VINatal, eu te saúdo!Quer a tempestade ruja lá fóra com indomavel fúria ameaçando prostrar as oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarelleça as brancas e innocentes camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e benefico paire no firmamento alegrando a natureza durante o dia, e á noite um docél azul marchetado de meigas estrellas se desenrole por sobre a minha fronte—eu amo-te, óh! Natal!Amo-te, quer rias como uma creança loira perseguindo uma borbolêta que saltita de flôr em flôr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos annos e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no regaço, lagrimas de saudade!És bello quando ris; mas o teu sorrir é forçado porque a tua alma é triste: e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.És meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas são sinceras, são o desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas são uma doçura tão intima, e tão celeste! Por isso eu adoro-te.Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo por entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de folhagem destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias, e na atmosphera tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a familia reunida em volta da lareira; amo-te, finalmente, em{56}tudo o que, inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia que desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa alma incauta e offegante não vê.Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por assim dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem alento para novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella expressão pérfida que nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta do rozario das nossas recordações que a nossa alma alanceada percorre orando e offerece ao Creador.E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver celeste!Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os raios da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras palhas onde nasceu essa creança—tão pobre como a mais pobre de todas as creanças, podendo, se quizesse, ser a mais opulenta—tu nasceste tambem: tiveste o mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito vivificante da sua bocca divina.E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste sempre a frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu nome, envolvido duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com amôr por todos que têm no peito um coração que soffre.E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que beije com ternura o{57}pimpolho fecundado no seu ventre e existir um infeliz; que chore uma lagrima!** *O dia de Natal amanhecera triste e soturno.Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão se desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito velho já, com uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de misericordia.Era a egreja com a sua torre.Que velhinha! Que velhinha!...Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella está recordando com mágoa as innumeras intempéries que têm zurzido o seu dorso, e, extenuada, profundamente abatida, parece impetrar do céu a piedade que dos homens ingratos não tem conseguido obter...O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas bátegas de agua, e o ceu, como que cançado, apresentava um aspecto soturno.Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia elevar-se muito alta.Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar, em pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia repercutiam-se, com maior intensidade para o norte, as ondulações sonoras que partiam do sino que chamava os fieis para a missa da manhã.Á esquina do adro, o Facca, abrindo uma das{58}portas da loja, olhou sombrio para o ceu pardacento e resmungou:—Hum!... Temos mais môlho!...Uma mulher, encafuada num mantelête, conduzia uma pacifica vacca que puxava a uma carroça. Acampou no adro e, depois de ministrar á vacca uma ração de pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a carroça, deixando a descoberto uma parte da sua mercadoria, que consistia em hortaliças.Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num pedregulho, á espera de freguezes.O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo, embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas penadas, depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos figos, mastigarem, numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom dia!», entraram, benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um sorriso infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio todo engalanado e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os braços, n'uma alvura de jaspe, como querendo abraçar a humanidade inteira num amplexo de amôr divino e paternal.Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas de pequeno lóte.Os fieis começaram a affluir ao templo.O velho prior...—Que bom homem que elle{59}era! Que candura d'alma se reflectia sempre naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos cheias de amôr e affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era eu pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na contemplação das tres perfeições naturaes—creanças, musica e flores!Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e ajoelhou na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a cabeça encanecida.Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o povo que enchia a capella-mór.Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.O sachristão abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o povo começou a entoar o Bemdito.Todos então, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amôr, acompanhada d'uma genuflexão, nos pésinhos, que pareciam pinhões, d'essa pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas mãos, acompanhando cada genuflexão que faziam d'um «Natus est nobis».Finda a adoração, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de gente que aguardava o leilão das offertas.Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma das extremidades do{60}muro que veda o recinto em volta da egreja, e, pegando numa abóbora, exclamou, sorridente:—Vale bem sete vintens! Para mais, e não para menos!... É massiça e deve ter pouca pevide! Isto para filhoses, é de estalo!—O dia das filhoses foi hontem.—Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Está em sete vintens!...—Oito! gritou um do lado.—Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem dá mais?... Oito!...—Nove!—Nove vintens! Não ha coisa mais barata! Eu não a fazia nem por nove mil reis!—Mas comial-a de graça, mesmo assim crúa!—Coma-a você. Não sou seu irmão. Nove vintens!... Nove!... Nove... uma. Nove... duas. No...—Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.—Cento e oit...—Vá p'r'ó diabo! São os mesmos nove vintens. Quem dá mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...—Abóboras?—...tres!—Vá p'rá missa.—Assentem alli ao snr. Manuel da Silveira.Vieram depois mais aboboras, cujo leilão decorreu sempre no meio de inoffensivas zombarias do mesmo theor.Cebôlas, borôas, garrafas de vinho fino, pés de porco, tudo appareceu no leilão.—Ora até uma gallinha cá appareceu! Cinco tostões! Se ninguem a comprar fico eu com ella.—Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...{61}—Tomaria você que eu o convidasse tambem. Cinco tostões!—Seis!—Seis tostões! Está pezadinha. Seis tostões e meio a mim!—Sete tostões.—Sete! Mau! Já não fico com a gallinha!—Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.—Não metto o dedo onde você costuma metter o nariz. Sete tostões! Sete! Sete tostões, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acolá ao tio Manuel Joaquim.Chegou a voz ás quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha coberta de setim, fechada.—Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados. Parece que foi feita por mãos de fada! Não vale menos de cinco tostões. Está fechada e deve ter qualquer coisa bôa cá dentro!—Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!—Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostões e... e... tres—vá lá!—pelo que tiver.—Nove tostões! gritou de longe uma rapariga.—Ah! Estás com o olho nella? Não que ella é bonita, lá isso é! Nove tostões!... Nove tostões!...—E meio, disse o snr. Silveira.—Nove tostões e meio! Só o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira a... cheira a não sei ao quê que tem cá dentro...—Dez tostões! repetiu a mesma rapariga.—Estás morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a não comprares, hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostões!—Mais um vintem, disse o snr. Silveira.{62}—Dez tostões e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para todos os lados.—Onze tostões! gritou de novo a rapariga.—Estás desesperada! Onze tostões!...—E meio!—Onze tostões e meio!—Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.—Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostões e meio! Eh! rapariga? Então tu?—Um quartinho! disse ella.—Um quartinho. Vá lá! Um quartinho! Quem mais dá? Isto deve ter amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho, uma. Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! Até é uma pena ir para as tuas mãos, rapariga! Um quartinho...—Tres!—...tres!—Não preciso cá de ponto.—Acolá para aquella cachópa.A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se em volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos, em bicos de pés, aguardavam a surpreza.A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.Era um rato.{63}** *Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada—a noite tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo sangue e pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã, offerecerem em holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante prestes a descer á terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus corações transbordando do mais acendrado amôr divino.Penetremos em casa do tio José da Alameda.Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala, para contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um presepio onde um Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de camelias brancas, tão brancas, tão puras, como pura era a alma de quem com tanto carinho e desvelo as collocou alli.Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas horas.Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e alli, naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um angelico sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a candura da sua alma.Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar todos os da casa para verem a sua obra.—Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por teres tanta habilidade.{64}—Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou, radiante, Julia.—Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a cosinha, emquanto a ceia se faz.E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes ainda, tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...É que Paulo e Julia amam-se.Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes que se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas, compadeceram-se mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos, acalentaram-se, amaram-se e proseguiram juntas, não já pelo caminho agreste que as martyrisava, mas por uma vereda em que os espinhos tem a suavidade das rosas, em que já não ha agruras, onde tudo são madresilvas e violetas rescendendo um aroma inebriante. Esqueceram as desditas passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova phase que a Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, transportados d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo, transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o leva ao seio de Deus...Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr dos corações predestinados que amam uma só vez na vida.Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os anima um para o outro, esses{65}corações, quando sós, estudam-se mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas que não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural retrahimento, nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem ousarem quebrar o encanto que sentem na contemplação mutua das suas almas, durante esse silencio em que cada um d'elles só ouve o ruido do pulsar do seu coração, as suas almas fallam, entendem-se, estudam-se, amam-se cada vez mais...Penetremos tambem na cosinha.A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses; com as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados braços até ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão sentados o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos, excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio ao que se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua abstracção, olha para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a mergulhar-se nas suas reflexões.—Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto as faço, o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos contou o anno passado.—Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...—Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que, tendo ido a casa d'umas{66}pessoas que eram muito bôa gente, teve de fugir, porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais rilhado que um torresmo. Lembra-se?—Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o principio? Lembras-te?—Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?O João pareceu despertar d'um sonho.—O quê?!...—Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho e bondoso.—Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vêr o que amanhã hei-de levar ao Menino Jesus—disse elle sorrindo, admirado da sua inspiração.—Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma aboborameninae duas ou tres linguiças. Têm muito bôa venda no leilão.—Eu é que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia. Não é bonita, Helena?—Gosto muito d'ella. Mas olha que é preciso metter-lhe qualquer coisa dentro. Amêndoas, por exemplo.—Ah! É verdade! Não me lembrava!—Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse do canto Paulo.—O que é? O que é? perguntou com curiosidade Julia.—A caixa é muito linda, ou é assim, assim?—Oh! é toda coberta a setim de duas côres! E com fitas de seda muito chics! Helena que diga.—A caixinha até é mal empregada no leilão, disse Helena, porque póde ir parar ás mãos de quem a não saiba apreciar e a não estime.—Bom! disse Paulo com resolução. Pois nesse{67}caso mais graça tem a brincadeira. É uma coisa que vou metter dentro da caixa amanhã de manhã, e que vae fazer rir ás bandeiras despregadas toda a gente que estiver no leilão. Porque, indo fechada, hão-de ter a curiosidade de vêr o que vae dentro. Ella tem chave?—Tem; vae presa a uma fita. Mas o que é, Paulo?—É um rato!—Ah! Ah! Ah! Tiveste bôa lembrança, e...Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto aldrabada chamou de fóra:—Ó tio Alameda! Você não dá um caldo e dormida ao Belbuth?—Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se pressurosa a abrir-lhe a porta.Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram jubilosamente.Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com narrações de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na casinha modesta da Maria Luiza, que está triste e pensativa...Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do Santo Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a mesma da desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso momentaneo que foi a origem de mil dissabores.Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de sessenta annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre os dedos com facilidade.{68}As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um tom de tristeza áquella mansão de paz e socego.No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.—Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de anciedade para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um suspiro.Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor, para a entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar, que ao expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em suave murmurinho, as espigas maduras d'uma ceára?E porque é que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites serenas, para a tua varanda ou para o aido, sósinho, a contemplar as estrellas, procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mágoas que suffocam o teu peito?Impressiona-te a concentração do espirito d'essa rapariga que, outrora, sempre de expressão radiante, espalhava em volta de si a alegria, como uma flôr odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?Segredos do coração.Sim: o coração, pequeno como é, pratica obras estupendas. Fazer de Maria Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje, é uma obra que eu colloco na ordem dos impossiveis.Pois o impossivel realisa-se?Realisa. É um exclusivo do coração.{69}O pae severo impõe as mais terminantes ordens de reclusão á filha enamorada. Fecha-a na alcôva, e volta com a chave, que colloca, juntamente com a do portão, debaixo da sua cabeceira.Dorme descançado, porque a janella é alta e, a dar-se a evasão, o gradeamento, difficil de transpôr, torna impossivel a fuga.O sol, de manhãsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que accorda e leva a mão ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu thesouro.—Cá estão! monologa somnolento e carrancudo.—E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais chocarreiro do sol.Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear, descançado, o somno da manhã.Quando accorda, já o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado de avareza e vae abrir a porta á sua andorinha...Oh! decepção cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da escuridão, por esses ares fóra!É que o coração vôa quando quer. Não tem elle azas?É um grande artista. Os maiores prodigios que têm assombrado a humanidade são obra sua.Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe a fórma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de penedo tantas vezes maltratado em um santo que se venéra, é possivel a qualquer artista.Polir uma alma... só o coração.A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como a peccadora de Magdalo{70}differe da penitente que está osculando e orvalhando de lagrimas os pés do Nazareno.Mas... quem espera ella?O João do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amôr, se compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que ella tivera o privilegio de ser abraçada por elle na presença das companheiras que tentaram disfarçar a inveja que lhes causára, a Maria Luiza começou de ser envolvida numa mephitica atmosphera de maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a inveja começa por sua vez quando se tem o reconhecimento da inaptidão ou da inferioridade.Se se podesse obter de um invejoso resposta á pergunta «porque invejas?» elle diria inevitavelmente «invejo porque valho menos».Mas o invejoso não fica por aqui.Dado o primeiro passo na senda das depravações, prosegue.Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella purificada, sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e consecutivas virtudes, assim um espirito maligno, um coração embotado pelas acções vis, sente um infernal prazer em percorrer a escala das depravações.Abyssus abyssum invocat.Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas gôttas d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que até então poderia dar a vida a quem se debatesse nas ardencias da sêde, affectou-se das propriedades mortiferas da peçonha que, de mollecula em mollecula, foi affectar, com o seu terrivel contacto, o puro liquido.Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peçonha da maledicencia as linguas{71}restantes da freguezia; e a honestidade da Maria Luiza, como a flôr branca da açucena açoutada pelo vento cortante da tempestade que não consegue prostral-a no lodaçal que ameaça conspurcar as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante d'essa maledicencia.João comprehendeu a situação de Maria, e não hesitou em collocar ao abrigo do seu peito essa flôr que, por sua causa, tinha sido exposta ao rigôr das intempéries.—Maria—disse-lhe a mãe depois de um muito prolongado silencio; são horas de deitar. O João não vem cá hoje decerto, o pae talvez o não deixe sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida em volta de si.—Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como penosa deve ser a deseperança num coração que idolatramos.João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que melhor leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a mulher sabe, por instincto, que um homem não tem a habilidade com que ella finge um sentimento que está longe de possuir.O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em vir ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não desesperar de viver?Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas promessas e juramentos que{72}no auge da sua paixão, elle lhe fizera, traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o peito?...Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á sua profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em volta, viu-se só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a retirada de sua mãe.O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas que Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.—Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres leves pancadas na porta.Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia, porque o coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se levantar, perguntou, entre admirada e sobresaltada:—Quem bate a esta hora?!Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça d'um homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que se perseguem.E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado e o sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros sobranceiros ao Vouga.{73}VIITres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra. Joaquina das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia, frequentava diariamente a egreja naperfeitaobservancia dos preceitos do Divino Mestre.Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja, tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do proximo, assoalhando tôrpemente a vida intima de cada um. Não distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau de torpeza e abjecção que encerra o procedimento de vasculhar os actos menos meritorios que outrem pratique, não alcançam ao mesmo tempo a quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o pó bemdito da caridade.A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera soffrer que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo, e sem necessidade, ao bando dos renegados.—Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o filho do caminho do peccado em que anda!E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um acto dumvalôr altamente humanitario{74}e divino, como era o de conduzir uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso de que, para o conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada ao desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa do tio Alameda.—Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o seu sorriso de bondade á beata.—Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita importancia que lhe quero communicar.—Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos oiça.Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço tabaqueiro, tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a um signal do velho, cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:—Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem, prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para nos salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram escriptas e foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até nós e continuará seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar de dar geração. Muitos acereditam nas palavras dos santos padres, a quem Deus encarregou de o representar no mundo e de fazer respeitar a sua religião. Outros não acreditam em nada d'isso, e esses são os réprobos condemnados ás penas eternas. Mas o nosso dever, o dever de todo o bom christão, é, por meio das boas obras e dos bons conselhos, chamar ao caminho do ceu esses perdidos na escuridão do peccado.E quando nós temos obrigação de chamar ao{75}caminho do dever esses que nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra. Joaquina fez o signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao caminho da bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram seduzir pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata queria chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada, continuou, mais moderada:—O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o caso...—Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...—Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas palavras, pois que, tratando-se de seu filho...—De meu filho?!... Que fez elle?—O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe fará perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não oppusér...—Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!—Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria Luiza que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?—Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!—Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a Deus. Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se perde. Além d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as noites lá a casa...{76}—O meu filho?! O meu João?!—É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida, que já anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus lençóes, porque, na vespera do Natal do Redemptor—aqui baixou a voz, fallando com calôr e vehemencia, e meneando os braços nuns gestos disparatados—espancou um rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria Luiza!—Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça isso!—Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o ia matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que seu filho ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher perdida.O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da beata.Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado da mais revoltante hypocrisia:—Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas eternas.O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces; e, meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as mãos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com amargura:—Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me restam sejam manchados{77}nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!** *—Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelodever de conscienciaque acabava de cumprir.—Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com as lagrimas nos olhos.—O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio Alameda.Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma profunda angustia que lhe opprimia a alma.—Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.—E o João onde está?—Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão de contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão alegre. Depois da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e disse-lhe:—Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de vida que me restam.Fallava com uma tão pronunciada amargura,{78}que João, prevendo o fim que elle queria attingir, e commovido mais pelas más impressões que seu pae teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem trazido (porque não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do pae, respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:—Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo obediente...—Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na tua bôa fé.—O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?—Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu, que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos filhos, quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida, filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha velhice!—Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no chão. Pois isso são contos do mundo, que...—Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um grande peccado!João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:—Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa, por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia porque ninguem lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha sido o causador de toda aquella desgraça, o que fazia?{79}—Soccorria-a...—E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?—Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?—É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu tanto queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a verdade.O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das suas palavras:—Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram, e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na muito, e eu então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr a roda, dando um abraço a cada uma, como é costume. Abracei, porém, a Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer, achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos á pobre rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade, tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que conheço{80}ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto, não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a quando a via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma certa necessidade de a vêr todos os dias para a animar, e, quando fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua mãe que já não podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu, meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer os olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito desejava fazer-lhe, mas...—e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu procedimento:—eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não morrerem á fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a soccorrer aquellas infelizes com o pão de cada dia!O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito, disse:—Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, não devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido ha mais tempo para commigo, que me não opporia{81}a isso. Mas tambem é preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim, é preciso sempre raciocinar e vêr...—Meu pae! A Maria Luiza é honesta!—interrompeu o filho com vehemencia. Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação de a defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a minha estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha resolução é salvál-a por completo da deshonra com que quizeram maltratal-a!—Que dizes?! Pois tu queres...—Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.—Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha honra acima de tudo...—A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se. Cumpro um dever de consciencia e do coração.O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente, disse:—Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?—Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito, quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de Maria Luiza. Eu todas{82}as noites lá vou, e ella preveniu-me de que, depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de mansinho á porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz mais caso, e passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal noite—foi na vespera de Natal—fui pôr-me de novo á espreita. Passado muito tempo, um embuçado approximou-se, muito cautelloso, e bateu devagar tres pancadas. Ia já a retirar-se, talvez por me não ter visto sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar uma bastonada, que é para lá não tornar.—Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da Maria Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos certas coisas ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas. Precipitaste-te, e agora és censurado e tido como desordeiro, e isso é muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao tempo, é um dictado muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o que a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com quem tenha outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e felizes; e a felicidade não se alcança com a riqueza.—Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas, radiante de alegria e ao{83}mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava da sua bondade!E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que lhe bailavam nos olhos.{84}VIIIEra n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam no adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual, emquanto outros, já velhos, e algumas mulheres, de todas as idades, entravam religiosamente na egreja.Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado por um sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada para a missa.O tempo deslisava, havia já uma semana, sereno e cheio de doçura. Á quadra invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre: parecia que se tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era desmentido apenas por algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam tristes e graves como esqueletos, como querendo lembrar á natureza que não era aquella a epocha de ostentar as suas galhardias.Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taças de crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria ficticia para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico, lembravam os sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhaço da egreja{85}espreitando o sol, levantou vôo, ás primeiras badaladas do sino, e foi adejando para os lados do campo.Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por tres alazões, atravessava o adro, absorvendo a attenção de todos.Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos, typo de brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir—fato claro de casimira, e calças d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar sem difficuldade com as botas calçadas; parecia alem d'isso, a avaliar pela quantidade de bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia de oiro que lhe bamboleava no collete cuja abertura lhe abrangia quasi toda a altura do peito, que era um brazileiro rico.Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a sua imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, vê as pessoas e as coisas que julga n'uma esphera inferior á sua.Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios áposedo pedaço d'asno—de que logo o apodaram—no qual os mais velhos reconheceram o filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha abisnaga.—Então vocês não se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos aos quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade—d'aquelle garotêlho que a Quiteriabisnagatinha?—Ah! sim! Dá uns ares d'elle, dá!—Pois é este figurão que ahi vae. Andava por ahi á maçã do chão, todo esfarrapado e ranhoso. A mãe pôl-o a servir alli em casa do fallecido pae do Silveira, que era um lavrador rico, como vocês sabem. Esteve lá uns dois annos, se tanto, até que um{86}dia pede dinheiro emprestado ao patrão para ir para o Brazil, na condição de lh'o mandar quando o ganhasse. O patrão disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o ganhares, manda-m'o; e se o não ganhares, fica por intenção da minha alma.—E ganhou-o bem, logo se vê!—Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e mandou-lhe tambem dizer que só voltaria á terra quando estivesse tanto ou mais rico do que elle; que, do contrario, não punha cá mais os pés!—Ora vejam o que é a sorte!—É assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada á mãe.—Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e já não apparece na feira dos cinco a comprar e vender creação!—Já não tem necessidade d'isso. Até parece que anda mais nova.—É verdade! Olha abisnaga! Se ella não tivesse tido a habilidade de arranjar aquelle filho, não tinha agora uma velhice tão mimosa.—Meu caro... é a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco mais ou menos, pobre como Job, sem saber lêr nem escrever...—Ora vejam!—Quero dizer... elle aprendeu lá a lêr, mas isso foi já depois de estar bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter alguma instrucção. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois dizem que tem uma bôa fortuna.—Meu amigo:«Se fôres ao mar pescar,Que a fortuna te não deixe.»{87}—Isso, isso! Ah! Ah! Ah!«Lança as redes, vem-te embora,Quanto mais burro, mais peixe.»E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:—Vamos para a missa, que deve estar a começar.** *Nesse mesmo dia, á tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a digestão do jantar, preguiçosamente espernegado num escabello, saboreando um aromatico charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente em espiraes na atmosphera, elle contemplava com os olhos indolentemente semi-cerrados.Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a cosinha não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar apropriado para isso.A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos serviços domesticos d'esse dia—dia de gala em casa da tia Quiteria—ultimava as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um frango, uma posta de vitella e outra de carneiro e mais uns guisados, deram ás paredes denegridas a honra de as mimosear com um fumo mais agradavel, impregnado de aromas recendentes que espantaram metade da visinhança.—Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura com{88}o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem cá o seu filho...—É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos annos o não via?—Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre de vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me não conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que eu, sempre...—Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para alli, que lá o encontras.O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era um antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na procura de ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que corrêra logo a dar os parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho, a quem achou muito desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que não parecia até vir de terras brazileiras.Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:—Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!—Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.—Ora então, com sua licença. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha chegado, mal parecia que não viesse visital-o, porque, sempre foi um rapaz com quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando jogavamos o pião?...—Ah! sim! sim! interrompeu obisnagacom expressão de desdem.{89}—Depois, pensei lá commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda, embora eu seja pobre e elle esteja rico...—Arranjei uns patacos, é verdade. Não é muito, mas... contentar.—Teve sorte! Teve sorte! É porque Deus lhe achou merecimentos para isso. Ah! quem o viu e quem o vê! Quando nós iamos á cata de ninhos, acolá por...—Ah! sim! sim! Olha lá uma coisa: tu não fumas?—Fumo...E, puxando por umkentuk, ajuntou:—É que eu não queria... faltar ao respeito...—Ah! sim! Deixa lá isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do bolso do casaco.O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois dêdos no charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso mixto de parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na bôcca.—Espera lá, homem! É preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que saisse o fumo?E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que tirou da boquilha de aros de oiro.O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o metter na bôcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se chamam deespera gallegopor causa da grande demora do enxofre entrar em combustão, e, raspando-o nas calças de saragoça, com elle accendeu o charuto.Entretanto, abisnagarecebe a visita, na cosinha, de varias visinhas que a vêm felicitar pelo alegrão que a vinda do seu Joaquim lhe veio dar.{90}Este, abrindo a bôcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de rapaz:—Olha lá uma coisa: a respeito depequenas, como vae isso por ahi?E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.—Ha por ahi uns peixões bem bons!—Sim?—Conheceu a tia Joanna Maneta?—A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria... Bem sei, bem sei. Então?—Então, tem lá uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois annos!—E será facil de...—Ai! Ai! Ai! Isso é só chegar-lhe!—e esfregava, um de encontro ao outro, os dêdos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi um par d'ellas que não vão assim com duas razões! Querem só que os rapazes lhes fallem em casorio. Mas vossa senhoria não precisará de muito trabalho. Isto de mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se não é uma é outra. Porque ha por ahi bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz da orelha, tem lá o tio Alameda!—Alguma filha geitosa, hein?—Oh! de estalo! Isso é o que ha de melhor por estas redondezas. Mas está nova!...—Que edade tem?—Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Além d'isso, era uma grande desfeita ao velho, que é muito respeitado, e quer-lhe como á luz dos olhos.—Isso de desfeita é o menos. O diabo é ella ser menor.—Pois é isso... Ah! a proposito do tio Alamêda!{91}Não sei se vossa senhoria sabe que elle, além d'essa rapariga, tem um filho ahi dos seus vinte e quatro a vinte e cinco annos?—Não sabia, mas fico sabendo.—E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serôdia?—Hum! Não me reccordo, não.—Bem, é a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serôdia, uma rapariga toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um gosto ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem; é até chamado o rei dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, não ha ninguem que se lhe compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era derrota certa. Ora essa tal filha da Serôdia, e que se chama Maria Luiza, deu em ir cantar sempre com elle; em todas as festas onde appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro! Até algumas vezes ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de proposito. Mas mais tarde é que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella, tanto que se tem feito os esforços para o retirar, porque dizem que casa com ella, e não ha meio; e é porque, segundo consta, a rapariga é mal empregada n'elle, porque se portava mal, e, além de elle ser um bello rapaz, estimado de todos, dá um desgosto ao pobre velho do pae, que não faz ideia. Ora por estas razões, é uma obra de caridade desviar o rapaz d'alli. Isto de mulheres, vossa senhoria sabe-o melhor do que eu, porque tem corrido mundo, em lhe cheirando a riqueza, illudem-se como ratos!—Ah! Ah! Ah! Queres então dizer que, com duas arrastaduras de aza e outras tantas promessas...—Ora nem mais! Além d'isso, não é mau petisco! E como anda toda inchada por o rapaz andar{92}assim pela beiça, sabendo toda a gente o que ella foi, era bem feito.—Oh! diabo! Mas é preciso fazer isso com geito. Não vá o rapaz fazer alguma...—Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do rapaz, começarei a metter-lhe em cabeça que a rapariga anda a perder a cabeça com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e, finalmente, quando vossa senhoria começar a entrar em combate, ella, com certeza, não resiste, e então eu direi ao rapaz se fôr preciso, que foi ella até que se entregou a vossa senhoria. Verá depois como elle até me agradece o cuidado que tive em lhe abrir os olhos.—Bem. Arranja lá as coisas, e, quando fôr occasião, mostra-me a rapariga. Agora ouve lá uma outra coisa: não ha por ahi quem queira vender uma propriedade bem situada, que seja fertil, isto é, com agua em abundancia, e onde se possa fazer uma casa?—Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da Nóra. É um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se vê o campo todo...—Pois isso é que me convinha comprar.—Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver resolvido...—Paga-se-lhe bem e...—E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.—Pois é isso. Vamos então lá.{93}
Natal, eu te saúdo!
Quer a tempestade ruja lá fóra com indomavel fúria ameaçando prostrar as oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarelleça as brancas e innocentes camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e benefico paire no firmamento alegrando a natureza durante o dia, e á noite um docél azul marchetado de meigas estrellas se desenrole por sobre a minha fronte—eu amo-te, óh! Natal!
Amo-te, quer rias como uma creança loira perseguindo uma borbolêta que saltita de flôr em flôr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos annos e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no regaço, lagrimas de saudade!
És bello quando ris; mas o teu sorrir é forçado porque a tua alma é triste: e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.
És meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas são sinceras, são o desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas são uma doçura tão intima, e tão celeste! Por isso eu adoro-te.
Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo por entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de folhagem destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias, e na atmosphera tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a familia reunida em volta da lareira; amo-te, finalmente, em{56}tudo o que, inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!
Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia que desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa alma incauta e offegante não vê.
Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por assim dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem alento para novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella expressão pérfida que nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta do rozario das nossas recordações que a nossa alma alanceada percorre orando e offerece ao Creador.
E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver celeste!
Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os raios da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras palhas onde nasceu essa creança—tão pobre como a mais pobre de todas as creanças, podendo, se quizesse, ser a mais opulenta—tu nasceste tambem: tiveste o mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito vivificante da sua bocca divina.
E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste sempre a frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu nome, envolvido duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com amôr por todos que têm no peito um coração que soffre.
E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que beije com ternura o{57}pimpolho fecundado no seu ventre e existir um infeliz; que chore uma lagrima!
** *
O dia de Natal amanhecera triste e soturno.
Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão se desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito velho já, com uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de misericordia.
Era a egreja com a sua torre.
Que velhinha! Que velhinha!...
Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella está recordando com mágoa as innumeras intempéries que têm zurzido o seu dorso, e, extenuada, profundamente abatida, parece impetrar do céu a piedade que dos homens ingratos não tem conseguido obter...
O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.
Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas bátegas de agua, e o ceu, como que cançado, apresentava um aspecto soturno.
Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia elevar-se muito alta.
Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar, em pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia repercutiam-se, com maior intensidade para o norte, as ondulações sonoras que partiam do sino que chamava os fieis para a missa da manhã.
Á esquina do adro, o Facca, abrindo uma das{58}portas da loja, olhou sombrio para o ceu pardacento e resmungou:
—Hum!... Temos mais môlho!...
Uma mulher, encafuada num mantelête, conduzia uma pacifica vacca que puxava a uma carroça. Acampou no adro e, depois de ministrar á vacca uma ração de pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a carroça, deixando a descoberto uma parte da sua mercadoria, que consistia em hortaliças.
Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num pedregulho, á espera de freguezes.
O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo, embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas penadas, depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos figos, mastigarem, numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom dia!», entraram, benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.
Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um sorriso infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio todo engalanado e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os braços, n'uma alvura de jaspe, como querendo abraçar a humanidade inteira num amplexo de amôr divino e paternal.
Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas de pequeno lóte.
Os fieis começaram a affluir ao templo.
O velho prior...
—Que bom homem que elle{59}era! Que candura d'alma se reflectia sempre naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos cheias de amôr e affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era eu pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na contemplação das tres perfeições naturaes—creanças, musica e flores!
Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e ajoelhou na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a cabeça encanecida.
Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o povo que enchia a capella-mór.
Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.
O sachristão abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o povo começou a entoar o Bemdito.
Todos então, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amôr, acompanhada d'uma genuflexão, nos pésinhos, que pareciam pinhões, d'essa pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas mãos, acompanhando cada genuflexão que faziam d'um «Natus est nobis».
Finda a adoração, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de gente que aguardava o leilão das offertas.
Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma das extremidades do{60}muro que veda o recinto em volta da egreja, e, pegando numa abóbora, exclamou, sorridente:
—Vale bem sete vintens! Para mais, e não para menos!... É massiça e deve ter pouca pevide! Isto para filhoses, é de estalo!
—O dia das filhoses foi hontem.
—Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Está em sete vintens!...
—Oito! gritou um do lado.
—Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem dá mais?... Oito!...
—Nove!
—Nove vintens! Não ha coisa mais barata! Eu não a fazia nem por nove mil reis!
—Mas comial-a de graça, mesmo assim crúa!
—Coma-a você. Não sou seu irmão. Nove vintens!... Nove!... Nove... uma. Nove... duas. No...
—Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.
—Cento e oit...—Vá p'r'ó diabo! São os mesmos nove vintens. Quem dá mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...
—Abóboras?
—...tres!—Vá p'rá missa.—Assentem alli ao snr. Manuel da Silveira.
Vieram depois mais aboboras, cujo leilão decorreu sempre no meio de inoffensivas zombarias do mesmo theor.
Cebôlas, borôas, garrafas de vinho fino, pés de porco, tudo appareceu no leilão.
—Ora até uma gallinha cá appareceu! Cinco tostões! Se ninguem a comprar fico eu com ella.
—Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...{61}
—Tomaria você que eu o convidasse tambem. Cinco tostões!
—Seis!
—Seis tostões! Está pezadinha. Seis tostões e meio a mim!
—Sete tostões.
—Sete! Mau! Já não fico com a gallinha!
—Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.
—Não metto o dedo onde você costuma metter o nariz. Sete tostões! Sete! Sete tostões, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acolá ao tio Manuel Joaquim.
Chegou a voz ás quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha coberta de setim, fechada.
—Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados. Parece que foi feita por mãos de fada! Não vale menos de cinco tostões. Está fechada e deve ter qualquer coisa bôa cá dentro!
—Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!
—Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostões e... e... tres—vá lá!—pelo que tiver.
—Nove tostões! gritou de longe uma rapariga.
—Ah! Estás com o olho nella? Não que ella é bonita, lá isso é! Nove tostões!... Nove tostões!...
—E meio, disse o snr. Silveira.
—Nove tostões e meio! Só o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira a... cheira a não sei ao quê que tem cá dentro...
—Dez tostões! repetiu a mesma rapariga.
—Estás morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a não comprares, hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostões!
—Mais um vintem, disse o snr. Silveira.{62}
—Dez tostões e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para todos os lados.
—Onze tostões! gritou de novo a rapariga.
—Estás desesperada! Onze tostões!...
—E meio!
—Onze tostões e meio!
—Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.
—Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostões e meio! Eh! rapariga? Então tu?
—Um quartinho! disse ella.
—Um quartinho. Vá lá! Um quartinho! Quem mais dá? Isto deve ter amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho, uma. Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! Até é uma pena ir para as tuas mãos, rapariga! Um quartinho...
—Tres!
—...tres!—Não preciso cá de ponto.—Acolá para aquella cachópa.
A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.
Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se em volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.
Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos, em bicos de pés, aguardavam a surpreza.
A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.
Era um rato.{63}
** *
Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada—a noite tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo sangue e pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã, offerecerem em holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante prestes a descer á terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus corações transbordando do mais acendrado amôr divino.
Penetremos em casa do tio José da Alameda.
Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala, para contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um presepio onde um Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de camelias brancas, tão brancas, tão puras, como pura era a alma de quem com tanto carinho e desvelo as collocou alli.
Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas horas.
Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e alli, naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um angelico sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a candura da sua alma.
Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar todos os da casa para verem a sua obra.
—Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por teres tanta habilidade.{64}
—Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou, radiante, Julia.
—Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a cosinha, emquanto a ceia se faz.
E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.
O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes ainda, tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...
É que Paulo e Julia amam-se.
Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes que se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas, compadeceram-se mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos, acalentaram-se, amaram-se e proseguiram juntas, não já pelo caminho agreste que as martyrisava, mas por uma vereda em que os espinhos tem a suavidade das rosas, em que já não ha agruras, onde tudo são madresilvas e violetas rescendendo um aroma inebriante. Esqueceram as desditas passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova phase que a Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, transportados d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo, transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o leva ao seio de Deus...
Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr dos corações predestinados que amam uma só vez na vida.
Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os anima um para o outro, esses{65}corações, quando sós, estudam-se mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas que não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural retrahimento, nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem ousarem quebrar o encanto que sentem na contemplação mutua das suas almas, durante esse silencio em que cada um d'elles só ouve o ruido do pulsar do seu coração, as suas almas fallam, entendem-se, estudam-se, amam-se cada vez mais...
Penetremos tambem na cosinha.
A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses; com as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados braços até ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.
Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão sentados o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.
O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos, excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio ao que se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua abstracção, olha para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a mergulhar-se nas suas reflexões.
—Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto as faço, o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos contou o anno passado.
—Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...
—Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que, tendo ido a casa d'umas{66}pessoas que eram muito bôa gente, teve de fugir, porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais rilhado que um torresmo. Lembra-se?
—Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o principio? Lembras-te?
—Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?
O João pareceu despertar d'um sonho.
—O quê?!...
—Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho e bondoso.
—Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vêr o que amanhã hei-de levar ao Menino Jesus—disse elle sorrindo, admirado da sua inspiração.
—Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma aboborameninae duas ou tres linguiças. Têm muito bôa venda no leilão.
—Eu é que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia. Não é bonita, Helena?
—Gosto muito d'ella. Mas olha que é preciso metter-lhe qualquer coisa dentro. Amêndoas, por exemplo.
—Ah! É verdade! Não me lembrava!
—Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse do canto Paulo.
—O que é? O que é? perguntou com curiosidade Julia.
—A caixa é muito linda, ou é assim, assim?
—Oh! é toda coberta a setim de duas côres! E com fitas de seda muito chics! Helena que diga.
—A caixinha até é mal empregada no leilão, disse Helena, porque póde ir parar ás mãos de quem a não saiba apreciar e a não estime.
—Bom! disse Paulo com resolução. Pois nesse{67}caso mais graça tem a brincadeira. É uma coisa que vou metter dentro da caixa amanhã de manhã, e que vae fazer rir ás bandeiras despregadas toda a gente que estiver no leilão. Porque, indo fechada, hão-de ter a curiosidade de vêr o que vae dentro. Ella tem chave?
—Tem; vae presa a uma fita. Mas o que é, Paulo?
—É um rato!
—Ah! Ah! Ah! Tiveste bôa lembrança, e...
Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto aldrabada chamou de fóra:
—Ó tio Alameda! Você não dá um caldo e dormida ao Belbuth?
—Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se pressurosa a abrir-lhe a porta.
Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram jubilosamente.
Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com narrações de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na casinha modesta da Maria Luiza, que está triste e pensativa...
Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!
Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do Santo Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a mesma da desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso momentaneo que foi a origem de mil dissabores.
Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de sessenta annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre os dedos com facilidade.{68}
As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um tom de tristeza áquella mansão de paz e socego.
No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.
—Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.
Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de anciedade para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um suspiro.
Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor, para a entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar, que ao expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em suave murmurinho, as espigas maduras d'uma ceára?
E porque é que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites serenas, para a tua varanda ou para o aido, sósinho, a contemplar as estrellas, procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mágoas que suffocam o teu peito?
Impressiona-te a concentração do espirito d'essa rapariga que, outrora, sempre de expressão radiante, espalhava em volta de si a alegria, como uma flôr odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?
Segredos do coração.
Sim: o coração, pequeno como é, pratica obras estupendas. Fazer de Maria Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje, é uma obra que eu colloco na ordem dos impossiveis.
Pois o impossivel realisa-se?
Realisa. É um exclusivo do coração.{69}
O pae severo impõe as mais terminantes ordens de reclusão á filha enamorada. Fecha-a na alcôva, e volta com a chave, que colloca, juntamente com a do portão, debaixo da sua cabeceira.
Dorme descançado, porque a janella é alta e, a dar-se a evasão, o gradeamento, difficil de transpôr, torna impossivel a fuga.
O sol, de manhãsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que accorda e leva a mão ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu thesouro.
—Cá estão! monologa somnolento e carrancudo.
—E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais chocarreiro do sol.
Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear, descançado, o somno da manhã.
Quando accorda, já o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado de avareza e vae abrir a porta á sua andorinha...
Oh! decepção cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da escuridão, por esses ares fóra!
É que o coração vôa quando quer. Não tem elle azas?
É um grande artista. Os maiores prodigios que têm assombrado a humanidade são obra sua.
Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe a fórma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de penedo tantas vezes maltratado em um santo que se venéra, é possivel a qualquer artista.
Polir uma alma... só o coração.
A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como a peccadora de Magdalo{70}differe da penitente que está osculando e orvalhando de lagrimas os pés do Nazareno.
Mas... quem espera ella?
O João do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amôr, se compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que ella tivera o privilegio de ser abraçada por elle na presença das companheiras que tentaram disfarçar a inveja que lhes causára, a Maria Luiza começou de ser envolvida numa mephitica atmosphera de maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a inveja começa por sua vez quando se tem o reconhecimento da inaptidão ou da inferioridade.
Se se podesse obter de um invejoso resposta á pergunta «porque invejas?» elle diria inevitavelmente «invejo porque valho menos».
Mas o invejoso não fica por aqui.
Dado o primeiro passo na senda das depravações, prosegue.
Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella purificada, sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e consecutivas virtudes, assim um espirito maligno, um coração embotado pelas acções vis, sente um infernal prazer em percorrer a escala das depravações.
Abyssus abyssum invocat.
Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas gôttas d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que até então poderia dar a vida a quem se debatesse nas ardencias da sêde, affectou-se das propriedades mortiferas da peçonha que, de mollecula em mollecula, foi affectar, com o seu terrivel contacto, o puro liquido.
Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peçonha da maledicencia as linguas{71}restantes da freguezia; e a honestidade da Maria Luiza, como a flôr branca da açucena açoutada pelo vento cortante da tempestade que não consegue prostral-a no lodaçal que ameaça conspurcar as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante d'essa maledicencia.
João comprehendeu a situação de Maria, e não hesitou em collocar ao abrigo do seu peito essa flôr que, por sua causa, tinha sido exposta ao rigôr das intempéries.
—Maria—disse-lhe a mãe depois de um muito prolongado silencio; são horas de deitar. O João não vem cá hoje decerto, o pae talvez o não deixe sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida em volta de si.
—Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...
Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!
Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como penosa deve ser a deseperança num coração que idolatramos.
João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que melhor leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a mulher sabe, por instincto, que um homem não tem a habilidade com que ella finge um sentimento que está longe de possuir.
O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em vir ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não desesperar de viver?
Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas promessas e juramentos que{72}no auge da sua paixão, elle lhe fizera, traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o peito?...
Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á sua profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em volta, viu-se só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a retirada de sua mãe.
O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.
No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas que Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.
—Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...
Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres leves pancadas na porta.
Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia, porque o coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se levantar, perguntou, entre admirada e sobresaltada:
—Quem bate a esta hora?!
Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça d'um homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que se perseguem.
E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado e o sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros sobranceiros ao Vouga.{73}
Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra. Joaquina das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia, frequentava diariamente a egreja naperfeitaobservancia dos preceitos do Divino Mestre.
Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja, tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do proximo, assoalhando tôrpemente a vida intima de cada um. Não distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau de torpeza e abjecção que encerra o procedimento de vasculhar os actos menos meritorios que outrem pratique, não alcançam ao mesmo tempo a quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o pó bemdito da caridade.
A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera soffrer que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo, e sem necessidade, ao bando dos renegados.
—Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o filho do caminho do peccado em que anda!
E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um acto dumvalôr altamente humanitario{74}e divino, como era o de conduzir uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso de que, para o conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada ao desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa do tio Alameda.
—Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o seu sorriso de bondade á beata.
—Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita importancia que lhe quero communicar.
—Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos oiça.
Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço tabaqueiro, tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a um signal do velho, cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:
—Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem, prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para nos salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram escriptas e foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até nós e continuará seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar de dar geração. Muitos acereditam nas palavras dos santos padres, a quem Deus encarregou de o representar no mundo e de fazer respeitar a sua religião. Outros não acreditam em nada d'isso, e esses são os réprobos condemnados ás penas eternas. Mas o nosso dever, o dever de todo o bom christão, é, por meio das boas obras e dos bons conselhos, chamar ao caminho do ceu esses perdidos na escuridão do peccado.
E quando nós temos obrigação de chamar ao{75}caminho do dever esses que nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra. Joaquina fez o signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao caminho da bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram seduzir pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).
O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata queria chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada, continuou, mais moderada:
—O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o caso...
—Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...
—Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas palavras, pois que, tratando-se de seu filho...
—De meu filho?!... Que fez elle?
—O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe fará perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não oppusér...
—Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!
—Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria Luiza que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?
—Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!
—Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a Deus. Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se perde. Além d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as noites lá a casa...{76}
—O meu filho?! O meu João?!
—É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida, que já anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus lençóes, porque, na vespera do Natal do Redemptor—aqui baixou a voz, fallando com calôr e vehemencia, e meneando os braços nuns gestos disparatados—espancou um rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria Luiza!
—Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça isso!
—Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o ia matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que seu filho ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher perdida.
O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da beata.
Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado da mais revoltante hypocrisia:
—Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas eternas.
O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces; e, meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as mãos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com amargura:
—Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me restam sejam manchados{77}nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!
** *
—Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelodever de conscienciaque acabava de cumprir.
—Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com as lagrimas nos olhos.
—O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.
O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio Alameda.
Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma profunda angustia que lhe opprimia a alma.
—Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.
—E o João onde está?
—Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.
Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão de contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão alegre. Depois da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e disse-lhe:
—Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de vida que me restam.
Fallava com uma tão pronunciada amargura,{78}que João, prevendo o fim que elle queria attingir, e commovido mais pelas más impressões que seu pae teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem trazido (porque não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do pae, respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:
—Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo obediente...
—Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na tua bôa fé.
—O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?
—Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu, que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos filhos, quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida, filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha velhice!
—Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no chão. Pois isso são contos do mundo, que...
—Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um grande peccado!
João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:
—Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa, por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia porque ninguem lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha sido o causador de toda aquella desgraça, o que fazia?{79}
—Soccorria-a...
—E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?
—Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?
—É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu tanto queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a verdade.
O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das suas palavras:
—Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram, e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na muito, e eu então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr a roda, dando um abraço a cada uma, como é costume. Abracei, porém, a Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer, achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos á pobre rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade, tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que conheço{80}ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto, não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!
«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a quando a via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma certa necessidade de a vêr todos os dias para a animar, e, quando fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua mãe que já não podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu, meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer os olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.
«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito desejava fazer-lhe, mas...—e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu procedimento:—eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não morrerem á fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a soccorrer aquellas infelizes com o pão de cada dia!
O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito, disse:
—Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, não devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido ha mais tempo para commigo, que me não opporia{81}a isso. Mas tambem é preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim, é preciso sempre raciocinar e vêr...
—Meu pae! A Maria Luiza é honesta!—interrompeu o filho com vehemencia. Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação de a defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a minha estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha resolução é salvál-a por completo da deshonra com que quizeram maltratal-a!
—Que dizes?! Pois tu queres...
—Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.
—Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha honra acima de tudo...
—A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se. Cumpro um dever de consciencia e do coração.
O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente, disse:
—Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?
—Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito, quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de Maria Luiza. Eu todas{82}as noites lá vou, e ella preveniu-me de que, depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de mansinho á porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz mais caso, e passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal noite—foi na vespera de Natal—fui pôr-me de novo á espreita. Passado muito tempo, um embuçado approximou-se, muito cautelloso, e bateu devagar tres pancadas. Ia já a retirar-se, talvez por me não ter visto sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar uma bastonada, que é para lá não tornar.
—Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da Maria Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos certas coisas ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas. Precipitaste-te, e agora és censurado e tido como desordeiro, e isso é muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao tempo, é um dictado muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.
E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o que a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com quem tenha outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e felizes; e a felicidade não se alcança com a riqueza.
—Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas, radiante de alegria e ao{83}mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava da sua bondade!
E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.
O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que lhe bailavam nos olhos.{84}
Era n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam no adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual, emquanto outros, já velhos, e algumas mulheres, de todas as idades, entravam religiosamente na egreja.
Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado por um sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada para a missa.
O tempo deslisava, havia já uma semana, sereno e cheio de doçura. Á quadra invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre: parecia que se tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era desmentido apenas por algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam tristes e graves como esqueletos, como querendo lembrar á natureza que não era aquella a epocha de ostentar as suas galhardias.
Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taças de crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria ficticia para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico, lembravam os sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.
O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhaço da egreja{85}espreitando o sol, levantou vôo, ás primeiras badaladas do sino, e foi adejando para os lados do campo.
Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por tres alazões, atravessava o adro, absorvendo a attenção de todos.
Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos, typo de brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir—fato claro de casimira, e calças d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar sem difficuldade com as botas calçadas; parecia alem d'isso, a avaliar pela quantidade de bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia de oiro que lhe bamboleava no collete cuja abertura lhe abrangia quasi toda a altura do peito, que era um brazileiro rico.
Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a sua imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, vê as pessoas e as coisas que julga n'uma esphera inferior á sua.
Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios áposedo pedaço d'asno—de que logo o apodaram—no qual os mais velhos reconheceram o filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha abisnaga.
—Então vocês não se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos aos quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade—d'aquelle garotêlho que a Quiteriabisnagatinha?
—Ah! sim! Dá uns ares d'elle, dá!
—Pois é este figurão que ahi vae. Andava por ahi á maçã do chão, todo esfarrapado e ranhoso. A mãe pôl-o a servir alli em casa do fallecido pae do Silveira, que era um lavrador rico, como vocês sabem. Esteve lá uns dois annos, se tanto, até que um{86}dia pede dinheiro emprestado ao patrão para ir para o Brazil, na condição de lh'o mandar quando o ganhasse. O patrão disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o ganhares, manda-m'o; e se o não ganhares, fica por intenção da minha alma.
—E ganhou-o bem, logo se vê!
—Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e mandou-lhe tambem dizer que só voltaria á terra quando estivesse tanto ou mais rico do que elle; que, do contrario, não punha cá mais os pés!
—Ora vejam o que é a sorte!
—É assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada á mãe.
—Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e já não apparece na feira dos cinco a comprar e vender creação!
—Já não tem necessidade d'isso. Até parece que anda mais nova.
—É verdade! Olha abisnaga! Se ella não tivesse tido a habilidade de arranjar aquelle filho, não tinha agora uma velhice tão mimosa.
—Meu caro... é a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco mais ou menos, pobre como Job, sem saber lêr nem escrever...
—Ora vejam!
—Quero dizer... elle aprendeu lá a lêr, mas isso foi já depois de estar bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter alguma instrucção. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois dizem que tem uma bôa fortuna.
—Meu amigo:
«Se fôres ao mar pescar,Que a fortuna te não deixe.»{87}
—Isso, isso! Ah! Ah! Ah!
«Lança as redes, vem-te embora,Quanto mais burro, mais peixe.»
E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:
—Vamos para a missa, que deve estar a começar.
** *
Nesse mesmo dia, á tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a digestão do jantar, preguiçosamente espernegado num escabello, saboreando um aromatico charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente em espiraes na atmosphera, elle contemplava com os olhos indolentemente semi-cerrados.
Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a cosinha não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar apropriado para isso.
A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos serviços domesticos d'esse dia—dia de gala em casa da tia Quiteria—ultimava as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um frango, uma posta de vitella e outra de carneiro e mais uns guisados, deram ás paredes denegridas a honra de as mimosear com um fumo mais agradavel, impregnado de aromas recendentes que espantaram metade da visinhança.
—Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura com{88}o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem cá o seu filho...
—É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos annos o não via?
—Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre de vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me não conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que eu, sempre...
—Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para alli, que lá o encontras.
O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era um antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na procura de ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que corrêra logo a dar os parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho, a quem achou muito desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que não parecia até vir de terras brazileiras.
Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:
—Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!
—Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.
—Ora então, com sua licença. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha chegado, mal parecia que não viesse visital-o, porque, sempre foi um rapaz com quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando jogavamos o pião?...
—Ah! sim! sim! interrompeu obisnagacom expressão de desdem.{89}
—Depois, pensei lá commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda, embora eu seja pobre e elle esteja rico...
—Arranjei uns patacos, é verdade. Não é muito, mas... contentar.
—Teve sorte! Teve sorte! É porque Deus lhe achou merecimentos para isso. Ah! quem o viu e quem o vê! Quando nós iamos á cata de ninhos, acolá por...
—Ah! sim! sim! Olha lá uma coisa: tu não fumas?
—Fumo...
E, puxando por umkentuk, ajuntou:
—É que eu não queria... faltar ao respeito...
—Ah! sim! Deixa lá isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do bolso do casaco.
O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois dêdos no charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso mixto de parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na bôcca.
—Espera lá, homem! É preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que saisse o fumo?
E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que tirou da boquilha de aros de oiro.
O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o metter na bôcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se chamam deespera gallegopor causa da grande demora do enxofre entrar em combustão, e, raspando-o nas calças de saragoça, com elle accendeu o charuto.
Entretanto, abisnagarecebe a visita, na cosinha, de varias visinhas que a vêm felicitar pelo alegrão que a vinda do seu Joaquim lhe veio dar.{90}
Este, abrindo a bôcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de rapaz:
—Olha lá uma coisa: a respeito depequenas, como vae isso por ahi?
E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.
—Ha por ahi uns peixões bem bons!
—Sim?
—Conheceu a tia Joanna Maneta?
—A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria... Bem sei, bem sei. Então?
—Então, tem lá uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois annos!
—E será facil de...
—Ai! Ai! Ai! Isso é só chegar-lhe!—e esfregava, um de encontro ao outro, os dêdos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi um par d'ellas que não vão assim com duas razões! Querem só que os rapazes lhes fallem em casorio. Mas vossa senhoria não precisará de muito trabalho. Isto de mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se não é uma é outra. Porque ha por ahi bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz da orelha, tem lá o tio Alameda!
—Alguma filha geitosa, hein?
—Oh! de estalo! Isso é o que ha de melhor por estas redondezas. Mas está nova!...
—Que edade tem?
—Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Além d'isso, era uma grande desfeita ao velho, que é muito respeitado, e quer-lhe como á luz dos olhos.
—Isso de desfeita é o menos. O diabo é ella ser menor.
—Pois é isso... Ah! a proposito do tio Alamêda!{91}Não sei se vossa senhoria sabe que elle, além d'essa rapariga, tem um filho ahi dos seus vinte e quatro a vinte e cinco annos?
—Não sabia, mas fico sabendo.
—E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serôdia?
—Hum! Não me reccordo, não.
—Bem, é a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serôdia, uma rapariga toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um gosto ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem; é até chamado o rei dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, não ha ninguem que se lhe compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era derrota certa. Ora essa tal filha da Serôdia, e que se chama Maria Luiza, deu em ir cantar sempre com elle; em todas as festas onde appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro! Até algumas vezes ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de proposito. Mas mais tarde é que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella, tanto que se tem feito os esforços para o retirar, porque dizem que casa com ella, e não ha meio; e é porque, segundo consta, a rapariga é mal empregada n'elle, porque se portava mal, e, além de elle ser um bello rapaz, estimado de todos, dá um desgosto ao pobre velho do pae, que não faz ideia. Ora por estas razões, é uma obra de caridade desviar o rapaz d'alli. Isto de mulheres, vossa senhoria sabe-o melhor do que eu, porque tem corrido mundo, em lhe cheirando a riqueza, illudem-se como ratos!
—Ah! Ah! Ah! Queres então dizer que, com duas arrastaduras de aza e outras tantas promessas...
—Ora nem mais! Além d'isso, não é mau petisco! E como anda toda inchada por o rapaz andar{92}assim pela beiça, sabendo toda a gente o que ella foi, era bem feito.
—Oh! diabo! Mas é preciso fazer isso com geito. Não vá o rapaz fazer alguma...
—Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do rapaz, começarei a metter-lhe em cabeça que a rapariga anda a perder a cabeça com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e, finalmente, quando vossa senhoria começar a entrar em combate, ella, com certeza, não resiste, e então eu direi ao rapaz se fôr preciso, que foi ella até que se entregou a vossa senhoria. Verá depois como elle até me agradece o cuidado que tive em lhe abrir os olhos.
—Bem. Arranja lá as coisas, e, quando fôr occasião, mostra-me a rapariga. Agora ouve lá uma outra coisa: não ha por ahi quem queira vender uma propriedade bem situada, que seja fertil, isto é, com agua em abundancia, e onde se possa fazer uma casa?
—Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da Nóra. É um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se vê o campo todo...
—Pois isso é que me convinha comprar.
—Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver resolvido...
—Paga-se-lhe bem e...
—E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.
—Pois é isso. Vamos então lá.{93}