CANTO III.

O insigne Santareno. Nestes termos

Desta guerra he forsozo darlhe parte.

Tu pois asim lhe dize: Que abalados

Do sopro da Discordia os Povos Áqueos

Nos tem guerra jurado, e alta vingansa:

Que cumpre rezistirlhes: boms soldados

Prezentar em campanha; e dar conserva

Ao uzo introduzido, á grata pose

De ser somente o vinho quem nas mezas

A sede satisfasa; porque he esta

A cauza principal de seus rancores.

Que eu dele a empreza fio; que entre os Luzos

Eu quero que ele só sustente a guerra.

Depois um giro faze, e aos meus Soldados

De toda a Luzitania que em Coimbra

Axarse devaõ logo intíma as ordems.

Dise, e partiu voando o mensajeiro,

Até que as pandas azas encolhendo,

Das letras, e das lamas sobre a Terra

Os talares pouzou bordados d'oiro.

Era dia d'Entrudo, e nas baiúcas

O sujo canjirão vazando as pipas

Aos freguezes enxia os grandes copos.

Avia um confuzisimo barulho:

Ferviaõ da janela as laranjadas:

Surriadas, apupos, algazarras,

Os esguixos, os pós, o rabo-leva

Tudo em dezordem poim. Vendo Cilenio

Extravagancias tais pasmado fica.

Pensa naõ de Coimbra ver os montes,

Sim da fertil Beocia o graõ Citéron

Retumbando medonho em noite d'Orgias.

Entaõ do incomparavel Santareno

Na surtida taverna entre a balburda

Da fumoza vinhasa ardia o fogo.

Mais meia canadinha

de uma parte

Caído o beiso, e os carregados olhos

A custo abrindo, c'uma vos fanhoza

Pedia um dos da corja amotinada.

D'outra parte fazendo uma carranca

Sobre tres azeitonas apostava

Outro que tal que xuparia um frasco.

Qual aos murros andava; qual seis copos

Tendo ja feito em cacos, com nos'ama

Ateimava furiozo em naõ pagarlhos.

Daqui aos encontroins ums vinhaõ vindo

Afétando de serios; esbarravaõ

Comsigo nas esquinas dali outros.

Mas o Filho de Maia cautelozo

Opurtuna monsaõ de entrar espreita.

Em fim axa uma aberta, lestes rompe,

Dá sinal, tem lisensa, á sala sobe,

E d'ambos os Espozos poinse á face,

Declaralhes quem he, de quem mandado,

E da sua Embaixada o fim precizo.

Sem saber o que fasaõ, largo espaso

Ficárão um e outro embasbacados.

Ele indo com as mãos logo á cabesa

Cosávase, e na sordida poltrona

Aflito

stare loco nesciebat

:

Ela está feito, la melhor compunha

O seu recado. Finalmente o tempo

Ja fazia dar oras ás barrigas,

E devia jantarse. A Liberdade

Entaõ dezempesando as linguas rudes

A terreiro os tirou, e mais ouzados

Entrárão a seu modo a perguntarlhe

Alegres sobre Baco muitas coizas,

Muitas sobre Sileno. Dos guizados

Da meza o xeiro ja neste comenos

Consolava os narizes circumstantes.

Pedida a taõ grande ospede lisensa

Subito se arregasa o Santareno,

E rogando o onráse, á cabeseira

Da bem provida meza, instanciozo

Para um pouco comer fes asentalo.

Ja no vidro dos pratos retiniaõ

Resaltadas da carne as trinxadelas.

(Podiaõse na gula encarnisados

Ver os gordos Consortes dando aos buxos

Tasalhos de prezunto tremendisimos!)

Mastigando apresados resmungavaõ,

E do ospede em onra mil saudes

Uma apos outra sem sesar faziaõ.

Mercurio da franqueza naõ pensada

O fausto aparatozo em tal albergue

Naõ podia admirar quanto era justo,

Porque alem das perguntas enfadonhas

A que cortês com présa respondia,

De um pouco reparar deixar naõ pôde

Nos vetustos paineis enfarruscados

Que adornavaõ em roda a estreita sala.

Em um deles se via inda no berso

Entregue a Ino o pequenino Baco

Tendo as Nimfas em torno, e juntamente

As Hiadas, e as Horas. Logo n'outro

Ja crescido plantava o bom bacelo,

Ja o campo baldio agricultava.

Viase mais n'um majestozo quadro

O severo rigor de seus castigos.

Estava de Licurgo o cazo infando;

Mas ja com negra côr, ja roto o pano.

Com tudo ao natural se devizava

Golpeando ele mesmo as pernas suas.

Aqui o filho de Echion Tebano

Pela sua familia enfurecida

Se via cruelmente espedasado.

Ali de Meduline o parricidio,

Mais abaixo Penthêo ás Furias dado.

Sobre tudo a fatal metamorfoze

Se admirava em leaõ fulvi-comado

Nos gigantes cevando ávida sanha.

Mas ja baixando o Sol, surgia a Noite.

Trata Mercurio de partirse prestes;

Dos gordos Santarenos se despede,

Que falando ambos juntos, em confuzo

So deixaõ perseber, que descansado

Seu Rei pode ficar, que em quanto aos brasos

O valor asistir, naõ aõde as Aguas

Como pensaõ, levar a sua avante.

E como ja nos cascos lhes fervia

Em violentos caxoins o ardente sumo

A cabesa fazendolhes pezada

Dar c'o a barba no peito, e sobre os olhos

Carregar importuno o grave sono,

Na mal mexida cama empanturrados

Ambos foraõ jazer como dois odres.

Dormirão toda a noite os boms Alarves

Rezupinos roncando a sono solto.

Eis lá sobre a manhan um se espreguisa,

E fazendo tres cruzes sobre a boca

Enormemente aberta o outro acorda.

Saõ oras, dis o Eroi roufenhamente,

Trazeime eses calsoins, daime ca a vestia.

Fora c'o a noite! ha muitos tempos nunca

Dormi noite pior! Tudo eraõ pulgas,

Tudo sonhos, em fim tudo Diabos,

Até, por mais sentir, a Mosazinha

No quarto me deixou fexado o gato,

Que toda a santa noite andou miando.

Eu naõ persenti nada, dis Madama,

Pois foi tal a quebreira, tal o sono,

Que bem podiaõ arrombar as portas,

E sem que eu dése fé. Bem, pois que queres,

O marido replíca, se tais sonhos

Eu tive, que por mais que quis pôr olho

Logo eles me espertavaõ: eu te conto.

Sonhei que estava eu na nosa quinta

Debaixo da nogueira ao pé da fonte

Sobre a relva dormindo a minha sésta:

Eis senaõ quando d'uma vala surde

Correndo em torcicolos uma cobra,

E me entra pela boca: aqui um pulo

Dei eu, naõ persebeste? Eu naõ, dis ela.

Pois dei um grande pulo, e depois diso

Um pouco despertando, em sonolencia

Fui tornando a cair. E sonhei muitas

Outras grandes desgrasas que me esquesem.

Tornou ela a dizer: iso he verdade

Ás vezes taõbem tenho tantos sonhos,

Que me fazem doer bem a cabêsa.

Porem vaite vestindo, anda deprésa

Se queres almosar, que ja he tempo.

Tais réplicas, e tréplicas pasadas

Em fim a muito custo pos se fora,

E na larga cadeira escarranxado

Asim dezalojando, á Mulher dise.

Ora sabes mui bem, Consorte amada,

O onrado avizo que tivemos ontem.

O noso Imperador axase aflito

C'o a guerra declarada por Neptuno.

Eu sou um de seus xefes; e a minh'alma

Aspira a coizas grandes. Desta sorte

Na dansa estou metido: vou agora

As ordems expedir que saõ precizas,

Fazer gente com forsa: paciencia!

Nós para trabalhar nascemos todos.

Dáme cá qualquer coiza; um lombo bonda

Bastaõ dois pains, duas canadas bastaõ.

Fes-se bem como um Padre, e muito fresco

Saiu a averiguar os seus negocios.

Neste tempo no imperio de Neptuno

Ja com todo o calor fervia a obra.

Os fortes Generais debaixo d'armas

Ja tinhaõ toda a jente, e á Luzitania

Os vastos esquadroins marxando vinhaõ.

Aqui de remotisimos Paízes,

De diversas Nasoins, diversas linguas

Vinhaõ mandando Capitains diversos,

Aqui vinhaõ Varoins destes pixozos

A quem tudo lhe fede, e que somente,

Por cauza das corrutas baforadas,

C'o vinho em odio eterno andáraõ sempre,

Aqui de mal Francês, e de almorreimas

Um sem numero vinha de axacados:

Naõ faltando dos cálidos a turba

A quem fizera sempre o vinho empôlas.

Era em tres batalhoins formada a Tropa,

Guiava um batalhaõ Periclimeno

1

Arrogante, e temido: outro Achelóo,

2

E o terceiro puxava á retaguarda

O velho Espozo da cerulea Doris.

3

Aqui vinha Protêo dos grandes Focas

4

Regendo a tremendisima caterva.

Talhando as curvas ondas na vanguarda

Iaõ nadando cem Tritoins desformes

Fazendo rebombar os buzios grandes.

E o Padre Oceano comandante

Supremo deste exercito temivel

Girava dando as ordems amontado

N'uma negra baleia monstruoza.

Xegáraõ do aureo Tejo em fim ás marjems,

Mas antes que o exercito alojase,

Desta nova xegada em tom de guerra

Lhe foraõ dois Trombetas a dar parte.

No centro d'uma gruta penhascoza,

Cujas ricas paredes eraõ d'oiro,

E branca madrepérola ondeante,

Sentado sobre a urna, respeitavel

C'o tridente na mão, e c'uma c'roa

De verdes limos na rugoza fronte

A embaixada resebe o Padre Tejo.

Quando asim dos Trombetas um comesa.

Ja, Padre venerando, aos teus ouvidos

Xegaria talvês a novidade

Da guerra que entre nós, e o Rei dos vinhos

Pouco ha se declarou. Naõ me pertense

Os motivos da asaõ esmiunsarte:

Taõ somente a dizerte sou mandado,

Que para dar principio á grande empreza

Para esta Capital do imperio Luzo

Das Tropas Oceano á testa marxa.

Deves pois vir falarlhe; que eu asento

Que tem primeiro aqui seu bico d'obra.

Subia pelo rosto ao velho Tejo

Ao tempo desta fala uma alegria,

Que ja mais asomára ao seu semblante.

Levantase, o Palacio se alvorósa,

E para ir esperar taõ grande xefe

As mais galhardas Nimfas a si xama.

Duzentas niveas, engrasadas Naides

De lindos olhos, que em prazer trasbordaõ,

Solto o negro cabelo gotejante

Presto ali se aprezentaõ caprixozas.

Ao carro sóbe o Tejo, ao carro d'oiro

Que guapos, e das muito-abertas ventas

Brotando soberboins torrentes d'agua,

Seis cavalos marinhos vaõ tirando.

Em malhados golfinhos brincadores

Asentadas as Naiades o cercaõ.

O mar fas-se banzeiro, e longa esteira

Mansamente deixando a turba marxa.

Xegados que os dois Reis á fala foraõ

O Tejo rompe asim: Princepe excelso,


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