Chapter 6

E Sophia? interroga impaciente a leitora, tal qual Orgon:Et Tartuffe?Ai, amiga minha, a resposta é naturalmente a mesma,—tambem ella comia bem, dormia largo e fofo,—cousas que, aliás, não impedem que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta ultima reflexão é o motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que sois muito indiscreta, e que eu não me quero senão com dissimulados.

Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegára ao fim da commissão das Alagoas, com elogios da imprensa; aAtalaiachamou-lhe «o anjo da consolação». E não se pense que este nome a alegrou, posto que a lisongeasse; ao contrario, resumindo em Sophia toda a acção da caridade, podia mortificar as novas amigas, e fazer-lhe perder em um dia o trabalho de longos mezes. Assim se explica o artigo que a mesma folha trouxe no numero seguinte, nomeando, particularisando e glorificando as outras commissarias—-«estrellas de primeira grandeza».

Nem todas as relações subsistiram, mas a maior parte dellas estavam atadas, e não faltam á nossa dona o talento de as tornar definitivas. O marido é que peccava por turbulento, excessivo, derramado, dando bem a ver que o cumulavam de favores, que recebia finezas inesperadas e quasi immerecidas. Sophia, para emendal-o, vexava-o com censuras e conselhos, rindo:

—«Você esteve hoje insupportavel; parecia um criado».

—«Christiano, fique mais senhor de si, quando tivermos gente de fóra, não se ponha com os olhos fóra da cara, saltando de um lado para outro, assim com ar de criança que recebe doce...»

Elle negava, explicava ou justificava-se; afinal, concluia que sim, que era preciso não parecer estar abaixo dos obsequios; cortezia, affabilidade, mais nada...

Justo, mas não vás cahir no extremo opposto, acudiu Sophia; não vás ficar casmurro...

Palha era então as duas cousas; casmurro, a principio, frio, quasi desdenhoso, fallando pouco, apenas respondendo. Mas, ou a reflexão, ou o impulso inconsciente, restituia ao nosso homem a animação habitual, e com ella, segundo o momento, a demasia e o estrepito. Sophia é que, em verdade, corrigia tudo. Observava, imitava. Necessidade e vocação fizeram-lhe adquirir, aos poucos, o que não trouxera do nascimento nem da fortuna. Ao demais, estava naquella edade média em que as mulheres inspiram egual confiança ás sinhásinhas de vinte e ás sinhás de quarenta. Algumas morriam por ella; muitas a cumulavam de louvores.

Foi assim que a nossa amiga, pouco a pouco, espanou a atmosphera. Cortou as relações antigas, familiares, algumas tão intimas que difficilmente se poderiam dissolver; mas a arte de receber sem calor, ouvir sem interese e despedir-se sem saudade, não era das suas menores prendas; e uma por uma, se foram indo as pobres creaturas modestas, sem maneiras, nem vestidos, amizades de pequena monta, de pagodes caseiros, de habitos singelos e sem elevação. Com os homens fazia exactamente o que o major contara, quando elles a viam passar de carruagem,—que era sua,—entre parenthesis. A differença é que já nem os espreitava para saber se a viam. Acabara a lua de mel da grandeza; agora torcia os olhos duramente para outro lado, conjurando, de um gesto definitivo, o perigo de alguma hesitação. Punha assim os velhos amigos na obrigação de lhe não tirarem o chapéo. Como eram poucos, foi breve a empreza.

Rubião ainda quiz valer ao major, mas o ar de fastio com que Sophia o interrompeu foi tal, que o nosso amigo preferiu perguntar-lhe se, não chovendo na seguinte manhã, iriam sempre passear á Tijuca.

—Já fallei a Christiano; disse-me que tem um negocio, que fique para domingo que vem.

Rubião, depois de um instante:

Vamos nós dous. Sahimos cedo, passeamos, almoçamos lá; ás tres ou quatro horas estamos de volta...

Sophia olhou para elle, com tamanha vontade de acceitar o convite, que Rubião não esperou resposta verbal.

—Está assentado, vamos, disse elle.

—Não.

—Como não?

E repetiu a pergunta, porque Sophia não lhe quiz explicar a negativa, aliás, tão obvia. Obrigada a fazel-o, ponderou que o marido ficaria com inveja, e era capaz de adiar o negocio só para ir tambem. Não queria atrapalhar os negocios delle, e podiam esperar oito dias. O olhar de Sophia acompanhava essa explicação, como um clarim acompanharia um padre-nosso. Vontade tinha, oh! se tinha vontade de ir na manhã seguinte, com Rubião, estrada acima, bem posta no cavallo, não scismando á toa, nem poetica, mas valente, fogo na cara, toda deste mundo, galopando, trotando, parando. Lá no alto, desmontaria algum tempo; tudo só, a cidade ao longe e o ceu por cima. Encostada ao cavallo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubião louvar-lhe a affouteza e o garbo... Chegou a sentir um beijo na nuca...

Pois que se trata de cavallos, não fica mal dizer que a imaginação de Sophia era agora um corsel brioso e petulante, capaz de galgar morros e desbaratar mattos. Outra seria a comparação, se a occasião fosse differente; mas corsel é o que vae melhor. Traz a ideia do impeto, do sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com que torna ao caminho recto, e por fim á cavallariça.

—Está dito, vamos amanhã, repetiu Rubião, que espreitava o rosto acceso de Sophia.

Mas o corsel viera fatigado da carreira, e deixou-se estar somnolento na cavallariça. Sophia era já outra; passara a vertigem da empreza, o ardor sonhado, o gosto de subir com elle a estrada da Tijuca. Dizendo-lhe Rubião que fallaria ao marido para que a deixasse ir ao passeio, redarguiu sem alma:

—Está tonto! Fica para o domingo que vem!

E fixou os olhos no trabalho de linha que fazia,—frioleira é o nome,—emquanto Rubião voltava os seus para um trechosinho de jardim mofino, ao pé da saleta de trabalho onde estavam. Sophia, sentada no angulo da janella, ia meneando os dedos. Rubião viu em duas rosas vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. Não se póde dizer, ao certo, que tempo estiveram assim calados, alheios e remotos um do outro. Foi uma criada que os accordou, trazendo-lhes café. Bebido o café, Rubião concertou as barbas, tirou o relogio e despediu-se. Sophia, que espreitava a sabida, ficou satisfeita, mas encobriu o gosto com o espanto.

—Já!

—Preciso de fallar a um sujeito antes das quatro horas, explicou Rubião. Estamos entendidos; passeio de amanhã gorado. Vou mandar desavisar os cavallos. Mas será certo no domingo que vem?

—Certo, certo, não posso affirmar; mas resolvendo-se em tempo o Christiano, creio que sim. Sabe que meu marido é o homem dos impedimentos.

Sophia acompanhou-o até á porta, estendeu-lhe a mão indifferente, respondeu sorrindo alguma cousa chocha, tornou á salinha em que estivera,—ao mesmo angulo,—da mesma janella. Não continuou logo o trabalho, poz uma perna sobre outra, fazendo descer, por habito, a saia do vestido, e lançou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas tinham dado ao nosso amigo uma visão imperial. Sophia não viu mais que duas flores mudas. Fitou-as, não obstante, algum tempo; em seguida, pegou da frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando as mãos no regaço; e voltou á obra, outra vez, para tornar a deixal-a. De repente, levantou-se e atirou as linhas e anavetteá cestinha de junco, onde guardava os seus pretextos de trabalho. A cesta era ainda uma lembrança de Rubião!

—Que homem aborrecido!

Dalli foi encostar-se á janella, que dava para o jardim mofino, onde iam murchando as duas rosas vulgares. Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com as coleras dos outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este costume nasce da brevidade da vida. «Para as rosas, escreveu Fontenelle, o jardineiro é eterno.» E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar das suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu não fiz mais que florir e aromar, servi a donas e a donzellas, fui lettra de amor, ornei a botoeira dos homens, ou expiro no proprio arbusto, e todas as mãos e todos os olhos me trataram e me viram com admiração e affecto. Tu não, ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu affliges-te! a tua eternidade não vale um só dos meus minutos.

Assim, quando Sophia chegou á janella que dava para o jardim, ambas as rosas riram-se a petalas despregadas. Uma dellas disse que era bem feito! bem feito! bem feito!

—Tens razão em te zangares, formosa creatura, acrescentou, mas hade ser comtigo, não com elle. Elle que vale? Um triste homem sem encantos, póde ser que bom amigo, e talvez generoso, mas repugnante, não? E tu, requestada de outros, que demonio te leva a dar ouvidos a esse intruso da vida? Humilha-te, ó suberba creatura, porque és tu mesma a causa do teu mal. Tu juras esquecel-o, e não o esqueces. E é preciso esquecel-o? Não te basta fital-o, escutal-o, para desprezal-o? Esse homem não diz cousa nenhuma, ó singular creatura, e tu...

—Não é tanto assim, interrompeu a outra rosa, com a voz ironica e descançada; elle diz alguma cousa, e dil-a desde muito, sem desapprendel-a, nem trocal-a; é firme, esquece a dor, crê na esperança. Toda a sua vida amorosa é como o passeio á Tijuca, de que vocês fallavam ha pouco: «Fica para o domingo que vem!» Eia, piedade ao menos; sê piedosa, ó bonissima Sophia! Se hasde amar a alguem, fóra do matrimonio, ama-o a elle, que te ama e é discreto. Anda, arrepende-te do gesto de ha pouco. Que mal te fez elle, e que culpa lhe cabe se és bonita? E quando haja culpa, a cesta é que a não tem, só porque elle a comprou, e menos ainda as linhas e anavetteque tu mesma mandaste comprar pela criada. Tu és má, Sophia, és injusta...

Sophia deixou-se estar ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas, e não lhe disseram cousa diferente. Ha desses acertos maravilhosos. Quem conhece o solo e o sub-solo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de ideias ou de sentimentos, quando nós tambem o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as cousas compõem um dos mais interessantes phenomenos da terra. A expressão: «Conversar com os seus botões», parecendo simples metaphora, é phrase de sentido real e directo. Os botões operam synchronicamente comnosco; formam uma especie de senado, commodo e barato, que vota sempre as nossas moções.

Fez-se o passeio á Tijuca, sem outro incidente mais que uma queda do cavallo, ao descerem. Não foi Rubião que cahiu, nem o Palha, mas a senhora deste, que vinha pensando em não sei quê, e chicoteou o animal com raiva; elle espantou-se e deitou-a em terra. Sophia cahiu com graça. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho tentador de justeza. Othello exclamaria, se a visse: «Oh! minha bella guerreira!» Rubião limitara-se a isto, ao começar o passeio: «A senhora é um anjo!».

—Fiquei com o joelho dorido, disse ella entrando em casa e coxeando.

—Deixa ver.

No quarto de vestir, Sophia levantou o pé sobre um banquinho e mostrou ao marido o joelho pisado; inchára um pouco, muito pouco, mas tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, não querendo machucal-a, chegou-lhe a pontinha dos beiços apenas.

—Fiquei descomposta quando cahi?

—Não. Pois com um vestido tão comprido... Mal se pôde ver o bico do pé. Não houve nada, acredita.

—Jura que não?

—Que desconfiada que você é, Sophia! Juro por tudo o que ha mais sagrado, pela luz que me allumia, por Deus Nosso Senhor. Estás satisfeita?

Sophia ia cobrindo o joelho.

—Deixa ver outra vez. Creio que não será nada de maior; bota um pouco de qualquer cousa. Manda perguntar á botica.

—Está bom, deixa-me ir despir, disse ella forcejando por descer o vestido.

Mas o Palha baixara os olhos do joelho até ao resto da perna, onde pegava com o cano da bota. De feito, era um bello trecho da natureza. A meia de seda dava ideia clara da perfeição do contorno. Palha, por graça, ia perguntando á mulher se se machucára aqui, e mais aqui, e mais aqui, indicando os logares com a mão que ia descendo. Se apparecesse um pedacinho desta obra-prima, o céo e as arvores ficariam assombrados, concluiu elle em quanto a mulher descia o vestido e tirava o pé do banco.

—Póde ser, mas não havia só o céo e as arvores, disse ella; havia tambem os olhos do Rubião.

—Ora, o Rubião! É verdade; elle nunca mais teve aquellas ideias de Santa Thereza?

—Nunca; mas, emfim, não me agradaria... Jura de verdade, Christiano?

—O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até á cousa mais sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; está satisfeita?

Pieguices de lascivo. Sahiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquelle pudor medroso e incredulo de Sophia fazia-lhe bem. Mostrava que ella era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que elle a possuia, considerava que era de grande senhor não se affligir com a vista casual e instantanea de um pedaço occulto do seu reino. E lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras villas do territorio, antes da cidade machucada pela queda, dariam ideia de uma civilisação sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara, o collo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se, Palha imaginava o pasmo e a inveja da unica testemunha do desastre, se este fosse menos incompleto.

Foi por esse tempo que Rubião poz em espanto a todos os seus amigos. Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então Janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabelleireiro da rua do Ouvidor que o mandasse barbear a casa, no outro dia, ás nove horas da manhã. Lá foi um official francez,—chamado Lucien, creio eu,—que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as ordens dadas ao criado.

—Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião.

Lucien parou á porta do gabinete, e comprimemtou o dono da casa; este, porem, não viu a cortezia, como não ouvira o signal do Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extensão, ermo do espirito, que rompera o tecto e se perdera no ar. A quantas leguas iria? Nem condor nem aguia o poderia dizer. Em marcha para a lua,—não via cá em baixo mais que as felicidades perennes, chovidas sobre elle, desde o berço, onde o embalaram fadas, até á praia de Botafogo, aonde ellas o trouxeram, por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revez, nenhum mallogro, nenhuma pobreza;—vida placida, cosida de goso, com rendas de superfluo. Em marcha para a lua!

Lucien relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretária, e sobre ella os dous bustos de Napoleão e Luiz Napoleão. Relativamente a este ultimo, havia ainda, pendentes da parede, uma gravura ou lithographia representando aBatalha de Solferino, e um retrato da imperatriz Eugenia.

Rubião tinha nos pés um par de chinellas de damasco, bordadas a ouro; na cabeça, um gorro com borla de seda preta. Na bocca, um riso azul claro.

—Monsieur...

—Uhm! repetiu Quincas Borba, de pé nos joelhos do senhor.

Rubião voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tel-o visto ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira, Quincas Borba latia, como a defendel-o contra o intruso.

—Socega! cala a boca! disse-lhe Rubião; e o cachorro foi, de orelha baixa, metter-se por traz da cesta de papeis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus apparelhos.

—Monsieur veut se faire raser, n'est-ce pas? Pourquoi donc a-t-il laisser croître cette belle barbe? Apparemment que c'est un voeu d'amour? J'en connais qui ont fait de pareils sacrifices; j'ai même été confident de quelques personnes aimables...

—Justamente! interrompeu Rubião.

Não entendera nada; posto soubesse algum francez, mal o comprehendia lido—como sabemos,—e não o entendia fallado. Mas, phenomeno curioso, não respondeu por impostura; ouviu as palavras, como se fossem comprimento ou acclamação; e, ainda mais curioso phenomeno, respondendo-lhe em portuguez, cuidava fallar francez.

—Justamente! repetiu. Quero restituir a cara ao typo anterior; é aquelle.

E, como apontasse para o busto de Napoleão III, respondeu-lhe o barbeiro pela nossa lingua:

—Ah! o imperador! Bonito busto, em verdade. Obra fina. O senhor comprou isto aqui ou mandou vir de Paris? São magnificos. Lá está o primeiro, o grande; este era um genio. Se não fosse a traição, oh! os traidores, vê o senhor? os traidores são peiores que as bombas de Orsini.

—Orsini! um coitado!

—Pagou caro.

—Pagou o que devia. Mas não ha bombas nem Orsini contra o destino de um grande homem, continuou Rubião. Quando a fortuna de uma nação põe na cabeça de um grande homem a coroa imperial, não ha maldades que valham... Orsini! um bobo!

Em poucos minutos, começou o barbeiro a deitar abaixo as barbas do Rubião, para lhe deixar somente a pera e os bigodes de Napoleão III; encarecia-lhe o trabalho; affirmava que era difficil compor exactamente uma cousa como a outra, E á medida que lhe cortava as barbas, ia-as gabando.—Que lindos fios! Era um grande e honesto sacrificio que fazia, em verdade...

—Seu barbeiro, você é pernostico, interrompeu Rubião. Já lhe disse o que quero; ponha-me a cara como estava. Alli tem o busto para guial-o.

—Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança vae sair.

E zás, zás, deu os ultimos golpes ás barbas de Rubião, e começou a rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo tempo a operação; o barbeiro ia tranquillamente rapando, comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem. Ás vezes, para melhor cotejal-os, recuava dous passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.

—Vae bem? perguntava Rubião.

Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e proseguia. Recortou a pera, deixou os bigodes, e escanhoou á vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptivel de cabello no queixo ou na face, para não o consentir, nem por suspeita. Ás vezes Rubião, cançado de estar a olhar para o tecto, emquanto o outro lhe aperfeiçoava os queixos, pedia para descançar. Descançando, apalpava o rosto e sentia pelo tacto a mudança.

—Os bigodes é que não estão muito compridos, observava.

—Falta arranjar-lhe as guias; aqui trago os ferrinhos para encurval-os bem sobre o labio, e depois faremos as guias. Ah! eu prefiro compor dez trabalhos originaes a uma só copia.

Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados. Emfim, prompto. Rubião deu um salto, correu ao espelho, no quarto, que ficava ao pé; era o outro, eram ambos, era elle mesmo, em summa.

—Justamente! exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado os apparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.

E indo á secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil réis, e deu-lh'a.

—Não tenho troco, disse o outro.

—Não precisa dar troco, acudiu Rubião com um gesto soberano; tire o que houver de pagar á casa, e o resto é seu.

Ficando só, Rubião atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas cousas sumptuosas. Estava em Biarritz ou Compiègne, não se sabe bem; Compiègne, parece. Governou um grande Estado, ouviu ministros e embaixadores, dansou, jantou,—e assim outras acções narradas em correspondencias de jornaes, que elle lera e lhe ficaram de memoria. Nem os ganidos de Quincas Borba logravam espertal-o. Estava longe e alto. Compiègne era no caminho da lua. Em marcha para a lua!

Quando desceu da lua, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos queixos. Correu ao espelho e verificou que a differença entre a cara barbada e a cara lisa era grande mas que, assim lisa, não lhe afiava, mal. Os comensaes chegaram á mesma conclusão.

—Está perfeitamente bem! Ha muito que devia ter feito isso. Não é que as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; mas, assim como está agora, tem o que tinha, e mais um tom moderno...

—Moderno, repetiu o amphytrião.

Fóra, egual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem no amigo, ponderou que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma, cuja firmeza e constancia devia reproduzir.

—Não é por lhe fallar de mim, concluiu; mas, nunca me hade ver a cara de outro modo. É uma necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos principios,—porque eu nunca tentei conciliar principios, mas homens,—minha vida, digo, é uma imagem fiel da minha cara, e vice-versa.

Rubião ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia ser assim por força. Sentia-se então imperador dos francezes, incognito, de passeio; descendo á rua, voltou ao que era. Dante, que viu tantas cousas extraordinarias, affirma ter assistido no inferno ao castigo de um espirito florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de tal modo, e tão confundidos ficaram, que afinal já se não podia distinguir bem se era um ente unico, se dous. Rubião era ainda dous. Não se misturavam nelle a propria pessoa com o imperador dos francezes. Revesavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião, não passava do homem do costume. Quando subia a imperador, era só imperador. Equilibravam-se, um sem outro, ambos integraes.

—Que mudança é essa? perguntou Sophia, quando elle lhe appareceu no fim da semana.

—Vim saber do seu joelho; está bom?

—Obrigada.

Eram duas horas da tarde. Sophia acabava de vestir-se para sair, quando a criada lhe fora dizer que estava alli Rubião,—tão mudado de cara que parecia outro. Desceu a vel-o curiosa; achara-o na sala, de pé, lendo os cartões de visita.

—Mas que mudança é essa? repetiu ella. Rubião, sem nenhuma ideia imperial, respondeu que suppunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a pera.

—Ou estou mais feio? concluiu.

—Está melhor, muito melhor.

E Sophia disse comsigo que talvez fosse ella a causa da mudança. Sentou-se no sophá, e começou a enfiar os dedos nas luvas.

—Vae sahir?

—Vou, mas o carro ainda não veiu.

Cahiu-lhe uma das luvas. Rubião inclinou-se para apanhal-a, ella fez a mesma cousa, ambos pegaram na luva, e teimando em levantal-a, succedeu que as caras encontraram-se no ar, e bateram uma na outra. Pangloss, se tem assistido ao episodio, emendaria a sua theoria dos narizes, que, segundo elle, foram feitos para uso dos oculos, quando a verdade é que foram destinados a impedir o encontro casual e involuntario das bocas de um e de outro sexo. Assim succedeu aqui. O nariz della bateu no delle, e as boccas ficaram intactas para rir, como riram.

—Machuquei-a?

—Não! eu é que lhe pergunto...

E riram outra vez. Sophia calçou a luva, Rubião fitou-lhe um pé que se mexia disfarçadamente, até que o criado veiu dizer que a carruagem chegára. Ergueram-se, e ainda uma vez riram.

Teso, descoberto, o lacaio abriu a portinhola docoupé, quando Sophia assomou á porta. Rubião offereceu a mão para ajudal-a a entrar, ella acceitou o obsequio e entrou.

—Agora, até...

Não pôde acabar a phrase; Rubião entrára após ella e sentára-se-lhe ao lado; o lacaio fechou a portinhola, trepou á almofada, e o carro partiu.

Tão rápido foi tudo, que Sophia perdeu a voz e o movimento; mas, ao cabo de alguns segundos:

—Que é isto?... Senhor Rubião, mande parar o carro.

—Parar? Mas a senhora não me disse que ia sair e esperava por elle?

—Não ia sair com o senhor... Não vê que... Mande parar...

Desatinada, quiz ordenar ao cocheiro que parasse; mas a ideia de um possivel escandalo fel-a deter-se a meio caminho. Ocoupéentrara na rua Bella da Princeza. Sophia novamente pediu a Rubião que advertisse na inconveniencia de irem assim, á vista de Deus e de todo mundo, Rubião respeitou o escrupulo, e propoz que descessem as cortinas.

—Eu acho que não faz mal que nos vejam, explicou Rubião; mas, fechando as cortinas, ninguem nos vê. Se quer?

Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous a sós, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fóra ninguem os via. Sós, completamente sós, como naquelle dia em que ás mesmas duas horas da tarde, em casa d'ella, Rubião lhe lançou em rosto os seus desesperos. Lá, ao menos, a moça, estava livre; aqui dentro do carro fechado, não podia calcular as consequencias.

Rubião, entretanto, accommodára as pernas e não dizia nada.

Sophia encolhera-se muito ao canto. Podia ser extranheza da situação, podia ser medo; mas era principalmente repugnancia. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa menos dura, se querem, mas que se reduzia á incompatibilidade,—como direi que não aggrave os ouvidos?—á incompatibilidade da epiderme. Onde iam os sonhos de ha poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, á Tijuca, subiu com elle a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericordia? Tudo esqueceu, tudo desappareceu, agora que ambos se achavam deveras sós, insulados pelo carro e pelo escandalo.

E os cavallos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando lentamente o carro, pelas pedras da rua Bella da Princeza. Que faria ella chegando ao Cattete? iria á cidade com elle? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga deixal-o-hia dentro, diria ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquella agonia, atravessaram-lhe o cerebro algumas memorias banaes, ou extranhas á situação, como a noticia de um roubo de joias lida de manhã nos jornaes, a ventania da vespera, um chapéo. Afinal fixou-se em um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que elle continuava a olhar para a frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe ficava mal a attitude, tranquilla, séria, quasi indifferente; mas então para que se metteu no carro? Sophia quiz romper o silencio; por duas vezes moveu nervosamente as mãos; quasi que a irritou a quietação do homem, cuja acção só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que elle proprio estaria arrependido, e disse-lh'o em bons termos.

—Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu elle, voltando-se. Quando a senhora disse que era máu irmos assim, á vista do publico, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci.

—Chegamos ao Cattete, atalhou ella; quer que o leve a casa? Não podemos ir juntos para a cidade.

—Podemos andar á tôa.

—Como?

—Á tôa, os cavallos vão andando e nós vamos conversando, sem que nos ouçam nem adivinhem...

—Pelo amor de Deus! não me falle assim, deixe-me, saia do carro, ou eu saio aqui mesmo, e o senhor toma conta d'elle. Que é que quer dizer? Bastam poucos minutos... Olhe, já dobramos para o lado da cidade; mande ir para Botafogo, vou deixal-o a porta de casa...

—Mas eu sahi ha pouco de casa, vou para a cidade. Que mal ha em levar-me até lá? Se é para que não nos vejam, como foi com as cortinas, apeio-me, em qualquer logar,—na praia de Santa Luzia, por exemplo,—do lado do mar...

—O melhor é descer aqui mesmo.

—Mas porque não iremos até a cidade?

—Não, não póde ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! Não faça escandalo; vamos, diga-me o que é preciso para obter uma cousa tão simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?

Apezar da estreiteza do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião deu-se pressa em fazel-a sentar-se outra vez.

—Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura.

—Obrigada; peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está no ceu...

—Deve estar no ceu, confirmou Rubião. Era uma santa senhora! As mães são sempre boas; mas daquella, ninguem que a conheceu poderá dizer outra cousa senão que era uma santa. E prendada, como poucas. Que dona de casa! Hospedes, para ella, tanto fazia cinco como cincoenta, era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os escravos davam-lhe o nome deSinhá Mãe, porque era, realmente, mãe para todos. Deve estar no céu!

—Bem, bem, atalhou Sophia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe; faz?

—Isto que?

—Apeiar-se aqui mesmo?

—E ir a pé para a cidade? Não posso. É scisma sua; ninguem nos vê. E depois estes seus cavallos são magnificos. Já reparou como atiram as patas, lentamente, plás... plás... plás... plás...

Cançada de pedir, Sophia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda mais, se era possivel, ao cantinho do carro.

—Agora me lembro, pensou ella; mando parar á porta do armazem do Christiano; digo-lhe o modo por que este homem se introduziu nocoupé, os pedidos que lhe fiz o as respostas que me deu. Antes isso que fazel-o apear mysteriosamente em qualquer rua.

Entretanto, Rubião estava quieto. De vez em quando volvia no dedo o annel de brilhante,—um solitario explendido. Não olhava para ella, não lhe dizia nem pedia nada. Iam como um casal de aborrecidos. Sophia começava a não entender que razão o teria levado a entrar no carro. Necessidade de transporte não podia ser. Vaidade, tambem não; fechára as cortinas, á sua primeira queixa de publicidade. Nenhuma palavra amorosa,—uma allusão remota que fosse, a medo, cheia de veneração e supplica. Era um inexplicavel, um monstro.

—Sophia... disse de repente Rubião; e continuou com pausa:—Sophia, os dias passam, mas nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente gostou delle, ou então não merece o nome de homem. Os nossos amores não serão esquecidos nunca,—por mim, está claro, e estou certo que nem por ti. Tudo me déste, Sophia; a tua propria vida correu perigo. Verdade é que eu te vingaria, minha bella. Se a vingança póde alegrar os mortos, terias o maior prazer possivel. Felizmente, o meu destino protegeu-nos, e pudemos amar sem peias nem sangue...

A moça olhava espantada.

—Não te espantes, continuou elle; não nos vamos separar; não, não te fallo de separação. Não me digas que morrerias; sei que havias de chorar muitas lagrymas. Eu não,—que não vim ao mundo para chorar,—mas nem por isso a minha dor seria menor; ao contrario, as dores guardadas no coração doem mais que as outras. Lagrymas são boas porque a pessoa desabafa. Querida amiga, fallo-te assim, porque é preciso termos cautella; a nossa insaciavel paixão póde esquecer esta necessidade. Temos facilitado muito, Sophia; como nascemos um para o outro, parece-nos que estamos casados, e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A vida é bella! a vida é grande! a vida é sublime! Comtigo, porém, que nome haverá que lhe possa dar? Lembras-te da nossa primeira entrevista?

Rubião disse esta ultima palavra, querendo pegar-lhe na mão. Sophia recuou a tempo; estava desorientada, não entendia e tinha medo. A voz delle crescia, o cocheiro podia ouvir alguma cousa... E aqui uma ideia terrivel a abalou: talvez o intento de Rubião fosse justamente fazer-se ouvir, para obrigal-a pelo terror,—ou então para que a abocanhassem. Teve impeto de atirar-se a elle, gritar que lhe acudissem, e salvar-se pelo escandalo.

Elle, baixinho, depois de certa pausa:

—A mim lembra-me, como se fosse hontem. Tu chegaste de carro, não era este; era um carro de praça, uma caleça. Desceste medrosa, com o veu pela cara; tremias como varas verdes... Mas os meus braços te ampararam... O sol daquelle dia devia ter parado, como quando obedeceu a Josué... E comtudo, minha flor, aquellas horas foram compridas como diabo, não sei porque; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque a nossa paixão não acabava mais,não acabou, nem hade acabar nunca... Em compensação, não vimos mais o sol; ia cahindo para o outro lado das montanhas, quando a minha Sophia, ainda medrosa, sahiu para a rua, e pegou de outra caleça. Outra ou a mesma? Creio que foi a mesma. Não imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que havias tocado; cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que já te contei isto. A soleira da porta. E estive quasi, quasi a ir de rastos, beijar os degráos da escada... Não o fiz, recolhi-me, fechei-me para que se não perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me recordo...

Não, não era possivel que o intuito de Rubião fosse fazer crer ao cocheiro uma aventura mentirosa. A voz era tão sumida que Sophia mal podia escutal-a; mas, se lhe custava a entender as palavras, não chegava a comprehender o sentido dellas. A que vinha aquella historia não succedida? Quem quer que a ouvisse, acceitaria tudo por verdade, tal era a nota sincera, a meiguice dos termos e a verosimilhança dos pormenores. E elle continuou suspirando as bellas reminiscencias...

—Mas que caçoada é essa? atalhou finalmente Sophia.

Não lhe respondeu o nosso amigo;—tinha a imagem deante dos olhos, não ouviu a pergunta, e foi andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk. O divino pianista melodiava ao piano; elles ouviam, mas o demonio da musica levou os olhos de um para outro, e ambos esqueceram o resto. Quando a musica cessou, as palmas romperam, e elles accordaram. Ai tristes! accordaram com o olhar do Palha em cima delles, um olho de onça brava. Nessa noite cuidou que elle a matasse.

—Senhor Rubião...

—Napoleão, não; chama-me Luiz. Sou o teu Luiz, não é verdade, galante creatura? Teu, teu... Chama-me teu;—o teu Luiz, o teu querido Luiz. Ai, se tu soubesses o gosto que me dás quando te ouço essas duas palavras: «Meu Luiz!» Tu és a minha Sophia,—a doce, a mimosa Sophia da minha alma. Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos; mas, baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que hade haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente fallava á vontade, e iria ao fim da terra...

Já então iam costeando o Passeio Publico; Sophia não deu por isso. Olhava fixamente para Rubião; não podia ser calculo de perverso, nem lhe attribuia mofa... Delirio, sim, é o que era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que vê ou viu realmente as cousas que relata.

—É preciso pol-o fóra daqui, pensou a moça. E, apparelhando-se de coragem:—Onde estaremos nós? perguntou-lhe. É occasião de separar-nos. Veja do lado de lá; onde estamos? Parece que é o convento; estamos no largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que páre; ou, se quer, pode apear-se no largo da Carioca. Meu marido...

—Vou nomeal-o embaixador, disse Rubião. Ou senador, se quizer. Senador é melhor; ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, não consentiria que tu o acompanhasses, e as más linguas... Tu sabes a opposição que soffro, as calumnias... Ah! ruim gente! Convento da Ajuda, disseste? Que tens tu com elle? Queres ser freira?

—Não; digo que já passamos o convento da Ajuda. Vou deixal-o no largo da Carioca, Ou vamos até o armazem de meu marido?

Sophia tornou a apegar-se ao segundo alvitre; não se faria suspeita ao cocheiro, provaria melhor a sua innocencia ao Palha, narrando-lhe tudo, desde a entrada inesperada no carro até o delirio. E que delirio era esse? Sophia pensou que o motivo podia ser ella propria, e esta ideia fel-a sorrir de piedade.

—Para que? disse Rubião. Vou apeiar-me aqui mesmo, é mais seguro. Para que hade elle desconfiar de nós e maltratar-te? Posso castigal-o, mas sempre me ficaria o remorso do mal que elle te causaria. Não, linda flor amiga; o vento que se atrevesse a tocar em tua pessoa, acredita que eu mandaria pôr fora do espaço, como um vento indigno. Tu ainda não conheces bem o meu poder, Sophia; anda, confessa.

Como Sophia não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita, e offereceu-lhe o solitario que tinha no dedo; ella, porém, comquanto amasse as joias e tivesse a intuição dos solitarios, recusou medrosamente a offerta.

—Comprehendo o escrupulo, disse elle; mas não perdes por isso, porque hasde receber outra pedra ainda mais bella, e pela mão de teu marido. Far-te-hei duqueza. Ouviste? O titulo é dado a elle, mas tu é que és a causa. Duque... Duque de que? Vou ver um titulo bonito; ou então escolhe tu mesma, porque é para ti, não é para elle, é para ti, minha mimosa. Não é preciso escolher já, vae para casa e pensa. Não te vexes; manda-me dizer o que achares mais bonito, e faço lavrar immediatamente o decreto. Tambem podes fazer outra cousa: escolhe, e diz-me no nosso primeiro encontro, no logar do costume. Quero ser o primeiro que te chame duqueza. Querida duqueza... O decreto virá depois. Duqueza da minha alma!

—Sim, sim, disse ella desvairamente, mas avisemos o cocheiro que nos leve até a casa de Christiano.

—Não, apeio-me aqui... Pára! pára!

Rubião ergueu as cortinas, e o lacaio veiu abrir a portinhola. Sophia, para tirar toda a suspeita a este, pediu novamente ao Rubião que fosse com ella á casa do marido; disse-lhe que este precisava fallar-lhe, com urgencia. Rubião olhou um pouco espantado para ella, para o lacaio e para a rua; e respondeu que não, que iria depois.

Apenas separados, deu-se em ambos um contraste.

Rubião, na rua, voltou a cabeça para todos os lados, a realidade apossava-se delle e o delirio esvaia-se. Andava, estacava deante de uma loja, atravessava a rua, detinha um conhecido, pedia-lhe noticias e opiniões; exforço inconsciente para sacudir de si a personalidade emprestada.

Ao contrario, Sophia, passado o susto e o espanto, mergulhou no devaneio; todas as referencias e historias mentirosas de Rubião como que lhe davam saudades,—saudades de que?—-«saudades do ceu», que é o que dizia o padre Bernardes do sentimento de um bom christão. Nomes diversos relampejavam no azul daquella possibilidade. Quanto pormenor interessante! Sophia reconstruiu a caleça velha, onde entrou rapida, donde desceu tremula, para esgueirar-se pelo corredor dentro, subir a escada, e achar um homem,—que lhe disse os mimos mais appetitosos deste mundo, e os repetiu agora, ao pé della, no carro, mas não era, não podia ser o Rubião. Quem seria? Nomes diversos relampejavam no azul daquella possibilidade.

Espalhou-se a nova da mania de Rubião. Alguns, não o encontrando nas horas do delirio, faziam experiencias, a ver se era verdadeiro o boato; encaminhavam a conversação para os negocios de França e do imperador. Rubião resvalava ao abysmo, e convencia-os.

Passaram-se alguns mezes, veiu a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubião tornaram-se mais intensas e menos espaçadas. Quando as malas da Europa chegavam cedo, Rubião sahia de Botafogo, antes do almoço, e corria a esperar os jornaes; comprava aCorrespondencia de Portugal, e ia lel-a no Carceler. Quaesquer que fossem as noticias, dava-lhes o sentido da victoria. Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava sempre um grande saldo a seu favor. A quéda de Napoleão III foi para elle a captura do rei Guilherme, a revolução de 4 de Setembro um banquete de bonapartistas.

Em casa, os amigos do jantar não se mettiam a dissuadil-o. Tambem não confirmavam nada, por vergonha uns dos outros; sorriam e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas patentes militares, o marechal Torres, o marechal Pio, o marechal Ribeiro, e acudiam pelo titulo. Rubião via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um ataque, e não era necessario que elles sahissem a obedecer; o cerebro do amphytrião cumpria tudo. Quando Rubião deixava o campo de batalha para tornar á mesa, esta era outra. Já sem prataria, quasi sem porcellana nem crystaes, ainda assim apparecia aos olhos de Rubião régiamente esplendida. Pobres gallinhas magras eram graduadas em faisões; picados triviaes, assados de má morte traziam o sabor das mais finas iguarias do céo e da terra. Os comensaes faziam algum reparo, entre si,—ou ao cosinheiro,—mas Lucullo ceiava sempre com Lucullo. Toda a mais casa, gasta pelo tempo e pela incuria, tapetes desbotados, mobilias truncadas e descompostas, cortinas enxovalhadas, nada tinha o seu actual aspecto, mas outro, lustroso e magnifico. E a linguagem era tambem diversa, rotunda e copiosa, e assim os pensamentos, alguns extraordinarios, como os do finado amigo Quincas Borba,—theorias que elle não entendera, quando lh'as ouvira outr'ora, em Barbacena, e que ora repetia com lucidez, com alma,—ás vezes, empregando as mesmas phrases do philosopho. Como explicar essa repetição do obscuro, esse conhecimento do inextricavel, quando os pensamentos e as palavras pareciam ter ido com os ventos de outros dias? E porque todas essas reminiscencias desappareciam com a volta da razão?

A compaixão de Sophia,—explicado o mal do Rubião pelo amor que elle lhe tinha,—era um sentimento medio, não sympathia pura nem egoismo ferrenho, mas participando de ambos. Uma vez que evitasse alguma situação identica á docoupé, tudo ia bem. Nas horas em que Rubião estava lucido, escutava-o e fallava-lhe com interesse,—até porque a doença, dando-lhe audacia nos momentos de crise, dobrava-lhe a timidez nas horas normaes. Não sorria, como o Palha, quando Rubião subia ao throno ou commandava um exercito. Crendo-se autora do mal, perdoava-lh'o; a idéa de ter sido amada até á loucura, sagrava-lhe o homem.

—Porque não o tratam? perguntou uma noite D. Fernanda, que alli o conhecera no anno anterior; póde ser que se cure.

—Parece que não é cousa grave, acudiu o Palha; tem desses accessos, mas assim mansos, como viu, ideias de grandeza, que passam logo; e repare que, fóra daquillo, conversa perfeitamente. Comtudo, póde ser... Que acha V. Ex.?

Theophilo, o marido de D. Fernanda, respondeu que sim, que era possivel.

—Que fazia elle, ou que faz agora? continuou o deputado.

—Nada, nem agora nem antes. Era rico,—mas gastador. Conhecemol-o quando veiu de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro, aonde não voltara desde longos annos. Bom homem. Sempre com luxo, lembra-se? Mas, não ha riqueza inexgotavel, quando se entra pelo capital; foi o que elle fez. Hoje creio que tenha pouco...

—Podia salvar-lhe esse pouco, fazendo-se nomear curador, em quanto elle se trata. Não sou medico, mas póde ser que esse seu amigo fique bom.

—Não digo que não. Realmente, é pena... Dá-se com todos e presta seus serviços. Sabe que esteve para ser nosso parente? Pois não! quis casar com Maria Benedicta.

—A proposito de Maria Benedicta, interrompeu D. Fernanda, ia-me esquecendo que trago uma carta della para mostrar á senhora; recebi-a hontem. Já ha de saber que, em breve, estão de volta? Está aqui.

Entregou a carta a Sophia, que a abriu sem enthusiasmo, e a leu com tedio. Era mais que uma vulgar carta transatlantica, era um deposito moral, uma confissão intima e completa de pessoa feliz e agradecida. Contava os mais recentes episodios da viagem, desordenadamente, porque os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais bellas obras do homem ou da natureza valiam menos que os olhos que as miravam. Ás vezes, um incidente de hospedaria ou de rua comia mais papel e trazia mais interesse que outros, pela razão de pôr em relevo as qualidades do marido. Maria Benedicta amava tanto ou ainda mais que no primeiro dia. No fim, a medo, empost-scriptum, pedindo que o não dissesse a ninguem, confessava que era mãe.

Sophia dobrou o papel, não já com tedio, senão com despeito, e por dous motivos que se contradizem; mas a contradicção é deste mundo. Cotejada aquella carta com as que recebera de Maria Benedicta, dir-se-hia que ella era apenas uma conhecida, sem outro laço de sangue ou de affecto; e, comtudo, não quereria ser confidente d'aquella felicidade cochichada do outro lado do oceano, cheia de minucias, de adjectivos, de exclamações, do nome de Carlos Maria, dos olhos de Carlos Maria, dos ditos de Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia acinte, e quasi fazia crer na complicidade de D. Fernanda.

Habil, sabendo domar-se a tempo, Sophia dissimulou o despeito, e restituiu sorrindo a carta da prima. Quiz dizer que, pelo texto, a felicidade de Maria Benedicta devia estar intacta como a levara daqui, mas a voz não lhe passou da garganta. D. Fernanda é que se incumbiu da conclusão:

—Vê-se bem que é feliz!

—Parece que sim.

Se a manhã seguinte não fosse chuvosa, outra seria a disposição de Sophia. O sol nem sempre é official de boas ideias; mas, ao menos, permitte sahir, e a troca do expectaculo muda as sensações. Quando Sophia acordou já a chuva cahia grossa e continua, e o céo e o mar era tudo um, tão baixas estavam as nuvens, tão espessa era a cerração.

Tedio por dentro e por fóra. Nada em que espraiasse a vista e descançasse a alma. Sophia metteu a alma em um caixão de cedro, encerrou a este no caixão de chumbo do dia, e deixou-se estar sinceramente defuncta. Não sabia que os defunctos pensam, que um enxame de noções novas vem substituir as velhas, e que elles saem criticando o mundo como os expectadores saem do theatro criticando a peça e os actores. A defuncta sentiu que algumas noções e sensações continuavam a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida commum,—a carta da vespera e as recordações que lhe trouxe de Carlos Maria.

Em verdade, cuidára ter arredado para longe essa figura aborrecida, e eil-a que reapparecia, que sorria, que a fitava, que lhe sussurrava ao ouvido as mesmas palavras do vadio egoista e enfatuado, que a convidou um dia á valsa do adulterio e a deixou sosinha no meio do salão. Á volta dessa vinham outras; Maria Benedicta, por exemplo, um caco de gente, que ella foi buscar á roça para lhe dar lustre de cidade, e que esqueceu todos os beneficios para só se lembrar das suas ambições. E D. Fernanda tambem, madrinha dos seus amores, que de caso pensado, trouxera na vespera a carta de Maria Benedicta com opost-scriptumconfidencial. Não advertiu que o prazer da amiga bastava a explicar o esquecimento da parte reservada da carta; menos ainda indagou se a natureza moral de D. Fernanda comportava essa supposição. Vieram assim outras ideias e imagens, e tornaram as primeiras, e todas se iam ligando e desligando. Entre ellas, appareceu uma lembrança da vespera. O marido de D. Fernanda, envolvera Sophia em um grande olhar de admiração. Ella, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o relevo delicado das cadeiras;—erafoulard, côr de palha.

—Côr depalha, accentuou Sophia rindo, quando D. Fernanda o elogiou, pouco depois de entrar; côr depalha, como uma lembrança deste senhor.

Não é facil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de vaidade, procurando ler nos olhos dos outros o effeito daquella prova minuciosa de amor. Theophilo elogiou tambem o vestido, mas era difficil miral-o sem mirar tambem o corpo da dona; d'alli os olhos compridos que lhe deitou, sem concupiscencia, é certo, e quasi sem reincidencia. Pois essa lembrança da vespera, um gesto sem convite, uma admiração sem desejo, veiu metter-se de permeio agora, quando Sophia cuidava na maldade da outra.

Carlos Maria, Theophilo... Outros nomes relampejavam no céo daquella possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora, porque a chuva continuava a cair e o céo e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerração. Vieram todos esses nomes, com os proprios sujeitos correspondentes, e até vieram sujeitos sem nomes,—os adventicios e ignorados,—que uma só vez passaram por ella, cantaram o hymno da admiração e receberam o obolo da boa vontade. Porque não reteve algum de tantos, para ouvil-o cantar e enriquecel-o? Não é que os obolos enriqueçam a ninguem, mas ha outras moedas de maior valia. Porque não reteve um de tantos nomes elegantes, e até egregios? Essa pergunta sem palavras correu-lhe assim pelas veias, pelos nervos, pelo cerebro, sem outra resposta mais que a agitação e a curiosidade.

Nisto, a chuva cessou um pouco, e um raio de sol logrou romper o nevoeiro,—um desses raios humidos que parecem vir de olhos que choraram. Sophia cuidou que ainda podia sair; estava inquieta por vêr, por andar, por sacudir aquelle torpor, e esperou que o sol varresse a chuva e tomasse conta do ceu e da terra; mas o grande astro percebeu que a intenção della era constituil-o lanterna de Diogenes, e disse ao raio humido: «Volta, volta ao meu seio, raio casto e virtuoso; não vás tu conduzil-a aonde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; que responda aos bilhetes namorados,—se os recebe e não queima,—não lhe sirvas tu de archote, luz do meu seio, filho das minhas entranhas, raio, irmão dos meus raios...»

E o raio obedeceu, recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do sol, que tem visto tantas cousas ordinarias e extraordinarias. Então o veu de nuvens fez-se outra vez espesso, e mais escuro, e a chuva tornou a cahir em grandes bategas.

Sophia resignou-se á reclusão. Já agora tinha a alma tão confusa e diffusa como o expectaculo exterior. Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar. É justo dizer que ella, quando regressava desses estados de consciencia vagos e obscuros, tentava fugir-lhes e guiava o espirito para diverso assumpto; mas succedia-lhe como aos que têm somno e forcejam por velar: os olhos fecham-se de cada vez que espertam, e tornam a espertar para se fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro; estava cançada, e para repousar, foi abrir as folhas do ultimo numero daRevista dos Dous Mundos.Um dia, no melhor dos trabalhos da commissão das Alagôas, perguntára-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um senador:

Está lendo o romance de Feuillet, naRevista dos Dous Mundos?

—Estou, acudiu Sophia; é muito interessante, Não estava lendo, nem conhecia aRevista; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a assignasse; leu o romance, leu os que sahiram depois, e fallava de todos os que lêra ou ia lendo. Abertas as folhas daquelle numero, e acabada uma novella, Sophia recolheu-se ao quarto e atirou-se á cama. Passára mal a noute, não lhe custou pegar no somno,—profundo, largo e sem sonhos,—excepto para o fim, em que teve um pesadelo. Estava deante da mesma parede de cerração daquelle dia, mas no mar, á proa de uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o dedo na agua um nome—Carlos Maria.E as lettras ficavam gravadas, e para maior nitidez, tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia que atordoasse, a não ser o mysterio; mas é sabido que os mysterios dos sonhos parecem factos naturaes. Eis que a parede da cerração se rasga, e nada menos que o proprio dono do nome apparece aos olhos de Sophia, caminha para ella, toma-a nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, analogas ás que ella, alguns mezes antes, ouvira ao Rubião. E não a afligiram, como as d'este; ao contrario, escutou-as com prazer, meia cahida para trás, como se desmaiasse. Já não era lancha, mas carruagem, onde ella se ia com o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sandalo. Tambem aqui não ha que atterre. O terror veiu quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria e deitaram o cadaver ao chão. Depois, um delles, que parecia ser o cabo de todos, tomou o lugar do defuncto, tirou a mascara e disse a Sophia que se não assustasse, que elle a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo humido de sangue, cheirando a sangue. Sophia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do leito o marido.

—Que foi? perguntou elle.

—Ah! respirou Sophia. Gritei, não gritei?

Palha não respondeu nada; olhava á tôa, pensava em negocios. Então um receio assaltou a mulher, se haveria effectivamente fallado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer,—o mesmo que escrevera na agua. E logo, espreguiçando os braços para o ar, fel-os cahir sobre os hombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meia alegre, meia triste:

—Sonhei que estavam matando você.

Palha ficou enternecido. Havel-a feito padecer por elle, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, intimo, profundo,—que o faria desejar outros pesadelos, para que o assasinassem aos olhos della, e para que ella gritasse augustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.

No dia seguinte, o sol appareceu claro e quente, o ceu limpido, e o ar fresco. Sophia metteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da reclusão. Já o proprio dia lhe fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em sua casa,—e das que achou na rua do Ouvidor, a agitação externa, as noticias da sociedade, a boa feição de tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da alma os cuidados da vespera.

Assim, pois, o que parecia vontade imperiosa reduzia-se a velleidade pura, e, com algumas horas de intervallo, todos os maos pensamentos se recolheram ás suas alcovas. Se me perguntardes por algum remorso de Sophia, não sei que vos diga. Ha uma escala de resentimento e de reprovação. Não é só nas acções que a consciencia passa gradualmente da novidade ao costume, e do temor á indifferença. Os simples peccados de pensamento são sujeitos a essa mesma alteração, e o uso de cuidar nas cousas affeiçoa tanto a ellas,—que, afinal, o espirito não as estranha, nem as repelle. E nestes casos ha sempre um refugio moral na isenção exterior, que é, por outros termos mais explicativos, o corpo sem macula.

Um só incidente affligiu Sophia naquelle dia puro e brilhante,—foi um encontro com Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor para comprar um romance; em quanto esperava o troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto o percorreu com os olhos os livros da prateleira,—uns livros de anatomia e de estatistica;—recebeu o dinheiro, guardou-o, e, de cabeça baixa, rapida como uma flexa, saiu á rua, e enfiou para cima. O sangue só lhe socegou, quando a rua dos Ourives ficou para traz. Não podia adivinhar que Rubião a não tinha visto, sequer; nem podia saber que, não a vendo embora, não sahisse logo, não a conhecesse, não corresse a aggarral-a, a dizer-lhe algum desvario.

Dias depois, indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com elle no saguão. Cuidou que subisse, e dispoz-se a subir tambem, ainda que receiosa; mas Rubião descia, apertaram-se as mãos familiarmente, e despediram-se até á tarde.

—Elle vem aqui muitas vezes? perguntou Sophia a D. Fernanda, depois de lhe contar o encontro do saguão.

—Esta é a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez appareceu delirando. Das outras é como viu agora, socegado, e até conversador. Ha nelle sempre alguma cousa que mostra não estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco vagos? É isso; no mais, conversa bem. Creia, D. Sophia; aquelle homem pode sarar. Porque não faz com que seu marido tome isto a peito?

—Christiano tem projecto de o mandar examinar e tratar; mas, deixe estar que eu o apresso.

—Sim, falle-lhe. Elle parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha.

—Ter-lhe-ha dito alguma inconveniencia no delirio, a meu respeito? pensou Sophia. Convirá revellar-lhe a verdade?

Concluiu que não; o proprio mal do Rubião explicaria as inconveniencias. Prometteu que apressaria o marido, e, nessa mesma tarde expoz o negocio ao Palha, approvando a ideia de tentar a cura. «Era uma grandeamolação,» redarguiu este. E perguntou que interesse tinha D. Fernanda em tornar áquelle negocio. Que o tratasse ella mesma! Era uma atrapalhação ter de cuidar do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Dr. Theophilo. Um aborrecimento de todos os diabos.

—Já ando com grande carga sobre mim, Sophia. E depois como hade ser? Havemos de trazel-o para casa? Parece que não. Mettel-o onde? Em alguma casa de saude... Sim, mas se não puderem acceital-o? Não heide mandal-o para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? Você prometteu que me falaria?

—Prometti, e affirmei que você faria isto, respondeu Sophia sorrindo. Talvez não custe tanto como parece.

Sophia insistiu ainda, A compaixão de D. Fernanda tinha-a impressionado muito; achou-lhe um quê distincto e nobre, e advertiu que se a outra, sem relações estreitas nem antigas com Rubião, assim se mostrava interessada, era de bom tom não ser menos generosa.

Tudo se fez socegadamente. Palha alugou uma casinha na rua do Principe, cerca do mar, onde metteu o nosso Rubião, alguns trastes e o cachorro amigo. Rubião acceitou a mudança sem desgosto, e, desde que lhe tornou o delirio, com enthusiasmo. Estava nos seus paços de S. Cloud.

Não succedeu assim aos amigos da casa, que receberam a noticia da mudança como um decreto de exilio. Tudo na antiga habitação fazia parte delles, o jardim, a grade, os canteiros, os degraus de pedra, a enseada. Traziam tudo de cór. Era entrar, pendurar o chapeu, e ir esperar na sala. Tinham perdido a noção da casa alheia e do obsequio recebido. Depois, a visinhança. Cada um daquelles amigos do Rubião estava affeito a ver as pessoas do logar, as caras da manhã e as da tarde, alguns chegavam a comprimental-as, como aos seus proprios visinhos. Paciencia! iriam agora para Babylonia, como os desterrados de Sião. Onde quer que estivesse o Euphrates, achariam salgueiros em que pendurassem as harpas saudosas,—ou mais propriamente, cabides em que puzessem os chapéos. A differença entre elles e os prophetas é que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam com a mesma graça e força; cantariam os velhos hymnos, tão novos como no primeiro dia, e Babel acabaria por ser a mesma Sião, perdida e resgatada.

—O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo, na vespera da mudança. Hão de ter reparado que não anda bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confusão, vae tratar-se, por emquanto é preciso que descance. Arranjai-lhe uma casa pequena, mas póde ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento de saude.

Ouviram attonitos. Um delles, o Pio, voltando a si mais depressa que os outros, respondeu que ha mais tempo se devia ter feito aquillo; mas, para fazel-o, era preciso ter influencia decisiva no animo de Rubião.

—Muitas vezes lhe disse, por boas maneiras, que era indispensavel consultar um medico, por me parecer que tinha alguma cousa no estomago... Era um modo de desviar o sentido, comprehende? Mas elle respondia sempre que não tinha nada, diggeria bem...—«Mas come menos, dizia-lhe eu; ha dias em que não come quasi nada; está mais magro, um pouco amarello...» Comprehende que não podia dizer-lhe a verdade. Cheguei a fallar a um medico, meu amigo; mas o nosso bom Rubião não o quiz receber.

Os outros quatro iam confirmando de cabeça toda aquella invenção; era o mais que se lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento do golpe. Acabaram perguntando o numero da nova casa, para irem saber delle. Pobre amigo! Quando se arrancaram dalli, e se despediram uns dos outros, deu-se um phenomeno com que não contavam; é que elles mesmos mal podiam separar-se. Não que os ligasse amizade nem estima; o proprio interesse os fazia antipathicos. Mas o costume de se verem todos os dias, ao almoço e ao jantar,—á mesma mesa, como que os tinha fundido uns nos outros; a necessidade os fez supportaveis, o tempo os tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos de cada um que iam padecer com a ausencia das caras de uso, do gesto, das soiças, dos bigodes, da calva, dos sestros particulares, do modo de comer, de fallar e de estar dos companheiros. Era mais que separação, era desarticulação.

Rubião notou que elles não o acompanharam á casa nova, e mandou-os chamar; nenhum veiu, e a ausencia encheu de tristeza o nosso amigo,—durante as primeiras semanas. Era a familia que o abandonava. Rubião procurou recordar se lhes fizera algum mal, por obra ou por palavra, e não achou nada.

—Conversei com o homem; achei-lhe ideias delirantes. Comquanto não seja alienista, acho que póde ficar bom... Mas quer saber uma descoberta interessante?

—Crê que fique bom? disse D. Fernanda, sem attender á pergunta do Dr. Falcão.

Era deputado o Dr. Falcão, deputado e medico, amigo da casa, varão sabedor, sceptico e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor de examinar o Rubião, pouco depois que este se transportou para a casa da rua do Principe.

—Sim, creio que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Póde ser que a doença não tenha antecedentes na familia. Mande ver um especialista. Mas não quer saber a minha interessante descoberta?

—Qual é?

—Talvez tenha parte na molestia uma pessoa sua conhecida, respondeu elle sorrindo.

—Quem?

—D. Sophia.

—Como assim?

—Elle fallou-me della com enthusiasmo, disse-me que era a mais esplendida mulher do mundo, e que a nomeára duqueza, por não poder nomeal-a imperatriz; mas que não brincassem com elle, que era capaz de fazer como o tio, divorciar-se e casar com ella. Conclui que terá tido paixão pela moça; mas pode ser alguma cousa mais. Falla della com tal intimidade, Sophia para aqui, Sophia para alli... Desculpe-me, mas eu creio que os dois se amaram...

—Oh! não!

—D. Fernanda, creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheço; a senhora parece que não a conhece ha muito tempo, nem viveu na intimidade della. Póde ser que se tivessem amado, e que alguma paixão violenta... Supponhamos que ella o mandasse pôr fóra de casa... É verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se póde juntar...

D. Fernanda não olhava para elle, vexada de lhe ouvir aquella supposição; evitava discutil-a pelo melindre do assumpto. Achava a suspeita sem fundamento, absurda, inverosimil; não chegaria a crer naquelle amor espurio, ainda que o ouvisse ao proprio Rubião. Um desvairado, em summa. Quando o não fosse, é ainda provavel que lhe não desse fé. Sim, não lhe daria fé. Não podia crer que Sophia houvesse amado aquelle homem, não por elle, mas por ella, tão correcta e pura. Era impossivel. Quiz defendel-a; mas, apezar da intimidade do Dr. Falcão, recuou segunda vez do assumpto, e repetiu a pergunta de ha pouco:

—Parece-lhe então que elle pode ficar bom?

—Póde, mas não basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas, é melhor um especialista.

Pouco depois, saindo á rua, Falcão sorria da resistencia de D. Fernanda em acceitar a sua hypothese. «Com certeza, houve alguma cousa, dizia elle comsigo; boa cara, e, si não é um petimetre, é apessoado, e tem fogo nos olhos. Com certeza...» E repetia algumas phrases de Rubião, evocava o gesto e a modulação terna da voz com que fallava de Sophia, e cada vez mais se lhe ia aggravando a suspeita, «Com certeza...» Era já impossivel que se não tivessem amado; a opposição de D. Fernanda parecia-lhe ingenua,—se não era antes um recurso para desconversar e não tocar na materia. Havia de ser isso...

Neste ponto, sem querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova assaltara-lhe o espirito. Apoz alguns instantes rapidos, abanou a cabeça voluntariamente, como a desmentir-se, como a achar-se absurdo, e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que occupa deveras o interior do homem, não faz caso da cabeça nem dos seus gestos. «Quem sabe se D. Fernanda não suspirou tambem por elle? Essa dedicação não seria um prolongamento de amor, etc.?» E assim foram nascendo perguntas, que achavam no intimo do Dr. Falcão resposta affirmativa. Resistiu ainda, era amigo da casa, tinha respeito a D. Fernanda, conhecia-a honesta; mas,—ia pensando,—bem podia ser que um sentimento occulto, recatado,—quem sabe até se provocado pela mesma paixão da outra...? Ha dessas tentações. O contagio da lepra corrompe o mais puro sangue; um triste bacillo destróe o mais robusto organismo.

Pouco a pouco, as velleidades de resistencia foram cedendo á noção da possibilidade, da probabilidade e da certeza. Em verdade, tinha noticia de algumas obras de caridade de D. Fernanda; mas aquelle caso era novo. Essa dedicação especial a um homem que não era familiar da casa, nem velho amigo, nem parente, adherente, collega do marido, qualquer cousa que o fizesse participe da vida domestica, pelas relações, pelo sangue ou pelo costume não era explicavel sem algum motivo secreto. Amor, seguramente; curiosidade de mulher honesta, que póde descambar no vicio e no remorso. Aquella teria recuado a tempo; ficou-lhe a sympathia morbida... E d'ahi, quem sabe?

E d'ahi, quem sabe? repetiu o Dr. Falcão na manhã seguinte. A noite não apagara a desconfiança do homem. E d'ahi quem sabe? Sim, não seria só sympathia morbida. Sem conhecer Shakespeare, elle emendou Hamlet: «Ha entre o céo e a terra, Horacio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vãphilanthropia». Alli andou dedo de amor. E não chasqueava nem lastimava nada. Já disse que era sceptico; mas, como era tambem discreto, não transmittiu a ninguem a sua conclusão.

A volta de Carlos Maria e da mulher interrompeu as preoccupações de D. Fernanda, relativamente a Rubião. Esta foi a bordo recebel-os, conduziu-os á Tijuca, onde um velho amigo da familia de Carlos Maria alugára e trastejára uma casa, por ordem delle. Sophia não foi a bordo; mandou ocoupéesperal-os no caes Pharoux, mas D. Fernanda já alli tinha uma caleça, que os levou, e mais a ella e ao Palha. De tarde, Sophia foi visitar os recem-chegados.

D. Fernanda não cabia era si de contente. As cartas de Maria Benedicta os davam por felizes; ella não poude ler desde logo nos olhos e nas maneiras do casal a confirmação do escripto. Pareciam satisfeitos. Maria Benedicta não reteve as lagrimas, quando abraçou a amiga, nem esta as suas, e ambas se apertaram como duas irmãs de sangue. No dia seguinte, quando puderam fallar a sós, D. Fernanda perguntou a Maria Benedicta se ella e o marido eram felizes, e, sabendo que sim, pegou-lhe nas mãos e fitou-a longamente sem achar palavra. Não logrou mais que repetir a pergunta:

—Vocês são felizes?

—Somos, respondia Maria Benedicta.

—Não sabe que bem me faz a sua resposta. Não é só porque eu teria remorsos, se vocês não tivessem a felicidade que eu imaginei dar-lhes, mas tambem por que é bem bom ver os outros felizes. Elle gosta de você como no primeiro dia?


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