as lembranças alegres, e ficou tranquillo.

Senão quando, ao recomeçar o passeio, viu uma carta ao pé de um canteiro. Inclinou-se, apanhou-a, leu o sobrescripto... A lettra era della, tão só della; comparou-a com a do bilhete que recebera; era a mesma. O nome era o do diabo: Carlos Maria.

—Sim, foi isso, pensou elle ao cabo de alguns minutos, o portador da minha carta trouxe esta, e deixou-a cair.

E, mirando a carta, de um e outro lado, perguntava-lhe pelo conteúdo. Oh! o conteúdo! Que iria alli escripto dentro daquelle papel homicida? Perversidade, luxuria, toda a linguagem do mal e da demencia, resumidas em duas ou tres linhas. Ergueu-a ante dos olhos, para ver se podia ler alguma cousa; o papel era grosso; não se podia ler nada. Ao lembrar-se que o portador, dando por falta da carta, voltaria a procural-a, metteu-a atrapalhadamente no bolso, e correu para dentro.

Em casa, tirou-a e mirou-a outra vez; as mãos hesitavam, reproduzindo o estado da consciencia. Se abrisse a carta, saberia tudo. Lida e queimada, ninguem mais conheceria o texto, ao passo que elle teria acabado por uma vez com essa terrivel fascinação que o fazia penar ao pé daquelle abysmo de opprobios... Não sou eu que o digo, é elle; elle é que junta esse e outros nomes ruins, elle é que pára no meio da sala, com os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente, cachimbo na boca, olhando para o Bosphoro... Devia ser o Bosphoro.

—Infernal carta! rosnou surdamente, repetindo uma phrase ouvida no theatro, algumas semanas antes; phrase esquecida, que, por uma associação de ideias, vinha agora exprimir a analogia moral do expectaculo e do expectador.

Teve impetos de abril-a; era só um gesto, um acto; ninguem o via, os quadros da parede estavam quietos, indifferentes, o turco do tapete continuava a fumar e a olhar para o Bosphoro. Contudo, sentia, escrupulos; a carta, posto que achada no jardim, não lhe pertencia, mas ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; não devolveria o dinheiro ao dono? Despeitado, metteu-a outra vez no bolso. Entre mandar a carta ao destinatario e entregal-a a Sophia, adoptou afinal o segundo alvitre; tinha a vantagem de poder lêr a verdade nas feições da propria autora.

—Digo-lhe que achei uma carta, assim e assim, pensou Rubião; e antes de lhe dar a carta, vejo bem na cara della, se fica atterrada ou não. Talvez empallideça: então ameaço-a, fallo-lhe da rua da Harmonia; juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos, oitocentos, mil contos, dous mil, trinta mil contos, se tanto fôr preciso para estrangular o infame...

Nenhum dos habituados da casa compareceu ao almoço. Rubião esperou ainda alguns minutos, chegou a mandar um criado ao portão, a ver se vinha alguém. Ninguem; teve de almoçar sosinho.

Em geral, não podia supportar as refeições solitarias; estava tão affeito á linguagem dos amigos, ás observações, ás graças, não menos que aos respeitos e considerações, que comer só era o mesmo que não comer nada. Agora, porém, era como um Saul que precisasse de algum David, para expellir o espirito maligno que se mettera nelle. Já queria mal ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorar era um beneficio. E depois, a consciencia vacillava,—ia da entrega da carta á recusa e á guarda indefinida. Rubião tinha medo de saber alguma cousa; ora queria, ora não queria lêr nada no rosto de Sophia. O desejo de saber tudo era, em resumo, a esperança de descobrir que não havia nada.

David appareceu emfim, entre o queijo e o café, na pessoa do Dr. Camacho, que voltara de Vassouras, na vespera, á noite. Como o David da Escriptura, trazia um jumento carregado de pães, um cantaro de vinho e um cabrito. Deixára gravemente enfermo um deputado mineiro, que estava em Vassouras e preparou a candidatura do Rubião, escrevendo ás influencias de Minas. Foi o que lhe disse aos primeiros golos de café.

—Candidato, eu?

—Pois então quem?

Camacho demonstrou que não podia haver melhor. Tinha serviços em Minas, não tinha?

—Alguns.

—Aqui os tem de grande relevancia. Mantendo commigo o orgão das ideias, tem recebido solidariamente os golpes que me dão, além dos sacrificios que todos fazemos pelo lado pecuniario. Sobre isto, não me diga nada. Digo-lhe que heide fazer o que puder. Demais, o senhor é a melhor solução da divergencia.

—Divergencia?

—Sim, o Dr. Hermenegildo, de Cattas-Altas, e o coronel Romualdo; dizem que ambos, em caso de vaga, querem apresentar-se; é dividir os votos.

—Seguramente; mas teimam?

—Creio que não teimarão, quando eu lhes mandar d'aqui confirmação dos chefes, porque foi uma das cousas que me lançaram á cara, é que eu não tinha poderes; confessei que, para aquelle caso imprevisto, não; mas que possuia a confiança dos superiores, os quaes me approvariam. Creia que está feito. Então que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando tempo e dinheiro, e algum talento, para não valer a um amigo, que tantas provas tem dado de fidelidade aos principios? Oh! isso não. Hão de ouvir-me, e adoptar o que lhes proponho.

Rubião, commovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e da victoria, se eram precisas algumas despezas já, ou carta de recommendação e pedido, e como é que se havia de ter noticias frequentes do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recommendava-lhe cautella. Em politica, disse elle, uma cousa de nada desvia o curso da campanha e dá a victoria ao adversario. Comtudo, ainda que não sahisse vencedor, tinha Rubião a vantagem de ficar com o seu nome suffragado; e o precedente contava-se por um serviço.

—Firmeza e paciencia, concluiu.

E logo em seguida:

—Eu proprio que sou, se não um exemplo de paciencia e firmeza? A minha provincia está entregue a um grupo de bandidos; não ha outro nome para a gente dos Pinheiros; e alem disso (digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me intrigam, uns ganhadores, que querem ver se o partido me repelle e se me tomam o logar... Não fallemos disso! Ah! meu caro Rubião, isto de politica pode ser comparado á paixão de Nosso Senhor Jesus Christo; não falta nada, nem o discipulo que nega, nem o discipulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas, madeiro, e afinal morre-se na cruz das ideias, pregado peles cravos da inveja, da calumnia e da ingratidão...

Esta phrase, cahida no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo; reteve-a de memoria; antes de dormir, escreveu-a em uma tira de papel. Mas, na occasião da conversa, emquanto a repetia consigo para fixal-a, Rubião dizia que se animasse, que elle era homem para grandes campanhas. E não fugisse de caretas.

—De caretas? Seguramente que não. Nem de papões verdadeiros, se os ha. Cá os espero! Que se acautellem no dia em que subirmos! Hão de pagar tudo. Ouça-me este conselho; em politica, não se perdoa nem se esquece nada. Quem fez uma, paga; creia que a vingança é um prazer, continuou sorrindo; ha muita delicia... Emfim, contados os males e os bens da politica, os bens ainda são superiores. Ha ingratos, mas os ingratos demittem-se, prendem-se, perseguem-se...

Rubião ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os anathemas brotavam-lhe como da boca de Isaias; as palmas do triumpho verdejavam-lhe nas mãos. Cada gesto parecia um principio. Quando fallava com os braços abertos, ferindo o ar, era como se desdobrasse um programma inteiro. Ia-se embriagando de esperanças, e tinha o vinho alegre. De uma vez, parou deante de Rubião:

—Vamos lá, deputado; ensaie um discurso, pedindo o encerramento da discussão:Sr. presidente...Vamos, diga commigo:Sr. presidente, peço a V. Ex...

Rubião interrompeu-o, erguendo-se; teve uma especie de vertigem. Via-se na camara, entrando para prestar juramento, todos os deputados de pé; e teve um calefrio. O passo era difficil. Contudo, atravessou a sala, subiu á mesa do presidencia, prestou o juramento de estylo... Talvez a voz lhe fraqueasse na occasião...

Foi nesse estado que o veiu achar a noticia da morte do Freitas. Chorou uma lagryma ás escondidas; tomou a si custear as despezas do enterro, e acompanhou o defuncto, na tarde seguinte, ao cemiterio. A velha mãe do finado, quando o viu entrar na sala, quiz ajoelhar-se aos pés delle; Rubião abraçou-a a tempo de impedir-lhe o gesto. Esse acto do nosso amigo fez grande impressão nos convidados. Um delles veiu apertar-lhe a mão; depois a um canto, baixinho, contou-lhe a injustiça da demissão que recebera, dias antes; demissão acintosa, por causa de intrigas...

—Imagine V. Ex. que aquillo é (com perdão da palavra) um covil de patifes...

Chegou a hora de sahir o enterro; as despedidas da mãe foram dolorosas; beijos, soluços, exclamações, tudo de mistura, e lancinante. As mulheres não conseguiram arrancal-a dalli; foram precisos dous homens e o emprego da força; ella gritava e teimava por tornar ao cadaver: meu filho! meu pobre filho!

—Um escandalo! insistia o demittido. O proprio ministro dizem que não gostou do acto; mas V. Ex. sabe, para não desmoralisar o director...

—Pan... pan... pan... soavam os martellos surdamente, pregando o caixão.

Rubião accedeu ao pedido que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e deixou o demittido. Fóra, alguma gente parada; os visinhos ás janellas, debruçavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios daquella curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia ocoupédo Rubião, que se destacava das caleças velhas. Já se fallava muito daquelle amigo do finado, e a presença confirmou a noticia. O defuncto era agora apreciado com certa consideração.

No cemiterio, não se contentou Rubião com deitar a pá de terra, acto em que foi primeiro, por solicitação de todos; esperou que os coveiros enchessem a cova com as suas grandes pás do officio. Tinha os olhos humidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e, á porta, com uma só chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças descobertas e curvas. Ao entrar nocoupé, ainda ouviu estas palavras, a meia voz:

—Parece que é senador ou desembargador, ou cousa assim...

Era noite entrada. Rubião vinha por alli abaixo, recordando o pobre diabo que enterrára, quando, na rua de S. Christovão, cruzou com outrocoupé, que levava duas ordenanças atrás. Era um ministro que ia para o despacho imperial. Rubião pôz a cabeça de fóra, recolheu-a e ficou a ouvir os cavallos das ordenanças, tão eguaesinhos, tão distinctos, apezar do estrepito dos outros animaes. Era tal a tensão do espirito do nosso amigo, que ainda os ouvia, quando já a distancia não permittia audiencia. Catrapuz... catrapuz... catrapuz...

Ao setimo dia da morte de D. Maria Augusta, rezou-se a missa de uso, em S. Francisco de Paula; Rubião lá foi, lá viu Carlos Maria. Tanto bastou para precipitar a devolução da carta; tres dias depois, metteu-a no bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas da tarde. Maria Benedicta fôra visitar as amigas da visinhança, que a tinham acompanhado nos primeiros dias de afflicção; Sophia estava só, vestida para sair.

—Mas, não importa, disse ella convidando-o a sentar-se; fico ou saio mais tarde.

Rubião retorquiu que a demora era curta; vinha dar-lhe um papel.

—Em todo caso, sente-se; tambem se póde dar um papel sentado.

Estava tão bonita, que elle hesitou em dizer-lhe as palavras duras que trazia de cór. O luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma luva. Sentada, via-se-lhe metade do pé, sapato raso, meia de sêda, cousas todas que pediam misericordia e perdão. Quanto á espada daquella bainha,—assim chama á alma um velho autor,—parecia não ter gume nem campanhas; era uma ingenua faca de marfim. Rubião esteve a pique de fraquear; a primeira palavra arrastou as outras.

—Que papel? perguntou Sophia.

—Um papel, que supponho grave, respondeu elle contendo-se;—não se recorda ou não sabe que perdeu uma carta?

—Não.

—Costuma escrever cartas?

—Tenho escripto algumas; mas, não me lembra se grave. Deixe ver.

Rubião tinha os olhos desvairados. Não disse nem fez nada. Levantou-se para sair, não saiu. Depois de alguns instantes de silencio e inquietação, fallou sem raiva:

—Não é segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto, e não me despede, nem me acceita, anima-me com os seus bonitos modos. Não me esqueci ainda de Santa Theresa, nem da nossa viagem no trem de ferro, quando vinhamos os dous, com seu marido no meio. Lembra-se? Foi a minha desgraça aquella viagem; desde aquelle dia a senhora me prendeu. A senhora é má, tem genio de cobra; que mal lhe fiz eu? Vá que não goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...

—Cale-se, vem gente, interrompeu Sophia erguendo-se tambem e olhando para o lado da porta.

Não vinha ninguem; entretanto, podiam ouvil-o, por que a voz do Rubião ia aquecendo e crescendo. Cresceu ainda mais. Já não pleiteava esperanças; abria e despejava a alma.

—Não me importa que ouçam, bradou elle; podem ouvir-me; agora digo tudo, a senhora bota-me para fóra e tudo acaba. Não, não se póde fazer soffrer assim um homemcomo eu.

—Cale-se, pelo amor de Deus!

—Qual Deus! Ouça-me o resto, porque eu estou disposto a não guardar nada...

Desatinada, receiando deveras que algum criado ouvisse, Sophia levantou a mão e tapou-lhe a boca. Ao contacto daquella epiderme querida, Rubião perdeu a voz. Sophia retirou a mão, e dispoz-se a deixar a sala; mas, chegando á porta, parou. Rubião caminhara até á janella, para convalecer da explosão.

Sophia, depois de estar alguns segundos á escuta, tornou á sala, e foi sentar-se com grande rumor de saias, na ottomana de setim azul, compra de poucos dias. Rubião voltou-se, e deu com ella, abanando reprehensivamente a cabeça. Antes que elle falasse, Sophia poz o dedo na boca, pedindo-lhe silencio; depois chamou-o com a mão; Rubião obedeceu.

—Sente-se naquella cadeira, disse ella; e continuou, depois de o ver sentado: Tenho razão para zangar-me com o senhor; não o faço, porque sei que é bom, e estou que é sincero; arrependa-se do que me disse, e tudo lhe será perdoado.

Acabando de fallar, Sophia bateu com o leque no lado direito do vestido para o abaixar e compôr; depois levantou os braços sacudindo as pulseiras do vidro preto; finalmente, pousou os braços sobre os joelhos, e, abrindo e fechando as varetas do leque, aguardou a resposta. Ao contrario do que esperava, Rubião abanou a cabeça negativamente.

—Não tenho de que me arrepender, disse elle; e prefiro que me não perdoe. A senhora ficará cá dentro, quer queira, quer não; podia mentir, mas que é que rende a mentira? A senhora é que não tem sido sincera commigo, porque me tem enganado...

Sophia retezou o busto.

—...Não se zangue; não desejo offendel-a; mas, deixe-me dizer que a senhora é que me tem enganado, e muito, e sem compaixão. Que ame a seu marido, vá; perdoava-lhe; mas que...

—Mas que? repetiu ella espantada.

Rubião metteu a mão no bolso, tirou a carta, e entregou-lh'a. Sophia, ao ler o nome de Carlos Maria, ficou sem pinga de sangue; elle viu-lhe a pallidez. Dominando-se logo, perguntou o que era, que queria dizer essa carta.

—A lettra é sua.

—É minha. Mas que diria eu aqui dentro? continuou tranquilla. Quem lhe deu isto?

Rubião quiz referir o achado; mas entendeu ter alcançado o bastante; cortejou-a para sair.

—Perdão, disse ella, abra o senhor mesmo a carta.

—Não tenho mais nada que fazer aqui.

—Fique, abra a carta, aqui a tem; leia tudo,—dizia a moça pegando-lhe na manga; mas, Rubião puxou violentamente o braço, foi buscar o chapéo, e sahiu. Sophia, com medo dos criados, deixou-se ficar na sala.

Tão nervosa esteve durante alguns instantes, que não cuidou da carta. Afinal, virou-a de um lado para outro, sem adivinhar o conteúdo; mas, pouco a pouco, já senhora de si, lembrou-se que devia ser a circular da commissão das Alagoas. Rasgou a sobrecarta: era a circular. Como é que semelhante papel fora ter ás mãos delle? E d'onde lhe vinha a suspeita? De si mesmo ou de fóra? Correria algum boato? Foi ter com o criado que levara a circular a Carlos Maria, e perguntou-lhe se a entregára. Soube que não. Quando o criado chegou á rua dos Invalidos, não achou o papel no bolso, e, com medo, não dissera nada á ama.

Sophia tornou á sala, disposta a não sair. Recolheu a carta e a sobrecarta, para mostral-as a Rubião, afim de que elle visse bem que não era nada; mas, provavelmente, supporia a substituição do papel. Maldito homem! murmurou. E começou a andar á toa.

Uma revoada de memorias entrou na alma de Sophia. A imagem de Carlos Maria veiu postar-se ante ella, com os seus grandes olhos de espectro querido e aborrecido. Sophia quiz arredal-o, mas não pôde; elle acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto e masculo, nem o ar de riso sublime. Ás vezes, via-o inclinar-se, articulando as mesmas palavras de certa noite de baile, que lhe custaram a ella horas de insomnia, dias de esperança, até que se perderam na irrealidade. Nunca Sophia comprehendera o mallogro daquella aventura. O homem parecia querer-lhe deveras, e ninguem o obrigava a declaral-o tão atrevidamente, nem a passar-lhe pelas janellas, alta noite, segundo lhe ouviu. Recordou ainda outros encontros, palavras furtadas, olhos calidos e compridos, e não chegava a entender que toda essa paixão acabasse em nada. Provavelmente, não haveria nenhuma; puro galanteio;—quando muito, um modo de apurar as suas forças attractivas... Natureza de pelintra, de cynico, de futil.

Que lhe importava o mysterio? Era um sujeito futil. Cresceu-lhe o nojo e o desdem. Chegou a rir-se delle; podia encaral-o sem remorsos. E foi andando por alli fóra, vingando-se do bobo,—chamava-lhe bobo,—e fitando no ar os olhos de immaculada. Em verdade, era occupar-se de mais com tal assumpto; começou a maldizer do Rubião, que evocára semelhante homem do esquecimento, por causa daquella triste circular... Depois, tornou ás primeiras lembranças, ás palavras de Carlos Maria. Se todos a achavam bella, porque não a acharia elle, que lh'o disse? Talvez o tivesse a seus pés, se não se houvesse mostrado tão agradecida, tão rasteira...

De repente, a criada, que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma cousa que se quebrava, correu á de visitas, e viu a ama, sozinha, de pé.

—Não é nada, disse-lhe esta.

—Pareceu-me que ouvi...

Foi aquelle boneco que cahiu; apanhe os cacos.

—O chinez! exclamou a creada.

De feito, era um mandarim de porcellana, pobre diabo que estava muito quieto, em cima de uma estante. Sophia achou-se com elle entre os dedos, sem saber como, nem desde quando; ao cuidar na sua voluntaria humilhação, teve um impulso—parece que raiva de si mesma,—e deu com o boneco em terra. Pobre mandarim! não lhe valeu ser de porcellana; não lhe valeu siquer ser dado pelo Palha.

—Mas, minha ama, como é que o chinez...

—Vá-se embora!

Sophia recordou todo o seu proceder diante de Carlos Maria, as acquiescencias faceis, os perdões antecipados, os olhos com que o buscava, os apertos de mão tão fortes... Era isso; tinha-se-lhe lançado aos pés. Depois, o sentimento foi mudando. Apezar de tudo, era natural que elle gostasse d'ella, e a conformidade moral de ambos não traria o abandono de um. Talvez a culpa fosse outra. Excavou razões possiveis, algum gesto duro e frio, alguma falta de attenção para com elle; lembrou-se que, uma vez, por medo de o receber sosinha, mandou dizer que não estava em casa. Sim, podia ser isso. Carlos Maria era orgulhoso; a menor desfeita pungia-o. Soube que era mentira... Essa era a culpa.

...ou, mais propriamente, capitulo em que o leitor, desorientado, não póde combinar as tristezas de Sophia com a anecdota do cocheiro. E pergunta confuso:—Então a entrevista da rua da Harmonia, Sophia, Carlos Maria, esse chocalho de rimas sonoras e delinquentes é tudo calumnia? Calumnia do leitor e do Rubião, não do pobre cocheiro, que não proferiu nomes, não chegou sequer a contar uma anecdota verdadeira. É o que terias visto, se lesses com pausa. Sim, desgraçado, adverte bem que era inverosimil que um homem, indo a uma aventura daquellas, fizesse parar o tilbury deante da casa pactuada. Seria pôr uma testemunha ao crime. Ha entre o ceu e a terra muitas mais ruas do que sonha a tua philosophia,—ruas transversaes, onde o tilbury podia ficar esperando.

—Bem; o cocheiro não soube compôr. Mas que interesse tinha em inventar a anecdota?

Conduzira Rubião a uma casa, onde o nosso amigo, ficou quasi duas horas, sem o despedir; viu-o sair, entrar no tilbury, descer logo e vir a pé, ordenando-lhe que o acompanhasse. Concluiu que era optimo freguez; mas, ainda assim não se lembrou de inventar nada. Passou, porém, uma senhora com um menino,—a da rua da Saude,—e Rubião quedou-se a olhar para ella com vistas de amor e melancolia. Aqui é que o cocheiro o teve por lascivo, além de prodigo, e encommendou-lhe as suas prendas. Se fallou em rua da Harmonia foi por suggestão do bairro d'onde vinham; e, se disse que trouxera um moço da rua dos Invalidos, é que naturalmente transportara de lá algum, na vespera,—talvez o proprio Carlos Maria,—ou porque lá morasse,—ou porque lá tivesse a cocheira,—qualquer outra circumstancia que lhe ajudou a invenção, como as reminiscencias do dia servem de materia aos sonhos da noite. Nem todos os cocheiros são imaginativos. Já é muito concertar farrapos da realidade.

Resta só a coincidencia de morar na rua da Harmonia uma das costureiras do luto. Aqui, sim, parece um proposito do acaso. Mas a culpa é da costureira; não lhe faltaria casa mais para o centro da cidade, se quizesse deixar a agulha e o marido. Ao contrario disso, ama-os sobre todas as casas deste mundo. Não era razão, para que eu cortasse o episodio, ou interrompesse o livro.

Das reflexões de Sophia é que não ha que explicar. Todas tinham o pé na verdade. Era certo e certissimo que Carlos Maria não correspondera ás primeiras esperanças,—nem ás segundas e terceiras,—porque as houve em quadras diversas, ainda que menos verdes e bastas. Quanto á causa disso, vimos que Sophia, á mingua de uma, attribuiu-lhe successivamente tres. Não chegou a pensar em alguns amores que elle porventura trouxesse e lhe tornassem insipidos quaesquer outros. Seria uma quarta causa, e talvez a verdadeira.

Durante alguns mezes, Rubião deixou de ir ao Flamengo. Não foi resolução facil de cumprir. Custou-lhe muita hesitação, muito arrependimento; mais de uma vez chegou a sair com o proposito de visitar Sophia e pedir-lhe perdão. De que? Não sabia; mas queria ser perdoado. Em todas as tentativas desse genero, a ideia de Carlos Maria fazia-o recuar. De certo ponto em diante, foi o proprio lapso de tempo que o tolheu; era exquisito apparecer lá um dia, como um triste filho prodigo, unicamente para supplicar o calor dos bellos olhos da dona da casa. Ia ao armazem, fallar ao Palha; este, ao fim de algumas semanas, reprochou-lhe a ausencia; e, passados dous mezes, perguntou-lhe se era formal proposito.

—Tenho tido muito que fazer, acudiu Rubião; estas cousas politicas tomam todo o tempo a uma pessoa. Vou lá domingo.

Sophia apparelhou-se para recebel-o. Espiaria a occasião de lhe dizer o que era a carta, jurando por todas as cousas santas, para que elle visse que a verdade não era contra ella. Planos perdidos; Rubião não compareceu. Veiu outro domingo, vieram outros domingos... Não obstante, Sophia remetteu-lhe um dia a subscripção para as Alagoas; elle assignou cinco contos de réis.

—É muito, disse-lhe o socio, no armazem, quando elle lhe foi levar o papel.

—Não dou menos.

—Mas olhe que póde dar muito, sem dar tanto. Parece-lhe então que esta subscripção é feita entre meia duzia de pessoas? Anda nas mãos de muitas senhoras e de alguns homens; está nos mostradores das lojas, na praça do Commercio, etc. Assigne menos.

—Como, se está escripto?

—Deste 5 póde-se fazer muito bem um 3. Tres contos já é uma boa assignatura. Ha maiores, mas são de pessoas obrigadas pelo cargo ou pelos milhões; o Bomfim, por exemplo, assignou dez contos.

Rubião não pode reter um risinho ironico; abanou a cabeça, e não sahiu dos cinco contos. Só emendaria, escrevendo o algarismo 1 atraz,—quinze contos,—mais que o Bomfim.

—Seguramente, que pode dar cinco, dez e quinze contos, tornou o Palha; mas o seu capital precisa cautellas, voce está entrando muito por elle... Repare que já lhe rende menos.

Palha era agora o depositario dos titulos de Rubião (acções, apolices, escripturas) que estavam fechados na burra do armazem. Cobrava-lhe os juros, os dividendos e os alugueis de tres casas, que lhe fizera comprar algum tempo antes, a vil preço, e que lhe rendiam muito, Guardava tambem uma porção de moedas de ouro, porque Rubião tinha a manía de as collecionar, para a contemplação. Conhecia mais que o dono, a somma total dos bens, e assistia aos rombos feitos na caravella, sem temporal, mar leite. Tres contos bastavam, insistiu elle; e provou a sinceridade pelo facto de ser justamente marido da fundadora da commissão. Mas o Rubião não desistiu dos cinco; aproveitou a occasião para pedir-lhe mais dez; precisava de dez contos. Palha coçou a cabeça.

—Você desculpe, disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que é que os quer? Não está certo que vae perdel-os, ou arriscal-os, ao menos?

Rubião riu da objecção.

—Se eu estivesse certo de que os perdia, não vinha buscal-os. Póde ser arriscado, mas não é sem arriscar que se ganha. Preciso delles para um negocio,—quero dizer, tres negocios. Dous são emprestimos seguros, e não passam de um conto e quinhentos. Os oito contos e quinhentos são para uma empreza. Por que abana a cabeça, senão sabe de que se trata?

—Por isso mesmo. Se você me consultasse, se me dissesse que empreza e que pessoas eram, eu veria logo se podia arriscar-se; e receio muito que nada preste, a não ser o dinheiro que se perder. Lembra-se das acções daquella Companhia União dos Capitaes Honestos? Disse-lhe logo quo este titulo era emphatico, um modo de embair a gente, e dar emprego a sujeitos necessitados. Você não quiz crêr, e caiu. As acções estão por baixo, e já este semestre não ha dividendos.

—Pois venda justamente essas acções, ainda a resto de barato. Contento-me com o solido. Ou então dê-me da caixa da nossa casa... Passo logo por aqui, se você quizer,—ou mande-me lá a Botafogo. Caucione umas apolices, se lhe parecer melhor...

—Não, não faço nada; não dou os dez contos, atalhou fogosamente o Palha. Basta de ceder a tudo; o meu dever é resistir. Emprestimos seguros? Que emprestimos são esses? Não vê que lhe levam o dinheiro, e não lhe pagam as dividas? Alguns sujeitos vão ao ponto de jantar diariamente com o proprio credor, como um tal Carneiro que lá vi algumas vezes. Dos outros não sei se lhe devem tambem alguma cousa; é possivel que sim. Vejo que é demais. Fallo-lhe por ser amigo; não dirá algum dia que não foi avisado em tempo. De que hade viver, se estragar o que possue? A nossa casa póde cair.

—Não cae, acudiu o Rubião.

—Póde cair; tudo póde cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864.

Rubião remoia os conselhos do socio, não por serem bons nem provaveis, mas por achar nelles uma intenção maviosa, revestida de fórma crúa. Agradeceu-os de coração, mas rejeitou-os; precisava dos dez contos. Podia ter mais tento, dalli em deante, e affirmava-lhe que seria menos facil. De resto, possuia de sobra, tinha dinheiro para dar e vender...

—Para vender só, emendou o Palha.

E, depois de um instante:

—Bem, agora é tarde, amanhã levo-lhe os dez contos. E porque os não hade ir buscar lá á nossa casa ao Flamengo? Que mal lhe fizemos nós? Ou que lhe fizeram ellas? porque a zanga parece ser com ellas, visto que o vejo aqui, algumas vezes. Que foi, para castigal-as? concluiu rindo.

Rubião desviou os olhos do socio, cuja falla lhe parecia afiada de ironia,—como de pessoa que soubesse tudo, e risse delle. Quando lh'os tornou, viu o mesmo semblante interrogativo, e respondeu:

—Não me fizeram nada; lá irei amanha á noite.

—Vá jantar.

—Jantar, não posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite.—E querendo rir: Não as castigue, que não me fizeram nada.

—Alguem o possue, reflictiu Palha logo que elle saiu; alguem, por inveja as nossas relações... Tambem póde ser que Sophia lhe fizesse alguma para arredal-o de casa...

Rubião assomou outra vez á porta; não tivera tempo de chegar á esquina. Voltava para dizer que, precisando do dinheiro cedo, viria buscal-o ao armazem; de noite iria então visital-os. Precisava do dinheiro até ás duas horas da tarde.

Nessa noite, Rubião sonhou com Sophia e Maria Benedicta. Viu-as n'um grande terreiro, apenas vestidas de saia, costas inteiramente despidas; o marido de Sophia, armado de um azorrague de cinco pontas de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as despiedadamente. Ellas gritavam, pediam misericordia, torciam-se, alagadas em sangue, as carnes cahiam-lhes aos bocados. Agora, porque razão Sophia era a imperatriz Eugenia, e Maria Benedicta uma aia sua, é o que não sei dizer com exactidão. «São sonhos, sonhos, Penseroso!» exclamava um personagem do nosso Alvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexão do velho Polonius, acabando de ouvir uma falla tresloucada de Hamlet: «Desvario embora, lá tem seu methodo». Tambem ha methodo aqui, nessa mistura de Sophia e Eugenia; e ainda ha methodo no que se lhe seguiu, e que parece mais extravagante.

Sim, Rubião, indignado, mandou logo cessar o castigo, enforcar o Palha e recolher as victimas. Uma dellas, Sophia, acceitou um lugar na carruagem aberta que esperava pelo Rubião, e lá foram a galope, ella garrida e sã, elle glorioso e dominador. Os cavallos, que eram dous á sahida, eram dahi a pouco, oito, quatro bellas parelhas. Ruas e janellas cheias de gente, flores cahindo em cima delles, acclamações... Rubião sentiu que era o imperador Luiz Napoleão; o cachorro ia no carro aos pés de Sophia...

Tudo acabou sem fim, nem fracasso, Rubião abriu os olhos; talvez alguma pulga o mordeu; qualquer cousa: «Sonhos, sonhos, Penseroso!» Ainda agora prefiro o dito de Polonius: «Desvario embora, lá tem seu methodo!»

Rubião fez os dous emprestimos e o negocio. O negocio era uma Empreza Melhoradora dos Embarques e Desembarques no porto do Rio de Janeiro. Um dos emprestimos tinha por fim pagar certa conta atrazada de papel daAtalaia, divida urgente. A folha estava ameaçada de parar.

—Perfeitamente, disse Camacho, quando Rubião lhe foi levar o dinheiro á casa. Muito obrigado. Veja você como, por uma miseria desta ordem, podia emmudecer o nosso orgão. São os espinhos naturaes da carreira. O povo não está educado; não reconhece, não apoia os que trabalham por elle, os que descem á arena todos os dias em defeza das liberdades constitutionaes. Imagine, que, de momento, não dispunhamos deste dinheiro, tudo estava perdido, cada um ia para os seus negocios, e as sãs ideias ficavam sem o seu leal expositor.

—Nunca! protestou Rubião.

—Tem razão; redobraremos de esforços. AAtalaiaserá como o Antheu da fabula. De cada vez que cair, erguer-se-ha com mais vida.

Dito isto, Camacho mirou o maço de notas. Um conto e duzentos, não? perguntou; e metteu-o no bolso do fraque. Continuou a dizer que estavam seguros agora, a folha ia de vento em popa. Tinha algumas reformas materiaes em vista; foi ainda mais longe.

—Precisamos desenvolver o programma, adeantar as ideias, dar um empurrão aos correligionarios, atacal-os, se fôr preciso...

—Como?

—Ora, como? atacando. Atacar é um modo de dizer; corrigir. É evidente que o orgão do partido está afrouxando. Chamo orgão do partido, porque a nossa folha é orgão das ideias do partido; comprehende a differença?

—Comprehendo.

—Vai afrouxando, continuou Camacho apertando um charuto entre os dedos, antes de o accender; e nós precisamos de accentuar os principios, mas francamente, nobremente, dizendo a verdade. Creia que os chefes precisam ouvil-a a seus proprios amigos e adherentes. Nunca rejeitei a conciliação dos partidos, pugnei por ella, e a ideia fundamental daAtalaiafoi a principio um terreno neutro. Mas conciliação não é jogo de empulha. Para lhe dar um exemplo, na minha provincia a gente dos Pinheiros tem o apoio do governo, unicamente para me deslocar; e os meus correligionarios da Corte, em vez de a combater, visto que o governo lhe dá força, que pensa que fazem? Dão tambem apoio aos Pinheiros.

—Têm ao menos alguma influencia os Pinheiros?

—Nenhuma, respondeu Camacho fechando violentamente a caixa de phosphoros que ia a abrir. Ha um réo de policia entre elles, e ha outro que até foi aprendiz de barbeiro. Matriculou-se, é verdade, na Faculdade do Recife, creio que em 1855, por morte do padrinho que lhe deixou alguma cousa, mas tal é o escandalo da carreira desse homem que, logo depois de receber o diploma de bacharel, entrou na assembléa provincial. É uma besta; é tão bacharel como eu sou papa.


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