XXVIIIA NOIVA ARRAIANA

XXVIIIA NOIVA ARRAIANA

Veio de Almeida ésta xácara; e de nenhuma outra parte do reino me chegou outra licção d’ella, nem vestigio. Bem antiga me parece. O fronteiro que mandou ao mar a armada do cavalleiro ausente, faz pensar que isto seja coisa do tempo das nossas emprezas de Africa. O logar da scena é inquestionavelmente na raia—e bem pôsto está ao romance o titulo de ‘Noiva arraiana’. Mas aqui ha mar, e armadas que vão ao mar: não póde pois ser outra a raia senão a do Algarve. O stylo da cantiga é ingenuo e purissimo; os costumes que descreve primitivos e patriarchaes; ha um sabor homerico n’este narrar e n’este fallar, que ninguem póde confundir com o dizer estudado de trovadores mais modernos. Poetas de civilisaçãomais adeantada não sabem ou não podem chegar tanto a rés da natureza.

O facto é simples e mil vezes visto. Outra edição da Lucia de Lamermoor, outro cavalleiro de Ravenswood que apparece de repente no meio da voda de sua debil e mal constante namorada, quando ella, ja desposada com outro, menos esperava tornar a ver o primeiro amante—o seu, o que ella unicamente quer. Quem não lembra de Walter-Scott, e de Donizetti tambem, e do que vibram na alma as palavras de um, as notas do outro, inspiradas por ésta situação altamente dramatica; sublime de angústia e desesperação?

O nosso trovador arraiano tomou as coisas com mais tento e socêgo; não indoudeceu nem mattou a sua Lucia; e nem d’ella nem do seu Ravenswood nos diz que mattassem a mais ninguem. O cavalleiro portuguez faz justiça por outro modo nos que o tinham atraiçoado. Levou-lhes a noiva, e deixou-lhes ficar a voda e o jantar.

—‘Deus vos salve, minha tia,Na vossa roca a fiar!’—‘Venha embora o cavalleiroTam cortez no seu fallar!’—‘Má hora se elle foi, tia,—‘Má hora torna a voltar!Que ja ninguem o conheceDe mudado que hade estar.Por lá o mattassem moiros,Se assim tinha de tornar!’—‘Ai sobrinho de minha alma,Que es tu pelo teu fallar!Não ves estes olhos, filho,Que cegaram de chorar?’—‘E meu pae e minha mãe,Tia, que os quero abraçar?’—‘Teu pae é morto, sobrinho,Tua mãe foi a interrar.’—‘Qu’é da minha armada, tia,Que eu aqui mandei estar?’—‘A tua armada, sobrinho,Mandou-a o fronteiro ao mar.’—‘Qu’é do meu cavallo, tia,Que eu aqui deixei ficar?’—‘O teu cavallo, sobrinho,Elrei o mandou tomar.’—‘Qu’é de minha dama, tia,Que aqui ficou a chorar?’—‘Tua dama faz hoje a voda,Ámanhan se vai casar.’—‘Dizei-me onde é, minha tia,Que me quero lá chegar.’—‘Sobrinho, não digo, não,Que te podem lá mattar.’—‘Não me mattam, minha tia;Cortezia eu sei usar:E onde faltar cortezia,Ésta espada hade chegar.’—‘Salve Deus, ó lá da voda,Em bem seja o seu folgar!’—‘Venha embora o cavalleiro,E que se chegue ao jantar!’—‘Eu não pretendo da vodaNem tam pouco do jantar;Pretendo fallar á noiva,Que é minha prima carnal.’Vindo ella lá de dentroToda lavada em chorar,Mal que viu o cavalleiro,Quiz morrer, quiz desmaiar.—‘Se tu choras por me veres,Ja me quero retirar;Se é os teus gastos que choras,Aqui estou para os pagar.’—‘Pagar devia co’a vidaQuem me queria inganar,Quando te deram por mortoN’essas terras d’além-mar.Mas que fiquem com a vodaE bem lhes preste o jantar,Que os meus primeiros amoresNinguem m’os hade quitar.’—‘Venha juiz de Castella,Alcaide de Portugal;Que, se aqui não ha justiça,Co’ésta espada a heide tomar.’

—‘Deus vos salve, minha tia,Na vossa roca a fiar!’—‘Venha embora o cavalleiroTam cortez no seu fallar!’—‘Má hora se elle foi, tia,—‘Má hora torna a voltar!Que ja ninguem o conheceDe mudado que hade estar.Por lá o mattassem moiros,Se assim tinha de tornar!’—‘Ai sobrinho de minha alma,Que es tu pelo teu fallar!Não ves estes olhos, filho,Que cegaram de chorar?’—‘E meu pae e minha mãe,Tia, que os quero abraçar?’—‘Teu pae é morto, sobrinho,Tua mãe foi a interrar.’—‘Qu’é da minha armada, tia,Que eu aqui mandei estar?’—‘A tua armada, sobrinho,Mandou-a o fronteiro ao mar.’—‘Qu’é do meu cavallo, tia,Que eu aqui deixei ficar?’—‘O teu cavallo, sobrinho,Elrei o mandou tomar.’—‘Qu’é de minha dama, tia,Que aqui ficou a chorar?’—‘Tua dama faz hoje a voda,Ámanhan se vai casar.’—‘Dizei-me onde é, minha tia,Que me quero lá chegar.’—‘Sobrinho, não digo, não,Que te podem lá mattar.’—‘Não me mattam, minha tia;Cortezia eu sei usar:E onde faltar cortezia,Ésta espada hade chegar.’—‘Salve Deus, ó lá da voda,Em bem seja o seu folgar!’—‘Venha embora o cavalleiro,E que se chegue ao jantar!’—‘Eu não pretendo da vodaNem tam pouco do jantar;Pretendo fallar á noiva,Que é minha prima carnal.’Vindo ella lá de dentroToda lavada em chorar,Mal que viu o cavalleiro,Quiz morrer, quiz desmaiar.—‘Se tu choras por me veres,Ja me quero retirar;Se é os teus gastos que choras,Aqui estou para os pagar.’—‘Pagar devia co’a vidaQuem me queria inganar,Quando te deram por mortoN’essas terras d’além-mar.Mas que fiquem com a vodaE bem lhes preste o jantar,Que os meus primeiros amoresNinguem m’os hade quitar.’—‘Venha juiz de Castella,Alcaide de Portugal;Que, se aqui não ha justiça,Co’ésta espada a heide tomar.’

—‘Deus vos salve, minha tia,Na vossa roca a fiar!’—‘Venha embora o cavalleiroTam cortez no seu fallar!’—‘Má hora se elle foi, tia,—‘Má hora torna a voltar!Que ja ninguem o conheceDe mudado que hade estar.Por lá o mattassem moiros,Se assim tinha de tornar!’—‘Ai sobrinho de minha alma,Que es tu pelo teu fallar!Não ves estes olhos, filho,Que cegaram de chorar?’—‘E meu pae e minha mãe,Tia, que os quero abraçar?’—‘Teu pae é morto, sobrinho,Tua mãe foi a interrar.’—‘Qu’é da minha armada, tia,Que eu aqui mandei estar?’—‘A tua armada, sobrinho,Mandou-a o fronteiro ao mar.’—‘Qu’é do meu cavallo, tia,Que eu aqui deixei ficar?’—‘O teu cavallo, sobrinho,Elrei o mandou tomar.’—‘Qu’é de minha dama, tia,Que aqui ficou a chorar?’—‘Tua dama faz hoje a voda,Ámanhan se vai casar.’—‘Dizei-me onde é, minha tia,Que me quero lá chegar.’—‘Sobrinho, não digo, não,Que te podem lá mattar.’—‘Não me mattam, minha tia;Cortezia eu sei usar:E onde faltar cortezia,Ésta espada hade chegar.’

—‘Deus vos salve, minha tia,

Na vossa roca a fiar!’

—‘Venha embora o cavalleiro

Tam cortez no seu fallar!’

—‘Má hora se elle foi, tia,

—‘Má hora torna a voltar!

Que ja ninguem o conhece

De mudado que hade estar.

Por lá o mattassem moiros,

Se assim tinha de tornar!’

—‘Ai sobrinho de minha alma,

Que es tu pelo teu fallar!

Não ves estes olhos, filho,

Que cegaram de chorar?’

—‘E meu pae e minha mãe,

Tia, que os quero abraçar?’

—‘Teu pae é morto, sobrinho,

Tua mãe foi a interrar.’

—‘Qu’é da minha armada, tia,

Que eu aqui mandei estar?’

—‘A tua armada, sobrinho,

Mandou-a o fronteiro ao mar.’

—‘Qu’é do meu cavallo, tia,

Que eu aqui deixei ficar?’

—‘O teu cavallo, sobrinho,

Elrei o mandou tomar.’

—‘Qu’é de minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?’

—‘Tua dama faz hoje a voda,

Ámanhan se vai casar.’

—‘Dizei-me onde é, minha tia,

Que me quero lá chegar.’

—‘Sobrinho, não digo, não,

Que te podem lá mattar.’

—‘Não me mattam, minha tia;

Cortezia eu sei usar:

E onde faltar cortezia,

Ésta espada hade chegar.’

—‘Salve Deus, ó lá da voda,Em bem seja o seu folgar!’—‘Venha embora o cavalleiro,E que se chegue ao jantar!’—‘Eu não pretendo da vodaNem tam pouco do jantar;Pretendo fallar á noiva,Que é minha prima carnal.’

—‘Salve Deus, ó lá da voda,

Em bem seja o seu folgar!’

—‘Venha embora o cavalleiro,

E que se chegue ao jantar!’

—‘Eu não pretendo da voda

Nem tam pouco do jantar;

Pretendo fallar á noiva,

Que é minha prima carnal.’

Vindo ella lá de dentroToda lavada em chorar,Mal que viu o cavalleiro,Quiz morrer, quiz desmaiar.—‘Se tu choras por me veres,Ja me quero retirar;Se é os teus gastos que choras,Aqui estou para os pagar.’—‘Pagar devia co’a vidaQuem me queria inganar,Quando te deram por mortoN’essas terras d’além-mar.Mas que fiquem com a vodaE bem lhes preste o jantar,Que os meus primeiros amoresNinguem m’os hade quitar.’

Vindo ella lá de dentro

Toda lavada em chorar,

Mal que viu o cavalleiro,

Quiz morrer, quiz desmaiar.

—‘Se tu choras por me veres,

Ja me quero retirar;

Se é os teus gastos que choras,

Aqui estou para os pagar.’

—‘Pagar devia co’a vida

Quem me queria inganar,

Quando te deram por morto

N’essas terras d’além-mar.

Mas que fiquem com a voda

E bem lhes preste o jantar,

Que os meus primeiros amores

Ninguem m’os hade quitar.’

—‘Venha juiz de Castella,Alcaide de Portugal;Que, se aqui não ha justiça,Co’ésta espada a heide tomar.’

—‘Venha juiz de Castella,

Alcaide de Portugal;

Que, se aqui não ha justiça,

Co’ésta espada a heide tomar.’


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