XXXIIAVALOR

XXXIIAVALOR

Este, que é verdadeiro romance na fórma assim como no stylo, parece ter sido feito á partida da infanta para Saboia, ou talvez por occasião da viagem que Bernardim-Ribeiro alli fez para a ver.

Fôsse como ou quando fôsse, elle é admiravel. Ha menos artificio metrico, não menos belleza de poesia que nos outros, não menos sentimento. O stylo é mais desleixado, mais vago, mais de romance.

Em todas as vastissimas collecções castelhanas não ha nada tam bello de elegante simplicidade. Ja se vê que não faço a comparação no genero heroico ou historico; digo-o dos romances de amor e aventura.

Pela ribeira de um rioQue leva as aguas ao mar,Vai o triste de Avalor,Não sabe se hade tornar.As aguas levam seu bem,Elle leva o seu pesar;E so vai, sem companhia,Que os seus fôra elle leixar;[118]Ca quem não leva descançoDescança em so caminhar.Descontra d’onde ia a barca,Se ia o sol a baixar;Indo-se abaixando o sol,Escurecia-se o ar;Tudo se fazia tristeQuanto havia de ficar.Da barca levantam remos,E ao som do remarComeçaram os remeirosDa barca este cantar:—‘Que frias eram as aguas!Quem as haverá de passar?’Dos outros barcos respondem:—‘Quem as haverá de passar?’Frias são as aguas, frias,Ninguem n’as póde passar;Senão quem pôs a vontadeDonde a não póde tirar.[119]Tra’la barca lhe vão olhosQuanto o dia dá logar:Não durou muito, que o bemNão póde muito durar.Vendo o sol pôsto contr’elle[120],Não teve mais que pensar;Soltou redeas ao cavalloÁ beira do rio a andar.A noite era calladaPera mais o magoar,Que ao compasso dos remosEra o seu suspirar.Querer contar suas mágoasSeria areias contar;Quanto mais ia alongando,Se ia alongando o soar.Dos seus ouvidos aos olhosA tristeza foi egualar;Assi como ia a cavalloFoi pela agua dentro entrar.E dando um longo suspiroOuvia longe fallar:Onde mágoas levam olhos,Vão tambem corpo levar.Mas indo assi por acêrto,Foi c’um barco n’agua darQue estava amarrado á terra,E seu dono era a folgar.Saltou assi como ia, dentro,E foi a amarra cortar:A corrente e a maréAcertaram-n’o a ajudar.Não sabem mais que foi d’elle,Nem novas se podem achar:Suspeitaram que foi morto,Mas não é pera affirmar:Que o imbarcou ventura,Pera so isso aguardar.Mas mais são as mágoas do marDo que se podem curar.

Pela ribeira de um rioQue leva as aguas ao mar,Vai o triste de Avalor,Não sabe se hade tornar.As aguas levam seu bem,Elle leva o seu pesar;E so vai, sem companhia,Que os seus fôra elle leixar;[118]Ca quem não leva descançoDescança em so caminhar.Descontra d’onde ia a barca,Se ia o sol a baixar;Indo-se abaixando o sol,Escurecia-se o ar;Tudo se fazia tristeQuanto havia de ficar.Da barca levantam remos,E ao som do remarComeçaram os remeirosDa barca este cantar:—‘Que frias eram as aguas!Quem as haverá de passar?’Dos outros barcos respondem:—‘Quem as haverá de passar?’Frias são as aguas, frias,Ninguem n’as póde passar;Senão quem pôs a vontadeDonde a não póde tirar.[119]Tra’la barca lhe vão olhosQuanto o dia dá logar:Não durou muito, que o bemNão póde muito durar.Vendo o sol pôsto contr’elle[120],Não teve mais que pensar;Soltou redeas ao cavalloÁ beira do rio a andar.A noite era calladaPera mais o magoar,Que ao compasso dos remosEra o seu suspirar.Querer contar suas mágoasSeria areias contar;Quanto mais ia alongando,Se ia alongando o soar.Dos seus ouvidos aos olhosA tristeza foi egualar;Assi como ia a cavalloFoi pela agua dentro entrar.E dando um longo suspiroOuvia longe fallar:Onde mágoas levam olhos,Vão tambem corpo levar.Mas indo assi por acêrto,Foi c’um barco n’agua darQue estava amarrado á terra,E seu dono era a folgar.Saltou assi como ia, dentro,E foi a amarra cortar:A corrente e a maréAcertaram-n’o a ajudar.Não sabem mais que foi d’elle,Nem novas se podem achar:Suspeitaram que foi morto,Mas não é pera affirmar:Que o imbarcou ventura,Pera so isso aguardar.Mas mais são as mágoas do marDo que se podem curar.

Pela ribeira de um rioQue leva as aguas ao mar,Vai o triste de Avalor,Não sabe se hade tornar.As aguas levam seu bem,Elle leva o seu pesar;E so vai, sem companhia,Que os seus fôra elle leixar;[118]Ca quem não leva descançoDescança em so caminhar.Descontra d’onde ia a barca,Se ia o sol a baixar;Indo-se abaixando o sol,Escurecia-se o ar;Tudo se fazia tristeQuanto havia de ficar.Da barca levantam remos,E ao som do remarComeçaram os remeirosDa barca este cantar:—‘Que frias eram as aguas!Quem as haverá de passar?’Dos outros barcos respondem:—‘Quem as haverá de passar?’Frias são as aguas, frias,Ninguem n’as póde passar;Senão quem pôs a vontadeDonde a não póde tirar.[119]Tra’la barca lhe vão olhosQuanto o dia dá logar:Não durou muito, que o bemNão póde muito durar.Vendo o sol pôsto contr’elle[120],Não teve mais que pensar;Soltou redeas ao cavalloÁ beira do rio a andar.A noite era calladaPera mais o magoar,Que ao compasso dos remosEra o seu suspirar.Querer contar suas mágoasSeria areias contar;Quanto mais ia alongando,Se ia alongando o soar.Dos seus ouvidos aos olhosA tristeza foi egualar;Assi como ia a cavalloFoi pela agua dentro entrar.E dando um longo suspiroOuvia longe fallar:Onde mágoas levam olhos,Vão tambem corpo levar.Mas indo assi por acêrto,Foi c’um barco n’agua darQue estava amarrado á terra,E seu dono era a folgar.Saltou assi como ia, dentro,E foi a amarra cortar:A corrente e a maréAcertaram-n’o a ajudar.Não sabem mais que foi d’elle,Nem novas se podem achar:Suspeitaram que foi morto,Mas não é pera affirmar:Que o imbarcou ventura,Pera so isso aguardar.Mas mais são as mágoas do marDo que se podem curar.

Pela ribeira de um rio

Que leva as aguas ao mar,

Vai o triste de Avalor,

Não sabe se hade tornar.

As aguas levam seu bem,

Elle leva o seu pesar;

E so vai, sem companhia,

Que os seus fôra elle leixar;[118]

Ca quem não leva descanço

Descança em so caminhar.

Descontra d’onde ia a barca,

Se ia o sol a baixar;

Indo-se abaixando o sol,

Escurecia-se o ar;

Tudo se fazia triste

Quanto havia de ficar.

Da barca levantam remos,

E ao som do remar

Começaram os remeiros

Da barca este cantar:

—‘Que frias eram as aguas!

Quem as haverá de passar?’

Dos outros barcos respondem:

—‘Quem as haverá de passar?’

Frias são as aguas, frias,

Ninguem n’as póde passar;

Senão quem pôs a vontade

Donde a não póde tirar.[119]

Tra’la barca lhe vão olhos

Quanto o dia dá logar:

Não durou muito, que o bem

Não póde muito durar.

Vendo o sol pôsto contr’elle[120],

Não teve mais que pensar;

Soltou redeas ao cavallo

Á beira do rio a andar.

A noite era callada

Pera mais o magoar,

Que ao compasso dos remos

Era o seu suspirar.

Querer contar suas mágoas

Seria areias contar;

Quanto mais ia alongando,

Se ia alongando o soar.

Dos seus ouvidos aos olhos

A tristeza foi egualar;

Assi como ia a cavallo

Foi pela agua dentro entrar.

E dando um longo suspiro

Ouvia longe fallar:

Onde mágoas levam olhos,

Vão tambem corpo levar.

Mas indo assi por acêrto,

Foi c’um barco n’agua dar

Que estava amarrado á terra,

E seu dono era a folgar.

Saltou assi como ia, dentro,

E foi a amarra cortar:

A corrente e a maré

Acertaram-n’o a ajudar.

Não sabem mais que foi d’elle,

Nem novas se podem achar:

Suspeitaram que foi morto,

Mas não é pera affirmar:

Que o imbarcou ventura,

Pera so isso aguardar.

Mas mais são as mágoas do mar

Do que se podem curar.


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