De tal sorte do Eroi fervelhaõ n'alma,
Que em si caindo parte rezoluto.
Entretanto em Coimbra amotinada
Era inda o pasmatorio inexplicavel
Por cauza do trovaõ medonho, e orrivel,
Que desde os fundamentos abalára
As altas cazas, e fizera aos sinos
Por si mesmos tocar nos campanarios.
Soava Saõ Jeronimo inda em partes,
E em outras Santa Barbara bemdita
Com espantozos berros; e a vizinha
Á timida vizinha inda contava
Das viboras de fogo côr de enxofre,
Que tortuozas rápidas caíraõ.
Os dois obézos vultos, que sozinhos
Pelas sombras da noite caminhavaõ
Vinhaõ asustadisimos: em bica
Lhes corria o suor, e sem falarem
Só vinhaõ nas camandolas sebentas
Ave Marias mil, e Padre Nosos
Ums apôs outros engolindo a medo.
A caza em fim xegáraõ, e por terra
Depois de averem dado aos Ceos as grasas
Pelos ter dos perigos defendido,
Entaõ uma Sobrinha por miudo
As coizas lhes contou que se pasavaõ.
Diselhes, que depois que eles se foraõ
Ao seu divertimento, na Cidade
Em nenhuma outra coiza se falava
Senaõ no grande risco a que seu Tio
Tinha ficado exposto; que entre dentes
Naõ sei que se rosnava; pois que o Xefe
Inimigo tentava armar ocultas,
Fraudolentas traisoins; que era precizo
Cautela, e mais cautela: acrescentando
Que teve ums sonhos (de que Deos nos livre)
Mesmo áquele respeito asás funestos.
No que naõ creu o Eroi; porem Madama
C'o a noticia em extremo intimidada,
Asentando que ali avía agoiro,
Fês que viese a caza no outro dia
Uma ábil Franxinota a lerlhe a sina.
Asim foi: uma veio asás jocoza
De cabasa, e bordaõ, trincos nas repas
Formados em torcidos papelotes,
Pálidas maõs, agaloadas unhas,
Altas as saias com franjoins de lama,
Mursa nos ombros de ensebado coiro
Com redondas conxinhas matizada,
E um de languidas ábas xapeo ruso
Com varios em redor Santiaguinhos
No alto da cabesa côr de estriga.
Era esta sagacisima, adestrada,
Mestra no ultimo ponto em Chiromancias.
Olhou, examinou, tomou medidas,
Mas viu mil cruzes na polpuda palma
Do magnanimo Eroi, mil entrelinhas
Cortando inteiras linhas, mil figuras,
Mil indicios em fim de agoiro aziago,
De caza em todos toma pose o susto:
Parese cada cara uma laranja.
Porem o Santareno que prezume
Ser em materias tais dezabuzado,
Que nunca em Bruxas creu, ou Lobizomes,
Deita estas coizas para trás das costas.
Trata de divertirse, e em mais naõ pensa.
Ai de quem da memoria o adagio varre
Quem inimigos tem dormir naõ deve!
Xegada estava entaõ uma romajem
Dia de Pentecoste, onde Coimbra
Em pezo aos Olivais sair costuma.
He esta uma funsaõ das mais luzidas
Daqueles arrabaldes; ali entra
Tudo o bom, e bonito; ali se encontra
Todo o recreio de qualquer espece.
Veemse ali jocozisimas Comedias
No amplo teatro do arraial vistozo.
Veemse as Trajedias de orrorozo aspéto
A sena ensanguentarem. D'uma parte
Esgrimese com ansia a espada preta,
D'outra em jogo de páo soa a lambada.
Aqui n'umas mezinhas enfeitadas
Mosas de arromba, que os tafuis arrastaõ,
Vendem d'envolta c'o as xulises torpes
Sédiso doce de mil castas feito.
Ali nas asadeiras xia a carne:
Esta freje a sardinha, aquela os ovos,
Uma vende agua ardente, outra beijinhos.
A fresca como neve limonada
De resto ali se trata: ali triumfante,
Como em brilhante trono, sobre um carro
De cana, parra, e loiros enramado,
Adoradores mil em torno tendo,
Vêse a
sine-qua-non
excelsa Pinga.
E que peito de páo, que alma de palha
Poderá insensivel n'um tal dia
Ao recreio negar entrada franca?
Um omem de bom senso, e que se préza
Ser da onra, e do respeito alumno serio
Ha neste dia de trancar insano
Em masmorra domestica o seu gosto?
Naõ era, o noso Eroi naõ era filho
De pai que tal fizese. Espoza cara,
Dis ele, he nesesario naõ perdermos
Os uzos, e costumes: he xegada
A minha romaria: resta veres
O que eide merendar; pois tu bem sabes
Que nisto da funsaõ consiste o todo.
Mas a crédula Espoza, a quem agoiros
Sempre grande impresaõ fizeraõ n'alma
Aflita com exceso asim lhe argúe:
Onde queres tu ir? Tu serás doido?
Credo! Apelo eu! Lenho da Crus Santa!
Naõ vês, alma de Deus, como danados
Andaõ teus inimigos de alcateia
A ver se te devoraõ? Tu naõ queres
Inda acabar de crer? Eu bem te avizo.
Se queres merendar, merenda em caza,
Deixa lá ir quem vai á romaria.
Bem viste a Franxinota o que te dise
Quando lendo te esteve a
buena dicha
.
Ai, temos conversado, a Deus Senhora;
Quero ir á romaria, tenho dito
(Replíca ele agastado) vá dar ordem
A um fardel em termos: ca por ora
As Aguas nunca me fizeraõ papo:
Naõ temo de nimguem, só de Deus temo.
Com efeito apromtouse uma merenda,
Que para outro qualquer fôra um banquete.
Era uma perna de vitela tenra
Com Anjelico molho temperada
Segundo os boms preseitos que arte ensina;
(Ele a tinha aprendido com boms Mestres)
De prezunto era um grande pratarrazio,
De porco quatro pés, seis orelheiras,
Uma lebre, um leitaõ, sete coelhos,
Ou láparos talvês; afóra o lombo
Que estivera ate'li de vinho d'alhos
Iaõ sinco ou seis pains de imensa mole;
Coroando por fim a obra toda
Xeia de vinho a pel'd'um bode d'ampla
Desmedida grandeza: odre admiravel,
Qual nunca em seus opíparos banquetes
Teve de Bromio o orelhudo Socio.
Mas vem a cada porco um S. Martinho.
Em fim he tempo, os duros Fados instaõ,
E Lachesis da roca por momentos
Vai tirar ao Eroi o ultimo fio.
Da partida se trata: a carga opíma
Da profuza merenda em dois alforjes
Um burro fas vergar: na maõ c'o as contas,
E c'o a borraxa á cinta, o Santareno
A maguada Espoza prende, e abrasa;
E entre doces coloquios até a noite
Seguro se despede. Mizerando
Que ignora que esta noite ao prazo dada
He por ordem dos Ceos a noite eterna!
Entaõ tres vezes que dirije os pasos
Da porta ao lumiar, tres vezes dentro
Se torna perturbado, inquieto, mudo.
Preságo o corasaõ dentro no peito
Agitado lhe bate: mil lembransas
De montaõ o atacaõ: anda, pára,
Nem sabe a decizaõ que tomar deva.
Mas se o que tem de ser, tem muita forsa,
Com eroico valor tanto imbecilho
Rompendo finalmente a estrada avansa.
Vai a ultimarse a empreza. Numen terno,
Que os influxos nos lúgubres cantares
Da Heliconia montanha aos Vates mandas,
Para oje acompanhar meu canto triste
A minha lira d'évano tempéra,
E nas cordas me ensaia os dedos broncos,
Q'a impreterivel ordem dos susésos;
Ja me fas o sinal de pôr aos olhos
A lastimoza sena em que a Desgrasa
Deixou que á vergonhoza cobardia
Cedese o alto valor d'um peito nobre.
O estro se me afraca, o pulso treme...
Eu quizera esquivarme ao pezo enorme...
Ó Muzas ajudaime. Ja sentado
Sobre a relva do campo verdejante
Onde da romaria a jente estava
Noso Eroi dezabotoava impando
Os graúdos botoins da imensa vestia.
Ja mais em ano algum ele sentira
Em funsaõ semelhante entre folgares
Taõ grande desprazer dentro em si mesmo.
Ui lá! q'inda este burro naõ xegase!
Valhame Deus, forte tardansa he esta,
(Dizia ele lá comsigo mesmo)
Nem moso, nem dinheiro, nem garrafa;
Máo está o negocio... E asim rosnando.
Sentado cada vês mais se aflijia.
Levantase, o capote aos ombros puxa,
E gozando do fresco deleitozo,
Que o zefiro das azas sacodia
C'os olhos do concurso em torno gira.
A precavida Astucia, que d'um alto
Todos seus movimentos atalaia,
Entaõ em Môsa feita, de tal sorte
Que a sua em carne, e oso ser parese,
Sae d'entre o barulho, e contra o Amo
Os concertados pasos endireita.
Ora grasas a Deus! Pois inda'gora
He que tu la de vir oras axaste?
(Lhe dis ele agastado) Morto á sede
Ha mais de duas oras aqui posto
Sem xegar inda o vinho! Irra c'o a festa!
Por onde tems andado? Q'he do burro?
Como quem d'um perigo ilezo escapa,
Que fica longo tempo, em dezabafo
Do aflito corasaõ que á présa bate,
Cansado respirando, e da garganta
A fala desprender livre naõ pode;
Asim depois de um pouco estar ant'ele
Descansando arquejante, e fadigada,
D'est'arte entre ipotéticos enfados
Zangada a Mosa apócrifa responde:
Ah Senhor! que me dis? Sabe os trabalhos
Q'ese burro nos deu? Olhe a empreitada
Melhor naõ pôde ser. Mais de oito vezes
Tem caído c'o a carga: eu e o Fernando
Temo-nos visto Gregos: os alforjes
Vem todos lameados; as casoilas,
E frejideiras todas se quebráraõ:
(Cada palavra destas piamente
Creio que era no Eroi uma facada
Segundo as cores mil que ao rosto dava)
Os molhos se verteraõ; finalmente
Caminhando adiante eu vim mais prestes
Somente por pensar que esta tardansa
Lhe daria cuidado. E naõ pequeno,
(Torna ele) esa está boa! Esta somente
A mim he que susede... Paciencia:
Que lhe avemos fazer? Eide matarme?
Naõ; matese o Diabo. Vai depresa,
Que eu tenho muita sede, e estou suado,
Buscar meia canada n'uma enfuza,
Que eu naõ poso esperar que o odre xegue.
E traze do melhor, anda deprésa.
A Astucia mais naõ quis ouvir; e dentro
Do barulho sumindose contente,
O fatidico Vate que a aguardava
No aprazado lugar buscando encontra,
Mutuos parabems ambos se prestaõ,
E sem que dois minutos se esperdisem
Em agua o ávido Velho se transforma,
E na enfuza se mete. Corre, voa
A fatal Portadora. O Santareno
Tanto que a enfuza enxérga, ja sem tino
As guelas abriu voraginozas,
E, sem fazer no gosto algum reparo,
Alambazado, e sofrego d'um trago
Em vês de vinho foi beber a morte.
Dominante entra Próteo. D'improvizo