PROLOGO

Meu amigo:As resumidas linhas em que eu condensarei as impressões que da leitura do seu livro me ficaram não podem constituir, de fórma alguma, isso a que, nas nossas lettras, se chama—um prefacio. Serão apenas uma ligeira carta sem subtilezas de critica profunda—a critica que nunca soube formular, porque os criticos são personalidades todos de intellecto raciocinado e frio e eu sou um homem todo de emoções.Esses criticos diriam ao meu amigo que as obras realisadas aos vinte annos não deviam ser atiradas aos alaridos da publicidade sem que primeiro os seus auctores tivessem, além de um exacto conhecimento da vida, completamente afinadas as suas faculdades d'observação, e sem que o seu temperamento esthetico adquirisse uma perfeita sagacidade, para que depois, já em pleno triumpho, não se arrependessem dos inconsiderados impulsos da juventude. Eu, pelo contrario, digo-lhe que nenhum escriptor deve envergonhar-se da sua actividade artistica dos primeiros annos, mesmo quando na superior florescencia do seu talento um dia sentir a viva anciedade de vêr como principiou. Os trabalhos da iniciação representam até um documento essencial para o estudo das intelligencias evolutivas e ascendentes...Não affirmarei que o seu livro seja impeccavel. Nem o meu amigo terá a vaidade d'assim o julgar nem eu desfiguraria a verdade simplesmente para ser-lhe agradavel—e isto pela viva sympathia que me inspirou. A novella, para que a illumine a belleza, carece de unidade de concepção e de realisação, da plasticidade e do vigor da fórma, da perspicacia da analyse psychologica, de dextreza na modelação das figuras, da diversidade dos coloridos na pintura dos scenarios: e estes dons apenas advêm da tenacidade disciplinada e do estudo, porque ninguem nasce com um quinto sentido capaz de tudo adivinhar e tudo comprehender.Não lhe esconderei, no emtanto, que o seu livro me communicou um certo prazer espiritual pela sua candura, pelo poetico sentimento que enternece algumas paginas—que é o sentimento d'uma alma pura e com finas delicadezas emotivas. Ora isto indica, no escriptor que agora começa, um evidente talento ainda balbuciante mas que ardentemente deseja orientar-se e que virá a impôr-se ás admirações se fôr animado por uma vontade sem desfalecimentos. E tão certo estou d'essa victoria futura que desde já calorosamente o applaudo, lamentando no emtanto que para a sua apresentação se houvesse lembrado do meu nome humilde e sem auctoridade para estas ceremonias solemnes.Porto, 5 d'Abril de 1909.Amigo muito affectuosoJoão Grave.PROLOGOEx-alumno de um dos seminarios da diocese do Porto e actualmente estudante mediocre do lyceu, dou á luz o producto de tres longos mezes de trabalho para a consecução do qual tirei instantes preciosos destinados á ardua tarefa de que depende a minha vida futura—tarefa tanto mais ardua, quanto mais consideradas sejam as minhas escassas luzes intellectuaes.Eis aqui, pois, uma obra que, apreciada por todos os lados, só tem valor por ser o fructo de um trabalho em que gastei, mórmente durante um bom mez, uma parte do tempo precioso destinado ás minhas lições. É appellando para essa attenuante que espero merecer a complacencia do publico em geral—tanto dos que convivem commigo de perto e que, vendo em mim um individuo sem aptidões para qualquer ramo do saber humano, vão ficar admirados da ousadia de semelhante passo, como dos que, sem nunca sequer me terem visto, esperam encontrar neste pequeno livro a summula do valor d'uma intelligencia promettedora que começa a manifestar a sua tendencia.Á minha inaptidão vem juntar-se a inexperiencia dos meus vinte e tres annos; e assim é que{16}o meu livro, fatalmente eivado de todas as especies de imperfeições, só por uma disposição do leitor benevolo para uma extraordinaria condescendencia, poderá ser absolvido das faltas que inconscientemente commetti.Abstenho-me de appellar para a complacencia dos meus companheiros e dos meus collegas em geral, porque elles, mais que ninguem, avaliam as difficuldades com que eu deveria luctar para conseguir o meu intento.Ha seis mezes, approximadamente, publiquei noCorreio d'Albergariaum artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei ás Scenas da Aldeia, que eu declarei em preparação, mas que ainda existiam em projecto na minha mente. Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e publiquei então no mesmo jornal um excerpto sobre a transformação psychica de Maria Luiza.Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres quotidianos, e absorvia o melhor do meu tempo que eu não podia dispensar sem prejuizo das minhas obrigações.Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigação com a devoção, esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de caracter inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.O meu livro está impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor religioso, porque julguei que, tirar á simplicidade da vida aldeã o sentimento religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a d'essa graça original e tão cheia de poesia que lhe dá todo o seu valor; julguei que era arrancar á vida da aldeia a sua alma.{17}Obedeci a esse principio, e não á gratidão com que retribuo a meu pae—um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do seu coração quando me perfilhou—os desvelos que um filho recebe de seu pae carinhoso. Nem tão pouco obedeci á doçura dos fructos que deveria ter colhido da minha reclusão de alguns annos num seminario.D'este só me lembro com mágua, quando considero a falta que me fazem os annos que lá gastei inutilmente. De resto, repressões, o pouco respeito com que os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes fica em caracter, e é tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos alumnos: finalmente, cumprem o seu dever, porque são, por assim dizer, uns criminosos inconscientes.D'elles só conservo um resentimento: alimentarem animadversão contra a minha terra—Aveiro, talvez por causa das suas tradições de inimiga da hypocrisia.Um, chegou a dizer numa aula, na minha presença—quando se discutia no parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga—que todos os que se deixaram levar pelas palavras de José Estevam foram uma corja de brutos—palavras textuaes—porque a variante da linha ferrea que então se construiu, além de acarretar enormes dispendios á companhia, prejudicava immenso, por causa d'uma terraque não prestava para nada, sem valôr nenhum, toda esta região que anceava pela execução do caminho de ferro do Valle do Vouga.Tirado d'isso, não tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram, com o culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenças] que levava arreigadas no coração, e de apagar outras. Se ha quem diga que actualmente já se não fazem{18}milagres, ou nunca houve quem os fizesse, engana-se.Já vê, pois, o leitor, que sou religioso e sou christão; não sou, talvez, catholico, mas isso dá-se na maioria dos padres, se não na sua totalidade.Ponto final sobre este assumpto. Não vá o meu livréco parar aoIndex.Terminando este prologo, nada mais tenho a fazer que impetrar mais uma vez do leitor benevolo a sua complacencia que, em vista das razões que expuz, não deixo de merecer com alguma justiça; e, confiado em que a minha petição não será infructifera, agradeço-a antecipadamente, e deixo aqui consignado tambem o meu agradecimento pelos preciosos momentos que o leitor haja de dispender na leitura d'este ensaio.Aveiro, março de 1909.{19}SCENAS da ALDEIAINa margem direita do Vouga, a cerca de doze kilometros da sua foz, espreguiça-se indolentemente, numa série de formosos outeiros e encostas de suave declive, uma aldeia.A vista das casas disseminadas, como que em monticulos, por entre o verde das arvores e dos pinheiraes numa extensão de mais de quatro kilometros, suggere-nos a ideia de que Deus as atirara para cima da verdura d'aquellas collinas, como o lavrador atira a mão-cheia da semeadura á terra fecundante.Mirando com galhardia do alto dos seus outeiros os logares que lhe ficam proximos, ella parece sorrir-se com aquelle sorriso de superioridade que uma mulher, conscia da sua formosura, lança áquellas que não receberam da natureza os dons com que ella foi dotada.Bafejada pela amenidade do clima e pela limpidez e doçura de um ar diaphano, as suas melênas são brandamente agitadas pelo sopro suave duma{20}aragem fagueira, e a fimbria do seu vestido, d'um verde puro da vegetação do campo, é banhada pelas aguas transparentes do meigo e terno Vouga.Eis, em simples bosquejo, o que é essa aldeia que se chama Alquerubim.Alquerubim!Só o nome é bonito! Parece que nos deixa nos ouvidos um tinir semelhante ao de uma gargalhada innocente e ingenua d'uma creança!Pensareis talvez que estas palavras são a expressão expontanea do sentimento que me inspira, como a todos nós, a evocação da terra que me viu nascer.Não.Quando pronuncio a palavra «Alquerubim», a minha alma não experimenta aquella sensação que nos faz pulsar de enthusiasmo o coração quando pronunciamos o nome da terra em que pela primeira vez abrimos os olhos no mundo; porque não foi alli que sorvi os primeiros tragos de leite no seio materno.Mas se não foi alli que lancei os primeiros vagidos, foi comtudo onde a minha juventude deslisou suavemente como um murmurante arroio serpeando por um prado tapetado de boninas e violetas.É por isso que, ao evocar esse nome, o sentimento que brota dentro do meu peito, se não tem o vigor patriotico, tem comtudo uma doçura inexprimivel—a saudade.Nessa aldeia, uma saudade me ficou entrelaçada com os ramos de cada arvore; em cada rua, uma gotta de sangue dos meus tenros pés feridos por uma pedra desligada da calçada; em cada salgueiro sobranceiro ao Vouga, um pedaço da minha alma... Por isso, ao recordal-a e ao contemplal-a, invade-me{21}a mesma tristeza que invade uma pomba que, depois de ter, em manhãs frescas do vêrão, adejado mansamente sobre um campo tapetado de verdura, o vae encontrar, no inverno, sepultado nas aguas.Acaba de passar sobre o meu dôrso o frio do meu vigesimo segundo inverno. Acabo de transpor o atrio do edificio que se chama—Vida. E, ainda que na primavera da minha mocidade, tenho comtudo já sido açoutado por vendavaes ferozes. É no meio das tormentas que tão cêdo começaram de me assaltar, que eu procuro refocilar o espirito e fortalecer o coração nas dôces recordações da minha juventude.Ao fazer retroceder o pensamento por esse caminho orlado de odoriferas madresilvas e tapetado de violetas aromaticas, sinto que do meu intimo se eleva um não sei quê parecido com um fumosinho que vem condensar-se-me nos olhos. Lagrimas? Não. Não chega a formar gottas. Um nevoeiro que me tolda a vista, mas muito tenue, que eu considero o chorar da alma. Porque a alma tambem chora.Nas horas de angustia, quando uma nuvem me obscurece o horisonte, percorro com o pensamento esses caminhos silvestres por onde tantas vezes andei horas esquecidas á procura de ninhos; supponho-me deitado na caminha de ferro que minha mãe comprara para mim e quando, aos domingos, ao ouvir o badalar do sino logo de manhãsinha, eu me levantava, lavava, e minha mãe ia ajudar-me a vestir a roupa nova para ir á missa; e eu lá ia, muito serio, ao lado de minha mãe, com uma bengalinha de bambú que me tinham dado, e depois da missa voltavamos para casa, eu almoçava e em seguida ia brincar, a maior parte das vezes para o campo, com os meus companheiros. Recordo-me d'estes com saudade,{22}alguns dos quaes, talvez mais felizes do que eu, já morreram, e outros, andam muito longe, alguns nem eu sei por onde, luctando com a vida, abreviando os annos da existencia...E nestas recordações sinto um bem-estar indefinivel que, commovendo-me, attenuam os dissabores da minha vida presente.Oh! Quem me dera voltar aos dias da juventude! Tornar a gosar a unica felicidade que nos é dado gosar na vida!... Impossivel! A vida tem o seu movimento como as aguas do meu querido Vouga que vae morrer ao mar. Elle tambem não retrocede ás suas montanhas para d'alli voltar, em suaves murmurios, a beijar as melênas dos sinceiraes o ouvir os dôces cantares das camponêsas em dias estivos e mitigar a ardencia de tantos peitos apaixonados.................Meu caro leitor, se és cidadão, se passas a vida na atmosphera doentia da cidade, vem commigo á minha aldeia. Aqui, n'este paraizo, serás o Dante e eu serei Beatriz.Verás maravilhas: mas não as maravilhas que nos fazem arregalar os olhos de espanto e que tens em abundancia na tua cidade. Verás maravilhas da natureza que nos sensibilisam a alma e dulcificam o coração.Serás conviva entre gente pobre, mas bôa, nas suas simples refeições; serás testemunha e confidente de conversações despretenciosas e intimas de paz, socêgo e alegria, á lareira, emquanto o vento zune lá fóra e a chuva fustiga as folhas das larangeiras e entôa, nas telhas grossas da choupana, a sua canção monótona; assistirás ás festas intimas dos simples, ao seu labôr quotidiano, aos seus regosijos, ás suas alegrias, aos seus pezares; palrarás com a gente do{23}campo e estudarás a sua bôa indole; espraiarás a vista por horisontes muito extensos, por sobre montanhas longinquas; aspirarás a largos sôrvos o ar purificado pela folhagem de centenares de arvores, cruzado pelo esvoaçar de milhares de avesinhas silvestres e aromatisado pelo odôr de myriades de florinhas espalhadas por estes campos além; e o teu rosto adquirirá as côres róseas das pintadas maçãs camoêzas que aqui ha em abundancia.Depois, quando voltares á tua cidade, levarás d'aqui profundas saudades; a tua alma, ao recordares os mil encantos que a electrisavam, sentirá a mesma commoção que sentiu a do velho Horacio, quando este inclito poeta, vendo-se sem a tranquillidado dos campos, disse—ó rus, quando te aspicio!—oh! campo, quando te tornarei a vêr!{24}IIO anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para vêr nascer o sol.Uma tenue claridade, precursôra do dia, innundava já o ambiente da aldeia. O ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as arvores em completo repouso.O mez de maio é um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era uma d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e frescas. Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dôce orvalho da madrugada.Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massiço de heras, cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os seus trinados.Nos requebros das suas melodias, nas inflexões dos seus variados garganteios, havia um tão expressivo influxo de dôce sensibilidade, um tão grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle silencio—apenas entrecortado pela voz do rouxinol—que pairava em volta de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava um massiço de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno—mais pequeno que o rouxinol.Absorvido na audição d'aquellas melodias que arrancavam á minha alma vibrações d'uma indizivel doçura, e contemplando as ruinas d'aquella casa que, talvez, outr'ora, tivesse sido uma mansão ditosa de{25}felicidade e amôr ou, quem sabe? de expiação para uma alma desditosa e amargurada, debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do rouxinol, eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um rouxinol ao pé a cantar melopêas tão sentimentaes que pareciam repassadas de pungente saudade, a entoar canções tão tristes como a solidão em que aquellas paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a sua historia, como a casa da Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para não serem profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na pratica da virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa das resignações, palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um d'esses santuarios, e o rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo destino de acompanhar e realçar com as suas melodias sentimentaes aquelle quadro de saudade...Fui arrancado á minha meditação pelo ruido do rodar pesado d'um carro de bois.O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo estendia-se já uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.Era a «bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios», na phrase de Vieira.O rouxinol interrompeu a sua melopêa e fugiu do arbusto.O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle, arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus 14 annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não mais de 7 annos, encostado á sebe{26}de vimes, as mãositas mettidas profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois não era cortado segundo as dimensões do seu corpo.—Eh! Tio Luiz! Bom dia.—Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?—Oh! Pára ahi,loura! Oh!castanha!—Isso é que foi madrugar, hein?—Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da madrugada.—Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra para semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi por volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no trabalho. Lá os senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me aquecer, se tenho calôr vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a puxar pelo corpo debaixo d'um calôr de rachar!—Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os modos de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de laboriosa, é a melhor que ha! Diga...—Ai! ai! ai! Se vamos...—Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora a vêr que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias; preciso agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado mas contente, dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as ervilhas ou a herva muito bem, deitar-se socegado do espirito—do espirito, que é o melhor socêgo!—e dormir a somno solto a noite inteira! Você sabe lá quanto isso vale?—Tambem não sei, mas calculo... Mas, se{27}quer que lhe falle com franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que vocemecê está pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis tostões por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma vida bôa! Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E vae a gente assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe chama...—Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não aspira a outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino que assim determinou...—Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a gente...—Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar com olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois tostões mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e a outros influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as eleições, lá tinha de ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu. Depois, quando tivesse adquirido uma certa convivencia com essa gentefidalga, como vocês lhe chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito bem governado para chegar para as despezas caseiras e despezas de vestuario, etc., para você se apresentar decentemente em publico. Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais vantajoso, isto é, mais rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não saiba que os empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos trabalho dão. Você ia-se{28}habituando a ganhar cada vez mais, e a trabalhar cada vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do torpôr resultante da inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz atacado da mesma doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por desfastio. La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não apanhar uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!—Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...—Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a de lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.—Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude tartamudear:—É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos encaminham...—Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que está o sol quasi a nascer. Para esta vida—acrescentou elle, rindo-se zombeteiro ainda do meu enleio—de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah! Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?—É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o seu tempo.—Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu é que me devia de ter lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mãos á sebe e o tio Luiz, tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das vacas,{29}exclamou, na palavra consagrada para pôr o gado bovino em andamento:—Eixe!O carro poz-se em movimento.—Diga-me cá uma coisa, ó tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta casa, que alli está em ruinas?—Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou, por outra, a mulher do brasileiro que móra acolá em cima na Herdade.—Ah! Bem sei! Por signal que até a vida d'essa mulher em solteira é muito interessante.—Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.—Mas o que acho esquisito é eu ter aqui passado tantas vezes e nunca reparar para a casa senão hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou capaz de escrever a historia da casa. Você que diz, ó tio Luiz?-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem, e olhe que é uma historia bem bôa, além de ser verdadeira, que é o principal!—Pois está dito. Não descansarei emquanto a não escrever. Mal ou bem, depressa ou devagar, ella ha-de sair!—Ó senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...—Descance, que ha-de ser você talvez a primeira pessôa que nesta freguesia ha-de têl-a.—E isso levará muito tempo, ó sr. Antonio?—Leva, leva! Vê que a minha vida não me permitte dispôr de muito tempo para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes não a escrevo. Depois...{30}—Sim, sim! É preciso tambem depoisimprensal-a, e tudo leva tempo.—Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.—Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?—Está dito.O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de orvalho, que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina transparencia.O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os passaritos, esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a alvorada.Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão—era o sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:—Agora vamos á nossa lida.Emquanto saltei, respondi:—Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras lavradas.—Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pôr as vaccas á charrua!—Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que, lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não podia ter ficado a dormir?—Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que lhe faça?{31}**     *Quando me retirei—já o sol ia alto—o tio Luiz lá andava a revolver a terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo esforço.Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se multiplicou em dezenas d'elles.Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados alguns dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e caricias verdadeiramente filiaes.Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na sua fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...—A esperança de quê?Nem elle o sabe, o lavrador.Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições, idolatrando os torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte, colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras de que seus filhos depois colherão os fructos.E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de espirito, no dôce convivio da familia reunida em volta da lareira nas noites amenas do outomno.Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias, a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo{32}onde reina a paz e o amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do Nazareno na noite da ultima ceia.Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa a dobrar ás almas, segundo o tradicional costume da aldeia, repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos além, penetrando os limites da freguezia visinha, até se perder na solidão da noite...{33}IIIO tio José da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu peito rijo existia um coração sempre jovial e bondoso, cuja ternura se derramava em obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma candida que logo se manifestava na ternura do olhar com que a todos envolvia.Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho, mocetão de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e bondoso, a flôr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma rapariga de dezoito annos—o terceiro filho do casamento do tio Alameda com a sr.ª Maria das Dôres—chamada Helena, possuidora de uns olhos que—não é por eu gostar de olhos escuros em rosto moreno—lhe diziam tão bem, naquelle seu troso trigueiro e encantador, que não havia rapaz nenhum na aldeia que não desejasse andar toda a vida perdido na escuridão d'aquelles olhos. E quando ria, deixava vêr, por detraz de dois labios nacarados que deviam ser dôces como favos de mel, duas filas de dentes brancos como a neve pura.A familia do tio Alameda, além d'elle e dos dois filhos, compunha-se de um creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que para alli tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma pupilla que, orphã de pae e de mãe, encontrara nos braços do tio Alameda os carinhos paternaes que tão cedo lhe faltaram.{34}Chamava-se Julia. Tendo ficado sem mãe aos cinco annos, a infelicidade vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.Foi então que a misericordia do tio Alameda se patenteou devéras; porque o moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia não podia ficar só no mundo, mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa voz apagada e apertando nas suas mãos febris as do bondoso velho:—Tio José... esse anjo, que ahi está a chorar... vae ficar sem ninguem no mundo...—Descança, João; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descança, que a tua Julia fica na minha companhia.O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mão que segurava na sua que caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas faces mortalmente pallidas.Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.—Olha o que te digo, pequena—dizia-lhe elle carinhosamente uns dias depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu não has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as saudades dos paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso vêr ninguem a chorar.E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.—Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o mundo. Mas depois{35}que comecei a tomar conhecimento d'este mundo todo de enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as vezes que tinha motivo para isso, então não fazia outra vida.A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.—Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a ceia, e espairecer.E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.—Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo que vá vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas chalaças, para distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos annos?Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que contava cerca de cem annos quando morreu?Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma côdea e uma tigella de caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca de reduzir a achas o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia austera e encarquilhada debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou tres barretes sobrepostos e enterrados na cabeça.Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um «tolo com juizo». Sim; porque trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o braço, embora vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de uma boa acção. E que melhor acção pode haver que o trabalho?O Belbuth não era, pois, um tolo na verdadeira{36}significação da palavra. Não fazia diabruras. Não se ria frequentemente e sem motivo, como succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica em equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei algumas. E elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de conservação, pegava tambem numa pedra ou num pau, e atirava-o, com phrenesi, pela estrada adeante, não reparando nos estragos que podia causar se viesse algum incauto. Era o unico indicio vago de loucura que lhe conheci.Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes dãosortetêm para pêras. Era o que se dava com o Belbuth.Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a estima de toda a gente, em vista da sua edade avançada, e era, além d'isso, uma testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes tomou parte.Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer pensões. Dando frequentemente um ordenado supérfluo a um glutão, que passa a vida regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes—e ás vezes nem isso!—, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem escarnecidos—sómente porque eram pobres—homens que, outrora, no vigor da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes corria nas veias.O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por habitação o ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes, entre dois lençoes de neve.Limitando o campo da sua vida de vagabundo{37}á área d'esta aldeia, o Belbuth era um typo popular de genio differente do de Luiz de Paus—um outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao acaso por esse mundo como um cometa errando no espaço, apparecendo de tempos a tempos no logar de Paus, d'onde era natural.Sobre este contam-se vários episodios, alguns com bastante originalidade, revelando o mau instincto do seu agente.Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria crise o combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de cavallaria 10 em Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe matavam a fome com uma parcella que cada um tirava á sua lata de rancho.Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O Luiz de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada—pois a sentinella estava a dormir—pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre soldado do responder a um conselho de guerra.Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no quartel.Uma outra occasião, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia qualquer, alvoroçando o povo todo.................—Olha lá, ó Belbuth! Tu namoraste alguma vez?—Se eu namorei alguma vez? O quê?—O quê! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?—Nada! Tive sempre mêdo desses demonios!—Porquê? Fizeram-te algum mal?—A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança.{38}Depois que vi o que succedeu a alguns companheiros meus por causa de taes mafarricos, nunca as pude vêr. Quer saber, tio José, o que succedeu um dia a um camarada meu por causa d'uma rapariga?—Conta lá.—Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer; quando veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses, acolá para uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo ordem para ser procurado antes do regimento partir, por esses campos e montes. Partiram umas poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz parte d'uma.«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para os lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um homem assim, assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras nos apontou um pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar, poz-se de joelhos deante de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a tal desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.—«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.—«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e abandonou-me.«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos não fugiria.«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos{39}fugiu; mas, quando passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não tornamos a apanhar senão morto.«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos castigados.«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá olhar com bons olhos uma mulher?—Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.—Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de mulheres, perde-se quasi sempre!....................................{40}IVEra em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo santo, domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado pela encosta de Travassô—uma encosta de aspecto taciturno, que olha com melancholia toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se estende, beijada desde a manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre Alquerubim.D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte da Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa páteira de Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre o extenso planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe, desenhando-se nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do Caramulo, com punhados de casinhas brancas a luzir no pardacento do sopé.Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente revestido de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um bando de pombas.O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos beijos, raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João, disposta em circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por sobre montes e valles, a uma grande distancia.Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma{41}viola a tiracolo, encostado a um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo de moças.Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao seu bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita pelas cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra caravêlha para afinar o instrumento, começar a dedilhar um acompanhamento de fado. Punha-se a cantar e, entretanto, já cercado de curiosos, não tardava que uma voz feminina lhe respondesse de entre o circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para dar passagem á atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento bater-se com o João do tio Alameda.A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida: era uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e expansiva. Era a Maria Luiza.Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella; e com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a envolvia, tão differente do que lançava ás outras, via-se claramente—porque o amôr não pode estar em segredo—que ella não lhe era indifferente.—Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do arraial.Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas uma por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam—homens e mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do «rei dos cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival...{42}Porque ella lá estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma papoila, em frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:—Se tu soubesses, menina,Quantas 'strellas ha no ceu,Saberias quantos suspirosDá por ti o peito meu.A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a ser ouvido pelo grupo todo.A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe sorridente:—Que importa o que diz um louco,Se falla sem sentimento?Cartas d'amor são papeis,Palavras leva-as o vento.—Bravo! exclamaram do grupo.—Sim, senhor!—Responde-lhe agora, ó João!—Essa chegou p'ra ti! Hein?Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.—P'ra que vaes, pois, ao sermão,Ouvir o padre prégar!Palavras leva-as o vento,Acabaste de o affirmar.—Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o maganão!Mas ella não se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:—Palavras santas, eu ouço-asCom amôr e devoção;As que Satanaz profereNão me entram na coração.{43}Quando terminou o debate, já o luar inundava o cabeço de Santo Estevam.O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.O João da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto é, Maria Luiza alcançou mais uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo, exultava com estas derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto á sua reputação de eximio cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expansão do ardôr da mocidade, o cabeço lá ficou, na solidão da noite, triste, com as bandeiras esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado pelo frouxo luar que parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle ditoso dia que só se repetiria d'ahi a um anno...{44}VNa vasta eira do tio José da Alameda haviam-se despejado quatro enormes carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar, dos fins de setembro.O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no logar.Eram oito horas, e já uma boa duzia de alegres moças estavam a contas com o monte, numa satisfação propria da mocidade em occasiões de folguedo.Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das raparigas.Não é uso convidal-os. «Elles cá virão ter» é a phrase consagrada. Effectivamente, elles, de ouvido á escuta, collocam-se nas encruzilhadas. Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das vozes nas desfolhadas, ahi vão como o cão de caça farejando o rasto do coelho até lhe dar com a cama.—Eia! vamos lá a isto! gritava o João da Alameda, alapardando-se entre a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto é dar-lhe! Isto é dar-lhe! Em uma ou duas horas está tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje até ao sol fóra!—Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse momento encafuado num gabão.—Viva! gritaram todos.—Obrigado! obrigado! dizia com bondade o{45}João. Mas olha lá, ó tu do gabão! Nós aqui não queremos caras encobertas. Tira o capuz da cabeça e senta-te p'rahi como os outros. Já todos sabem que aqui, ás nossas desfolhadas, só se vem de cara descoberta.—E se eu não quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarçado.—Se não quizeres, replicou o João meio azedo, vaes já pelo caminho por onde vieste.Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:—Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vêr isso!O João da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela jaqueta.Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no dispostos a expulsar o insolente para evitar algum dissabôr maior.O João dirigiu-se ao atrevido e este, na occasião em que elle estava a dois passos, atirou o gabão ao chão, dizendo risonho:—Olá, patrão?O João da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma visão lhe houvesse de repente apparecido.Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.—Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.—Olha o espertalhão do rapaz!O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a sua brincadeira que fez «ir á serra» o filho de seu amo.{46}O alarido restabelecera-se, e o João, fuzilado pelas chufas das raparigas, continuou alegremente a sua tarefa.O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local, elevava-se já a algumas dezenas.O montão de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de mãos, desapparecia a olhos vistos.—Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trémula.Era o tio José que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla, trazendo numa das mãos uma tripeça.—Viva, sr. José!—Então tambem vem tomar parte na desfolhada ao pé da gente nova, hein?—Com'assim!... É para me recordar dos meus tempos passados.Entretanto ia-se ageitando na tripeça, entre Helena e Julia que ficara junto a Paulo, e proseguiu, puxando por um pé de milho:—Porque um homem, quando chega á minha edade, que outra coisa póde fazer, para se não entristecer e não pensar na morte que se approxima, do que alimentar o seu espirito com recordações dos tempos passados, fingindo-se ainda nesses tempos que foram e não voltam?... E será este o ultimo, quem sabe?...—ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.—Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente, Helena. Não se quer cá tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha alli ao pae com uma cantiga das tuas, ó João!Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio José, sorrindo bondosamente, submeteu-se.{47}—Sim, sim! Uma cantiga! diziam.—Muitas cantigas, muitas, ó João!—Haja animação! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com uma das tuas!O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignação, preparou-se para cantar.Todos se calaram. Só se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar simultaneo das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a cair nos cestos de vime.O João pegou num pé de milho, deitou um olhar de soslaio á Maria Luiza, e cantou na sua voz sonora:—De tantas estrellas que haPor'hi além nesses ceus,Eu não encontro nenhumaComparada aos olhos teus.E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaía uma esganiçada em falsete, repetiram em côro, que se repercutia de valle era valle, os dois ultimos versos da quadra:Eu não encontro nenhumaComparada aos olhos teus.Elle continuou:—Ás ondas dos teus cabellosGostava de me atirar;Teus olhos, faróes de esp'rança,Haviam de me salvar.E o côro repetiu:Teus olhos, faroes de esp'rança,Haviam de me salvar.{48}—Isto é com a Maria Luiza, cochichou uma á sua visinha da direita.—É, é! Se fosse de dia, havias de vêr a cara de malaguêta com que ella deve estar.—E do que morrer amandoSe não ha nada mais bello,Queria amando morrerNas ondas do teu cabello.Queria amando morrerNas ondas do teu cabello.—Amei um dia uma estrellaQue vi lá no ceu brilhar:—Serei tua, me disse ella,Mas has-de vir-me abraçar.Serei tua, me disse ella,Mas has-de vir-me abraçar.—Dia de Natal hei-de irAo menino perguntarQual será a raparigaCom quem eu hei-de casar.Qual será a raparigaCom quem eu hei-de casar.—E se não me responder,Pedirei a S. JoaquimMe dê a Maria LuizaTão babadinha por mim.O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á luz do dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.{49}Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local da desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos seus improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e appareceram juntando ao alarido as suas exclamações e motejos inoffensivos dirigidos á Maria Luiza que, na opinião d'elles, encavacara.—Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero que se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava reduzido a metade.No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de parte todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do ardor que d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze annos, amavel como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de cambraia fina.Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o enthusiasmo que reinava em volta de si.Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.—Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve um dia em que estivesse alegre!Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma umas vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais sentira, baixou os olhos como uma creança{50}envergonhada. Á luz da lua, que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas lagrimas, e nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e na expressão desse rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso angelico desse rosto encantador, Paulo esqueceu-se de si, do logar onde estava, do mundo onde entrara pela porta da infelicidade, e julgou ouvir dentro de si uma musica celeste, de harmonias extranhas; pareceu-lhe que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez pelas nuvens, e que só via deante de si esse rosto...Despertou do seu curto êxtase, e olhou para Julia, que sorria para elle, muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando como fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus pequeninos toldados de nevoas.—Oh! a menina chora?... pôde elle articular.—Você, Paulo, parece ter muito bom coração; por isso deve entender que tenho razão para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Você ainda tem pae e mãe?—Não sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente triste.—Não sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.—Não, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expressão de verdadeiro pezar, perguntou:—Então é porque lhe morreram quando você era pequeno?—Não sei!...—Você quando para aqui veio que edade tinha?—Doze annos.—E até então onde esteve?{51}—Estive em casa da mulher que me criou. Essa é que me disse que meus paes me tinham abandonado quando nasci...—Abandonaram-n'o?!... Que corações tão duros! E você não chorou quando ella lhe disse isso?—Não, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar mãe e outra não conheço.—E você gostava de conhecer seus paes?—Gostava!... disse elle num murmurio, tão intimamente triste, que Julia não se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.A animação em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou uma expressão resoluta e disse:—Já vê a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais infeliz, e comtudo não choro!—É verdade, Paulo. Você tem razão. Não torno a chorar! Hei-de agora esforçar-me por ser alegre como você.—Ena! cá está uma! gritou, vibrante, a voz de João que, em pé, empunhava uma espiga vermelha. Um abraço! Vou já dar um abraço a cada uma!Fôra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma maçaroca ás mãos do João.Este dispunha-se a abraçal-as e ellas, com intenso gaudio intimo, preparavam-se para receber o seu abraço.Porque, afinal, não havia alli nenhuma que não sentisse o seu fraco pelo João do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante e com um coração como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois, juntava a todos estes dotes um bom par de geiras que já herdara da mãe e outras tantas que o pae lhe havia de deixar.{52}Ora, um rapaz assim não era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona, sem um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razão.As leis da attracção da riqueza são as mesmas dos corpos celestes. «A materia attrae a materia na razão directa das massas e na inversa do quadrado das distancias» disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a differença porém, que na gravitação universal não ha excepção alguma do que resultaria algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das riquezas ha as suas excepções, de quando em quando.Antes as não houvesse, porque se evitariam grande desgraças. O pobre, embora inspire paixão ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si. Nas mulheres, pelo menos, que é onde a vaidade humana se concentrou mais impetuosa, o amôr pelo pobre não é mais que um passatempo ephemero, um capricho que se evola ao embate das primeiras reflexões em que a vaidade serviu de juiz.Póde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do coração, submetter-se a esse capricho. Mas um coração d'esses é tão difficil de encontrar como as perolas no oceano Atlantico.Não admira, pois, que a affeição do João pela Maria Luiza não inspirasse ciumes ás suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illusão em que a rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus pensamentos, aguardando a desillusão da suadoidice, como lhe chamavam.Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abraço do João da Alameda, disse eu.Elle dirigiu-se á Maria Luiza, emquanto ia dizendo:{53}—Começo por ti, rapariga, já que estás aqui mais perto. As outras que vão esperando.E depois cantarolou:—Chuchem agora no dedo,Mas é tudo sem maldade:São apenas brincadeiras,Tudo proprio d'esta edade.E voltou para o seu logar.Os rapazes acclamaram e bateram palmas.—«Bella partida!» diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo não darem importancia ao caso.No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a desfolhada terminou.**     *O sol, no hemispherio opposto, tinha já brilhado no zenit dos nossos antipodas quando começou a retirada dos nossos personagens.Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, dançara-se alegremente na mais dôce expansão d'aquellas almas inflammadas do ardor da mocidade.A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a seguir-lhe o exemplo.Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando pela estrada fóra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade á maledicencia, ventilavam, atravez o fôsco prisma da inveja, o caso da Maria Luiza.{54}—E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa e admiração, ás suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, tão proxima do João como a Maria Luiza, não podera levar em paciencia que elle preferisse esta a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um mocetão d'aquelles, gostar d'uma delambida assim!—Ora! Vocês tambem fiam-se em boas!—Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?—O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.—Sim?!—É verdade! E vocês não viram, inventou ella de novo, aquella grande descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraçou?—Sério?!—Deu! Eu vi! Não admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle se mostre assim para com ella. São rapazes! o que querem é...—Pois decerto!—E faz elle muito bem! Quando ellas são assim, é bem feito!—Que grande descarada!—Cara sem vergonha!{55}

Meu amigo:

As resumidas linhas em que eu condensarei as impressões que da leitura do seu livro me ficaram não podem constituir, de fórma alguma, isso a que, nas nossas lettras, se chama—um prefacio. Serão apenas uma ligeira carta sem subtilezas de critica profunda—a critica que nunca soube formular, porque os criticos são personalidades todos de intellecto raciocinado e frio e eu sou um homem todo de emoções.

Esses criticos diriam ao meu amigo que as obras realisadas aos vinte annos não deviam ser atiradas aos alaridos da publicidade sem que primeiro os seus auctores tivessem, além de um exacto conhecimento da vida, completamente afinadas as suas faculdades d'observação, e sem que o seu temperamento esthetico adquirisse uma perfeita sagacidade, para que depois, já em pleno triumpho, não se arrependessem dos inconsiderados impulsos da juventude. Eu, pelo contrario, digo-lhe que nenhum escriptor deve envergonhar-se da sua actividade artistica dos primeiros annos, mesmo quando na superior florescencia do seu talento um dia sentir a viva anciedade de vêr como principiou. Os trabalhos da iniciação representam até um documento essencial para o estudo das intelligencias evolutivas e ascendentes...

Não affirmarei que o seu livro seja impeccavel. Nem o meu amigo terá a vaidade d'assim o julgar nem eu desfiguraria a verdade simplesmente para ser-lhe agradavel—e isto pela viva sympathia que me inspirou. A novella, para que a illumine a belleza, carece de unidade de concepção e de realisação, da plasticidade e do vigor da fórma, da perspicacia da analyse psychologica, de dextreza na modelação das figuras, da diversidade dos coloridos na pintura dos scenarios: e estes dons apenas advêm da tenacidade disciplinada e do estudo, porque ninguem nasce com um quinto sentido capaz de tudo adivinhar e tudo comprehender.

Não lhe esconderei, no emtanto, que o seu livro me communicou um certo prazer espiritual pela sua candura, pelo poetico sentimento que enternece algumas paginas—que é o sentimento d'uma alma pura e com finas delicadezas emotivas. Ora isto indica, no escriptor que agora começa, um evidente talento ainda balbuciante mas que ardentemente deseja orientar-se e que virá a impôr-se ás admirações se fôr animado por uma vontade sem desfalecimentos. E tão certo estou d'essa victoria futura que desde já calorosamente o applaudo, lamentando no emtanto que para a sua apresentação se houvesse lembrado do meu nome humilde e sem auctoridade para estas ceremonias solemnes.

Porto, 5 d'Abril de 1909.

Amigo muito affectuoso

João Grave.

Ex-alumno de um dos seminarios da diocese do Porto e actualmente estudante mediocre do lyceu, dou á luz o producto de tres longos mezes de trabalho para a consecução do qual tirei instantes preciosos destinados á ardua tarefa de que depende a minha vida futura—tarefa tanto mais ardua, quanto mais consideradas sejam as minhas escassas luzes intellectuaes.

Eis aqui, pois, uma obra que, apreciada por todos os lados, só tem valor por ser o fructo de um trabalho em que gastei, mórmente durante um bom mez, uma parte do tempo precioso destinado ás minhas lições. É appellando para essa attenuante que espero merecer a complacencia do publico em geral—tanto dos que convivem commigo de perto e que, vendo em mim um individuo sem aptidões para qualquer ramo do saber humano, vão ficar admirados da ousadia de semelhante passo, como dos que, sem nunca sequer me terem visto, esperam encontrar neste pequeno livro a summula do valor d'uma intelligencia promettedora que começa a manifestar a sua tendencia.

Á minha inaptidão vem juntar-se a inexperiencia dos meus vinte e tres annos; e assim é que{16}o meu livro, fatalmente eivado de todas as especies de imperfeições, só por uma disposição do leitor benevolo para uma extraordinaria condescendencia, poderá ser absolvido das faltas que inconscientemente commetti.

Abstenho-me de appellar para a complacencia dos meus companheiros e dos meus collegas em geral, porque elles, mais que ninguem, avaliam as difficuldades com que eu deveria luctar para conseguir o meu intento.

Ha seis mezes, approximadamente, publiquei noCorreio d'Albergariaum artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei ás Scenas da Aldeia, que eu declarei em preparação, mas que ainda existiam em projecto na minha mente. Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e publiquei então no mesmo jornal um excerpto sobre a transformação psychica de Maria Luiza.

Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres quotidianos, e absorvia o melhor do meu tempo que eu não podia dispensar sem prejuizo das minhas obrigações.

Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigação com a devoção, esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de caracter inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.

O meu livro está impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor religioso, porque julguei que, tirar á simplicidade da vida aldeã o sentimento religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a d'essa graça original e tão cheia de poesia que lhe dá todo o seu valor; julguei que era arrancar á vida da aldeia a sua alma.{17}

Obedeci a esse principio, e não á gratidão com que retribuo a meu pae—um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do seu coração quando me perfilhou—os desvelos que um filho recebe de seu pae carinhoso. Nem tão pouco obedeci á doçura dos fructos que deveria ter colhido da minha reclusão de alguns annos num seminario.

D'este só me lembro com mágua, quando considero a falta que me fazem os annos que lá gastei inutilmente. De resto, repressões, o pouco respeito com que os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes fica em caracter, e é tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos alumnos: finalmente, cumprem o seu dever, porque são, por assim dizer, uns criminosos inconscientes.

D'elles só conservo um resentimento: alimentarem animadversão contra a minha terra—Aveiro, talvez por causa das suas tradições de inimiga da hypocrisia.

Um, chegou a dizer numa aula, na minha presença—quando se discutia no parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga—que todos os que se deixaram levar pelas palavras de José Estevam foram uma corja de brutos—palavras textuaes—porque a variante da linha ferrea que então se construiu, além de acarretar enormes dispendios á companhia, prejudicava immenso, por causa d'uma terraque não prestava para nada, sem valôr nenhum, toda esta região que anceava pela execução do caminho de ferro do Valle do Vouga.

Tirado d'isso, não tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram, com o culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenças] que levava arreigadas no coração, e de apagar outras. Se ha quem diga que actualmente já se não fazem{18}milagres, ou nunca houve quem os fizesse, engana-se.

Já vê, pois, o leitor, que sou religioso e sou christão; não sou, talvez, catholico, mas isso dá-se na maioria dos padres, se não na sua totalidade.

Ponto final sobre este assumpto. Não vá o meu livréco parar aoIndex.

Terminando este prologo, nada mais tenho a fazer que impetrar mais uma vez do leitor benevolo a sua complacencia que, em vista das razões que expuz, não deixo de merecer com alguma justiça; e, confiado em que a minha petição não será infructifera, agradeço-a antecipadamente, e deixo aqui consignado tambem o meu agradecimento pelos preciosos momentos que o leitor haja de dispender na leitura d'este ensaio.

Aveiro, março de 1909.{19}

Na margem direita do Vouga, a cerca de doze kilometros da sua foz, espreguiça-se indolentemente, numa série de formosos outeiros e encostas de suave declive, uma aldeia.

A vista das casas disseminadas, como que em monticulos, por entre o verde das arvores e dos pinheiraes numa extensão de mais de quatro kilometros, suggere-nos a ideia de que Deus as atirara para cima da verdura d'aquellas collinas, como o lavrador atira a mão-cheia da semeadura á terra fecundante.

Mirando com galhardia do alto dos seus outeiros os logares que lhe ficam proximos, ella parece sorrir-se com aquelle sorriso de superioridade que uma mulher, conscia da sua formosura, lança áquellas que não receberam da natureza os dons com que ella foi dotada.

Bafejada pela amenidade do clima e pela limpidez e doçura de um ar diaphano, as suas melênas são brandamente agitadas pelo sopro suave duma{20}aragem fagueira, e a fimbria do seu vestido, d'um verde puro da vegetação do campo, é banhada pelas aguas transparentes do meigo e terno Vouga.

Eis, em simples bosquejo, o que é essa aldeia que se chama Alquerubim.

Alquerubim!

Só o nome é bonito! Parece que nos deixa nos ouvidos um tinir semelhante ao de uma gargalhada innocente e ingenua d'uma creança!

Pensareis talvez que estas palavras são a expressão expontanea do sentimento que me inspira, como a todos nós, a evocação da terra que me viu nascer.

Não.

Quando pronuncio a palavra «Alquerubim», a minha alma não experimenta aquella sensação que nos faz pulsar de enthusiasmo o coração quando pronunciamos o nome da terra em que pela primeira vez abrimos os olhos no mundo; porque não foi alli que sorvi os primeiros tragos de leite no seio materno.

Mas se não foi alli que lancei os primeiros vagidos, foi comtudo onde a minha juventude deslisou suavemente como um murmurante arroio serpeando por um prado tapetado de boninas e violetas.

É por isso que, ao evocar esse nome, o sentimento que brota dentro do meu peito, se não tem o vigor patriotico, tem comtudo uma doçura inexprimivel—a saudade.

Nessa aldeia, uma saudade me ficou entrelaçada com os ramos de cada arvore; em cada rua, uma gotta de sangue dos meus tenros pés feridos por uma pedra desligada da calçada; em cada salgueiro sobranceiro ao Vouga, um pedaço da minha alma... Por isso, ao recordal-a e ao contemplal-a, invade-me{21}a mesma tristeza que invade uma pomba que, depois de ter, em manhãs frescas do vêrão, adejado mansamente sobre um campo tapetado de verdura, o vae encontrar, no inverno, sepultado nas aguas.

Acaba de passar sobre o meu dôrso o frio do meu vigesimo segundo inverno. Acabo de transpor o atrio do edificio que se chama—Vida. E, ainda que na primavera da minha mocidade, tenho comtudo já sido açoutado por vendavaes ferozes. É no meio das tormentas que tão cêdo começaram de me assaltar, que eu procuro refocilar o espirito e fortalecer o coração nas dôces recordações da minha juventude.

Ao fazer retroceder o pensamento por esse caminho orlado de odoriferas madresilvas e tapetado de violetas aromaticas, sinto que do meu intimo se eleva um não sei quê parecido com um fumosinho que vem condensar-se-me nos olhos. Lagrimas? Não. Não chega a formar gottas. Um nevoeiro que me tolda a vista, mas muito tenue, que eu considero o chorar da alma. Porque a alma tambem chora.

Nas horas de angustia, quando uma nuvem me obscurece o horisonte, percorro com o pensamento esses caminhos silvestres por onde tantas vezes andei horas esquecidas á procura de ninhos; supponho-me deitado na caminha de ferro que minha mãe comprara para mim e quando, aos domingos, ao ouvir o badalar do sino logo de manhãsinha, eu me levantava, lavava, e minha mãe ia ajudar-me a vestir a roupa nova para ir á missa; e eu lá ia, muito serio, ao lado de minha mãe, com uma bengalinha de bambú que me tinham dado, e depois da missa voltavamos para casa, eu almoçava e em seguida ia brincar, a maior parte das vezes para o campo, com os meus companheiros. Recordo-me d'estes com saudade,{22}alguns dos quaes, talvez mais felizes do que eu, já morreram, e outros, andam muito longe, alguns nem eu sei por onde, luctando com a vida, abreviando os annos da existencia...

E nestas recordações sinto um bem-estar indefinivel que, commovendo-me, attenuam os dissabores da minha vida presente.

Oh! Quem me dera voltar aos dias da juventude! Tornar a gosar a unica felicidade que nos é dado gosar na vida!... Impossivel! A vida tem o seu movimento como as aguas do meu querido Vouga que vae morrer ao mar. Elle tambem não retrocede ás suas montanhas para d'alli voltar, em suaves murmurios, a beijar as melênas dos sinceiraes o ouvir os dôces cantares das camponêsas em dias estivos e mitigar a ardencia de tantos peitos apaixonados.................

Meu caro leitor, se és cidadão, se passas a vida na atmosphera doentia da cidade, vem commigo á minha aldeia. Aqui, n'este paraizo, serás o Dante e eu serei Beatriz.

Verás maravilhas: mas não as maravilhas que nos fazem arregalar os olhos de espanto e que tens em abundancia na tua cidade. Verás maravilhas da natureza que nos sensibilisam a alma e dulcificam o coração.

Serás conviva entre gente pobre, mas bôa, nas suas simples refeições; serás testemunha e confidente de conversações despretenciosas e intimas de paz, socêgo e alegria, á lareira, emquanto o vento zune lá fóra e a chuva fustiga as folhas das larangeiras e entôa, nas telhas grossas da choupana, a sua canção monótona; assistirás ás festas intimas dos simples, ao seu labôr quotidiano, aos seus regosijos, ás suas alegrias, aos seus pezares; palrarás com a gente do{23}campo e estudarás a sua bôa indole; espraiarás a vista por horisontes muito extensos, por sobre montanhas longinquas; aspirarás a largos sôrvos o ar purificado pela folhagem de centenares de arvores, cruzado pelo esvoaçar de milhares de avesinhas silvestres e aromatisado pelo odôr de myriades de florinhas espalhadas por estes campos além; e o teu rosto adquirirá as côres róseas das pintadas maçãs camoêzas que aqui ha em abundancia.

Depois, quando voltares á tua cidade, levarás d'aqui profundas saudades; a tua alma, ao recordares os mil encantos que a electrisavam, sentirá a mesma commoção que sentiu a do velho Horacio, quando este inclito poeta, vendo-se sem a tranquillidado dos campos, disse—ó rus, quando te aspicio!—oh! campo, quando te tornarei a vêr!{24}

O anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para vêr nascer o sol.

Uma tenue claridade, precursôra do dia, innundava já o ambiente da aldeia. O ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as arvores em completo repouso.

O mez de maio é um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era uma d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e frescas. Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dôce orvalho da madrugada.

Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massiço de heras, cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os seus trinados.

Nos requebros das suas melodias, nas inflexões dos seus variados garganteios, havia um tão expressivo influxo de dôce sensibilidade, um tão grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle silencio—apenas entrecortado pela voz do rouxinol—que pairava em volta de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava um massiço de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno—mais pequeno que o rouxinol.

Absorvido na audição d'aquellas melodias que arrancavam á minha alma vibrações d'uma indizivel doçura, e contemplando as ruinas d'aquella casa que, talvez, outr'ora, tivesse sido uma mansão ditosa de{25}felicidade e amôr ou, quem sabe? de expiação para uma alma desditosa e amargurada, debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do rouxinol, eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um rouxinol ao pé a cantar melopêas tão sentimentaes que pareciam repassadas de pungente saudade, a entoar canções tão tristes como a solidão em que aquellas paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a sua historia, como a casa da Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.

Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para não serem profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na pratica da virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa das resignações, palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um d'esses santuarios, e o rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo destino de acompanhar e realçar com as suas melodias sentimentaes aquelle quadro de saudade...

Fui arrancado á minha meditação pelo ruido do rodar pesado d'um carro de bois.

O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo estendia-se já uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.

Era a «bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios», na phrase de Vieira.

O rouxinol interrompeu a sua melopêa e fugiu do arbusto.

O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.

Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle, arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus 14 annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não mais de 7 annos, encostado á sebe{26}de vimes, as mãositas mettidas profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois não era cortado segundo as dimensões do seu corpo.

—Eh! Tio Luiz! Bom dia.

—Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?—Oh! Pára ahi,loura! Oh!castanha!—Isso é que foi madrugar, hein?

—Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da madrugada.

—Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra para semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi por volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no trabalho. Lá os senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me aquecer, se tenho calôr vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a puxar pelo corpo debaixo d'um calôr de rachar!

—Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os modos de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de laboriosa, é a melhor que ha! Diga...

—Ai! ai! ai! Se vamos...

—Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora a vêr que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias; preciso agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado mas contente, dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as ervilhas ou a herva muito bem, deitar-se socegado do espirito—do espirito, que é o melhor socêgo!—e dormir a somno solto a noite inteira! Você sabe lá quanto isso vale?

—Tambem não sei, mas calculo... Mas, se{27}quer que lhe falle com franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que vocemecê está pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis tostões por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma vida bôa! Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E vae a gente assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe chama...

—Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não aspira a outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino que assim determinou...

—Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a gente...

—Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar com olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois tostões mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e a outros influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as eleições, lá tinha de ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu. Depois, quando tivesse adquirido uma certa convivencia com essa gentefidalga, como vocês lhe chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito bem governado para chegar para as despezas caseiras e despezas de vestuario, etc., para você se apresentar decentemente em publico. Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais vantajoso, isto é, mais rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não saiba que os empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos trabalho dão. Você ia-se{28}habituando a ganhar cada vez mais, e a trabalhar cada vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do torpôr resultante da inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz atacado da mesma doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por desfastio. La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não apanhar uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!

—Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...

—Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a de lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.

—Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?

A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude tartamudear:

—É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos encaminham...

—Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que está o sol quasi a nascer. Para esta vida—acrescentou elle, rindo-se zombeteiro ainda do meu enleio—de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah! Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?

—É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o seu tempo.

—Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu é que me devia de ter lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.

Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mãos á sebe e o tio Luiz, tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das vacas,{29}exclamou, na palavra consagrada para pôr o gado bovino em andamento:

—Eixe!

O carro poz-se em movimento.

—Diga-me cá uma coisa, ó tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta casa, que alli está em ruinas?

—Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou, por outra, a mulher do brasileiro que móra acolá em cima na Herdade.

—Ah! Bem sei! Por signal que até a vida d'essa mulher em solteira é muito interessante.

—Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.

—Mas o que acho esquisito é eu ter aqui passado tantas vezes e nunca reparar para a casa senão hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou capaz de escrever a historia da casa. Você que diz, ó tio Luiz?

-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem, e olhe que é uma historia bem bôa, além de ser verdadeira, que é o principal!

—Pois está dito. Não descansarei emquanto a não escrever. Mal ou bem, depressa ou devagar, ella ha-de sair!

—Ó senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...

—Descance, que ha-de ser você talvez a primeira pessôa que nesta freguesia ha-de têl-a.

—E isso levará muito tempo, ó sr. Antonio?

—Leva, leva! Vê que a minha vida não me permitte dispôr de muito tempo para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes não a escrevo. Depois...{30}

—Sim, sim! É preciso tambem depoisimprensal-a, e tudo leva tempo.

—Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.

—Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?

—Está dito.

O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de orvalho, que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina transparencia.

O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os passaritos, esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a alvorada.

Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão—era o sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.

O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:

—Agora vamos á nossa lida.

Emquanto saltei, respondi:

—Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras lavradas.

—Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pôr as vaccas á charrua!

—Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que, lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não podia ter ficado a dormir?

—Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que lhe faça?{31}

**     *

Quando me retirei—já o sol ia alto—o tio Luiz lá andava a revolver a terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo esforço.

Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se multiplicou em dezenas d'elles.

Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados alguns dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.

Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e caricias verdadeiramente filiaes.

Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na sua fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...—A esperança de quê?

Nem elle o sabe, o lavrador.

Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições, idolatrando os torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte, colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras de que seus filhos depois colherão os fructos.

E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de espirito, no dôce convivio da familia reunida em volta da lareira nas noites amenas do outomno.

Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias, a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo{32}onde reina a paz e o amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do Nazareno na noite da ultima ceia.

Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa a dobrar ás almas, segundo o tradicional costume da aldeia, repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos além, penetrando os limites da freguezia visinha, até se perder na solidão da noite...{33}

O tio José da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.

Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu peito rijo existia um coração sempre jovial e bondoso, cuja ternura se derramava em obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma candida que logo se manifestava na ternura do olhar com que a todos envolvia.

Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho, mocetão de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e bondoso, a flôr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma rapariga de dezoito annos—o terceiro filho do casamento do tio Alameda com a sr.ª Maria das Dôres—chamada Helena, possuidora de uns olhos que—não é por eu gostar de olhos escuros em rosto moreno—lhe diziam tão bem, naquelle seu troso trigueiro e encantador, que não havia rapaz nenhum na aldeia que não desejasse andar toda a vida perdido na escuridão d'aquelles olhos. E quando ria, deixava vêr, por detraz de dois labios nacarados que deviam ser dôces como favos de mel, duas filas de dentes brancos como a neve pura.

A familia do tio Alameda, além d'elle e dos dois filhos, compunha-se de um creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que para alli tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma pupilla que, orphã de pae e de mãe, encontrara nos braços do tio Alameda os carinhos paternaes que tão cedo lhe faltaram.{34}

Chamava-se Julia. Tendo ficado sem mãe aos cinco annos, a infelicidade vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.

Foi então que a misericordia do tio Alameda se patenteou devéras; porque o moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia não podia ficar só no mundo, mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa voz apagada e apertando nas suas mãos febris as do bondoso velho:

—Tio José... esse anjo, que ahi está a chorar... vae ficar sem ninguem no mundo...

—Descança, João; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descança, que a tua Julia fica na minha companhia.

O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mão que segurava na sua que caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas faces mortalmente pallidas.

Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.

—Olha o que te digo, pequena—dizia-lhe elle carinhosamente uns dias depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu não has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as saudades dos paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso vêr ninguem a chorar.

E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.

—Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o mundo. Mas depois{35}que comecei a tomar conhecimento d'este mundo todo de enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as vezes que tinha motivo para isso, então não fazia outra vida.

A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.

—Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a ceia, e espairecer.

E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.

—Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo que vá vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas chalaças, para distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.

Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos annos?

Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que contava cerca de cem annos quando morreu?

Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma côdea e uma tigella de caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca de reduzir a achas o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia austera e encarquilhada debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou tres barretes sobrepostos e enterrados na cabeça.

Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um «tolo com juizo». Sim; porque trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o braço, embora vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de uma boa acção. E que melhor acção pode haver que o trabalho?

O Belbuth não era, pois, um tolo na verdadeira{36}significação da palavra. Não fazia diabruras. Não se ria frequentemente e sem motivo, como succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica em equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei algumas. E elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de conservação, pegava tambem numa pedra ou num pau, e atirava-o, com phrenesi, pela estrada adeante, não reparando nos estragos que podia causar se viesse algum incauto. Era o unico indicio vago de loucura que lhe conheci.

Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes dãosortetêm para pêras. Era o que se dava com o Belbuth.

Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a estima de toda a gente, em vista da sua edade avançada, e era, além d'isso, uma testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes tomou parte.

Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer pensões. Dando frequentemente um ordenado supérfluo a um glutão, que passa a vida regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes—e ás vezes nem isso!—, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem escarnecidos—sómente porque eram pobres—homens que, outrora, no vigor da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes corria nas veias.

O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por habitação o ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes, entre dois lençoes de neve.

Limitando o campo da sua vida de vagabundo{37}á área d'esta aldeia, o Belbuth era um typo popular de genio differente do de Luiz de Paus—um outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao acaso por esse mundo como um cometa errando no espaço, apparecendo de tempos a tempos no logar de Paus, d'onde era natural.

Sobre este contam-se vários episodios, alguns com bastante originalidade, revelando o mau instincto do seu agente.

Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria crise o combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de cavallaria 10 em Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe matavam a fome com uma parcella que cada um tirava á sua lata de rancho.

Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O Luiz de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada—pois a sentinella estava a dormir—pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre soldado do responder a um conselho de guerra.

Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no quartel.

Uma outra occasião, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia qualquer, alvoroçando o povo todo.................

—Olha lá, ó Belbuth! Tu namoraste alguma vez?

—Se eu namorei alguma vez? O quê?

—O quê! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?

—Nada! Tive sempre mêdo desses demonios!

—Porquê? Fizeram-te algum mal?

—A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança.{38}Depois que vi o que succedeu a alguns companheiros meus por causa de taes mafarricos, nunca as pude vêr. Quer saber, tio José, o que succedeu um dia a um camarada meu por causa d'uma rapariga?

—Conta lá.

—Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer; quando veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses, acolá para uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo ordem para ser procurado antes do regimento partir, por esses campos e montes. Partiram umas poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz parte d'uma.

«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para os lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um homem assim, assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras nos apontou um pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar, poz-se de joelhos deante de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!

«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a tal desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.

—«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.

—«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e abandonou-me.

«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos não fugiria.

«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos{39}fugiu; mas, quando passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não tornamos a apanhar senão morto.

«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos castigados.

«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá olhar com bons olhos uma mulher?

—Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.

—Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de mulheres, perde-se quasi sempre!....................................

{40}

Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo santo, domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado pela encosta de Travassô—uma encosta de aspecto taciturno, que olha com melancholia toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se estende, beijada desde a manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre Alquerubim.

D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte da Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa páteira de Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre o extenso planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe, desenhando-se nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do Caramulo, com punhados de casinhas brancas a luzir no pardacento do sopé.

Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente revestido de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um bando de pombas.

O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos beijos, raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João, disposta em circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por sobre montes e valles, a uma grande distancia.

Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma{41}viola a tiracolo, encostado a um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo de moças.

Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.

Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao seu bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita pelas cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra caravêlha para afinar o instrumento, começar a dedilhar um acompanhamento de fado. Punha-se a cantar e, entretanto, já cercado de curiosos, não tardava que uma voz feminina lhe respondesse de entre o circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para dar passagem á atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento bater-se com o João do tio Alameda.

A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida: era uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e expansiva. Era a Maria Luiza.

Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella; e com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a envolvia, tão differente do que lançava ás outras, via-se claramente—porque o amôr não pode estar em segredo—que ella não lhe era indifferente.

—Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do arraial.

Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas uma por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.

Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam—homens e mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do «rei dos cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival...{42}Porque ella lá estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma papoila, em frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:

—Se tu soubesses, menina,Quantas 'strellas ha no ceu,Saberias quantos suspirosDá por ti o peito meu.

A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a ser ouvido pelo grupo todo.

A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe sorridente:

—Que importa o que diz um louco,Se falla sem sentimento?Cartas d'amor são papeis,Palavras leva-as o vento.

—Bravo! exclamaram do grupo.

—Sim, senhor!

—Responde-lhe agora, ó João!

—Essa chegou p'ra ti! Hein?

Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.

—P'ra que vaes, pois, ao sermão,Ouvir o padre prégar!Palavras leva-as o vento,Acabaste de o affirmar.

—Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o maganão!

Mas ella não se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:

—Palavras santas, eu ouço-asCom amôr e devoção;As que Satanaz profereNão me entram na coração.

{43}

Quando terminou o debate, já o luar inundava o cabeço de Santo Estevam.

O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.

O João da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto é, Maria Luiza alcançou mais uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo, exultava com estas derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto á sua reputação de eximio cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.

Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expansão do ardôr da mocidade, o cabeço lá ficou, na solidão da noite, triste, com as bandeiras esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado pelo frouxo luar que parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle ditoso dia que só se repetiria d'ahi a um anno...{44}

Na vasta eira do tio José da Alameda haviam-se despejado quatro enormes carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar, dos fins de setembro.

O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no logar.

Eram oito horas, e já uma boa duzia de alegres moças estavam a contas com o monte, numa satisfação propria da mocidade em occasiões de folguedo.

Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das raparigas.

Não é uso convidal-os. «Elles cá virão ter» é a phrase consagrada. Effectivamente, elles, de ouvido á escuta, collocam-se nas encruzilhadas. Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das vozes nas desfolhadas, ahi vão como o cão de caça farejando o rasto do coelho até lhe dar com a cama.

—Eia! vamos lá a isto! gritava o João da Alameda, alapardando-se entre a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto é dar-lhe! Isto é dar-lhe! Em uma ou duas horas está tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje até ao sol fóra!

—Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse momento encafuado num gabão.

—Viva! gritaram todos.

—Obrigado! obrigado! dizia com bondade o{45}João. Mas olha lá, ó tu do gabão! Nós aqui não queremos caras encobertas. Tira o capuz da cabeça e senta-te p'rahi como os outros. Já todos sabem que aqui, ás nossas desfolhadas, só se vem de cara descoberta.

—E se eu não quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarçado.

—Se não quizeres, replicou o João meio azedo, vaes já pelo caminho por onde vieste.

Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:

—Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vêr isso!

O João da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela jaqueta.

Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no dispostos a expulsar o insolente para evitar algum dissabôr maior.

O João dirigiu-se ao atrevido e este, na occasião em que elle estava a dois passos, atirou o gabão ao chão, dizendo risonho:

—Olá, patrão?

O João da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma visão lhe houvesse de repente apparecido.

Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.

—Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.

—Olha o espertalhão do rapaz!

O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a sua brincadeira que fez «ir á serra» o filho de seu amo.{46}

O alarido restabelecera-se, e o João, fuzilado pelas chufas das raparigas, continuou alegremente a sua tarefa.

O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local, elevava-se já a algumas dezenas.

O montão de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de mãos, desapparecia a olhos vistos.

—Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trémula.

Era o tio José que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla, trazendo numa das mãos uma tripeça.

—Viva, sr. José!

—Então tambem vem tomar parte na desfolhada ao pé da gente nova, hein?

—Com'assim!... É para me recordar dos meus tempos passados.

Entretanto ia-se ageitando na tripeça, entre Helena e Julia que ficara junto a Paulo, e proseguiu, puxando por um pé de milho:

—Porque um homem, quando chega á minha edade, que outra coisa póde fazer, para se não entristecer e não pensar na morte que se approxima, do que alimentar o seu espirito com recordações dos tempos passados, fingindo-se ainda nesses tempos que foram e não voltam?... E será este o ultimo, quem sabe?...—ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.

—Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente, Helena. Não se quer cá tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha alli ao pae com uma cantiga das tuas, ó João!

Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio José, sorrindo bondosamente, submeteu-se.{47}

—Sim, sim! Uma cantiga! diziam.

—Muitas cantigas, muitas, ó João!

—Haja animação! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com uma das tuas!

O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignação, preparou-se para cantar.

Todos se calaram. Só se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar simultaneo das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a cair nos cestos de vime.

O João pegou num pé de milho, deitou um olhar de soslaio á Maria Luiza, e cantou na sua voz sonora:

—De tantas estrellas que haPor'hi além nesses ceus,Eu não encontro nenhumaComparada aos olhos teus.

E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaía uma esganiçada em falsete, repetiram em côro, que se repercutia de valle era valle, os dois ultimos versos da quadra:

Eu não encontro nenhumaComparada aos olhos teus.

Elle continuou:

—Ás ondas dos teus cabellosGostava de me atirar;Teus olhos, faróes de esp'rança,Haviam de me salvar.

E o côro repetiu:

Teus olhos, faroes de esp'rança,Haviam de me salvar.{48}

—Isto é com a Maria Luiza, cochichou uma á sua visinha da direita.

—É, é! Se fosse de dia, havias de vêr a cara de malaguêta com que ella deve estar.

—E do que morrer amandoSe não ha nada mais bello,Queria amando morrerNas ondas do teu cabello.Queria amando morrerNas ondas do teu cabello.

—Amei um dia uma estrellaQue vi lá no ceu brilhar:—Serei tua, me disse ella,Mas has-de vir-me abraçar.Serei tua, me disse ella,Mas has-de vir-me abraçar.

—Dia de Natal hei-de irAo menino perguntarQual será a raparigaCom quem eu hei-de casar.Qual será a raparigaCom quem eu hei-de casar.

—E se não me responder,Pedirei a S. JoaquimMe dê a Maria LuizaTão babadinha por mim.

O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á luz do dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.{49}

Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local da desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos seus improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e appareceram juntando ao alarido as suas exclamações e motejos inoffensivos dirigidos á Maria Luiza que, na opinião d'elles, encavacara.

—Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero que se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.

Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava reduzido a metade.

No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de parte todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do ardor que d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze annos, amavel como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de cambraia fina.

Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o enthusiasmo que reinava em volta de si.

Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.

—Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve um dia em que estivesse alegre!

Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma umas vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais sentira, baixou os olhos como uma creança{50}envergonhada. Á luz da lua, que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas lagrimas, e nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e na expressão desse rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso angelico desse rosto encantador, Paulo esqueceu-se de si, do logar onde estava, do mundo onde entrara pela porta da infelicidade, e julgou ouvir dentro de si uma musica celeste, de harmonias extranhas; pareceu-lhe que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez pelas nuvens, e que só via deante de si esse rosto...

Despertou do seu curto êxtase, e olhou para Julia, que sorria para elle, muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando como fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus pequeninos toldados de nevoas.

—Oh! a menina chora?... pôde elle articular.

—Você, Paulo, parece ter muito bom coração; por isso deve entender que tenho razão para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Você ainda tem pae e mãe?

—Não sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente triste.

—Não sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.

—Não, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expressão de verdadeiro pezar, perguntou:

—Então é porque lhe morreram quando você era pequeno?

—Não sei!...

—Você quando para aqui veio que edade tinha?

—Doze annos.

—E até então onde esteve?{51}

—Estive em casa da mulher que me criou. Essa é que me disse que meus paes me tinham abandonado quando nasci...

—Abandonaram-n'o?!... Que corações tão duros! E você não chorou quando ella lhe disse isso?

—Não, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar mãe e outra não conheço.

—E você gostava de conhecer seus paes?

—Gostava!... disse elle num murmurio, tão intimamente triste, que Julia não se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.

A animação em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou uma expressão resoluta e disse:

—Já vê a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais infeliz, e comtudo não choro!

—É verdade, Paulo. Você tem razão. Não torno a chorar! Hei-de agora esforçar-me por ser alegre como você.

—Ena! cá está uma! gritou, vibrante, a voz de João que, em pé, empunhava uma espiga vermelha. Um abraço! Vou já dar um abraço a cada uma!

Fôra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma maçaroca ás mãos do João.

Este dispunha-se a abraçal-as e ellas, com intenso gaudio intimo, preparavam-se para receber o seu abraço.

Porque, afinal, não havia alli nenhuma que não sentisse o seu fraco pelo João do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante e com um coração como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois, juntava a todos estes dotes um bom par de geiras que já herdara da mãe e outras tantas que o pae lhe havia de deixar.{52}

Ora, um rapaz assim não era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona, sem um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razão.

As leis da attracção da riqueza são as mesmas dos corpos celestes. «A materia attrae a materia na razão directa das massas e na inversa do quadrado das distancias» disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a differença porém, que na gravitação universal não ha excepção alguma do que resultaria algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das riquezas ha as suas excepções, de quando em quando.

Antes as não houvesse, porque se evitariam grande desgraças. O pobre, embora inspire paixão ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si. Nas mulheres, pelo menos, que é onde a vaidade humana se concentrou mais impetuosa, o amôr pelo pobre não é mais que um passatempo ephemero, um capricho que se evola ao embate das primeiras reflexões em que a vaidade serviu de juiz.

Póde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do coração, submetter-se a esse capricho. Mas um coração d'esses é tão difficil de encontrar como as perolas no oceano Atlantico.

Não admira, pois, que a affeição do João pela Maria Luiza não inspirasse ciumes ás suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illusão em que a rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus pensamentos, aguardando a desillusão da suadoidice, como lhe chamavam.

Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abraço do João da Alameda, disse eu.

Elle dirigiu-se á Maria Luiza, emquanto ia dizendo:{53}

—Começo por ti, rapariga, já que estás aqui mais perto. As outras que vão esperando.

E depois cantarolou:

—Chuchem agora no dedo,Mas é tudo sem maldade:São apenas brincadeiras,Tudo proprio d'esta edade.

E voltou para o seu logar.

Os rapazes acclamaram e bateram palmas.

—«Bella partida!» diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo não darem importancia ao caso.

No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a desfolhada terminou.

**     *

O sol, no hemispherio opposto, tinha já brilhado no zenit dos nossos antipodas quando começou a retirada dos nossos personagens.

Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, dançara-se alegremente na mais dôce expansão d'aquellas almas inflammadas do ardor da mocidade.

A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a seguir-lhe o exemplo.

Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando pela estrada fóra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade á maledicencia, ventilavam, atravez o fôsco prisma da inveja, o caso da Maria Luiza.{54}

—E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa e admiração, ás suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, tão proxima do João como a Maria Luiza, não podera levar em paciencia que elle preferisse esta a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um mocetão d'aquelles, gostar d'uma delambida assim!

—Ora! Vocês tambem fiam-se em boas!

—Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?

—O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.

—Sim?!

—É verdade! E vocês não viram, inventou ella de novo, aquella grande descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraçou?

—Sério?!

—Deu! Eu vi! Não admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle se mostre assim para com ella. São rapazes! o que querem é...

—Pois decerto!

—E faz elle muito bem! Quando ellas são assim, é bem feito!

—Que grande descarada!

—Cara sem vergonha!{55}


Back to IndexNext