IV.

IV.Eram tres horas.Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros, mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o sarcasmo só com a presença, só com o vulto corporal, só com a semsaboria de um remoque parvo e pretencioso. O carnaval é uma exposição annual d'estes infelizes.Carlos, ao vêr que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto irritára a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até com resentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua felicidade de algumas horas.—Eu não me arrependo—disse elle—de ter sido a voluntaria testemunha de teus desforços... Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria... Ouvi-te, illudi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu coração... estou recompensado de mais... Ainda assim, Henriqueta, eu não tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te um desejo de conhecer-te que não posso illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo n'uma dôr; e será logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixão se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejoimpossivel. Se tu m'o não dizes, quem me dirá o teu nome?—Não sabes que sou Henriqueta?—Que importa? E serás tu Henriqueta?—Sou... juro-te que sou...—Não basta isto... Ora diz-me... não sentes a precisão de ser-me grata?—A que, meu cavalheiro?—Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata á delicadeza com que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencivel que me manda ajoelhar-te... Será nobre zombar d'um amor que involuntariamente fizeste nascer?—Não te illudas, Carlos—replicou Henriqueta n'um tom de seriedade, semelhante ao de uma mãi que aconselha seu filho. O amor não é isso que pica a tua curiosidade. As mulheres são faceis de transigir de boa fé com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas vezes á eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens, fartos de estudarem as paixões na sua origem, e enfadados das rapidas illusões que elles choram todos os dias, estão promptos sempre a declararem-se affectados da cholera-paixão, e nunca apresentamcarta-limpade scepticos. De maneira que o sexo fragil das chimeras sois vós, creancinhas de toda a vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha, Carlos, eu não sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas hei-de conversar comtigo ainda. Não instes; abandona-te á minha generosidade, e verás que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me não conhecer. Adeus.Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma especie de idiotismo, quando a viu desapparecer á sahida do theatro. O seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia lembrou-lhe que era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa até roubar alguma revelação áquella Sophia da primeira ordem ou á Laura da segunda. Não lhe lembraram recursos, nem eu sei quaes elles poderiamser. Laura e Sophia, para dissiparem completamente a esperança anciosa de Carlos, tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario confiar n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o alvoroçado poeta traduzia em mil versões.Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que ainda, na noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa, que lhe transtornava o plano de vida.Não houve nunca um coração tão ambicioso de futuro, tão fervente de poesia, e tão phantastico de conjecturas! Carlos adorava seriamente aquella mulher! Como estas adorações se afervoram com tão pouco, não sei eu: mas que o amor é assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos me não deixem mentir.Imaginem, por tanto, a inquietação d'aquelle grande espiritualista, quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais ligeiro indicio lhe viesse confirmar a existencia de Henriqueta! Não direi que o desesperado amante appellou para o supremo tribunal das paixões impossiveis. O suicidio não lhe passou nunca pela imaginação; e muito sinto que esta verdade diminua as sympathias que o meu heroe poderia grangear. A verdade, porém, é que o apaixonado mancebo vivia sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente galhofeiros, abominava as impertinencias de sua mãi que o consolava com anedoctas tragicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, emfim, soffrera a ponto tal, que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias a fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua esperança.Diga-se, porém, em honra e louvor da astucia humana: Carlos, resolvido a partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha doNacional, dissesse, por exemplo, o seguinte:«O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para Inglaterra. S. s.atenciona observar de perto a civilisação das primeiras capitaes da Europa. O snr. Carlos d'Almeida é uma intelligencia, que, enriquecida pela instrucção pratica da sua visita aos focos da civilisação, ha-de voltar á sua patria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os ramos das sciencias humanas. Fazemos votos porque s. s.ase recolha em breve ao seio dos seus numerosos amigos.»Esta local bem podia ser que chegasse ás mãos de Henriqueta. Henriqueta bem podia ser que conjecturasse o imperioso motivo, que obrigava o infeliz a buscar distracções longe da patria, onde a sua paixão era invencivel. E, depois, nada mais facil que uma carta, uma palavra, um raio de esperança, que lhe transtornasse os seus planos.Era esta a infallivel tenção de Carlos, quando ao decimo quarto dia lhe foi entregue a seguinte carta:V.«Carlos.«Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó moral, não é assim?«Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro d'uma mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Victima da tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares interessado na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu, generoso Carlos, ingrata a essa manifestaçãocavalheirosa, embora ella seja um rasgo de artista, e não um desejo espontaneo.«Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande sacrificio que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto d'uma febre incessante, que me insultou n'aquelle camarote da segunda ordem, e que, n'este momento, parece declinar.«Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a carta: mas eu sinto-me tão pequena para os sacrificios grandes!... Não te quero responsabilisar pela minha saude; mas, se o meu silencio de longos tempos succeder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta cahiu no leito, d'onde ha-de erguer-se, senão é graça que os mortos hão-de erguer-se um dia.«Queres apontamentos para um romance que terá o merito de ser portuguez? Vou dar-t'os.«Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos brazões, mas não brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem historia contemporanea, sem bailes, e sem bilhetes de boas festas. As visitas que Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e, no masculino, quatro caseiros que vinham annualmente pagar as rendas, com que seu pai regulava economicamente uma nobre independencia.«O irmão de Henriqueta era um moço de talento, que grangeara uma instrucção, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua paixão unica. Isolado de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a sua irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espirito varonil, e inspirou-lhe uma ambição faminta de sciencia.«Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e não posso, n'esta parte, engrinaldar-me de flôres immodestas, se bem que não me faltariam depois espinhos que me desculpassem as vaidosas flôres...«Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meuirmão. Nossos paes não comprehendiam as praticas litterarias com que aligeiravamos as noites d'inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos olhos aquelle rir de bondoso orgulho, que tanto inflamma as vaidades da intelligencia.«Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. Só com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura modifica a organisação de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na sciencia das cousas, pensa de um modo extraordinario na sciencia das pessoas. O prisma das suas vistas penetrantes é bello, mas as lindas cambiantes do seu prisma são como as côres variegadas do arco iris, que annuncia tempestade.«Meu irmão lia-me os segredos do coração! não é facil mentir ao talento com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve dó de mim.«Meu pai morreu, e minha mãi pediu á alma de meu pai que lhe alcançasse do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um milagre na rapida convalescença com que minha mãi sahiu d'uma enfermidade de quatro annos.«Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, onde entrei como entrava sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quiz retirar-me, e meu irmão chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um homem.«Este homem chama-se Vasco de Seabra.«Não sei se por orgulho, se por acaso, meu irmão chamou a conversa ao campo da litteratura. Fallava-se em romances, em dramas, em estilos, em escólas, e não sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que me captivaram o coração e a cabeça.«Vasco fallava bem, e revelava cousas que me não eram novas com estilo novo. N'aquelle homem, via-seo genio aformoseado pela arte que só na sociedade se adquire. Em meu irmão faltava-lhe o relevo de estilo, que se lapida ao tracto dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo uma verdade, sem pretenções debas-bleu, que é de todas as miserias a mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.«Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se não retirasse.«Disse-me meu irmão que aquelle rapaz era uma intelligencia superior, mas depravada pelos maus costumes. A razão porque elle viera a nossa casa era muito simples; encarregara-o seu pai de fallar com meu irmão a respeito da remissão d'uns fóros.«Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: fixou-me, cortejou-me, corei, e não me atrevi a seguil-o com os olhos, mas segui-o com o coração. Que suprema miseria, Carlos! Que renuncia tão impensada faz uma mulher da sua tranquillidade!«Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a contemplar a marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre aquelleindifferenteque me fazia córar e soffrer. Viu-me, adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortezia, mas fingi-me, e não lhe correspondi. Foi isto um heroismo, não é verdade? Seria; mas eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o tratar tão grosseiramente.«Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque não ha nada mais grato para nós que a recordação dos ultimos instantes de ventura a que se prendem os primeiros instantes da desgraça.«Aquellas linhas fastidiosas são a historia da minha transfiguração. Ahi principia a longa noite da minha vida.«Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempreeste homem. Concebi os perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi não vêl-o mais: revesti-me d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade ás outras mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era fraca como todas as outras.«Eu já não podia divorciar-me da imagem d'aquelle homem, d'aquellas nupcias infelizes, que meu coração contrahira. O meu instincto não era mau; porque a educação tinha sido boa; e, não obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a minha mãi os meus innocentissimos desejos, senti-me então, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar contra a minha familia.«A frequente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indifferente a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãi, a tal respeito, e respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão presentiu a necessidade de matar aquella inclinação nascente, e expoz-me um quadro feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito publico em que era tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me offerecia em namoro. Fui altiva com meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não tinham contrahido a obrigação de se consultarem.«Meu irmão soffreu; eu tambem soffri; e, passado o momento da exaltação, quiz cerrar a ferida que abrira n'aquelle coração, desde a infancia, identificado com as minhas vontades.«Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu podesse reconcial-os ambos! Não podia, nem sabia fazel-o! Uma mulher, quando principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com apparencias, nem calcula os prejuizos que póde evitar com uma pouca de impostura. Eu fui assim. Deixei-me hir abandonada á correnteza, da minha inclinação; e, quando forcejei por me tornar, tranquilla, á isenção da minha alma, não pude vencer a corrente.«Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande paixão que ellas exprimiam não era ainda igual á paixão que me faziam.«Meu irmão quiz tirar-me de Lisboa, e minha mãi instava pela sahida, ou pela minha entrada a toda a pressa nas Silesias. Informei Vasco das intenções de minha familia.«No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno d'outra sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãi, e foi urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! Não sei do que seria então capaz a minha alma offendida! Sei que foi capaz de tudo que póde caber em forças d'uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira, sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.«Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem me pedia a mim a satisfação dos despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a dava plena, como elle a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da deshonra, e muito cedo entraria n'ella com a minha honra illibada. Que desgraça! n'aquelle tempo até as pompas do estilo me seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.«Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia é curta. Até ao correio que vem.Henriqueta.»VI.Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela expansão d'uma alma que, talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho d'um martyrio surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que podesseconsolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solidão, tornava-se como egoista das suas dôres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais bella flôr da sua corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflicção não rastejava pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres, que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dôr, sem deshonrar-se com uma publicidade esteril, interessava um coração, esposava uma sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre admiração! Ha mulheres vaidosas—deixem-me assim dizer—da fidalguia do seu soffrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquella angustia represada que só póde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das conveniencias, essas sim, são duas vezes anjos despenhados!Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que ahi se choram, e que a opulencia material não enxuga, experimentaria consolações d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião universal, symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma gota de orvalho na aridez d'algum coração, seria o sacerdote providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida da terra para que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do céo. Não ha na terra mais gloriosa missão!Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!...E ella... em que fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem póde explicar, e mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, ás vezes, inconcebivel?No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e amoldaste a minha historia ás legitimas consequencias de todas as aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e chamaste a isto, talvez, uma deducção contida nos principios.«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça é essa, e o contrario dos teus juizos é o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a virtude é o absurdo da logica dos factos, é a heresia da religião das sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do mundo. Achas-me metaphysica de mais? Não te impacientes. A dôr refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura de Erasmo, que nas sisudas deducções de Montesquieu.«Minha mãi estava reservada para uma grande provação! Amparou-a Deus n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que não era de esperar. Vasco de Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para me apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas. Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre meu irmão, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a fortuna lh'o deparasse.«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado, pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, até então, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a todaa pressa, e partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se, porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as esperanças de encontrar-me.«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos quaes não faltava condição alguma das aventuras romanticas d'um rapto, dir-t'a-hei em poucas linhas.«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre, uma anarchia de sensações que, levadas ao extremo do goso, pareciam tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo, divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo á região dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienação com que a minha alma se derramava nas sensações ardentissimas d'aquelle homem.«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez «que era muito meu amigo.» O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos já os não aqueciam n'aquelles labios! «Sinto por ti uma sincera estima.» Quando isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases triviaes, a paixão está morta. E estava...«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas, discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente, quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e seis horas entregue ás minhas innocentes recreações scientificas.«Vasco cançara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz. Suffoquei a indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites. Abrasou-se-mena alma um inferno que me coava fogo nas vêas. Não houve nunca mulher assim desgraçada!«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra «casamento» foi banida de nossas curtas conversações... Vasco desquitava-se de compromissos, que elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar ás obscuras superstições do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. João, na primeira ordem.«Comecei então a pensar em minha mãi, em meu irmão, na minha honra, na minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de minha vida até ao momento em que me atirei á lama e salpiquei com ella a face da minha familia.«Peguei da penna para escrever a minha mãi. Escrevera a primeira palavra, quando comprehendi o vexame, a degradação, e a villania com que ousava apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada de nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentação, e desejei n'aquelle instante, que minha mãi me julgasse morta.«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco, e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irmã de Vasco.«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na historia d'esta gente, que já conheceste no camarote da 2.ª ordem.«Mas não posso agora dispor de mim... Saberás, alguma vez, a razão porque não pude continuar esta carta.«Adeus, até outro dia,Henriqueta.»VII.«Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não avalias o sacrificio que faço. Não importa. Como não quero captivar a tua gratidão, nem, mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para ti, que é (medita bem) o mais que posso ser...«A historia... não é assim? Principia agora.«Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um tabellião de Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar a desgraça de ser pai. O tabellião morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos lucros de amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia, conseguiram algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para o Rio de Janeiro.«Foi, e deixou entregues á Providencia a mulher e a filha.«Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de preto, e viveu de esmolas, pedidas á noite napraça do Rocio.«A filha chamava-se Laura, e crescera bella, não obstante as angustias da fome, que transformam a formosura do berço.«Aos quinze annos de Laura, já sua mãi não mendigava. A deshonra proporcionara-lhe abundancia que uma honrosa mendicidade lhe não dera. Laura era amante d'um rico, que cumpria fielmente com a mãi as condicionaes estipuladas na escriptura de venda da filha.«Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha não soffria com as vicissitudes da filha, e continuavaa gosar os fins da vida á sombra de tão fecunda arvore.«A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que só ha deshonra na fome e na nudez.«Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do cavalleiro, que mais airoso entrasse no torneio.«Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados, porque todos esgrimiam galhardamente.«Desgraça foi para Laura, quando os melhores campeões se retiraram fatigados da liça. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, e viram que a dama das justas já não valia a pena de perigosos botes de lança, e de arreios muito custosos de pedraria e ouro.«Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou á sua consciencia a baixa do preço com que corria no leilão de mulheres. A consciencia respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambições, que viesse para onde a chamava a logica da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um reino de segunda ordem, já que a exauthoravam d'um throno que tivera na primeira.«Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na soberana, reuniu-se uma côrte tumultuosa na ante-camara d'esta odalisca facil, e não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do throno.«Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua legitimidade. Os cortezãos voltaram-se para o sol nascente, e apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para alumiar os antipodas d'um outro mundo.«Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedadeinculta, sem a intelligencia da arte, sem o culto á formosura, sem as opulencias que o ouro cria nas altas regiões da civilisação, e, finalmente, sem algum dos attributos, que Laura amára tanto nos mundos, onde fôra soberana duas vezes.«A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento; mas era bella ainda. Sua mãi, enferma n'um hospital, pedia a Deus, como esmola, a sua morte. A desgraçada foi punida.«No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu que a deitassem ao pé de si; o enfermeiro riu-se; e entrou com ella n'outra enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas cobriam o rosto na presença da ulcera mais esqualida, e mais lastimosa do genero humano.«Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que cahira.«Sua mãi recordava as fomes d'outro tempo, quando sua filha, virgem ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao passageiro.«As privações de então eram semelhantes, ás privações de agora, com a differença, porém, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, não podia já prometter o futuro da Laura de então.«Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e pasmemos diante das evoluções gymnasticas dos acontecimentos.«Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a attenção dos capitalistas, a consideração do governo, e, por via de regra, desafia inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio de vida para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.«Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais barato ainda, compra o titulo de visconde do Prado.«Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentesvenenosos da politica o pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas, as seguintes allusões:«O snr. visconde do Prado adscreveu á immoralidade do governo a immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, dil-o-hiam as costas d'Africa se os sertões contassem os horrorosos dramas da escravatura, em que o snr. visconde foi heroe.«O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a pobre mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, ninguem dirá em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em que agua-furtada curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. visconde medrava cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades no theatro das suas infamias de esposo e de pai.................................«Melhor fôra que o snr. visconde indagasse onde repousam os ossos de sua mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um padrão de marmore, que possa attestar ao menos o remorso d'um infame contricto...«Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruido em Lisboa. As edições do jornal espalharam-se, e leram-se, e commentaram-se com frenetica maldade.«Ás mãos de Laura chegou este jornal. Sua mãi, ouvindo lêl-o, delirou. A filha cuidou que sonhava; e a situação de ambas perderia muito se eu tentasse roubar-lhe as côres vigorosas da tua imaginação.«No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do visconde do Prado. O porteiro respondeu que s. exc.anão estava ainda a pé. Esperaram. Ás 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem, viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mão ao bolso do collete, e tirou doze vintens que lançava na mão de uma das duas mulheres. Olhou admirado para ellas, quando viu que a esmola lhe era recusada.«—Que querem?—interrogou elle, com soberba indignação.«—Quero vêr meu marido que não vejo, ha 26 annos...—respondeu Josepha.«O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na testa em bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a mão...«—Pois que?...—interpellou o visconde.«—Sou sua filha...—respondeu Laura com humildoso respeito.«O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas á carruagem, e mandou ás duas mulheres que o seguissem.«O resto no correio seguinte.—Adeus, Carlos.Henriqueta.»VIII.«Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha peregrinação. A minha illiada está no ultimo canto. Quero dizer-te que é esta a minha penultima carta.«Não sou tão independente como pensava. A não serem os poetas, ninguem gosta de contar as suas magoas ao vento. É bello dizer-se, que um gemido nas azas da brisa vai da terra em dorido suspirar até ao côro dos anjos. É bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar á avesinha gemedôra os segredos do nosso penar. Tudo isto é delicioso d'uma puerilidade inoffensiva; mas eu, Carlos, não tenho alma para estas cousas, nem engenho para estes artificios.«Vou contando as minhas penas a um homem, que não póde zombar de minhas lagrimas, sem trahir a generosidade do seu coração, e a sensibilidade do talento.Sabes qual é o meu egoismo, o meu estipendio n'este trabalho, n'esta franqueza d'alma, que ninguem te póde disputar como unico em merecêl-a? Eu te digo. Quero uma carta tua, dirigida a Angelica Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; não tenhas pejo em denuncial-a; associa-te um momento á minha dôr, e dize-me o que farias se tivesses sido Henriqueta.«Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o lance extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e a... como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.mafilha D. Laura.«—Pois é possivel existires?—perguntava o visconde, sinceramente admirado, a sua mulher.«—Pois não me conheces, Antonio?—respondia ella com estupida naturalidade.«—Tinham-me dito que morreras...—tornou elle com desazada hypocrisia—tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha tinheis sido victimas da cholera-morbus...«—Felizmente que lhe mentiram—interrompeu Laura com affectada meiguice.—Nós é que lhe tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de pronunciar o seu nome sem saudosas lagrimas.«—Como tendes vivido?—perguntou o visconde.«—Pobre, mas honradamente—respondeu Josepha, dando-se uns ares austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céo por testemunha.«—Ainda bem!—tornou o visconde—mas que modo de vida tem sido o vosso?«—O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha tem sido o amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos com tamanha crueldade!... Que mal te fizemos nós?«—Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas?—respondeu o visconde a sua mulher,que tivera a habilidade de arrancar duas volumosas lagrimas, tanto a proposito.«—O passado, passado—disse Laura, afagando carinhosamente as mãos paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes de illudir S. Simão Stylita.—Quer o pai saber (proseguiu ella com sentimento) qual tem sido a minha vida? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado incessantemente... tenho luctado com as tentações da penuria, e tenho feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...«—Bem, minha filha—interrompeu o visconde com sincera contrição—esqueçamos o passado.... D'hora em diante será a abundancia a premio da tua virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu és minha filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?«—Não, meu pai.—Não meu Antoninho.—Responderam ambas, como se tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.«—Pois bem—continuou o visconde—vamos a conciliar com o mundo as nossas posições presentes, passadas e futuras. D'hora ávante, Laura, és minha filha, és filha do visconde do Prado, e não pódes chamar-te Laura. Serás Elisa, comprehendes-me? é necessario que te chames Elisa...«—Sim, meu pai... eu serei Elisa—atalhou ainnocente modistacom impetuosa alegria.«—É necessario abandonar Lisboa—proseguiu o visconde.«—Sim, sim, meu pai... vivamos num sertão... quero gosar, sosinha, na presença de Deus a felicidade de ter pai...«—Não hiremos para um sertão... vamos para Londres; mas... attendam-me... é preciso que ninguem as veja, n'estes primeiros annos, principalmenteem Lisboa... A minha posição actual é muito melindrosa. Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... Josepha, repara em ti, e vê que és a viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta sociedade. Voltaremos um dia, e terás então supprido com a educação pratica a rudeza que indispensavelmente tens.«Não progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma do visconde foi rigorosamente cumprido.«Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio dizer-me que acabava de vêr, elegantemente trajada, uma mulher que conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou varias circumstancias da vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo opulento, a quem tal mulher estava associada.«Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os unicos portuguezes eram Vasco de Seabra esua irmã, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua filha D. Elisa Pimentel.«Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma illusão.«No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles gritos barbaros dos serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. Vasco não duvidou em ser interprete do visconde, com tanto que as suas luzes em lingua ingleza podessem chegar ao escondrijo d'onde nunca mais vira sahir a supposta Laura.«Correram as cousas á medida do seu desejo. Na noite d'esse dia, fomos convidados para tomar chá, nasaleta do visconde. Eu hesitei, sem saber ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me d'este temor, afiançando-me que se tinha illudido com a semelhança das duas mulheres.«Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artificio tirou maior partido das maneiras adquiridas em habitos libertinos. Elisa era a mulher de côrte, com os ademans fascinadores dos salões, onde a immoralidade do coração passeia de braço dado com a illustração do espirito. O som da palavra, a escolha da phrase, a compostura airosa da mimica, o tom sublime em que as suas idêas eram voluptuosamente lançadas na torrente de uma conversação animada, tudo isto me fez crêr que Laura era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada á feição do meu espirito.«Quando agora pergunto á minha consciencia como estas transições se fazem, descreio da educação, lamento os annos consumidos no cultivo da intelligencia, e chego a persuadir-me que a escóla da devassidão é a ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da graça e da civilisação.«Perdôa-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na vida, que só pelo absurdo se explicam.

«Carlos.

Henriqueta.»

Henriqueta.»

Henriqueta.»


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