The Project Gutenberg eBook ofQuincas Borba

The Project Gutenberg eBook ofQuincas BorbaThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Quincas BorbaAuthor: Machado de AssisRelease date: October 5, 2017 [eBook #55682]Most recently updated: October 23, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at FreeLiterature (online soon in an extended version,also linkingto free sources for education worldwide ... MOOC's,educational materials,...) (Images generously made availableby the Internet Archive.)*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK QUINCAS BORBA ***

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: Quincas BorbaAuthor: Machado de AssisRelease date: October 5, 2017 [eBook #55682]Most recently updated: October 23, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at FreeLiterature (online soon in an extended version,also linkingto free sources for education worldwide ... MOOC's,educational materials,...) (Images generously made availableby the Internet Archive.)

Title: Quincas Borba

Author: Machado de Assis

Author: Machado de Assis

Release date: October 5, 2017 [eBook #55682]Most recently updated: October 23, 2024

Language: Portuguese

Credits: Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at FreeLiterature (online soon in an extended version,also linkingto free sources for education worldwide ... MOOC's,educational materials,...) (Images generously made availableby the Internet Archive.)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK QUINCAS BORBA ***

OBRAS DO AUTORMemorias Posthumas de Braz CubasQuincas BorbaHistórias sem dataPapéis avulsosHistorias da meia noiteYayá Garcia, romanceHelena, romanceResurreição, romanceA mão e a luva, romanceContos FluminensesAmericanas, poesiasPhalenas, poesiasChrysalidas, poesiasTu só, tu, puro amor, comédia

Rubião fitava a enseada,—eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares mettidos no cordão do chambre, á janella de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que elle admirava aquelle pedaço de agua quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava o passado com o presente. Que era, ha um anno? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinellas (umas chinellas de Tunis, que lhe deu recente amigo, Christiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o ceu; e tudo, desde as chinellas até o ceu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

—Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa elle. Se a mana Piedade tem casado com o Quincas Borba, apenas me daria uma esperança collateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo commigo; de modo que o que parecia uma desgraça...

Que abysmo que ha entre o espirito e o coração! O espirito do ex-professor, vexado daquelle pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assumpto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham, arregalados? Elle, coração, vae dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha... —Bonita canoa!—Antes assim!--Como obedece bem aos remos do homem!—O certo é que elles estão no ceu!

Um creado trouxe o café. Rubião pegou na chicara, e, em quanto lhe deitava assucar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metaes que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era materia de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, umMephistophelese umFausto.Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja,—primor de argentaria, execução fina e acabada. O creado esperava tezo e serio. Era hespanhol; e não foi sem resistencia que Rubião o acceitou das mãos de Christiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus creoulos de Minas, e não queria linguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter creados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pagem, que elle queria pôr na sala, como um pedaço da provincia, nem o pôde deixar na cosinha, onde reinava um francez, Jean; foi degradado a outros serviços.

—Quincas Borba está muito impaciente? perguntou Rubião bebendo o ultimo golo de café, e lançando um ultimo olhar á bandeja.

—Me parece que si.

—Lá vou soltal-o.

Não foi; deixou-se ficar, algum tempo, a olhar para os moveis. Vendo as pequenas gravuras inglezas, que pendiam da parede por cima dos dous bronzes, Rubião pensou na bella Sophia, mulher do Palha, deu alguns passos, e foi sentar-se nopouf, ao centro da sala, olhando para longe...

—Foi ella que me recommendou aquelles dous quadrinhos, quando andavamos os tres, a ver cousas para comprar. Estava tão bonita! Mas o que eu mais gosto della são os hombros, que vi no baile do coronel. Que hombros! Parecem de cera; tão lisos, tão brancos! Os braços tambem; oh! os braços! Que bem feitos!

Rubião suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos. Sentia que não era inteiramente feliz; mas sentia tambem que não estava longe a felicidade completa. Recompunha de cabeça uns modos, uns olhos, uns requebros sem explicação, a não ser esta, que ella o amava, e que o amava muito. Não era velho; ia fazer quarenta e um annos; e, rigorosamente, parecia menos. Esta observação foi acompanhada de um gesto; passou a mão pela cara, barbeada todos os dias, cousa que não fazia d'antes, por economia e desnecessidade. Um simples professor! Usava suissas, (mais tarde deixou crescer a barba toda),—tão macias, que dava gosto passar os dedos por ellas... E recordava assim o primeiro encontro, na estação de Vassouras, onde Sophia e o marido entraram no trem da estrada de de ferro, no mesmo carro em que elle descia de Minas; foi alli que achou aquelle par de olhos viçosos, que pareciam repetir a exhortação do propheta: Todos vós que tendes sede, vinde ás aguas. Não trazia ideias adequadas ao convite, é verdade; vinha com a herança na cabeça, o testamento, o inventario, cousas que é preciso explicar primeiro, afim de entender o presente e o futuro. Deixemos Rubião na sala de Botafogo, batendo com as borlas do chambre nos joelhos, e cuidando na bella Sophia. Vem commigo, leitor; vamos vel-o, mezes antes, á cabeceira do Quincas Borba.

Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler asMemorias posthumas de Braz Cubas, é aquelle mesmo naufrago da existencia, que alli apparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma philosophia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viuva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida; mas, tão acanhada que os suspiros do namorado ficavam sem echo. Chamava-se Maria da Piedade. Um irmão della, que é o presente Rubião, fez todo o possivel para casal-os. Piedade resistiu, um pleuriz a levou.

Foi esse trechosinho de romance que ligou os dous homens. Saberia Rubião que o nosso Quincas Borba trazia aquelle grãosinho de sandice, que um medico suppoz achar-lhe? Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãosinho não se despegou do cerebro de Quincas Borba,—nem antes, nem depois da molestia que lentamente o comeu. Quincas Borba tivera alli alguns parentes, mortos já agora em 1867; o ultimo foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o unico amigo do philosopho. Regia então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, mettera hombros a algumas emprezas, que foram a pique.

Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco mezes, perto de seis. Era real o desvello de Rubião, paciente, risonho, multiplo, ouvindo as ordens do medico, dando os remedios ás horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa, nem a leitura dos jornaes, logo que chegava a mala da Côrte ou a de Ouro-Preto.

—Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba.

—Grande façanha! Como se você fosse máo!

A opinião ostensiva do medico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o medico até á porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais afflictiva pela certeza...?

—La isso, não, atalhou Rubião; para elle, morrer é negocio facil. Nunca leu um livro que elle escreveu, ha annos, não sei que negocio de philosophia...

—Não; mas philosophia é uma cousa, e morrer de verdade é outra; adeus.

Rubião achou um rival no coração do Quincas Borba,—um cão, um bonito cão, meio tamanho, pello côr de chumbo, malhado de preto. Quincas Borba levava-o para toda parte, dormiam no mesmo quarto. De manhã, era o cão que acordara o senhor, trepando ao leito, onde trocavam as primeiras saudações. Uma das extravagancias do dono foi dar-lhe o seu proprio nome; mas, explicava-o por dous motivos, um doutrinario, outro particular.

—Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o principio da vida e reside em toda a parte, existe tambem no cão, e este póde assim receber um nome de gente, seja christão ou mussulmano...

—Bem, mas porque não lhe deu antes o nome de Bernardo, disse Rubião com o pensamento em um rival politico da localidade.

—Esse agora é o motivo particular. Se eu morrer antes, como presumo, sobrevivirei no nome do meu bom cachorro. Ris-te, não?

Rubião fez um gesto negativo.

—Pois devias rir, meu querido. Porque a immortalidade é o meu lote ou o meu dote, ou como melhor nome haja. Vivirei perpetuamente no meu grande livro. Os que, porém, não souberem ler, chamarão Quincas Borba ao cachorro, e...

O cão, ouvindo o nome, correu á cama. Quincas Borba, commovido, olhou para Quincas Borba:

—Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu unico amigo!

—Unico!

—Desculpa-me, tu tambem o és, bem sei, e agradeço-te muito; mas a um doente perdoa-se tudo. Talvez esteja começando o meu delirio. Deixa ver o espelho.

Rubião deu-lhe o espelho. O doente contemplou por alguns segundos a cara magra, o olhar febril, com que descobria os suburbios da morte, para onde caminhava a passo lento, mas seguro. Depois, com um sorriso pallido e ironico:

—Tudo o que está cá fóra corresponde ao que sinto cá dentro; vou morrer, meu caro Rubião... Não gesticules, vou morrer. E que é morrer, para ficares assim espantado?

—Sei, sei que voce tem umas philosophias... Mas fallemos do jantar; que hade ser hoje?

Quincas Borba sentou-se na cama, deixando pender as pernas, cuja estraordinaria magreza se adivinhava por fóra das calças.

—Que é! que quer? acudiu Rubião.

—Nada, respondeu o enfermo sorrindo. Umas philosophias! Com que desdem me dizes isso! Repete, anda, quero ouvir outra vez. Umas philosophias!

—Mas não é por desdem... Pois eu tenho capacidade para desdenhar de philosophias? Digo só que você póde crêr que a morte não vale nada, porque terá razões, principios...

Quincas Borba procurou com os pés as chinellas; Rubião chegou-lh'as; elle calçou-as e poz-se a andar para esticar as pernas. Affagou o cão e accendeu um cigarro. Rubião quiz que se agazalhasse, e trouxe-lhe um fraque, um collete, um chambre, um capote, á escolha. Quincas Borba recusou-os com um gesto. Tinha outro ar agora; os olhos mettidos para dentro viam pensar o cerebro. Depois de muitos passos, parou, por alguns segundos, deante de Rubião.

—Para entenderes bem o que é a morte e a vida, basta contar-te como morreu minha avó.

—Como foi?

—Senta-te.

Rubião obedeceu, dando ao rosto o maior interesse possivel, em quanto Quincas Borba continuava a andar, recolhendo as ideias.

—Foi no Rio de Janeiro, começou elle, defronte da Capella Imperial, que era então Real, em dia de grande festa; minha avó saiu, atravessou o adro, para ir ter á cadeirinha, que a esperava no largo do Paço. Gente como formiga. O povo queria ver entrar as grandes senhoras nas suas ricas traquitanas. No momento em que minha avó sahia do adro para ir á cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma das bestas de uma sege; a besta desparou, a outra imitou-a, confusão, tumulto, minha avó cahiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por cima. Foi levada em braços para uma botica da rua Direita, veiu um sangrador, mas era tarde; tinha a cabeça rachada, uma perna e o hombro partidos, era toda sangue; expirou minutos depois.

—Foi realmente uma desgraça, disse Rubião.

—Não.

—Não?

—Ouve o resto. Aqui está como se tinha passado o caso. O dono da sege estava no adro, e tinha fome, muita fome, porque era tarde, e almoçára cedo e pouco. Dalli pôde fazer signal ao cocheiro; este fustigou as mulas para ir buscar o patrão. A sege no meio do caminho achou um obstaculo e derribou-o; esse obstaculo era minha avó. O primeiro acto dessa serie de actos foi um movimento de conservação: Humanitas tinha fome. Se em vez de minha avó, fosse um rato ou um cão, é certo que minha avó não morreria, mas o facto era o mesmo; Humanitas precisa comer. Se em vez de um rato ou de um cão, fosse um poeta, Byron ou Gonçalves Dias, differia o caso no sentido de dar materia a muitos necrologios; mas o fundo subsistia. O universo ainda não parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabeça de um varão illustre ou obscuro; mas Humanitas (e isto importa, antes de tudo) Humanitas precisa comer.

Rubião escutava, com a alma nos olhos, sinceramente desejoso de entender; mas não dava pela necessidade a que o amigo attribuia a morte da avó. Seguramente o dono da sege, por muito tarde que chegasse a casa, não morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu de verdade, e para sempre. Explicou-lhe, como pode, essas duvidas, e acabou perguntando-lhe:

—E que Humanitas é esse?

—Humanitas é o principio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isto, meu caro Rubião; fallemos de outra cousa.

—Diga sempre.

Quincas Borba, que não deixára de andar, parou alguns instantes.

—Queres ser meu discipulo?

—Quero.

—Bem, irás entendendo aos poucos a minha philosophia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente, ah! nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não ha vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das cousas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não é elle, é Humanitas...

—Mas que Humanitas é esse?

—Humanitas é o principio. Ha nas cousas todas certa substancia recondita e identica, um principio unico, universal, eterno, commum, indivisivel e indestructivel,—-ou, para usar a linguagem do grande Camões:

Uma verdade que nas cousas anda,Que mora no visibil e invisibil.

Pois essa substancia ou verdade, esse principio indestructivel é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vás entendendo?

—Pouco; mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó...

—Não ha morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas fórmas, póde determinar a suppressão de uma dellas; mas, rigorosamente, não ha morte, ha vida, porque a suppressão de uma é a condição da sobrevivencia da outra, e a destruição não attinge o principio universal e commum. Dahi o caracter conservador e benefico da guerra. Suppõe tu um campo de batatas e duas tribus famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribus, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir á outra vertente, onde ha batatas em abundancia; mas, se as duas tribus dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se sufficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribus extermina a outra e recolhe os despojos. Dahi a alegria da victoria, os hymnos, acclamações, recompensas publicas e todos os demais effeitos das acções bellicas. Se a guerra não fosse isso, taes demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só commemora e ama o que lhe é aprazivel ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canonisa uma acção que virtualmente a destroe. Ao vencido, odio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

—Mas a opinião do exterminado?

—Não ha exterminado. Desapparece o phenomeno; a substancia é a mesma. Nunca viste ferver agua? Hasde lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de continuo, e tudo fica na mesma agua. Os individuos são essas bolhas transitorias.

—Bem; a opinião da bolha...

—Bolha não tem opinião. Apparentemente, ha nada mais contristador que uma dessas terriveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse supposto mal é um beneficio, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistencia, como porque dá logar á observação, á descoberta da droga curativa. A hygiene é filha de podridões seculares; devemol-a a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho. Repito, as bolhas ficam na agua. Vês este livro? ÉD. Quixote.Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra, que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bella, bellamente eterna, como este mundo divino e supra-divino.

Quincas Borba calou-se de exhausto, e sentou-se ofegante. Rubião correu a elle, levando-lhe agua e pedindo que se deitasse para descançar; mas o enfermo, após alguns minutos, respondeu que não era nada. Perdera o costume de fazer discursos, é o que era. E, afastando com o gesto a pessoa de Rubião, afim de poder encaral-a sem esforço, emprehendeu uma brilhante descripção do mundo e suas excellencias. Misturou ideias proprias e alheias, imagens de toda sorte, idyllicas, epicas, a tal ponto que Rubião perguntava a si mesmo como é que um homem, que ia morrer dalli a dias, podia tratar tão galantemente aquelles negocios.

—Ande repousar um pouco.

Quincas Borba reflectiu.

—Não, vou dar um passeio.

—Agora não; você está muito cançado.

—Qual! Passou.

Ergueu-se, e poz paternalmente as mãos sobre os hombros de Rubião.

—Você é meu amigo?

—Que pergunta!

—Diga.

—Tanto ou mais do que este animal, respondeu Rubião, em um arroubo de ternura.

Quincas Borba apertou-lhe as mãos.

—Bem.

No dia seguinte, Quincas Borba accordou com a resolução de ir ao Rio de Janeiro, voltaria no fim de um mez, tinha certos negocios... Rubião ficou espantado. E a molestia, e o medico? O doente respondeu que o medico era um charlatão, e que a molestia precisava espairecer, tal qual a saude. Molestia e saude eram dous caroços do mesmo fructo, dous estados de Humanitas.

—Vou a alguns negocios pessoaes, concluiu o enfermo, e levo, além disso, um plano tão sublime, que nem mesmo você poderá entendel-o. Desculpe-me esta franqueza; mas eu prefiro ser franco com você a sel-o com qualquer outra pessoa.

Rubião fiou do tempo que este projecto lhe passasse, como tantos outros; mas enganou-se. Accrescia que, em verdade, o doente parecia estar melhorando; não ia á cama, saía á rua, escrevia. No fim de uma semana, mandou chamar o tabellião.

—Tabellião? repetiu o amigo.

—Sim, quero registrar o meu testamento. Ou vamos la os dous...

Foram os tres, porque o cão não deixava partir o amo e senhor sem acompanhal-o. Quincas Borba registrou o testamento, com as formalidades do estylo, e tornou tanquillo para casa. Rubião sentia bater-lhe o coração violentamente.

—Está claro que eu não o deixo ir só para a Côrte, disse elle ao amigo.

—Não, não é preciso. Demais, Quincas Borba não vae, e não o confio a outra pessoa, senão a você. Deixo a casa como está. Daqui a um mez estou de volta. Vou amanhã; não quero que elle presinta a minha sahida. Cuide delle, Rubião.

—Cuido, sim.

—Jura?

—Por esta luz que me allumia. Então sou alguma creança?

—Dê-lhe leite ás horas apropriadas, as comidas todas do costume, e os banhos; e quando sahir a passeio com elle, olhe que não vá fugir. Não, o melhor é que não saia .. não saia...

—Vá socegado.

Quincas Borba chorava pelo outro Quincas Borba. Não quiz vel-o á sahida. Chorava deveras, lagrimas de loucura ou de affeição, quaesquer que fossem, elle as ia deixando pela boa terra mineira, como o derradeiro suor de uma alma obscura, prestes a cahir no abysmo.

Horas depois, teve Rubião um pensamento horrivel. Podiam crer que elle proprio incitara o amigo á viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se é que realmente estava incluso no testamento. Sentiu remorsos. Porque não empregou todas as forças, para contel-o? Viu o cadaver do Quincas Borba, pallido, hediondo, fitando nelle um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho se désse em viagem, abrir mão do legado.

Pela sua parte o cão vivia farejando, ganindo, querendo fugir; não podia dormir quieto, levantava-se muitas vezes, á noite, percorria a casa, e tornava ao seu canto. De manhã, Rubião chamava-o á cama, e o cão acudia alegre; imaginava que era o proprio dono; via depois que não era, mas aceitava as caricias, e fazia-lhe outras, como se Rubião tivesse de levar as suas ao amigo, ou trazel-o para alli. Demais, havia-se-lhe affeiçoado tambem, e para elle era a ponte que o ligava á existencia anterior. Não comeu durante os primeiros dias. Supportando menos a sede, Rubião pôde alcançar que bebesse leite; foi a unica alimentação por algum tempo. Mais tarde, passava as horas, calado, triste, enrolado em si mesmo, ou então com o corpo estendido e a cabeça entre as mãos.

Quando o medico voltou, ficou espantado da temeridade do doente; deviam tel-o impedido de sair; a morte era certa.

—Certa?

—Mais tarde ou mais cedo. Levou o tal cachorro?

—Não, senhor, está commigo; pediu que cuidasse delle, e chorou, olhe que chorou que foi um nunca acabar. Verdade é, disse ainda Rubião para defender o enfermo, verdade é que o cachorro merece a estima do dono: parece gente.

O medico tirou a largo chapéo de palha para concertar a fita; depois sorriu. Gente? Com que então parecia gente? Rubião insistia, depois explicava; não era gente como a outra gente, mas tinha cousas de sentimento, e até de juizo. Olhe, ia contar-lhe uma...

—Não, homem, não, logo, logo, vou a um doente de erysipella... Se vierem cartas delle, e não forem reservadas, desejo vel-as, ouviu? E lembranças ao cachorro, concluiu sahindo.

Algumas pessoas começaram a mofar do Rubião e da singular incumbencia de guardar um cão, em vez de ser o cão que o guardasse a elle. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em que havia de dar o professor! sentinella de cachorro! Rubião tinha medo da opinião publica. Com effeito, parecia-lhe ridiculo; fugia aos olhos extranhos, o mais que lhe era possivel; em casa, olhava com fastio para o animal; dava-se ao diabo, arrenegava da vida. Não tivesse a esperança de um legado, pequeno que fosse. Era impossivel que lhe não deixasse uma lembrança.

Sete semanas depois, chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de Janeiro, toda do punho do Quincas Borba:

«Meu caro senhor e amigo,«Você ha de ter estranhado o meu silencio. Não lhe tenho escripto por certos motivos particulares, etc. Voltarei breve; mas quero communicar-lhe desde já um negocio reservado, reservadissimo.«Quem sou eu, Rubião? Sou Santo Agostinho. Sei que ha de sorrir, porque você é um ignaro, Rubião; a nossa intimidade permittia-me dizer palavra mais crua, mas faço-lhe esta concessão, que é a ultima. Ignaro!«Ouça, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto ante-hontem; ouça e cale-se. Tudo coincide nas nossas vidas. O santo e eu passámos uma parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero heresia tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas; ambos furtámos, elle, em pequeno, umas peras de Carthago, eu, já rapaz, um relogio do meu amigo Braz Cubas. Nossas mães eram religiosas e castas. Emfim, elle pensava, como eu, que tudo que existe é bom, e assim o demonstra no cap. XVI, livro VII dasConfissões, com a differença que para elle, o mal é um desvio da vontade, illusão propria de um seculo atrazado, concessão ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e só a primeira affirmação é verdadeira; todas as cousas são boas,omnia bona, e adeus.«Adeus, ignaro. Não contes a ninguém o que te acabo de confiar, se não queres perder as orelhas. Cala-te, guarda, e agradece a boa fortuna de ter por amigo um grande homem, como eu, embora não me comprehendas. Has de comprehender-me. Logo que tornar a Barbacena, dar-te-hei em termos explicados, simples, adequados ao entendimento de um asno, a verdadeira noção do grande homem. Adeus; lembranças ao meu pobre Quincas Borba. Não esqueças de lhe dar leite; leite e banhos; adeus, adeus... Teu do coraçãoJOAQUIM BORBA DOS SANTOS.»

«Meu caro senhor e amigo,

«Você ha de ter estranhado o meu silencio. Não lhe tenho escripto por certos motivos particulares, etc. Voltarei breve; mas quero communicar-lhe desde já um negocio reservado, reservadissimo.

«Quem sou eu, Rubião? Sou Santo Agostinho. Sei que ha de sorrir, porque você é um ignaro, Rubião; a nossa intimidade permittia-me dizer palavra mais crua, mas faço-lhe esta concessão, que é a ultima. Ignaro!

«Ouça, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto ante-hontem; ouça e cale-se. Tudo coincide nas nossas vidas. O santo e eu passámos uma parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero heresia tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas; ambos furtámos, elle, em pequeno, umas peras de Carthago, eu, já rapaz, um relogio do meu amigo Braz Cubas. Nossas mães eram religiosas e castas. Emfim, elle pensava, como eu, que tudo que existe é bom, e assim o demonstra no cap. XVI, livro VII dasConfissões, com a differença que para elle, o mal é um desvio da vontade, illusão propria de um seculo atrazado, concessão ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e só a primeira affirmação é verdadeira; todas as cousas são boas,omnia bona, e adeus.

«Adeus, ignaro. Não contes a ninguém o que te acabo de confiar, se não queres perder as orelhas. Cala-te, guarda, e agradece a boa fortuna de ter por amigo um grande homem, como eu, embora não me comprehendas. Has de comprehender-me. Logo que tornar a Barbacena, dar-te-hei em termos explicados, simples, adequados ao entendimento de um asno, a verdadeira noção do grande homem. Adeus; lembranças ao meu pobre Quincas Borba. Não esqueças de lhe dar leite; leite e banhos; adeus, adeus... Teu do coração

JOAQUIM BORBA DOS SANTOS.»

Rubião mal sustinha o papel nos dedos. Passados alguns segundos, advertiu que podia ser um gracejo do amigo, e releu a carta; mas a segunda leitura confirmou a primeira impressão. Não havia duvida; estava doudo. Pobre Quincas Borba! Assim, as exquisitices, a frequente alteração de humor, os impetos sem motivo, as ternuras sem proporção, não eram mais que prenuncios da ruina total do cerebro. Morria antes de morrer. Tão bom! Tão alegre! Tinha impertinencias, é verdade; mas a doença explicava-as. Rubião enxugou os olhos, humidos de commoção. Depois, veiu a lembrança do possivel legado, e ainda mais o affligiu, por lhe mostrar que bom amigo ia perder.

Quiz ainda uma vez ler a carta, agora devagar, analysando as palavras, desconjuntando-as, para ver bem o sentido e descobrir se realmente era uma troça de philosopho. Aquelle modo de o descompor brincando, era conhecido; mas, o resto confirmava a suspeita do desastre. Já quasi no fim, parou enfiado. Dar-se-hia que, provada a alienação mental do testador, nullo ficaria o testamento, e perdidas as deixas? Rubião teve uma vertigem. Estava ainda com a carta aberta nas mãos, quando viu apparecer o doutor, que vinha por noticias do enfermo; o agente do correio dissera-lhe haver chegado uma carta. Era aquella?

—É esta, mas...

—Tem alguma communicação reservada...?

—Justamente, traz uma communicação reservada, reservadissima; negocios pessoaes. Dá licença?

Dizendo isto, Rubião metteu a carta no bolso; o medico sahiu; elle respirou. Escapára ao perigo de publicar tão grave documento, por onde se podia provar o estado mental de Quincas Borba. Minutos depois, arrependeu-se, devia ter entregado a carta, sentiu remorsos, pensou em mandal-a á casa do medico. Chamou por um escravo; quando este accudiu, já elle mudára outra vez de idéa; considerou que era imprudencia; o doente viria em breve,—d'alli a dias,—perguntaria pela carta, arguil-o-hia de indiscreto, de delator... Remorsos faceis, de pouca dura.

—Não quero nada, disse ao escravo. E outra vez pensou no legado. Calculou o algarismo. Menos de dez contos, não. Compraria um pedaço de terra, uma casa, cultivaria isto ou aquillo, ou lavraria ouro. O peor é se era menos, cinco contos... Cinco? Era pouco; mas, emfim, talvez não passasse disso. Cinco que fossem, era um arranjo menor, e antes menor que nada. Cinco contos... Peor seria se o testamento ficasse nullo. Vá, cinco contos!

No começo da semana seguinte, recebendo os jornaes da corte (ainda assignaturas do Quincas Borba) leu Rubião esta noticia em um d'elles:

«Falleceu hontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo supportado a molestia com singular pbilosophia. Era homem de muito saber, e cançava-se em batalhar contra esse pessimismo amarello e enfesado que ainda nos ha de chegar aqui um dia; é a molestia do seculo. A ultima palavra delle foi que a dor era uma illusão, e que Pangloss não era tão tolo como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena.»

«Falleceu hontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo supportado a molestia com singular pbilosophia. Era homem de muito saber, e cançava-se em batalhar contra esse pessimismo amarello e enfesado que ainda nos ha de chegar aqui um dia; é a molestia do seculo. A ultima palavra delle foi que a dor era uma illusão, e que Pangloss não era tão tolo como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena.»

—Acabou de soffrer! suspirou Rubião.

Em seguida, attentando na noticia, viu que fallava de um homem que tinha apreço, consideração, a quem se attribuia uma peleja philosophica. Nenhuma allusão a demencia. Ao contrario, o final dizia que elle delirára a ultima hora, effeito da molestia. Ainda bem! Rubião leu novamente a carta, e a hypothese da troça pareceu outra vez mais verosimil. Concordou que elle tinha graça; com certeza, quiz debical-o; foi a Santo Agostinho, como iria a Santo Ambrosio ou a Santo Hilario, e escreveu uma carta enigmatica, para confundil-o, até voltar e rir-se do logro. Pobre amigo! Estava são,—são e morto. Sim, já não padecia nada. Vendo o cachorro, suspirou:

—Coitado do Quincas Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu ...

Depois, comsigo:

—Agora, que já acabou a obrigação, vou dal-o á comadre Angelica.

A noticia correra a cidade, o vigario, o pharmaceutico da casa, o medico, todos mandaram saber se era verdadeira. O agente do correio, que a lera nas folhas, trouxe em mão propria ao Rubião, uma carta que viera na mala para elle; podia ser do finado, comquanto a lettra do subscripto fosse outra.

—Então afinal o homem espichou a canella? disse elle, emquanto Rubião abria a carta, corria á assignatura e lia:Braz Cubas.Era um simples bilhete:

«O meu pobre amigo Quincas Borba falleceu hontem em minha casa, onde appareceu ha tempos esfrangalhado e sordido: fructos da doença. Antes de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que lhe désse particularmente esta noticia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria, segundo as praxes do foro.»

«O meu pobre amigo Quincas Borba falleceu hontem em minha casa, onde appareceu ha tempos esfrangalhado e sordido: fructos da doença. Antes de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que lhe désse particularmente esta noticia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria, segundo as praxes do foro.»

Os agradecimentos fizeram empallidecer o professor; mas as praxes do foro restituiram-lhe o sangue. Rubião fechou a carta sem dizer nada; o agente fallou de uma cousa e outra, depois sahiu. Rubião ordenou a um escravo que levasse o cachorro de presente á comadre Angelica, dizendo-lhe que, como gostava de bichos, lá ia mais um; que o tratasse bem, porque elle estava acostumado a isso; finalmente que o nome do cachorro era o mesmo que o do dono, agora morto, Quincas Borba.

Quando o testamento foi aberto, Rubião quasi cahiu para traz. Adivinhaes porque. Era nomeado herdeiro universal do testador. Não cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital inteiro, especificados os bens, casas na Côrte, uma em Barbacena, escravos, apolices, acções do Banco do Brazil e de outras instituições, joias, dinheiro amoedado, livros,—tudo finalmente passava ás mãos do Rubião, sem desvios, sem deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas, nem dividas. Uma só condição havia no testamento, a de guardar o herdeiro comsigo o seu pobre cachorro Quincas Borba, nome que lhe deu por motivo da grande affeição que lhe tinha. Exigia do dito Rubião que o tratasse como se fosse a elle proprio testador, nada poupando em seu beneficio, resguardando-o de molestias, de fugas, de roubo ou de morte que lhe quizessem dar por maldade; cuidar finalmente como se cão não fosse, mas pessoa humana. Item, impunha-lhe a condição, quando morresse o cachorro, de lhe dar sepultura decente em terreno proprio, que cobriria de flores e plantas cheirosas; e mais desenterraria os ossos do dito cachorro, quando fosse tempo idoneo, e os recolheria a uma urna de madeira preciosa para deposital-os no lugar mais honrado da casa.

Tal era a clausula. Rubião achou-a natural, posto que só tivesse pensamento para cuidar na herança. Espreitára uma deixa, e sae-lhe do testamento a massa toda dos bens. Não podia acabar de crer; foi preciso que lhe apertassem muito as mãos, com força,—a força dos parabens,—para não suppor que era mentira.

—Sim, senhor, lavre um tento, dizia-lhe o dono da pharmacia que ministrara os remedios ao Quincas Borba.

Herdeiro já era muito; mas universal... Esta palavra inchava as bochechas á herança. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha menos. E quanto seria tudo? ia elle pensando. Casas, apolices, acções, escravos, roupa, louça, alguns quadros, que elle teria na côrte, porque era homem de muito gosto, fallava de cousas de arte com grande saber. E livros? devia ter muitos livros, citava muitos delles. Mas emquanto andaria tudo? Cem contos? Talvez duzentos. Era possível; trezentos mesmo não havia que admirar. Trezentos contos! trezentos! E o Rubião tinha impetos de dansar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem, ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho comprido, para não acabar mais.

Aqui a ideia do cachorro pôde tomar pé no torvelinho de ideias que iam pela cabeça do nosso homem. Rubião achava que a clausula era natural, mas desnecessaria, porque elle e o cão eram dous amigos, e nada mais certo que ficarem juntos, para lembrar o terceiro amigo, o extincto, o autor da felicidade de ambos. Havia, sem duvida, umas particularidades na clausula, uma historia de urna, e não sabia que mais; mas tudo se havia de cumprir, ainda que o céo viesse abaixo... Não, com a ajuda de Deus, emendava elle. Bom cachorro! excellente cachorro!

Rubião não esquecia que muitas vezes tentára enriquecer com emprezas que morreram em flor. Suppoz-se n'aquelle tempo um desgraçado, um caipora, quando a verdade era que «mais vale quem Deus ajuda, do que quem cedo madruga.» Tanto não era impossivel enriquecer, que estava rico.

—Impossivel, o que? exclamou em voz alta. Impossivel é a Deus peccar. Deus não falta a quem promette.

Ia assim, descendo e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa, sem plano, com o sangue aos pulos, e as ideias baralhadas. De repente, surgiu-lhe este grave problema:—se iria viver no Rio de Janeiro, ou se ficaria em Barbacena. Sentia cocegas de ficar, de brilhar onde escurecia, de quebrar a castanha na bocca aos que antes faziam pouco caso delle, e principalmente aos que se riram da amizade do Quincas Borba. Mas logo depois, vinha a imagem do Rio de Janeiro, que elle conhecia, com os seus feitiços, movimento, theatros em toda a parte, moças bonitas, «vestidas á franceza.» Resolveu que era melhor, podia subir muitas e muitas vezes á cidade natal.

—Quincas Borba! Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou entrando em casa.

Nada de cachorro. Só então é que elle se lembrou de havel-o mandado dar á comadre Angelica. Correu á casa da comadre, que era distante. De caminho accudiram-lhe todas as ideias feias, algumas extraordinarias. Uma ideia feia, é que o cão tivesse fugido. Outra extraordinaria é que algum inimigo, sabedor da clausula e do presente, fosse ter com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a herança... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois começou a vêr mais claro.

—Não conheço negocios de justiça, pensava elle, mas parece que não tenho nada com isso. A clausula suppõe o cão vivo ou em casa; mas se elle fugir ou morrer, não se ha de inventar um cão; logo, a intenção principal... Mas são capazes de fazer chicana os meus inimigos. Não cumprida a clausula...

Aqui a testa e as costas das mãos do nosso amigo ficaram em agua. Outra nuvem pelos olhos. E o coração batia-lhe rapido, rapido. A clausula começava a parecer-lhe extravagante. Rubião pegava-se com os santos, promettia missas, dez missas... Mas lá estava a casa da comadre. Rubião picou o passo; viu alguém; era ella? era, era ella, encostada á porta e rindo.

—Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com os braços.

—Sinhá comadre, o cachorro? perguntou Rubião com indifferença, mas pallido.

—Entre, e abanque-se, respondeu ella. Que cachorro?

—Que cachorro? tornou Rubião cada vez mais pallido. O que lhe mandei. Pois não se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar aqui alguns dias, descançando, a ver se... em summa, um animal de muita estimação. Não é meu. Veiu para... Mas não se lembra?

—Ah! não me falle nesse bicho! respondeu ella precipitando as palavras.

Era pequena, tremia por qualquer cousa, e quando se apaixonava, engrossavam-lhe as veias do pescoço. Repetiu que lhe não fallasse do bicho.

—Mas que lhe fez elle, sinhá comadre?

—Que me fez? Que é que me faria o pobre animal? Não come nada, não bebe, chora que parece gente, e anda só com o olho para fóra, a ver se foge.

Rubião respirou. Ella continuou a dizer os enfadamentos do cachorro; elle ancioso, queria vel-o.

—Está lá no fundo, no cercado grande; está sósinho para que os outros não bulam com elle. Mas o compadre vem buscal-o? Não foi isso o que disseram. Pareceu-me ouvir que era para mim, que era dado.

—Daria cinco ou seis, se pudesse, respondeu Rubião. Este não posso; sou apenas depositario. Mas deixe estar, prometto-lhe um filho. Creia que o recado veiu torto.

Rubião ia andando; a comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. Lá estava o cão, dentro do cercado, deitado a distancia de um alguidar de comida. Cães, gatos, saltavam de todos os lados, cá fora; a um lado havia um gallinheiro, mais longe porcos; mais longe ainda, uma vacca deitada, somnolenta, com duas gallinhas ao pé, que lhe picavam a barriga, arrancando carrapato.

—Olhe o meu pavão! dizia a commadre.

Mas Rubião tinha os olhos no Quincas Borba, que farejava impaciente, e que se atirou para elle, logo que um moleque abriu a porta do cercado. Foi uma scena de delirio; o cachorro pagava as caricias do Rubião, latindo, pulando, beijando-lhe as mãos.

—Meu Deus! que amizade!

—Não imagina, sinhá comadre. Adeus, prometto-lhe um filho.

Rubião e o cachorro, entrando em casa, sentiram, ouviram a pessoa e as vozes do finado amigo. Em quanto o cachorro farejava por toda a parte, Rubião foi sentar-se na cadeira onde estivera, quando Quincas Borba referiu a morte da avó com explicações scientificas. A memoria delle recompoz, ainda que de embrulho e esgarçadamente, os argumentos do philosopho. Pela primeira vez, attentou bem na allegoria das tribus famintas e comprehendeu a conclusão: «Ao vencedor, as batatas!» Ouviu distinctamente a voz roufenha do finado expor a situação das tribus, a luta e a razão da luta, o exterminio de uma e a victoria da outra, e murmurou baixinho:

—Ao vencedor, as batatas!

Tão simples! tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e o rodaque cirzido, e notou que até ha pouco fora, por assim dizer, um exterminado, uma bolha extincta; mas que ora não, era um vencedor. Não havia duvida; as batatas fizeram-se para a tribu que elimina a outra, afim de transpor a montanha e ir ás batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacavel, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:

—Ao vencedor, as batatas!

Gostava da formula, achava-a engenhosa, compendiosa e eloquente, além de verdadeira e profunda. Ideou as batatas era suas varias fórmas, classificou-as pelo sabor, pelo aspecto, pelo poder nutritivo fartou-se antemão do banquete da vida. Era tempo de acabar com as raizes pobres e seccas, que apenas enganavam o estomago, triste comida de longos annos; agora o farto, o solido, o perpetuo, comer até morrer, e morrer em colchas de seda, que é melhor que trapos. E voltava á affirmação de ser duro e implacavel, e á formula da allegoria. Chegou a compor de cabeça um sinete para seu uso, com este lemma: AO VENCEDOR AS BATATAS.

Esqueceu o projecto do sinete; mas a formula viveu no espirito de Rubião, por alguns dias:—Ao vencedor as batatas Não a comprehenderia antes do testamento; ao contrario, vimos que a achou obscura e sem explicação. Tão certo é que a paizagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.

Não esqueça dizer que Rubião tomou a si mandar dizer uma missa por alma do finado, embora soubesse ou presentisse que elle não era catholico. Quincas Borba não dizia pulhices a respeito de padres, nem desconceituava doutrinas catholicas; mas, não fallava nem da egreja nem dos seus servos. Por outro lado, a veneração de Humanitas fazia desconfiar ao herdeiro que essa era a religião do testador. Não obstante, mandou dizer a missa, considerando que não era acto da vontade do morto, mas prece de vivos; considerou mais que seria um escandalo na cidade, se elle, nomeado herdeiro pelo defunto, deixasse de dar ao seu protector os suffragios que não se negam aos mais miseraveis e avaros deste mundo.

Se algumas pessoas deixaram de comparecer, para não assistir á gloria do Rubião, muitas outras foram,—e não da ralé,—as quaes viram a compuncção verdadeira do antigo mestre de meninos. Teve lagrimas; o vigario, quando elle lhe foi fallar á sacristia, viu-lhe ainda os olhos vermelhos. Não seriam saudades; mas a gratidão tambem chora.

Regulados os preliminares para a liquidação da herança, Rubião tratou de vir ao Rio de Janeiro, onde se fixaria, logo que tudo estivesse acabado. Havia que fazer em ambas as cidades; mas, as cousas promettiam correr depressa.

Na estação de Vassouras, entraram no trem Sophia e o marido, Christiano de Almeida e Palha. Este era um rapagão de trinta e dous annos; ella ia entre vinte e sete e vinte e oito. Vieram sentar-se nos dous bancos fronteiros ao do Rubião, acommodaram as cestinhas e embrulhos de lembranças que traziam de Vassouras, onde tinham ido passar uma semana; abotoaram o guarda-pó, trocaram algumas palavras, baixo.

Depois que o trem continuou a andar, foi que o Palha reparou na pessoa do Rubião, cujo rosto, entre tanta gente carrancuda ou aborrecida, era o unico placido e satisfeito. Christiano foi o primeiro que travou conversa, dizendo-lhe que as viagens de estrada de ferro cançavam muito, ao que Rubião respondeu que sim; para quem estava acostumado a costa de burro, accrescentou, a estrada de ferro cançava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso.

—De certo, concordou o Palha. Progresso e grande.

—O senhor é lavrador?

—Não, senhor.

—Mora na cidade?

—De Vassouras? Não; viemos aqui passar uma semana. Moro mesmo na Corte. Não teria geito para lavrador, com quanto ache que é uma posição boa e honrada.

Da lavoura passaram ao gado, á escravatura e á politica. Christiano Palha maldisse o governo, que introduzira na falla do throno uma palavra relativa á propriedade servil; mas, com grande espanto seu, Rubião não acudiu á indignação. Era plano deste vender os escravos que o testador lhe deixára, excepto um pagem; se alguma cousa perdesse, o resto da herança cobriria o desfalque. Demais, a falla do throno, que elle tambem lêra, mandava respeitar a propriedade actual. Que lhe importavam escravos futuros, se os não compraria? O pagem ir ser forro, logo que elle entrasse na posse dos bens. Palha desconversou, e passou á politica, ás camaras, á guerra do Paraguay, tudo assumptos geraes, ao que Rubião attendia, mais ou menos. Sophia escutava apenas; movia tão sómente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor.

—Vae ficar na Côrte ou volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim de vinte minutos de conversação.

—Meu desejo é ficar, e fico mesmo, acudiu Rubião; estou cançado da provincia; quero gozar a vida. Póde ser até que vá á Europa, mas não sei ainda.

Os olhos do Palha brilharam instantaneamente.

—Faz muito bem; eu faria o mesmo, se pudesse; por agora, não posso. Provavelmente, já lá foi?

—Nunca fui. É por isso que tive cá umas idéas, ao sahir de Barbacena; ora adeus! é preciso a gente tirar a morrinha do corpo. Não sei ainda quando será; mas hei de...

—Tem razão. Dizem que ha lá muita cousa explendida; não admira, são mais velhos que nós; mas lá chegaremos; e ha cousas em que estamos a par delles, e até acima. A nossa Côrte, não digo que possa competir com Paris ou Londres, mas é bonita, verá...

—Já vi.

—Já?

—Ha muitos annos.

—Ha de achal-a melhor; tem feito progressos rapidos. Depois, quando fôr á Europa...

—A senhora já foi á Europa? interrompeu Rubião, dirigindo-se a Sophia.

—Não, senhor.

—Esqueceu-me apresentar-lhe minha mulher, acudiu Christiano. Rubião inclinou-se respeitosamente; e, voltando-se para o marido, disse-lhe sorrindo:

—Mas não me apresenta a mim? Palha sorriu tambem; entendeu que nenhum delles sabia o nome um do outro, e deu-se pressa em dizer o seu.

—Christiano de Almeida e Palha.

—Pedro Rubião de Alvarenga; mas Rubião é como todos me chamam.

A troca dos nomes pol-os ainda mais a gosto. Sophia não interveiu, porém, na conversa; afrouxou a redea aos olhos, que se deixaram ir ao sabor de si mesmos. Rubião fallava, risonho, e ouvia attento as palavras do Palha, agradecido da amizade com que o tratava um moço que elle nunca tinha visto. Chegou a dizer-lhe que bem podiam ir juntos á Europa.

—Oh! eu não poderei ir nestes primeiros annos, respondeu o Palha.

—Tambem não digo já; eu não irei tão cedo. O desejo que me deu, quando sahi de Barbacena, foi simples desejo, sem prazo; irei, não ha duvida, mas lá para diante, quando Deus quizer.

Palha acudiu, rapido:

—Ah! eu, quando digo que só daqui a annos, accrescento tambem que a vontade de Deus póde ordenar o contrario. Quem sabe se daqui a mezes? A Divina Providencia é que manda o melhor.

O gesto que acompanhou estas palavras era convicto e pio; mas, nem Sophia o viu (olhava para os pés), nem o proprio Rubião escutou as ultimas palavras. O nosso amigo estava morto por dizer a causa que o trazia á capital. Tinha a boca cheia da confidencia, prestes a entornal-a no ouvido do companheiro de viagem,—e só por um resto de escrupulo, já frouxo, é que ainda a retinha. E porque retel-a, se não era crime, e ia ser caso publico?

—Tenho de cuidar primeiro de um inventario, murmurou finalmente,

—O senhor seu pai?

—Não; um amigo. Um grande amigo, que se lembrou de fazer-me seu herdeiro universal.

—Ah!

—Universal. Creia que ha amigos neste mundo; como aquelle, poucos. Aquillo era ouro. E que cabeça! que intelligencia! que instrucção! Viveu doente os ultimos tempos, donde lhe veiu alguma impertinencia, alguns caprichos. Sabe, não? rico e doente, sem familia, tinha naturalmente exigencias... Mas ouro puro, ouro de lei. Aquillo quando estimava, estimava de uma vez. Eramos amigos, e não me disse nada. Vae um dia, quando morreu, abriu-se o testamento, e achei-me com tudo. É verdade. Herdeiro universal! Olhe que não ha uma deixa no testamento para outra pessoa. Tambem não tinha parentes. O unico parente que teria, seria eu, se elle chegasse a casar com uma irmã minha, que morreu, coitada! Fiquei só amigo; mas, elle soube ser amigo, não acha?

—Seguramente, affirmou o Palha.

Já os olhos deste não brilhavam, reflectiam profundamente. Rubião mettera-se por um matto cerrado, onde lhe cantavam todos os passarinhos da fortuna; regalava-se em fallar da herança; confessou que não sabia ainda a somma total, mas podia calcular por longe...

O melhor é não calcular nada, atalhou Christiano. Nunca será menos de cem contos?

—Upa!

—Pois d'ahi para cima, é esperar calado. E, outra cousa...

—Creio que não menos de trezentos...

—Outra cousa. Não repita o seu caso a pessoas extranhas. Agradeço-lhe a confiança que lhe mereci, mas não se exponha ao primeiro encontro. Discrição e caras serviçaes nem sempre andam juntas.

Chegados á estação da Côrte, despediram se quasi familiarmente. Palha offereceu a sua casa em Santa Thereza; o ex-professor ia para a Hospedaria União, e prometteram visitar-se.

No dia seguinte, estava Rubião ancioso por ter ao pé de si o recente amigo da estrada de ferro, e determinou ir a Santa Thereza, á tarde; mas foi o proprio Palha que o procurou logo de manhã. Ia cumprimental-o, ver se estava bem alli, ou se preferia a casa delle, que ficava no alto. Rubião não acceitou a casa, mas acceitou o advogado, um contra-parente do Palha, que este lhe indicou, como um dos primeiros, apezar de muito moço.

—É aproveital-o, em quanto elle não exige que lhe paguem a fama.

Rubião fel-o almoçar, e acompanhou-o ao escriptorio do advogado, apezar dos protestos do cão, que queria ir tambem. Tudo se ajustou.

—Vá jantar logo commigo, em Santa Thereza, disse o Palha ao despedir-se. Não tem que hesitar, lá o espero, concluiu retirando-se.

Rubião tinha vexame, por causa de Sophia; não sabia haver-se com senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera de ser forte e implacavel. Foi jantar. Abençoada resolução! Onde acharia eguaes horas? Sophia era, em casa, muito melhor que no trem de ferro. Lá vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; cá trazia á vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos que eram bonitas, e um principio de braço. Demais, aqui era a dona da casa, fallava mais, desfazia-se em obsequios; Rubião desceu meio tonto.

Jantou lá muitas vezes. Era timido e acanhado. A frequencia attenuou a impressão dos primeiros dias. Mas trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que elle não podia extinguir. Emquanto durou o inventario, e principalmente a denuncia dada por alguem contra o testamento, allegando que o Quincas Borba, por manifesta demencia, não podia testar, o nosso Rubião distrahiu-se; mas a denuncia foi destruida, e o inventario caminhou rapidamente para a conclusão. Palha festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, alem dos tres, o advogado, o procurador e o escrivão. Sophia tinha nesse dia os mais bellos olhos do mundo.

—Parece que ella os compra em alguma fabrica mysteriosa, pensou Rubião, descendo o morro; nunca os vi como hoje.

Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi preciso alfaial-a, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a noticia, acompanhando-o ás lojas e leilões. Ás vezes, como já sabemos, iam os tres; porque ha cousas, dizia graciosamente Sophia, que só uma senhora escolhe bem. Rubião acceitava agradecido, e demorava o mais que podia as compras, consultando sem proposito, inventando necessidades, tudo para ter mais tempo a moça ao pé de si. Esta deixava-se estar, fallando, explicando, demonstrando.

Tudo isso passava agora pela cabeça do Rubião, depois do café, no mesmo logar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito longe. Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e soltal-o. Era a sua obrigação do todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.

—Mas que peccado é este que me persegue? pensava elle andando. Ella é casada, dá-se bem com o marido, o marido é meu amigo, tem-me confiança, como ninguem... Que tentações são estas?

Parava, e as tentações paravam tambem. Elle, um Santo Antão leigo, differençava-se do anachoreta em amar as suggestões do diabo, uma vez que teimassem muito. D'ahi a alternação dos monologos:

—É tão bonita! e parece querer-me tanto! Se aquillo não é gostar, não sei o que seja gostar. Aperta-me a mão com tanto agrado, com tanto calor... Não posso affastar-me; ainda que elles me deixem, eu é que não resisto.

Quincas Borba sentiu-lhe os passos, e começou a latir. Rubião deu-se pressa em soltal-o; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes daquella perseguição.

—Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.

O cão atirou-se fóra. Que alegria! que enthusiasmo! que saltos em volta do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um tabefe, que lhe doe; elle recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas; depois o senhor dá um estalinho com os dedos, e eil-o que volta novamente com a mesma alegria.

—Socega! socega!

Quincas Borba vae atraz delle pelo jardim fóra, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de vista. Aqui fareja, alli pára a coçar uma orelha, acolá cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra cousa, que anda agora de um lado para outro unicamente para fazel-o andar tambem, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando Rubião estaca, elle olha para cima, á espera; naturalmente, cuida delle; é alguma ideia, algum projecto, sairem juntos, ou cousa assim agradavel. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta a memoria das pancadas. Ao contrario, os affagos ficam-lhe impressos e fixos, por mais distrahidos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que o é.

A vida alli não é completamente boa nem completamente má. Ha um moleque que o lava todos os dias em agua fria, usança do diabo, a que elle se não acostuma. Jean, o cosinheiro, gosta do cão, o criado hespanhol não gosta nada. Rubião passa muitas horas fóra de casa, mas não o trata mal, e consente que vá acima, que assista ao almoço e ao jantar, que o acompanhe á sala ou ao gabinete. Brinca ás vezes com elle; fal-o pular. Se chegam visitas de alguma ceremonia, manda-o levar para dentro ou para baixo, e, resistindo elle sempre, o hespanhol toma-o a principio com muita delicadeza, mas vinga-se d'ahi a pouco, arrastando-o por uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhes todas as communicações com a casa:

—Perro del infierno!

Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vae então deitar-se a um canto, e fica alli muito tempo, calado; agita-se um pouco, até que acha posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéas, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se á do amigo actual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras ideias...

Mas já são muitas ideias,—-são ideias demais; em todo caso são ideias de cachorro, poeira de ideias,—menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa, que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre lingua humana!

Afinal adormece. Então as imagens da vida brincam nelle, em sonho, vagas, recentes, farrapo d'aqui remendo d'alli. Quando accorda, esqueceu o mal; tem em si uma expressão, que não digo seja melancolia, para não aggravar o leitor. Diz-se de uma paizagem que é melancolica, mas não se diz egual cousa de um cão. A razão não pode ser outra senão que a melancolia da paizagem está em nós mesmos, emquanto que attribuil-a ao cão é deixal-a fóra de nós. Seja o que fôr, é alguma cousa que não a alegria de ha pouco; mas venha um assobio do cosinheiro, ou um gesto do senhor, e lá vae tudo embora, os olhos brilham, o prazer arregaça-lhe o focinho, e as pernas voam que parecem azas.

Rubião passou o resto da manhã alegremente. Era domingo; dous amigos vieram almoçar com elle, um rapaz de vinte e quatro annos, que roia as primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta e quatro ou quarenta e seis, que ja não tinha que roer.

Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava de ambos, mas differentemente; não era só a edade que o ligava mais ao Freitas, era tambem a indole deste homem. Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma phrase particular, delicada, e sahia de lá com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que os preferia a quaesquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo armazem da rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe alli a historia do homem, a sua boa e má fortuna, mas não entraram em particularidades. Rubião torceu o nariz; era naturalmente algum naufrago, cuja convivencia não lhe traria nenhum prazer pessoal nem consideração publica. Mas o Freitas attenuou logo essa primeira impressão; era vivo, interessante, anecdotico, alegre como um homem que tivesse cincoenta contos de renda. Como Rubião fallasse das bonitas rosas que possuia, elle pediu-lhe licença para ir vel-as: era doudo por flores. Poucos dias depois appareceu lá, disse que ia ver as bellas rosas, eram poucos minutos, não se incommodasse o Rubião, se tinha que fazer. Rubião, ao contrario, gostou de ver que o homem não se esquecêra da conversação, desceu ao jardim onde elle ficara esperando, e foi mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiraveis; examinava-as com tal affinco que era preciso arrancal-o de uma roseira para leval-o a outra. Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas especies que o Rubião não tinha nem conhecia,—apontando e descrevendo, assim e assim, deste tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo pollegar e o index), e depois nomeava as pessoas que possuiam bons exemplares. Mas as do Rubião eram das melhores especies; esta, por exemplo, era rara, e aquella tambem, etc. O jardineiro ouvia-o com espanto. Tudo examinado, disse Rubião:

—Venha tomar alguma cousa. Que hade ser?

Freitas contentou-se com qualquer cousa. Chegando acima, achou a casa muito bem posta. Examinou os bronzes, os quadros, os moveis, olhou para o mar.

—Sim, senhor! disse elle, o senhor vive como um fidalgo.

Rubião sorriu; fidalgo, ainda por comparação, é palavra que se ouve bem. Veiu o creado hespanhol com a bandeija de prata, varios licores, e calices, e foi um bom momento para o Rubião. Offereceu elle mesmo, este ou aquelle licor; recommendou afinal um que lhe deram como superior a tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. O Freitas sorriu incredulo.

—Talvez seja encarecimento, disse elle.

Tomou o primeiro trago, saboreou-o devagar, depois segundo, depois terceiro. No fim, pasmado, confessou que era um primor. Onde é que comprara aquillo? Rubião respondeu que um amigo, dono de um grande armazem de vinhos, o presenteara com uma garrafa; elle, porém, gostou tanto que já encommendára tres duzias. Não tardou que se estreitassem as relações. E o Freitas vae alli almoçar ou jantar muitas vezes,—mais vezes ainda do que quer ou póde,—porque é difficil resistir a um homem tão obsequioso, tão amigo de ver caras amigas.

Rubião perguntou-lhe uma vez:

—Diga-me, Sr. Freitas, se me désse na cabeça ir á Europa, o senhor era capaz de acompanhar-me?

—Não.

—Porque não?

—Porque eu sou amigo livre, e bem podia ser que discordassemos logo no itinerario.

—Pois tenho pena, por que o senhor é alegre.

—Engana-se, senhor; trago esta mascara risonha, mas eu sou triste. Sou um architecto de ruinas. Iria primeiro ás ruinas de Athenas; depois ao theatro, ver oPobre das Ruinas, um drama de lagrymas depois, aos tribunaes de fallencias, onde os homens arruinados...

E Rubião ria-se; gostava daquelles modos expansivos e francos.

Queres o avêsso disso, leitor curioso? Vê este outro convidado para o almoço, Carlos Maria. Se aquelle tem os modos «expansivos e francos»,—no bom sentido laudatorio,—claro é que elle os tem contrarios. Assim, não te custará nada vel-o entrar na sala, lento, frio e superior, ser apresentado ao Freitas, e estender-lhe a mão, olhando para outra parte. Freitas que já o mandou cordialmente ao diabo por causa da demora (é perto do meio dia), corteja-o agora rasgadamente, com grandes alleluias intimas.

Tambem podes vêr por ti mesmo que o nosso Rubião, se gosta mais do Freitas, tem o outro em maior consideração; esperou-o até agora, e esperal-o-ia até amanhã. Carlos Maria é que não tem consideração a nenhum delles. Examinai-o bem; é um galhardo rapaz de olhos grandes e placidos, muito senhor de si, ainda mais senhor dos outros. Olha de cima; não tem o riso jovial, mas escarninho. Agora, ao sentar-se á meza, ao pegar no talher, ao abrir o guardanapo, em tudo se vê que elle está fazendo um insigne favor ao dono da casa,—talvez dous,—o de lhe comer o almoço, e o de lhe não chamar pascacio.

E, máo grado essa disparidade de caracteres, o almoço foi alegre. Freitas devorava, com alguma pausa é certo,—e, confessando a si mesmo que o almoço, se tivesse vindo á hora marcada (onze) talvez não trouxesse o mesmo sabor. Agora orçava pelos primeiros bocados que acodem á fome do naufrago. Ao cabo de uns dez minutos, pôde começar a fallar; e fallou como de costume, cheio de riso, multiplicando-se em gestos e olhares, desfiando um rosario de ditos agudos e anecdotas picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte delles com seriedade, para humilhal-o, a ponto que o Rubião, que realmente achava graça no Freitas, já não ousava rir. Para o fim do almoço, Carlos Maria afrouxou um tanto a gravata do espirito, expandiu-se, referiu algumas aventuras amorosas de outros; Freitas, para lisongeal-o, pediu-lhe uma ou duas delle mesmo. Carlos Maria estourou de riso.

—Que papel quer o senhor que eu faça? disse elle.

Freitas explicou-se; não era uma apologia, eram factos, pedia-lhe factos; não havia inconveniente, nem ninguém era capaz de suppor...

—O senhor dá-se bem com a residencia aqui em Botafogo? interrompeu Carlos Maria dirigindo-se ao dono da caza.

Freitas, interrompido, mordeu os beiços, e, pela segunda vez, mandou o moço ao diabo. Collou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um painel da parede. Rubião respondeu que se dava bem, que a praia era linda.

—A vista é bonita, mas nunca pude tolerar o máo cheiro que ha aqui, em certas occasiões, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou voltando-se para o Freitas.

Freitas desencostou-se, e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razão;—mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era magnifica; fallou sem amúo, nem vexame; fez até o obsequio de chamar a attenção do Carlos Maria para um pedacinho de fructa que lhe ficára na ponta do bigode.

Chegaram ao fim, era pouco mais de uma hora. Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus residuos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da meza, em vesperas de café. De quando em quando dava um olhar á casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante prazer, quando tirava as primeiras fumaças de um dos charutos que elle mandára distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um lenço de cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.

—Quem é que manda isto? perguntou Rubião,

—D. Sophia.

Rubião não conhecia a lettra; era a primeira vez que ella lhe escrevia. Que podia ser? Via-se-lhe a commoção no rosto e nos dedos. Em quanto elle abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinha: eram morangos. Rubião leu tremulo estas linhas:

«Mando-lhe estas fructinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Christiano, fica intimado a vir jantar comnosco, hoje, sem falta. Sua verdadeira amigaSophia».

«Mando-lhe estas fructinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Christiano, fica intimado a vir jantar comnosco, hoje, sem falta. Sua verdadeira amiga

Sophia».

—Que fructas são? perguntou Rubião fechando a carta.

—Morangos.

—Chegaram tarde. Morangos? repetiu elle sem saber o que dizia.

—Não é preciso córar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...

—A quem ama? repetiu Rubião corando deveras. Mas, póde ler a carta, veja...

Ia mostral-a; recuou e metteu-a no bolso. Estava fóra de si, meio confuso, meio alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe que elle não podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E não achava que reprehender; o amor era lei universal: se era alguma senhora casada, louvava-lhe a discrição...

—Mas pelo amor de Deus! interrompeu o amphytrião.

—Viuva? Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrição aqui é ainda um merecimento. O maior peccado, depois do peccado, é a publicação do peccado. Eu, se fosse legislador, propunha que se queimassem todos os homens convencidos de indiscrição nestas materias; e haviam de ir para a fogueira, como os réos da Inquisição, com a differença que, em vez de sambenito, levariam uma capa de pennas de papagaio...

Freitas não podia ter-se com riso, e batia na mesa, á maneira de applauso; Rubião, meio enfiado, acudia que não era casada nem viuva...

—Solteira então? replicou o moço. Um casorio em breve? Vá, que é tempo. Morangos de noivado, continuou pegando alguns entre os dedos. Cheiram a alcova de donzella e a latim de padre.


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