[2]D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça. Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta quadra:En porfias soy manchega,Y en malicia soy gitana;Mis intentos y mis planesNo se me quitan del alma.XVIII.Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para com ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios, soláus, e varias outras feições do folhetim—a moral publica, dizia eu, quer que um romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o crime, incitando o coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do mal. N'este romance, se tal nome é bem cabido n'uma biographia de personagens ainda vivas, excepto Pantaleão, não ha nada que seduza corações inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o paladar com o uso do absyntho das paixões licenciosas. Aqui é tudo posto no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, vestida com singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que tão farto e nedio trazia o{97}coração de Hermenigilda, e outras creaturas da mesma tempera.SCENAS DAFOZé um livro d'ouro. Peço licença para dar ácerca da minha obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros litteratos, desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano—que escreve sempre com a mira posta na posteridade, e crê, como deve crer, na perpetua florencia da sua reputação—excepto esse, os nossos primeiros litteratos, para se pouparem ás avaliações incompletas das suas obras, escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão portugueza e elegante a phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do idolo. Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje nos limbos da velha academia.Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu romance é a historia do coração humano. É um miudo exame das vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia. É o telescopio que alcança os astros do universo moral. É uma amalgama de historia, de philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta a opinião do leitor illustrado, e tambem a minha.Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente soêzes, e outros hypocritamente pudibundos.{98}Os primeiros dizem que o meu romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhança, nem idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns pataratas.Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras estrangeiras, e não é tão bonito como ashistorias proveitosasdo Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me pena.Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos outros com meia duzia de palavras convencionaes?Alphonse Karrnão conhece creanças; o que nós chamamos creanças chama ellemulheres pequeninas. A civilisação tem alterado muito o valor intrinseco de certas palavras antiquissimas, como,verbi gratia, pudôr, honra, amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe. Eu creio nainnocenciadas mulheres como synonimo depureza; mas desimplicidade, não. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuçados da vida é um segundo instincto com que vieram á luz as mulheres do seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris inducções que me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do author deLes Femmes.Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade—e mais se doem do pungir do espinho{99}que já se lhes não esconde em flores... Lembram-me então aquelles versos de Béranger:Prudes, qui ne criez plusLorsqu'on vous viole,Pourquoi prendre un air confusA chaque parole?Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada de ser caritativa.Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades; querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel, é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa, e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma irreligiosa philosophia.Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds melancolicamente piegas.Não verterei nas almas o nectar libidinoso doSopháde Crébillon.Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.Não direi, como Gœthe, aos infelizes que se matem; e, se fôr necessario, provarei que Werther foi um tolo, se{100}existiu; Gilbert, Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são. Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os. Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda, nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada importante. O que vem é de certo o melhor de todos.{101}[3]Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio doRepouso, com o seguinte epitaphio que não diz nada:Saudade perennal, geme, e avaliaThesouro de que é cofre a sepultura.Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte. Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite. Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho. Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia legar...XIX.Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta annos, as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As palavras que então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos, as miudezas menos reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me déra nesse tempo! É o caso:Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda da mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que tinha seis bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia, D. Mafalda a ser quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o qual casou na dita casa de Cabeça de Veado, como consta da Chorographia de Carvalho, e da Historia Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente, nas Nobliarchias ineditas de Alão de Moraes, no appellido «Maldonado».Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu primo, reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa que sabe de sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o alargamento dos tecidos,{102}accumulados n'uma região, com detrimento d'outras, é uma pseudo-gordura.Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou em averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente casar-se com um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o comêço, e o progresso das relações, excepto o que elle, ainda que quizesse, não poderia contar em estylo oriental.Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a contas, fechando-se com ella na casa dos presuntos.«Com que então—disse a velha—tu vaes casar, e não me davas parte?!—O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...«E gostas muito do teu noivo?—Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te deixares vencer pela tua paixão...—Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era um malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?—Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo, como quizerem.«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio é apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem vos visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que acontece na nossa linhagem!... Pois tu...—continuou a velha inexoravel, em quanto Hermenigilda fazia torcidas{103}nas pontas do lenço do pescoço—pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo mais antigo d'Entre Douro e Minho?—O amor quando é de raiz...—balbuciou a pobre menina, purpuriada como a fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai—exclamou com violencia D. Mafalda—te tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos appellidos que tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os ossos de teus ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos da Carraça, e de Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste similhante affronta á nossa jerarchia?D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo ficaram badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para lhe pedir que não dissesse ao pai o mal que o seuamor de raizeslhe fizera.Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou por dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa possivel, a fim de sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado em nove seculos d'uma honradez a toda a prova na sua linhagem.Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara como ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar d'um bacamarte para arcabusar a filha.D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha. Pantaleão{104}preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde cheguei cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a postura afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto. Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma cadella perdigueira que tinha a cabeça na travesseira do amo.O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um bregeiro!—Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu genro?«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.—Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!—Nas ilhargas! que quer isso dizer?!«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu amigo é mandado para o inferno.—Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...—repliquei eu, sentindo tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na compressão do riso.Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a cauda da cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas apostrophes a Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe prometter ir pessoalmente fallar-lhe a Celorico, e terminou por sentar-se, outra vez, na cama aparando com uma navalha de barba a callosidade de um enorme joanete do pé esquerdo.{105}XX.Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde muito seria marido de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebêra, e a morosa convalescença que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo que, obrigado a uma quasi solidão de quatro mezes, reflectira maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia, e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não fosse muito—disse elle—isso não importava, porque o amor-habito viria com o tempo encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e humanitario, tão acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os haveres da noiva.{106}É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer castellos no ar como em Amarante.N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião, onde eramos esperados por um extraordinario successo.Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente, berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas palavras, que eu communiquei ao meu amigo.Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada, exclamou:«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V. s.ª portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos berros, e disse com senhoril gravidade:—O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está aqui para remediar o mal que fez.«De certo, minha senhora—murmurou o meu amigo.—Pois então—acudiu Pantaleão—trate-se já do casamento.«Já?! não é possivel!—redarguiu D. Mafalda—A menina está... pois tu não sabes como ella está?!—E então que tem lá isso?!—replicou o fidalgo—Chama-se ahi o abbade ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.«Eu estou prompto a obedecer-lhe—disse Bento;—mas eu muito queria que a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se por em quanto não ha receio, por que não ha-de{107}o nosso casamento espaçar-se para um dia mais alegre?—Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...—disse D. Mafalda.Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças seguras da queda da constituição.D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um passeio no pinhal visinho.«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já a sentir o amor paternal?Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos de que posso recobrar a minha felicidade perdida.—Pois, parabens, meu caro Bento!«Ha nada mais poetico—proseguiu elle, cada vez mais commovido—que o espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres para mim?!—Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da minha particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e{108}trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoço...«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...—atalhou o meu amigo, que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha paternidade—Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se Hermenigilda não é a mulher que possa corresponder bem ás precisões da minha alma, o vacuo será preenchido com o amor de meus filhos. Se fôr menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fôr um rapaz, oh! então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai de certo perdoa ao meu amigo.Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me nas orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que fôssemos continuar as docesréveriesno nosso quarto.Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante, chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo. Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende, um cirurgião das Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D. Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes, quando annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos enfesadinhos.Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu do quarto: era D. Mafalda. Cousa{109}extraordinaria! A velha fidalga sahiu como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto é da gente se benzer!»—Que diz v. exc.ª, minha senhora?—repliquei eu—É menino ou menina?«Eu sei cá... Santo nome de Deus!—balbuciou ella.Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D. Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me disse que o nascido era rapaz, mas...«Mas o que, minha senhora, queira acabar...—Mas é preto!—disse ella, escondendo o rosto nas mãos.Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de nós ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao fundo d'alma.Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:—Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.«Pois que é?!—Já, já, é necessario sahir já d'aqui...«Por quem és, explica-te, João.—E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos apparelhar os cavallos.Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e disse-lhe:«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...—Se elle é meu filho...—murmurou elle.{110}«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!—Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma filha da caseira:«Nasceu um menino.E a caseira respondia:—Que seja para boa sorte.«E aSORTE EM PRETOé a melhor...—murmurei eu, segurando o estribo do cavallo de Bento.O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de Castro. Partimos.EPILOGO.O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha. Quem o esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar supposições de tamanha responsabilidade. O filho do preto levou-o a parteira de Canavezes, e não se sabe o fim que lhe deram. Pantaleão morreu.Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres vezes deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus é servido, pasmado do muito que tenho visto.FIM DO LIVRO PRIMEIRO.{111}LIVRO SEGUNDO.DINHEIRO.{112}{113}LIVRO SEGUNDO.DINHEIRO.I.Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos, passeava eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio doPastelleiro, nos suburbios de S. João da Foz.Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre. Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de saber quem morava alli.Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar. Ahi começa a phantasia a fazer-me travessuras!Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha cabeça fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher apparecera então{114}para não ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a visse.Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite. Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com a face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu podia pouco avistal-a.Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as feições. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar, vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma estatua de marmore na solidão silenciosa d'uma cidade assolada.Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por esses tempos!Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não via, que nunca me vira, e eu não veria jámais!Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso, florido e esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de sazonarem.{115}Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São essas as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do seio, d'onde só a mão da morte, quasi sempre prematura, póde desarreigal-as.E por isso aquella mulher doPastelleiroentrára em minha alma, vaga de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com anneis de brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em todos os dedos dos pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não eram pés; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de linhaça e oleo d'amendoas doces.Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de sabio, nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a perfida, nos braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das flôres que eu cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhões.N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga era d'aquellas que se curam homœopathicamente, e eu de certo não conheço argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que dizem que a homœopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o da materia e o do espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá ridiculisal-a, não lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma tão graves como era então a minha. As mulheres são essencialmente homœopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado se consolide. Ninguem como ellas se cura tão{116}depressa das molestias d'alma por suppuração d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da mulher não são simplesmente peças mechanicas da circulação sanguinea. Em breve tenciono dar á luz um livro de physiologia, em que prometto provar que o coração feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra que simultaneamente se abre á entrada d'outro. Com estas duas valvulas e um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia d'aquella que me trahiu.Acabem as divagações.Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude melancolica em que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da porta no interior da casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as costas voltadas para fóra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com a escuridade, a minha visão amada voltou á sua posição, na janella. Eu, espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e imaginava.Não pararam aqui as visões estupendas.D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o acaso podia deparar a um espirito de poeta de força maior.Maravilha!Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o suspirar de brisa por entre flores,{117}e o murmurar de fontinha no cristal da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que ouvi... era ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do seu exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Gœthe, a descer das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a letra e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade, continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensação, tentei distinguir as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligação.Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez mais triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro das correntes, e no manso espriguiçar da onda sobre as algas dos rochedos.Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a cabeça triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não era aquella a mulher dos meus sonhos de trinta annos.A natureza ouviu-me em silencio.Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella faz?!{118}II.No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha mania creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura, e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um soffrivelbaritono sfogato. Principiei cantando lições da semana santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar n'uma missa de cinco vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das margens do seu rio.E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella espiritual mulher.Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a mesma luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de tristeza.{119}Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de papel. A fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio, e cantei:Neste ermo, triste, e só, e abandonadaQuem desta alma o gemer escutará?Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a ver:São horas mortas; vem, ó meiga fada,E um beijo para o céo leva de cá.Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do estro. ODeus,ecce Deusdo famoso poeta, experimentei-o então. Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara, febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era a hora das expansões e eu prosegui:Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!Meu hymno, triste, como o teu dirá:Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou aberta. Decorreu uma longa hora. As{120}orlas do mar arraiavam-se da luz da aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.E a janella ainda aberta.Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás primeiras lufadas do sol que ia nascer.Ver-me-ia ella?Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia negro e indigno de mim.Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão encantador o do mar!Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar esta alma arida!{121}III.O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido, que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora das lagrimas, em presença das estrellas.Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte ella me inspirava.Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a fachada trazeira{122}da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres, uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.Respondi:—Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava, entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.«Então vocemece—tornou a velha—está a banhos?—Sim, senhora—respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava uma demora justificada.«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas, tal qual é, está ás suas ordens.—Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me attenção, que eu não lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lêr.A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas mulheres bellas encontrára.Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz{123}mais fino e transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo, apparecem para completar as formosuras que a natureza nos dá incorrectas.Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos, menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar dos olhos negros.Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que não seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares, especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher, que no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro material d'um grande espirito.A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade grosseira.Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam desafiar a imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o leitor mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença della; que fará a penna, sempre desobediente ás vagas expressões da alma! Não sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao pé de mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo, entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.{124}Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos, d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta, respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu ideal foi deste mundo, e a arte não póde restituir-m'o!O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a immortalidade morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....................Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella mulher? Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva. Vou fallar com esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem que não sou visto.«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.—Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta casa pelo S. João.«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?—Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem alugou a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a apparecer.«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.—Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.«E que diz a criada?!—Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.«E como se chama a tal senhora?—É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.{125}«E ella não toma banhos?—Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai denuncial-a:«V. m. vai áquella casa?—Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.«E quem lhe faz os recados?—Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a mim—concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva—em quanto a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.—Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta. Não vi Felismina, nem a criada.Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.{126}IV.Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se acastellaram sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela superficie do céo, formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a crispação de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se de norte a sul successivos relampagos, e o trovão bramia do nascente, menos retumbante que o mugido das vagas. As franças dos pinheiros ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as janellas. Pobre cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo, povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos, fugira espavorida ao açoute do bulcão do mar. Talvez que a timida senhora, de joelhos{127}com a aterrada Thereza, estivesse resando aMagnificate jaculatorias a Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de um monte, tão visinha dos raios, cercada de trovões, transida de pavôr... não a verei hoje!Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,—o que é peor ainda... Fui ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede, e... á luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no peitoril da janella!Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os olhos mergulhados nas trevas onde me vira.Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a minha imaginação a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na face, erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me os traços d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da chuva do furacão, e dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que fôra um engano. Ai! não era, não!«Póde abrir—disse ella—esse portal grande, e recolher-se da chuva.—Não a sinto, minha senhora—balbuciei eu.«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não pára tão cedo—tornou ella.—As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da natureza...{128}«Como?!—interrompeu ella.Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer. Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as jubas, limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a esperança de tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e scismando nas imprudentes palavras com que me denunciára.Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei suffocado entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica, aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!) e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o sobrado, e meditei de cócaras, no que devia fazer.A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada noLIVRO PRIMEIRO, a folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão romantica, ao menos desambiciosa.«Credo!—-exclamou ella—o senhor está de menores! isso é feitio! Olha que preparo!—Não fuja, tia Poncia—disse-lhe eu, meditativo e funebre como o fidalgo manchêgo, depois da aventura dos ôdres—Venha cá, tia Poncia, que eu preciso das suas consolações.«Valha-o Deus!—tornou ella—Suou tres camisas, e pranta-se no meio do soalho com ocadableao ar!—Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem, exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.«Que está ahi aalanzoaro snr. João? Se eu o percebo,{129}cebo! Ora vá-se vestir, ande-me depressa, que está o café prompto, e toca a comer p'ra arrijar.—Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre incessante.«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da cernelha, e o berzabum de não sei que diga manda rabada, e quando Deus quer é cada osso que te parto! A lenha isso então é uma ladroeira que clama justiça ao céo! Quatro gravatos que não dão para aquecer uma agua é um patacão. Má breca os tolha!—Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me cá aquellas pantalonas, e fallaremos.«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora queira Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno que lhe pôz o sal na moleira...—Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os sinos a defuntos?—Não me córte o discurso. Esta mulher vive...«Ah! sim? inda bem, inda bem!—E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem nenhum: não apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as estrellas...{130}«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?—Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos annos, e parece que está cada vez mais tonta!«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!? Diga, snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com a beiça cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que anda por cá á sua vontade arranja sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que mais, snr. João? Coma e beba e tome os seus banhos, que é ó que veio; o mais leve o diabo, Deus me perdôe, as mulheres, e quando houver de casar arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente, foi buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de azeviche, e uma conta que fôra tocada no corpo do martyr S. Cyprianno—tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha pobre Poncia, durante o almoço, proferiu um discurso, intermeado de oraçõesad rem.{131}V.Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais! Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina. Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu amor-proprio.Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis: pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia, quando tres vultos, vindos do{132}lado de Lordello, passaram defronte da casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta, e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros pareceram-me armados de paus.Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo. Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi subitamente aberta.Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura. Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce encavada n'um pau.Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella, porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram a um homem só.»A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em fralda, com um bacamarte engatilhado.{133}Vendo-me, veio direito a mim na melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou: «Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina provava que ella não carecia d'esta novidade.Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou, pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento, que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa, cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice: sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche. Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto estava impregnado{134}d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui adormecer embalado pelas minhas esperanças.No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa, parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em redor com desconfiança, e disse-me:«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado! Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu, caminhando com ella, lhe disse:—A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o que quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se fechou; em fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse.... Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheçam.—»Não esperou resposta.Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio o leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.{135}VI.O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos treguas dava á minha ancia.Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance, Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para cortejal-a; mas ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças d'aquelle sitio, até alta noite; e só depois das onze horas pude vencer a resistencia magnetica que me lá prendia.Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um vulto n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando eu estava em frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim. Muitas cousas imaginára eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me todas. Parecera-me facil e até natural perguntar-lhe a causa de me ser prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.{136}A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu caminho, e confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho, e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada. Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse. Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o coração do peito. Não podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me, causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé d'ella estivesse um amante.Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei, e ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da Luz, se os ladrões não tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella: «Se não fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos nós feitas em pedaços, sem confissão, nem sacramentos.»Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que de dia compozera o{137}meu exordio; porém, atido ao improviso do coração, iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle instante. Um talEstevão, em presença d'uma talMagdalena, não podendo vencer o susto do primeiro encontro,faz um esforço como um homem que fecha os olhos para saltar um fôsso. É bem dito isto; não se diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a certeza da minha ida.«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia dizer, depois d'uma investida tão vehemente.—Boas noites—murmurou ella com voz abafada e tremula.«V. exc.ª conhece-me?—tornei eu, querendo dar á pergunta um tom melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.—Parece-me que é a pessoa que hontem...«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...—Devo-lhe um grande favor—atalhou ella, não menos agitada que eu—e por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª me diga se eu devo pedir-lhe perdão...—De que?!{138}«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...—A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros... Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina acabava de apagar a luz, e estava já na janella.Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr sulphurea e phantasticamente prosaica.Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse, logo que eu voltei de espionar o quinteiro:—O senhor de certo me não conhece...«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse dizer como eu a conheço...—Queira dizer...«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina; como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o nas alturas do céo.»{139}Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi noRenegadode Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella me não interrompesse com vehemencia:—Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!—Felismina!(disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a caseira, não é verdade?«Sim, minha senhora.—Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...—Não me surprehende...—tornou ella vivamente commovida—Eu sei que me ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa saudade como as eu chorava então...«Que faria a esse homem?—Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho sobre o meu coração para jámais se alliviarem...«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?{140}—Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão, dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina fatal enganar-me.
[2]D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça. Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta quadra:En porfias soy manchega,Y en malicia soy gitana;Mis intentos y mis planesNo se me quitan del alma.
[2]D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça. Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta quadra:
En porfias soy manchega,Y en malicia soy gitana;Mis intentos y mis planesNo se me quitan del alma.
Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para com ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios, soláus, e varias outras feições do folhetim—a moral publica, dizia eu, quer que um romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o crime, incitando o coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do mal. N'este romance, se tal nome é bem cabido n'uma biographia de personagens ainda vivas, excepto Pantaleão, não ha nada que seduza corações inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o paladar com o uso do absyntho das paixões licenciosas. Aqui é tudo posto no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, vestida com singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que tão farto e nedio trazia o{97}coração de Hermenigilda, e outras creaturas da mesma tempera.
SCENAS DAFOZé um livro d'ouro. Peço licença para dar ácerca da minha obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros litteratos, desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano—que escreve sempre com a mira posta na posteridade, e crê, como deve crer, na perpetua florencia da sua reputação—excepto esse, os nossos primeiros litteratos, para se pouparem ás avaliações incompletas das suas obras, escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão portugueza e elegante a phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do idolo. Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje nos limbos da velha academia.
Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu romance é a historia do coração humano. É um miudo exame das vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia. É o telescopio que alcança os astros do universo moral. É uma amalgama de historia, de philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta a opinião do leitor illustrado, e tambem a minha.
Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente soêzes, e outros hypocritamente pudibundos.{98}Os primeiros dizem que o meu romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhança, nem idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns pataratas.
Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras estrangeiras, e não é tão bonito como ashistorias proveitosasdo Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me pena.
Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!
Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos outros com meia duzia de palavras convencionaes?Alphonse Karrnão conhece creanças; o que nós chamamos creanças chama ellemulheres pequeninas. A civilisação tem alterado muito o valor intrinseco de certas palavras antiquissimas, como,verbi gratia, pudôr, honra, amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe. Eu creio nainnocenciadas mulheres como synonimo depureza; mas desimplicidade, não. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuçados da vida é um segundo instincto com que vieram á luz as mulheres do seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris inducções que me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do author deLes Femmes.
Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade—e mais se doem do pungir do espinho{99}que já se lhes não esconde em flores... Lembram-me então aquelles versos de Béranger:
Prudes, qui ne criez plusLorsqu'on vous viole,Pourquoi prendre un air confusA chaque parole?
Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada de ser caritativa.
Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades; querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel, é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.
O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa, e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma irreligiosa philosophia.
Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds melancolicamente piegas.
Não verterei nas almas o nectar libidinoso doSopháde Crébillon.
Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.
Não direi, como Gœthe, aos infelizes que se matem; e, se fôr necessario, provarei que Werther foi um tolo, se{100}existiu; Gilbert, Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.
O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são. Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os. Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda, nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.
O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada importante. O que vem é de certo o melhor de todos.{101}
[3]Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio doRepouso, com o seguinte epitaphio que não diz nada:Saudade perennal, geme, e avaliaThesouro de que é cofre a sepultura.Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte. Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite. Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho. Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia legar...
[3]Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio doRepouso, com o seguinte epitaphio que não diz nada:
Saudade perennal, geme, e avaliaThesouro de que é cofre a sepultura.
Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte. Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite. Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho. Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia legar...
Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta annos, as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As palavras que então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos, as miudezas menos reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me déra nesse tempo! É o caso:
Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda da mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que tinha seis bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia, D. Mafalda a ser quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o qual casou na dita casa de Cabeça de Veado, como consta da Chorographia de Carvalho, e da Historia Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente, nas Nobliarchias ineditas de Alão de Moraes, no appellido «Maldonado».
Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu primo, reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa que sabe de sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o alargamento dos tecidos,{102}accumulados n'uma região, com detrimento d'outras, é uma pseudo-gordura.
Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou em averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente casar-se com um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o comêço, e o progresso das relações, excepto o que elle, ainda que quizesse, não poderia contar em estylo oriental.
Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a contas, fechando-se com ella na casa dos presuntos.
«Com que então—disse a velha—tu vaes casar, e não me davas parte?!
—O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...
«E gostas muito do teu noivo?
—Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.
«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te deixares vencer pela tua paixão...
—Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?
«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era um malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?
—Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo, como quizerem.
«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio é apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem vos visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que acontece na nossa linhagem!... Pois tu...—continuou a velha inexoravel, em quanto Hermenigilda fazia torcidas{103}nas pontas do lenço do pescoço—pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo mais antigo d'Entre Douro e Minho?
—O amor quando é de raiz...—balbuciou a pobre menina, purpuriada como a fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.
«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai—exclamou com violencia D. Mafalda—te tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos appellidos que tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os ossos de teus ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos da Carraça, e de Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste similhante affronta á nossa jerarchia?
D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo ficaram badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para lhe pedir que não dissesse ao pai o mal que o seuamor de raizeslhe fizera.
Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou por dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa possivel, a fim de sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado em nove seculos d'uma honradez a toda a prova na sua linhagem.
Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara como ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar d'um bacamarte para arcabusar a filha.
D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha. Pantaleão{104}preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde cheguei cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.
Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a postura afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto. Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma cadella perdigueira que tinha a cabeça na travesseira do amo.
O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:
«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um bregeiro!
—Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu genro?
«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.
—Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.
«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!
—Nas ilhargas! que quer isso dizer?!
«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu amigo é mandado para o inferno.
—Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...—repliquei eu, sentindo tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na compressão do riso.
Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a cauda da cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas apostrophes a Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe prometter ir pessoalmente fallar-lhe a Celorico, e terminou por sentar-se, outra vez, na cama aparando com uma navalha de barba a callosidade de um enorme joanete do pé esquerdo.{105}
Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde muito seria marido de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebêra, e a morosa convalescença que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo que, obrigado a uma quasi solidão de quatro mezes, reflectira maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia, e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não fosse muito—disse elle—isso não importava, porque o amor-habito viria com o tempo encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e humanitario, tão acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os haveres da noiva.{106}É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer castellos no ar como em Amarante.
N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião, onde eramos esperados por um extraordinario successo.
Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente, berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas palavras, que eu communiquei ao meu amigo.
Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada, exclamou:
«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V. s.ª portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»
D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos berros, e disse com senhoril gravidade:
—O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está aqui para remediar o mal que fez.
«De certo, minha senhora—murmurou o meu amigo.
—Pois então—acudiu Pantaleão—trate-se já do casamento.
«Já?! não é possivel!—redarguiu D. Mafalda—A menina está... pois tu não sabes como ella está?!
—E então que tem lá isso?!—replicou o fidalgo—Chama-se ahi o abbade ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.
«Eu estou prompto a obedecer-lhe—disse Bento;—mas eu muito queria que a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se por em quanto não ha receio, por que não ha-de{107}o nosso casamento espaçar-se para um dia mais alegre?
—Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...—disse D. Mafalda.
Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças seguras da queda da constituição.
D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.
Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um passeio no pinhal visinho.
«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já a sentir o amor paternal?
Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos de que posso recobrar a minha felicidade perdida.
—Pois, parabens, meu caro Bento!
«Ha nada mais poetico—proseguiu elle, cada vez mais commovido—que o espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres para mim?!
—Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da minha particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e{108}trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoço...
«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...—atalhou o meu amigo, que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha paternidade—Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se Hermenigilda não é a mulher que possa corresponder bem ás precisões da minha alma, o vacuo será preenchido com o amor de meus filhos. Se fôr menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fôr um rapaz, oh! então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!
A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai de certo perdoa ao meu amigo.
Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me nas orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que fôssemos continuar as docesréveriesno nosso quarto.
Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante, chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo. Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende, um cirurgião das Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D. Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.
Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes, quando annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos enfesadinhos.
Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu do quarto: era D. Mafalda. Cousa{109}extraordinaria! A velha fidalga sahiu como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto é da gente se benzer!»
—Que diz v. exc.ª, minha senhora?—repliquei eu—É menino ou menina?
«Eu sei cá... Santo nome de Deus!—balbuciou ella.
Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D. Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me disse que o nascido era rapaz, mas...
«Mas o que, minha senhora, queira acabar...
—Mas é preto!—disse ella, escondendo o rosto nas mãos.
Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de nós ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao fundo d'alma.
Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:
—Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.
«Pois que é?!
—Já, já, é necessario sahir já d'aqui...
«Por quem és, explica-te, João.
—E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos apparelhar os cavallos.
Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e disse-lhe:
«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...
—Se elle é meu filho...—murmurou elle.{110}
«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!
—Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!
N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma filha da caseira:
«Nasceu um menino.
E a caseira respondia:
—Que seja para boa sorte.
«E aSORTE EM PRETOé a melhor...—murmurei eu, segurando o estribo do cavallo de Bento.
O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de Castro. Partimos.
O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha. Quem o esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar supposições de tamanha responsabilidade. O filho do preto levou-o a parteira de Canavezes, e não se sabe o fim que lhe deram. Pantaleão morreu.
Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres vezes deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus é servido, pasmado do muito que tenho visto.
FIM DO LIVRO PRIMEIRO.{111}
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Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos, passeava eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio doPastelleiro, nos suburbios de S. João da Foz.
Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre. Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de saber quem morava alli.
Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar. Ahi começa a phantasia a fazer-me travessuras!
Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha cabeça fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher apparecera então{114}para não ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a visse.
Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.
«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite. Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.
A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com a face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu podia pouco avistal-a.
Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as feições. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar, vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma estatua de marmore na solidão silenciosa d'uma cidade assolada.
Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por esses tempos!
Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não via, que nunca me vira, e eu não veria jámais!
Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso, florido e esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de sazonarem.{115}
Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São essas as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do seio, d'onde só a mão da morte, quasi sempre prematura, póde desarreigal-as.
E por isso aquella mulher doPastelleiroentrára em minha alma, vaga de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com anneis de brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em todos os dedos dos pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não eram pés; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!
Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de linhaça e oleo d'amendoas doces.
Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de sabio, nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a perfida, nos braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das flôres que eu cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhões.
N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga era d'aquellas que se curam homœopathicamente, e eu de certo não conheço argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que dizem que a homœopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o da materia e o do espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá ridiculisal-a, não lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma tão graves como era então a minha. As mulheres são essencialmente homœopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado se consolide. Ninguem como ellas se cura tão{116}depressa das molestias d'alma por suppuração d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da mulher não são simplesmente peças mechanicas da circulação sanguinea. Em breve tenciono dar á luz um livro de physiologia, em que prometto provar que o coração feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra que simultaneamente se abre á entrada d'outro. Com estas duas valvulas e um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia d'aquella que me trahiu.
Acabem as divagações.
Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude melancolica em que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da porta no interior da casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as costas voltadas para fóra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com a escuridade, a minha visão amada voltou á sua posição, na janella. Eu, espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e imaginava.
Não pararam aqui as visões estupendas.
D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o acaso podia deparar a um espirito de poeta de força maior.
Maravilha!
Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o suspirar de brisa por entre flores,{117}e o murmurar de fontinha no cristal da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que ouvi... era ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do seu exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Gœthe, a descer das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.
Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a letra e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade, continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensação, tentei distinguir as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligação.
Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez mais triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro das correntes, e no manso espriguiçar da onda sobre as algas dos rochedos.
Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a cabeça triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não era aquella a mulher dos meus sonhos de trinta annos.
A natureza ouviu-me em silencio.
Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella faz?!{118}
No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha mania creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura, e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um soffrivelbaritono sfogato. Principiei cantando lições da semana santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar n'uma missa de cinco vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.
Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das margens do seu rio.
E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella espiritual mulher.
Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a mesma luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de tristeza.{119}
Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de papel. A fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:
Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio, e cantei:
Neste ermo, triste, e só, e abandonadaQuem desta alma o gemer escutará?Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a ver:
São horas mortas; vem, ó meiga fada,E um beijo para o céo leva de cá.Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do estro. ODeus,ecce Deusdo famoso poeta, experimentei-o então. Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara, febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era a hora das expansões e eu prosegui:
Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!Meu hymno, triste, como o teu dirá:Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.
Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou aberta. Decorreu uma longa hora. As{120}orlas do mar arraiavam-se da luz da aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.
E a janella ainda aberta.
Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás primeiras lufadas do sol que ia nascer.
Ver-me-ia ella?
Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia negro e indigno de mim.
Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão encantador o do mar!
Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!
Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar esta alma arida!{121}
O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido, que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora das lagrimas, em presença das estrellas.
Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.
A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte ella me inspirava.
Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a fachada trazeira{122}da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres, uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.
Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.
Respondi:
—Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava, entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.
«Então vocemece—tornou a velha—está a banhos?
—Sim, senhora—respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava uma demora justificada.
«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas, tal qual é, está ás suas ordens.—Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me attenção, que eu não lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lêr.
A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas mulheres bellas encontrára.
Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.
Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz{123}mais fino e transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo, apparecem para completar as formosuras que a natureza nos dá incorrectas.
Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos, menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar dos olhos negros.
Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que não seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.
Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares, especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.
Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher, que no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro material d'um grande espirito.
A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade grosseira.
Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam desafiar a imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.
Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o leitor mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença della; que fará a penna, sempre desobediente ás vagas expressões da alma! Não sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao pé de mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo, entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:
Dai esmola d'amor á desgraçada,Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.{124}
Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos, d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta, respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu ideal foi deste mundo, e a arte não póde restituir-m'o!
O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a immortalidade morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....................
Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella mulher? Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva. Vou fallar com esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem que não sou visto.
«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.
—Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta casa pelo S. João.
«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?
—Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem alugou a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a apparecer.
«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.
—Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.
«E que diz a criada?!
—Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.
«E como se chama a tal senhora?
—É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.{125}
«E ella não toma banhos?
—Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.
«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.
A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai denuncial-a:
«V. m. vai áquella casa?
—Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.
«E quem lhe faz os recados?
—Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a mim—concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva—em quanto a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.—Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta. Não vi Felismina, nem a criada.
Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.{126}
Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se acastellaram sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela superficie do céo, formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a crispação de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se de norte a sul successivos relampagos, e o trovão bramia do nascente, menos retumbante que o mugido das vagas. As franças dos pinheiros ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.
E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as janellas. Pobre cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo, povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos, fugira espavorida ao açoute do bulcão do mar. Talvez que a timida senhora, de joelhos{127}com a aterrada Thereza, estivesse resando aMagnificate jaculatorias a Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de um monte, tão visinha dos raios, cercada de trovões, transida de pavôr... não a verei hoje!
Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.
Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,—o que é peor ainda... Fui ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede, e... á luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no peitoril da janella!
Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os olhos mergulhados nas trevas onde me vira.
Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a minha imaginação a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!
E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na face, erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me os traços d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da chuva do furacão, e dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que fôra um engano. Ai! não era, não!
«Póde abrir—disse ella—esse portal grande, e recolher-se da chuva.
—Não a sinto, minha senhora—balbuciei eu.
«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não pára tão cedo—tornou ella.
—As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da natureza...{128}
«Como?!—interrompeu ella.
Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer. Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.
Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as jubas, limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a esperança de tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e scismando nas imprudentes palavras com que me denunciára.
Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei suffocado entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica, aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!) e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o sobrado, e meditei de cócaras, no que devia fazer.
A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada noLIVRO PRIMEIRO, a folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão romantica, ao menos desambiciosa.
«Credo!—-exclamou ella—o senhor está de menores! isso é feitio! Olha que preparo!
—Não fuja, tia Poncia—disse-lhe eu, meditativo e funebre como o fidalgo manchêgo, depois da aventura dos ôdres—Venha cá, tia Poncia, que eu preciso das suas consolações.
«Valha-o Deus!—tornou ella—Suou tres camisas, e pranta-se no meio do soalho com ocadableao ar!
—Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem, exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.
«Que está ahi aalanzoaro snr. João? Se eu o percebo,{129}cebo! Ora vá-se vestir, ande-me depressa, que está o café prompto, e toca a comer p'ra arrijar.
—Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre incessante.
«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da cernelha, e o berzabum de não sei que diga manda rabada, e quando Deus quer é cada osso que te parto! A lenha isso então é uma ladroeira que clama justiça ao céo! Quatro gravatos que não dão para aquecer uma agua é um patacão. Má breca os tolha!
—Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me cá aquellas pantalonas, e fallaremos.
«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora queira Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno que lhe pôz o sal na moleira...
—Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.
«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os sinos a defuntos?
—Não me córte o discurso. Esta mulher vive...
«Ah! sim? inda bem, inda bem!
—E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem nenhum: não apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as estrellas...{130}
«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?
—Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos annos, e parece que está cada vez mais tonta!
«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!? Diga, snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com a beiça cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que anda por cá á sua vontade arranja sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que mais, snr. João? Coma e beba e tome os seus banhos, que é ó que veio; o mais leve o diabo, Deus me perdôe, as mulheres, e quando houver de casar arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!
Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente, foi buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de azeviche, e uma conta que fôra tocada no corpo do martyr S. Cyprianno—tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha pobre Poncia, durante o almoço, proferiu um discurso, intermeado de oraçõesad rem.{131}
Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais! Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina. Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu amor-proprio.
Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis: pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia, quando tres vultos, vindos do{132}lado de Lordello, passaram defronte da casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta, e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros pareceram-me armados de paus.
Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo. Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi subitamente aberta.
Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura. Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce encavada n'um pau.
Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella, porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.
Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:
«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram a um homem só.»
A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em fralda, com um bacamarte engatilhado.{133}Vendo-me, veio direito a mim na melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou: «Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»
O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina provava que ella não carecia d'esta novidade.
Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou, pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento, que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa, cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice: sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.
Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche. Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto estava impregnado{134}d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui adormecer embalado pelas minhas esperanças.
No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa, parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em redor com desconfiança, e disse-me:
«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»
Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado! Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu, caminhando com ella, lhe disse:
—A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?
«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o que quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se fechou; em fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse.... Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheçam.—»
Não esperou resposta.
Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio o leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.{135}
O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos treguas dava á minha ancia.
Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance, Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para cortejal-a; mas ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças d'aquelle sitio, até alta noite; e só depois das onze horas pude vencer a resistencia magnetica que me lá prendia.
Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um vulto n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando eu estava em frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim. Muitas cousas imaginára eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me todas. Parecera-me facil e até natural perguntar-lhe a causa de me ser prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.{136}
A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu caminho, e confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...
O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho, e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada. Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse. Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o coração do peito. Não podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me, causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé d'ella estivesse um amante.
Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei, e ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da Luz, se os ladrões não tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella: «Se não fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos nós feitas em pedaços, sem confissão, nem sacramentos.»
Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»
Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que de dia compozera o{137}meu exordio; porém, atido ao improviso do coração, iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.
Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle instante. Um talEstevão, em presença d'uma talMagdalena, não podendo vencer o susto do primeiro encontro,faz um esforço como um homem que fecha os olhos para saltar um fôsso. É bem dito isto; não se diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a certeza da minha ida.
«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia dizer, depois d'uma investida tão vehemente.
—Boas noites—murmurou ella com voz abafada e tremula.
«V. exc.ª conhece-me?—tornei eu, querendo dar á pergunta um tom melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.
—Parece-me que é a pessoa que hontem...
«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...
—Devo-lhe um grande favor—atalhou ella, não menos agitada que eu—e por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...
«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª me diga se eu devo pedir-lhe perdão...
—De que?!{138}
«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...
—A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros... Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...
Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina acabava de apagar a luz, e estava já na janella.
Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr sulphurea e phantasticamente prosaica.
Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse, logo que eu voltei de espionar o quinteiro:
—O senhor de certo me não conhece...
«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse dizer como eu a conheço...
—Queira dizer...
«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina; como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o nas alturas do céo.»{139}
Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi noRenegadode Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella me não interrompesse com vehemencia:
—Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...
«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!
—Felismina!(disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a caseira, não é verdade?
«Sim, minha senhora.
—Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...
«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...
—Não me surprehende...—tornou ella vivamente commovida—Eu sei que me ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa saudade como as eu chorava então...
«Que faria a esse homem?
—Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho sobre o meu coração para jámais se alliviarem...
«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?{140}
—Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão, dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina fatal enganar-me.