VIIICASAR OU METTER FREIRA
De baldão em baldão, fluctuando n’um mar de incertezas, havendo atravessado a existencia sob o peso de uma predestinação fatal, D. Joanna, aBeltraneja,via-se, finalmente, obrigada a tomar uma resolução definitiva,a escolher um de dois meios, como diz Ruy de Pina,que para ella eram extremos de mortal sentimento.
Por muitas vezes parecera approximar-se do throno; por outras tantas tivera que afastar-se d’elle. Em Castella fôra rainha durante o tempo que vivem as rosas. Nunca lhe deixaram ter coração para amar, serlivre como a mais obscura camponeza de qualquer dos dois reinos que a sua coroa ephemera poderia ter abrangido. E todavia fôra esposa promettida de muitos noivos, nenhum certamente escolhido com o assentimento do seu coração. De um d’elles, seu tio AffonsoV, chegara a compartir esperanças e desalentos. Sem embargo, D. Joanna bem sabia pela licção da historia, que a primeira mulher de seu tio arrastara uma vida profundamente alanceada de intimos pesares. Sabia ou devia saber que D. Isabel de Lencastre tivera por thalamo o leito de espinhos onde era obrigada a repoisar ao lado d’aquelle a quem seu pae devêra a morte, e a quem os amigos de seu pae deveram perseguição. Não era por que AffonsoVtivesse uma alma incapaz de comprehender as finas delicadezas do amor. Não. Elle amara sua prima Isabel, e chegara mesmo a esquecer que ella era filha do infeliz infante D. Pedro, a victima de Alfarrubeira. Conta-se que D. Isabel, denunciando os primeiros symptomas da maternidade, sentira estalar a esmeralda do seu annel de donzella, que trazia no dedo. Lastimou-se a desventurosa princeza, certamentepor haver gerado uma creança, cujo avô fora assassinado por tolerancia do pae. Mas AffonsoVacudiu a tranquillizal-a com palavras de carinho, fazendo-lhe ver que o nascimento de um filho valia bem uma pedra preciosa. E foi, sob esta impressão affectuosa, que D. Affonso permittira que o cadaver de seu tio fosse removido para o tumulo de familia, na egreja da Batalha. Affonso não era, pois, um homem incapaz de sentir, e de amar. Mas aBeltranejanão poderia de certo amal-o; iria para elle levada pela força das circumstancias, para não perder um throno que AffonsoVambicionava ganhar.
Esse casamento, a realizar-se, seria talvez um porto de abrigo depois de tantos naufragios; uma taboa de salvação nos mares aparcelados da vida. E, não obstante, partia-se agora essa fragil taboa que era toda a esperança da pobreBeltraneja. A politica, o espectro que tão cruelmente a perseguia, inclinava-se-lhe agora ao ouvido para dizer-lhe, como Hamlet a Ophelia: «Entra n’um convento; faze-te freira, e depressa...»
Mas aBeltranejahavia sido rainha aindaque por pouco tempo, fôra rainha sem reino e sem throno, não podia comtudo esquecer-se facilmente de que o fôra: uma esperança, quando é violentamente arrancada, traz sempre comsigo, pegado ás raizes, um pedaço do coração. Porisso, a pobre princeza chorou ao despir os brocados e sedas que até ahi envergara, ao ver cahir a seus pés os cabellos por onde outr’ora as perolas serpejaram em espiras phantasiosas. O seu coração era moço de mais para se resignar, abatido, quando no convento de Santa Clara, de Santarem, o amortalharam no habito monastico.
D. Joanna chorava, choravam com ella os seus criados e familiares.
No convento de Santaremainda hoje, diz frei Manuel da Esperança,se vê uma casa, que foi sua, onde se rezam matinas dos dias menos solennes, a qual por este respeitoé chamadao corinho.[55]
O principe D. João, endurecido pelos calculos ambiciosos da politica, olhava mais para o futuro do que para as tranças daBeltraneja, que cahiam despedaçadas no chão. Era que, segundo o tratado feito com Castella, seu filho devia desposar a filha mais velha de Fernando e Isabel. Assim, poderia chegar talvez ao mesmo ideal, a unificação de duas coroas, por caminhos mais suaves.
«O principe, que de se cumprirem as capitulações, diz Duarte Nunes, tinha seus particulares interesses, e o casamento para seu filho,e porventura a successão dos reinos de Castella, como depois pudera succeder, se o juizo divino o não atalhara...»[56]
Que importava que fosse preciso, para realizar essedesideratum, esmagar o coração de uma pobre mulher?
AffonsoV, envergonhado de si proprio, deixou inteira liberdade de acção ao filho.Pungia-o a consciencia dos seus erros. Sentia-se prostrado, de mais no mundo... e talvez no reino. O seu tempo passara; o pobre rei era o cadaver de si mesmo, apenas amortalhado nos trophéos conquistados em Africa, e manchados em França.
No principio do anno seguinte, de 1480, a peste, essa cruel e duradoira peste que por tantos annos devia assolar Portugal, principiou a brandir o seu gladio desolador. D. Joanna recebeu ordem de retirar-se do convento de Santa Clara, de Santarem, para o de Evora, por fugir ao morticinio, e, todavia, talvez que ella houvesse preferido ser uma das victimas do terrivel flagello, que parecia mais apiedado da sua triste sina do que o coração do principe D. João, seu primo.
Elle, porem, queria poupar-lhe a vida, para não ver partir-se-lhe nas mãos um poderoso instrumento de ambição politica. Se Castella procurasse algum dia illudir as estipulações do tratado, D. Joanna serviria como ameaça, a questão dosseus direitosrenasceria das proprias cinzas... Era, pois, preciso que aBeltranejavivesse. Porisso, invadida Evora pela peste, levaram D. Joannapara o Vimieiro, e do Vimieiro para Santa Clara, de Coimbra.
Graças a um documento por nós encontrado na Torre do Tombo, onde aliás fizemos muitas outras investigações infructiferamente, conhecemos o teor de negociações entaboladas entre Portugal e Castella para retirar de Evora, quando a peste alli entrou, D. Joanna, já então officialmente appellidada aExcellente Senhora.
Esse documento (existente na cella M, ms. 1163, fl. 518) é uma carta do principe D. João para Rodrigo Affonso, embaixador de Portugal em Castella, escripta de Beja.
Eis o seu conteúdo:
«Rodrigo Affonço Amigo, nós o Princepe vos inviamos muito saudar: nos soubemos hora per o Doutor Mestre Rodriguo como foi dito a hum frade em confição que nesta villa fallecerão hora dous moços deste mal que anda, e assim houvemos recado do Conde de Abrantes ha dous dias como em Evora fallecerão hora duas outras pessoas desta morte em huma casa a qual logo foi cerrada, e taypada a rua, e que estavão em grande sospeita, e temor de o mal ser mais, por o qual os da Cidade sefasião prestes para se sahir della se mais alguma couza acontecesse pedindo nos que lhe mandassemos diser a maneira que terião com a muy Excellente Senhora minha prima acerqua de sua estada alli ou partida para outra parte sobre o que acordamos de vos logo escrever e vos faser saber como nosso fundamento he se a couza mais for antes de vermos vosso recado se com a dita Senhora nom podermos acabar que se venha aqui a esta Villa sendo seguro de a poremos em algum lugar desta Comarqua, acerca donde nós estivermos ataa veremos vosso recado do que lá acabais neste feito, per que se aos Reys aprouver que se a dita Senhora esté fora dos sinco Mosteiros na cappitulação limitados trabalharemos como esté em algum luguar desta Comarqua porque nella nom ha mais luguares que tenhão Mosteiros de Freiras tirando Evora e esta Villa, que Estremoz e Portalegre, e poderia ser segundo este mal anda espalhado muito neste Reyno que nestes tambem morrerião como já agora morrem em Souzel que he antre ambos como sabeis e tam acerqua delles, compre que saibamos se em tal caso lhes prazeriaá dita Senhora estar em algum outro lugar desta Comarqua posto que Mosteiro de Freiras nom tenha, estando com freiras e encerrada em forma de Relligião e com sua guarda assim como a deve ter estando em cada hum dos cinco Mosteiros porque nom prazendo aos Reys de dar seu consentimento tal que proveja a dita Senhora minha prima poder estar nesta Comarqua e Luguares della segundo vay aqui apontado sem nosso pejo com relevamento do passado segundo forma da instrucção que levastes será necessario que se vá a Coimbra como comvosco fallamos e para isto cumprir que muy trigosamente hajais despacho, e nolo invieis logo a mais andar, ou se já fordes despachado nolo traguais.»
Havia-se completado um anno desde que D. Joanna vestira o habito; restava-lhe professar ou entrar em terçaria.
Ella ou alguem por ella optou pelo convento. De Castella vieram embaixadores assistir á profissão, para assegurar-se d’esta parte do tratado, diz um escriptor hespanhol, isto é, para levarem a Fernando e Isabel a certeza de que as pretensões de D. Joanna á côrte de Castella ficavam paratodo o sempre encarceradas dentro das grades de um mosteiro, e amortalhadas no burel de uma pobre freira, cujos laços mundanos parecia deveriam, desde esse momento, ficar partidos de vez. Não aconteceu inteiramente assim, como veremos.
É certo ter D. Joanna dicto aos embaixadores castelhanos quesin ninguna premia, salvo de su propria voluntad queria vivir en religion e facer profesion e fenescer en ella. Seria, porem, completamente essa a sincera expressão da sua alma? Não por certo. Essas palavras são transparentes, revelam bem a altivez da mulher ferida no seu orgulho: ha n’ellas um mixto de fel e de lagrimas. Ao pronuncial-as, o coração daBeltranejadevia despedaçar-se. Mais do que nunca se denuncia então o justo desespero com que ella se revoltava contra os repetidos sacrificios que exigiam da sua fraqueza.
O principe D. João, de Portugal, sorria porventura, por entre dentes, da credulidade dos embaixadores hespanhoes, que julgavam ser muralha inexpugnavel a parede de um mosteiro, e prisões inquebrantaveis as grades d’elle.
Nas conversações particulares, que mantinha com os seus intimos, D. Joanna deixava-se enternecer facilmente pelas lagrimas d’elles: a mulher, revoltada contra o sacrificio, apparecia então. Ruy de Pina não o dissimula quando noticía que foi precisa a intervenção do principe D. João para que a profissão daBeltranejase realizasse, como realizou, a 15 de novembro de 1480, em Santa Clara, de Coimbra.
Consummara-se o sacrificio. D. Joanna recebeu o véo preto das mãos de frei Diogo de Abrantes.
Em muitos olhos brilhava compassivo pranto; só D. João não chorava.[57]
AffonsoV, doente de melancholia, não assistira; não tivera forças para tanto. Não tivera energia para resistir ás imposições de seu filho; mas faltara-lhe tambem a coragem para assistir á profissão de sua sobrinha, que elle proprio victimara.
Logo em Coimbra, diz Damião de GoesnaChronica do principe D. João, esteve para morrerde pura melancholia. Escapara por então, mas fizera-se intratavel, misanthropo. Queria recolher-se ao mosteiro do Varatojo, e professar. Assim acabaria por um duplo voto religioso este triste drama do seu projectado casamento com aBeltraneja. Mas, antes de realizar um tal plano, precisava avistar-se com o filho, que estava em Beja: deviam tratar n’essa conferencia da convocação de côrtes geraes, para que ellas reconhecessem D. João como rei. AffonsoVpartiu, pois, de Coimbra para Beja no verão de 1481. Na entrevista, ficou resolvido que as côrtes se convocassem para Estremoz, porque Lisboa e Evora estavam assoladas pela peste. Tratado este negocio, D. AffonsoVpartiu, no principio de agosto, de Beja para Cintra onde, solitario como desejaria viver, devia esperar pela reunião das côrtes.
Em Cintra, o rei foi acommettido de febres. Pouco era preciso para o matar no estado de abatimento e desgosto em que se encontrava. O principe acudiu logo a Cintra, mas os medicos desenganaram-n’o: o rei morria. D. Affonso acceitou a mortecomo uma redempção: fez ao filho algumas recommendações, deu-lhe conselhos. Pediu-lhe que protegesse a orfandade daBeltraneja. E morreu, a 8 d’esse mez, com quarenta e nove annos de edade.
Acabara-se finalmente a tortura que lhe rasgara o coração a lentas punhaladas.
Poucos dias depois do fallecimento de AffonsoV, nascia o filho que D. Anna de Mendonça tivera do principe herdeiro D. João. D. Anna de Mendonça, mulher muito fidalga e moça formosa de mui nobre geração, diz Garcia de Rezende, servira como dama de honor daBeltraneja, andara na sua casa. Ao passo que D. Joanna, casada e virgem, via fechada a dobra do seu leito de noiva, jámais occupado, uma das suas damas de companhia rendia-se ás seducções do principe D. João, menos disposto a guardar para si a abstinencia de prazeres que exigia de sua prima. Era justamente na roda da noiva mallograda de seu pae que o principe D. João ia procurar e encontrar uma amante, com a qual corria a emboscar-se nas moitas floridas de Cernache do Bom Jardim. Singulares ironias tem ás vezes o destino!
D. JoãoII, subindo ao throno, travou desde logo uma porfiada lucta com a nobreza. Alexandre Herculano sustenta que a indole das instituições da velha monarchia ovetense-leoneza, e das que d’ella procederam, não só foi extranha, mas até repugnante á indole do feudalismo. Temos o maximo respeito pela memoria do illustre historiador, mas n’este ponto não concordamos inteiramente com a sua opinião.
De passagem relembraremos, por fazer ao nosso proposito, que em Portugal, os reis transmittiram por meio de concessões os direitos de soberania aos senhores feudaes, creando, para assim dizer, outras tantas monarchias quantos eram os donatarios, que, por esse facto, se chamaram senhores de baraço e cutello, senhores de pendão e caldeira. Como prova do enfraquecimento real entre nós, por effeito do poder feudal, bastará citar um unico facto. Reinando SanchoII, Estêvam Pires de Molny possuia um paço no logar de Carcavellos, na terra da Feira. Como o resto do logar não fosse coitado, o mordomo do rei entrou n’elle para penhorar um lavrador. Pois o senhor do paço arrastou o mordomo pela freguezia,dizendo-lhe: «Cá por aqui é honra!» e depois enforcou-o.[58]
Os senhores feudaes davam foraes e leis aos aldeões e villãos (villani), taxavam a quantidade de fructos e a qualidade de serviços que lhes deviam prestar, nomeavam juizes e tribunaes, e arbitravam penas; d’aqui nasceu a escravidão da terra (servitus glebæ). Algumas vezes, os donatarios concediam terras em feudos aos plebeus ou peões: a estes beneficios chamava-sefeudos dos senhores ou subfeudos.[59]
Em virtude d’este regimen, e como se deprehende do que fica exposto, temos nos primeiros tempos da monarchia as seguintes divisões sociaes por classes: senhores feudaes ou fidalgos, plebeus ou peões, vassallos ou servos. Desde o começo da realeza em Portugal, a acção do feudalismo, e as luctas a que dava causa, accentuam-se de um modo nitido, segundo cremos.Vemos os irmãos de AffonsoIInegar-lhe vassallagem, por um acto de rebellião feudal. D. SanchoIIdeposto pelo clero e pela nobreza. Por sua parte, os reis reagiam, procurando cercear as garantias dos senhores feudaes. AffonsoIIsupprime os tributos docomestivele dasaliavas; AffonsoIIIcria osjuizes de fóra, representantes do poder real para inspeccionarem a administração da justiça nos territorios feudaes; D. Diniz procurou oppor o seu manifesto espirito de justiça á acção da prepotencia feudal; AffonsoIVdefiniu a jurisdicção dos donatarios no edito geral; D. Fernando tratou de cohibir as malfeitorias que os fidalgos commettessem com armas; D. JoãoIe D. Duarte recorrem principalmente álei mental, como a um poderoso meio de combate. AffonsoV, porem, como já tivemos occasião de ver, augmentou em larga escala o poderio dos nobres, pelo abuso de concessões. Mas seu filho, D. JoãoII, estava talhado para oppor uma barreira gigante á onda crescente e abusiva do regimen feudal.
Coisa notavel! Pessoalmente, D. JoãoIIdevia odiar LuizXIpela maneira doble eaviltante por que recebera em França seu pae; politicamente, tomava-o como modelo n’essa lucta terrivel em que se achava empenhado, salvas as differenças de caracter. JoãoIIimitou LuizXInão só nos rasgos mais principaes, mas até na dissimulação e crueldade; era comtudo mais paciente, e porisso mesmo não arriscava os passos senão depois de pisar terreno firme.[60]
Os senhores feudaes, que em França acabavam de ajudar CarlosVIIa expulsar os inglezes, não eram por certo menos poderosos do que aquelles que em Portugal haviam conseguido supplantar o infante D. Pedro. O duque de Bragança era relativamente tão importante como o duque de Borgonha. Esta identidade de circumstancias levou fatalmente JoãoIIa copiar, melhorando-o, o exemplo de LuizXI.
Assim como o rei de França inicia o seu reinado proclamando a lucta com a nobreza,[61]o de Portugal trata, depois de reunidas as primeiras côrtes em Evora, de lançar a luva aos seus emulos, cuidando deregularizar a fórma das menagens. Era o cartel para o repto; o aviso para a lucta.
«Antes de se fazerem estas menagens, diz Garcia de Rezende,[62]el-rei com o duque de Bragança e outros senhores, e pessoas do conselho, praticou umas palavras que nas menagens haviam de dizer muitas vezes,em que houve muitas porfias, desgostos, descontentamentos, por lhe parecer aspera fórma a que el-rei queria...»
Mas, não obstante a opposição do duque de Bragança, JoãoIIfez vingar o novo formulario de menagens.
Como claramente se póde ver do teor das menagens, a sua redacção bastava para revelar as intenções do rei, e o duque de Bragança, querendo protestar, mostra, como toda a outra nobreza, não conhecer D. JoãoII: julga-o fraco, parece-lhe que se acobardará perante a resistencia.
O duque precisou dos titulos das suas doações para documentar o protesto, e mandou buscal-os a Villa Viçosa, pelo veador da sua fazenda, João Affonso, dando-lhe a chave de um cofre que continha todos os papeis de segredo.
João Affonso declinou esta grave commissão n’um filho seu, em quem muito confiava. Na occasião em que o filho do veador andava procurando no cofre, appareceu por acaso na sala Lopo de Figueiredo, escrivão da fazenda do duque, o qual, a pedido do rapaz, o ajudou a procurar os papeis. Depararam-se-lhe, porem, entre elles algumas cartas e instrucções de Castella, e para os reis de Castella, com emendas e correcções feitas pela lettra do duque. Lopo de Figueiredo poude escondel-os, mettendo-os na manga do gibão. Em casa leu-os vagarosamente, e reconheceu que se não havia enganado, pelo que immediatamente correu a Evora, a mostral-os ao rei, que d’elles tomou conhecimento, dando-os a copiar a Antão de Faria, e mandando-os pôr no cofre, onde estavam, por Lopo de Figueiredo.
Eis aqui como o acaso, ou omysterio de Deus, como diz Garcia de Rezende, poz nas mãos de D. JoãoIIo fio de uma intriga, que era como que o vendaval que devia atiçar o fogo da lucta travada entre elle e a nobreza de Portugal.
D. JoãoIItinha um duplo motivo para,segundo o seu ponto de vista, combater o duque de Bragança: em primeiro logar, atacava um dos maiores e mais altivos potentados que faziam sombra á coroa real; em segundo logar, desde que o duque se oppuzera a que AffonsoVpassasse a Castella, via n’elle um parcial da causa, agora triumphante, de Fernando e Isabel. E depois lembraram a D. JoãoIIas palavras duras do duque quando, depois da batalha de Touro, se não sabia do destino de AffonsoV.
As cartas que o acaso trouxera ás mãos do rei, vieram fortalecel-o na antiga suspeita. Desde esse momento, D. JoãoIInão pensou senão em liquidar estas contas antigas. Espirito forte, caminhou resolutamente para o seu ideal de vingança, umas vezes mostrando-se severo e desconfiado com o duque de Bragança, outras vezes fingindo acreditar nos seus protestos de obediencia e fidelidade.
Mas, intimamente, D. JoãoIIjulgava indispensavel prevenir-se com uma arma poderosa para contraminar a connivencia do duque de Bragança com Castella: essa arma era sua prima, D. Joanna, aBeltranejaou, como agora lhe chamavam os castelhanos,la Monja.
Pois bem. Sem hesitar um momento, D. João ordenou que abrissem a sua prima as portas do mosteiro de Coimbra, e que ella vivesse no seculo com a ostentação que ao seu nascimento era devida.
E assim foi que, freira professa havia dois annos, D. Joanna, joguete malfadado das ambições dos outros, voltou de novo ao mundo onde a felicidade parecia apostada em mostrar-se-lhe tão esquiva como outr’ora, quando ainda o véo preto lhe não cingia a bella cabeça juvenil.
Mas o infante D. Affonso, filho unico de D. JoãoII, estava nas terçarias de Moura, como a princeza D. Isabel, filha dos reis catholicos. Era preciso arrancal-o d’esse captiveiro, onde a sua vida poderia correr perigo, tanto maior por certo quanta fosse a animosidade manifestada por D. JoãoIIcontra o duque de Bragança, que tinha, como sabemos, intimas relações com a côrte de Castella.
A fim de salvar a vida de seu filho, tratou D. JoãoIIde annullar as terçarias, e para esse fim enviou a Fernando e Isabeluma embaixada composta do barão de Alvito e de Ruy de Pina, o chronista, os quaes começaram por pedir que o deposito dos principes fosse transferido para um logar menos doentio do que a villa de Moura.
Os reis de Castella, prevenidos pelo duque de Bragança das intenções de D. JoãoII, fizeram mallograr o exito d’esta primeira embaixada.
Nova embaixada mandou D. JoãoIIa Castella, d’esta vez para que as terçarias se mudassemou desfizessem, dizendo mais o embaixador que, se não parecia conveniente o casamento do principe portuguez com a infanta D. Isabel, pela differença das edades, se effectuasse com a infanta D. Joanna e que, a ser assim, fossem, em compensação, cedidas a Portugal as ilhas Canarias, que el-rei sempre desejou para maior segurança da Guiné.
A desconfiança dos reis de Castella, a respeito do de Portugal, tinha a esse tempo subido de ponto, porisso que em Castella haviam sido presos alguns portuguezes, que se diziam encarregados de negociar, por ordem de D. JoãoII, o casamento daExcellente Senhoracom o reiPhebo, de Navarra. Fernando e Isabel queriam que os suppostos emissarios do rei de Portugal fossem por elle punidos, porque só assim se convenceriam da boa fé de D. JoãoII.
Esta exigencia dos reis de Castella não foi desde logo attendida pelo de Portugal.
Portanto, um problema inquietador principiou a preoccupar o espirito de D. JoãoIIe d’aquelles que lhe eram dedicados: qual o melhor meio de conseguir a annullação das terçarias de Moura?
Uma das pessoas que deram o seu voto n’esta importante questão foi D. Philippa de Lencastre, tia de D. JoãoII, irmã de sua mãe, e religiosa de Odivellas.
Digamos d’esta senhora duas palavras.
No testamento da rainha D. Isabel é D. Philippa, sua irmã, a principal contemplada, pelo grande amor que lhe tinha, e porque a situação da familia do infante D. Pedro, como do mesmo testamento se vê, era precaria. Mas essa disposição testamentaria de D. Isabel iria, a realizar-se, prejudicar a legitima devida a seus dois filhos. Não obstante esta causa de nullidade do testamento, D. AffonsoVestabeleceu a sua cunhadauma tença de duzentos e vinte mil réis; e recommendou-a nas disposições testamentarias que elle proprio fizera em Portalegre antes de partir para Castella.[63]
Frei Francisco Brandão diz que, não obstante a tença, D. Philippa passara a vidacom não grande cabedal, e que D. AffonsoVbem puderater remedeado a prima que recommenda. Como quer que seja, seu sobrinho D. JoãoIIdoou-lhe uma parte da renda da Villa de Alcolea de Sinca, no principado da Catalunha.
Depois da morte da rainha D. Isabel, D. Philippa esteve parte do tempo em Coimbra, em casa de sua mãe, a viuva do infante D. Pedro; mais tarde veiu para Lisboa onde acompanhou a educação de sua sobrinha D. Joanna.
Havendo-se recolhido ao mosteiro de Odivellas, sem que aliás professasse, foi de romaria a S. Tiago de Galliza, e morreu em Portugal no anno de 1497. Jaz na sacristia de Odivellas.
Como iamos dizendo, esta senhora dera voto na questão das terçarias; talvez lhefosse solicitado por sua prima D. Beatriz. Frei Francisco Brandão encontrou o documento, que nos transmittiu o voto de D. Philippa, na torre do Tombo, entre os papeis de Fernão de Pina. Publicou-o com o seguinte titulo:Conselho e voto da senhora Dona Philippa filha do infante Dom Pedro sobre as terçarias, e guerras de Castella. Com uma breve noticia d’esta princeza, dirigido a el-rei Dom João IV, Nosso Senhor.Lisboa, 1643.[64]
D. Philippa lamenta que o principe D. Affonso esteja nas terçarias com prejuizo para a sua educação. Não aconselha que o tirem para fazer guerra a Castella, mas não quer isso dizer que deixe de reconhecer as vantagens de Portugal em qualquer lucta armada com Castella, tiradas da historia do passado. Entende que um portuguez ha de valer sempre vinte castelhanos com a ajuda de Deus. Recorda que se AffonsoVfoi a Touro, varios castelhanos lh’o pediram. E remata dizendo: «E assi concludo: suapaz deve ser desejada com grande razom, mas sua guerra que Deos nos goarde, nem deve ser mui temida, quando sem causa procurarem metella em obra, pois Deos, justiça, verdade, razoens humanaes som em nossa ajuda, e a elles contrarios.»
Emquanto variavam os pareceres a respeito das terçarias, D. JoãoIIenviava terceira embaixada a Castella, encarregada de dar satisfacções e desculpas aos soberanos d’aquelle paiz, que trataram de mostrar-se satisfeitos com ellas, porque o seu maior desejo era tambem verem fóra das terçarias a infanta D. Isabel, receosos de que a sua vida pudesse ser penhor de alguma nova combinação politica. Ficou então assente que as terçarias se desfariam, e que o principe D. Affonso casaria não com a infanta D. Isabel, mas com a infanta D. Joanna, e que se lhe daria maior dote por estar esta infanta mais afastada na linha de successão de Castella. Outrosim ficou combinado que os reis de Castella mandariam na proxima Paschoa embaixadores a Portugal para se tratar definitivamente da resolução d’estas combinações.
A familia real estava em Almeirim n’essaoccasião. A rainha teve ahi um mobito, e por este motivo a foram visitar muitos fidalgos, entre os quaes o duque de Vizeu, seu irmão, e o de Bragança, a quem D. JoãoIIrecebeu de boa sombra. Não obstante, um dia chamou-o de parte á capella do paço, e, na presença do bispo de Lamego, lhe disse que estava inteirado de que elle tinha ligações suspeitas com Castella, mas que se essas combinações eram filhas de um proposito errado, estava disposto a perdoal-as e esquecel-as. Lembrou-lhe as obrigações que o duque devia á memoria de D. AffonsoV, de quem havia recebido largas honras, e patrimonio. E ainda que se julgasse aggravado com o degredo do marquez, e a entrada dos corregedores em suas terras, devia ser o primeiro a querer dar um exemplo de obediencia e de respeito ao rei.
O duque de Bragança imaginou que D. JoãoIIse deixaria embalar pelas suas palavras; que o supporia um inimigo que retirava, que desalentava na lucta; e, cheio de hypocrisia, respondeu affirmando os seus sentimentos de estima e gratidão ao chefe do Estado.
Enganava-se.
O certo é que a nobreza julgou haver submettido aquelle forte inimigo das suas regalias. Folgou com isso. Sahindo de Almeirim, os duques de Vizeu, de Bragança e seus irmãos juntaram-se no Vimieiro, folgando com o que se tinha passado, e entre si resolveram não deixar entrar os corregedores nas suas terras. Sobre o mesmo assumpto, o marquez de Montemór, o conde de Faro e D. Alvaro de Bragança tiveram entrevistas secretas no mosteiro de Santa Maria do Espinheiro, em Evora, tomando-se notavel o marquez pela exaltação, pelo odio com que sempre falava do rei.
D. JoãoIIandava devidamente informado d’estas conspirações, mas, astuto e reservado, pareceu-lhe melhor esperar. Porisso, deu ordem para que se não fizesse a correição ás terras dos nobres, e até chegou a despachar favoravelmente algumas pretensões do marquez, e do conde de Faro.
D. JoãoIIpreparava o laço, e esperava a presa.
Entretanto, o duque de Bragança, em intelligencia com os reis de Castella, continuava a conspirar. Um mensageiro castelhanoveio avistar-se secretamente a Portugal com o duque, combinando ambos n’uma capitulação, da qual o marquez de Montemór teve conhecimento. A capitulação dividia-se em dois pontos principaes: 1.º Que visto aExcellente Senhoranão viver no rigor monastico a que era obrigada, fosse entregue ao duque de Bragança ou a seus irmãos, para lhe fazerem cumprir o que fosse honesto. 2.º Que fosse permittido aos subditos castelhanos o irem negociar na Guiné.
É claro que D. JoãoIInão podia annuir a estes pedidos, em primeiro logar porque lhe arrancavam das mãos uma grande arma diplomatica, tal era aExcellente Senhora; em segundo logar, porque abalaria o dominio portuguez, na Africa, com a concessão feita aos castelhanos.
Mas isso mesmo era o que Castella e o duque de Bragança queriam: porque na propria recusa estava um pretexto para Fernando e Isabel declararem a guerra, e para o duque se desculpar de não prestar auxilio a D. JoãoII, fingindo achar desarrazoada a recusa.
As novas intelligencias do duque comos soberanos de Castella foram descobertas a D. JoãoIIpor Gaspar Infante, irmão de Pedro Infante, familiar dos Braganças. D. JoãoII, que já estava desconfiado, ficou prevenido, mas não lhe convinha precipitar os acontecimentos, tanto mais que tinha seu filho nas terçarias, e receava pela sua vida. Mas, como a guerra de Granada absorvesse toda a attenção e recursos dos reis catholicos,[65]um embaixador chegava a Portugal para tratar justamente de desfazer as terçarias. Assentou-se pois no casamento do principe D. Affonso com a infanta D. Joanna, filha segunda dos reis castelhanos.
A este tempo voltava de Castella Pedro Infante com a correspondencia secreta para o duque. O rei leu-a, e resolveu logo, visto que o obstaculo que as terçarias offereciam ia desapparecer, prender o duque ou cercal-o em qualquer logar que estivesse. «E para isso, escreve Garcia de Rezende, houve logo secretamente muito dinheiro junto que trazia em sua guarda roupa, e assim fez muitas das cartas, provisões, que em tal caso havia de mandar pelo reino, e ásvillas e castellos do duque e seus alcaides-móres, o que tudo lhe aproveitou na noite que prendeu o duque como adeante se dirá.»
D. JoãoIImandara procuradores seus a Moura buscar o principe. O duque de Bragança, sabendo isto, foi encontrar-se com elles em Portel, e alli lhes perguntou o que deveria fazer, visto que o principe passava pelas suas terras. Os procuradores responderam que, para serenar de vez certas differenças que tinha havido entre o rei e o duque, o que este devia fazer era acompanhar o principe á côrte, servil-o e honral-o. Mas, receosos de que o seu conselho desagradasse ao rei, mandaram, por meio de postilhões que havia na estrada, consultal-o a este respeito. D. JoãoIIrespondeu que lhe aprazia muito que o duque fosse á côrte; o rei respondeu em carta, não fechada, para que todos a pudessem ver, a fim de armar á credulidade dos que a lessem.
Desfeitas solennemente as terçarias em Moura, onde o duque de Bragança já havia chegado, o principe foi entregue aos procuradores do rei de Portugal, e a infanta D. Isabel aos procuradores do rei de Castella.
Na jornada de Moura para Evora, onde estava a côrte, o principe D. Affonso foi hospedado em Portel pelo duque de Bragança, que lhe fez muitas honras. Fóra dos muros de Evora o rei sahiu a receber o principe, que vinha acompanhado pelo duque de Bragança e pelo de Vizeu. A gente que acompanhava o rei estava toda armada, porque D. JoãoIIia em duvida sobre se logo prenderia o duque ou não.
Mas como o duque lhe parecesse tranquillo e nada desconfiado, D. JoãoIIadiou o seu proposito.
O rei mostrava-se extremamente alegre e despreoccupado. Houve em Evora grandes festas pela recepção do principe e da infanta, e o rei em todas tomou parte serenamente. Pelo que o duque, comquanto avisado pelo marquez seu irmão e por outros fidalgos, para que desconfiasse do rei e se salvasse, deixou-se ficar. Metteu-se de permeio o dia deCorpus Christi, em que o rei continuou a mostrar-se despreoccupado, mas na sexta-feira, indo o duque ao paço despedir-se do rei, achou-o despachando com os desembargadores. D. João fez sentar o duque junto de si, emquantodava o despacho. Findo este, o duque conversou por algum tempo com o rei, e aproveitou a occasião para pretender justificar-se de varios aleives que lhe assacavam contra elle, pedindo-lhe que se informasse da verdade. D. JoãoII, depois de o ter ouvido, disse que aquella casa já ia estando escura, e que, porisso, era melhor subirem á sua guarda roupa. Subiram, e o rei disse então que folgava de o ouvir fazer tal requerimento, e que effectivamente ia apurar a verdade, mas que julgava melhor que o duque se conservasse alli, até que tudo estivesse apurado.
O rei, sahindo, deixou por guardas ao duque, Ayres da Silva, camareiro-mór, e Antão de Faria, camareiro.
Então, o desanimo do duque foi grande. Ayres da Silva quiz consolal-o com palavras banaes, mas o duque respondeu-lhe: «Senhor Ayres da Silva: um homem tal como eu não se prende para o soltar.»
Entretanto, D. JoãoIIfazia reunir em outra sala do paço os senhores, principaes auctoridades e lettrados, aos quaes expoz os aggravos que tinha do duque, lendoserenamente as cartas e instrucções apprehendidas.
Logo que a noticia se espalhou na cidade, o povo correu aos pateos e terreiros do palacio, protestando a el-rei a sua lealdade, e pedindo justiça contra os que contra a sua vida houvessem attentado.
No conselho decidiu-se que se segurasse bem a pessoa do duque; que a coroa tomasse conta dos seus castellos e terras, e que se notificasse o caso aos reis de Castella, sem comtudo alludir á causa da prisão.
Tão profunda impressão causou em todo o paiz a prisão do duque, que os alcaides dos seus castellos logo os entregaram a uma simples ordem do rei. Esta observação, que Garcia de Rezende faz, pinta bem qual era o prestigio da monarchia, e o fanatismo do povo pela pessoa de D. JoãoII.
O marquez de Montemór e o conde de Faro, logo que souberam o que se passara, fugiram para Castella. Este ultimo pouco tempo sobreviveu em Andaluzia. O outro irmão do duque, D. Alvaro de Bragança, recebeu ordem do rei para sahir do reino, prohibindo-lhe comtudo que fosse residirem Castella ou em Roma. Mas D. Alvaro, desobedecendo, deixou-se ficar em Castella.
A duqueza de Bragança, logo que soube da prisão do marido, mandou para Castella os seus tres filhos, ficando ella em Villa Viçosa com D. Margarida, sua filha.
Entretanto, o duque continuava a estar preso na guarda roupa, sem ferros, mas constantemente vigiado. Era alvo das maiores attenções por parte dos familiares do rei, e tratado com a etiqueta devida ao seu nascimento.
D. JoãoII, por sua parte, mostrava-se pesaroso da situação em que estava o duque, e resolvia entregar o caso á justiça, para que ella julgasse.
A justiça! Bem sabia D. JoãoIIcomo ella procederia vergada á pressão da sua auctoridade real! Mas o caracter reservado do rei levava-o a proceder assim, sem pressa, sem precipitação, calculadamente. O facto de entregar o duque a esse como arremedo de tribunal, mas em todo o caso, apparentemente, á acção da justiça, mostrava ao povo que acima do poder real pairava,como que a defendel-o, a justiça de Deus, manifestada pela justiça da terra.
Era um homem superior D. JoãoII.
É conhecido o final d’esta tragedia: o duque de Bragança acabou no cadafalso levantado na praça de Evora.
Diogo Pinheiro procurou rehabilitar a memoria do duque, escrevendo a suadefesa;[66]mas outro documento, modernamente dado á estampa, o tratado de Lopo de Figueiredo,[67]mostra que o duque de Bragança procurava fortalecer-se contra o odio de D. JoãoII, entabolando negociações secretas com a côrte de Castella, e que á infanta D. Beatriz, mãe do duque de Vizeu, não repugnavam os planos do Bragança.