Se um pobre feudatario, bem que indigno,
Qual eu sou, gozar pode a onra eximia
De darte albergaria em seu palacio,
As demoras desprende, e á minha gruta
Dignase vir a descansar um pouco,
Aonde a noso comodo sentados
Da sorte dos Imperios trataremos.
Oceano aseitou condescendente
Do Padre Tejo a simples rogativa,
E acolhendose á gruta majestoza,
Indignado meu Pai, dise Oceano,
Pela iniqua extorsão de seus direitos,
Que dos vinhos o Rei dezaforado
Das jentes com escândalo lhe ha feito,
Intenta guerrealo. Ele em pesoa
Viria á expedisaõ, se de seus anos
O pezo desta glória o naõ priváse.
Por tanto eu me incumbi das suas vezes:
E como de sua Corte na asembleia
Para isto convocada se asentase,
Que o comêso em teu Reino ser devia,
Visto que o General dos inimigos
Em Coimbra rezide; pareseume,
Por levarmos as coizas com mais ordem,
Que nesta Capital sem perder tempo
A primeira faxina se fizese:
Depois, de meu poder com todo o pezo
Em Coimbra caísemos. Aprouve
Ao Tejo este discurso; e entaõ tratáraõ
De mais ponderasaõ quantos negocios
Para aquele respeito mais tendiaõ,
Saõ xamados os Cabos a conselho,
E com acordo unânime se adía
A seguinte manhan para o combate.
He contra um grande Cabo que se devem
Tomar as armas: naõ he Jan Fernandes,
Nem Manel das Atacas o inimigo:
He contra o fasanhozo Talaveiras
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Tortulho enorme de invejada fama,
Do vinho na milicia experto, e vasto.
Tanto que alvoreseu, logo no campo
As trombetas orrísonas bramáraõ;
Cujo som de mistura c'o alarido,
E roucos atabales largo espaso
Os muros fes tremer, e a gran Cidade
Soberba fundasaõ do Grego errante.
Ja promto o Talaveiras aguardava
De Cilenio o preseito a pôr por obra.
Na frente de seus bebados soldados
Corajozo se avansa: róxa altiva
Que as vagas sem pavor mujindo escuta.
Marxando vaõ as filas a compaso,
E d'uma, e d'outra parte embravecido
O gradivo Mavorte asende os peitos.
As caixas daõ final, travase a guerra;
De poeira uma nuve os ares turba;
Levantase um clamor mais tezamente;
Redobraõse as pancadas, corre o sangue...
Nada ha mais lamentavel que uma guerra!
Foi renhida a peleja: longas oras
Pendeu a decizaõ n'ambas as partes.
Finalmente naõ sei que infausto cazo
Pôs dos vinhos o exercito em dezordem,
Que naõ pôde aguentar sobre seus brasos
Dos aquozos dragoins o carregume.
Perdem todos a côr, as armas largaõ.
(Entradas de leaõ, saídas d'asno!)
Cae aqui, cae ali, ums sobre os outros
Vaõ indo aos trambolhoins. O Talaveiras
Reunilos intenta, mas de balde.
He de balde bradar: diques naõ sofre
Torrente por pavor precipitada.
No campo ficou so inteiro e forte.
O golpe universal caíu sobre ele.
Das setas, e das lansas acravado
Parecia um pinhal o grande escudo.
Nimguem ouzou xegarlhe, que da terra
Naõ fizese vermelha a superfice.
E que mais fês d'Olimpias o esforsado
Filho, o devastador do mundo invicto,
Junto ao tronco, dos seus destituido,
Quando o muro saltou dos Oxidracas?
Mas a Morte d'Erois sempre avarenta
Metida n'uma bala fulminante
As pernas lhe atravesa, e despedasa.
Acurva a grosa máquina tremendo,
E em terra baqueando he maxucada
Do violento tropel dos inimigos.
C'o este lanse
vitoria
o Tejo brada:
Vitoria, respondeu a xusma ovante,
Vitoria pelas aguas, viva, viva.
1Periclimeno: Neto de Neptuno, de quem recebeu o poder de se metamorfozear.
2Achelóo: filho de Oceano. Namorouse de Dejanira amante de Hercules. Hercules combateu com ele metamorfozeado em toiro, arrancoulhe um corno, e venseu-o.
3O Velho, &c. Nerêo, filho de Oceano, e pai das Nereides.
4Protêo: vej. Virg. Georg. I. 4. v. 429.
5Um dos Taverneiros de grande conta que Lisboa teve. Na dilatada teia de seus louvores saõ estes meus versos um romendinho.
Foise em folias a seguinte noite.
Mas asim que a lus alma avermelhando
No orizonte as globozas nuvemzinhas
Comesou a doirar o cume aos montes,
A vensedora jente enfurecida
Respirando outra ves carnajem, sangue,
Vai de rota batida, e compasada
Ao som dos belicozos instrumentos
Demandar do Mondego as marjems frescas.
A seu salvo xegando se alojárão.
Fas-se conselho, e por comum acórdaõ
Para a um tempo levar ao Porto, e Aveiro
O terror, e a vitoria Nerêo parte.
Em quanto isto asim pasa, ja Coimbra
Bem como um formigueiro fervelhava
Atonita bradando. Eis muito conxo
Correndo á présa contra seu costume,
Vem um cambaio tutelar das aguas,
O gago Vitorino, e o Santareno
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Fanfarrão desta sorte dezafia.
Cá-cá fora me'amigo, cu na rua;
Á de ir aqui tu-udo c'o a maleita.
E ve-ve-ve veremos, e veremos
Quem-quem leva a melhor: xê-xegá'gora
Um nunca visto inzercito de jente;
Saõ co-como mosquitos: se tem barbas,
S'hé-s'hé-s'hé-s'hé capás ponhase em campo.
Qual grande Ferrabrás no xaõ deitado
Desprezando do garrulo Oliveiros
O louco dezafio, o Eroi prestante
Do Rino desprezou o stultiloquio.
Naõ se altera; em seu rubido semblante
Naõ poim o Mêdo as cores da fraqueza.
Lijeiro, quanto sofre a corpulencia,
Á trapeira alta sobe onde vijia;
E axando ser serta a guerra em caza,
Maõs perdidas, dis ele, saõ: ja'gora
Ou venser, ou morrer. Xamase ás armas,
E toda a jente sua acode prestes.
Acodem d'Alemtejo, e Estremadura
Bizarros Campioins: da Vidigueira,
Vila de Frades, Borba, de Vilalva,
Setubal, e Palmela. De Lisboa
Axaõ-se os Carcavélicos mansebos
De furibundo senho. Estaõ do Algarve
Mil Soldados d'embarque destemidos,
Mil de sima do Doiro, e das Bairradas;
E saõ mais de dés mil Coimbricenses.
Toda esta Soldadesca, he bem verdade,
Cavaleiros naõ saõ d'aureas esporas:
Saõ rotos, bandalhoins, babozos, porcos;
Mas qualquer deles um Eroi xapado
De inaudito valor, corajem suma,
Capás de se avansar ao mesmo Alcides.
N'uma palavra bebados eternos.
Entrase a rezenhar: cazo estupendo!
Inda a mais d'um milhaõ monta a rezenha.
Formarse vaõ da Feira ao grande largo.
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A linda variedade em farda, e armas
Os olhos encantava: grande parte
Em cambudos capotes romendados
A trouxe mouxe postos se rebusa:
Parte em mangas, e pernas, sem sombreiro,
Xeia de impavidês caminha aos tombos.
Este trás um pixel, este trás quatro
No alforje a tiracolo: um tres borraxas
De admiravel grandeza, e tudo xeio.
Armados todos vem muito á lijeira:
Nada de arnezes, peito descuberto;
Á excesaõ dos rompentes granadeiros
Que feitos vaõ ali cabides d'armas.
Com grevas, bacinetes, e lorigas
Bem poucos se embarasaõ: a rodela,
A talhante farrusca colubrina,
A adaga, o varapáo, a masa, o xuso,
Comforme cada um melhor se ajeita,
He tudo quanto importa á mais da tropa.
Nas pezadas carretas rexinantes
Temivel ali vai das bocas negras
A ignívoma tormenta: até naõ falta
Quem leve junto a si seu caõ de fila.
Entaõ sobre um jumento de atafona
Ricamente ajaezado, o Santareno
As odreas pernas escarranxa a custo.
Veste de bode um tresdobrado coiro;
Poim um elmo de vides enlasadas
Na caveira d'um tigre tremebundo
Que lhe a grande carranca asombra, e adorna,
E empunhando na dextra uma tarasca
De dilatada folha, vai bizarro
Puxando os batalhoins para o combate.
Tanto que do lugar alcanse ouveraõ,
E os raivozos imigos avistaraõ,
Fas alto o Santareno, expede as ordems,
As fileiras divide, o campo asenta.
Depois entre um salseiro procelozo
De perdigotos que da boca xove,
Da sua jente á testa asim troveja:
Lembrar-vos, generozos Camaradas,
O que ides a fazer, fôra esqueserme
Até de quem vós fois: eu sei que o brio
A cada um de vós outros alentados
Na ponta do naris brilhando salta.
Ou morrer, ou venser: a cauza he nosa.
As Aguas de bazofia em vaõ naõ se enxaõ,
Custelhes caro se venser quizerem.
Corajem, meus amigos, oje a gloria
Q'ate'qui se ganhou naõ vá perder-se.
Nos animos calou vinhi-potentes
De tal sorte a razaõ destas palavras,
Que cada um deles se reputa um raio,
E ja para envestir as trélas roem.
Agora, ó Muzas, naõ falteis ao Vate,
Asopraime no peito o extinto fogo,
Que he precizo cantar melhor que nunca
O combate maior que os evos viraõ.
Deu sinal a trombeta Neptunina
Aspero, forte, atrós, e formidavel:
Nas cabesas as grenhas se arripiaõ,
Bate mais forte o corasaõ nos peitos.
Comesaõ-se a mover as longas alas;
O medonho alarido se levanta;
Daõ fogo os mosqueteiros; da descarga
Sobe rapido aos Ceos enovelado
O denso negro fumo; c'o estampido
Os cavernozos montes retumbando
Enxem tudo de orror. Dos grandes eixos
Parecia que a máquina do mundo
Sacodida, em pedasos se fazia.
C'um asoite na maõ de duro ferro
Os cruentos cavalos instigando
Girava a impia Guerra o campo todo.
Os Soldados que a viaõ se animavaõ.
A Dezesperasaõ á redea solta
Corria furibunda, e sem maneira.
As incendidas balas estridentes,
As mortíferas xusas enristadas,
Gemidos arrancando aos mizeraveis,
Um inferno faziaõ. Alastrado
De sangue viu-se em breve, e corpos mortos
Da orroroza batalha o sitio extenso.
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Rocio, que em razaõ de vizinhansa
O nome erdado tems de Santa Clara,
Se gloria ganhas oje em ser teatro
De taõ sanguinolenta brava guerra,
O nome mudarás, e dos vindoiros
Virás a ser xamado o campo Marcio.
De forsa neste dia altos prodijios
A gente Bacanal fes mais que nunca.
Qual, semelhante ao gato entre podengos
Que o lombo em arco tendo enxorisado
Fas provar velosmente em pulos destro
Aos audazes fucinhos circumstantes
Das curvas fisgas os lembrados golpes,
Para um, e outro lado dezenvolto
Murros, e pontapés fervendo atira:
Qual d'um talho c'o a espada aos dentes xega: