VIII

Porque é que minha alma anceiaDe visões e magoas cheia,Porque ao longe devaneiaMinha mente sem cessar?Porque á tarde, em fins do dia,Ao cahir da maresia,Vou sobre a costa braviaMagoas carpir sobre o mar?

Porque se me opprime o peito—Já de ha muito á magoa affeito—N'esse momento imperfeito,Mixto de trevas e luz,Quando tudo, ao longe e ao perto,Se veste de um brilho incertoE eu, d'esta alma no deserto,Só diviso a paz na Cruz?

Porque ao murmurio das fontes,Quando a sombra desce os montes,Fito o olhar nos horizontesE fico mudo a scismar!Porque á noite, á lua cheia,«Por noites da minha aldeia»,Chóro e riu e devaneiaMeu agitado pensar?

Oh! quem é que assim me inspiraÁ mente que me delira,Ao coração que suspiraAllivios, consôlo e paz?Quem faz que além d'esta vidaVeja uma outra promettidaE anceie essa patria querida,Não esta patria fallaz?

Não vem de mim nem da terra—Que tal ouvir não encerra—O que este peito descerraN'um hymno de tanta fé:Eu scismo ás vezes de amores,Porém são outros ardores,Outros são os seus fervores,Outro amor que este não é…

Eu tenho sonhos de gloria,Que me acodem á memoriaComo a visão illusoria,Que brilha e que se desfaz:De ouro e nome tenho sêde;—Do poder aspiro á séde…Mas toda esta gloria cedeÁgloriade luz e paz!

Oh! trasborda-me este affecto,Que aqui dentro anda secreto,Como de vaso repletoTrasborda puro o licor!Oh! inunda-me este oceanoDe um amor tão sobre-humano,Tam puro de todo o engano…Que nem sei se é isto amor!

Oh! embala-me esta esp'rança,Aonde a alma me descançaEm pura e santa bonança,Tão bafejada de Deus,Que não pode—eu bem o vejo—Descender-me este desejoSenão da patria que invejo…Oh! esta esp'rança é dos céos!

És tu oh Deus que me chamas!És tu Senhor que me inflammasN'aquellas ardentes chammas,Que me dão tão pura luz!És tu, oh Pae! que da altura,Olhando a minha amargura,Me estendes a mão segura,A mão que a ti nos conduz!

Sim! minha alma te pressente!Guiada por luz ingenteD'esse fanal que não mente,Já p'ra ti desprende o vôo…Oh! quem tem essa luz querida,Não tem outra promettida,Não pode amar outra vida…Senhor! eu busco-te… eu vou!

Coimbra, 1861

Além na solidão, sobre os desertos,Tu só te ergues altiva e apontas céos;E deixas, sobranceira ás tempestades,Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Tu só! Quem te creou? Mysterio immensoAo nascer te encobriu, te envolve o sêr…E agora eis-te, rival das serranias,Como ellas condemnada a não morrer.

Tu só! Além, na extrema do horizonte,Passa o Arabe no auge do furor,Luz-lhe na mão o alfange, o olhar fuzila,Vão com elle em tropel morte e terror!

Mas lá surge do accaso arroxeado,Ao mando de medonho furacão,Nuvem de ardente pó que rue sobre elle,Que o sepulta em deserto, árido chão.

Mas tu sorris ás furias da tormenta,Não temendo arrostal-a inda uma vez,E ella, a que troou pelos espaços,Vem tremendo morrer-te ahi aos pés.

Do cimo sublimado, erguido ás nuvens,Vês os sec'los nascer, ruir no pó;E em meio da ruina dos imperiosFicas tu, ó gigante, eterno e só!

Além, n'esse deserto a quem assombras,Que vidas, que paixões se hão revolvido!E a todas o deserto, qual sudario,Nas dobras da mortalha ha envolvido.

Tu podes apontar ao viajanteUm nome ou um logar na solidão:Dizer—Alli, Palmira foi cidade——Aqui, foi um heroe Napoleão.—

Tu só podes dizel-o. Quem mais sabe,Que pó envolve agora o que morreu?Quem pode differençar, n'um mar infindo,Um pó de um outro pó que o envolveu?

Só tu! Na solidão, sobre os desertos,Tu só te ergues altiva, e apontas céos;E deixas, sobranceira ás tempestades,Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Coimbra, Dezembro, 1859.

_A Sorte, amigo, a sorte é dura ás vezes! Agora nos affaga e nos alenta; E logo nos opprimem seus revezes…

Após leda bonança vem tormenta;Succede a noite escura ao claro dia,E ao rapido prazer a magoa lenta!

Assim de minha ardente phantasiaAos sonhos perfumados de venturasQue a beijar-me a fronte eu já sentia,

Ai! seguiram-se tristes amargurasQue a vida a pouco e pouco vão comendo;Deixando espinhos só onde as verdurasEram brandos aromas rescendendo_!

Alberto Telles

A Sorte só p'ra o fraco é dura ás vezes!P'ra o forte, que a virtude e crença alenta,P'ra esse não ha sortes nem revezes…

Porque após da bonança vem tormenta,Porque a noite succede ao claro dia,É força definhar em magoa lenta?

Não! que aos males, que gera a phantasia,O sabio oppõe as intimas venturasDa virtude e da fé que em si sentia.

Não chores mais, poeta, as amargurasQue só os bens da terra vão comendo:A consciencia é jardim onde as verdurasMil perfumes p'ra o céo vão rescendendo.

Ave, Christus!

Deixae, deixae passar o homem forte,O ungido do Senhor;Se a cruz que arrasta agora é cruz de morteTambem é cruz de amor!

Deixae! na praça o povo agglomeradoVomita a injuria alli;E elle, sereno o rosto e resignado,Olha o céo, e sorri.

Sorri… não fero riso de despresoQue ao passar pelo labio perde o encanto,Mas riso que transluz por entre o prantoAo que da cruz de amor arrasta o peso.

Sorri… Que mais importa ao homem forteOu despreso ou louvor,Se da estrella seguiu, que foi seu norte,O magico pallor?Tem dentro, como em erguida fortaleza,A fé, voz que lhe vae bradando—«Avante!É teu premio o opprobrio do ignorante,De tal morte morrer, tua grandeza!—»

E diz, vendo a consciencia onde serenaLê a imagem de Deus,E do futuro vendo a praia amena:—«Posso subir aos céos!Posso agora, depondo em terra o pesoDa missão dolorosa d'esta vida,Buscar a patria minha promettida,D'onde o divino amor transluz acceso.—»

Ai pode! Heroe, e martyr, deixa a terra,Que é cumprida a missão:O Mundo o teu preceito guarda e encerraNa mente e coração…Morres tu; mas a idéa que deixasteNão morre, como a luz em fim do dia,Nem o fogo do céo que em ti ardia,Nem o exemplo sublime, que legaste!

Oh, martyr! cada lagrima chovidaN'essa senda de dôr,Conquista mais um espirito p'ra vida,Para a luz do Senhor;E um dia (e talvez cedo venha o dia)De cada dôr que ahi te curva agora,Nascerá qual da noite nasce a auroraUm mundo de verdade e de harmonia!………………………………….Deixae, deixae passar o homem forte,O ungido do Senhor;Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte,Tambem é cruz de amor!

S. Miguel, Julho de 1859.

Fique em silencio eterno a minha lyra;Pomba do céo tu vae; Deus te bem fade,N'esta alma em teu logar guardo a saudade,Se a essencia sobrevive á flor que expira.………………………………….

Foi o canto do cysne, o canto derradeiroD'aquella augusta voz que se esvaiu no ar;Adeus da terna amante ao seu amor primeiroQue eterno ella julgou, mas cedo viu findar;Ultimo adeus de quem, ha pouco ainda crente—N'uma hora apenas—vê, qual sombra na corrente,Morrer-lhe as illusões co'a morte d'esse amorE triste se envolveu no vêo de uma erma dôr.Soffreu da soledade… E onde ha hi um peitoQue não soffra tambem, ainda ao mal affeito?

Soffreu da soledade em que a alma lhe ficou,Depois que ao longe e triste o ecco se finouD'aquellaunica voz, que ainda repetiaA sua voz, bem como, á tarde em fins do dia,A nuvem que passou reflecte um raio ao sol,Que mesmo occulto a tinge aos fogos do arrebol.Soffreu quando da sorte a mão pesada veiuPoisar-lhe sobre o peito e comprimiu alliA ancia que animára o arfar d'aquelle seio,Seio que só bateu—poesia!—amor!—por ti!

E elle então disse: «Aqui deponho a minha lyra:Se esta alma a outros céos, a outra patria aspira,Se esta ancia infinita não posso aqui fartar,Que val'—ecco sem voz—que val' o meu cantar?Val' mais que eu, em silencio, espere o grande dia,Cuja aurora immortal, em luz, em poesia,Me hade envolver, e assim levar-me áquelle céo.Céo do que amou, creu, esperou e soffreu.Emtanto—esp'rando—viva em silencio profundo,Deixando em vão rugir,—qual voz do mar—o mundo;Aqui guardo a saudade, esse talisman só,Como da flor já secca inda se guarda o pó.—»

Cobriu o rosto após co' manto da tristeza;O sol d'aquelle céo fugiu ao longe… além…E a noite sem luar, sem brilho, sem bellezaAo negro que hia lá veiu ajuntar tambem.………………………………….………………………………….Poeta, essa não é tua missão. Curvar-seUm momento é do homem; porém não prostrar-seGemendo em desalento, e face contra o chão,Como quem acceitou da dôr a escravidão.Poeta é quem tem fé, quem busca no futuroA crença que lhe nega este presente impuro:Não quem deixa cahir a lyra, não quem vaePedir ao desalento abrigo e amor de pae.É virtude soffrer, nunca perder a crença;É ter esp'rança tal que a dôr mais crua vença;É não pedir seu premio aos homens, mas a Deus,E passar n'este valle, o olhar fito nos céos.

Tal é tua missão:—Luctar! O soffrimento,Ao pé do eterno bem, o que é mais que um momento?

Coimbra, Março, 1861

Como a poesia de João de Deus citada na epigraphe da p. 73, não foi incorporada nas collecções dasFlores do CampoeFolhas Soltas,transcrevemol-a aqui para intelligencia do texto dos nossos cadernos manuscriptos de Coimbra, notando as variantes da primeira estrophe.

Fique em silencio eterno a minha lyra;Vae, effluvio de Deus!Deus te bem fade:N'esta alma, em teu logarfica _a saudade,Se a essencia sobrevive á flôr que expira.

Dizer-te adeus! não pude; quando occorreTal voz ao labio, o labio empallidece,Como a nota da lyra nos falleceAnte a lua que cae, e o sol que morre:

Ante o sôpro que varre o cedro e o vime,Ante o sublime aspecto do oceano,Ante a esposa do martyr sobrehumano,Ante tudo o que é grande e que é sublime.

Embora!… quando a lampada crepitaJá falta d'oleo, languida esvoaça;A nuvem estala; ruge a onda e passa,Guarda silencio a abobada infinita_.

João de Deus

Guardai in alto……………………. ………………………………….

Dante,Inf.C. 1.^o

Eu amo a noite ás horas socegadasQue o Senhor manda á terra, como balsamoA tanta dôr que a punge, e o sol do diaParece escarnecer com tanto brilho,Nem sabe respeitar; quando o silencioCom manto protector envolve os tristes,Os que choram saudades; quando o orvalhoRefresca o seio á flôr, e em cada balsaA viração prepassa suspirando;Quando é mais puro o ár, mais doce a brisa,Mais sumidos, mais vagos os rumores,E detraz da montanha, saudosaComo a virgem dos sonhos, surge a lua.

Eu amo então a noite.—Paz e esperançaA quem soffre, buscando algum allivio;Ao feliz exultando de alegriasA lembrança de Deus a quem as deve;A quem descreu de achar inda na terraVentura que lhe foge… o olvido ao menos;A toda a crença um exultar de affectos;A todo o desconforto, uma esperança;A toda a natureza, amor e vida;Eis o thesouro santo que nos abre—A nós e ao mundo—a noite, eis seu tributo.

É doce então abrir os seios d'almaAos effluvios do céo: flor que hão crestadoArdentias do sol, e ainda timidaPalpitando entre o susto e a esperança,Retoma agora aos poucos novo alentoAo sentir-se segura, e abrindo o calixEstremece de amor a cada gôttaDos orvalhos do céo: como que a vidaSolta de tanto laço que a comprime,Como gaz que ao calor se ha dilatado,Se expande livre agora e cresce e absorveEm si mil harmonias, mil poderesQue esse universo tem: como as correntesOccultas, que os oceanos communicam,A natureza e o espirito permutamSympathias e forças, em que a almaMais cresce e mais comprehende, e mais abrange,E n'este permutar de força e forçaQuasi na vida universal se funda.

Passa a lua; do alto olhando a terraProcura o triste por lhe dar allivio;Prepassa a viração e busca do ermoA florinha minada que refresque;Corre manso o regato, e banha a ervaQue um pé calcou, e o sol deixou crestada;Tremúla a estrella, symbolo de esperanças,Enviam-se harmonias as espheras;Tudo amor, tudo affectos communica;E o espirito do homem busca livreDa sob'rana harmonia a eterna fórmula,Do eterno amor o fóco, a patria sua.

Lembranças de um viver já pressentido,Ou memorias—talvez—de uma outra vida,Que nos relembra vaga, e como em sonhos,E sobre o fundo d'esta se destacamComo pela penumbra um vulto incerto…Aspirações, memorias, ou saudades,O que nos enche o peito e nos enlevaComo um sonho de amor—e mais ainda—Senão este mysterio do futuro,Esta attracção do sêr a vida nova,Que se foge e se busca e nos revelaA vida universal, então sentidaMais forte na harmonia do Universo?

Busca-se, anceia-se, e o alvejar da campaMais que o sorriso de uma amante é doce;A lembrança da morte mais que a esp'rançaDo poder ou da gloria nos enleva;Terrores, incertezas se dissipam,E sem saudade, sem temor se anhelaMais mundo, mais espaço, e viver novo!

E quem pode temer? Teme o que um diaSonhou na mente uma ambição terrenaE mais não vê por todo esse universo,E além d'elle não vê sublime e grande:O, que engolfado nos prazeres do mundo,Esqueceu o seu Deus e seus destinosNem sonha mais ventura além da campa:O que pungido por cruel espinhoDe uma duvida atroz, sente a cada horaCahir-lhe a uma e uma cada crençaDe sobre alma, deixando-a erma e nua,Como as humidas prégas de um sudario,Aos poucos desdobrado, deixam vêr-seOs descarnados membros do cadaver.

Mas quem se assenta ás horas do mysterio,Entre as flôres do prado, ou sobre a encostaDa collina virente e olhando a luaQue banha em luz a esphera crystallina,Inveja quem habita n'esses mundos…E fita o olhar por esse espaço, e cuidaSondar-lhe o infinito; quem anhelaDesvendar-lhe os mysterios e buscandoA região que se sonha e não se avistaDal-a por patria á sua alma… oh! esseA viagem não teme, antes anceia,Quebrada a fórma d'este sêr, alar-seEm busca de outra mais perfeita, e sempreDe degráo em degráo, de esphera em esphera,—Metempsycose eterna!—sublimar-seNa progressão d'este ascender constanteDa parte ao todo, do mortal principioEm busca de um futuro inattingivel,Porém melhor cada hora, e a cada passo.

E quem pode temel-a, essa viagem,Quando fitando o olhar no alto, avistaBanhado em luz o espaço immenso e puro,Patente e franca a estrada do Universo,E como que visivel o infinito?Quando tudo no céo e pela terraParece, como irmão, dar-nos confiançaEm nós e em si para seguir avante?Quando se sente palpitar no seioNão só já a mesquinha vida propriaMas todo o grande sêr do que é creado?Quando nas aras do Universo, o espiritoCommunga, como irmão, na mesma crença,Com tudo quanto vive, e a mais aspira,Ah! quem pode temer, noite de encanto,Noite pura e sagrada ao Deus de affecto,Protegido por tua luz amiga,A aspiração dos immortaes destinos.Um pouco mais ao peregrinar constante,A entrevista do infinito e do homem?

Por ti, noite de amor, por ti nos desceTanta ventura ao seio; e como o orvalhoQue o pó da terra ressequido e árido,Que o vento impelle, fixa sobre o sóloE como que consola e allivia,Assim como teu effluvio o triste espiritoQue incerto das paixões refoge á duvida,N'uma crença fixaste—a crença eternaDo amor universal, todo harmonias,Porque és affectos toda! Em cada balsaDescanta um rouxinol; a cada rosaUma brisa osculou; em cada fonteBrilha um raio da lua; em cada peitoMurmura um ecco que de amor só falla!

Mosteiro da Batalha, 1861.

Este é o livro das vinganças nobres,O inferno dos que têm o céo na terra:Nem vingança; justiça.—Oh vós que as lagrimasTrazeis sempre nos olhos, sem que sequem,Lazaros no banquete da existencia,Oh filhos do dever! lêde este livro,Porque atravez de um mundo de miserias,Do largo perigrinar chegando ao termo,Heisde ouvir, lá das bandas do futuro,A grande voz do Christo, a voz eterna,Erguer-se sobre os filhos da verdade:

«—Felizes dos que soffrem—terão premio:Feliz do pobre e triste, orphão de affectos,Será rico: no céo seu pae o espera!»

Coimbra, Dezembro, 1861.

Oh Italia aviltada! Oh não sem rumoNo meio da tormenta!E era esta a rainha das provincias?Hoje… cloaca informe!Outr'ora mal bradasse:—«Patria, Patria!»Um cidadão, um filho,Alma nobre—acolhias-l'o no seioNo seio que lhe abrias!Agora espreita cada um o peitoDo visinho e olha o gladio:E os que estreita no cinto o mesmo muroE o mesmo fôsso… comem-se!Alonga, alonga, oh triste, pelas praiasTeus olhos macerados;Desce-os, desce, infeliz, ao proprio seio…A paz! onde a encontraste?

Julho, 1862.

Sinite parvulos ad me venire

Ventura! aurora d'outro eterno dia—Amor—Verdade—Bem—Quanto desprendeSeu vôo cá da terra e quanto estendeAzas no céo, só busca esta harmonia,

E as alturas fechadas! tudo esfriaE morre, lá por cima, e não se entende…Certo é que o fructo só p'ra terra pende,Parece que p'ra terra a luz se cria!

Ha tanto quem sem lucta espere havel-a!Sem se erguer, quêdo o mundo, cuide vêl-a…Talvez, se assim quedasse, a possuisse!

Chama-se isto voar! Toda essa alturaDava-a bem por uma hora de ventura…Antes minha alma não voasse… e visse!

Coimbra, Novembro, 1862.

(Primeira elaboração do Soneto de p. 20 dosSonetos Completos)

Dieu n'est pas! Dieu n'est plus

Ha mil annos, oh Christo, ergueste os magros braços,E clamaste da cruz: «Ha Deus!» e olhaste, oh crente,O horizonte futuro, e viste em tua menteO alvordo céobanharde luzesses espaços!

Porque morreu sem ecco o ecco de teus passos?E de tua palavra (oh Verbo!) o som fremente?Morreste! ó dorme em paz: não volvas, que descrenteArrojáras de novo á campa os membros lassos!…

Ha mil annos! ha mil! Que é d'ella a tua esp'rança? Ainda, como então, Amor—traduz—Vingança, E é o int'resse glacial das almas o sudario!

Ainda, como então, víras o mundo exangue? E ouvíras perguntar: «De que serviu o sangue Com que regaste, oh Christo, as urzes do Calvario?!»

Coimbra, Novembro, 1862.

* * * * *

VARIANTE DO 2.^o TERCETO

Agora, como então, na mesma terra erma,A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario.

«Eu não sou dos que a patria só adoram»Como adora o regato a propria serra:Deus n'uma gleba apenas não se encerra;Se visita esses mundos, que demoram

De céo a céo, tambem cafres o imploram.Mas deixae que uma lagrima sinceraPossam os olhos dar, olhando-a, á terraDe onde a primeira vez aos céos se foram.

Sim, vêr-te, Portugal! eu chóro ao ver-te!…Como ao Leão gigante do OccidenteLhe cáe a garra, e em nada se converte!…

Não é isto o que eu chóro: o que me dóe,É como aquella juba omnipotente,Em pennas de pavão se decompõe!…

Coimbra, Janeiro, 1863.

Homem! Homem! mendigo do Infinito!Abres a bocca e estendes os teus braçosA vêr se os astros cáem dos espaçosA encher o vacuo immenso do finito!

Porque sóbes á rocha de granito?Porque é que dás no ár tantos abraços?E cuidas amarrar com ferreos laçosUm reflexo da sombra de um esp'rito?

Vê que o céo, por escarneo, a luz nos lança!Que, á tua voz, a voz da immensidãoResponde com immensa gargalhada!

A idéa fechou a porta á esp'rança,Quando lhe foi pedir gazalho e pão…Deixou-a cara a cara com o Nada!!…

Maio, 1863.

(Primeira elaboração do Soneto de p. 30 dosSonetos Completos)

Eu amo a vasta sombra das montanhasQue estendem sobre os largos continentesOs seus braços de rocha negra, ingentes,Bem como braços colossaes de aranhas.

D'ali o nosso olhar vê tão extranhasCoisas, por esse céo! e tão ardentesVisõesamostrao mar de ondas trementesE as estrellas, d'ali, vê-as tamanhas.

Amo a grandezatenebrosa evasta:A grande idéa comoum grande fruitoDeum'arvore colossal queistodomina;

Mas tu, criança, sê tu boa… e basta,Sabe amar e sorrir…mulher, é muito…Mas a ti só te quero pequenina…

Coimbra, 18 de abril de 1863.

Está deserta a estrada do Infinito,É apenas o cêo do nada espelho,A eternidade é fossil: Deus é velho,E o homem olha o céo de fito em fito!

A cruz de Christo está feita um palito,Embrulham-se caminhos no Evangelho;Cada qual dá a Deus o seu conselho:Nem já é Verbo o verbo… é só umDito!

Nada d'isto me dá a mim cansado;Mas morrer Satanaz tambem de frio…Mas não haver já mal que se combata…

Não poder já ao demo um condemnadoRender a alma immortal… por desfastio…É isto o que me dóe, o que me mata!…

Maio, 1863.

………..o sangue é vida, e as Mães a fonte d'ella…

João de Deus

Ainda a trabalhar, dedos formosos!Nem tanto affinco: Deus tambem não querQue se cumpra o preceito tanto á letra;Preceito é trabalhar, não que se estraguemEsses formosos dedos de mulher.

Já o sol se escondeu atraz da serra,E o bordado não céssas de bordar;Quando abri de manhã esta janella,Já lá estavas no posto, de olhos roxos,Como se foram roxos de chorar!

Forte trabalho! não me enganas, bella!Bem sei eu quem te dá tamanho ardor…Pois nem um olhar a quem passou na rua,Dizendo:—É bella! e olhando-te? nem isso?…Ai tanto trabalhar! só por amor…

Que importa o que passou? no peito um nomeTe domina, e na mente uma imagem só…Feliz cabeça, que hade ornar em breveO bordado gentil em que trabalhasCom esse affinco, que causou meu dó.

Feliz! sim; que lhe guarda aquelle peitoLargo e rico thesouro de affeição;Pois magoar estes olhos, e estes dedosFormosos estragar—homem ditoso—Só faz o amor que vem do coração!…

Tu, que talvez repouzes no ocio brando,(Se não corres talvez de flôr em flôr)Vê tu que sacrificios immerecidos!…Mas um menino cego é quem nos vence,Que a isto e a mais obriga o louco amor!………………………………….

Mas, não! Quem lá no fundo, meio occultoEntrevejo na sombra, como quemTeme do dia a luz—luz orgulhosa,Luz que ao feliz afaga, ao triste afflige—Quem triste e só, se occulta mais além?

Quem, se o dia findou, recebe o beijoE outro recebe logo que é manhã?Quem—emquanto a alampada nocturnaAlumia a vigilia—sente em sonhosUma lagrima de amor molhar-lhe as cans?

Perdão, mulher! e mais que mulher, filha,Perdão! louco julguei e impio tambem,Que tinhas outro amor: como se possaTer uma filha amor ou pensamentoQue todo não pertença a sua mãe!

Feliz, quem—pobre—tem um tal arrimo;Quem—cega—pode vêr uma tal luz:Quem—cega e pobre e triste e desprezada—Tem uma mão de filha que piedosaTé aos degráos do tumulo a conduz!…………………………………….

É nobre o teu trabalho, mulher bella—Bella d'aquella luz que vem dos céos,A quem nas áras da fiel piedadeSacrifica illusões da mocidadeE segue o seu caminho crente em Deus!

Nem mais um riso, amigos! RespeitemosO que ella faz ali com tanto ardor;Não são enfeites vãos, do prazer socios,É o pão de uma mãe que ali grangêa,Trabalha por amor… mas outro amor.

Trabalha e enchuga o pranto á velha enferma:Trabalha noite e dia; é Deus que o quer:Que importa á filha, quando a mãe lhe soffre,Que o sol nasça ou decline, ou que se estraguemOs seus formosos dedos de mulher?

Coimbra, 1862.

Risum teneatis!

Bem é fallar de tristezasPor estes tempos de risos,Em que passa a GargalhadaNa face dos paraisos,

E, como o vento do póloForte—mas triste, mas frio—Que leva as folhas co'as flores,Como as enchentes do rio.

É o nivel da egualdadeDesde a rocha até á flor,Desde o amor da virtude'Té á virtude do amor.

Como os remoinhos de póQue a gente vê, a tremer,Sob-la tarde, nas estradas,Como demonios correr;

Como a espuma batidaQue a rocha escarra no marE a onda depois atira,Com escarneo, por esse ár;

Como os grôus em debandadaAo partir-se-lhe a cadeia:E o torvelinho que atiraNo deserto os grãos de areia;

Como tudo, emfim, que gemeNo abraço dos turbilhõesE, de olhos postos no inferno,Lança ao céo as maldições:

Folhas mortas e flores vivas,Pó da terra e diamantes,Aguas correntes e charcos,Os de perto e os mais distantes;

Vozes profundas da terra,Vozes do peito gementes,De envolto as feras braviasCom as aves innocentes;

Como as palhas assopradasDepois das malhas, na eira,Ou gottas de agua rolandoDe alta náo na larga esteira—

Tudo partido, enlaçado,Em desesp'rados abraços,Ruindo pelas quebradas,Rolando pelos espaços,

Nosparaisos perdidosE—agora—feitos desertos,Como legião de demoniosRugindo infernaes concertos;

Tudo vae, se rasga e parte,Como em cidade assaltada,Sob esses tufões geladosDa tormenta—Gargalhada!

Das tormentas! Que sem contoSão esses ventos de morte;E d'um ao outro horizonte;E d'um modo e d'outra sorte.

Os suões do céo humanoE os simúns do seu deserto;O que a gente vê ao longe,O que a gente sente ao perto;

A gargalhada do sabio,Que se chama… indagação;A gargalhada do sceptico,Que tem nome… negação:

A gargalhada do santo,Que tem nome—fé e crença;A gargalhada do impio,Que se chama… indifferença:

A gargalhada da historiaQue se chama… Revolução:E a gargalhada de Deus,Que tem nome… Escuridão;

Eil-as 'hi vêm, as tormentas,De todos os horizontes,Subindo de todos vales,Descendo de todos montes.

Eil-as 'hi vêm: já espectros,Já como lavas ruindo:Já nuvem, já mar, já fogo,Mas sempre, sempre cahindo,

Desde a França… e são revoltas;Da Allemanha… e são idéas;Desde a America… e são fardos;E da Russia… e são cadeias;

De Inglaterra… e são carvõesDe fumo enchendo os pórtos;Do Oriente… e são os sonhos;E da Italia… Christos mortos;

Da Hespanha… e são traições,Á noite, por traz dos brejos,—Mão na faca e mão nas costas—Edê cá… e são bocejos.

É d'estes lados que sopram…E são os ventos assim…Levando os cedros do monteComo os lyrios do jardim…

* * * * *

E, comtudo, no meio daalegriaTerrivel, que enche o espaço como o eccoDas grandes trovoadas—e debaixoDe tantos ventos e de tantos climas,A Alma—a flor do Paraiso antigo—Lyrio bello do valle—peito humano,A Sulamite da Sião celeste—A Psyche triste e palida, que vagaNas praias do infinito—a Alma, oh homens,Em meio do folgar que vae no mundo,Cada vez chora mais e mais soluça,E mais saudosa—a eterna expatriada!—………………………………….………………………………….

É que o rir do leão sempre é rugido—E isto, que sae da bocca tenebrosaDo mundo—e o mundo escuro diz Progresso,E Força, e Vida, e Lei—isto é soluçoQue sae do peito condemnado,—e quandoVae a sahir, para illudir o misero,Diz á bocca: «Olha tu como nós rimos»…Mas não é mais que o arranco da agonia!Nem pode ser.—Aquelle riso enormeQuando sae é co'o ruido das tormentasE, como as grandes aguas, vae rolando,E esmaga… e não consola!É como a orgiaQue cuidando folgar… se está matando!E como esses que dizem dos rochedosQuebrincamcom as ondas… quando as partem!

Não é o riso bello da Harmonia,É apenas gargalhada de Possessos!Ha dentro d'este mundo algum demonio,Que o obriga a torcer assim a boccaLá quando mais se agita e mais lhe dóe!Senão, olhae e vêde essa alegria—Quer seja Idéa ou Força ou Arte, ou sejaA Industria ou o Prazer—de qualquer ladoQue rebente dos labios—vêde comoFaz frio a quem a vê! como entristeceVêr o gigante louco dar-se beijosComo em mulher formosa… e ao longe, ao longeTodo o campo alastrado de flôr's mortas!………………………………….………………………………….

Mas basta! A luz doiradaUm dia hade surgir!E a venda, d'esses olhos,Por fim tambem cahir!

E a Gargalhada immensaFechar a horrivel bocca!E ser canto suaveEssa atroada rouca!Então!………………………………………………………………………………

Alma, que sonhas?Que louco desvairar!…Então!!… Mas—Hoje—esta hora…É toda p'ra chorar!

Coimbra, Novembro, 1863.

na noite de 22 de outubro de 1862

Italia e Portugal! que duas patrias!Ambas tam bellas, tam amadas ambas!Uma, a patria do berço; outra a das almas:Uma, a das artes; outra a dos combates!

Oh! deixae que hoje, aqui, sobre o meu peito,As estreite, a final.—Ha quanto tempoEu quizera juntar-vos, pelas frontes,Beijar-vos, bem unidas, soluçando,Como quem, tendo pae, mãe encontrasse.

Portugal! nobre filho de guerreiros!Viste, primeiro, o sol da liberdade,Mais feliz, não maior e nem mais dignoQue tua irmã, a Italia.—Ella, entretanto,Chorava, olhando o céo, negro de nuvens!

Cobriram-n'a de affrontas! sobre os hombrosA toga negra, já como sudario:O seu corpo partido em dez retalhos:O extrangeiro assentado nos seus lares…E não se via sol no céo da Italia!

Dizei-me vós, se pode o grande rioExistir, sem que as fontes o basteçam?Se pode quem nasceu fadado ás glorias,Esquecido morrer? Se os fortes netosDe Mario e de Catão, ir assentar-seSosinhos sobre o tumulo dos fortes—Olhos no chão e pulsos algemados?Se é possivel que exista um povo—um povo!—Sem ser livre, e sem sol o céo da Italia?!

O céo da Italia!… esse céoTem, por sol, a liberdade!Riqueza… de claridade…Mas se foi Deus quem lh'a deu?!

O que Deus dá é sagrado!…'Stava o povo escravisadoE par'cia, de esquecido,Prostrar-se tam compungidoAnte os pés de seu Senhor?!

Pois bem! a esse povo escravoBastou-lhe o brado d'um bravoPara se erguer,—eil-o em pé!E aos tyrannos, aos senhores,Aos fortes, cheios de fé,Bastou-lhes ouvir os clamoresD'essa turba esfomeada

Para deixarem a espada…Raia a nova claridade,A aurora da liberdade,D'um proscripto no palor!

O povo toma as espadas,Meias gastas e olvidadas,

Sobre as campas dos avós:E, ainda vestido de dó,Com esforço sobrehumano,Ergue os hombros… e o tyrannoTreme… nuta… eil-o no pó!…

Quem derruba, sobranceiro,Altos colossos por terra?Quem é que faz d'uma guerraA festa do mundo inteiro?

Um homem?Não!A Justiça!…Deus!—o unico juizDos povos na grande liça!

Só Deus!—Elle dá ao tristeAllivios… não odios vís!A essa Italia que hoje existeSegredou-lhe, em quanto oppressa,Como sagrada promessa,Em vez de iras da vingança,Estas palavras d'esperança:

«Tudo tem allivio á magoa:A flôr murcha, a gotta d'agua;Cruz, o moribundo exangue;Um filho, a fera mais seva;Amor, o martyr; a treva,Um raio de claridade…E o povo, que é vida e sangue,Não hade ter liberdade?!»

A arte é como a luz: brilha do alto,Mas quer livre brilhar: do Deus do belloElla é religião: seu templo immensoQuer sacerdotes mas rejeita o bonzo.E o artista é como astro gravitandoEm céo e espaço livre: acaso o servoPode entoar um canto de ventura?

Só a mão, que não apertaGrilhão de escravo, dispertaNa arte tal magestade,Tal sentir e tal verdade—Vêde essa fronte inspiradaDo artista, allumiadaAo clarão da liberdade!

Estes versos appareceram pela primeira vez publicados com o pseudonymo deCarlos Fradique Mendes.

Estranha appariçãoQue em minhas noites vejo,Ó filha do desejo!Ó filha da soidão!

Não sei qual é o teu nome,E d'onde vens ignoro:Sei só que tremo e choroComo de frio e fome!

Que por fundir comtigoSuspiros, ais, rugidos,Déra ideaes queridos,Deuses e fé que sigo.

Sim! dera as propheciasE os cultos salvadores,E os Golgothas e as dôresE as Biblias dos Messias!

Por ti minh'alma clama,Corre a meus braços breve,Sejas de fogo ou neve,Sejas cristal ou lama!

Se és Beatriz, sou Dante;Sou santo, se és divina;Se és Laïs ou Messalina,Sou Nero, ó minha amante!

1869.

D'esta poesia escreveu o auctor ao sr. dr. Wilhelm Storck, em carta por este communicada a J. de Araujo: «A…Serenatanunca foi impressa que eu saiba, embora não seja de modo algum inédita, pois tendo sido composta ha 4 annos, na Ilha de S. Miguel, a pedido de um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante, é lá muito conhecida e cantada por esses e outros nos seus passeios musicaes em bellas noites de verão.»

Storck traduziu esta poesia. Ácerca da traducção escrevia-lhe D. Carolina Michaëlis, em maio de 1891: «A. de Q. recebeu a sua traducção daSerenata, a qual lhe agrada extraordinariamente. Antepõe-na ao original d'elle, e diz que lhe sôa como uma canção allemã.»

Cahiu do céo uma estrella,Ai, que eu bem a vi tombar!Era a noite pura e bella,Murmurava ao longe o mar…

Era tudo extase e calma,Perfume, encanto, fulgor…Só no fundo da minha almaQue desconforto e que dôr!

Dorme e sonha, minha bella,Emballada ao som do mar…Cahiu do céo uma estrella,Triste do que a viu tombar!

Era uma estrella cahida,Uma entre tantas, não mais!Era uma illusão perdida,Era um ai entre mil ais!

E has de viver torturado,Louco, incerto coração,Só por um astro apagado,Por uma morta illusão?

Dorme e sonha, minha bella…Como chora ao longe o mar!Cahiu do céo uma estrella,Ai de mim que a vi tombar!

1873.

(Commentario ásLitanies de Satan)

Não creio em ti, Deus-Padre omnipotente,Creador d'esse espaço constellado,Que do Cahos e o Nada conglobadoArrancaste o Universo refervente;

Não creio em ti, Deus-Filho, em cuja menteFoi o Bem inefavel feito e nado;E não creio no Espirito geradoDo eterno Amor, como uma chamma ardente;

Saibam-n'o a terra e os céos: do Crédo antigo,Cheio de Graça e Fé, refugio e abrigo,Benção da noite e prece da manhã,

Só creio no Peccado ineluctavel,Na Maldição primeira inexpiavel,E no eterno reinado de Satan!

Quando o Tedio, com plumbeo capacete,Esmaga a fronte ao homem desolado,E o Fausto pensador vê a seu ladoA Negação sentada ao seu bufete,

Seu labio é vil tres vezes, se repetePreces vãs e esconjuros, humilhado:O nome de Homem, tragico e sagrado,Só a quem desafia a Deus compete!

É grata a maldição á alma robustaDo que nenhum pavor divino assusta,E no Vasio ergueu seu templo e altar…

Mais fecundo que o Céo, creou o InfernoA blasfemia.—Honra, pois, e preito eternoA Satan, que nos deu o blasfemar!

1873.

Quem vos fez, céo profundo e luminoso,Terra fecunda, poderoso oceano,E a ti deu vida, coração humano,Que és todo um céo e um mar mysterioso,

Bem sabia que o céo, o mar, a terra,Tinham de ser só carcere e gehena;Que havia a vida ser só lucto e pena,E campo, o coração, de eterna guerra.

Por isso o estranho artifice sombrio,Que, concebendo o plano da obra ingente,Ironico talvez, talvez demente,Logo se arrependeu e o confundiu;

Não deu seu nome, como o archonte epónymo,Á obra de sua mente e sua mão:O Creador furtou-se á Creação…E sendo um máo auctor ficou—anonymo.

1879.

Estes bellos versos não eram destinados á imprensa, e appareceram publicados em uma revista de Lisboa, sem consentimento do auctor ou da familia da menina cuja morte pranteiam. Anthero recusara-se a imprimil-os, como se vê da seguinte carta que appareceu entre os papeis de Eduardo Coimbra e que a mãe do mallogrado moço, a sr.^a D. Anna Coimbra offereceu com varios outros documentos ao mais querido amigo de seu filho:

«_Villa do Conde, sabbado.

Meu joven poeta

São reservados, e pertencem ao nosso Joaquim os versos a que allude. É claro que sem licença d'elle não devem imprimir-se. Deixe-os no tumulo da desditosa criança, que lá fallam melhor aos que a estremeceram. Se porém combinarem trasladal-os para qualquer publicação, addiccione o meu amigo ao nome da pobre Zara o do desolado irmão. Para elle foram feitos, a elle serão dedicados.

E nada mais por hoje, meu amado poeta

Seu do C._

Anthero de Q.»

Feliz de quem passou por entre a magoaE as paixões da existencia tumultuosa,Inconsciente, como passa a rosa,E leve, como a sombra sobre a agua.

Era-te a vida um sonho. IndefinidoE tenue, mas suave e transparente…Acordaste, sorriste… e vagamenteContinuates o sonho interrompido.

1881.

Glückselig wer vorüberging am WehDes Lebens und der Leidenschaft GetoseUnwissend, wie vorübergeht die Rose,Und flüchtig, wie der Schatten ob der See.

Dein Leben war ein Traum, begriffen kaumUnd leicht und Lieblichkeit D'u trankest;Du wachtest auf und lacheltest und sankestZüruck in Deinen unterbroch'nen Traum.

Münster, abril, 91.

Dous ou tres dias antes da morte de Eduardo Coimbra (8, outubro, 84) escreveu Anthero esta bella quadra junto do leito, em que o moço poeta, quasi agonisante, lhe pedia «um improviso» para a carteira-album que pouco antes mandara comprar. Essa carteira offereceu-a a mãe do poeta em recordação dolorosa, ao fiel amigo, que rubricára n'ella o seu nome, junto do de Anthero, e que dias depois lhe entregava a chave do caixão do pobre Eduardo.

Pés em chagas, seguimos pela viaDolorosa, em demanda da Verdade;Mas achal-a entre os homens ninguem hade…Triste o que espera!triste o que confia!

1884.

Estes versos foram escriptos em Lisboa, para a collecção—Thesouro poetico da infancia, que o proprio auctor coordenou. Foram lidos no dia immediato a João de Deus, «que delles se mostrou satisfeito», como Anthero escrevia a um amigo. «Para mim, poeta de genero apocalyptico, foi um verdadeirotour de force.»

As fadas… eu creio n'ellas!Umas são moças e bellas,Outras, velhas de pasmar…Umas vivem nos rochedos,Outras, pelos arvoredos,Outras, á beira do mar…

Algumas em fonte friaEscondem-se, emquanto é dia,Sáem só ao escurecer…Outras, debaixo da terra,Nas grutas verdes da serra,É que se vão esconder…

O vestir… são taes riquezas,Que rainhas, nem princezasNenhuma assim se vestiu!Porque as riquezas das fadasSão sabidas, celebradasPor toda a gente que as viu…

Quando a noite é clara e amenaE a lua vae mais serena,Qualquer as póde espreitar,Fazendo roda, occupadasEm dobar suas meadasDe ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!Sentadinhas entre as flóresHoras se ficam sem fim,Cantando suas cantigas,Fiando suas estrigas,Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes d'algumas:Viviana ama as espumasDas ondas nos areaes,Vive junto ao mar, sósinha,Mas costuma ser madrinhaNos baptisados reaes.

Morgana é muito enganosa;Ás vezes, moça e formosa,E outras, velha, a rir, a rir…Ora festiva, ora grave,E vôa como uma ave,Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?De Titania, a pequenina,Que dorme sobre um jasmim?De cem outras, cuja gloriaEnche as paginas da historiaDos reinos de el-rei Merlin?

Umas tem mando nos áres;Outras, na terra, nos mares;E todas trazem na mãoAquella vara famosa,A vara maravilhosa,A varinha do condão.

O que ellas querem, n'um pronto,Fez-se alli! parece um conto…Mesmo de fadas… eu sei!São condões que dão á gente,Ou dinheiro reluzenteOu joias, que nem um rei!

A mais pobre creancinhaSe quiz ser sua madrinha,Uma fada… ai, que feliz!São palacios, n'um momento…Belleza, que é um portento…Riqueza, que nem se diz…

Ou então, prendas, talento,Sciencia, discernimento,Graças, chiste, discrição…Vê-se o pobre innocentinhoFeito um sabio, um adivinho,Que aos mais sabios vae á mão!

Mas, com tudo isto, as fadasSão muito desconfiadas;Quem as vê não hade rir.Querem ellas que as respeitem,E não gostam que as espreitem,Nem se lhes hade mentir.

Quem as offende… Cautela!A mais risonha, a mais bella,Torna-se logo tão má,Tão cruel, tão vingativa!É inimiga aggressiva,É serpente que alli está!

E têm vinganças terriveis!Semeiam cousas horriveis,Que nascem logo no chão…Linguas de fogo que estalam!Sapos com azas, que falam!Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente…O nariz faz-se serpente,A dar pulos, a crescer…É-se morcego ou veado…E anda-se assim encantado,Emquanto a fada quizer!

Por isso quem por estradasFôr, de noite, e vir as fadasNos altos mirando o céo,Deve com geito falar-lhesMuito cortez e tirar-lhesAté ao chão o chapéo.

Porque a fortuna da genteEstá ás vezes sómenteN'uma palavra que diz;Por uma palavra, engraçaUma fada com quem passa,E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, já deitado,Mas sem somno, inda acordado,Me ponho a considerarQue condão eu pediria,Se uma fada, um bello dia,Me quizesse a mim fadar…

O que seria? um thesouro?Um reino? um vestido de ouro?Ou um leito de marfim?Ou um palacio encantado,Com seu lago prateadoE com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quizesse,Pedir tambem que me désseUm condão, para falarA lingua dos passarinhos,Que conversam nos seus ninhos…Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,Alguma fada, engraçandoCommigo (podia ser!)Me tocasse da varinha,E fosse minha madrinhaMesmo a dormir, sem a vêr…

E que ámanhã acordasseE me achasse… eu sei? me achasseFeito um principe, um emir!…Até já, imaginando,Se estão meus olhos fechando…Deixa-me já, já dormir!


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