IX.

IX.Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão.E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.{53}Eram dez horas da noite.Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo, conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros, que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliothecaCharpentier.Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos, divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epithetoeburnea. Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos. Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso, e sahe-me a{54}cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.Com geito encantador na mão eburnea: reparem que é um verso hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a estrangeirice?Tudo isto veio adrêde (eu traduzo:á-propos) para dizer que, estando eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja semprepotencias) para vencer o acanhamento, murmurei:«Sou eu...—É o snr. João?«É verdade, minha senhora.—Então que faz por aqui?! versos?«Estava a admirar a natureza, minha senhora.—E admiravel que ella está!«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!—Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se me dá licença, recolho-me...«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite... Quem ama, não tem medo ás constipações...Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:—O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos,{55}snr. João Junior. Venha cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o poetico espectaculo desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade, peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã, constipando-se hoje... Promette ir?«Sim, minha senhora...—Então, boas noites.E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da travessa, que era de pouquissima passagem.Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença gélida com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa! N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram fugir com mais presteza.O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns passos, e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:—Que quer vossê aqui?«Não quero nada...—gaguejei eu.—Pois então, mude-se.Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o homem recalcitrou:—Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle homem um amante de Vicencia?!»{56}O ciume deu-me intrepidez, quero dizer—a intrepidez de parar e esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o leitor tem noticia!A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça de estatua que um raio fulminou.Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das solidões compadecidas.Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a vida não era uma grande patacuada.O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha do instrumento.Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo expedientes muito safados.Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o jantar, e a ceia.Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual inventou: O ARTIGO DE FUNDO.{57}X.Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante como de diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra, respeito a arte antiga, admiro a boa ordem dasPastorisdeLongus, doJumentodeLucius de Patras, e outros venerandos monumentos da arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas horas, sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope, e Boileau não legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a occasião para certificar aos principiantes n'este esperançoso ramo de litteratura, que é bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter lido duas comedias de Scribe, aDama das Camelias, e—se o principiante fôr extremamente estudioso—oChatterton, oBug Jargal, afóra a immensa erudição que vem no La Place. Com estes seis volumes, uma capacidade mediocre{58}abrange todas as ramificações da sciencia humana, e póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter produzido quarenta volumes.Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez, prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero intellectual, que, se me não logra a vaidade, começo por onde muitos acabam.A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade das transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a intima alliança da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os portuguezes d'esta nossa afortunada época, tudo isso, e outras louçanias que omitto, por preguiça, provam que eu, João Junior, conheço Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto sentido, oilluminismo, que tambem não sei bem o que é. Pelo que, muito importa que o leitor saibaQuem era o homem da escada de ferro, o que elle por lá fazia áquellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do capitulo melhor se verá.Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração, desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos.Souvent l'onde irrite la flamme, disse Corneille, e D. Vicencia, aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo readquiriu as necessidades velhas, as illusões{59}de 1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que pôde, distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras, requebros, posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher disposta a amar.D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete não podia ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta o seu lenço branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e já n'essa tarde o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!... Bento de Castro.Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o meu achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da perfida, ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas contas, e não fizesse asneiras. A gravidade do mal não me deixava assentar no albardão, apesar de doze semicupios! Era-me forçoso testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu primeiro amor.Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura, sentar-me n'uma collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um enorme oculo{60}de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda porque geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre as franças de avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por onde possam respirar e gemer.Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou em minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama Homero, fez-se uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um homem! Levaria tres sôcos sem resistencia para não levar o quarto, com heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa louros e cabeças!Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e duas da manhã, o nosso homem.Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da vassoura, para que elle não denunciasse as minhas tenções reconsideradas, e, o mais subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta, preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a vanguarda, e diz com voz soturna:«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!{61}—Nada...—regouguei eu.«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não se assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.—Eu ao senhor não lhe quero nada.«Ora venha cá;—tornou elle—vamos passear e conversar. O senhor chama-se João Junior.—Seu criado.«Quiz namorar D. Vicencia.—Isso lá... é conforme...«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O senhor está muito verde... Estas mulheres não se conquistam com versos, nem se procuram no principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma das tres Graças em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho. Ora agora, façamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o campo para as suas escaramuças? Com a melhor vontade...—Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu tenho a pedir-lhe é os meus versos.«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não lh'os dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse n'isso antypathias que vencer.{62}—Muito obrigado...—mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão franco.E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.Dous annos depois, recebia elle de mim lições desavoir-vivre. O meu talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas do coração n'um intervallo de negra tristeza.A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não ama. Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o seu! Nem já flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras, encorreou-se-lhe o collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a amarellidão do tempo.E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os doze até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes quiz supplantar!De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria osalvecompassivo que eu lhe dou, depois de trinta annos.Oh vida! vida!.............................Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...Chorar no coração, e rir no espirito...{63}XI.Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste exemplar romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar com Hermenigilda o seu primeiro colloquio.Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde podesse encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente espionagem. Alguns dos meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam fazer outro tanto com o mesmo recato.Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:—É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não posso exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que vêr-vos e adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno peito nutre por vós, acaso ao vosso terá passado?ELLA.Eu passei bem, e o senhor?{64}ELLE (atordoado como se lhe despejassem de cima um balde.)Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?ELLA.O senhor tambem sabe cantar a modinha dasvivas chammas d'amor?ELLE.Nada, não sei.ELLA.Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.Althea, mimosa AltheaMe maltractas com rigor,E eu por ti ardendo sempreEm vivas chammas d'amor.Pois o senhor não sabia este soneto?EU (mentalmente.)É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!... Haverá d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra do progresso. Alguns annos mais, ePaulo de Kock, ePigault Lebrun, e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos namoros de nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de então, ricas de prendas espirituaes, saberão dizertoillette,rendez-vous,petit-point,{65}crochet,soirée,boucles,papier-satin,enveloppe, e outros ornamentos de lingua com que farão a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na razão directa. A psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão nas costas abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os escaninhos da alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, com acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma e algodão, será o luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedaço de carne e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodão e barbas de baleia que as manufacturas celestes podiam dar-nos.ELLE (despeitado).Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me tendes um affecto igual ao meu.ELLA.Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...ELLE.Pois vosso pái é que vos manda amar?ELLA.O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido muitos senhores de casa, e se elle diz que não...{66}ELLE.Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.ELLA.Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.ELLE.Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...ELLA.O que?ELLE.O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis por mim?ELLA.Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim tambem queria ser vossa esposa.ELLE.A minha carta que impressão vos fez?ELLA.Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou uma palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.ELLE (com a voz suffocada por um vomito moral).Boas noites, menina.{67}ELLA.Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando de riso, rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.«Pois tu ouviste?—disse elle.—Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de tedio, de vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás mulheres em particular!«Estás enganado—atalhou elle—gosto assim de vêr a estupidez no seu estado de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher como ella foi no tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que arrefeci na empreza? Não tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um homem que quer casar-se rico, e desligar-se das obrigações que se contrahem matrimonialmente com uma mulher que tem alma. Alli onde a vês, se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai, é a unica mulher que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e se eu lhe disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio. Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia pura e estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella tem resquicio de maldade!Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em casa d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor com um toco de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes berros. Vimol-o chegar, e o pai perguntou-lhe o que estivera ella fazendo n'aquella janella. Hermenigilda negou, e o preto foi chamado para dizer que a ouvira estar fallando com{68}um homem que costumava fazer-lhe acenos da janella fronteira.Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do Levitico, aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e perguntou-lhe quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila tartamudeou, e, receosa da segunda carga, disse que elle lhe tinha escripto para o bom fim. O pai disse que queria vêr a carta. Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da colera, deixou cahir o coto de sêbo, e ficou em trevas.Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.«O peor é que a minha carta está assignada!—disse Castro.No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava na janella desde o romper do dia.Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que elle correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu fazer á moça varias bugigangas.Fitou-me com terrivel catadura, e disse:«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou homem de lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?—Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente pulmão—disse-lhe eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de Fregim e coutos de Riba-Tamega.«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o espinhaço.—Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a filha!«Vossê está a mangar commigo?—Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas patifarias. O direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V. exc.ª tem carros{69}de razão em quanto sustentar o decoro dos lares, e mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu prosegui:—Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz fortes para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho segundo de uma illustre casa de Celorico de Basto. PorGamas, pertence ao venerando tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de João de Barros, Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real. PorCastros, descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que veio casar a Celorico, e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos quaes foi dom abbade em Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o quarto morreu em cheiro de santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o amante de sua filha não é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no auge da sua iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o intuito d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.«Eu não preciso conselhos!—bradou irado Pantaleão—Se elle quer casar com minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me ande cá a rentar pela porta.—N'esse caso—redargui eu—direi ao meu amigo o que deve fazer para captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a, conforme o estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu tive a honra de dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo, consentirá que elle entre no tronco da sua familia, como o regato no oceano.Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A seriedade conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou acolhimento digno na soez capacidade{70}do mirifico ornamento da Amarante e povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não podia apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso que descendia d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas razões para suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha outros documentos, além de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade el-rei D. Diniz, fôra amigo dos lavradores.Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora, finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha espantado da cordura com que nos travamos.Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e dei-lhe os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se achava o seu consorcio.Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que não tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva. Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás exequias de D. João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas da tarde, procurou Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir sua filha.Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau de pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma melancia.Horrivel mysterio!{71}XII.Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai. Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos—uma mulher a comer figos!—Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar, porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no quarto.Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia. O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna memoria:{72}1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á cara do preto.2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de Hermenigilda um bocado do coração da melancia.3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas vertebras lombares.5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o preto ao chão, e fugiu.Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da rua, e entrou em minha casa.Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior, que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço, vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira, tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que por ahi fica archivada a paginas....{73}«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...» disse elle.—Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te conservares na espectativa.«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com promessa de casamento.Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta, e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em quanto o pai estava fóra.Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que é ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de brincar com o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?—Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas provas mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de alguma cousa.Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me não disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era possivel educar aquelle espirito.Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo, contou-me o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que o preto{74}fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do noivo, e até desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D. Urraca Munhóz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda, e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão d'uma indigestão de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a celebre abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao boticario, attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa de umas suspeitas tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao encontro na carreira da vida.Já então se diziam estas tolices.{75}XIII.Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu nono avô, governador de Masagão, que os constitucionaes haviam envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o segredo da morte do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do cosinheiro Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que seu primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar, dos principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular amigo e{76}primo visconde de Canellas, e outra, não menos convincente, do padre Albito Buela.Bento de Castro—digamol-o sem desdouro seu—era ardente correligionario de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato do intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante do nariz. Seus tios frades, e seu irmão morgado—aliás excellentes creaturas—uns em nome da religião, outros da ordem, e todos dos seus interesses, fizeram-lhe conceber odio á liberdade, á revolução, e aos principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido oContracto socialde João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as luctas tremendas das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de sacrificios, consegui ser nomeado escrivão substituto do juiz eleito na minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? Se me não refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel publico!... O leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe não contasse outra muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldiçoar a sociedade que o não comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de legislar para a importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de ser um romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que pararam{77}as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleão, e Bento de Castro?A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão, dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador. Desde que a vida sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera das mundanidades villãs, o romance espiritualista, como este meu se preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma moralidade bastante equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar espiritos de quinze annos ao setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As heroinas e até os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos. É necessario um curso regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciação destes fachos precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal discipulo de Socrates.Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro esmerilhou mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de Basto, graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas vinha tomar chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India quando as indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija d'aguardentead hoc.Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada, posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as sympathias do preto.Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em Amarante, aprazaram-no para o mez de Março.{78}Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra aprender a lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava angelicamente dos progressos da moça; e devo confessar que, ou fosse resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba, regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da minha visinha.Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte, respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei nessa occasião sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas; mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.Veremos.{79}XIV.Em que o author, depois de averiguar profundamente asconveniencias inviolaveis, do melindre, resolve nãoleccionar o publico em mathematicas, emborao seu amigo Bento de Castro assim fiqueprivado de catalogar-se na phalangedos Newtons, Leibnitz, e Descartes;de que resulta ficar o capituloaqui esganado pela mãoda moral.{80}XV.O romance tem cousa má!É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar de principiar pelo principio, começava no 2.º volume. O author, respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso começar do 1.º volume para diante, como do ultimo para traz.Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do coração, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de gloria com as «Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os «Excerptos gnomicos de Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère» excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lêr na primeira occasião, porque me dizem que são livros de muito interesse, que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem{81}teem sempre uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já affirmar, sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquelle escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo a canella partida por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de quebrar?» D'onde infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias ás avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao fim, que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso de oleo de figados de bacalhau.João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de idêas, phantasia de côres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em fim, tão verdadeiras, tão patriarchaes, tão nuas, que o seu editor, depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que não patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais abalisados dos mysterios do coração; doze paginas salpicadas d'uma erudição exemplificativa que remontava á creação do globo, para provar que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, são dous entes homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas{82}creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, Pericles e Aspazia, Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor de Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave, que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote de mangas lhe assobia a cavatina do «Trovador». Tudo isto, e muitas cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826, acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade. Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado, allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico, todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a alma não tem nariz.Era assim o meu fragmento:E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.{83}E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a folhinha secca da alga.E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as plumas affagadas por um raio de lua.Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro assobia o noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos cardumes de bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos e satanicos.E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a espadua pela padieira da porta, que se abriu.Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a haste melindrosa.E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se quizesse disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a fronte incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta, meditando em seu coração um crime, e adoçando nos labios a tenção damnada que lhe fallava n'alma.E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.{84}Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou a fronte, e estalou pelas raizes.E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega, pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos homens de Celorico.Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos jornaes!E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas, como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella................................. etc. etc.E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer editor para as minhas obras.{85}XVI.Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma suspeita menos casta.—Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente rapariga brincava com o preto puerilmente.—Valha-te o senso commum, amigo Bento!—repliquei eu—Que terrivel significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza d'um brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo sanccionado na minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para andar entre mãos da mocidade!...«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!—Faz muito: pois já te esqueceu opueri ludunt? os meninos brincam? e posto que lá não digautriusque coloris, d'ambas as côres, infiro que ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade. Logo que se{86}dá nominativo e verbo, tanto faz que os meninos sejam...«Cala-te, importuno!—atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da alcôfa um pão e um canto de queijo Chester.—Fica na certeza de que a minha consciencia está socegada, tranquilla...—O mesmo não pódes dizer do estomago...—acudi eu, vendo o precipicio aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu amigo subia o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de Hermenigilda.Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto, desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou entrar na camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos sustos deu á primeira mulher de Jacob.Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli estava. Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado—bem sabia elle porque, melhor que eu—e Pantaleão, com semblante rubicundo e prazenteiro, disse-lhe que tinha grandes cousas a contar-lhe.O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o seguinte o que elle queria.Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e a prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que sahisse immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante, que deviam unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e chamou a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.{87}«Vamos a saber, continuou elle—aqui não ha que replicar! O primo Bento vem já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica sendo o capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá amanhar a mala, e amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?—Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.«Pois então, eu vou dar ordens.Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar, afagava as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala, escarlate como a flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra mais linda antes, se depois que o pejo lhe coloriu a tez.Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa encantadora vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella, devia dizer-lhe palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando o collo de puro jaspe, parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo voluptuoso da borboleta! (Como isto sahiu engraçado e arredondadinho! É a minha especialidade, leitores.)O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me que me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento. Prometteu-me arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel para ficarmos visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me saudades, que depois de trinta annos se conservam ainda em meu coração fistulado de desgostos, cheio de fezes agras, sujo do sarro das paixões, e coberto d'uma crusta de musgo petrificado pelo gêlo dos desenganos acerbos, sendo o mais pungente de todos a certeza, a que vim, de que o homem não é, como disse Platão, um animal implume, nem a sombra d'um sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse Moysés, nem animal racional, como dizem alguns philosophos, que se excluem,{88}vistas as muitas irracionalidades que escrevem. O homem, em quanto a mim, é um pedaço d'asno! A ultima palavra da sciencia acabo eu de proferil-a agora.Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não fosse o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava explanar, com methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades eternas de que ninguem faz caso por isso que são eternas, e tudo que é eterno não quadra ao nosso gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa ou má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre os seus irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a fórma está no involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos arminhos recamados de brilhantes.Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da posteridade.Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.{89}XVII.Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi todos caseiros e foreiros de Pantaleão.Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o primo Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de caçadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca, instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante enthusiasta.Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam «amarrem esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos soldados, que arremeçavam pedradas ignominiosas ás canellas nuas dos fugitivos.{90}Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho do Marão.Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de soffrer, não lhe arrefecêra o animo!Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro, envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de Bruto.Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da Fraga, João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e cavalleiro do habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous francezes em 1812.Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel arranjarem-lhe um salpicão frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpicões e ovos.N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um officio para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e pediu a Castro que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a revolução de caçadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza, ao bravo batalhão, ao rei absoluto, e{91}não esperou os salpicões, nem congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel a si mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram olhos quando os incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das espingardas, nas refregas a que delirantemente se arremeçava, faziam n'ella o effeito do zumbido na orelha do cerdo: silvava assobios terriveis de colera, e animava os soldados, umas vezes com um «arre p'ra diante» outras vezes chamava-lhesfilhos.«Quem é este mocetão?—perguntou ella ao marido, fitando Castro.—É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da Amarante.«É valente?—replicou ella.—Desejo mostrar valor—respondeu Castro.«Sabe jogar a espada?—Fui cadete de cavallaria.«Defenda-se lá d'um sexto!—disse a marqueza, e recocheteou com o cavallo para entrar em combate.Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o estado maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de mancebos das principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com repugnancia. A marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu desastrado amigo tinha uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo para que a marqueza, triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna d'um Voltaire{92}zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens de dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por se deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas inequivocas da satanica sympathia da mestra.Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada da fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem, subiu ao pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou uma obra prima da eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou á evidencia quanto era grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de 1820, herpes venenosas que fermentaram no sangue putrido de Gomes Freire.Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina, abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:Com dinheiro, pão, e vinhoSustenta-se o Miguelzinho,Sem dinheiro, vinho, e pãoSustenta-se a Constituição.AMegerade Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de D. João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a suaJeanne d'Arc, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos Canellas.[2]{93}O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil cruzados com que resolveu ir viajar, se odeusd'Ourique não favorecesse a causa do marquez de Chaves.Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio de forças, para repassarem as fronteiras.Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo brigadeiro Claudino.Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento estava em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um mez, por causa da convalescença da egua, e foi depois unir-se a Braga ao marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peças d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo,{94}mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o até á Ponte da Barca, onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, á baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e, entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas baionetadas, salvo seja, no costado.Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse a Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a familia para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho no portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse da Ponte da Barca até sua casa, logo que elle se restabelecesse.Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida impassibilidade, e disse:«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com esses herejes!»Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe que seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o receberia{95}em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia á de sua familia.Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para isso razões fortissimas.Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração, ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o casamento, especie de cura homœopatica.Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e continuo a merecer a confiança dos pais de familia.{96}

Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão.

E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.{53}

Eram dez horas da noite.

Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.

Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.

Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo, conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros, que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliothecaCharpentier.

Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos, divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.

Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epithetoeburnea. Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos. Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso, e sahe-me a{54}cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.

Com geito encantador na mão eburnea: reparem que é um verso hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a estrangeirice?

Tudo isto veio adrêde (eu traduzo:á-propos) para dizer que, estando eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.

Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja semprepotencias) para vencer o acanhamento, murmurei:

«Sou eu...

—É o snr. João?

«É verdade, minha senhora.

—Então que faz por aqui?! versos?

«Estava a admirar a natureza, minha senhora.

—E admiravel que ella está!

«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!

—Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se me dá licença, recolho-me...

«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite... Quem ama, não tem medo ás constipações...

Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:

—O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos,{55}snr. João Junior. Venha cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o poetico espectaculo desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade, peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã, constipando-se hoje... Promette ir?

«Sim, minha senhora...

—Então, boas noites.

E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da travessa, que era de pouquissima passagem.

Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença gélida com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa! N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram fugir com mais presteza.

O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns passos, e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!

O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:

—Que quer vossê aqui?

«Não quero nada...—gaguejei eu.

—Pois então, mude-se.

Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o homem recalcitrou:

—Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.

A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.

Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle homem um amante de Vicencia?!»{56}

O ciume deu-me intrepidez, quero dizer—a intrepidez de parar e esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o leitor tem noticia!

A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...

E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça de estatua que um raio fulminou.

Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das solidões compadecidas.

Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a vida não era uma grande patacuada.

O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.

Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha do instrumento.

Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!

A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo expedientes muito safados.

Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o jantar, e a ceia.

Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual inventou: O ARTIGO DE FUNDO.{57}

Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante como de diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra, respeito a arte antiga, admiro a boa ordem dasPastorisdeLongus, doJumentodeLucius de Patras, e outros venerandos monumentos da arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas horas, sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope, e Boileau não legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a occasião para certificar aos principiantes n'este esperançoso ramo de litteratura, que é bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter lido duas comedias de Scribe, aDama das Camelias, e—se o principiante fôr extremamente estudioso—oChatterton, oBug Jargal, afóra a immensa erudição que vem no La Place. Com estes seis volumes, uma capacidade mediocre{58}abrange todas as ramificações da sciencia humana, e póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter produzido quarenta volumes.

Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez, prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero intellectual, que, se me não logra a vaidade, começo por onde muitos acabam.

A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade das transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a intima alliança da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os portuguezes d'esta nossa afortunada época, tudo isso, e outras louçanias que omitto, por preguiça, provam que eu, João Junior, conheço Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto sentido, oilluminismo, que tambem não sei bem o que é. Pelo que, muito importa que o leitor saiba

Quem era o homem da escada de ferro, o que elle por lá fazia áquellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do capitulo melhor se verá.

Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração, desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos.Souvent l'onde irrite la flamme, disse Corneille, e D. Vicencia, aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo readquiriu as necessidades velhas, as illusões{59}de 1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.

Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que pôde, distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.

O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras, requebros, posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher disposta a amar.

D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete não podia ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta o seu lenço branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e já n'essa tarde o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.

Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!... Bento de Castro.

Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o meu achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da perfida, ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas contas, e não fizesse asneiras. A gravidade do mal não me deixava assentar no albardão, apesar de doze semicupios! Era-me forçoso testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu primeiro amor.

Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura, sentar-me n'uma collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um enorme oculo{60}de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.

Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda porque geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre as franças de avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por onde possam respirar e gemer.

Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou em minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama Homero, fez-se uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um homem! Levaria tres sôcos sem resistencia para não levar o quarto, com heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa louros e cabeças!

Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.

Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e duas da manhã, o nosso homem.

Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da vassoura, para que elle não denunciasse as minhas tenções reconsideradas, e, o mais subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta, preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a vanguarda, e diz com voz soturna:

«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!{61}

—Nada...—regouguei eu.

«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não se assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.

O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.

—Eu ao senhor não lhe quero nada.

«Ora venha cá;—tornou elle—vamos passear e conversar. O senhor chama-se João Junior.

—Seu criado.

«Quiz namorar D. Vicencia.

—Isso lá... é conforme...

«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O senhor está muito verde... Estas mulheres não se conquistam com versos, nem se procuram no principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma das tres Graças em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho. Ora agora, façamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o campo para as suas escaramuças? Com a melhor vontade...

—Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu tenho a pedir-lhe é os meus versos.

«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não lh'os dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse n'isso antypathias que vencer.{62}

—Muito obrigado...—mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão franco.

E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.

Dous annos depois, recebia elle de mim lições desavoir-vivre. O meu talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.

Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas do coração n'um intervallo de negra tristeza.

A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não ama. Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o seu! Nem já flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras, encorreou-se-lhe o collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a amarellidão do tempo.

E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.

Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os doze até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes quiz supplantar!

De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria osalvecompassivo que eu lhe dou, depois de trinta annos.

Oh vida! vida!.............................

Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...

Chorar no coração, e rir no espirito...{63}

Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste exemplar romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar com Hermenigilda o seu primeiro colloquio.

Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde podesse encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente espionagem. Alguns dos meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam fazer outro tanto com o mesmo recato.

Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:

—É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não posso exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que vêr-vos e adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno peito nutre por vós, acaso ao vosso terá passado?

ELLA.

Eu passei bem, e o senhor?{64}

ELLE (atordoado como se lhe despejassem de cima um balde.)

Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?

ELLA.

O senhor tambem sabe cantar a modinha dasvivas chammas d'amor?

ELLE.

Nada, não sei.

ELLA.

Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.

Althea, mimosa AltheaMe maltractas com rigor,E eu por ti ardendo sempreEm vivas chammas d'amor.

Pois o senhor não sabia este soneto?

EU (mentalmente.)

É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!... Haverá d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra do progresso. Alguns annos mais, ePaulo de Kock, ePigault Lebrun, e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos namoros de nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de então, ricas de prendas espirituaes, saberão dizertoillette,rendez-vous,petit-point,{65}crochet,soirée,boucles,papier-satin,enveloppe, e outros ornamentos de lingua com que farão a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na razão directa. A psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão nas costas abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os escaninhos da alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, com acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma e algodão, será o luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedaço de carne e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodão e barbas de baleia que as manufacturas celestes podiam dar-nos.

ELLE (despeitado).

Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me tendes um affecto igual ao meu.

ELLA.

Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...

ELLE.

Pois vosso pái é que vos manda amar?

ELLA.

O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido muitos senhores de casa, e se elle diz que não...{66}

ELLE.

Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.

ELLA.

Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.

ELLE.

Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...

ELLA.

O que?

ELLE.

O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis por mim?

ELLA.

Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim tambem queria ser vossa esposa.

ELLE.

A minha carta que impressão vos fez?

ELLA.

Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou uma palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.

ELLE (com a voz suffocada por um vomito moral).

Boas noites, menina.{67}

ELLA.

Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.

Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando de riso, rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.

«Pois tu ouviste?—disse elle.

—Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de tedio, de vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás mulheres em particular!

«Estás enganado—atalhou elle—gosto assim de vêr a estupidez no seu estado de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher como ella foi no tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que arrefeci na empreza? Não tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um homem que quer casar-se rico, e desligar-se das obrigações que se contrahem matrimonialmente com uma mulher que tem alma. Alli onde a vês, se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai, é a unica mulher que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e se eu lhe disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio. Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia pura e estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella tem resquicio de maldade!

Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em casa d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor com um toco de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes berros. Vimol-o chegar, e o pai perguntou-lhe o que estivera ella fazendo n'aquella janella. Hermenigilda negou, e o preto foi chamado para dizer que a ouvira estar fallando com{68}um homem que costumava fazer-lhe acenos da janella fronteira.

Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do Levitico, aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e perguntou-lhe quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila tartamudeou, e, receosa da segunda carga, disse que elle lhe tinha escripto para o bom fim. O pai disse que queria vêr a carta. Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da colera, deixou cahir o coto de sêbo, e ficou em trevas.

Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.

«O peor é que a minha carta está assignada!—disse Castro.

No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava na janella desde o romper do dia.

Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que elle correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu fazer á moça varias bugigangas.

Fitou-me com terrivel catadura, e disse:

«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou homem de lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?

—Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente pulmão—disse-lhe eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de Fregim e coutos de Riba-Tamega.

«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o espinhaço.

—Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a filha!

«Vossê está a mangar commigo?

—Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas patifarias. O direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V. exc.ª tem carros{69}de razão em quanto sustentar o decoro dos lares, e mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.

Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu prosegui:

—Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz fortes para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho segundo de uma illustre casa de Celorico de Basto. PorGamas, pertence ao venerando tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de João de Barros, Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real. PorCastros, descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que veio casar a Celorico, e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos quaes foi dom abbade em Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o quarto morreu em cheiro de santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o amante de sua filha não é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no auge da sua iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o intuito d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.

«Eu não preciso conselhos!—bradou irado Pantaleão—Se elle quer casar com minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me ande cá a rentar pela porta.

—N'esse caso—redargui eu—direi ao meu amigo o que deve fazer para captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a, conforme o estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu tive a honra de dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo, consentirá que elle entre no tronco da sua familia, como o regato no oceano.

Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A seriedade conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou acolhimento digno na soez capacidade{70}do mirifico ornamento da Amarante e povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não podia apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso que descendia d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas razões para suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha outros documentos, além de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.

Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade el-rei D. Diniz, fôra amigo dos lavradores.

Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora, finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha espantado da cordura com que nos travamos.

Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e dei-lhe os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se achava o seu consorcio.

Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que não tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva. Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás exequias de D. João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas da tarde, procurou Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir sua filha.

Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau de pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma melancia.

Horrivel mysterio!{71}

Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!

Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai. Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos—uma mulher a comer figos!—Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar, porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no quarto.

Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia. O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna memoria:{72}

1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á cara do preto.

2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de Hermenigilda um bocado do coração da melancia.

3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.

4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas vertebras lombares.

5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o preto ao chão, e fugiu.

Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da rua, e entrou em minha casa.

Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.

Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior, que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço, vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira, tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que por ahi fica archivada a paginas....{73}

«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...» disse elle.

—Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te conservares na espectativa.

«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.

Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com promessa de casamento.

Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta, e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em quanto o pai estava fóra.

Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:

«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que é ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de brincar com o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?

—Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas provas mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de alguma cousa.

Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me não disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era possivel educar aquelle espirito.

Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo, contou-me o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que o preto{74}fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do noivo, e até desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D. Urraca Munhóz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda, e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão d'uma indigestão de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a celebre abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao boticario, attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa de umas suspeitas tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao encontro na carreira da vida.

Já então se diziam estas tolices.{75}

Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu nono avô, governador de Masagão, que os constitucionaes haviam envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o segredo da morte do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do cosinheiro Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que seu primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar, dos principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular amigo e{76}primo visconde de Canellas, e outra, não menos convincente, do padre Albito Buela.

Bento de Castro—digamol-o sem desdouro seu—era ardente correligionario de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato do intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante do nariz. Seus tios frades, e seu irmão morgado—aliás excellentes creaturas—uns em nome da religião, outros da ordem, e todos dos seus interesses, fizeram-lhe conceber odio á liberdade, á revolução, e aos principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.

Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido oContracto socialde João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as luctas tremendas das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de sacrificios, consegui ser nomeado escrivão substituto do juiz eleito na minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? Se me não refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel publico!... O leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe não contasse outra muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldiçoar a sociedade que o não comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de legislar para a importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de ser um romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que pararam{77}as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleão, e Bento de Castro?

A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão, dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador. Desde que a vida sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera das mundanidades villãs, o romance espiritualista, como este meu se preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma moralidade bastante equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar espiritos de quinze annos ao setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As heroinas e até os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos. É necessario um curso regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciação destes fachos precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal discipulo de Socrates.

Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro esmerilhou mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.

É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de Basto, graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas vinha tomar chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India quando as indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija d'aguardentead hoc.

Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada, posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as sympathias do preto.

Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em Amarante, aprazaram-no para o mez de Março.{78}

Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra aprender a lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava angelicamente dos progressos da moça; e devo confessar que, ou fosse resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba, regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.

Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da minha visinha.

Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte, respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei nessa occasião sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas; mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.

Veremos.{79}

Em que o author, depois de averiguar profundamente asconveniencias inviolaveis, do melindre, resolve nãoleccionar o publico em mathematicas, emborao seu amigo Bento de Castro assim fiqueprivado de catalogar-se na phalangedos Newtons, Leibnitz, e Descartes;de que resulta ficar o capituloaqui esganado pela mãoda moral.{80}

O romance tem cousa má!

É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar de principiar pelo principio, começava no 2.º volume. O author, respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso começar do 1.º volume para diante, como do ultimo para traz.

Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do coração, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de gloria com as «Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os «Excerptos gnomicos de Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère» excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lêr na primeira occasião, porque me dizem que são livros de muito interesse, que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem{81}teem sempre uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já affirmar, sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquelle escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo a canella partida por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de quebrar?» D'onde infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias ás avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao fim, que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso de oleo de figados de bacalhau.

João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de idêas, phantasia de côres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em fim, tão verdadeiras, tão patriarchaes, tão nuas, que o seu editor, depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que não patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.

Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais abalisados dos mysterios do coração; doze paginas salpicadas d'uma erudição exemplificativa que remontava á creação do globo, para provar que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, são dous entes homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas{82}creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, Pericles e Aspazia, Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor de Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave, que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote de mangas lhe assobia a cavatina do «Trovador». Tudo isto, e muitas cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.

Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826, acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade. Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado, allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico, todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a alma não tem nariz.

Era assim o meu fragmento:

E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.{83}

E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a folhinha secca da alga.

E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as plumas affagadas por um raio de lua.

Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro assobia o noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos cardumes de bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos e satanicos.

E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a espadua pela padieira da porta, que se abriu.

Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a haste melindrosa.

E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se quizesse disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.

E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a fronte incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!

Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?

Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?

E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.

E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta, meditando em seu coração um crime, e adoçando nos labios a tenção damnada que lhe fallava n'alma.

E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.{84}

Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou a fronte, e estalou pelas raizes.

E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega, pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos homens de Celorico.

Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos jornaes!

E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas, como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella................................. etc. etc.

E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.

É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer editor para as minhas obras.{85}

Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:

«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma suspeita menos casta.

—Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?

«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente rapariga brincava com o preto puerilmente.

—Valha-te o senso commum, amigo Bento!—repliquei eu—Que terrivel significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza d'um brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo sanccionado na minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para andar entre mãos da mocidade!...

«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!

—Faz muito: pois já te esqueceu opueri ludunt? os meninos brincam? e posto que lá não digautriusque coloris, d'ambas as côres, infiro que ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade. Logo que se{86}dá nominativo e verbo, tanto faz que os meninos sejam...

«Cala-te, importuno!—atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da alcôfa um pão e um canto de queijo Chester.—Fica na certeza de que a minha consciencia está socegada, tranquilla...

—O mesmo não pódes dizer do estomago...—acudi eu, vendo o precipicio aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu amigo subia o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de Hermenigilda.

Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto, desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou entrar na camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos sustos deu á primeira mulher de Jacob.

Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli estava. Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado—bem sabia elle porque, melhor que eu—e Pantaleão, com semblante rubicundo e prazenteiro, disse-lhe que tinha grandes cousas a contar-lhe.

O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o seguinte o que elle queria.

Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e a prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que sahisse immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante, que deviam unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.

Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e chamou a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.{87}

«Vamos a saber, continuou elle—aqui não ha que replicar! O primo Bento vem já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica sendo o capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá amanhar a mala, e amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?

—Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.

«Pois então, eu vou dar ordens.

Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar, afagava as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala, escarlate como a flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra mais linda antes, se depois que o pejo lhe coloriu a tez.

Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa encantadora vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella, devia dizer-lhe palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando o collo de puro jaspe, parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo voluptuoso da borboleta! (Como isto sahiu engraçado e arredondadinho! É a minha especialidade, leitores.)

O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me que me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento. Prometteu-me arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel para ficarmos visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me saudades, que depois de trinta annos se conservam ainda em meu coração fistulado de desgostos, cheio de fezes agras, sujo do sarro das paixões, e coberto d'uma crusta de musgo petrificado pelo gêlo dos desenganos acerbos, sendo o mais pungente de todos a certeza, a que vim, de que o homem não é, como disse Platão, um animal implume, nem a sombra d'um sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse Moysés, nem animal racional, como dizem alguns philosophos, que se excluem,{88}vistas as muitas irracionalidades que escrevem. O homem, em quanto a mim, é um pedaço d'asno! A ultima palavra da sciencia acabo eu de proferil-a agora.

Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não fosse o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava explanar, com methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades eternas de que ninguem faz caso por isso que são eternas, e tudo que é eterno não quadra ao nosso gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.

O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa ou má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre os seus irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a fórma está no involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos arminhos recamados de brilhantes.

Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da posteridade.

Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.{89}

Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi todos caseiros e foreiros de Pantaleão.

Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o primo Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de caçadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca, instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante enthusiasta.

Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam «amarrem esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos soldados, que arremeçavam pedradas ignominiosas ás canellas nuas dos fugitivos.{90}

Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho do Marão.

Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.

O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de soffrer, não lhe arrefecêra o animo!

Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro, envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de Bruto.

Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da Fraga, João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e cavalleiro do habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous francezes em 1812.

Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel arranjarem-lhe um salpicão frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpicões e ovos.

N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um officio para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e pediu a Castro que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a revolução de caçadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza, ao bravo batalhão, ao rei absoluto, e{91}não esperou os salpicões, nem congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.

O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.

A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel a si mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram olhos quando os incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das espingardas, nas refregas a que delirantemente se arremeçava, faziam n'ella o effeito do zumbido na orelha do cerdo: silvava assobios terriveis de colera, e animava os soldados, umas vezes com um «arre p'ra diante» outras vezes chamava-lhesfilhos.

«Quem é este mocetão?—perguntou ella ao marido, fitando Castro.

—É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da Amarante.

«É valente?—replicou ella.

—Desejo mostrar valor—respondeu Castro.

«Sabe jogar a espada?

—Fui cadete de cavallaria.

«Defenda-se lá d'um sexto!—disse a marqueza, e recocheteou com o cavallo para entrar em combate.

Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o estado maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de mancebos das principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com repugnancia. A marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu desastrado amigo tinha uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo para que a marqueza, triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna d'um Voltaire{92}zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens de dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por se deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas inequivocas da satanica sympathia da mestra.

Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada da fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem, subiu ao pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou uma obra prima da eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou á evidencia quanto era grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de 1820, herpes venenosas que fermentaram no sangue putrido de Gomes Freire.

Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina, abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:

Com dinheiro, pão, e vinhoSustenta-se o Miguelzinho,Sem dinheiro, vinho, e pãoSustenta-se a Constituição.

AMegerade Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de D. João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a suaJeanne d'Arc, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos Canellas.[2]{93}

O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil cruzados com que resolveu ir viajar, se odeusd'Ourique não favorecesse a causa do marquez de Chaves.

Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio de forças, para repassarem as fronteiras.

Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo brigadeiro Claudino.

Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento estava em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um mez, por causa da convalescença da egua, e foi depois unir-se a Braga ao marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peças d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo,{94}mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o até á Ponte da Barca, onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, á baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e, entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas baionetadas, salvo seja, no costado.

Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse a Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.

Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a familia para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.

Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho no portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse da Ponte da Barca até sua casa, logo que elle se restabelecesse.

Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida impassibilidade, e disse:

«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com esses herejes!»

Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe que seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o receberia{95}em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia á de sua familia.

Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para isso razões fortissimas.

Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.

Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração, ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o casamento, especie de cura homœopatica.

Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e continuo a merecer a confiança dos pais de familia.{96}


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