ACTO III.

EduardoeJorge.Jorge.—Leocadia?Eduardo.—Já lá vai... Disse que hia para casa.Jorge.—Dá-me lume... (accende o charuto). Quero dar-te um conselho, Eduardo...Eduardo.—Sim?!Jorge.—Não te cases.Eduardo(Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas barracas).—Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico, pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento é bom para ti que és um anjo de virtude, e para Alvaro que é o typo da sisudez... Diz-me cá, és muito feliz, não és?Jorge.—Não. Estou cançado... Minha mulher... é uma mulher...Eduardo.—Éumamulher? Pois louva a Deus por não serem duas... Quantas querias tu? Aposto que estás desmoralisado como um turco?!Jorge.—Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que és homem de expedientes, não me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia?Eduardo(ironicamente).—Estás a zombar! Pois o anjo de virtude vem consultar o cynico!? Não abuses da tua superioridade, Jorge...Jorge.—Se tu soubesses que tormentos aqui vão n'esta alma!... A paixão allucinada que me abriu o inferno no coração!... Tenho necessidade de respirar... Quero que tu me ouças, porque não és d'esses tartufos que torcem o nariz á menor expansão d'um espirito atormentado!... Sabes que amo até ao delirio uma mulher?Eduardo.—É a tua naturalmente... Isso é muito justo...Jorge.—Não é a minha...Eduardo.—Pois a minha tambem não...Jorge.—Não motejes a minha dôr... Se me não queres ouvir com seriedade, calemo-nos...Eduardo.—Ora diz...Jorge.—Eu amo... Julia...Eduardo.—A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te não ouçam os caranguejos...Jorge.—Não soffro o escarneo... És incapaz de comprehender um sentimento nobre...Eduardo(rindo).—Sim... esse sentimento é muito nobre... Eu é que sou o cynico... Tens razão... estou estragado a ponto de não comprehender a nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, verás o galardão que recebes...Jorge.—Não me importa a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher do meu coração era Julia...Eduardo.—E ella... concorda?Jorge.—Não... despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me responde...Eduardo.—Mas sempre vai lendo as cartas?... Então continúa, visto que esse sentimento é nobre... Eu é que sou o cynico...Jorge.—E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas?Eduardo.—Talvez para papelotes, quando se frisa...Jorge.—Adeus!... estás insoffrivel... Isso offende!...Eduardo.—Pois eu sei cá para que ella recebe as cartas?Jorge.—Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se assim...Eduardo.—Isso póde ser... A historia antiga conta tres factos semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o segundo com Fredegonda...Jorge.—Deixa lá isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um favor?... Se fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito...Eduardo.—Sondal-a?... não sei de que modo!... Tu não sabes que o marido é meu figadal inimigo? Só se a vir por aqui destacada do osso do seu osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...Jorge.—Com minha mulher!Eduardo.—Sim...Jorge.—Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!...Eduardo.—Daria?! Que grande immoralidade!Jorge.—E por isso Leocadia se retirou...Eduardo.—E olha que não hia boa... Parece-me que a estas horas já ella admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vêr Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em quanto ella te não vê... e quando passar, falla-lhe...Jorge(cumpre).—Que hei-de eu dizer-lhe?!...Eduardo(sorrindo).—Vê se ella comprehende oo teu nobre sentimento...Jorge.—Ella não pára a ouvir-me... tu verás...Eduardo.—Se não parar, anda tu com ella... (Retira-se).SCENA VIII.JorgeeJulia.Jorge.—Não tenho animo... Sou um imbecil...Julia(sem o vêr, sentando-se em cadeira).—A minha querida vingança!... Não vim só para soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...Jorge(dirigindo-se com irresolução).—Animo!Julia(voltando-se de repente, e erguendo-se).—O senhor!... (Quer retirar-se).Jorge(sustendo-a).—Não me fuja...Julia.—Retire essa mão, senhor!Jorge.—Esse enfado é muito pouco senhoril... Esta mão não mancha a sua pureza...Julia.—Para mim tem o horror de mão que me feriu com um punhal... O senhor não tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido póde vêl-o.Jorge.—Que veja... Eu não temo seu marido...Julia.—Pois não o tema a elle, mas respeite-me amim, para que a sua posição de marido seja respeitada... (Eduardo tem vindo por entre as barracas esconder-se atraz da mais proxima do dialogo).Jorge.—Eu já me não respeito na minha posição... Seu marido que tire represalias, que eu sou indifferente a todos os ultrajes d'essa ordem.Eduardo(á parte).—Eu é que sou o cynico...Julia.—Então devo acreditar que o senhor requintou em immoralidade...Jorge.—Acredite o que quizer... Saiba que foi uma paixão que me perverteu... Hei-de cuspir na sociedade, visto que a não posso calcar aos pés... Despreso todas as formalidades... Para a desesperação não ha conveniencias a guardar...Eduardo(á parte).—Eu é que sou o cynico!...Julia.—Pois, senhor, eu entendo que as devo guardar todas... Snr. Jorge, tenha vergonha diante da sua propria consciencia. (Vai retirar-se).Jorge(segurando-a).—Ha-de ouvir-me... Que destino deu ás minhas cartas?Julia.—Entreguei-as a sua senhora.Jorge.—Isso foi um vil procedimento...Julia.—Deveria antes entregal-as a meu marido?Jorge.—Não tenho nada com seu marido, Julia... Não me cite tantas vezes o nome de seu marido, que é de nenhuma importancia n'este objecto...SCENA IX.Os mesmos eAlvarosahindo da barraca, vestido de banho.Julia.—Ah! meu marido...Eduardo(escondido).—Isto ha-de ser bonito...Alvaro.—Pois, snr. Jorge, eu pensei que importava alguma cousa n'este negocio... Isto que é? Cahiram miseravelmenten'um silencio estupido!... Julia, tu não fallas? Snr. Jorge! não fique embuchado!... O senhor está-me dando uma importancia, que não era a do seu programma...Jorge.—Esta situação é melhor que a não prolonguemos. V. s.avai pedir-me uma satisfação... (Julia retira-se).Alvaro.—Está enganado... Não tenho de que lhe pedir satisfação... Faz v. s.amuito bem... Não lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e põe os seus meios... Tudo isto é natural... Que satisfação lhe hei-de eu pedir!...Eduardo(á parte).—Eu é que sou o cynico!Jorge.—Acabemos, snr. Alvaro...Alvaro.—Tranquille-se, cavalheiro... Eu ainda não disse senão metade. Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a occasião para lhe dizer que não desgosto dos olhos da sua. Com a differença, porém, que eu, declarando-me a v. s.a, dou-lhe a importancia que v. s.ame não deu... Visto que nos encontramos no mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O senhor fica com os olhos da minha, e eu com os olhos da sua... Parece-me que me vai pedir uma satisfação...Jorge.—Não sei com que intenção me faz semelhante proposta...Alvaro.—Com a melhor intenção do mundo... É um contracto bilateral... sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha casa para v. s.aestudar bem os olhos de minha mulher, e o cavalheiro franqueia-me occasiões de estudar os olhos da sua.Eduardo(á parte).—Eu é que sou o cynico!...Jorge.—E se na sociedade se desconfia esta convenção?Alvaro.—Deixe-se d'isso... A sociedade, deu-nos diplomas de excellentes pessoas... Eu creio que ambostemos a finura necessaria para desempenharmos, sem pateada, os nossos papeis... Aqui o grande plano é que afastemos do nosso commercio Eduardo, porque esse tem a alma sufficientemente estragada para nos adivinhar...Eduardo(á parte).—Muito, obrigado!... Até este me dá diploma de cynico!Alvaro.—Agora, meu amigo, vou tomar banho... Hoje á noite espero-o com sua senhora em minha casa para tomarem uma chavena de chá... (Apertando-lhe a mão).Au revoir, meu caro senhor... (Sahem). Ó banheiro!... Vamos lá, que nos foge o mar...SCENA X.Eduardo.—Visto que eu sou o cynico, e os virtuosos são estes, passo a ser um pouco mais virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como eu... Alguma vez hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que é a d'elles... O genero não é caro... Veremos...CORRE O PANO.ACTO III.Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa: luxo sem gosto: muita cadeira de estôfos amarellos: muito relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem significação nem serventia.É noite.SCENA I.Viscondessa de Valbom,D. Julia,Jorge,visconde de Valbom.Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e retira-se.Viscondessa(a Jorge).—A snr.aD. Leocadia não virá?Jorge.—É natural que venha.Viscondessa.—Com o capellão?Jorge.—Sim... com o capellão...Viscondessa(a Julia).—O snr. Alvaro que andará a fazer?Julia.—Naturalmente... das suas...Visconde.—Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo da honradez personalisada...Julia.—Agradecida a v. exc.a, snr. visconde.Viscondessa.—Não tem de que, menina. Seu maridoé um anjo, e a sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas. São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a todos os respeitos.Jorge.—Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os esforços por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho conseguido...Viscondessa.—Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o não teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo?Jorge.—Uma pessima opinião.Visconde.—Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua depravada, e costumes horriveis...Viscondessa.—Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão. Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente desfigurado. É outro homem...Julia.—Totalmente outro.Visconde.—Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!...Jorge.—É pasmosa!Viscondessa.—As suas palavras são todas serias, medidas, e reflectidas. Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas... tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação...Jorge.—Muito se lucra, quando se é honrado!...Visconde.—Pois não! Não ha nada como a honra!Jorge.—Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações!Viscondessa.—Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto se deixou hir á mercê dos seus extravagantes desejos!...Visconde.—Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma libertinagem!...Julia.—Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram distinctamente os seus crimes.Visconde.—Immensos, immensos...Viscondessa.—Immensissimos, immensissimos...Julia.—Mas posso eu saber algum d'elles?Visconde.—Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são muitos... muitos...Julia.—E a snr.aviscondessa sabe quaes são?Viscondessa.—Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um prodigio de immoralidade...Julia.—E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...Jorge.—Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse homem, todavia, eu não sei nenhuma...Julia.—Mas vive com elle ha mais de sete annos...Jorge.—É verdade... mas, como elle me não chamava a testemunhar os seus desvarios, nada sei...Julia.—O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que consistiu a depravação de Eduardo!...Viscondessa.—A sociedade não se engana, menina. Ella que o condemnou lá sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...Julia.—Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...Um creado—O snr. Eduardo...SCENA II.Os mesmos eEduardo.(Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas, dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma imbecilidade moral, de fazer piedade).Viscondessaevisconde.—Muito bem vindo.Eduardo.—Como passaram vv. exc.as?Viscondessa.—Maravilhosamente... queira sentar-se.Eduardo.—E a snr.aD. Julia?Julia.—Um pouco affectada dos nervos.Eduardo.—Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a soffrimentos de todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa?Jorge.—Assim, assim...Viscondessa.—Então! senta-se? (Eduardo senta-se).Eduardo.—Como está tua senhora, Jorge?Viscondessa.—Estamos á espera d'ella.Eduardo.—E seu marido, snr.aD. Julia?Visconde.—Não deve tardar... (Eduardo em ar de pensativo, esfregando as costas das mãos).Viscondessa.—Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! Não o queremos assim! Que tem?Eduardo.—Pesares... que vem de longe, minha senhora...Visconde.—O passado já lá vai... Agora v. s.aé outro homem... Toda a gente diz que quem o viu e quem o vê...Viscondessa.—Nada de tristezas. A virtude é sempre alegre... Ó menina, vá tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor quando ouve tocar... Que quer que ella toque?Eduardo.—O que s. exc.aquizer...Julia.—Cousas tristes?Viscondessa.—Não, menina! Bem triste está elle!... Toque alguma cousa do Barbeiro de Sevilha...Julia.—Pois, sim... (Vai tocar na sala immediata).Viscondessa(a Eduardo).—Quer que vamos á sala do piano, ou quer gosar de longe?Eduardo.—De longe, se v. exc.anão manda o contrario. (Jorge, logo depois, segue Julia).Visconde.—Muito folgamos de o vêr rehabilitado na opinião publica.Eduardo.—E estarei-o eu por ventura?Viscondessa.—Está... Veja... n'um só mez recuperou os creditos perdidos em tantos annos...Eduardo.—Muito devo a Deus, porque é o contrario que costuma acontecer... Então a snr.aD. Julia não nós dá o prazer de a ouvirmos? Vai-nos demorando o goso...Visconde.—Eu vou lá... (Sahe).SCENA III.Eduardoe aviscondessa.Viscondessa(com vivacidade).—Vês como sahiu certo tudo o que eu te disse? A sociedade é uma excellente pessoa.Eduardo(mudança de tom. Ouve-se o piano).—Tenho notado isso... Achas que vou bem assim?Viscondessa.—O melhor possivel... Ponto é que te conserves...Eduardo.—N'este pé de virtude? Já me não desmancho... E, com effeito, dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto...Viscondessa.—Até o visconde está espantado da tua mudança...Um creado.—A snr.aD. Leocadia, e o snr. Alvaro. (Sahe).Viscondessa.—Não sei o que me parece este grupo, a estas horas!... Sabes que eu suspeito...Eduardo.—Suspeitas?!... Oh!... eu não... Facilidades da innocencia!...SCENA IV.Os mesmos,D. Leocadia,eAlvaro.Viscondessa.—Tão tarde!...Leocadia.—Foi impossivel aquietar o pequeno até agora...Eduardo(tornando ao tom beatifico).—Passou bem, minha senhora?Leocadia.—Bem...Alvaro(dá uma gargalhada).Viscondessa.—Que riso é esse?Alvaro.—Não é nada, minha senhora... Quem toca, é minha mulher?Viscondessa.—É sim... se quer vá á sala...Alvaro.—Não, minha senhora. (Senta-se trombudo a um canto da sala).Viscondessa(a Leocadia).—Que terá elle? Estranho-o!...Leocadia.—Eu não sei... Chegou a minha casa quando eu estava para sahir... Disse-me que me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra... e não sei mais nada, nem me importa...Eduardo(pesaroso).—Terá dôr de dentes? São dôres dos nossos peccados... Deus nos acuda...Viscondessa.—Venha cá, snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que é o S. Paulo dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes... (Alvaro dá outra gargalhada).Leocadia.—Ora entendam lá aquillo!...SCENA V.Os mesmos, eJulia,Jorge,e ovisconde.Jorge(apertando a mão de Leocadia).—Até que finalmente...Julia(apertando a mão de Alvaro).—Com effeito... demoraste-te.Alvaro.—Negocios...Leocadia.—O pequeno não queria adormecer... (Alvaro dá terceira gargalhada).Jorge.—Que riso é esse?Julia.—A que vem o destempero d'essa gargalhada?...Viscondessa.—Lá está outra vez mergulhado na sua melancolia o snr. Eduardo!... Quer, talvez, mais musica...Eduardo.—Se não receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.aaquella aria da Norma... no acto final...Viscondessa.—Executada por quem?Eduardo.—Por v. exc.a... dá-lhe uma graça particular... Não quero offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas não sei que toque melancolico...Viscondessa.—Pois sim... hirei... Vamos todos...Eduardo.—Se me concedesse...Viscondessa.—Ficar sósinho aqui?... Pois sim... fique.Visconde.—Eu cá fico com elle...Viscondessa.—Não, não... deixa-o... são necessidades organicas... Eu tambem tenho d'estas tempestades moraes...Vozes.—Pois sim... pois sim... (Sahem).SCENA VI.

EduardoeJorge.

JorgeeJulia.

Os mesmos eAlvarosahindo da barraca, vestido de banho.

CORRE O PANO.

Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa: luxo sem gosto: muita cadeira de estôfos amarellos: muito relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem significação nem serventia.É noite.

Viscondessa de Valbom,D. Julia,Jorge,visconde de Valbom.

Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e retira-se.

Os mesmos eEduardo.

(Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas, dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma imbecilidade moral, de fazer piedade).

Eduardoe aviscondessa.

Os mesmos,D. Leocadia,eAlvaro.

Os mesmos, eJulia,Jorge,e ovisconde.


Back to IndexNext