CANTO IIII.

Se um pobre feudatario, bem que indigno,

Qual eu sou, gozar pode a onra eximia

De darte albergaria em seu palacio,

As demoras desprende, e á minha gruta

Dignase vir a descansar um pouco,

Aonde a noso comodo sentados

Da sorte dos Imperios trataremos.

Oceano aseitou condescendente

Do Padre Tejo a simples rogativa,

E acolhendose á gruta majestoza,

Indignado meu Pai, dise Oceano,

Pela iniqua extorsão de seus direitos,

Que dos vinhos o Rei dezaforado

Das jentes com escândalo lhe ha feito,

Intenta guerrealo. Ele em pesoa

Viria á expedisaõ, se de seus anos

O pezo desta glória o naõ priváse.

Por tanto eu me incumbi das suas vezes:

E como de sua Corte na asembleia

Para isto convocada se asentase,

Que o comêso em teu Reino ser devia,

Visto que o General dos inimigos

Em Coimbra rezide; pareseume,

Por levarmos as coizas com mais ordem,

Que nesta Capital sem perder tempo

A primeira faxina se fizese:

Depois, de meu poder com todo o pezo

Em Coimbra caísemos. Aprouve

Ao Tejo este discurso; e entaõ tratáraõ

De mais ponderasaõ quantos negocios

Para aquele respeito mais tendiaõ,

Saõ xamados os Cabos a conselho,

E com acordo unânime se adía

A seguinte manhan para o combate.

He contra um grande Cabo que se devem

Tomar as armas: naõ he Jan Fernandes,

Nem Manel das Atacas o inimigo:

He contra o fasanhozo Talaveiras

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Tortulho enorme de invejada fama,

Do vinho na milicia experto, e vasto.

Tanto que alvoreseu, logo no campo

As trombetas orrísonas bramáraõ;

Cujo som de mistura c'o alarido,

E roucos atabales largo espaso

Os muros fes tremer, e a gran Cidade

Soberba fundasaõ do Grego errante.

Ja promto o Talaveiras aguardava

De Cilenio o preseito a pôr por obra.

Na frente de seus bebados soldados

Corajozo se avansa: róxa altiva

Que as vagas sem pavor mujindo escuta.

Marxando vaõ as filas a compaso,

E d'uma, e d'outra parte embravecido

O gradivo Mavorte asende os peitos.

As caixas daõ final, travase a guerra;

De poeira uma nuve os ares turba;

Levantase um clamor mais tezamente;

Redobraõse as pancadas, corre o sangue...

Nada ha mais lamentavel que uma guerra!

Foi renhida a peleja: longas oras

Pendeu a decizaõ n'ambas as partes.

Finalmente naõ sei que infausto cazo

Pôs dos vinhos o exercito em dezordem,

Que naõ pôde aguentar sobre seus brasos

Dos aquozos dragoins o carregume.

Perdem todos a côr, as armas largaõ.

(Entradas de leaõ, saídas d'asno!)

Cae aqui, cae ali, ums sobre os outros

Vaõ indo aos trambolhoins. O Talaveiras

Reunilos intenta, mas de balde.

He de balde bradar: diques naõ sofre

Torrente por pavor precipitada.

No campo ficou so inteiro e forte.

O golpe universal caíu sobre ele.

Das setas, e das lansas acravado

Parecia um pinhal o grande escudo.

Nimguem ouzou xegarlhe, que da terra

Naõ fizese vermelha a superfice.

E que mais fês d'Olimpias o esforsado

Filho, o devastador do mundo invicto,

Junto ao tronco, dos seus destituido,

Quando o muro saltou dos Oxidracas?

Mas a Morte d'Erois sempre avarenta

Metida n'uma bala fulminante

As pernas lhe atravesa, e despedasa.

Acurva a grosa máquina tremendo,

E em terra baqueando he maxucada

Do violento tropel dos inimigos.

C'o este lanse

vitoria

o Tejo brada:

Vitoria, respondeu a xusma ovante,

Vitoria pelas aguas, viva, viva.

1Periclimeno: Neto de Neptuno, de quem recebeu o poder de se metamorfozear.

2Achelóo: filho de Oceano. Namorouse de Dejanira amante de Hercules. Hercules combateu com ele metamorfozeado em toiro, arrancoulhe um corno, e venseu-o.

3O Velho, &c. Nerêo, filho de Oceano, e pai das Nereides.

4Protêo: vej. Virg. Georg. I. 4. v. 429.

5Um dos Taverneiros de grande conta que Lisboa teve. Na dilatada teia de seus louvores saõ estes meus versos um romendinho.

Foise em folias a seguinte noite.

Mas asim que a lus alma avermelhando

No orizonte as globozas nuvemzinhas

Comesou a doirar o cume aos montes,

A vensedora jente enfurecida

Respirando outra ves carnajem, sangue,

Vai de rota batida, e compasada

Ao som dos belicozos instrumentos

Demandar do Mondego as marjems frescas.

A seu salvo xegando se alojárão.

Fas-se conselho, e por comum acórdaõ

Para a um tempo levar ao Porto, e Aveiro

O terror, e a vitoria Nerêo parte.

Em quanto isto asim pasa, ja Coimbra

Bem como um formigueiro fervelhava

Atonita bradando. Eis muito conxo

Correndo á présa contra seu costume,

Vem um cambaio tutelar das aguas,

O gago Vitorino, e o Santareno

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Fanfarrão desta sorte dezafia.

Cá-cá fora me'amigo, cu na rua;

Á de ir aqui tu-udo c'o a maleita.

E ve-ve-ve veremos, e veremos

Quem-quem leva a melhor: xê-xegá'gora

Um nunca visto inzercito de jente;

Saõ co-como mosquitos: se tem barbas,

S'hé-s'hé-s'hé-s'hé capás ponhase em campo.

Qual grande Ferrabrás no xaõ deitado

Desprezando do garrulo Oliveiros

O louco dezafio, o Eroi prestante

Do Rino desprezou o stultiloquio.

Naõ se altera; em seu rubido semblante

Naõ poim o Mêdo as cores da fraqueza.

Lijeiro, quanto sofre a corpulencia,

Á trapeira alta sobe onde vijia;

E axando ser serta a guerra em caza,

Maõs perdidas, dis ele, saõ: ja'gora

Ou venser, ou morrer. Xamase ás armas,

E toda a jente sua acode prestes.

Acodem d'Alemtejo, e Estremadura

Bizarros Campioins: da Vidigueira,

Vila de Frades, Borba, de Vilalva,

Setubal, e Palmela. De Lisboa

Axaõ-se os Carcavélicos mansebos

De furibundo senho. Estaõ do Algarve

Mil Soldados d'embarque destemidos,

Mil de sima do Doiro, e das Bairradas;

E saõ mais de dés mil Coimbricenses.

Toda esta Soldadesca, he bem verdade,

Cavaleiros naõ saõ d'aureas esporas:

Saõ rotos, bandalhoins, babozos, porcos;

Mas qualquer deles um Eroi xapado

De inaudito valor, corajem suma,

Capás de se avansar ao mesmo Alcides.

N'uma palavra bebados eternos.

Entrase a rezenhar: cazo estupendo!

Inda a mais d'um milhaõ monta a rezenha.

Formarse vaõ da Feira ao grande largo.

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A linda variedade em farda, e armas

Os olhos encantava: grande parte

Em cambudos capotes romendados

A trouxe mouxe postos se rebusa:

Parte em mangas, e pernas, sem sombreiro,

Xeia de impavidês caminha aos tombos.

Este trás um pixel, este trás quatro

No alforje a tiracolo: um tres borraxas

De admiravel grandeza, e tudo xeio.

Armados todos vem muito á lijeira:

Nada de arnezes, peito descuberto;

Á excesaõ dos rompentes granadeiros

Que feitos vaõ ali cabides d'armas.

Com grevas, bacinetes, e lorigas

Bem poucos se embarasaõ: a rodela,

A talhante farrusca colubrina,

A adaga, o varapáo, a masa, o xuso,

Comforme cada um melhor se ajeita,

He tudo quanto importa á mais da tropa.

Nas pezadas carretas rexinantes

Temivel ali vai das bocas negras

A ignívoma tormenta: até naõ falta

Quem leve junto a si seu caõ de fila.

Entaõ sobre um jumento de atafona

Ricamente ajaezado, o Santareno

As odreas pernas escarranxa a custo.

Veste de bode um tresdobrado coiro;

Poim um elmo de vides enlasadas

Na caveira d'um tigre tremebundo

Que lhe a grande carranca asombra, e adorna,

E empunhando na dextra uma tarasca

De dilatada folha, vai bizarro

Puxando os batalhoins para o combate.

Tanto que do lugar alcanse ouveraõ,

E os raivozos imigos avistaraõ,

Fas alto o Santareno, expede as ordems,

As fileiras divide, o campo asenta.

Depois entre um salseiro procelozo

De perdigotos que da boca xove,

Da sua jente á testa asim troveja:

Lembrar-vos, generozos Camaradas,

O que ides a fazer, fôra esqueserme

Até de quem vós fois: eu sei que o brio

A cada um de vós outros alentados

Na ponta do naris brilhando salta.

Ou morrer, ou venser: a cauza he nosa.

As Aguas de bazofia em vaõ naõ se enxaõ,

Custelhes caro se venser quizerem.

Corajem, meus amigos, oje a gloria

Q'ate'qui se ganhou naõ vá perder-se.

Nos animos calou vinhi-potentes

De tal sorte a razaõ destas palavras,

Que cada um deles se reputa um raio,

E ja para envestir as trélas roem.

Agora, ó Muzas, naõ falteis ao Vate,

Asopraime no peito o extinto fogo,

Que he precizo cantar melhor que nunca

O combate maior que os evos viraõ.

Deu sinal a trombeta Neptunina

Aspero, forte, atrós, e formidavel:

Nas cabesas as grenhas se arripiaõ,

Bate mais forte o corasaõ nos peitos.

Comesaõ-se a mover as longas alas;

O medonho alarido se levanta;

Daõ fogo os mosqueteiros; da descarga

Sobe rapido aos Ceos enovelado

O denso negro fumo; c'o estampido

Os cavernozos montes retumbando

Enxem tudo de orror. Dos grandes eixos

Parecia que a máquina do mundo

Sacodida, em pedasos se fazia.

C'um asoite na maõ de duro ferro

Os cruentos cavalos instigando

Girava a impia Guerra o campo todo.

Os Soldados que a viaõ se animavaõ.

A Dezesperasaõ á redea solta

Corria furibunda, e sem maneira.

As incendidas balas estridentes,

As mortíferas xusas enristadas,

Gemidos arrancando aos mizeraveis,

Um inferno faziaõ. Alastrado

De sangue viu-se em breve, e corpos mortos

Da orroroza batalha o sitio extenso.

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Rocio, que em razaõ de vizinhansa

O nome erdado tems de Santa Clara,

Se gloria ganhas oje em ser teatro

De taõ sanguinolenta brava guerra,

O nome mudarás, e dos vindoiros

Virás a ser xamado o campo Marcio.

De forsa neste dia altos prodijios

A gente Bacanal fes mais que nunca.

Qual, semelhante ao gato entre podengos

Que o lombo em arco tendo enxorisado

Fas provar velosmente em pulos destro

Aos audazes fucinhos circumstantes

Das curvas fisgas os lembrados golpes,

Para um, e outro lado dezenvolto

Murros, e pontapés fervendo atira:

Qual d'um talho c'o a espada aos dentes xega:


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