IX.

Henriqueta.»IX.«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o coração de reconhecimento. Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de egoismo que entorpece o espirito, e calcina o coração. E, de mais, suppunha-te insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aquium disparate, que eu não ousaria balbuciar na presença do mundo. O que vale é que as minhas cartas não serão lidas pelas mediocridades, que se acham em concilio permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas conveniencias, as heresias do genio.«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu fórmo do homem transcendente em genio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes.«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo proclama virtuosos, e sabios. Deixal-os proclamar. O talento não é a sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a sciencia. O talento é a vibração convulsiva do espirito, a originalidade inventiva e rebelde á authoridade, a viagem extatica pelas regiões incognitas da idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós, Voltaire e Byron são talentos. Compara as vicissitudes d'essas duas mulheres, e os serviços prestados á humanidade por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em que luctam o talento com a sabedoria.«Porque é mau o homem de talento? Essa bella flôr porque tem no seio um espinho envenenado? Essa esplendida taça de brilhantes e ouro porque é que contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á cabeça d'uma mulher, ainda mesmo reforçada por duas duzias de cabeças academicas!«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter talento. Pedi-lhe as circumstancias do seu martyrio sublime, e respondeu-me o seguinte com a mais profunda convicção, e a mais tocante solemnidade philosophica: Os talentos são raros, e os estupidos são muitos. Os estupidos guerream barbaramente o talento: são os vandalos do mundo espiritual. O talento não tempartido n'esta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em silencio aquelle fel de vingança, que, mais cedo ou mais tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra desviado do corpo do exercito.«Ahi tem—acrescentou elle—a razão porque o homem de talento é perigoso na sociedade. O odio inspira-lhe a eloquencia da traição. A mulher, que lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, acredita-o, abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu algoz, e pedindo á sociedade que grite com ella.«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos acreditar este doudo. Eu por mim não me satisfaço com o seu systema, todavia sinto-me propensa a aperfeiçoar o prisma do doudo, até encontrar as côres inalteraveis do juizo.«Seja o que fôr, eu creio que és uma excepção e não soffra com isto a tua modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias, escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha Thebaida, sem cilicios, sim?«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se diz, que não vale nada.«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. Não era ella, porém, tão intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra não era meu irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o segredo de nossas relações. Bem longe estava eu de comprehender este zelo de virtuosa honestidade, quando a mão d'um demonio me tirou a venda dos olhos.«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de admiração, mas acredita que foi uma urgencia rhetorica, uma composição artistica, que me obrigou a admirar-me,escrevendo, de cousas que me não admiram, pensando.«Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher, que despresei o mundo, e me despresei a mim propria para satisfazer-lhe o capricho d'alguns mezes? Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha, supposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle... Vasco amava a filha do visconde do Prado, aLaurad'alguns mezes antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei quantos centos de contos de reis.«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao é verdade, Carlos? Não devo soffrer um instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com uma grilheta d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para não ouvir-lhe o ruido... a sentença do forçado que o segue até ao fim d'uma existencia farta de opprobrio, e celebre de infamias!«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma ulcera que não tem cura... choro, porque é intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não tenho lagrimas que não sejam remorsos... não tenho remorsos que não sejam picados pela affronta que fiz a minha mãi, e a meu irmão... Não me doe o meu proprio aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo, algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o desejo de torturar-me...«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, meu paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e hei-de conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me converter em estatua, como a mulher de Loth, quando olho com attenção para o meu passado...«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não sei como recebeu o convite; o que eu sei é que os vinculos d'estas relações estreitaram-semuito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás. Foi ella a propria que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã! Isto é uma atrocidade sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias possiveis! O insulto não podia ser mais despedaçador! O punhal não podia entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de Seabra!... Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo! Tenho direito á tua compaixão, se não pódes estremecer de enthusiasmo diante do heroismo d'uma martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti fugir-me o entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na garganta... horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos labios um sorriso de imbecilidade...«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha physionomia... Fez-me não sei que perguntas... não me lembro mesmo se aquella mulher permaneceu diante de mim... Basta!... não posso prolongar esta situação...«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. Pedi-lhe que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; eram minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha mãi.«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de almoço, visitava o visconde do Prado, escrevi estas linhas:«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de ter deshonrado Henriqueta de Lencastre. Esta mulher sentia-se digna d'uma corôa de virgem, virgem do coração, virgem na sua honra, quando abandonava um villão, que não pôde infectar da sua infamia o coraçãoda mulher, que arrastou ao abysmo da sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a salvou!»«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui á estação dos caminhos de ferro.«Dous dias depois entrava n'um paquete.«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as mãos, e chorei... Era a vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céo. Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não m'a negou. Aluguei uma agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; onde, ha quatro annos, comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilicios do meu remorso.«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não haja um indicio da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs.«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que disse que seu marido a abandonára, chamando-lheLaura. Aquella está punida...«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma pequena aventura, que aproveitei para tornar menos insipidas aquellas horas, em que me acompanhaste... Foi uma rival que não honra ninguem... umaLauracom os respeitos publicos, e as considerações que se barateiam a corpos ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era feliz, quando o infame amante d'essa mulher me dava aquelle annel, que viste, como oblação de sacrificio que me fazia d'uma rival...«Escreve-me.«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:«Não me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da historia, que te contei?Henriqueta.»X.É natural a exaltação de Carlos, depois de erguido o véo, em que se escondiam os mysterios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do bello, e pela poesia da desgraça, Carlos não teve nunca impressão na vida, que mais lhe incendiasse uma paixão!As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem esperança. Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, imprimiu-os n'aquellas cartas escriptas, debaixo de uma impressão, que lhe roubava a tranquilidade do somno, e o refugio d'outros affectos.Henriqueta respondera concisamente ás explosões d'um delirio, que nem sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta não podia amar. Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do coração. Esterilisaram-lhe a arvore dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instinctos do carinho brando, que acompanham a mulher até á sepultura.Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um estalão moral para todas. Confiava no seu ascendente, em não sei que mulheres, entre as quaes lhe não fôra penoso nunca fixar o dia do seu triumpho.Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel, adquire uma nova feição, e converte-se em paixão, como as paixões primeiras, que nos sopram a tempestade no limpido lago da adolescencia.Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos pés d'aquella mulher, que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos.Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginação, quando lhe occorreu a astuciosa lembrança de surprehender a morada de Henriqueta surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas, subscriptadas a Angela Michaela.Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos empregou n'esta missão um vigia insuspeito.No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.º 628. O que a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e este homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo Ovidio. Feliz das vantagens, que lucrára em tal commissão, correu a encontrar-se com Carlos. É ocioso descrever a precipitação com que o enamorado mancebo, espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa. Em honra de Carlos, é necessario dizer que aquellas libras representavam a eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu favor, por isso que, á vista das informações que tivera da pobreza da casa, concluiu que não era alli a residencia de Henriqueta.Acertou.A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para dizer-lhe duas palavras.A velha, que não podia receiar alguma aggressão traiçoeira aos seus virtuosos oitenta annos, franqueou os umbraes da sua possilga, e prestou ao seu hospede a cadeira unica do seu camarim de tecto de vigas, e pavimento de lages.Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembradoda chave com que Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a á abertura da prosa, e conheceu de prompto as vantagens de ser classico, quando convém. A velha, quando viu cahir no regaço duas libras, sentiu o que nunca sentira a mais carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo. Luziram-lhe os olhos, e dançaram-lhe os nervos em todas as evoluções dos seus vinte e cinco annos.Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes termos:«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser repetido, se vm.ceme fizer um grande serviço, que póde fazer-me. vm.cerecebeu, ha pouco, uma carta, e vai entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas minhas mãos. Estou certo que vm.cenão ha-de querer occultar-me a morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O serviço que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, é este; póde fazer-m'o?A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir de encontro á legenda, que D. João V. fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com mais algumas reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil á tentação do ouro, que lhe roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado refugio.Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa darua dos Pelames, subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta. Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapéo de senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o rapaz fallou, e a porta foi immediatamente aberta.Henriqueta estava sem dominó na presença de Carlos.Foi sublime esta apparição. A mulher, que Carlos viu, não saberemos nós pintal-a. Era o original d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel do seculo XVI faziasaltar da téla, e consagrava a Deus, denominando-as Magdalena, Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da belleza! Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que balbuciou foi «perdão!»Henriqueta não pôde receber com a firmesa, que devia suppor-se-lhe, uma tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso todo o corpo.A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu, e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos, olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fôra violado. Carlos invocava ao coração palavras que o salvassem d'aquella crise, que o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.Não nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias do leitor, que pede contas das interjeições, e das reticencias d'um dialogo.O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, é que a musa das lamentações desceu á invocação de Carlos, que, por fim, desenvolveu toda a eloquencia da paixão. Henriqueta ouviu-o com a seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro da fazenda, que lhe conta os chatissismos e massudos negocios das finanças.Sorria-se, ás vezes, e respondia com um resaibo de magoa e de resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz amante.As suas ultimas palavras, essas sim, são dignas de se archivarem para escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios de Jupiter Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que tiveram a desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume electrico de seus olhos. Foram estas as suas palavras:«Snr. Carlos! Até hoje os nossos espiritos viveramligados por umas nupcias, que eu pensei não perturbarem a nossa cara tranquillidade, nem escandalisarem a caprichosa opinião publica. D'hora em diante, um solemne divorcio entre os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui fraca e talvez má, em prender-lhe a sua attenção n'um baile mascarado. Perdoe-me, que sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu amigo. Não me envenene esta santa obscuridade, este circulo estreito da minha vida, em que a mão de Deus tem derramado algumas flôres. Se não póde avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma mulher, que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade de a deixar sósinha com o segredo da sua deshonra; que eu prometto nunca mais alargar a minha alma n'estas revelações, que morreriam comigo, se eu podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha desgraça...»Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dôr sincera, lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo do sagrado juramento de nunca mais a procurar.Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou anciosamente a mão de Carlos, e despediram-se....E nunca mais se viram.Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias informações, e entrou em casa da mãi de Henriqueta. Uma senhora, vestida de lucto, e encostada a duas creadas, veio encontral-o n'uma sala.—Não tenho a honra de conhecer...—disse a mãi de Henriqueta.—Sou um amigo...—De meu filho?!...—interrompeu ella—Vem-medar parte do triste acontecimento?... Eu já o sei!... Meu filho é um assassino!...E prerompeu n'um choro, que a não deixava articular palavras.—O filho de v. exc.aassassino!... interpellou Carlos.—Sim... sim... pois não sabe que elle matou em Londres o seductor da minha desgraçada filha?!... da minha filha... assassinada por elle...—Assassinada, sim, mas só na sua honra—atalhou Carlos.—Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus, eu vos agradeço!...A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltação religiosa, que quasi o fizeram ajoelhar com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu irmão, e choravam ambos abraçados com toda a expansão d'uma dôr represada.Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem não saberá descrever nunca.Henriqueta abraçou sua mãi, e entrou n'um convento onde pede incessantemente a Deus a salvação de Vasco de Seabra.Carlos é o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance da sua vida como um heroismo digno d'outras épocas.Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz com o seu segundo marido, digno d'ella.Acabou o conto.DINHEIRO! DINHEIRO!Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle é não o direi eu, ainda que me façam... eu sei cá!? bacharel! Eu bem sei que não posso encarecer-me com este segredo, porque ha ahi uma boa duzia de pessoas que o sabem, por triste experiencia, mais miudamente que eu.Mas o que é mais bonito, e não sei mesmo se mais romantico, é que eu conheço pelo menos quatro primas-donas, afóra as comprimarias, d'esta partitura, que negam com toda a energia dos seus brios o importante papel que desempenharam.Deixal-as negar, que eu tambem não digo quem ellas são, ainda que me deem o habito de Christo.Outra cousa:O muito veridico archivista dos factos, que vão lêr-se, pediu-me, por tudo quanto ha sagrado no folhetim, que não divulgasse, nem por sombras, o seu nome.Não o direi nunca, ainda que me façam... barão!E está dito tudo.Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, começa o romance, em nome da moralidade, do decoro e dos interesses materiaes...DINHEIRO! DINHEIRO!I.Foi assim que principiou o meu illustre amigo:—Alli onde o vês é um embryão de romances desgrenhados...Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente não se podia contemplar-lhe o rosto sem recuar... não de medo, mas d'um não sei que desabrido e repulsivo. E não era feio. Eu por mim, custou-me muito a sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos negros e magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me áquella petulancia d'olhar, áquelle carregado provocante da sobrancelha, e, graças a Deus, já me não custa tanto.Ora ahi está, sem grave impertinencia, traçado corporalmente o snr. Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.—Com que então (disse eu) é um embryão de romances aquelle senhor?! Bem me parecia a mim quea vida d'aquelle homem não devia ser symetrica, pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer lhe sei de nada! Ando cá tão fóra das barreiras da sociedade, e dos dramas contemporaneos... que nem ao menos sei se a mazurka está no quinto grau da refinação, ou se as polkas cederam o terreno á restauração do minuete da côrte... Que miseria!—Não perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria está escondida no manto de lentejoulas com que esta sociedade desdentada e trôpega se encobre. E, se não, deixa-me lêr-te uma pagina da vida de Alvaro de Sousa, e verás como se vive por lá...Como sabes, aquelle rapaz é da plebe, e aspirou sempre a ser da fidalguia. O homem não podia tragar esta desigualdade de gosos imposta pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem avós, Alvaro achava-se aos vinte annos n'este mundo sem saber o fim para que viera, nem a fileira social em que devia perfilar-se.—Pois não ha tantos officios?—interrompi eu.—Essa pergunta não me parece tua! Pois tu querias sentar n'uma tripeça um homem de intelligencia?—Que duvida! Os sapateiros de Lisboa não tem um jornal? Alvaro de Sousa seria um habil redactor dojornal dos sapateiros.—Estás zombando!—Palavra de honra, que não zombo! Tu sabes lá porque horisontes vai ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a tripeça terá uma plastica e uma esthetica! Sabes se a bota de canhão terá um bello ideal? Sabes se a tomba e a intercospia terão uma philosophia? Sabes se as mathematicas virão, com a sua geometria applicada á bota, regular as dimensões do salto? Sabes se a dynamica será a ultima expressão do pino? E não achas aqui n'este complexo de sciencias um succolento pabulo para um sapateiro talentoso, para um sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?—Tenho entendido que não queres a historia do homem... Façamos treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu fechas a torneira ao espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal, que desperdiças, para os teus folhetins. Farás rir um fidalgo de raça, embora o seu quinto avô fizesse borzeguins para a tua quinta avó. Farás indignar o sapateiro, teu irmão pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu irmão pela arte, porque, em fim, eu não sei se a sociedade dispensa mais depressa os teus folhetins que as botas...E eu vi que o meu amigo tinha razão, e dei-lhe plena liberdade de historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que continúa assim:—Alvaro, á custa de muitos vexames e affrontas conseguiu relacionar-se em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras mulheres. Eram talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de iniciação para os noviços que entravam no faustuoso templo das vestaes em quinta mão.O rapaz foi mais adiante nas suas ambições.O coração pedia-lhe alimento, o espirito pedia-lhe amor, as aspirações anceavam-lhe um ideal, e o altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres deviam comprehendel-o no coração, no espirito, e nas aspirações.Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!A primeira declaração, que balbuciou, teve em troca um sorrir de despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava, que o escaldava, por dentro, e achou de gêlo todas aquellas mulheres. E não era isto só. Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das declarações; e algumas galhofeiras senhoras reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem que, todas juntas, hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio para que o servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. É onde podia levar-se o insulto!Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo sem luz, n'um segredo de torturas, e despedaçou um a um os sentimentos generosos com que entrára n'este mundo ingrato.Pobre!esta maldita palavra, estigma de reprovação, era o seu demonio das vigilias e dos sonhos!Como o supersticioso, que recua espavorido á larva imaginaria do seu crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se elles, juizes implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua pobresa.Mas um coração altivo de impotente orgulho não podia transigir com estas leis barbaras da sociedade, que amputam no coração do pobre os mais augustos sentimentos da sua vitalidade.Ha uma apparente reconciliação entre a affronta e a pobresa: é a reconciliação do odio: é um pacto de vingança, sellado pelas lagrimas do affrontado; é uma letra de usura avara de desforço, a vencer-se, sem praso fixo, mas a vencer-se um dia.Esta fôra a reconciliação de Alvaro de Sousa com asgenerosasmulheres da sua affeição.—Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes désse parte d'essa reconciliação...—Riram muito. Alguem lhes disse: «Aquelle pobre rapaz, que sentia freneticamente as suas paixões, fugiu da sociedade, e devora, na solidão do seu quarto, um rancor profundo...—A mim:—interrompeu uma d'ellas—Que pena! Oh Theresinha, não é uma verdadeira calamidade o odio d'aquelle rapaz?—Ai! Maria da Luz! que triste futuro nos espera...»E chasqueavam assim o seuridiculoinimigo, perguntando aos amigos d'elle em que dia finalmente as hostilidades se romperiam.Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a vingança impossivel, nas almas fortes, está o suicidio.—Nas almas fortes!(atalhei eu com gravidadephilosophica). Então não sei eu o que são «almas fortes!» Cobardes chamo eu aquelles que desesperam. A suprema das miserias humanas é a vingança reservada por causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa será muito romanesco, mas tambem é um grande tolo. Com que direito queria elle impôr-se ao amor d'essas mulheres? «Despresaram-no porque era pobre» respondes tu. E se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa tenha muitas seducções? E porque não foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha bem bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a umideal olympico e metaphysicamente imponderavelporque foi elle procurar o seu ideal nas mulheres carnalmente vestidas de tafetás e veludos? A mulher ordinaria, virgem na alma, sem a depravação das Aspasias que o repudiaram, não lhe seria mais interessante pela candura, pela innocencia, e pelo angelico scismar dos singelos devaneios? Eu não posso soffrer estes Werters caricatos que appellam para o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos não póde altear-se ás delicadas concepções da sua alma! Vai a vêr-se a mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos, incapaz de conceber a generosidade, gelada para as suaves impressões d'uma amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem oespiritoda franceza, mas opulenta como ella demateria. Repito: porque não vão estes impostores queimar o incenso das suas angelicas adorações aos pés d'uma donzellinha d'olhos timidos, e faces purpurinas? Não é tão bello surprehender o pejo da innocencia!? Não ha tanta poesia n'aquellas lagrimas de um primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que passa ao longe do seu Medro! Não ha ahi tantas Angelicas obscuras, tantas Virginias, segregadas dos salões das Phryneas? Emfim, meu sentimental historiador de paixões desgrenhadas, eu não posso sentir comtigoas desventuras do snr. Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim, escrevo folhetins, e minto quasi sempre para encher um espaço de papel. Póde ser que digas alguma cousa que valha a pena de captar a attenção d'este publico portuense, que lê constantemente, e, á falta de romances, por não poder emendar o costume de lêr sempre, começa a mastigar profundas lucubrações sobre a doença das vinhas.—Ora, diz lá.II.O meu amigo continuou:—Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram á alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma lenta agonia.—Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram privilegio dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, não é verdade?—O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, ou, pelo menos, desgraçado, que não sei se é menos, por toda a vida.Agora, levanta-se o pano do segundo acto.Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro bahús atraz de si. Este homem procurou a morada de um seu irmão; este irmão, que tinha morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia,era um rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos.Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraçou seu sobrinho, chorando a morte de seu irmão, que era muito semelhante com seu sobrinho. Deu graças á Providencia por encontrar um herdeiro do seu ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito grande, maior que a alma universal de Platão! só comparavel á alma que faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro.Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios vibraram-lhe uma eloquencia nova. O coração bateu-lhe pulsações d'um orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e dizer: o dinheiro sou eu!O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem regular, com sentimentos de homem não bestealisado pelo ouro.Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella magica metamorphose.E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo, menos para casar-se, porque detestava as mulheres.Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim.—Muito obrigado; não me despeço do favor.—Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não prescinde, na riqueza, da vingança premeditada no infortunio.Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de grave sisudez, e uma plena confiança.Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel como ellas, grangeou amisades, que não tinha...—Necessariamente... Olha que novidade me dás!... É melhor dizer...comprou amisades, que não tinha...—Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de través irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem rheumatismo agudo, que não consentem uma mosca no travesseiro. E a pobresa, seja dito em proveito da pathologia, é o rheumatismo agudissimo da humanidade...Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella. O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as relações dos que lhe eram muito inferiores, e até d'aquelles que repellira na infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu não te minto.—E as mulheres que faziam?—As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso é uma historia muito complicada...—Quaes são as que figuram?—Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de trinta e tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei porque, Maria da Luz, era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o, desairou-o, para todas as outras... Não sei.Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a captar-lhe a benevolenciapara conservar certos proventos, que estavam muito em perigo.O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz lêr-lhe o seu programma de vingança, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e esperou.Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz sustentar a dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fóra. Dava-se uns ares de esquecido, e apertava a mão da sua victima com a cordialidade d'um bom homem. E Maria da Luz espantou-se.Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se esperava, este homem é demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo já era visconde de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que não intervinha em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este fragmento deartigo do fundo, foi despedido o marido da Luz, cujo decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que subira.Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.—Realmente era...—Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a chamar pobre, fechára os seus salões, e não esperou que os alheios se lhe fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás d'aquellas salas desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. Adesgraça, ainda assim, não lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que, humilhando-se a Alvaro, encontraria uma protecção, mas tambem uma ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu, primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e encontrou-a sempre negativa.E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia chegar.Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. Thereza da Cruz era a segunda victima de Alvaro. Esta não podia ser ferida nos interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e amava profundamente um homem casado.Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, senão posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabeça d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do amor-paixão. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado.E Alvaro sabia-o.Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com estrondo e deshonra para Thereza da Cruz.O que elle fez é uma ignominia, é, porém uma vingança que medrara em fel durante tres annos de torturas suffocadas.Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta a uma sua amiga.O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua perversa habilidade.Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra. E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relações que a prendiam a um homem, que se não nomeava.Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma, que dizia assim:

Henriqueta.»

Henriqueta.»


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