XXIXGUIMAR

XXIXGUIMAR

Dona Guimar—ou Dona Agueda—de Mexia, como lhe chama a licção do Alemtejo, é um interessante romancinho que apparece na tradição d’aquella provincia e na de Extremadura. Por ambas se apurou o texto que aqui dou.

Nem por outras provincias nossas, nem pelas collecções castelhanas ha outro vestigio d’elle, que eu saiba.

Não é muito antigo o stylo. Mas o facto celebrado é o de uma morte apparente com a qual parece se julgou dissolvido o matrimonio: e d’isto houve exemplos em tempos remotos em que tinham por certa a morte, e por verdadeira resurreição o tornar a si o supposto defuncto.

Seja porêm qual for a data d’esta composição, ha coplas d’ella que vão de par com o mais bello e original da poesia mais primitiva. Notarei especialmente a volta de Dom João á sua terra n’aquella manhan de maio, que os passarinhos cantavam, os sinos tangiam e o rir da natureza se misturava com o chorar dos homens. Tambem não creio que haja nada mais bello que estoutros versos quanto a morta vai tornando a si e pondo olhos no amante:

Volta a vida que se fôraCom todo o amor que não se ia.

Volta a vida que se fôraCom todo o amor que não se ia.

Volta a vida que se fôraCom todo o amor que não se ia.

Volta a vida que se fôra

Com todo o amor que não se ia.

Era a menina mais linda[92]Que n’aquella terra havia;Tam formosa e tam discretaDe outra egual se não sabia.Muito lhe quer Dom João,Muito demais lhe queria:Seus amores, seus requebrosNão cessam de noite e dia.Por fidalgo e gentil moçoNinguem tanto a merecia;Senão que o pae da donzella[93]Outro conselho seguia:Casá-la quer muito riccaCom um mercador que ahi havia,Sem fazer caso de amores,Sem lhe importar fidalguia.Dom João, quando isto soube[94],Por pouco se não morria:Foi-se d’alli muito longeSem dizer para onde ia.Tres mezes por lá andou,Tres mezes n’essa agonia;A vida que lhe pesavaSoffrê-la ja não podia.Mandou sellar seu cavalloSem cuidar no que fazia;Deitou por esses caminhosSem saber adonde ia.O cavallo é quem mandava,Cavalleiro obedecia.Passou por terras e terras,Nenhuma não conhecia.Á sua tinha chegado,Onde estava não sabia.Era por manhan de maio,Todo o campo florecia,Os passarinhos cantavam,O prado verde surria;Lá de dentro da cidadeUm triste clamor se ouviaEram sinos a dobrar,E era toda a clerezia,Eram nobres, era povoQue da egreja sahia...Entrou de portas a dentro,De rua em rua seguia,Chegou á de sua dama[95],Essa sim que a conhecia.As casas onde morava,Janellas aonde a via,Tudo é cuberto de preto,Mais preto que ser podia[96].Mandou chamar uma dona[97]Que ella comsigo trazia:—‘Dizei-me por Deus, senhora,Dizei-me por cortezia,Esse lutto tam pesadoPor quem trazeis, que seria?’—‘Trago-o por minha senhora,Dona Guimar de Mexia[98],Que é com Deus a sua alma,Seu corpo na terra fria.E por vós foi, Dom João,Por vosso amor que morria[99].’Dom João quando isto ouviu[100]Por morto em terra cahia,Mas a dor era tammanha[101]Que á fôrça d’ella vivia.Os seus olhos não choravam,Sua bôcca não se abria.Mirava a gente em redorPara ver o que faria.Vestiu-se todo de preto,Mais preto que ser podia[102],Foi-se direito á egrejaOnde sua dama jazia[103]:—‘Eu te rogo, sacristão,Por Deus e Sancta Maria,Eu te rogo que me ajudes[104]A erguer ésta campa fria.’Alli a viu tam formosaTal como d’antes, a via;Alli, morta, sepultada,Inda outra egual não havia,Pôs os joelhos em terra,Os braços ao ceo erguia,Jurou a Deus e á sua almaQue mais a não deixaria.Puchou de seu punhal de oiro[105],Que na cintura trazia,Para a accompanhar na morteJa que em vida não podia.Mas não quiz a Virgem sancta[106],A Virgem Sancta Maria,Que assim se perdesse uma almaQue só de amor se perdia.Por juizo alto de DeusUm milagre se fazia:A defuncta a mão direitaAo seu amante extendia,Seus lindos olhos se abriram,A sua bôcca sorria;Volta a vida que se fôra,Com todo o amor que não se ia.Seu pae, o foram buscar,Que ja estava na agonia;Véem amigos, véem parentes,Todos em grande alegria.Dão graças á Sancta Virgem,Cujo milagre seria;E a Dom João dão a espôsa,Que tam bem a merecia.

Era a menina mais linda[92]Que n’aquella terra havia;Tam formosa e tam discretaDe outra egual se não sabia.Muito lhe quer Dom João,Muito demais lhe queria:Seus amores, seus requebrosNão cessam de noite e dia.Por fidalgo e gentil moçoNinguem tanto a merecia;Senão que o pae da donzella[93]Outro conselho seguia:Casá-la quer muito riccaCom um mercador que ahi havia,Sem fazer caso de amores,Sem lhe importar fidalguia.Dom João, quando isto soube[94],Por pouco se não morria:Foi-se d’alli muito longeSem dizer para onde ia.Tres mezes por lá andou,Tres mezes n’essa agonia;A vida que lhe pesavaSoffrê-la ja não podia.Mandou sellar seu cavalloSem cuidar no que fazia;Deitou por esses caminhosSem saber adonde ia.O cavallo é quem mandava,Cavalleiro obedecia.Passou por terras e terras,Nenhuma não conhecia.Á sua tinha chegado,Onde estava não sabia.Era por manhan de maio,Todo o campo florecia,Os passarinhos cantavam,O prado verde surria;Lá de dentro da cidadeUm triste clamor se ouviaEram sinos a dobrar,E era toda a clerezia,Eram nobres, era povoQue da egreja sahia...Entrou de portas a dentro,De rua em rua seguia,Chegou á de sua dama[95],Essa sim que a conhecia.As casas onde morava,Janellas aonde a via,Tudo é cuberto de preto,Mais preto que ser podia[96].Mandou chamar uma dona[97]Que ella comsigo trazia:—‘Dizei-me por Deus, senhora,Dizei-me por cortezia,Esse lutto tam pesadoPor quem trazeis, que seria?’—‘Trago-o por minha senhora,Dona Guimar de Mexia[98],Que é com Deus a sua alma,Seu corpo na terra fria.E por vós foi, Dom João,Por vosso amor que morria[99].’Dom João quando isto ouviu[100]Por morto em terra cahia,Mas a dor era tammanha[101]Que á fôrça d’ella vivia.Os seus olhos não choravam,Sua bôcca não se abria.Mirava a gente em redorPara ver o que faria.Vestiu-se todo de preto,Mais preto que ser podia[102],Foi-se direito á egrejaOnde sua dama jazia[103]:—‘Eu te rogo, sacristão,Por Deus e Sancta Maria,Eu te rogo que me ajudes[104]A erguer ésta campa fria.’Alli a viu tam formosaTal como d’antes, a via;Alli, morta, sepultada,Inda outra egual não havia,Pôs os joelhos em terra,Os braços ao ceo erguia,Jurou a Deus e á sua almaQue mais a não deixaria.Puchou de seu punhal de oiro[105],Que na cintura trazia,Para a accompanhar na morteJa que em vida não podia.Mas não quiz a Virgem sancta[106],A Virgem Sancta Maria,Que assim se perdesse uma almaQue só de amor se perdia.Por juizo alto de DeusUm milagre se fazia:A defuncta a mão direitaAo seu amante extendia,Seus lindos olhos se abriram,A sua bôcca sorria;Volta a vida que se fôra,Com todo o amor que não se ia.Seu pae, o foram buscar,Que ja estava na agonia;Véem amigos, véem parentes,Todos em grande alegria.Dão graças á Sancta Virgem,Cujo milagre seria;E a Dom João dão a espôsa,Que tam bem a merecia.

Era a menina mais linda[92]Que n’aquella terra havia;Tam formosa e tam discretaDe outra egual se não sabia.Muito lhe quer Dom João,Muito demais lhe queria:Seus amores, seus requebrosNão cessam de noite e dia.Por fidalgo e gentil moçoNinguem tanto a merecia;Senão que o pae da donzella[93]Outro conselho seguia:Casá-la quer muito riccaCom um mercador que ahi havia,Sem fazer caso de amores,Sem lhe importar fidalguia.Dom João, quando isto soube[94],Por pouco se não morria:Foi-se d’alli muito longeSem dizer para onde ia.Tres mezes por lá andou,Tres mezes n’essa agonia;A vida que lhe pesavaSoffrê-la ja não podia.Mandou sellar seu cavalloSem cuidar no que fazia;Deitou por esses caminhosSem saber adonde ia.O cavallo é quem mandava,Cavalleiro obedecia.Passou por terras e terras,Nenhuma não conhecia.Á sua tinha chegado,Onde estava não sabia.Era por manhan de maio,Todo o campo florecia,Os passarinhos cantavam,O prado verde surria;Lá de dentro da cidadeUm triste clamor se ouviaEram sinos a dobrar,E era toda a clerezia,Eram nobres, era povoQue da egreja sahia...Entrou de portas a dentro,De rua em rua seguia,Chegou á de sua dama[95],Essa sim que a conhecia.As casas onde morava,Janellas aonde a via,Tudo é cuberto de preto,Mais preto que ser podia[96].Mandou chamar uma dona[97]Que ella comsigo trazia:—‘Dizei-me por Deus, senhora,Dizei-me por cortezia,Esse lutto tam pesadoPor quem trazeis, que seria?’—‘Trago-o por minha senhora,Dona Guimar de Mexia[98],Que é com Deus a sua alma,Seu corpo na terra fria.E por vós foi, Dom João,Por vosso amor que morria[99].’Dom João quando isto ouviu[100]Por morto em terra cahia,Mas a dor era tammanha[101]Que á fôrça d’ella vivia.Os seus olhos não choravam,Sua bôcca não se abria.Mirava a gente em redorPara ver o que faria.Vestiu-se todo de preto,Mais preto que ser podia[102],Foi-se direito á egrejaOnde sua dama jazia[103]:—‘Eu te rogo, sacristão,Por Deus e Sancta Maria,Eu te rogo que me ajudes[104]A erguer ésta campa fria.’Alli a viu tam formosaTal como d’antes, a via;Alli, morta, sepultada,Inda outra egual não havia,Pôs os joelhos em terra,Os braços ao ceo erguia,Jurou a Deus e á sua almaQue mais a não deixaria.Puchou de seu punhal de oiro[105],Que na cintura trazia,Para a accompanhar na morteJa que em vida não podia.Mas não quiz a Virgem sancta[106],A Virgem Sancta Maria,Que assim se perdesse uma almaQue só de amor se perdia.Por juizo alto de DeusUm milagre se fazia:A defuncta a mão direitaAo seu amante extendia,Seus lindos olhos se abriram,A sua bôcca sorria;Volta a vida que se fôra,Com todo o amor que não se ia.Seu pae, o foram buscar,Que ja estava na agonia;Véem amigos, véem parentes,Todos em grande alegria.Dão graças á Sancta Virgem,Cujo milagre seria;E a Dom João dão a espôsa,Que tam bem a merecia.

Era a menina mais linda[92]

Que n’aquella terra havia;

Tam formosa e tam discreta

De outra egual se não sabia.

Muito lhe quer Dom João,

Muito demais lhe queria:

Seus amores, seus requebros

Não cessam de noite e dia.

Por fidalgo e gentil moço

Ninguem tanto a merecia;

Senão que o pae da donzella[93]

Outro conselho seguia:

Casá-la quer muito ricca

Com um mercador que ahi havia,

Sem fazer caso de amores,

Sem lhe importar fidalguia.

Dom João, quando isto soube[94],

Por pouco se não morria:

Foi-se d’alli muito longe

Sem dizer para onde ia.

Tres mezes por lá andou,

Tres mezes n’essa agonia;

A vida que lhe pesava

Soffrê-la ja não podia.

Mandou sellar seu cavallo

Sem cuidar no que fazia;

Deitou por esses caminhos

Sem saber adonde ia.

O cavallo é quem mandava,

Cavalleiro obedecia.

Passou por terras e terras,

Nenhuma não conhecia.

Á sua tinha chegado,

Onde estava não sabia.

Era por manhan de maio,

Todo o campo florecia,

Os passarinhos cantavam,

O prado verde surria;

Lá de dentro da cidade

Um triste clamor se ouvia

Eram sinos a dobrar,

E era toda a clerezia,

Eram nobres, era povo

Que da egreja sahia...

Entrou de portas a dentro,

De rua em rua seguia,

Chegou á de sua dama[95],

Essa sim que a conhecia.

As casas onde morava,

Janellas aonde a via,

Tudo é cuberto de preto,

Mais preto que ser podia[96].

Mandou chamar uma dona[97]

Que ella comsigo trazia:

—‘Dizei-me por Deus, senhora,

Dizei-me por cortezia,

Esse lutto tam pesado

Por quem trazeis, que seria?’

—‘Trago-o por minha senhora,

Dona Guimar de Mexia[98],

Que é com Deus a sua alma,

Seu corpo na terra fria.

E por vós foi, Dom João,

Por vosso amor que morria[99].’

Dom João quando isto ouviu[100]

Por morto em terra cahia,

Mas a dor era tammanha[101]

Que á fôrça d’ella vivia.

Os seus olhos não choravam,

Sua bôcca não se abria.

Mirava a gente em redor

Para ver o que faria.

Vestiu-se todo de preto,

Mais preto que ser podia[102],

Foi-se direito á egreja

Onde sua dama jazia[103]:

—‘Eu te rogo, sacristão,

Por Deus e Sancta Maria,

Eu te rogo que me ajudes[104]

A erguer ésta campa fria.’

Alli a viu tam formosa

Tal como d’antes, a via;

Alli, morta, sepultada,

Inda outra egual não havia,

Pôs os joelhos em terra,

Os braços ao ceo erguia,

Jurou a Deus e á sua alma

Que mais a não deixaria.

Puchou de seu punhal de oiro[105],

Que na cintura trazia,

Para a accompanhar na morte

Ja que em vida não podia.

Mas não quiz a Virgem sancta[106],

A Virgem Sancta Maria,

Que assim se perdesse uma alma

Que só de amor se perdia.

Por juizo alto de Deus

Um milagre se fazia:

A defuncta a mão direita

Ao seu amante extendia,

Seus lindos olhos se abriram,

A sua bôcca sorria;

Volta a vida que se fôra,

Com todo o amor que não se ia.

Seu pae, o foram buscar,

Que ja estava na agonia;

Véem amigos, véem parentes,

Todos em grande alegria.

Dão graças á Sancta Virgem,

Cujo milagre seria;

E a Dom João dão a espôsa,

Que tam bem a merecia.


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