Chapter 5

Entenderam-se sobre as modificações politicas da folha. Camacho lembrou ao Rubião que a candidatura deste naufragara por causa justamente da opposição dos chefes. De alguns, emendou logo. Rubião concordou; assim lh'o tinha dito o amigo em tempo, e a lembrança avivou o resentimento do desastre. Podia, devia estar na camara. Os taes é que o não quizeram; mas haviam de ver, pensava Rubião tinham de amargar o mal feito. Deputado, senador ministro, vel-o-hiam tudo, com olhos tortos e espantados. A cabeça do nosso amigo, tanto que o outro lhe pôz a faisca, foi ardendo de si mesma, não por odio, nem inveja, mas de ambição ingenua, de cordial certeza, visão antecipada e deslumbrante das cousas. Camacho estimou achal-o de accordo.

—A nossa gente é de egual opinião, disse elle. Creio que não faz mal uma pequena ameaça aos amigos.

Nessa mesma noite, leu-lhe o artigo em que advertia o partido da conveniencia de não ceder ás perfidias do poder, apoiando em algumas provincias certa gente corrupta e sem valor. Eis aqui a conclusão:

«Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Ha quem pretenda (mirabile dictu!) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os beneficios que caem das mãos dos adversarios.Risum teneatis!Quem póde proferir tal blasphemia sem que lhe tremam as carnes? Mas supponhamos que assim seja, que a opposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, á postergação das leis, aos excessos da autoridade, á perversidade e aos sophismas.Quid inde?Taes casos,—aliás, raros,—só podiam ser admittidos quando favorecessem os elementos bons, não os máos. Cada partido tem os seus discolos e sycophantas. É interesse dos nossos adversarios ver-nos afrouxar, a troco da animação dada á parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negal-o é provocar-nos á guerra intestina, isto é (horresco referens!), á dilaceração da alma nacional... Mas, não, as ideias não morrem; ellas são o labaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locaes e passageiros a victoria indefectivel dos principios Tudo que não for isto ter-nos-ha contra si. «Alea jacta est.»

Rubião applaudiu o artigo; achava-o excellente. Talvez pouco energico.Vendilhões, por exemplo, era bem dito; mas ficava melhorvis vendilhões.

—Vis vendilhões? Ha só um inconveniente, ponderou Camacho. É a repetição dosvv.Vis ven... Vis vendilhões; não sente que o sem fica desagradavel?

—Mas lá em cima havés vis...

—Vae victis.Mas é uma phrase latina. Podemos arranjar outra cousa: vis mercadores.

—Vis mercadores é bom.

—Comtudo,mercadoresnão tem a força devendilhões.

—Então, porque não deixa vendilhões? Vis vendilhões é forte; ninguem repara no som. Olhe, eu nunca dou por isso. Gósto de energia. Vis vendilhões.

—Vis vendilhões, vis vendilhões, repetiu Camacho, á meia voz. Já estou achando melhor. Vis vendilhões. Acceito, concluiu emendando. E releu: «Os vis vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locaes e passageiros a victoria indefectivel dos principios. Tudo que não fôr isto ter-nos-ha contra si.Alea jacta est.»

—Muito bem! disse Rubião, sentindo-se algum tanto autor do artigo.

—Parece-lhe bem? perguntou Camacho, sorrindo. Ha pessoas que ainda me acham no estylo a frescura do meu tempo de estudante. Não sei, não digo nada; a disposição, sim, é a mesma. Hei de castigal-os; havemos de castigal-os.

Aqui é que eu quizera ter dado a este livro o methodo de tantos outros,—velhos todos,—em que a materia do capitulo era posta no summario: «De como aconteceu isto assim, e, mais assim». Ahi está Bernardim Ribeiro; ahi estão outros livros gloriosos. Das linguas extranhas, sem querer subir a Cervantes nem a Rabelais, bastavam-me Fielding e Smollet, muitos capitulos dos quaes só pelo summario estão lidos. Pegai emTom Jones, livro IV, cap. I, lêde este titulo:Contendo cinco folhas de papel.É claro, é simples, não engana a ninguem; são cinco folhas, mais nada, quem não quer não lê, e quem quer lê, para os ultimos é que o autor conclue obsequiosamente: «E agora, sem mais prefacio, vamos ao seguinte capitulo».

Se tal fosse o methodo deste livro, eis aqui um titulo que explicaria tudo: «De como Rubião, satisfeito da emenda feita no artigo, tantas phrases compoz e ruminou, que acabou por escrever todos os livros que lêra».

Lá haverá leitor a quem só isso não bastasse. Naturalmente, quereria toda a analyse da operação mental do nosso homem, sem advertir que, para tanto, não chegariam as cinco folhas de papel de Fielding. Ha um abysmo entre a primeira phrase de que Rubião era co-autor até a autoria de todas as obras lidas por elle; é certo que o que mais lhe custou foi ir da phrase ao primeiro livro;—deste em diante a carreira fez-se rapida. Não importa; a analyse seria ainda assim longa e fastiosa. O melhor de tudo é deixar só isto; durante alguns minutos, Rubião se teve por autor de muitas obras alheias.

Ao contrario, não sei se o capitulo que se segue poderia estar todo no titulo.

Rubião foi mantendo o proposito de não tornar a ver Sophia; pelo menos, não ia ao Flamengo. Viu-a um dia passar de carro, com uma das damas da commissão das Alagoas; ella inclinou-se risonha, dizendo-lhe adeus com a mão. Elle retribuiu o comprimento, tirando o chapéu, com tal ou qual alvoroço, mas não ficou parado como lhe aconteceria d'antes; apenas lançou um olhar ao carro que ia andando. Tambem elle foi andando,—e pensando no lance da carta, não comprehendendo aquelle gesto de mão, sem odio nem vexame,—como se nada houvesse entre elles. Podia ser que o serviço da commissão e a companheira que levava explicassem a benevolencia graciosa de Sophia; mas Rubião não cogitou desta hypothese.

—Estará assim tão falta de brio? perguntava elle. Pois não se lembra da carta que achei, mandada por ella ao tal gamenho da rua dos Invalidos? É muito; é de mais. Parece um desafio, um modo de dizer que não faz caso, que escreverá todas as cartas que quizer. Que as escreva, mas gaste algum dinheiro em registral-as no correio; é barato...

Achou algum pico em si mesmo e riu-se. Isto, e um homem que passou rasgando-lhe uma cortezia, tiraram-lhe o amargor das saudades, e elle esqueceu o assumpto, para cuidar de outro, que o levava ao Banco do Brazil.

Ao entrar no Banco esbarrou com o socio, que sabia.

—Creio que vi agora D. Sophia, disse-lhe Rubião.

—Onde?

—Na rua dos Ourives; ia de carro, com outra senhora, que não conheço. Como tem você passado?

—Viu-a, e não se lembrou de nada, observou Palha, sem responder á pergunta. Não se lembrou que ella faz annos, quarta-feira, depois de amanhã. Não lhe peço que vá jantar, não ouso tanto, seria convidal-o a aborrecer-se; mas uma chicara de chá bebe-se depressa. Faz-me esse favor?

Rubião não respondeu logo.

—Vou até jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte commigo. Tinha-me esquecido, confesso; mas ando com tanta cousa na cabeça... Espere por mim daqui a meia hora, no armazem.

Antes de meia hora estava lá, pedindo-lhe dous contos de reis. Palha ja não resistia ao desmoronamento do capital; e, se uma ou outra vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora entregou-lhe o dinheiro com indifferença. Rubião não tornou a casa sem comprar um magnifico diamante, que na quarta-feira, enviou a Sophia, acompanhado de um bilhete de visita, e duas palavras de felicitação.

Sophia estava só, no quarto de vestir, calçando os sapatos, quando a criada lhe entregou o pacote. Era o terceiro presente do dia; a criada esperou que ella o abrisse para ver tambem o que era. Sophia ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica joia,—uma bella pedra, no centro de um collar. Esperava alguma cousa bonita; mas, depois dos ultimos successos, mal podia crer que elle fosse tão generoso. Batia-lhe o coração.

—O portador está ahi?

—Já foi. Que cousa rica, minha ama!

Sophia fechou a caixa, e acabou de calçar-se. Deteve-se algum tempo, sentada, sosinha, recordando cousas idas, e levantou-se pensando:

—Aquelle homem adora-me.

Tratou de vestir-se; mas, ao passar por deante do espelho, deixou-se estar alguns instantes. Comprazia-se na contemplação de si mesma, das suas ricas formas, dos braços nus de cima a baixo, dos proprios olhos contempladores. Fazia vinte e nove annos, achava que era a mesma dos vinte e cinco, e não se enganava. Cingido e apertado o collete, deante do espelho, accommodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o collo magnifico. Lembrou-se então de ver como lhe ficava o diamante; tirou o collar e pol-o ao pescoço. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a direita e vice-versa, approximou-se, affastou-se, augmentou a luz do camarim; perfeito. Fechou a joia e guardou-a.

—Aquelle homem adora-me, repetiu.

—Provavelmente, elle lá estará, pensou Rubião indo jantar ao Flamengo; duvido que tenha dado melhor presente que eu.

Carlos Maria lá estava, effectivamente, conversando, entre uma das commissarias das Alagoas, e Maria Benedicta. Poucos eram os convivas; houve proposito em escolher e limitar. Não estava alli o major Sequeira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubião conheceu naquelle outro jantar de Santa Thereza. Da commissão das Alagoas viam-se algumas damas; via-se mais o director do banco,—o da visita ao ministro,—com a senhora e as filhas,—outro personagem bancario,—um commerciante inglez, um deputado, um desembargador, um conselheiro, alguns capitalistas, e pouco mais.

Posto que evidentemente gloriosa, Sophia esqueceu por um instante os outros, quando viu Rubião entrar na sala e caminhar para ella. Ou mudança, ou descostume, achou-lhe outro ar, passo firme, cabeça levantada, o avêsso, em summa, do antigo gesto encolhido e diminuto. Sophia apertou-lhe a mão com força e sussurrou um agradecimento. Á mesa fel-o sentar ao pé de si, tendo do outro lado a presidente da commissão. Rubião olhava superiormente para tudo. A qualidade dos convivas não lhe produziu impressão, nem o ar ceremonioso, nem o luxo da mesa, nem o da farda dos creados, barbeados de fresco, abotoados até á gravata branca, e trazendo nos botões estas duas letras C.P. Nada disso o deslumbrou. O mesmo cuidado particular de Sophia, embora lhe fosse agradavel, não o tonteava, como outrora. E da parte della era mais apurada a attenção, e os olhos excepcionalmente meigos e serviçaes. Rubião procurou Carlos Maria; lá estava entre as mesmas moças da sala,—Maria Benedicta e a commissaria das Alagoas. Verificou que só se occupava com ellas, não olhava para Sophia, nem esta para elle.

—Talvez disfarcem, pensou.

Pareceu-lhe, ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar,—mas o movimento geral da reunião podia illudil-o, e Rubião não fez maior cabedal da observação. Sophia dera-se pressa em tomar-lhe o braço. De caminho, disse-lhe ella:

—Tenho esperado pelo senhor desde aquelle dia, e nunca mais veiu aqui. Era meu direito exigil-o, para explicar-me. Logo fallaremos.

Rubião foi dahi a pouco para o gabinete dos fumantes, onde se fallava de politica e voltarete. Ouviu calado, com os olhos erradios. Quando os outros sahiram, Rubião deixou-se estar só, meio reclinado em um sophá de couro, sem pensar. A imaginação é que fazia o seu officio, um tanto pachorrenta, agora,—talvez porque elle tivesse comido muito. Lá fóra iam entrando os convidados da noite; enchia-se a casa, crescia o borborinho da conversação, sem que o nosso amigo descesse dos seus bellos sonhos. O proprio som do piano, que fez calar todos os rumores, não o attrahiu á terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no gabinete, fel-o erguer-se do golpe, accordado.

—Ahi está, disse Sophia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento; nem quer ouvir boa musica. Pensei que tivesse ido embora. Vim ter com o senhor.

E sem mais demora, porque não podia perder um minuto, referiu-lhe o que sabemos da carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que, antes de a abrir, pedira-lhe que elle mesmo a abrisse e lesse. Que melhor prova de innocencia? A palavra sahia-lhe rapida, seria, digna e commovida. Occasião houve em que os olhos se lhe tornaram humidos; ella enxugou-os, e ficaram vermelhos. Rubião pegou-lhe na mão, e viu ainda uma lagryma,—uma pequena lagryma,—escorregar até o canto da bocca. Jurou então que sim, acreditava em tudo. Que idéa aquella de chorar? Sophia enxugou ainda os olhos, e estendeu-lhe a mão agradecida.

—Até já, disse ella.

O piano continuava; Rubião notou-lhe esta circumstancia. Emquanto ouviam tocar, não viriam ter com elles.

—Mas eu é que não posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sophia. Demais, tenho ordens que dar. Até já.

—Olhe, escute, insistiu Rubião.

Sophia parou.

—Escute; deixe-me dizer-lhe, e não sei se pela ultima vez...

—Pela ultima vez?

—Quem sabe? Pode ser que ultima. Importa-me pouco que esse homem viva ou não, mas posso achal-o aqui alguma vez, e não me sinto disposto a brigar.

—Hade encontral-o todos os dias. Christiano ainda lhe não disse o que ha? Vae casar com Maria Benedicta.

Rubião deu um passo para traz.

—Casam-se, continuou ella. O facto é de admirar, porque surgiu quando menos contavamos com isto;—ou eram muito fingidos,—ou foi cousa que lhes deu de repente. Casam-se. Maria Benedicta contou-me uma historia, que me foi confirmada por outra pessoa; mas, afinal, a historia é sempre a mesma. Gostaram um do outro, e adeus. Casam-se brevemente. Quando elle fallou a Christiano, Christiano respondeu que dependia de mim... Como se fosse mãe d'ella! Consentí logo, e desejo que sejam felizes. Elle parece bom rapaz; ella é excellente creatura; hão de ser felizes, por força. E bom negocio, sabe? Elle está de posse de todos os bens do pae e da mãe. Maria Benedicta não tem nada, em dinheiro; mas tem a educação que lhe dei. Hade lembrar-se que, quando veiu para minha companhia, era um bicho do matto; não sabia quasi nada; fui eu que a eduquei. Minha tia merecia tudo, e ella tambem. Pois, é verdade, casam-se muito breve. Não os viu hoje sempre juntos? Não ha ainda participação official; mas os intimos da familia podem saber. Casam-se, é verdade...

Para quem tinha tanta pressa, eis ahi um discurso demasiado comprido. Sophia deu por isso um pouco tarde; repetiu a Rubião que até logo, que fosse para a sala. O piano acabara; ouvia-se um borborinho discreto de applauso e conversação.

Iam casar? Mas como é então que...? Maria Benedicta,—era Maria Benedicta que casava com Carlos Maria; mas então Carlos Maria... Comprehendia agora; era tudo engano, confusão; o que parecia ser com uma pessoa era com outra, e ahi está como a gente póde chegar á calumnia e ao crime.

Assim reflexionava Rubião, saindo para a sala de jantar, onde os copeiros adereçavam a mesa da ceia. E continuou, andando ao comprido da sala: «—Ora vejam! E o Palha queria justamente casar-me com a prima, mal sabendo que o destino lhe guardava outro noivo. Não é feio rapaz; é muito mais bonito que ella. Ao pé de Sophia, Maria Benedicta vale pouco ou nada; mas a sympathia é assim mesmo... Casam-se, e breve... Será de estrondo o casamento? Deve ser; o Palha vive agora um pouco melhor...»—e Rubião lançava os olhos aos moveis, porcellanas, cristaes, reposteiros. «—Hade ser de estrondo. E depois o noivo é rico...» Rubião pensou na carruagem e nos cavallos que levaria; tinha visto uma parelha soberba, no Engenho Velho, dias antes, que estava mesmo ao pintar. Ia fazer a encommenda de outra assim, fosse por que preço fosse; tinha tambem de presentear a noiva. Ao pensar nella viu-a entrar na sala.

—Prima Sophia onde está? perguntou ella ao Rubião.

—Não sei; esteve aqui ha pouco.

E, como a visse disposta a ir adeante, pediu-lhe uma palavra, e que se não zangasse. Maria Benedicta esperou; elle, sem hesitação, deu-lhe os parabens. Sabia que ia casar... Maria Benedicta ficou muito vermelha, e murmurou alguma cousa parecida com um pedido de não divulgar nada. Não havia então nenhum creado alli; Rubião pegou-lhe na mão e fechou-a entre as suas.

—Eu sou da casa, disse; a senhora merece ser feliz, e espero que seja.

Um pouco assustada, Maria Benedicta puxou a mão e libertou-a; mas, para o não aborrecer, sorriu. Não era preciso tanto; elle estava encantado. Sabemos que a moça não era bonita. Pois estava linda, á força de felicidade. A natureza parecia haver posto nella as suas mais finas ideias. Sorrindo egualmente, Rubião fallou-lhe como se fosse seu pae:

—Foi sua prima que me disse; recommendou-me segredo. Não direi nada antes do tempo. Mas que tem que diga á senhora? A senhora é boa e merece tudo. Não é preciso esconder os olhos; casar não é vergonha. Vamos lá; levante a cabeça e ria.

Maria Benedicta poz nelle os olhos radiantes.

—Isso! applaudiu Rubião. Que mal ha em confessar-se a um amigo? Deixe-me dizer-lhe a verdade; creio que a senhora será feliz, mas admitto que elle ainda será mais feliz. Não? Verá se não fallo verdade; elle mesmo lhe hade dizer o que sentir, e, se fôr sincero, a senhora reconhecerá que eu estou apenas prophetisando. Bem sei que não tem balança para medir os sentimentos; emfim, o que eu quero dizer é que a senhora é uma linda e boa creatura... Vá, vá-se embora; se não, fico dizendo verdades, e a senhora está corando muito...

De facto, Maria Benedicta corava de gosto, ouvindo a linguagem de Rubião. Em casa, achára acquiescencia, nada mais. O proprio Carlos Maria não era assim terno; gostava della com circumspecção. Fallava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber do destino,—pagamento devido, integral e certo. Tambem não era preciso que lhe fallasse de outro modo, para que ella o adorasse sobre todas as cousas deste mundo. Rubião repetiu a despedida, e ficou a olhar para ella, como para uma filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala, viva e satisfeita,—tão diversa do que a achára em outros tempos, e desapparecer por uma das portas. Não pode reter esta palavra:

—Linda e boa creatura!

A historia do casamento de Maria Benedicta é curta; e, posto Sophia a ache vulgar, vale a pena dizel-a. Fique desde já admittido que, senão fosse a epidemia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclue que as catastrophes são uteis, e até necessarias. Sobejam exemplos; mas basta um contosinho que ouvi em creança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona,—um triste molambo de mulher,—chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ebrio, viu o incendio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era della.

—É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuia n'este mundo.

—Dá-me então licença que accenda alli o meu charuto?

O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para accender um charuto nas miserias alheias. Bom padre Chagas!—Chamava-se Chagas.—Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos annos essa ideia consoladora, de que ninguem, em seu juizo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquelle bebado tinha ao principio da propriedade,—a ponto de não accender o charuto sem pedir licença á dona das ruinas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas!

Adeus, padre Chagas! Vou á historia do casamento. Que Maria Benedicta gostava de Carlos Maria, é cousa vista ou presentida desde aquelle baile da rua dos Arcos, em que elle e Sophia valsaram tanto. Vimol-a na manhã seguinte, prompta a ir para a roça; a prima apaziguou-a com a promessa de que lhe estava arranjando um noivo. Maria Benedicta cuidou que era o valsista da vespera, e ficou esperando. Não lhe confessou nada,—por vergonha, a principio,—e depois, por lhe não fazer perder o effeito da novidade, quando Sophia houvesse de descobrir o nome da pessoa. Se fallasse desde logo, podia acontecer tambem que a outra affrouxasse na tarefa, e lá se perdia a causa. Não façamos caso disto; são pequenos calculos de moça.

Sobreveiu a epidemia das Alagoas. Sophia organisou a commissão, que trouxe novas relações á familia Palha. Incluida entre as senhoras que formavam uma das sub-commissões, Maria Benedicta trabalhou com todas, mas grangeou em especial a estima de uma dellas, D. Fernanda, esposa de um deputado. D. Fernanda tinha pouco mais de trinta annos, era jovial, expansiva, corada e robusta; nascera em Porto Alegre, casara com um bacharel das Alagoas, deputado agora por outra provincia, e, segundo corria, prestes a ser ministro de Estado. A naturalidade do marido foi o pretexto para mettel-a na commissão; e bem acertado foi, porque ella pedia como quem manda, não tinha acanhamento nem admittia recusa. Carlos Maria, que era seu primo, foi visital-a logo que ella chegou ao Rio de Janeiro. Achou-a mais formosa ainda que em 1865, ultimo anno em que a vira, e talvez fosse verdade; concluiu que o ar do sul era feito para enrijar as pessoas, duplicar-lhe as graças, e prometteu ir lá acabar os seus dias.

—Vamos para lá, que lhe arranjarei casamento, disse ella. Conheço uma moça de Pelotas, que é umbijou, e só casa com moço da Côrte.

—Commigo, naturalmente?

—Da Côrte e de olhos grandes. Olhe que não estou brincando. É uma guasca de primeira ordem. Tenho aqui o retrato della.

D. Fernanda abriu o album e mostrou o retrato da pessoa.

—Não é feia, concordou elle.

—Só?

—Sim, é bonita.

—Onde é que você bota os seus chinellos velhos, primo?

Carlos Maria sorriu sem responder; não gostou da expressão. Quiz passar a outro assumpto, mas D. Fernanda tornou ao casamento da amiga de Pelotas. Mirava o retrato, coloria-o de palavra, dizendo como eram os olhos, os cabellos, a tez; e depois fez uma pequena biographia de Sonora. Tinha este bonito nome. O padre que a baptisou, hesitou em dar-lh'o, apezar do respeito e influencia do pae da menina, rico estancieiro; mas, afinal cedeu, considerando que as virtudes da pessoa podiam levar o nome ao rol dos santos.

—Crê que ella vá ao rol dos santos? perguntou Carlos Maria.

—Se casar com você, creio.

—Não me explica nada; casando com o diabo succederá a mesma cousa, e com mais certeza, por causa do martyrio. Santa Sonora, não é feio nome, responde bem ao sentido. Santa Sonora... Em todo caso, prima...

—Você tem raça de judeu; cale-se, interrompeu ella. Recusa então a minha guasca? continuou indo pôr o album no seu logar.

—Não recuso; deixe-me ir indo com o meu celibato, que é meio caminho do ceu.

D. Fernanda soltou uma gargalhada.

—Deus de misericordia! Você acredita mesmo que vae para o ceu?

—Já cá estou, ha vinte minutos. Pois que é esta sala, tranquilla, fresca, tão longe da gente que anda lá fóra? Aqui conversamos os dous, sem ouvir blasphemias, sem aturar espiritos aleijados, tisicos, escrophulosos, insupportaveis, o proprio inferno, em summa. Aqui é o ceu,—ou um pedaço do ceu; uma vez que nós cabemos nelle, vale pelo infinito. Conversamos de Santa Sonora, de S. Carlos Maria e de Santa Fernanda, que, para contrastar com S. Gonçalo, fez-se casamenteira das moças. Onde é que ha outro ceu como este?

—Em Pelotas.

—Pelotas fica tão longe! suspirou elle estendendo as pernas e pondo os olhos no lustre da sala.

—Está bom, é só a primeira investida; darei outras, até você acabar de querer.

Carlos Maria sorriu e olhou para as borlas cahidas do cordão de seda que ella trazia á cintura, atado por um laço frouxo; ou para ver as borlas, ou para notar a gentileza do corpo. Viu bem, ainda uma vez, que a prima era uma bella creatura. A plastica levou-lhe os olhos,—o respeito os desviou; mas, não foi só a amizade que o fez demorar ainda alli, e o trouxe novamente áquella casa. Carlos Maria amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cançativos, pesados, frivolos, chulos, triviaes. As mulheres, ao contrario, não eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nellas ficava bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; tinham, ao demais, a graça e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava elle, ha sempre alguma cousa que extrahir. Quando as achava insipidas ou estupidas, tinha para si que eram homens mal acabados.

Entretanto, as relações de D. Fernanda e Maria Benedicta iam-se estreitando. Esta, além de acanhada, andava triste por aquelle tempo; foi justamente a disparidade de caracter e de situação que as prendeu uma á outra. D. Fernanda possuia, em larga escala, a qualidade da sympathia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os fazer ledos e corajosos. Contavam-se della muitos actos de piedade e dedicação.

—A senhora que tem? perguntou ella um dia á amiguinha. Quasi nunca ri, anda sempre com os olhos espantados, pensando...

Maria Benedicta, respondeu que não tinha nada, que era o seu modo; e sorria dizendo isto, por simples condescendencia. Fallou tambem na perda da mãe, como uma das causas de suas melancolias. D. Fernanda entrou a leval-a a toda parte, a trazel-a para jantar, a dar-lhe logar no camarote, se ia ao theatro; e graças a isso, e ao seu genio galhofeiro, sacudiu da alma da moça os corvos aborrecidos que lá avoejavam. Costume e affeição depressa as fizeram intimas. Não obstante, Maria Benedicta continuou a calar o seu mysterio.

—Seja qual fôr o mysterio, pensou um dia D. Fernanda, acho que o melhor é casal-a com o Carlos Maria; a Sonora que espere.

—Você precisa casar, Maria Benedicta, disse-lhe dalli a dous dias, da manhã, na chacara, em Matta-cavallos; Maria Benedicta tinha ido ao theatro com ella, e passára lá a noite.—Não quero estremecimentos; precisa casar e hade casar... Desde antehontem que estou para lhe dizer isto, mas estas cousas falladas em sala ou na rua, não tem força. Aqui na chacara é differente. E se você tem animo de trepar commigo um pedaço do morro, então é que ficaremos hem. Vamos?

—Está fazendo calor...

—É mais poetico, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só tem agua nas veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui ao pé, armada, para tudo. Casa ou morre. Não me replique. Você não é feliz,—continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a alguem? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.

—Não tenho.

—Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escriptos no coração; conheço um bom inquilino.

Maria Benedicta voltou-se de todo para ella, com os labios entreabertos e os olhos escancarados. Parecia receiar da proposta ou anciar por ella. D. Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que amava a alguem, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessal-o, instava, rogava,—intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedicta esfriara, os olhos cavavam o chão, e, por alguns instantes, nenhuma dellas disse nada.

—Vamos, falle, repetiu D. Fernanda.

—Não tenho que dizer.

D. Fernanda fazia gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua propria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao hombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscal-o á lua,—fosse onde fosse,—excepto no cemiterio; mas, se estivesse no cemiterio, dar-lhe-hia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos dias. Maria Benedicta ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse,—prestes a fallar, e calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava,—mas, como tambem não sorria, e tremia de commoção, era facil adivinhar meia verdade, ao menos.

—Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua mãe.

Maria Benedicta pouco mais resistiu; gastára as forças e sentia a necessidade de revellar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a commovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, á barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma deu por elle. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de indole e de especie para se converter em adoração pura. A principio, quando ella via a pessoa amada, passava por dous estados mui diversos,—um que não podia definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quasi um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quasi que só este. Tinha chorado muito, comsigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que elle era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda não fazendo caso della, mereceria sempre ser adorado.

—Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que é não ficar penando á tôa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negocio, por que elle casa com outra, os annos passam, a paixão monta na garupa delles, e um dia, quando você menos pensar, accorda sem amor nem marido. E quem é esse barbaro?

—Isso não digo, respondeu Maria Benedicta, levantando-se do banco.

—Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A questão principal é casar;—não podendo ser com esse, será com outro.

—Não, não caso.

—Só com elle?

—Nem sei se com elle, respondeu Maria Benedicta, depois de alguns instantes. Gósto delle, como gósto de Deus, que está no ceu.

—Virgem Santissima! Que blasphemia! Duas blasphemias, menina; a primeira é que não se deve amar a ninguem como a Deus,—a segunda é que um marido, ainda sendo máo, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.

«Um marido, ainda máo, é sempre melhor que o melhor dos sonhos.»

A maxima não era idealista; Maria Benedicta protestou contra ella. Pois não era melhor sonhar que chorar? Os sonhos acabam ou alteram-se, emquanto que os máos maridos podem viver muito.—«A senhora falla assim, concluiu Maria Benedicta, porque Deus lhe destinou um anjo... Olhe, lá vem elle.»

—Deixe estar que hade ter tambem o seu anjo; conheço um magnifico para você; todos os anjos me procuram.

Theophilo, marido de D. Fernanda, que as vira a distancia, veiu ter com ellas; trazia na mão um diario amarrotado. Não saudou a hospede; foi direito á mulher.

—Você quer saber o que me fizeram, Nannan? disse elle com os dentes cerrados. Sahiu hoje o meu discurso do dia 5. Veja esta phrase; eu tinha dito:Na duvida abstem-te, é o conselho do sabio.E puzeram:Na divida obstem-te...É insuportavel! Nota que tratava-se justamente de um credito do ministerio da marinha, allegando-se no debate que muitas despezas estavam feitas. De modo que pode parecer chulice da minha parte; é como se aconselhasse o calote. Em todo caso, é disparate.

—Mas você não leu as provas?

—Li, mas o autor é o menos apto para as ler bem.Na divida abstem-te, continuou elle com os olhos na folha. E bufando:—Isto só com...

Estava consternado. Era homem de talento, de gravidade e de trabalho; mas, naquelle instante, todas as grandes obras, os mais temerosos problemas, as batalhas mais decisivas, as revoluções mais profundas, o sol e a lua, e todas as constellações, e todas as alimarias, e todas as gerações humanas, valiam menos que a troca de umupor umi.Maria Benedicta olhava para elle sem entendel-o. Cuidava padecer a maior tristura; mas alli estava outra tão grande como a sua, e muito mais afflictiva. Assim, a melancolia roaz de uma pobre creatura era tanto como um erro typographico. Theophilo, que só então deu por ella, estendeu-lhe a mão; estava fria. Ninguem finge as mãos frias; devia padecer deveras. Instantes depois, atirou a folha ao chão, com um gesto violento, e foi-se embora.

—Mas, Theophilo, emenda-se amanhã, disse-lhe D. Fernanda, levantando-se.

Theophilo, sem voltar atraz, deu de hombros, desesperado. A mulher correu a elle; a amiga seguiu-a espantada. Ficou só o banco, já agora livre dellas, recebendo em cheio os raios do sol, que não ama nem faz discursos. D. Fernanda levou o marido para um gabinete, e, á força de beijos, consolou-o daquelle golpe. Ao almoço, já elle sorria, ainda que de um sorriso pallido; a mulher, para desvial-o da preoccupação, fallou do plano de casar Maria Benedicta, e havia de ser com um deputado, se existisse na camara algum solteiro, qualquer que fosse a opinião. Podia ser governista, opposicionista, ambas as cousas, ou nada,—contanto que fosse marido. Sobre este thema fez algumas reflexões, vivas, lepidas, que encheram o tempo e destinavam-se a matar a lembrança da troca de lettras. Pia creatura! Theophilo, entendendo a mulher, ia-se fazendo alegre, e fallava tambem da conveniencia de casar Maria Benedicta.

—O peor, acudiu a mulher olhando para a amiga, é que ella ama a alguem, cujo nome não quer dizer.

—Nem é preciso, atalhou o marido enxugando os beiços; vê-se bem que ella gósta de teu primo.

No domingo seguinte, D. Fernanda foi á egreja de Santo Antonio dos Pobres. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fieis que se comprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos que o primo, erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mão.

—Veiu tambem á missa? perguntou espantada.

—Vim.

—Vem sempre?

—Nem sempre, muitas vezes.

—Francamente, não esperava tanta devoção em você. Os homens são, em geral, uns impios. Theophilo não pisa na egreja, a não ser para baptisar os filhos. Você então é religioso?

—Não posso responder com certeza; mas tenho horror á banalidade, que é dizer mal da religião. E basta; vim á missa, não vim confessar-me; agora vou conduzil-a á casa, e, se me offerecer almoço, almoçarei com vocês. Salvo se quizerem vir almoçar commigo; é nesta rua, como sabe.

—Iria eu só, se pudesse ser, para lhe dar uma noticia muito comprida.

—Vamos então devagar, disse Carlos Maria á porta da egreja, offerecendo-lhe o braço. E dous passos adeante:—Noticia importante?

—Importante e deliciosa.

—Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vae levar para si o nosso querido Theophilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas as viuvas... Não precisa fazer essa cara, prima; deixe estar o braço. Vamos á noticia. Chegou a moça de Pelotas, aposto?

—Não direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente.

—Seriamente.

D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casal-o com a patricia de Pelotas; não queria remorsos; descobrira aqui alguem que tinha ao primo um immenso amor. Carlos Maria sorriu, iniciou um gracejo, mas a noticia esporeou-lhe o espirito. Immenso amor? Immenso amor, paixão violenta, confirmou a prima, accrescentando que talvez a definição já não coubesse bem ao actual sentimento da pessoa, Agora era uma adoração quieta e calada. Tinha chorado por elle noites e noites, emquanto as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a confidencia de Maria Benedicta. Restava só o nome; Carlos Maria quiz sabel-o, ella negou-lh'o. Não podia revellal-o. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que o adorava, se não corria ao encontro da alma della? Melhor era deixal-a no mysterio. Já não chorava agora; modesta e desambiciosa, perdera as esperanças de ser amada, e, com o tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem par, que nem sequer esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benevolo do seu deus querido.

—Prima, você...

—Eu que?...

Carlos Maria concluiu dizendo que a advogada era digna da causa. Realmente, se essa moça o adorava a tal ponto, era justo e natural que a prima se interessasse por ella com tanto calor. Mas porque não dizer o nome?

—Agora não digo; pode ser que algum dia... Mas, você comprehende que me custaria muito casal-o com a minha patricia, sabendo que outra pessoa o ama tanto. E dahi bem pode ser que esta de cá não padeça muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas é preciso conhecel-a; digo que, uma vez que você seja feliz, é capaz de abençoar a bella rival.

—Já não é romantismo, é mysticismo, redarguiu Carlos Maria depois de alguns passos, com os olhos no chão. Não está nas cordas do nosso tempo. Tem alguma prova de semelhante estado da alma?

—Tenho... A sua casa é aquella, não? perguntou D. Fernanda parando.

—É.

—Bonito predio, e solido.

—Muito solido.

Uma, duas, tres, quatro... Sete janellas. O salao vae de ponta a ponta? Bem bom para um baile.

E andando:

—Eu, se tivesse aqui uma casa maior que a minha, daria um grande baile, antes de voltar para o Rio Grande. Gosto de festas. Os meus dous filhos não me dão grande trabalho. A proposito, ando com ideia de metter o Lopo no collegio; onde acharei um bom collegio?

Carlos Maria pensava na devota incognita. Estava longe, muito longe do ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus adorado, e adorado á maneira evangelica, mettida a devota no aposento, fechada a porta, em secreto, não nas synagogas, á vista de todos. «E teu pae que vê o que se passa em secreto te dará a paga.» (S. MATHEUS, VI, 6). Oh! elle daria a paga, se soubesse quem era. Casada, sería? Não, não podia ser, não iria confessal-o a ninguem; viuva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se fechava para resar, para evocal-o, choral-o e abençoal-o? Já nem teimava pelo nome; mas o aposento, ao menos.

—Onde acharei um bom collegio? repetiu D. Fernanda.

—Collegio? Não sei; estou pensando na desconhecida. Comprehende bem que uma pessoa que me adora, em silencio, sem esperanças, é objecto de alguma attenção. Alta ou baixa?

—Maria Benedicta.

Carlos Maria estacou o passo.

—Aquella moça...? Não é possivel. Tenho-lhe fallado muitas vezes, e nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Hade ser engano. Ouviu-lhe o meu nome?

—Não, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo, mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguem... De quem é aquella casa?

—Você costuma exagerar as cousas, prima; póde não ser tanto. Adorado como ninguem? E de que modo soube que era eu?

—Theophilo foi o primeiro que descobriu; ella, dizendo-se-lhe isto, ficou como uma pitanga. Negou-o ainda depois, commigo; e desde esse dia não voltou lá a casa.

Tal foi o inicio dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silencio, e toda a prevenção se converteu em sympathia. Começou a vel-a, saboreou a confusão da moça, os medos, a alegria, a modestia, as attitudes quasi implorativas, um composto de actos e sentimentos que eram a apotheose do homem amado. Tal foi o inicio, tal o desfecho. Assim os vimos, naquella noite dos annos de D. Sophia, a quem elle dissera antes cousas tão doces. São assim os homens; as aguas que passam, e os ventos que rugem não são outra cousa.

—Bem, vae casar, tanto melhor! pensou Rubião.

Entre aquella noite e o dia do casamento, Rubião apanhou no ar algumas olhadas de Sophia, suspeitas de tentação; Carlos Maria, se lhe correspondeu, foi antes por polidez que outra cousa. Rubião concluiu que o caso era fortuito; lembrava-se ainda da lagrima de Sophia, na noite dos annos, quando lhe explicou a historia da carta.

Oh! boa lagrima inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes não ser explicavel a outros, e assim vae o mundo. Que importa que os olhos não fossem costumados ao choro, nem que a noite parecesse exaltar sentimentos mui diversos da melancolia? Rubião a viu cair; ainda agora a vê de memoria. Mas a confiança de Rubião não vinha só da lagrima, vinha tambem da presente Sophia, que nunca fora tão solicita nem tão dada com elle. Parecia arrependida de todo o mal causado, prestes a sanal-o, ou por affeição tardia, ou pelo proprio malogro da primeira aventura. Ha delictos virtuaes, que dormem. Ha operas remissas na cabeça de um maestro, que só esperam os primeiros compassos da inspiração.

—Ainda bem que se casa! repetiu o Rubião.

Não se demorou o casamento: tres semanas. Na manhã do dia aprazado, Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era elle mesmo que ia casar? Não havia duvida; mirou-se ao espelho, era elle. Relembrou os ultimos dias, a marcha rapida dos successos, a realidade da affeição que tinha á noiva, e, emfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira ideia enchia-o de grande e rara satisfação. Ia-as ruminando ainda, a cavallo, no passeio habitual da manhã; desta vez escolhera o bairro do Engenho Velho.

Posto se achasse costumado aos olhos admirativos, via agora em toda a gente um aspecto parecido com a noticia de que elle ia casar. As casuarinas de uma chacara, quietas antes que elle passasse por ellas, disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos attribuiriam á aragem que passava tambem, mas que os sapientes reconheceriam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas. Passaros saltavam de um lado para outro, pipilando um madrigal. Um casal de borboletas,—que os japões têm por symbolo da fidelidade, por observarem que, se pousam de flor em flor, andam quasi sempre aos pares,—um casal dellas acompanhou por muito tempo o passo do cavallo, indo pela cerca de uma chacara que beirava o caminho, volteando aqui e alli, lepidas e amarellas. De envolta com isto, um ar fresco, ceu azul, caras alegres de homens montados em burros, pescoços estendidos pela janella fóra das diligencias, para vel-o e ao seu garbo de noivo. Certo, era difficil crer que todos aquelles gestos e attitudes da gente, dos bichos e das arvores, exprimissem outro sentimento que não fosse a homenagem nupcial da natureza.

As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da cêrca. Seguiu-se outra chacara, despida de arvores, portão aberto, e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janellas de peitoril, cançadas de perder moradores. Tambem ellas tinham visto bodas e festins; o seculo ja as achou verdes de novidade e de esperança.

Não cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavalleiro. Ao contrario, elle possuia o dom particular de remoçar as ruinas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas tão vivas de ha pouco. Parou o cavallo; evocou as mulheres que por alli entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as proprias sombras das pessoas felizes e extinctas vinham agora cumprimental-o tambem, dizendo-lhe pela bocca invisivel todos os nomes sublimes que pensavam delle. Chegou a ouvil-as e sorrir. Mas uma voz estridula veiu mesclar-se ao concerto;—um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da casa: «Papagaio real, para Portugal; quem passa? Currupá, papá. Grrrr... Grrrrr...» As sombras fugiram, o cavallo foi andando. Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafacções da pessoa humana, dizia elle.

—A felicidade queeu lhe derserá assim tambem interrompida? reflexionou andando.

Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua falla propria; foi uma reparação. Essa lingua sem palavras era intelligivel, dizia uma porção de cousas claras e bellas. Carlos Maria chegou a ver naquillo um symbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, elle a faria erguer aos trillos da passarada divina, que trazia em si, ideias de ouro, ditas por uma voz de ouro. Oh! comoa tornariafeliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nelle, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.

Ora bem, aquelle quadro, na mesma hora em que apparecia aos olhos da imaginação do noivo, reproduzia-se no espirito da noiva, tal qual. Maria Benedicta, posta á janella, fitando as ondas que se quebravam ao longe e na praia, via-se a si mesma, ajoelhada aos pés do marido, quieta, contricta, como á mesa da communhão para receber a hostia da felicidade. E dizia comsigo: «Oh! comoelle mefará feliz!» Phrase e pensamento eram outros, mas a attitude e a hora eram as mesmas.

Casaram-se; tres mezes depois foram para a Europa. Ao despedir-se delles, D. Fernanda estava tão alegre como se viesse recebel-os de volta; não chorava. O prazer de os ver felizes era maior que o desgosto da separação.

—Você vae contente? perguntou a Maria Benedicta, pela ultima vez, junto á amurada do paquete.

—Oh! muito!

A alma de D. Fernanda debruçou-se-lhe dos olhos, fresca, ingenua,cantando um trecho italiano,—porque a suberba guasca preferia a musica italiana,—talvez esta aria daLucia: O' bell'alma innamorata.Ou este pedaço doBarbeiro:

Ecco ridente in cielo Già spunta la bella aurora.

Ecco ridente in cielo Già spunta la bella aurora.

Sophia não foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. Não vão crer que era pezar nem dor; por occasião do casamento, houve-se com grande discrição, cuidou do enxoval da noiva e despediu-se della com muitos beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; e, para não desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto. Pegou de um romance recente; fora-lhe dado pelo Rubião. Outras cousas alli lhe lembravam o mesmo homem, teteias de toda a sorte, sem contar joias guardadas. Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na noite do casamento da prima, até essa veiu alli para o inventario das recordações do nosso amigo.

—A senhora é já a rainha de todas, disse-lhe elle em voz baixa; espere que ainda a farei imperatriz.

Sophia não pode entender esta phrase enigmatica. Quiz suppor que era uma alliciação de grandeza para tornal-a sua amante; mas a vaidade que essa ideia trazia fel-a excluir desde logo. Rubião, posto não fosse agora o mesmo homem encolhido e timido de outros tempos, não se mostrava tão cheio de si que lhe pudesse attribuir tão alta presumpção. Mas que era então a phrase? Talvez um modo figurado de dizer que a amaria ainda mais. Sophia acreditava possivel tudo. Não lhe faltavam galanteios; chegou a ouvir aquella declaração de Carlos Maria, provavelmente ouvira outras, a que deu somente a attenção da vaidade. E todas passaram; Rubião é que persistia. Tinha pausas, filhas de suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.

«Il mérite d'être aimé», leu Sophia na pagina aberta do romance, quando ia continuar a leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e perdeu-se em si mesma. A escrava que entrou d'ahi a pouco, trazendo-lhe um caldo, suppoz que a senhora dormia e retirou-se pé ante pé.

Entretanto, Rubião e Palha desciam do paquete para a lancha e tornavam ao cáes Pharoux. Vinham cuidosos e calados. Palha foi o primeiro que abriu a bocca:

—Ando ha tempos para dizer-lhe uma cousa importante, Rubião.

Rubião accordou. Era a primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a alma cheia dos rumores de bordo, a lufa-lufa das gentes que entravam e sahiam, nacionaes, estrangeiros, estes de varia casta, francezes, inglezes, allemães, argentinos, italianos, uma confusão de linguas, um capharnaum de chapéos, de malas, cordoalha, sophás, binoculos a tiracollo, homens que desciam ou subiam por escadas para dentro do navio, mulheres chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso, e muitas que traziam de terra flores ou frutas,—tudo aspectos novos. Ao longe, a barra por onde tinha de ir o paquete. Para lá da barra, o mar immenso, o céo fechado e a solidão. Rubião renovou os sonhos do mundo antigo, creou uma Atlantida, sem nada saber da tradicção. Não tendo noções de geographia, formava uma idéa confusa dos outros paizes, e a imaginação rodeava-os de um nimbo mysterioso. Como não lhe custava viajar assim, navegou de cór algum tempo, n'aquelle vapor alto e comprido, sem enjôo, sem vagas, sem ventos, sem nuvens.

—A mim? perguntou Rubião depois de alguns segundos.

—A você, confirmou o Palha. Devia tel-a dito ha mais tempo, mas estas historias de casamento, de commissão das Alagoas, etc., atrapalharam-me, e não tive occasião; agora, porém, antes do almoço... Você almoça commigo.

—Sim, mas que é?

—Uma cousa importante.

Dizendo isto, tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou a palha outra vez, e riscou um phosphoro, mas o vento apagou o phosphoro. Então pediu ao Rubião que lhe fizesse o favor de segurar o chapéo, para poder accender outro. Rubião obedeceu impaciente. Bem póde ser que o socio, esticando a espera, quizesse justamente fazer-lhe crer que se tratava de um terremoto; a realidade viria a ser um beneficio. Puxadas duas fumaças:

—Estou com meu plano de liquidar o negocio; fallaram-me ahi para uma casa bancaria, logar de director, e creio que acceito.

Rubião respirou.

—Pois sim; liquidar já?

—Não, lá para o fim do anno que vem.

—E é preciso liquidar?

—Cá para mim, é. Se a historia do banco não fosse segura, não me animaria a perder o certo pelo duvidoso; mas é segurissima.

—Então no fim do anno que vem soltamos os laços que nos prendem...

Palha tossiu.

—Não, antes, no fim deste anno.

Rubião não entendeu; mas o socio explicou-lhe que era util desligarem já a sociedade, afim de que elle sósinho liquidasse a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais tarde; e para que sujeitar o outro ás exigencias da occasião? Demais, o Dr. Camacho affirmava que, em breve, Rubião estaria na camara, e que a queda do Itaborahy era certa.

—Seja o que fôr, concluiu; é sempre melhor desligarmos a sociedade com tempo. Você não vive do commercio; entrou com o capital necessario ao negocio,—como podia dal-o a outro ou guardal-o.

—Pois sim, não tenho duvida, concordou o Rubião.

E depois de alguns instantes:

—Mas diga-me uma cousa, essa proposta traz algum motivo occulto? é rompimento de pessoas, de amizade... Seja franco, diga tudo...

—Que caraminhola é essa? redarguiu o Palha. Separação de amizade, de pessoas... Mas você está tonto. Isto é do balanço do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por você, eu que o faço amigo dos meus amigos, que o trato como um parente, como um irmão, havia de brigar á toa? Aquelle mesmo casamento de Maria Benedicta com o Carlos Maria devia ser com você, bem sabe, se não fosse a sua recusa. A gente póde romper um laço sem romper os outros. O contrario seria desproposito. Então todos os amigos de sociedade ou de familia são socios de commercio? E os que não forem commerciantes?

Rubião achou excellente a razão, e quiz abraçar o Palha. Este apertou-lhe a mão satisfeitissimo; ia vêr-se livre de um socio, cuja prodigalidade crescente podia trazer-lhe algum perigo. A casa estava solida; era facil entregar ao Rubião a parte que lhe pertencesse, menos as dividas pessoaes e anteriores. Restavam ainda algumas daquellas que o Palha confessou á mulher, na noite de Santa Thereza, cap. L. Pouco tinha pago; geralmente era o Rubião que abanava as orelhas ao assumpto. Um dia, o Palha, querendo dar-lhe á força algum dinheiro, repetiu o velho proverbio: «Paga o que deves, vê o que te fica». Mas o Rubião, gracejando:

—Pois não pagues, e vê se te não fica ainda mais.

—É boa! redarguiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.

Não havia banco, nem logar de director, nem liquidação; mas, como justificaria o Palha a proposta de separação, dizendo a pura verdade? Dahi a invenção, tanto mais prompta, quanto o Palha tinha amor aos bancos, e morria por um. A carreira daquelle homem era cada vez mais prospera e vistosa. O negocio corria-lhe largo; um dos motivos da separação era justamente não ter que dividir com outro os lucros futuros. Palha, além do mais, possuia acções de toda a parte, apolices de ouro do emprestimo Itaborahy, e fizera uns dous fornecimentos para a guerra, de sociedade com um poderoso, nos quaes ganhou muito. Já trazia apalavrado um architecto para lhe construir um palacete. Vagamente pensava em baronia.

—Quem diria que a gente do Palha nos trataria deste modo? Já não valemos nada. Excusa de os defender...

—Não defendo, estou explicando; ha de ter havido confusão.

—Fazer annos, casar a prima, e nem um triste convite ao major, ao grande major, ao impagavel major, ao velho amigo major. Eram os nomes que me davam; eu era impagavel, amigo velho, grande e outros nomes. Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, ao menos, por um moleque: «Nhanhã faz annos, ou casa a prima, diz que a casa esta ás suas ordens, e que vão com luxo.» Não iriamos; luxo não é para nós. Mas era alguma cousa, era recado, um moleque, ao impagavel major...

—Papae!

Rubião, vendo a intervenção de D. Tonica, animou-se a defender longamente a familia Palha. Era em casa da major, não já na rua Dous de Dezembro, mas na dos Barbonos, modesto sobradinho. Rubião passava, elle estava á janella, e chamou-o. D. Tonica não teve tempo de sair da sala, para dar, ao menos, uma vista d'olhos ao espelho; mal pôde passar a mão pelo cabello, compôr o laço de fita ao pescoço e descer o vestido para cobrir os sapatos, que não eram novos.

—Digo-lhe que póde ter havido confusão, insistiu Rubião; tudo anda por lá muito atrapalhado com esta commissão das Alagoas.

—Lembra bem, interrompeu o major Siqueira; porque não metteram minha filha na commissão das Alagoas? Qual! Ha já muito que reparo nisto; antigamente não se fazia festa sem nós. Nós éramos a alma de tudo. De certo tempo para cá começou a mudança; entraram a receber-nos friamente, e o marido, se pode esquivar-se, não me falla na rua. Isto começou ha tempos; mas antes disso sem nós é que não se fazia nada. Que está o senhor a fallar de confusão? Pois se na vespera dos annos della, já desconfiando que não nos convidariam, fui ter com elle ao armazem. Poucas palavras, por mais que lhe fallasse em D. Sophia; disfarçava. Afinal disse-lhe assim: «Hontem, lá em casa, eu e Tonica estivemos discutindo sobre a data dos annos de D. Sophia; ella dizia que tinha passado, eu disse que não, que era hoje ou amanhã.» Não me respondeu, fingiu que estava absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e pediu explicações. Eu entendi o bicho, e repeti a historia; fez a mesma cousa. Sahi. Ora o Palha, um pé-rapado! Já o envergonho. Antigamente: major, um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembaraço. Jogavamos o voltarete. Agora está nas grandezas; anda com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois não vi outro dia a mulher delle, n'umcoupé, com outra? A Sophia decoupé!Fingiu que me não via, mas arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a admirava. Vaidades desta vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambusa.

—Perdão, mas os trabalhos da commissão exigem certo apparato.

—Sim, acudiu Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na commissão; é para não estragar as carruagens...

—Demais, ocoupépodia ser da outra senhora, que ia com ella.

O major deu dous passos, com as mãos atraz, e parou deante de Rubião.

—Da outra... ou do padre Mendes. Como vae o padre? Boa vida, naturalmente.

—Mas, papae, póde não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ella sempre me trata bem, e quando estive doente no mez passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes...

—Pelo moleque! bradou o pae. Pelo moleque! Grande favor! «Moleque, vae alli á casa daquelle reformado e pergunta lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!» Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és digna filha minha! pobre, mas honesta!

Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, commovida, sentiu-se tambem vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da familia, poucas cadeiras, uma meza redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas lithographias encaixilhadas em pinho pintado de preto, um era o retrato do major em 1857, a outra representava oVeronez em Veneza, comprado na rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os moveis reluziam de asseio, a meza tinha um panno de crivo, feito por ella, o canapé uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a camurça, mas acudia-lhes com um retalho de panno todas as manhãs.

Rubião tratou-os com sympathia. Não continuou a defender a gente Palha, para não desesperar o major, e fallou do exercito. Pouco depois, despediu-se, promettendo, sem convite, que lá iria jantar «um dia destes».

—Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.

—Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça.

Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar á frente por causa dos sapatos, foi á janella para vel-o sair.

Logo que Rubião dobrou a esquina da rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pae, que se estendera no canapé, para reler o velhoSaint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha da Barra.Foi o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte annos; era toda a bibliotheca do pae e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II, que já trazia de cór. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos: «Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. Á saude dos bons e valentes opprimidos, e ao castigo dos seus oppressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saude.»

—Sabe de uma cousa, papae? Papae compra amanhã latas de conserva,petit-pois, peixe, etc. e ficam guardadas. No dia em que elle apparecer para jantar, põe-se no fogo, é só aquecer, e daremos um jantarzinho melhor.

—Mas eu só tenho o dinheiro do teu vestido.

—O meu vestido? Compra-se no mez que vem, ou no outro. Eu espero.

—Mas não ficou ajustado?

—Desajusta-se; eu espero.

—E se não houver outro do mesmo preço?

—Hade haver; eu espero, papae.

Ainda não disse,—porque os capitulos atropellam-se debaixo da penna,—mas aqui está um para dizer que, por aquelle tempo, as relações de Rubião tinham crescido em numero. Camacho puzera-o em contacto com muitos homens politicos, a commissão das Alagoas com varias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do commercio e da praça, os theatros com alguns frequentadores e a rua do Ouvidor com toda a gente. Já então era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando appareciam as barbas e o par de bigodes longos, uma sobre-casaca bem justa, um peito largo, bengala de unicornio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era o Rubião,—um ricaço de Minas.

Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-n'o discipulo de um grande philosopho, que lhe legára immensos bens,—um, tres, cinco mil contos. Extranhavam alguns que elle não fallasse nunca de philosophia, mas a lenda explicava esse silencio pelo proprio methodo philosophico do mestre, que consistia em ensinar sómente aos homens de boa vontade. Onde estavam esses discipulos? Iam á casa delle, todos os dias,—alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os comensaes. Não seriam discipulos, mas eram de boa vontade. Roiam fome, á espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do amphytrião. Entre os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade, que os primeiros accentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os fez supportaveis entre si, e todos acabaram na doce e commum confissão das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, tambem os novos lhe deviam dinheiro, ou em especie,—ou em fiança no alfaiate, ou endosso de lettras, que elle pagava ás escondidas, para não vexar os devedores.

Quincas Borba andava ao collo de todos. Davam estalinhos, para vel-o saltar, alguns chegavam a beijar-lhe a testa; um delles, mais habil, achou modo de o ter á mesa, ao jantar ou almoço, sobre as pernas, para lhe dar migalhas de pão.

—Ah! isso não! protestou Rubião á primeira vez.

—Que tem? retorquiu o comensal. Não ha pessoas extranhas.

Rubião reflectiu um instante.

—Verdade é que está ahi dentro um grande homem, disse elle.

—O philosopho, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando o olhar pelos novatos, para mostrar a intimidade das relações entre elle e Rubião; mas, não logrou sosinho a vantagem, por que os outros amigos da mesma éra, repetiram, em coro:

—É verdade, o philosopho.

E Rubião explicou aos novatos a allusão ao philosopho, e a razão do nome do cão, que todos lhe attribuiam. Quincas Borba (o defuncto) foi descripto e narrado como um dos maiores homens do tempo,—superior aos seus patricios. Grande philosopho, grande alma, grande amigo. E no fim, depois de algum silencio, batendo com os dedos na borda da mesa, Rubião exclamou:

—Eu o faria ministro de Estado!

Um dos convivas exclamou, sem convicção, por simples officio:

—Oh! sem duvida!

Nenhum daquelles homens sabia, entretanto, o sacrificio que lhes fazia o Rubião. Recusava jantares, passeios, interrompia conversações apraziveis, só para correr a casa e jantar com elles. Um dia achou meio de conciliar tudo. Não estando elle em casa ás seis horas em ponto, os criados deviam pôr o jantar para os amigos. Houve protestos; não, senhor, esperariam até sete ou oito horas. Um jantar sem elle não tinha graça.

—Mas é que posso não vir, explicou Rubião.

Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relogios pelos da casa de Botafogo. Davam seis horas, todos á mesa. Nos dous primeiros dias houve tal ou qual hesitação; mas os criados tinham ordens severas. Ás vezes, Rubião chegava pouco depois. Eram então risos, ditos, intrigas alegres. Um queria esperar, mas os outros... Os outros desmentiam o o primeiro; ao contrario, foi este que os arrastou, tal fome trazia,—a ponto que, se alguma cousa restava, eram os pratos. E Rubião ria com todos.

Fazer um capitulo só para dizer que, a principio, os convivas, ausente o Rubião, fumavam os proprios charutos, depois do jantar,—parecerá frivolo aos frivolos; mas os considerados dirão que algum interesse haverá nesta circumstancia em apparencia minima.

De facto, uma noite, um dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete de Rubião; lá fôra algumas vezes, alli se guardavam as caixas de charutos, não quatro nem cinco, mas vinte e trinta de varias fabricas e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o hespanhol) accendeu o gaz. Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que ainda não conheciam o gabinete admiraram os moveis bem feitos e bem dispostos. A secretária captou as admirações geraes; era de ebano, um primor de talha, obra severa e forte. Uma novidade os esperava: dous bustos de marmore, postos sobre ella, os dous Napoleões, o primeiro e o terceiro.

—Quando veiu isto?

—Hoje ao meio dia, respondeu o criado.

Dous bustos magnificos. Ao pé do olhar aquilino do tio, perdia-se no vago o olhar scismatico do sobrinho. Contou o criado que o amo, apenas recebidos e collocados os bustos, deixara-se estar grande espaço em admiração, tão deslembrado do mais, que elle pode miral-os tambem, sem admiral-os.—No me dicen nada estos dos pícaros, concluiu o criado fazendo um gesto largo e nobre.

Rubião protegia largamente as lettras. Livros que lhe eram dedicados, entravam para o prelo com a garantia de duzentos e trezentos exemplares. Tinha diplomas e diplomas de sociedades litterarias, coreographicas, pias, e era juntamente socio de uma Congregação Catholica e de um Gremio Protestante, não se tendo lembrado de um quando lhe fallaram do outro; o que fazia era pagar regularmente as mensalidades de ambos. Assignava jornaes sem os ler. Um dia, ao pagar o semestre de um, que lhe haviam mandado, é que soube, pelo cobrador, que era do partido do governo; mandou o cobrador ao diabo.

O cobrador não foi ao diabo; recebeu o preço do semestre, e, como possuia a observação natural dos cobradores, resmungou na rua:

—Ora aqui está um homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e não pagam!

Mas—ó lance da fortuna! ó equidade da natureza!—os desperdicios do nosso amigo, se não tinham remedio, tinham compensação. Já o tempo não passava por elle como por um vadio sem ideias. Rubião, á falta de ideias, tinha agora imaginação. Outr'ora vivia mais dos outros que de si, não achava equilibrio interior, e o ocio esticava as horas, que não acabavam mais. Tudo ia mudando; agora a imaginação, que, a relampagos, lhe apparecia ultimamente, tendia a pousar um pouco. Sentado na loja do Bernardo, gastava toda uma manhã, sem que o tempo lhe trouxesse fadiga, nem a estreiteza da rua do Ouvidor lhe tapasse o espaço. Repetiam-se as visões deliciosas, como a das bodas (Cap. LXXXI) em termos a que a grandeza não tirava a graça. Houve quem o visse, mais de uma vez, saltar da cadeira e ir até á porta ver bem pelas costas alguma pessoa que passava. Conhecel-a-hia? Ou seria alguem que, casualmente, tinha as feições da creatura imaginaria que elle estivera mirando? São perguntas de mais para um só capitulo; basta dizer que uma dessas vezes nem passou ninguem, elle proprio reconheceu a illusão, voltou para dentro, comprou uma teteia de bronze para dar á filha do Camacho, que fazia annos, e ia casar em breve, e saiu.


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