IX

IXEstava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só inspiravam tristeza, começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando, cantando, juntam a sua alegria á alegria da natureza, parecem inebriados com tanta doçura.Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã—uma manhã de agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da atmosphera d'uma extrema limpidez—uma d'estas manhãs cheia de vida que, gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com um sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados, recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para nunca mais voltar, e, na sua profunda abstracção, estremece á voz d'um homem que, por detraz de si, o chama.{94}—Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus, de arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de orvalho.—É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então anda caçando, logo de manhã?—Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para me entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao almoço. Entrei por aqui dentro sem pedir licença...—Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o receber.—Muito obrigado! Muito obrigado!—Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço e...—Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!—Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que me fique obrigado...—Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa, e...—Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...—Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...—Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe fallo...{95}—Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o prazer de almoçar na sua amavel companhia.—Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a cerca de cem metros.Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um anno de fome; applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá el-rei o carro e o carril».—Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com monosyllabos, acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo. Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vêem um dia deitados em leitos fôfos e voluptuosos e gostam de alardear os seus haveres, elle fallou dos seus negocios, das transacções dos seus capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde andava já a construir uma casa, etc., etc.Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.—Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O{96}sr. Velloso almoça hoje comnosco. Prepara-lhe o almoço.Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador sorriso o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com uma mesura envolvendo-a num olhar de sympathia.O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena, coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e linguiça.Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as calças empoeiradas.—Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está prompto o almoço?—Sim senhor.—E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede para almoçar.—Um hospede? E quem é?—O brazileiro, o sr. Velloso.—O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!—Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.—Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito com elle?—Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido ao irmão, affastou-se, dizendo:—Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto entre as mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza.........Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se{97}cortezmente e muito reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente gente o tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por outra, fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem egualmente á sua casa nova, logo que estivesse concluida.—Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae ficar uma obra bôa, e...—Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!—Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou merecimentos para isso.O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e, estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.—Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima sempre que lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr. Velloso.—Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro partiu—dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho! Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter muito bom coração. Parece muito bom sujeito.—Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como num echo, Helena.Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e João, pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho, precedido de Paulo, murmurava comsigo:{98}—Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da minha irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e verá quanto peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no Brazil? Experimenta! Experimenta, que o cacete t'o dirá!...E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num intelligivel crescendo:—Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então uns pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para cá com as tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem então lá um palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro, que—Ah! Ah! Ah! até dá vontade de rir!—me vem dizer «que tome conta na Maria Luiza, que anda tôla pelobisnaga! Que era só elle fazer um gesto, que a rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a peito fazer-me alguma desfeita!» Que grande bruto me saiste, Francisquinho das Neves! Que se livre mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria Luiza! Que dois brutos me sairam obisnagae o Neves! Este, embruteceu com o dinheiro; o outro, embruteceu talvez pela grande vontade d'elle! Ah! Ah! Ah!—Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!—Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem. Não digas do que ouviste, percebes?—Sim senhor.—Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...—Não ha duvida, patrão.{99}XO Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de Jesus.Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um individuo, com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da tia Maria das Neves passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um cão fiel, prompto a defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem. Com uma differença, porém: o cão serve seu amo a troco do alimento que lhe dá, e o Neves dedicou-se ao Velloso de corpo e alma, imbecilmente, com a dedicação dos espiritos boçaes que se inclinam, sem mesmo saberem nem procurarem saber o motivo, a uma causa.Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.—Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após o que foi logo procurar o visinho—parece-me que estou apaixonado pela filha do Alameda.—Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?—Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras! E é por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no negocio.{100}—Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da rapariga, ainda tem coragem de...—És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de pugnar pela honra da minha futura noiva. Percebes?—Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...—Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo!—E, fallando mais confidencialmente, continuou—Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a Helena. Não sei se me comprehendes...—Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!—Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste. Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para elle não andar de pé atraz commigo.—Percebo muito bem.—Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o que has-de fazer.—E ajuntou com um sorriso malicioso:—E é mais uma sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...—Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de as levar todas a fio!...—Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que a minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto em questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais um pio dás sobre{101}o caso: só dizes ao filho do Alameda que aquillo foi um gracejo da tua parte...—Sei muito bem.—Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.—Já está mais que percebido.—Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando uma certa amizade... um certo amôr... até que...—Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia—ou talvez o dissesse instinctivamente!—a cathegoria do seu baixo mister.{102}XIFins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creança.Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das estrellas.Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco adeantada da noite—eram nove e meia.Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e recolher com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunião e cavaqueira nos cafés, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar é um cenaculo de alegria, paz e amôr, e sómente ás vezes, quando nas noites longas de inverno podem dispôr de algum tempo de distracção, juntam-se, até ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites dão para tudo», dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que se estabelecem os principaes pontos de reunião—os nucleos da ingenua cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos que mais impressionaram a curiosidade publica.Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de estrellas, parecia um immenso campo cheio de flôres.{103}A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na sombra.Em seguida um outro vulto—o vulto d'um homem encapotado—se deslocou do escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.—Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao approximar-se.—Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de Helena.—Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o apoquenta e que só tenho podido exprimir por olhares!—Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me parece ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não tenho experiencia do mundo...—Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que da sua parte houvesse para commigo egual affecto!—Ha! Talvez mais...—Oh! Não diga isso!—E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor crescente—É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem limites!...—Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a razão, em que esta ficou vencida por aquelle...—Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha{104}a felicidade de poder mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as aspirações do meu coração!—Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o poder de fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu coração suspira, a vida inteira.—É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!—Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas essas...—Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco, transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo sensações até ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.—Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris as mãos tremulas d'ella.—Acredito. Eu tambem o amo muito...—Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!—Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo.{105}Mas peço-lhe que falle mais baixo, porque Deus me livre que alguem ouvisse!—Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos vissem?—Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!—Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.—E, baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe palavras ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio dulcissimo.—Helena, meu amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta felicidade, que o julgo quasi impossivel! Se eu fosse pobre, talvez acreditasse no que dizes. Ahi está para que serve o dinheiro! Para nos lançar o coração no desespero! Helena! Juras que me amas?—Juro!...A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do pescoço, com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com meiguice:—E juras amar-me sempre?—Sempre!...—E muito? Tanto como eu a ti?—Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um salpico de lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da portaria que se fechava occultando{106}á exigua claridade da estrada as sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados—um, com um sentimento todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo lubrico.......A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:—O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha, Joaquim?!—Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos annunciando um paraiso de felicidades.—Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de tamanha melancholia!—Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa—a nossa casa!—d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha; e havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de mandar fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.—Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha felicidade?—Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:—Adeus. Até ámanhã.—Adeus Joaquim!Helena conservou-se á porta até ver desapparecer{107}o vulto do seu bem-amado numa curva da estrada.Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o piar lugubre d'uma ave nocturna.Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:—Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...{108}XIIE Maria Luiza?Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua casinha, aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu coração o balsamo suavissimo da esperança.Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das intemperies?Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é para ella d'um prazer indefinivel.«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre que ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras refrigerio para as mágoas que a affligiam.E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão diaria, já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos polida lhe feria os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de lagrimas os olhos. A torrente do enxurro foi affrouxando de impetuosidade; e agora, já de quando em quando lhe sôa ao ouvido um «adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com uma especie de arrependimento.Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando—á{109}tempestade segue-se a bonança; a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que, longe de se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou obedecendo aos principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se, vergonhosa e torpe, no vil sentimento da inveja.Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um proximo regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das suas amigas em cujo olhar já lia o arrependimento.E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de delicias, muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de gigante. No dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe toldam o horisonte, ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu azul, outr'ora carrancudo e tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso despretencioso e ingenuo, como que annunciando-lhe não sómente o regresso á vida de outr'ora, mas um mundo desconhecido, uma vida de fausto...Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida, porque foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a... Sim! Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias do sr. Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento, seis mezes de dedicações, seis mezes que são todo um protesto eloquentissimo d'um coração apaixonado? Não! Maria Luiza não póde ouvir-te, ó novo Creso{110}da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos com que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar ingenuo e inexperiente d'este santo povo!Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu futuro—o futuro de ambos!—risonho como o sol ao nascer, lindo e aromatico como um campo coberto de flôres.E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem da bocca d'um profeta.—Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu João—Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram assoprar. Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal empregado em ti. Convenci-o de que o enganaram. E elle—que coração d'oiro!—acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a tempestade, que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda. Beijei-lhe as mãos em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas lagrimas! Que coração aquelle!—É como o teu, João!—É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me perdoou, mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae assim, não devemos pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas malvadas deixarem de fallar, então... verás! verás!{111}**     *Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha. Era á tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os balidos dos cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas jungidas á canga puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e as vozes dos lavradores incitando os animaes ao trabalho, e os cantares alegres das creanças que guardavam as ovelhas.Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem prestar attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um rouxinol que canta em frente da sua janella.Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo desprezo da Maria Luiza? Não; porque esta tambem d'ahi a momento estremeceu, cortando o fio aos seus pensamentos. Estremeceu á voz de um homem que a saudava da rua.—Olá! menina! Boa tarde!Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo para ella.Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma expressão sorridente:—Boa tarde, sr. Velloso!—Oh! conhece-me, e eu não tenho a honra de a conhecer!—Quem o não conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico é bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos labios.—Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de formosuras.{112}—Não percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um tanto embaraçada.—Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga bonita! Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli, outra mais bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais bonita que todas as outras!—E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...—É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou aqui. É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento com que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...—Oh! senhor! Não tem nada que...—Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei impressionado com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e perdôe-me se a offendo com a minha franqueza.—Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor, que...—Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não! Agora é que realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir á vontade de contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a todas as vezes que quizer, durante toda a vida. E então havia de estar pasmado no meio do caminho, a olhar para si sem dizer palavra? Digo então o motivo da minha admiração.—É uma questão de pachôrra...{113}—Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua belleza ter despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha não sei quê que captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais captivado fico! Vou-me então embora, para não ter de ficar aqui toda a vida.—Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella sempre com o mesmo sorriso.—Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu agora, dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!—E accrescentou, com expressão ficticia de pezar—Mas não admira, porque, segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e comtudo foi castigado como o maior dos embusteiros e como um grande criminoso...—Peço-lhe perdão, se o offendi; eu não queria chamar-lhe impostôr. Queria sómente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de verdade—atreveu-se ella a dizer—não deixavam comtudo de ter os seus enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...—Ora ainda bem que faz um pouco de justiça aos meus sentimentos. Alguma justiça... não toda a que elles têm direito. Mas...—É melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque sinto que minha mãe chegou agora a casa e...—Eu retiro-me. E peço-lhe que não fique fazendo fraco conceito das minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa é crime, peço-lhe humildemente perdão... e adeus!...{114}—Adeus, sr. Velloso.—Bem! Isto não correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus botões.E, sorrindo, continuou:—Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o demonio da rapariga não é peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em embeiçar com ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,.. Nem parece o que dizem. Mas... as mulheres são impostôras como o diabo. Nem que eu as não conhecesse! Oh! conheço-as tão bem como a mim mesmo! Ou talvez melhor, porque muitas vezes não sei o que quero, e o que ellas querem sei eu muito bem... Com mais duas ou tres palestras, sônda-se a coisa; por demais é fingir-me apaixonado e prometter-lhe uma vida de fidalga. Prometter-lhe-hei até casar com ella, pois que duvida ha n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com uma mulher pobre de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella ideia! E o rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa. É para bem d'elle... e meu!—accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso! Velloso! Não ha mulher que te resista!...E caminhava cheio de contentamento, em direcção ao campo, rindo-se sósinho, como um idiota.O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dôce penumbra começava já a inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando, eram apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao hombro, se punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo os rebanhos.—Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o sr. Velloso, espraiando a{115}vista pela planicie, empertigando-se e affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios de vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo brazileiro, interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:—Adeus!O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um quasi imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:—Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não se esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de costume!O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa; uma suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que accendeu, e retrocedeu.Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e as Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.—«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou alguns instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes distinctas que se alternaram.Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.{116}XIIIMaio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes bafejadas por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca d'um anjo. Cada despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca symphonia executada por milhares de gargantas de passarinhos chilreantes, alegres como creanças. Estes outeiros, elevando-se garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do mais colorido e pittoresco scenario—o magnificente scenario pintado pela mão da natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.Tudo era poesia, tudo era amôr.O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que se bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie polida das aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de despedida, beijando ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre elle se debruçava com carinho.E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava o teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...{117}**     *O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de enygmas.Maria Luiza, a flôr predilecta do jardim do amôr do João da Alamêda, o anjo tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por pensamentos lhe tivesse profanado a candura, essa mulher que alcançara d'um coração bondoso quanto amôr se pode dedicar a um ideal e quanta dedicação se pode prestar a um ente que vê deante de si o cháos horripilante da desgraça e da miseria—Maria Luiza cedeu ás insidias do brazileiro, vergou á logica revoltante das suas palavras maleficas como a tenra açucena da encosta vergada ao sopro do Aquilão.Desde então, parece que até a sua casa ficou com um aspecto tristonho, que o rouxinol que, de madrugada e á tardinha, ia cantar para defronte da sua janella, já não sabia canções alegres, e que os cordeirinhos, balando em volta das mães que pastam no campo, já não retoiçam como costumavam.O triumpho, porém, que o sr. Velloso alcançou, longe de o contentar, foi contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao chegar a casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a lembrança que o visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.Nessa noite, ás horas do costume, compareceu á entrevista com Helena, a quem continuava a acalentar com a esperança de dias felizes passados na sua casa nova.Nessa noite, porém, a demora foi curta.Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia, retirou-se e recolheu a casa{118}onde, fincando os cotovellos sobre a meza, metteu a cabeça entre as mãos, e scismou mais de uma hora.Parece que não tirou resultado da sua meditação—que era antes uma catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro—porque, levantando-se mal humorado, pôz-se a passear agitado na sua sala de pavimento terreo.Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam para cima de uma boa legua, até que resolveu deitar-se.Se dormiu ou não, é que ainda não sei. Elle o dirá ámanhã ao seu amigo Neves.—Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manhã cêdo, no alpendre do visinho que, ao vêl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado, com que escavacava uma acha, levantado no ar—diabos te levem mais a lembrança que tu tiveste!O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no chão, e, appoiando sobre o cabo as mãos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar, como quem não comprehendia nada do que ouvia; até que, passados momentos, perguntou, meio parvo, ao brazileiro que passeava apressado d'um lado para o outro no alpendre, retorcendo com uma das mãos o bigode:—Que lembrança?!O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.—Essa lembrança maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa rapariga que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa canalha que dizia mal d'ella!E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e, depois de seguir machinalmente{119}com a vista, durante um bom meio minuto, os movimentos do brazileiro, gaguejou:—Mas... Vossa senhoria falla sério?!...—Antes não fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e collocando, sem interromper a sua marcha, as mãos atraz das costas.Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos do brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:—De maneira que a rapariga... não...—A rapariga estava honrada como as mais honradas! É o que é!Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma especie de lamuria, muito pausado e sentencioso:—Ora vejam vocês como ás vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se portava assim, se portava assado!... Já me não torno a fiar em nada que se diga!—Pois se tu assim tivesses feito!...O Neves calou-se áquella observação, feita á maneira de censura.«Effectivamente, pensava elle comsigo, eu é que fiz mal em o metter em contradanças! Mas... sêbo! Eu não sabia! Nem tenho culpa do que se dizia! Sou culpado e não sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo de mal tem isso?»Foi sob a influencia d'esta ultima reflexão, que quebrou de novo o silencio, dizendo resoluto:—Afinal... vossa senhoria está para ahi com uns taes incommodos por causa d'uma coisa que não presta para nada! Deshonrou a rapariga, acabou-se!{120}Uma coisa muito natural! Vossa senhoria tambem ficou deshonrado?O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:—Tu é que não sabes as coisas. Não é a deshonra que me incommoda! Já não é a primeira, nem a segunda, nem... eu sei lá! O diabo é que a nenhuma fiz promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a encontrasse pura, senão a esta. E eu, o que mais prezo neste mundo, é a minha palavra. Depois, ainda que não fosse isto, bastava só o remorso de lançar no desespero esse bello rapaz, sem necessidade nenhuma. Tudo por causa d'essas malditas linguas, que precisavam ser arrancadas, todas as vezes que se põem a fallar da vida alheia!—Oh! senhor! Mas então...—Então, o quê?—Quero eu dizer que...—replicou o Neves coçando na cabeça, contrariado—que, se não quer faltar á sua palavra...—Sim: e a outra?E voltou a passear.—A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?—Não lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia de dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter no seu passeio. E accrescentou—Além d'isso, a essa amo-a devéras!O Neves, perplexo, olhava para o chão, sempre com as mãos appoiadas no cabo do machado.—Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa senhoria fazer?—Eu sei lá! Tenho dado voltas á mioleira, que nem sei como não endoideci. Esta noite, quasi que{121}nem preguei ôlho. Se pudesse casar com ellas ambas, casava.—Mas o melhor é chamal-as a um accôrdo, e não casar com nenhuma...—Qual accôrdo, nem meio accôrdo! És pateta, homem! Bem se vê que não tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era o cabo dos trabalhos.—Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accôrdo... Contar-lhe tudo, a bôa intenção que vossa senhoria tinha de salvar o rapaz da deshonra... finalmente, um accôrdo é que servia. Vossa senhoria está contra isso, mas é cá a minha ideia, e talvez désse resultado. Porque, combinadas as coisas, tudo ficava em casa, e...O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:—Parece que dizes bem. Contarei primeiramente á Helena o succedido. É uma facada que lhe dou no coração, mas que se ha-de fazer? O diabo é para o contar ao irmão. É capaz de matar a outra.—Levando-o por bem, não faz nada. É um pobre diabo!—Bem. Não ha remedio senão fazer isso. Esta só pelos demonios!—Não foi das melhores, não, sr. Velloso.—Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a saber depois a traição d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou até casa. Foste o culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia, perdôo-te. Senão, tinhas de desemaranhar a meada.—Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E ainda estou a pensar num caso: como diabo é que o João da Alamêda se conteve,{122}indo lá a casa todas as noites... Tareco impossivel! Mas... ó senhor Velloso! Vossa senhoria não se enganaria?O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve uma objecção; e, retirando-se, observou:—Pensas que nasci hontem...O Neves riu-se por sua vez; e, já sósinho, monologou, respondendo á observação do Velloso:—Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.{123}XIVNo mesmo dia, á tardinha, no campo, o João da Alamêda gradava uma terra que, durante o dia, tinha lavrado. Lançara-lhe a semente e procedia, com a grade, á cobertura dos grãos.Á frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sóga numa das mãos.O tempo continuava claro e sereno.O immenso tapete de flôres que se estendia no campo apresentava já, de onde a onde, uma interrupção: aqui e alli, uma terra, resolvida, sobresaía no meio d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma ou outra nuvem pardacenta.É neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flôres: mas, em substituição, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas brizas, nos dá a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente encrespado pelo vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de verdura—permittam-me a expressão—apparecem, de onde a onde, como bandos de cysnes, ranchos alegres de rapazes e raparigas; elles, despidos dos casacos, com as camisas brancas a lusir entre o verde dos milharaes; ellas, de lenços garridos amarrados graciosamente em volta da nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos cantando, sacham o milho pequenino e tenro, desde o despontar do sol até ao crepusculo da tarde. Á hora da sesta, depois da refeição do meio dia sorvida á sombra deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se{124}para dormitar sobre a relva mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam qualquer jogo de regaço, sempre em alegria e folgança honesta; e ainda outros, mais irrequietos e folgazões, saltam para um d'esses bateis que se encontram a cada passo atracados ás margens do Vouga, e vão passear pelo rio.O João da Alamêda terminou a sua tarefa ao pôr do sol. Collocaram a charrúa e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozéram-se a caminho de casa, Paulo á frente, guiando o carro, e João atraz.Ao passar á porta da Maria Luiza, João olhou para a janella onde ella, todas as tardes, costumava estar, e não a viu.—Está talvez lá para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma surpreza!E, com um sorriso do satisfação, metteu por uma cancella contigua á casa, pé ante pé, esperando encontral-a e rir-se de a vêr surprehendida.Espreitou para dentro e não viu ninguem. Machinalmente, entrou no pequeno quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta, e dispunha-se a entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes vindo d'um pequeno alpendre que estava ao lado do quintal.—Ah! Está ali mais a mãe. Pois vou metter-lhes um sustosinho.E dirigiu-se para lá, com precaução, para não ser presentido.O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao formado por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os vãos entre o pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira. Num destes{125}havia uma porta, e João ficou um tanto surprehendido ao vel-a fechada, devendo ser mãe e filha que lá estavam. Mas, de subito, percebeu que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu coração começou a pulsar precipitadamente.Avançou até junto da porta, e escutou.Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:—Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá, tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não devia fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que não me deixa socegar o espirito.João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não sonhava. Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a mesma voz que proseguia:—Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!—Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a outra voz, a do brazileiro.—Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e infame mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a cabeça, cambaleando, murmurava:—É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?! Tanta dedicação, tanto amôr?!...E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre. Depois, como tomando uma resolução, continuou:—Não! Não quero manchar as mãos no sangue{126}d'um bandido! Que ganho com isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que tinha tomado.Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela mãe d'esta, cuja saudação não ouviu.Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas mulheres, de cantaro á cabeça, davam-lhe as boas noites, que elle não retribuia.Tinha sempre, para cada saudação, um dito gracioso acompanhado d'um sorriso; e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante e apressado.Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os hombros, continuavam o seu caminho.João, quando chegou a casa, não tratou de vêr, como era seu costume, se o gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido nesse dia estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu sorumbaticamente as boas noites, pediu que lhe levassem ao quarto uma escudella de agua mórna para lavar os pés, e, allegando uma violenta dôr de cabeça, despediu-se do pae e recolheu á alcova.—Queres que te traga a ceia, João? perguntou-lhe Helena quando lhe foi levar a agua.—Não; não quero. Não me appetece comer.—Eu não sei o que tens, João! O Paulo diz que não te tinhas queixado no campo de incommodo nenhum. Diz que só se foi que te désse pelo caminho: que ficaste atraz...—Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te não seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...—Que é? perguntou Helena com anciedade.—É o seguinte: mas digo-to só a ti, para não causar barulho, porque és tu só quem pode fazer o que te peço.{127}E, esforçando-se por dar serenidade á voz que lhe tremia, proseguiu:—Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que nunca mais aqui appareça!—Ah! pois tu...—perguntou Helena, meia aterrada. Não queres que...—Sim! Que não volte cá mais, para evitar alguma desgraça!—Ó João! Mas... dize lá: como o soubeste?!—E, entre a anciedade e a surpreza, repetiu—Como o soubeste?!—Como o soube?! Oh! Essa é boa! Então, pelo que vejo, tu sabial-o, e...—Então vistel-o sair?!...—Diabo! Estás a modos... Mas se eu vi o quê?!—O sr. Velloso... Como não queres que elle cá volte, para evitar alguma desgraça...—Pois vi! E tu sabial-o, e não m'o tinhas dito!—Se eu o sabia?! Mas eu não te percebo nem tu percebes a mim!—Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair. D'onde?—D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias tudo e que tinhas visto...—Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que, contra o brazileiro, a revelação da irmã lhe suscitara, disse:—E é por isso que eu não quero que elle aqui volte mais. Vae-te embora, que não paro da cabeça.—Passa bem a noite, João. Até ámanhã.—Até ámanhã. E não digas nada disto a ninguem.—Descança.João, ao ficar só, sentiu que tinha febre.Atravez das suas ideias em desordem, só dois{128}vultos divisava distinctos: Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladrão da sua noiva, o roubador da felicidade do seu coração, e, para epilogo de tanta malvadez, o pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima observação saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o abalo que sentiu dentro em si.—Ah! Infame! Não! Tu não has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de tanta malvadez! Miseravel!...E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara tão desapiedadamente aos pés o seu verdadeiro amôr, a sua dedicação extrema, atirou-se, soluçando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma creança.**     *Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita cautella com o irmão, que o tinha visto sair d'alli.—Temo até que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que está com uma forte dôr de cabeça; mas, ainda assim...E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos que, desde a véspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente addiar a confidencia.—Mas quando hei-de voltar, Helena?—Não sei... É melhor deixarmos passar dias... O melhor, até, Joaquim, era tu chegares ao pé de meu irmão e dizer-lhe: «descança, João, que a tua irmã vae ser minha mulher». Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!{129}—Por estes dias, não, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia em Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcançarmos a felicidade.—Pedir a Deus? Pois Deus póde lá oppôr-se á nossa felicidade, Joaquim? Deus deseja-o, e por isso não precisa que lhe peçam! Só se fôr para metteres a mão na tua consciencia, e...—És louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no cumprimento do meu juramento.—Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres então que peça a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?—Quero.—Pois bem: pedir-lhe-hei... O coração, porém, annuncia-me coisas tão tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!—Se Deus o consentir, has-de ser!—Mas eu não comprehendo bem as tuas palavras!...—Não disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de teu irmão?—Sim; mas...—Mas é que o que te quero dizer, só poderei dizert'o com mais socêgo. Ámanhã, venho cá e...—Não venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e só te approximas se eu abrir a portaria. Então, é porque meu irmão não saiu.—Bem. Boa noite, Helena.—Adeus, Joaquim! Até... quando Deus quizer!{130}XVNo dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu capote e, pegando no marmeleiro—seu inseparavel companheiro nocturno—saiu de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um quarto d'hora, e, na volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse affirmado bem para um ponto do escuro das arvores, teria notado uma negrura mais densa. Fôra o Velloso que escolhera aquelle ponto para seu posto de observação, donde se descortinava, atravez da negrura daquella noite sem luar, o vulto da casa de Helena, divisando-se no seguimento da estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu allumiado pelas estrellas.João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro fronteiro.O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas folhas das arvores.Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi imperceptiveis, na torre de Eiról.Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada mais se ouviu na estrada deserta.{131}**     *O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca do succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia seguinte a Maria Luiza.Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o remorso lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades, attribuindo a causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não comprehendia.Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á hora das Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do campo, e não respondera á sua salvação.—Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.—A mãe que diz?! Encontrou-o...—Encontrei-o alli acima.—Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel anciedade.—Ao toque das Ave-Marias.E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para Maria Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de quem se recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo remorso.{132}Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar a ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava interrogar ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso ironico; e, não achando outro remedio que pudesse alliviar a afflicção em que a via, resolveu, sem o communicar á filha, ir a casa do tio Alamêda saber da saude de João, pois outro motivo não podia haver que o impedisse de sair, senão a doença.Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não oppunha obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e foi no mais firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas que obrigavam o seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro dia, se dirigiu para lá, eram dez horas da manhã.Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de sobreiro para uma chavêlha.—Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!—Muito bom dia, sr.ª Rita.—Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?—Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha que tempos tambem que a não vejo!—Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para cima...—E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu aido, porque já não posso, estou velho.—Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito.{133}—Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por elles o que pude...—Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns bons filhos.—Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.—Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...—Dirá...—Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom coração...—Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que não reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso, apezar do que para ahi diziam...—Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e por isso...—Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um pobre...—Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de Natal—na noite de ceia—e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em chorar, que até me retalha o coração.{134}—Pois olhe que eu não sei o motivo...—Então elle não está doente?!—Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de manhã, levantou-se e foi para o trabalho.—Sim?!—É verdade.E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade de sua filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de Maria Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito contristada, saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si á filha que outra vida não fazia senão chorar.—Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que quanto mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou? Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!—Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar por contos...—Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu logar, procederia d'outra fórma.E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer acontecimento grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois seres que tanto se amavam.{135}Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a Helena.Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de fallar com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle, cuja significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por uma terrivel angustia, tinha emmagrecido.O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a dôr que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a phisicamente. Uma unica consolação encontrara para a mágua: as lagrimas—esse terno confidente dos infelizes—que vertia a sós na reclusão da sua alcova, que lhe alliviavam as amarguras do coração mas lhe desbotavam as côres do rosto e tarjavam de roxo as cavidades dos olhos.Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo a carta, vinda da parte de Velloso.Correu ao seu quarto e leu:«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as noites vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa portaria que é para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr apparecer como o meu anjo salvador, vejo teu irmão, que me espia, esconder-se na escuridão do muro fronteiro, e, depois de, durante cerca de duas horas de cruel espectativa, me conservar no meu posto de observação, vejo-o retirar-se.Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho de te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena, e vae, com certeza, ferir de tal modo o teu coração{136}bondoso, que até receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de communicar-t'o, principio, pedindo-te que conserves a maior presença de espirito e confies em Deus para que não te faça desanimar á vista do que vaes lêr.Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a respeito de teu irmão que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria Luiza, que eu não conhecia. Dizia-se que ella fôra uma mulher leviana, e que por isso não era digna da dedicação de teu irmão, um rapaz querido e estimado de toda a freguezia; que este perdia muito no seu conceito se casava com ella, segundo constava. Como não me interessava com o caso, apenas lamentei a sorte de teu irmão, com quem eu não tinha relações.Depois, porém, que te conheci, que te comecei a amar com este amôr louco que te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra d'elle e minha, porque era irmão da minha noiva, affastal-o do caminho errado que trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador. Convencido como estava, pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza tinha sido uma fraca mulher, e que agora se mostrava outra para conservar teu irmão na illusão em que andava, resolvi que ella resvalasse ao lodoçal d'outrora, para que teu irmão, abrindo os olhos, visse a desgraça que estivera imminente de si.Consegui, com effeito, graças ás minhas promessas, o meu intento. Jurei-lhe até que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas de que a accusavam. E... cruel decepção! Maria Luiza estava pura, tão pura como tu, minha Helena, quando...»Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta até este ponto, sentiu uma nuvem toldar-lhe{137}a vista e, amarfanhando a carta, caiu de bruços sobre o leito num chôro convulsivo, murmurando em delirio, a voz cada vez mais apagada:—A lua estava tão triste!... Um môcho, a piar mais triste, fez-me calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito feliz!...............

Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só inspiravam tristeza, começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando, cantando, juntam a sua alegria á alegria da natureza, parecem inebriados com tanta doçura.

Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã—uma manhã de agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da atmosphera d'uma extrema limpidez—uma d'estas manhãs cheia de vida que, gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.

O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com um sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados, recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para nunca mais voltar, e, na sua profunda abstracção, estremece á voz d'um homem que, por detraz de si, o chama.{94}

—Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?

Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus, de arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de orvalho.

—É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então anda caçando, logo de manhã?

—Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para me entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao almoço. Entrei por aqui dentro sem pedir licença...

—Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o receber.

—Muito obrigado! Muito obrigado!

—Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço e...

—Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!

—Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que me fique obrigado...

—Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa, e...

—Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...

—Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...

—Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe fallo...{95}

—Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o prazer de almoçar na sua amavel companhia.

—Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.

E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a cerca de cem metros.

Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um anno de fome; applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá el-rei o carro e o carril».

—Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».

O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com monosyllabos, acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo. Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vêem um dia deitados em leitos fôfos e voluptuosos e gostam de alardear os seus haveres, elle fallou dos seus negocios, das transacções dos seus capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde andava já a construir uma casa, etc., etc.

Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.

—Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O{96}sr. Velloso almoça hoje comnosco. Prepara-lhe o almoço.

Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador sorriso o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com uma mesura envolvendo-a num olhar de sympathia.

O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena, coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e linguiça.

Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as calças empoeiradas.

—Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está prompto o almoço?

—Sim senhor.—E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede para almoçar.

—Um hospede? E quem é?

—O brazileiro, o sr. Velloso.

—O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!

—Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.

—Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito com elle?

—Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido ao irmão, affastou-se, dizendo:

—Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!

Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto entre as mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza.........

Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se{97}cortezmente e muito reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente gente o tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por outra, fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem egualmente á sua casa nova, logo que estivesse concluida.

—Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae ficar uma obra bôa, e...

—Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!

—Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou merecimentos para isso.

O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e, estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.

—Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima sempre que lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr. Velloso.

—Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro partiu—dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho! Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter muito bom coração. Parece muito bom sujeito.

—Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como num echo, Helena.

Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e João, pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho, precedido de Paulo, murmurava comsigo:{98}

—Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da minha irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e verá quanto peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no Brazil? Experimenta! Experimenta, que o cacete t'o dirá!...

E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num intelligivel crescendo:

—Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então uns pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para cá com as tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem então lá um palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro, que—Ah! Ah! Ah! até dá vontade de rir!—me vem dizer «que tome conta na Maria Luiza, que anda tôla pelobisnaga! Que era só elle fazer um gesto, que a rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a peito fazer-me alguma desfeita!» Que grande bruto me saiste, Francisquinho das Neves! Que se livre mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria Luiza! Que dois brutos me sairam obisnagae o Neves! Este, embruteceu com o dinheiro; o outro, embruteceu talvez pela grande vontade d'elle! Ah! Ah! Ah!

—Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!

—Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem. Não digas do que ouviste, percebes?

—Sim senhor.

—Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...

—Não ha duvida, patrão.{99}

O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de Jesus.

Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um individuo, com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da tia Maria das Neves passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um cão fiel, prompto a defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem. Com uma differença, porém: o cão serve seu amo a troco do alimento que lhe dá, e o Neves dedicou-se ao Velloso de corpo e alma, imbecilmente, com a dedicação dos espiritos boçaes que se inclinam, sem mesmo saberem nem procurarem saber o motivo, a uma causa.

Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.

—Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após o que foi logo procurar o visinho—parece-me que estou apaixonado pela filha do Alameda.

—Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?

—Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras! E é por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no negocio.{100}

—Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da rapariga, ainda tem coragem de...

—És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de pugnar pela honra da minha futura noiva. Percebes?

—Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...

—Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo!—E, fallando mais confidencialmente, continuou—Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a Helena. Não sei se me comprehendes...

—Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!

—Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste. Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para elle não andar de pé atraz commigo.

—Percebo muito bem.

—Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o que has-de fazer.—E ajuntou com um sorriso malicioso:—E é mais uma sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...

—Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de as levar todas a fio!...

—Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que a minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto em questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais um pio dás sobre{101}o caso: só dizes ao filho do Alameda que aquillo foi um gracejo da tua parte...

—Sei muito bem.

—Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.

—Já está mais que percebido.

—Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando uma certa amizade... um certo amôr... até que...

—Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...

Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia—ou talvez o dissesse instinctivamente!—a cathegoria do seu baixo mister.{102}

Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creança.

Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das estrellas.

Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco adeantada da noite—eram nove e meia.

Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e recolher com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunião e cavaqueira nos cafés, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar é um cenaculo de alegria, paz e amôr, e sómente ás vezes, quando nas noites longas de inverno podem dispôr de algum tempo de distracção, juntam-se, até ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites dão para tudo», dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que se estabelecem os principaes pontos de reunião—os nucleos da ingenua cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos que mais impressionaram a curiosidade publica.

Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de estrellas, parecia um immenso campo cheio de flôres.{103}

A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na sombra.

Em seguida um outro vulto—o vulto d'um homem encapotado—se deslocou do escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.

—Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao approximar-se.

—Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de Helena.

—Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o apoquenta e que só tenho podido exprimir por olhares!

—Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me parece ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não tenho experiencia do mundo...

—Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que da sua parte houvesse para commigo egual affecto!

—Ha! Talvez mais...

—Oh! Não diga isso!—E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor crescente—É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem limites!...

—Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a razão, em que esta ficou vencida por aquelle...

—Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha{104}a felicidade de poder mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as aspirações do meu coração!

—Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o poder de fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu coração suspira, a vida inteira.

—É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!

—Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas essas...

—Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!

E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco, transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo sensações até ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.

—Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris as mãos tremulas d'ella.

—Acredito. Eu tambem o amo muito...

—Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!

—Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo.{105}Mas peço-lhe que falle mais baixo, porque Deus me livre que alguem ouvisse!

—Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos vissem?

—Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!

—Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.—E, baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe palavras ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio dulcissimo.—Helena, meu amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta felicidade, que o julgo quasi impossivel! Se eu fosse pobre, talvez acreditasse no que dizes. Ahi está para que serve o dinheiro! Para nos lançar o coração no desespero! Helena! Juras que me amas?

—Juro!...

A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do pescoço, com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com meiguice:

—E juras amar-me sempre?

—Sempre!...

—E muito? Tanto como eu a ti?

—Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.

Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um salpico de lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.

E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da portaria que se fechava occultando{106}á exigua claridade da estrada as sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados—um, com um sentimento todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo lubrico.......

A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.

Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:

—O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha, Joaquim?!

—Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos annunciando um paraiso de felicidades.

—Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de tamanha melancholia!

—Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa—a nossa casa!—d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha; e havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de mandar fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.

—Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha felicidade?

—Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!

E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:

—Adeus. Até ámanhã.

—Adeus Joaquim!

Helena conservou-se á porta até ver desapparecer{107}o vulto do seu bem-amado numa curva da estrada.

Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o piar lugubre d'uma ave nocturna.

Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:

—Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...{108}

E Maria Luiza?

Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua casinha, aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu coração o balsamo suavissimo da esperança.

Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das intemperies?

Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é para ella d'um prazer indefinivel.

«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre que ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras refrigerio para as mágoas que a affligiam.

E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão diaria, já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos polida lhe feria os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de lagrimas os olhos. A torrente do enxurro foi affrouxando de impetuosidade; e agora, já de quando em quando lhe sôa ao ouvido um «adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com uma especie de arrependimento.

Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando—á{109}tempestade segue-se a bonança; a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.

Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que, longe de se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou obedecendo aos principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se, vergonhosa e torpe, no vil sentimento da inveja.

Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um proximo regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das suas amigas em cujo olhar já lia o arrependimento.

E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de delicias, muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de gigante. No dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe toldam o horisonte, ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu azul, outr'ora carrancudo e tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso despretencioso e ingenuo, como que annunciando-lhe não sómente o regresso á vida de outr'ora, mas um mundo desconhecido, uma vida de fausto...

Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida, porque foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a... Sim! Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias do sr. Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento, seis mezes de dedicações, seis mezes que são todo um protesto eloquentissimo d'um coração apaixonado? Não! Maria Luiza não póde ouvir-te, ó novo Creso{110}da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos com que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar ingenuo e inexperiente d'este santo povo!

Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!

Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu futuro—o futuro de ambos!—risonho como o sol ao nascer, lindo e aromatico como um campo coberto de flôres.

E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem da bocca d'um profeta.

—Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu João—Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram assoprar. Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal empregado em ti. Convenci-o de que o enganaram. E elle—que coração d'oiro!—acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a tempestade, que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda. Beijei-lhe as mãos em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas lagrimas! Que coração aquelle!

—É como o teu, João!

—É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me perdoou, mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae assim, não devemos pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas malvadas deixarem de fallar, então... verás! verás!{111}

**     *

Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha. Era á tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os balidos dos cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas jungidas á canga puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e as vozes dos lavradores incitando os animaes ao trabalho, e os cantares alegres das creanças que guardavam as ovelhas.

Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem prestar attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um rouxinol que canta em frente da sua janella.

Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo desprezo da Maria Luiza? Não; porque esta tambem d'ahi a momento estremeceu, cortando o fio aos seus pensamentos. Estremeceu á voz de um homem que a saudava da rua.

—Olá! menina! Boa tarde!

Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo para ella.

Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma expressão sorridente:

—Boa tarde, sr. Velloso!

—Oh! conhece-me, e eu não tenho a honra de a conhecer!

—Quem o não conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico é bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos labios.

—Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de formosuras.{112}

—Não percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um tanto embaraçada.

—Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga bonita! Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli, outra mais bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais bonita que todas as outras!

—E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...

—É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou aqui. É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento com que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...

—Oh! senhor! Não tem nada que...

—Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei impressionado com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e perdôe-me se a offendo com a minha franqueza.

—Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor, que...

—Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não! Agora é que realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir á vontade de contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a todas as vezes que quizer, durante toda a vida. E então havia de estar pasmado no meio do caminho, a olhar para si sem dizer palavra? Digo então o motivo da minha admiração.

—É uma questão de pachôrra...{113}

—Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua belleza ter despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha não sei quê que captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais captivado fico! Vou-me então embora, para não ter de ficar aqui toda a vida.

—Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella sempre com o mesmo sorriso.

—Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu agora, dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!—E accrescentou, com expressão ficticia de pezar—Mas não admira, porque, segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e comtudo foi castigado como o maior dos embusteiros e como um grande criminoso...

—Peço-lhe perdão, se o offendi; eu não queria chamar-lhe impostôr. Queria sómente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de verdade—atreveu-se ella a dizer—não deixavam comtudo de ter os seus enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...

—Ora ainda bem que faz um pouco de justiça aos meus sentimentos. Alguma justiça... não toda a que elles têm direito. Mas...

—É melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque sinto que minha mãe chegou agora a casa e...

—Eu retiro-me. E peço-lhe que não fique fazendo fraco conceito das minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa é crime, peço-lhe humildemente perdão... e adeus!...{114}

—Adeus, sr. Velloso.

—Bem! Isto não correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus botões.

E, sorrindo, continuou:

—Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o demonio da rapariga não é peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em embeiçar com ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,.. Nem parece o que dizem. Mas... as mulheres são impostôras como o diabo. Nem que eu as não conhecesse! Oh! conheço-as tão bem como a mim mesmo! Ou talvez melhor, porque muitas vezes não sei o que quero, e o que ellas querem sei eu muito bem... Com mais duas ou tres palestras, sônda-se a coisa; por demais é fingir-me apaixonado e prometter-lhe uma vida de fidalga. Prometter-lhe-hei até casar com ella, pois que duvida ha n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com uma mulher pobre de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella ideia! E o rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa. É para bem d'elle... e meu!—accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso! Velloso! Não ha mulher que te resista!...

E caminhava cheio de contentamento, em direcção ao campo, rindo-se sósinho, como um idiota.

O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dôce penumbra começava já a inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando, eram apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao hombro, se punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo os rebanhos.

—Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o sr. Velloso, espraiando a{115}vista pela planicie, empertigando-se e affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.

Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios de vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo brazileiro, interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:

—Adeus!

O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um quasi imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:

—Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não se esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de costume!

O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa; uma suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.

O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que accendeu, e retrocedeu.

Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e as Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.

—«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.

Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou alguns instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes distinctas que se alternaram.

Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.{116}

Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...

Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes bafejadas por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca d'um anjo. Cada despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca symphonia executada por milhares de gargantas de passarinhos chilreantes, alegres como creanças. Estes outeiros, elevando-se garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do mais colorido e pittoresco scenario—o magnificente scenario pintado pela mão da natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.

Tudo era poesia, tudo era amôr.

O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que se bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie polida das aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de despedida, beijando ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre elle se debruçava com carinho.

E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava o teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!

Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...{117}

**     *

O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de enygmas.

Maria Luiza, a flôr predilecta do jardim do amôr do João da Alamêda, o anjo tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por pensamentos lhe tivesse profanado a candura, essa mulher que alcançara d'um coração bondoso quanto amôr se pode dedicar a um ideal e quanta dedicação se pode prestar a um ente que vê deante de si o cháos horripilante da desgraça e da miseria—Maria Luiza cedeu ás insidias do brazileiro, vergou á logica revoltante das suas palavras maleficas como a tenra açucena da encosta vergada ao sopro do Aquilão.

Desde então, parece que até a sua casa ficou com um aspecto tristonho, que o rouxinol que, de madrugada e á tardinha, ia cantar para defronte da sua janella, já não sabia canções alegres, e que os cordeirinhos, balando em volta das mães que pastam no campo, já não retoiçam como costumavam.

O triumpho, porém, que o sr. Velloso alcançou, longe de o contentar, foi contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao chegar a casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a lembrança que o visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.

Nessa noite, ás horas do costume, compareceu á entrevista com Helena, a quem continuava a acalentar com a esperança de dias felizes passados na sua casa nova.

Nessa noite, porém, a demora foi curta.

Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia, retirou-se e recolheu a casa{118}onde, fincando os cotovellos sobre a meza, metteu a cabeça entre as mãos, e scismou mais de uma hora.

Parece que não tirou resultado da sua meditação—que era antes uma catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro—porque, levantando-se mal humorado, pôz-se a passear agitado na sua sala de pavimento terreo.

Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam para cima de uma boa legua, até que resolveu deitar-se.

Se dormiu ou não, é que ainda não sei. Elle o dirá ámanhã ao seu amigo Neves.

—Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manhã cêdo, no alpendre do visinho que, ao vêl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado, com que escavacava uma acha, levantado no ar—diabos te levem mais a lembrança que tu tiveste!

O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no chão, e, appoiando sobre o cabo as mãos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar, como quem não comprehendia nada do que ouvia; até que, passados momentos, perguntou, meio parvo, ao brazileiro que passeava apressado d'um lado para o outro no alpendre, retorcendo com uma das mãos o bigode:

—Que lembrança?!

O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.

—Essa lembrança maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa rapariga que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa canalha que dizia mal d'ella!

E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.

O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e, depois de seguir machinalmente{119}com a vista, durante um bom meio minuto, os movimentos do brazileiro, gaguejou:

—Mas... Vossa senhoria falla sério?!...

—Antes não fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e collocando, sem interromper a sua marcha, as mãos atraz das costas.

Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos do brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.

O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:

—De maneira que a rapariga... não...

—A rapariga estava honrada como as mais honradas! É o que é!

Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma especie de lamuria, muito pausado e sentencioso:

—Ora vejam vocês como ás vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se portava assim, se portava assado!... Já me não torno a fiar em nada que se diga!

—Pois se tu assim tivesses feito!...

O Neves calou-se áquella observação, feita á maneira de censura.

«Effectivamente, pensava elle comsigo, eu é que fiz mal em o metter em contradanças! Mas... sêbo! Eu não sabia! Nem tenho culpa do que se dizia! Sou culpado e não sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo de mal tem isso?»

Foi sob a influencia d'esta ultima reflexão, que quebrou de novo o silencio, dizendo resoluto:

—Afinal... vossa senhoria está para ahi com uns taes incommodos por causa d'uma coisa que não presta para nada! Deshonrou a rapariga, acabou-se!{120}Uma coisa muito natural! Vossa senhoria tambem ficou deshonrado?

O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:

—Tu é que não sabes as coisas. Não é a deshonra que me incommoda! Já não é a primeira, nem a segunda, nem... eu sei lá! O diabo é que a nenhuma fiz promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a encontrasse pura, senão a esta. E eu, o que mais prezo neste mundo, é a minha palavra. Depois, ainda que não fosse isto, bastava só o remorso de lançar no desespero esse bello rapaz, sem necessidade nenhuma. Tudo por causa d'essas malditas linguas, que precisavam ser arrancadas, todas as vezes que se põem a fallar da vida alheia!

—Oh! senhor! Mas então...

—Então, o quê?

—Quero eu dizer que...—replicou o Neves coçando na cabeça, contrariado—que, se não quer faltar á sua palavra...

—Sim: e a outra?

E voltou a passear.

—A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?

—Não lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia de dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter no seu passeio. E accrescentou—Além d'isso, a essa amo-a devéras!

O Neves, perplexo, olhava para o chão, sempre com as mãos appoiadas no cabo do machado.

—Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa senhoria fazer?

—Eu sei lá! Tenho dado voltas á mioleira, que nem sei como não endoideci. Esta noite, quasi que{121}nem preguei ôlho. Se pudesse casar com ellas ambas, casava.

—Mas o melhor é chamal-as a um accôrdo, e não casar com nenhuma...

—Qual accôrdo, nem meio accôrdo! És pateta, homem! Bem se vê que não tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era o cabo dos trabalhos.

—Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accôrdo... Contar-lhe tudo, a bôa intenção que vossa senhoria tinha de salvar o rapaz da deshonra... finalmente, um accôrdo é que servia. Vossa senhoria está contra isso, mas é cá a minha ideia, e talvez désse resultado. Porque, combinadas as coisas, tudo ficava em casa, e...

O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:

—Parece que dizes bem. Contarei primeiramente á Helena o succedido. É uma facada que lhe dou no coração, mas que se ha-de fazer? O diabo é para o contar ao irmão. É capaz de matar a outra.

—Levando-o por bem, não faz nada. É um pobre diabo!

—Bem. Não ha remedio senão fazer isso. Esta só pelos demonios!

—Não foi das melhores, não, sr. Velloso.

—Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a saber depois a traição d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou até casa. Foste o culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia, perdôo-te. Senão, tinhas de desemaranhar a meada.

—Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E ainda estou a pensar num caso: como diabo é que o João da Alamêda se conteve,{122}indo lá a casa todas as noites... Tareco impossivel! Mas... ó senhor Velloso! Vossa senhoria não se enganaria?

O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve uma objecção; e, retirando-se, observou:

—Pensas que nasci hontem...

O Neves riu-se por sua vez; e, já sósinho, monologou, respondendo á observação do Velloso:

—Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...

E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.{123}

No mesmo dia, á tardinha, no campo, o João da Alamêda gradava uma terra que, durante o dia, tinha lavrado. Lançara-lhe a semente e procedia, com a grade, á cobertura dos grãos.

Á frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sóga numa das mãos.

O tempo continuava claro e sereno.

O immenso tapete de flôres que se estendia no campo apresentava já, de onde a onde, uma interrupção: aqui e alli, uma terra, resolvida, sobresaía no meio d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma ou outra nuvem pardacenta.

É neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flôres: mas, em substituição, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas brizas, nos dá a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente encrespado pelo vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de verdura—permittam-me a expressão—apparecem, de onde a onde, como bandos de cysnes, ranchos alegres de rapazes e raparigas; elles, despidos dos casacos, com as camisas brancas a lusir entre o verde dos milharaes; ellas, de lenços garridos amarrados graciosamente em volta da nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos cantando, sacham o milho pequenino e tenro, desde o despontar do sol até ao crepusculo da tarde. Á hora da sesta, depois da refeição do meio dia sorvida á sombra deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se{124}para dormitar sobre a relva mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam qualquer jogo de regaço, sempre em alegria e folgança honesta; e ainda outros, mais irrequietos e folgazões, saltam para um d'esses bateis que se encontram a cada passo atracados ás margens do Vouga, e vão passear pelo rio.

O João da Alamêda terminou a sua tarefa ao pôr do sol. Collocaram a charrúa e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozéram-se a caminho de casa, Paulo á frente, guiando o carro, e João atraz.

Ao passar á porta da Maria Luiza, João olhou para a janella onde ella, todas as tardes, costumava estar, e não a viu.

—Está talvez lá para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma surpreza!

E, com um sorriso do satisfação, metteu por uma cancella contigua á casa, pé ante pé, esperando encontral-a e rir-se de a vêr surprehendida.

Espreitou para dentro e não viu ninguem. Machinalmente, entrou no pequeno quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta, e dispunha-se a entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes vindo d'um pequeno alpendre que estava ao lado do quintal.

—Ah! Está ali mais a mãe. Pois vou metter-lhes um sustosinho.

E dirigiu-se para lá, com precaução, para não ser presentido.

O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao formado por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os vãos entre o pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira. Num destes{125}havia uma porta, e João ficou um tanto surprehendido ao vel-a fechada, devendo ser mãe e filha que lá estavam. Mas, de subito, percebeu que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu coração começou a pulsar precipitadamente.

Avançou até junto da porta, e escutou.

Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:

—Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá, tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não devia fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que não me deixa socegar o espirito.

João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não sonhava. Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a mesma voz que proseguia:

—Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!

—Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a outra voz, a do brazileiro.

—Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e infame mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a cabeça, cambaleando, murmurava:

—É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?! Tanta dedicação, tanto amôr?!...

E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre. Depois, como tomando uma resolução, continuou:

—Não! Não quero manchar as mãos no sangue{126}d'um bandido! Que ganho com isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que tinha tomado.

Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela mãe d'esta, cuja saudação não ouviu.

Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas mulheres, de cantaro á cabeça, davam-lhe as boas noites, que elle não retribuia.

Tinha sempre, para cada saudação, um dito gracioso acompanhado d'um sorriso; e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante e apressado.

Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os hombros, continuavam o seu caminho.

João, quando chegou a casa, não tratou de vêr, como era seu costume, se o gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido nesse dia estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu sorumbaticamente as boas noites, pediu que lhe levassem ao quarto uma escudella de agua mórna para lavar os pés, e, allegando uma violenta dôr de cabeça, despediu-se do pae e recolheu á alcova.

—Queres que te traga a ceia, João? perguntou-lhe Helena quando lhe foi levar a agua.

—Não; não quero. Não me appetece comer.

—Eu não sei o que tens, João! O Paulo diz que não te tinhas queixado no campo de incommodo nenhum. Diz que só se foi que te désse pelo caminho: que ficaste atraz...

—Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te não seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...

—Que é? perguntou Helena com anciedade.

—É o seguinte: mas digo-to só a ti, para não causar barulho, porque és tu só quem pode fazer o que te peço.{127}

E, esforçando-se por dar serenidade á voz que lhe tremia, proseguiu:

—Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que nunca mais aqui appareça!

—Ah! pois tu...—perguntou Helena, meia aterrada. Não queres que...

—Sim! Que não volte cá mais, para evitar alguma desgraça!

—Ó João! Mas... dize lá: como o soubeste?!—E, entre a anciedade e a surpreza, repetiu—Como o soubeste?!

—Como o soube?! Oh! Essa é boa! Então, pelo que vejo, tu sabial-o, e...

—Então vistel-o sair?!...

—Diabo! Estás a modos... Mas se eu vi o quê?!

—O sr. Velloso... Como não queres que elle cá volte, para evitar alguma desgraça...

—Pois vi! E tu sabial-o, e não m'o tinhas dito!

—Se eu o sabia?! Mas eu não te percebo nem tu percebes a mim!

—Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair. D'onde?

—D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias tudo e que tinhas visto...

—Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que, contra o brazileiro, a revelação da irmã lhe suscitara, disse:

—E é por isso que eu não quero que elle aqui volte mais. Vae-te embora, que não paro da cabeça.

—Passa bem a noite, João. Até ámanhã.

—Até ámanhã. E não digas nada disto a ninguem.

—Descança.

João, ao ficar só, sentiu que tinha febre.

Atravez das suas ideias em desordem, só dois{128}vultos divisava distinctos: Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladrão da sua noiva, o roubador da felicidade do seu coração, e, para epilogo de tanta malvadez, o pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima observação saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o abalo que sentiu dentro em si.

—Ah! Infame! Não! Tu não has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de tanta malvadez! Miseravel!...

E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara tão desapiedadamente aos pés o seu verdadeiro amôr, a sua dedicação extrema, atirou-se, soluçando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma creança.

**     *

Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita cautella com o irmão, que o tinha visto sair d'alli.

—Temo até que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que está com uma forte dôr de cabeça; mas, ainda assim...

E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos que, desde a véspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente addiar a confidencia.

—Mas quando hei-de voltar, Helena?

—Não sei... É melhor deixarmos passar dias... O melhor, até, Joaquim, era tu chegares ao pé de meu irmão e dizer-lhe: «descança, João, que a tua irmã vae ser minha mulher». Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!{129}

—Por estes dias, não, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia em Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcançarmos a felicidade.

—Pedir a Deus? Pois Deus póde lá oppôr-se á nossa felicidade, Joaquim? Deus deseja-o, e por isso não precisa que lhe peçam! Só se fôr para metteres a mão na tua consciencia, e...

—És louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no cumprimento do meu juramento.

—Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres então que peça a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?

—Quero.

—Pois bem: pedir-lhe-hei... O coração, porém, annuncia-me coisas tão tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!

—Se Deus o consentir, has-de ser!

—Mas eu não comprehendo bem as tuas palavras!...

—Não disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de teu irmão?

—Sim; mas...

—Mas é que o que te quero dizer, só poderei dizert'o com mais socêgo. Ámanhã, venho cá e...

—Não venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e só te approximas se eu abrir a portaria. Então, é porque meu irmão não saiu.

—Bem. Boa noite, Helena.

—Adeus, Joaquim! Até... quando Deus quizer!{130}

No dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu capote e, pegando no marmeleiro—seu inseparavel companheiro nocturno—saiu de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um quarto d'hora, e, na volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse affirmado bem para um ponto do escuro das arvores, teria notado uma negrura mais densa. Fôra o Velloso que escolhera aquelle ponto para seu posto de observação, donde se descortinava, atravez da negrura daquella noite sem luar, o vulto da casa de Helena, divisando-se no seguimento da estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu allumiado pelas estrellas.

João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro fronteiro.

O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.

Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas folhas das arvores.

Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi imperceptiveis, na torre de Eiról.

Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.

Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada mais se ouviu na estrada deserta.{131}

**     *

O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca do succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia seguinte a Maria Luiza.

Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o remorso lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades, attribuindo a causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não comprehendia.

Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á hora das Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do campo, e não respondera á sua salvação.

—Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.

—A mãe que diz?! Encontrou-o...

—Encontrei-o alli acima.

—Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel anciedade.

—Ao toque das Ave-Marias.

E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.

A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para Maria Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de quem se recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo remorso.{132}

Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar a ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava interrogar ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso ironico; e, não achando outro remedio que pudesse alliviar a afflicção em que a via, resolveu, sem o communicar á filha, ir a casa do tio Alamêda saber da saude de João, pois outro motivo não podia haver que o impedisse de sair, senão a doença.

Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não oppunha obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e foi no mais firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas que obrigavam o seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro dia, se dirigiu para lá, eram dez horas da manhã.

Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de sobreiro para uma chavêlha.

—Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!

—Muito bom dia, sr.ª Rita.

—Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?

—Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha que tempos tambem que a não vejo!

—Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para cima...

—E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu aido, porque já não posso, estou velho.

—Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito.{133}

—Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por elles o que pude...

—Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns bons filhos.

—Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.

—Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...

—Dirá...

—Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom coração...

—Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que não reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso, apezar do que para ahi diziam...

—Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e por isso...

—Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um pobre...

—Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de Natal—na noite de ceia—e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em chorar, que até me retalha o coração.{134}

—Pois olhe que eu não sei o motivo...

—Então elle não está doente?!

—Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de manhã, levantou-se e foi para o trabalho.

—Sim?!

—É verdade.

E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade de sua filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.

Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de Maria Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito contristada, saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si á filha que outra vida não fazia senão chorar.

—Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que quanto mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou? Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!

—Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar por contos...

—Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu logar, procederia d'outra fórma.

E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer acontecimento grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois seres que tanto se amavam.{135}

Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a Helena.

Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de fallar com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle, cuja significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por uma terrivel angustia, tinha emmagrecido.

O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a dôr que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a phisicamente. Uma unica consolação encontrara para a mágua: as lagrimas—esse terno confidente dos infelizes—que vertia a sós na reclusão da sua alcova, que lhe alliviavam as amarguras do coração mas lhe desbotavam as côres do rosto e tarjavam de roxo as cavidades dos olhos.

Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo a carta, vinda da parte de Velloso.

Correu ao seu quarto e leu:

«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as noites vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa portaria que é para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr apparecer como o meu anjo salvador, vejo teu irmão, que me espia, esconder-se na escuridão do muro fronteiro, e, depois de, durante cerca de duas horas de cruel espectativa, me conservar no meu posto de observação, vejo-o retirar-se.

Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho de te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena, e vae, com certeza, ferir de tal modo o teu coração{136}bondoso, que até receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de communicar-t'o, principio, pedindo-te que conserves a maior presença de espirito e confies em Deus para que não te faça desanimar á vista do que vaes lêr.

Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a respeito de teu irmão que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria Luiza, que eu não conhecia. Dizia-se que ella fôra uma mulher leviana, e que por isso não era digna da dedicação de teu irmão, um rapaz querido e estimado de toda a freguezia; que este perdia muito no seu conceito se casava com ella, segundo constava. Como não me interessava com o caso, apenas lamentei a sorte de teu irmão, com quem eu não tinha relações.

Depois, porém, que te conheci, que te comecei a amar com este amôr louco que te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra d'elle e minha, porque era irmão da minha noiva, affastal-o do caminho errado que trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador. Convencido como estava, pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza tinha sido uma fraca mulher, e que agora se mostrava outra para conservar teu irmão na illusão em que andava, resolvi que ella resvalasse ao lodoçal d'outrora, para que teu irmão, abrindo os olhos, visse a desgraça que estivera imminente de si.

Consegui, com effeito, graças ás minhas promessas, o meu intento. Jurei-lhe até que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas de que a accusavam. E... cruel decepção! Maria Luiza estava pura, tão pura como tu, minha Helena, quando...»

Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta até este ponto, sentiu uma nuvem toldar-lhe{137}a vista e, amarfanhando a carta, caiu de bruços sobre o leito num chôro convulsivo, murmurando em delirio, a voz cada vez mais apagada:

—A lua estava tão triste!... Um môcho, a piar mais triste, fez-me calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito feliz!...............


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