«Enganal-a...—interrompi eu, com exaltado resentimento.—Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não voltar aqui?«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com que a pergunta me era feita.—Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz; eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso. Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero habituar-me á sua voz.«Só por compaixão de si mesma?—atalhei eu, sinceramente commovido—Não será antes pena de mim?—De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequerirmãos?—Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo...{141}quantas vezes eu lhe peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo... Creia-me, se poder.«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D. Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe acudir.—Não póde, não póde...—interrompeu ella soluçando—O mais que póde é compadecer-se.«E não é a compaixão um lenitivo?—É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o melindre da minha infelicidade...«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?—Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.«Como?!—interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e metade de D. Quixote de la Mancha.—Como?! pois ha, para vergonha da minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma victima tão resignada!—Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja luz n'uma casa que está ao fundo do{142}quinteirão. Quem sabe se os caseiros estão comprados? Veja, veja.Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na averiguação, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem estabelecer ao menos uma hypothese ácerca da extraordinaria bulha. Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de observação, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio sobre-modo poetico para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas são.A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã. Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas e sustenidos, e as outras garatujas tão necessarias a quem imprime romances cuja linguagem é a pura e genuina do coração. Foram estas as suas palavras:—É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me deixa saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas vezes; mas não posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não me sacrifique, por quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as colloque{143}em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não sacrifique, é porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á pena d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo deve parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que muita gente quer armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais préza, nunca, em quanto eu viva fôr, proferir uma só palavra das que eu lhe confiar. Não sei que sentimento de irmã é este que V. me inspira! Nunca esperei encontrar uma amiga a quem dissesse «aprende a soffrer commigo.» Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse, sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... Ámanhã, depois da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me julga incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.—Ora aqui têem como a cousa se passou, tal e qual.Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a baixo, por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande, extraordinario, e fadado para grandes lances.Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia estremar a confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma alma forte, á opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não obstante as interrupções da minha Poncia, que vendo{144}o meu fastio ao jantar, obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o estomago.Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão. Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um tyranno, escondendo as lagrimas para não irritar a colera do seu verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás almas, e prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e o snr. João deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que é o mais acertado.Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.{145}VII.Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella ha-de fazer tregeitos de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos por nos adaptarmos ás formulas vulgares d'uma rotineira paixão das que morrem no inverno, se nascem no verão ao pé d'um pinhal, cuja poesia não resiste ás primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem fôlego que o periodo é uma especie de machina pneumatica.Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina; mas a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas imaginarias victimas—esse, que a maior parte das vezes é um pobre homem, não leia isto porque de certo não aprenderá aqui a receita com que se fascinam as mulheres.{146}Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a reputação desta senhora.D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no seio d'ella coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume continuo d'uma adoração, que não podia deixar cahir neste chão maldito um só bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror de ter tentado disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno, cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos o seu nome.Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi sempre, e ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de mim o ermo do desterro, a insulação medonha do estrangeiro em solo de barbaros—essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu cuidava agora que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que virão algum dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou de grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre os meus herdeiros.{147}Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar aviso é necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu promettido a ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então, pensava eu ir primeiro a descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella rodeada d'anjos lá, cortando a immensidão do céo, no dia do seu resgate. Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu, velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, vestida a alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu tive, e toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu, finalmente, fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar com a intenção providencial que por aqui me traz entregue aos baldões d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.Ahi vai agora o conto:Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança passára para Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha de nove annos já sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até aos dezenove annos. Sahiu para a companhia de seu pai reformado em coronel, e completou a sua educação na convivencia de algumas poucas familias exemplares.Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o instincto ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a esconder-se entre as murtas e as tilias do jardim, graças á experiencia,{148}entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos dezenove annos.Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de pessoas bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas, e conversavam sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous sexos causou-lhe uma estranheza em que as faces davam o signal, rosando-se, pintando-se da mimosa purpura que, rara, em nossos dias, reçuma em rosto de dezenove annos, por uma razão que o leitor sabe, e mais eu.O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!) era, quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava nas suas contemplações, sósinha.Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos palavras lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do moço, e tão frivolas eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle, Leocadia julgar-se-hia entre todas a mais indifferente ao timido Vasco—chamava-se elle Vasco, se bem me recordo.Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como... deixemo-nos de metaphoras—amou-a como hão-de vêr que elle o prova, depois.O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não obstante, como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o meu pobre Vasco andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé se elle entrava ou sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista dos olhos, e da outra vista do coração, de maior alcance ainda, se o coração não é myope, ou zarolho, peior mil vezes.Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até pelo cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para elles. É infallivel, nas mulheres{149}que vieram com esse aleijão a este mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta edificativa obra.Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando no segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o amor astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina que o rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de haveres não tinha nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de gastar o seu tempo mal, porque a mocidade anda a galope, e quando a gente mal se precata, deixou perder a occasião de arranjar noivo conveniente, e acha-se velha.»Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez córar Leocadia.Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão linda como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um rosto innocente.Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu liberdade ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não se consegue aos dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se reciprocamente uma edição diaria do seu amor em duas ou mais folhas de papel, e, depois da vigesima carta, escreviam o prospecto do seu futuro, com a riquesa de imaginação usual de todos os prospectos.Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas almas, ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do mesmo som o primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz, especie de bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na{150}infancia, e o despertar desse terrivel dom na adolescencia! Bellas deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos era sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem ambos n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de arvores, onde os passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus ninhos, e os seus filhinhos pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma fonte, derivando em fios de prata por sobre a relva as suas aguas, e nessa relva havia de pastar um cordeirinho branco, malhado de preto, com um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho andaria sempre atraz de Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia de ser um cão do Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua ama, lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos musicos do bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia, espriguiçando-se ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar livre, sorveriam abraçados o primeiro halito da atmosphera, perfumado de alecrim e rosmaninho, revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar burrifadores de limpida agua, regariam os canteiros, as balsas, os vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas, enxotariam a gata que se encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um passarito que ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o cordeirinho, iriam para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas italianos, o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal recompensado amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas, exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não acharam cá em baixo o nosso paraizo.»Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.{151}Em quanto ao almoço, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (cá estou ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no periodo anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por força vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que ainda estoirou de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres amantes projectavam estes grandes melhoramentos na sua vida como por cá se projectam os melhoramentos materiaes do paiz, isto é: não cuidavam da receita, nem do orçamento, nem dodeficit, nem... eu sei cá como se chamam essas cousas que por ahi dizem os que sabem lá da salvação do paiz! O que eu sei é que este par de creaturas bemaventuradas, com quanto fossem muito anteriores ás importantes applicações do magnetismo, attribuiram ao magnetismo propriedades que os modernos ainda não sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice sub-lunar. Entenderam elles, pois, que o magnetismo era uma substancia nutritiva como vacca e arroz, comoroast-beefe almondegas, como esparregado e pudim de batata! Que parece esta sandice ao leitor circumspecto, que tem o seu estomago na devida consideração, e crê que isto de poesia e poetas, de idealismo e espiritualismo, são o que realmente são:indróminas? Pois é verdade, como lhe vinha contando, amigo, senhor meu, cuidavam elles que o trivial e velhissimo facto de se amarem os separaria dessa lei commum, lei estupida por isso mesmo que é para todos, praxe, tão velha como o amor, de attender ás justas reclamações deste ser intimo que faz os grandes estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e particularmente os homens gordos: quero dizer—o estomago, viscera-rainha, orgão dos orgãos, potencia sempre discutida, sob um pseudonimo qualquer, no discurso do throno, aganipe das locaes mais chorudas do jornalismo, irmão gemeo da soberania do talento, o estomago, oito letras a cujo serviço estão as outras dezeseis, porção, em fim, do homem notavel, que mais se{152}lhe venera, por isso que a chegada de uma summidade a qualquer terra é logo celebrada por tres, quatro, cinco jantares em que uma concava terrina de sôpa e uma pyramide de boi assado substituem os presentes d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se regalavam os adventicios de longes terras.Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco não scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o coração, se o torpe raciocinio lhes argumentasseá prioricom as villãs necessidades da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria para se amarem.Não pensava, porém, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a snr.ª D. Fortunata Proença, madrasta da mesma menina, casada tambem em segundas nupcias com o militar, e mãi d'um rapaz estragado, senhor d'uma boa casa no Alem-Téjo de que sua mãi era uso-fructueira.D. Fortunata, casando com o coronel, promettêra-lhe empregar a sua authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua formatura na Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento assegurava á enteada, se não um digno esposo, ao menos uma boa casa, e, a todo o tempo, um dote que ella poderia levantar, se os maus costumes do marido fossem incorregiveis.{153}VIII.O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta, resolveu curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de Proença, que estava a completar a formatura, annuira á proposta da mãi, conhecendo apenas de vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam já em poder do coronel.Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pôde balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante surpreza, Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou dizer que já não podia dispôr do seu coração, porque amava outro homem.O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que não valia a pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina tomou o riso por carinho paternal, e lançou-se de joelhos aos pés do pai, suffocada pelas lagrimas que lhe sahiam do coração agradecido e venturoso.{154}—Então que é isso? (disse o coronel, tomando-a nos braços, e sentando-a ao pé de si) Cuidas tu, criança, que eu sou tão criança como tu? Achas que eu deixarei á tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha querida filha? Essa é boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao Vasco da Cunha, tão tôlo como tu, e que não sabe melhor do que tu o futuro que vos esperava. Olha, Leocadia, não se póde ser pobre n'esta sociedade. A nossa casa é muito pequena, bem o sabes; e Vasco é um filho segundo, sem habilitações para modo de vida algum. Estes fidalgos cuidam que ser fidalgo é uma profissão. Os filhos segundos, se lhes faltam as sopas do primogenito, não servem para nada, não tem em si recursos para subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam réos de leso-brazão se pedissem uma occupação plebêa. Meus irmãos, Leocadia, foram para o Brazil, logo que a razão lhes disse que a pequena casa onde viviam era minha. Trabalharam como se nascessem do populacho, e estão ricos, riquissimos, e serão mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o eram quando de cá sahiram. Quem saberá melhor o que te convém do que eu, minha filha? Sei em que tempo estamos, e quero deixar-te preparada para um tempo que ha-de vir, muito peior que este. Espero ainda vêr em minha vida desapparecer o rendimento da Commenda que faz a nossa casa mediana; ido esse, o resto bem sabes o que é. Se casas com esse rapaz, que não tem nada, quem vos sustentará? Eu não poderei, nem, se podesse, quereria. Para que reconheças quanto me tenho a ti sacrificado, lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a filha. A condição de casares com Francisco, acceite por ella, explica o meu casamento n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mãi, cuja memoria me não deixou jámais encarar com bons olhos outra mulher. Depois d'isto, dir-me-has se eu não devo esperar que tu espontaneamente acceites a sorte que eu te preparei. Serias má filha,{155}se recusasses; e eu seria um pai muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei; e, tão firme estava na união das nossas vontades, que sem te consultar, pedi as dispensas necessarias para o teu casamento com o meu enteado. Enganar-me-hia eu, Leocadia?A menina soluçava com os labios collados na mão do pai, cobrindo-lh'a de lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos aguados. D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu coração, o maior de todos, porque o menor era de certo a vida.—Não respondes, filha?—dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella escondia no seio do pai.«Já respondi...» balbuciou ella.—O que? que respondeste, Leocadia?«Farei o que fôr da sua vontade, meu pai...—És a minha Leocadia...—disse elle com apaixonada meiguice—Reconheço a filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com Vasco... Senta-te, menina. Diz-me cá: ha que tempos andam vossês com essa brincadeira?«Brincadeira... não era brincadeira, meu pai... Nós amamo-nos muito... ha dous mezes.—Já ha dous mezes? Está feito! mas eu não tenho dado fé... Como se entendiam vossês? fallavam ás escondidas, ou...«Nunca fallámos ás escondidas...—Então, escreviam-se, sim?«Sim, senhor.—E as vossas tenções?«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha, tu guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o approvava como digno de contar-se a um pai...{156}—Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me disseram que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era rico, e eu só devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se não fosse isto, eu seria a primeira a dizer ao pai...—Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que teu pai deseja fallar com elle.«O pai!?—Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por elle ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse mal porque minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de seguir uma carreira até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns pais assim pensam, bem o sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil, não quero esquecer-me de que sou o seu primeiro amigo pelo coração, e o seu primeiro conselheiro pelo dever. Vasco, depois de ouvir-me, ha-de transigir com as tuas circumstancias e com as d'elle. Ficará amando-nos ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais elle possa queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do coronel. O velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe cahira sobre o bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto, desentalava a dôr oppressiva do seio por um ai.Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso: «Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha.Leocadia.»Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça. Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do pai de Leocadia.{157}Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai passar-se na sala do coronel.{158}IX.Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. Não viu alguem, e parou, ao segundo passo, com as mãos juntas na aba do chapéo, e os olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mão direita estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canapé, entrou, affavelmente encarado, como Vasco o não vira nunca.«Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como dous homens velhos—disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo outro ao mancebo.—Já toma o seu cigarrito? A apostar que sim?—Não senhor, não fumo.«Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros começa a ter boa hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a mocidade, apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do cigarro, e aprende logo a resfolegar o fumo pelo nariz. É o tom, dizem elles, desde 1820 para cá. Parece-me que esta geração{159}sahida do ovo, e a outra que está no chôco, hão-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a modo de nabal espigado. Não sei se me entende: quero dizer que a seiva forte de nossos pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores e fructos, cada cousa em tempo proprio, dará fructos temporãos, bichosos, desses que passam sem termo medio do verde ao podre. Não acha?—Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu—disse modestamente o moço.«E pensa bem para a sua idade. Os vicios são de todas as épocas, mas o do cigarro é muito moderno entre nós, ha-de confessar!Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se, um d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não era de certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de Borgias, que envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas orgias dos outros...«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber—disse Gervasio Leite—o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse nome.«Minha filha Leocadia—proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro na ponta do segundo—tinha lá um segredo no coração, mas não segredo para o snr. Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes muito com os maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca pela roupa. Este ruim vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o cigarro.O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não tinha recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco, ou parecêra-lhe grosseiro{160}de mais o confronto do segredo santo da filha com o perfido da adultera.Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor, continuou:«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas razões respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é rapaz, ambos sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro cego, valha a verdade, que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que elle seja mais do que cego... em quanto a mim é surdo, por que não ouve razões, é cego por que não vê precipicios, é mudo por que só tem lingua para fallar a linguagem que não está nos diccionarios, nem póde applicar-se a estes objectos da vida real que se veem, e apalpam, e sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil cortejo da realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe ao meu genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar a vida como se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos o mesmo X, dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me esta rhetorica de tarimba.Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do meu general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel do general Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É necessario ter cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da alma, para conciliar duas idêas contrarias: ter compaixão de duas pessoas que se julgam felizes unindo-se. Ora eu me explico, e, quando não entender o meu vocabulario cá debaixo do mundo real, falle.A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella, junto ao meu soldo, difficilmente tem{161}chegado para a educação de Leocadia. Minha filha é pobre.—Oh senhor!—interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.«Diga, diga, o que ia dizer.—Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher que se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem amei uma mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me levantei uma bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que tinha umas leiras que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil reis, o maximo. Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão das mais racionaes que eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para apparecer n'um baile em Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da esterilidade de Sara. Desde esse dia, meu caro snr. Vasco, quiz-me parecer que a minha situação de solteiro era melhor que a de casado. Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um posto inferior áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces chimeras de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que me descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para viver e morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a tractei, algumas dividas que ainda estou pagando hoje.Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e eu, com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os generos e feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa criança sem mãi, filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu poderia; mas legar-lhe um patrimonio, como é preciso que uma senhora o tenha, para poder escolher um marido, não podia. Um pai, que ambiciona avaramente para{162}seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e sabe como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher aborrecida, por que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho, herdeiro de um grande casal, e além de todas as probabilidades favoraveis ao meu pensamento, estipulamos, eu e ella, a condição de que Leocadia seria mulher do meu enteado.»Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira, branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando os olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.«Então, snr. Vasco, isso que é?—disse Gervasio, tomando-lhe affectuosamente a mão—Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que faça justiça ao pai da mulher que será sempre sua amiga. É preciso que sejamos tres no sacrificio.—Qual sacrificio?—balbuciou Vasco.«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos, seja o meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe tracei, convencendo-se um e outro de que serão infelizes, desobedecendo-me.Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos. Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com intimativa:—Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.{163}X.E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da sala, e desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça para agradecer ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da sala.No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe levava as cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no barril, examinando os pregos dos sapatos, e calculando talvez os emolumentos que cobrára da sua posição importantemente diplomatica entre dous corações rendidos.Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos interiores da jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com o barril para o hombro, e não esperou resposta.Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de ser visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um canto do pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais copiosas, debaixo da pressão do lenço.{164}«Que dirá esta carta?»—perguntava elle ao seu coração—«Será o adeus de Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no pateo um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com grande tropel. Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco não o vira nunca; mas pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á campina, e bota branca de canhão alto, conheceu o enteado do coronel, em que Leocadia lhe fallára algumas vezes, porque sua madrasta lhe estava sempre elogiando o talento, e encarecendo o grande morgadio.Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado, e cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para receber nos braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao recem-chegado se encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta; porém, lembrou-se de que a pergunta provocaria outras. A este tempo descia com grande alvoroço a mãi de Francisco, com os braços abertos; e o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu o braço á mãi, que estava gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que desgraça nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas bellas esperanças não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a vontade de meu pai; mas o juramento que fiz de amar-te eternamente é superior a tudo. Sou mais tua do que de mim propria, meu querido Vasco. Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu pai; não posso; porque me lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não podemos esperar que o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que só hontem me foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra{165}o tal homem. Decide, meu amigo. Em ultimo recurso, eu fujo de casa para ti; e depois... o que Deus quizer. Não seremos tão infelizes como meu pai diz, não achas, Vasco? Diz-me que não; dá-me animo para lhe desobedecer. Não sei se te demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao gallego, que te espere com esta carta.Tua L.»Quando Leocadia (ahi vão reflexões philosophicas) me mostrou, entre outras, esta carta, pasmei, como a gente pasma, até certa idade, das maravilhas que se fazem no coração das raparigas! Aqui ha trinta annos, se me dissessem que uma donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das mestras dos collegios de então, namorada pela primeira vez, pouco ou nada lida em novellas, e menos ainda experimentada nos romances ineditos de portas a dentro, se me dissessem que essa tal, contrariada pelo pai nas suas virginaes affeições, escrevera similhante carta ao namoro, eu não acreditaria, sem vêr a carta reconhecida pelo signal publico e razo d'um tabellião de provada moralidade.Pois não parece incrivel?Hoje que não ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijões da alma—porque esta geração veio realmente estropeada e canhota do espirito—hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar sereno e puro do collegio, comparo-a eu á rôla creada na gaiola, que nunca esvoaçou, nem sabe a serventia das suas azas, está contente do espaço, e da abundancia que tem, não sente o captiveiro... e, se, por descuido, deixaes aberta a porta da gaiola, a boa da rolinha mette primeiro a cabeça ao ar livre, sacode as pennas das azas virgens, desfere um vôo rasgado, sobe, sobe, e adeus!«Era o instincto!» dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe fugira. Pelo instincto é que eu, philosopho{166}de toda a passarinhada, explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que ellas se vão do ninho para as altas regiões dos açores e dos milhafres, onde, quando o diabo quer, dão grande banquete ás aves de rapina que são tantas como os nossos peccados, por esses céos d'anil, onde os poetas imaginam colonias de amantes felizes.Isto é hoje, que só me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que Deus formou d'uma costella homogénea:—mas, ha vinte e oito annos, quando Leocadia me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar palerma, e disse-lhe:«V. exc.ª, quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extensão da loucura que fazia, entregando-se assim á descripção d'outra criança, sem casa, sem vida, sem habilitações para o trabalho?—Então o senhor não sabe o que é uma paixão!...«É que eu cuidava, minha querida irmã...Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu seriamente a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou tres pessoas ás quaes eu chamava irmãs, disse-me, sorrindo, que tinha dezesete irmãs assim. O meu amigo pertence á geração nova, em que estas fraternidades não tem provado bem, porque, ordinariamente, os parentescos complicam-se de modo que não é facil saber-se quando se é tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo está virado! No meu tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje se chamamnão-comprehendidasna terra, ou porque entre ellas e outras de eleição paternal e intervenção ecclesiastica não havia analogia de gostos, ou porque as posições sociaes não permittiam um enlace, ou, finalmente, porque era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente desalojar-se—em qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no catalogo dos parentescos honestos, e ficavam irmãos toda a{167}vida. Eu hoje conheço netos das minhas irmãs de então, e glorio-me de ser tio-avô de creanças muito gordinhas, que puxam ás avós as rêpas escassas das tranças d'ebano e ouro dos meus bons tempos...Asirmãsde hoje...—diz muito bem o meu amigo—arranjam-se ás dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade não as reputa incestuosas...Asnão-comprehendidascontam em estylo lamuriante o vasio das suas almas a confidentes denominadosirmãos, em momentos de expansiva familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra d'este mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo. Ora, acontece quasi sempre uma cousa muito racional: oirmãoapresenta-se com procuração bastante doanjo, com poderesin-solidum. Passado algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o procurador escandalosamente encartado no usu-fructo do dominio e acção d'uma propriedade, que (aqui entre nós) os anjos não quereriam, nem eu, só pela decima, os cinco por cento, e os mais impostos annexos ao merinaque.A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo, que ella me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo, talvez sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o sorriso parvo ou mau da suspeita correspondesse á melancolica saudade com que vou recordando palavras da minha pobre irmã.Atem agora o fio partido do dialogo.«É que eu cuidava, minha querida irmã—disse eu—que o amor na sua idade, e com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem humanos de mais, rasteiramente humanos...—Que quer dizer?{168}«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe alguma vez esse acto?—Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu pai, e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo, estava eu chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga. Não senti aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a acção de fugir á desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim, mortificou-me; porém, entre o remorso e a paixão, a lucta decidiu-se pelo amor.«E a idéa do seu descredito?—Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe que as suas analyses tem sido feitas sobre corações muito experimentados. Uma mulher receia o descredito só depois que sabe a maneira como elle se alcança. Eu não sabia nada, meu amigo. Se me dissessem que eu corria risco de ser coberta de infamia por fugir para Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me dissessem que Vasco era capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que me lançára cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que zombava da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente guarda tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer feliz, com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua pureza para o galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e ficar ainda na obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o senhor! As que fallam no seu descredito, se tem de rebater a instancia de sacrificios, essas são as que querem estar bem com a sociedade, conhecem-na, fazem parte d'ella, e lançaram já muitas favas pretas contra o{169}credito de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação dos diplomas de virtude, que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no manto da hypocrisia, ou mascarar o escandalo de qualquer modo.Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a interrompi. Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas, que eu tive o descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se dizia romanticismo, mas ás mulheres, que fallavam muito e bem, chamavam-lhes os alvares, pais dos que hoje vegetam,pispontadas, oupronosticas.Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria, lhe tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o livro intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das minhas leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes calamitosos tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para luctarem com a materia que as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual elemento!Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões philosophicas! Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso ser superior a este bacharellar de homem entendido na sciencia das almas dos outros, porque, lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já agora morrerei com esta sphinge cá dentro não sei aonde.Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo que as primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria; e as ultimas com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira perturbado da entrevista com o coronel.{170}De lá a sua casa lembrou-lhe o suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do coração. Convencido de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a, encontrou o remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se doudo: eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta da morte estava aberta.Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente mortal no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo succedeu o pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no as lagrimas.Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que Lucifer cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua providencia, não teria um telhado que a cobrisse, porque em casa de Vasco dominava a razão da virtude que não acceitaria uma filha familia fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que absolvesse um filho segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que elle filho segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a pobre menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais a consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai, conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como leprosa de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe disse a razão do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias vigentes da sociedade, austera para uns, tolerante para outros, draconiana para os desvalidos, venal para os poderosos.Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações contrarias.Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se{171}tudo. Isto é tão atroz que parece impossivel. É verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje a minha sepultura. Esperava morrer cêdo, mas tão depressa não queria. Vivia de esperanças, e agora é tudo negro diante de mim. Venha a morte, e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem alma, nem forças. O que me dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão certo para cada dia. Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci de braço e de animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós. Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas espera alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este beneficio. Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar sósinha sem testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu ouro, porque choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não assim. Isto é muito; e para estas agonias é que a morte sahiu das mãos de Deus. O Senhor te faça feliz, e a minha memoria te seja sempre saudosa e compassiva.«Vasco.»Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça. Escondeu a face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava a agonia do vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda e calafrios. Quiz respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue que salpicou a carta. Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na rua o aguadeiro que esperava a resposta. Desceu as escadas encostado ao corrimão, entregou a carta, quiz retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um degrau, susteve o sangue no lenço, encostou a face á cantaria, e murmurou:«Se Deus quizesse que fosse já?...»—O que?!—perguntou uma voz perto d'elle.Era a mãi, que descia para sahir.{172}—O que, meu filho?!—repetiu ella.«A morte.»A sobresaltada senhora tomou-o nos braços, soltando vozes de afflicção. Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mãi esforçando-se por occultar o sangue, entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os espreitasse veria o filho abraçado aos joelhos da mãi, exclamando:«Salvou-me!Salvou-o?! como?!Esperem.{173}XI.Saiba-se o que tão extraordinariamente fizera respirar Vasco daquelle aperto d'alma, que não podia desafogar-se, sem que a mão bemdita de mãi lhe alargasse as angustias que a comprimiam.Entraram ambos, como disse, no quarto d'ella. Vasco, antes de responder ás perguntas amoraveis de sua mãi, encostou-lhe, como criança amimada, a cabeça ao hombro, e soluçou, chorando copiosamente.«Que é isto, meu Vasco?!—instou a impaciente senhora—Bem me parecia a mim que a tua melancolia vaticinava desgraça!... Falla filho...Neste momento, Vasco levou o lenço aos labios para esconder o sangue que espirrava da tosse suffocante. A mãi, vendo o lenço tinto de sangue fresco, soltou um grito.«Este sangue é teu, meu pobre filho?! exclamou ella.—Isso que importa, minha mãi?...—disse Vasco, sentindo diminuir a violencia da sua dôr, ao passo que o rosto da mãi dava signaes de afflicção e pasmo.{174}«Que importa!?...—tornou ella, juntando as lagrimas ao sangue de seu filho, e cahindo quasi desanimada n'uma cadeira—Importa a minha morte, Vasco!...—Mas eu sou feliz, morrendo. Tenha pena de mim, se eu continuar a viver. Deus acceitará na sua presença um filho que nunca desgostou sua mãi, nem aos de fóra causou damno sabendo que o causava.«Jesus!—interrompeu a mãi arrependida da sua exaltação—estás-me matando com a serenidade das tuas palavras! E porque has-de tu morrer, meu pobre menino? Cuidas que não tem cura lançar sangue? Tem, meu filho, tem. Teu pai viveu assim trinta annos, e tuas manas, que Deus levou, se tomassem os meus conselhos, se não fossem as imprudencias dos bailes, recuperavam a saude... Choras por te vêres tão cedo ás portas da morte? Tens razão, meu querido filho; mas não te assustes; verás que o sangue cessa; vamos aos ares do campo; o que tu precisas é descanço. Não leias mais, pelo amor de Deus; não recebas o ar fresco da noite; não tornes a comer fóra d'horas, nem andes a passear no teu quarto até ser dia. Promettes isto tudo á tua afflicta mãi?—Sim, minha senhora, prometto tudo.«Com que desalento me respondes, Vasco. Esse teu sorriso é muito triste... antes quero vêr-te chorar.—E eu tambem queria chorar... tambem!...«Tu escondes-me o teu coração, Vasco. Tive agora um raio de luz... Dizes-me tudo, filho?—Tudo... tudo, minha santa amiga, ainda que m'o não pergunte.«A mim disseram-me que a filha do coronal Gervasio te trazia enganado...—Por quem é, minha mãi!—atalhou elle com as faces instantemente abrazadas—Leocadia é incapaz de me trazer enganado! Quem tal lhe disse, calumniou-a cruelmente...{175}«Pois antes assim, meu filho: mas sempre é certo que vos amaveis?—Sim... é desgraçadamente certo que nos amavamos.«Não te afflijas, Vasco... Eu hei-de dizer o que ouvi. Disseram-me que ella estava destinada para um filho da madrasta.—Destinaram-na, minha mãi... Que culpa tem a infeliz de que vendessem o seu coração? Ella não sabia que estava vendida. Cuidou que podia amar-me, e por fim...«Diz, Vasco... prohibiram-na de fallar-te?—Vai ser casada, disseram-lh'o hontem...«E ella acceita?...—Se acceita!... a morte das mãos de Deus, como eu lh'a peço. Ha-de ser entregue ao marido como um corpo sem alma, um cadaver... O coração é meu, morre commigo... Vou bem pago de tudo que soffri e hei-de soffrer... que, já agora, pouco será; mas o que tenho curtido calado, e docil á desgraça, foi muito, minha querida mãi, só Deus sabe o que foi. A minha Leocadia morre... e então verá se ella não era digna d'este amor que me mata.«Jesus! tanto fallar de morte, filho! Fallemos da vida; procuremos remedio, que o ha-de haver.—Nenhum.«Pois nenhum?! ella já está casada?!—Não está; mas o mesmo é estar casada, ou sêl-o ámanhã ou depois.«Olha, filho, lembra-me ir fallar ao coronel...—Sou pobre, minha mãi... Poderá v. exc.ª dizer ao coronel que me dá um bom patrimonio?«Não, infelizmente, não; aqui é tudo d'um só, tu bem o sabes... essa dôr cá a tenho como um espinho cravado no coração. O meu melhor filho, o anjo que nunca me deu um pesar, não tem nada, e nada póde haver do amor de sua mãi!... Que barbaras leis, justo céo! O que{176}os homens fazem! De todos os filhos que rodeam, á hora da morte, o leito de sua mãi, só um é rico, os outros... ficam á mercê do seu proprio trabalho, ou das sopas do irmão, que é sempre o mais ingrato...Vasco obstou á continuação dos soluços que embargavam estas palavras, com meiguice, tirando-lhe as mãos da face.«Isso agora a que vem! Não chore, que me faz mal. Eu não desejo a riqueza de meu irmão mais velho; queria alcançar uma mediania pelo meu trabalho, porque bem pouco me bastava a mim, e a ella, e a minha mãi, se Deus nos ajuntasse todos... Agora, nada desejo, porque sou de mais n'este mundo; houve uma força superior que destruiu a minha felicidade; não acharei outra... que faço eu agora aqui?!...—Espera, filho... se eu dissesse ao coronel...«O que, minha mãi?!—Que sua filha viria para nossa casa como tua esposa...«Está a querer tirar á força do seu coração esperanças para me dar... não estando ellas lá, minha mãi! É irremediavel... Não nos deixemos enganar, porque a realidade negra está perto de nós. É tarde para pensar nos meios de mudar a vontade do pai de Leocadia. O homem rico a quem a deram, já está com ella. Chegou hoje, e ella ainda hontem soube que não era senhora da sua alma. O coronel chamou-me, e disse-me: «faça que minha filha me obedeça; ajude-me a encaminhal-a ao destino que lhe dei; lembre-se que eu me sacrifiquei a uma mulher aborrecida, para assegurar a minha filha um futuro, casando-a com o meu enteado.»«E tu, filho...—Recebi o raio na cabeça, e sahi com o receio de cahir morto aos pés do homem que confiava a sorte de sua filha á minha generosidade. Isto parece-me um sonho...{177}Quando eu me convencer completamente que perdi a minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!A mãi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mão direita, contemplava seu filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e como em spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com impeto ao pé de Vasco, aperta-lhe a mão com força, e diz:«Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o coração das outras: Leocadia não é digna d'esse amor; Leocadia não te ama.Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma palavra dura, levou a mão á fronte que revia um suor subito, e disse com pausa e brandura:—Minha mãi, peça perdão a Deus de ter injuriado uma martyr.E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A solemnidade triste com que elle se queixára da injusta opinião, feriu o seio da mãi.«Pois sim, meu filho, eu peço perdão a Deus de ter calumniado a tua amiga; e pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se não posso valer-vos a ambos, meus queridos filhos.Vasco, arrebatado pela compunção d'estas ultimas palavras, beijou com fervor a mão da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou na face.«Nosso Senhor, e a Virgem Santissima—dizia ella, quasi ao ouvido de Vasco, como quem acarinha uma criança—hão-de dar-te uma esposa que seja o retrato das virtudes de Leocadia, meu filho. São poucos n'este mundo os corações bons; mas a Providencia faz que esses corações se encontrem. Ha-de vir um procurar-te, Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos prevenido tudo, para que tu possas ter uma esposa sem dote. Eu começo desde hoje a pedir para ti um emprego digno do teu nascimento. Empenharei{178}todas as minhas relações, todos os nossos parentes, com a regente, para tu seres bem collocado, sim, meu filho?—Não, minha senhora, não. V. exc.ª disse-me que iriamos para o campo; vamos quanto antes; parece-me que hei-de acabar lá mais tranquillamente. Veja quanto eu estou sendo infeliz! A unica esperança que me afaga, é a idéa de morrer n'um leito d'onde veja arvores, e céo, e flores. O tempo agora está bello para acabar assim...«Oh filho, que me estás despedaçando o coração...—Pois não fallemos em morrer... Olhe, mãi, diz-me uma cousa?«Que é, Vasco?—Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez ella que désse causa á injusta suspeita de minha mãi?«Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a noticia d'ir ser casada com um homem que não amava. O que tu estás soffrendo, é o que ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia que o pai lhe fez. A paixão costuma mostrar-se d'outro modo, delira, é capaz de mil desatinos, em quanto dura a surpreza que Leocadia devia de receber. E que fez ella, meu filho? Que te disse ella, depois que o pai lhe disse: «não pódes ser esposa de Vasco, porque Vasco é pobre; sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem consultar a tua vontade.» Que fez ella?—O que fez ella?—respondeu Vasco, desafogando sob o peso das accusações, que a mãi queria alliviar com a entonação branda da voz—O que fez ella?... Minha mãi... o que faria a senhora nas circumstancias de Leocadia?«Se amasse com a paixão ardente com que amei teu pai... das duas uma: morreria fulminada logo alli, ou...—Diga, diga, minha mãi, que eu preciso avaliar pelo seu coração o amor de Leocadia.{179}«Direi, Vasco, direi o que mãi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria, não morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer á tyrannia, fugir á violencia d'uma desgraça perpetua, seguir o destino prospero ou desgraçado do homem que me merecesse o sacrificio da minha reputação, da minha vida, de tudo!»A mãi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o coração, rejuvenescido das forças que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera alguns minutos, apressando o giro do sangue que lá estivera estanque por falta d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animação d'aquelle rosto, onde nunca vira o viço da adolescencia, porque, desde menino, vira n'elle sempre lagrimas.«Porque a mulher que ama—continuou ella, erguendo intencionalmente os olhos para o retracto de seu marido—porque a mulher que ama como eu amei teu pai, Vasco, faz o que fez tua mãi. Foge do convento onde a aferrolharam, e vai sósinha através cincoenta leguas procurar um militar que nesse tempo apenas cingia uma banda de alferes, e não tinha mais recursos para si e para mim que o seu soldo. Eu era filha unica, devia ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri necessidades durante dez annos. E sabes tu como eu acceitava das mãos de Deus a minha sorte? Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela França, pela Russia, com teu irmão mais velho deitado n'um berço de vêrga. Quando a força da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei, filho, que não senti melhorar a minha felicidade intima. Não era o dinheiro que a fazia, não; maior contentamento tinha quando via as feridas de teu pai remuneradas de patente em patente, até ser eu que, por minhas proprias mãos, lhe puz as dragonas de general, tendo elle apenas trinta e nove annos. Alli o tens a ouvir-nos, meu filho. Parece que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de lagrimas{180}de felicidade com que elle tantas vezes me contemplava. Repara filho...Trémula da commoção, que devia terminar pelo chorar angustioso da saudade, a arrebatada senhora conduziu seu filho pela mão ao pé do retracto.Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o retracto, com o braço erguido e convulsivo, dizia:«Aquelle homem deve estar na presença de Deus. Foi para todo o mundo o que foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino, Vasco. Entrega a tua sorte á sua protecção; pede-lhe, commigo, que implore ao Senhor o descanço do teu espirito, e o esquecimento da mulher que não é para ti o que tua mãi foi para elle.—Não posso fazer similhante supplica...—interrompeu Vasco.«Não podes, filho? por que não podes?—Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia é para mim o que minha mãi foi para o homem que a fez desobedecer á vontade de seu pai.E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mãi.Subiu de novo á face da viuva o ardor que as lagrimas começavam a desmaiar. Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar supplicante no retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu silenciosa em oração, talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com energia:«Pois diz-lhe que venha... Vai buscar tua esposa para o quarto de tua mãi, vai, meu filho. É tua mãi que t'o diz.Vasco, todo tremulo, só immovel nos olhos, estendia os braços para ella como se precisasse abraçal-a, para convencer-se de que não era phantastica a visão de sua mãi.Neste momento, batem á porta do quarto; a mãi de{181}Vasco recusa abrir, e dizem-lhe que está alli uma carta que deve ser immediatamente entregue ao menino.É ella que recebe a carta, e a entrega ao filho: Vasco reconhece o sinete, e diz a sua mãi que a leia.Continha isto:«Matas-me, Vasco. Se me não tiras d'aqui esta noite, amanhã suicido-me. És a causa da minha morte. Pelas chagas de Christo, diz-me que me salvas deste inferno. Responde-me já, já.Leocadia.»«Eu vou responder, meu filho—disse a viuva, correndo á escrivaninha. Vasco estava arquejante com a fronte reclinada sobre o travesseiro de sua mãi.Ella voltou, e leu o seguinte bilhete:«Minha filha. Hoje ás 11 horas da noite está uma sege defronte do convento de Sant'Anna, a cincoenta passos da sua porta. Nessa sege espera-a a mãi de Vasco, e sua mãi extremosaMaria Maldonado.»Foi então que Vasco se lançou aos pés de sua mãi, exclamando:«Salvou-me!{182}
«Enganal-a...—interrompi eu, com exaltado resentimento.
—Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não voltar aqui?
«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com que a pergunta me era feita.
—Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz; eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso. Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero habituar-me á sua voz.
«Só por compaixão de si mesma?—atalhei eu, sinceramente commovido—Não será antes pena de mim?
—De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.
«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequerirmãos?
—Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo...{141}quantas vezes eu lhe peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo... Creia-me, se poder.
«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D. Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe acudir.
—Não póde, não póde...—interrompeu ella soluçando—O mais que póde é compadecer-se.
«E não é a compaixão um lenitivo?
—É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o melindre da minha infelicidade...
«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?
—Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.
«Como?!—interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e metade de D. Quixote de la Mancha.—Como?! pois ha, para vergonha da minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma victima tão resignada!
—Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja luz n'uma casa que está ao fundo do{142}quinteirão. Quem sabe se os caseiros estão comprados? Veja, veja.
Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na averiguação, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem estabelecer ao menos uma hypothese ácerca da extraordinaria bulha. Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de observação, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio sobre-modo poetico para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas são.
A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã. Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas e sustenidos, e as outras garatujas tão necessarias a quem imprime romances cuja linguagem é a pura e genuina do coração. Foram estas as suas palavras:
—É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me deixa saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas vezes; mas não posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não me sacrifique, por quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as colloque{143}em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não sacrifique, é porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á pena d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo deve parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que muita gente quer armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais préza, nunca, em quanto eu viva fôr, proferir uma só palavra das que eu lhe confiar. Não sei que sentimento de irmã é este que V. me inspira! Nunca esperei encontrar uma amiga a quem dissesse «aprende a soffrer commigo.» Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse, sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... Ámanhã, depois da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me julga incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.—Ora aqui têem como a cousa se passou, tal e qual.
Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a baixo, por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande, extraordinario, e fadado para grandes lances.
Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia estremar a confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma alma forte, á opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não obstante as interrupções da minha Poncia, que vendo{144}o meu fastio ao jantar, obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o estomago.
Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão. Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um tyranno, escondendo as lagrimas para não irritar a colera do seu verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:
«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás almas, e prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e o snr. João deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que é o mais acertado.
Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.{145}
Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella ha-de fazer tregeitos de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos por nos adaptarmos ás formulas vulgares d'uma rotineira paixão das que morrem no inverno, se nascem no verão ao pé d'um pinhal, cuja poesia não resiste ás primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem fôlego que o periodo é uma especie de machina pneumatica.
Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina; mas a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas imaginarias victimas—esse, que a maior parte das vezes é um pobre homem, não leia isto porque de certo não aprenderá aqui a receita com que se fascinam as mulheres.{146}
Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.
Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a reputação desta senhora.
D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no seio d'ella coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume continuo d'uma adoração, que não podia deixar cahir neste chão maldito um só bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror de ter tentado disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno, cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos o seu nome.
Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi sempre, e ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de mim o ermo do desterro, a insulação medonha do estrangeiro em solo de barbaros—essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu cuidava agora que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que virão algum dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou de grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre os meus herdeiros.{147}
Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar aviso é necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu promettido a ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então, pensava eu ir primeiro a descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella rodeada d'anjos lá, cortando a immensidão do céo, no dia do seu resgate. Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu, velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, vestida a alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu tive, e toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu, finalmente, fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar com a intenção providencial que por aqui me traz entregue aos baldões d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.
Ahi vai agora o conto:
Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança passára para Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha de nove annos já sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até aos dezenove annos. Sahiu para a companhia de seu pai reformado em coronel, e completou a sua educação na convivencia de algumas poucas familias exemplares.
Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o instincto ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a esconder-se entre as murtas e as tilias do jardim, graças á experiencia,{148}entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos dezenove annos.
Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de pessoas bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas, e conversavam sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous sexos causou-lhe uma estranheza em que as faces davam o signal, rosando-se, pintando-se da mimosa purpura que, rara, em nossos dias, reçuma em rosto de dezenove annos, por uma razão que o leitor sabe, e mais eu.
O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!) era, quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava nas suas contemplações, sósinha.
Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos palavras lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do moço, e tão frivolas eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle, Leocadia julgar-se-hia entre todas a mais indifferente ao timido Vasco—chamava-se elle Vasco, se bem me recordo.
Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como... deixemo-nos de metaphoras—amou-a como hão-de vêr que elle o prova, depois.
O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não obstante, como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o meu pobre Vasco andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé se elle entrava ou sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista dos olhos, e da outra vista do coração, de maior alcance ainda, se o coração não é myope, ou zarolho, peior mil vezes.
Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até pelo cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para elles. É infallivel, nas mulheres{149}que vieram com esse aleijão a este mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta edificativa obra.
Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando no segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o amor astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina que o rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de haveres não tinha nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de gastar o seu tempo mal, porque a mocidade anda a galope, e quando a gente mal se precata, deixou perder a occasião de arranjar noivo conveniente, e acha-se velha.»
Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez córar Leocadia.
Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão linda como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um rosto innocente.
Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu liberdade ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não se consegue aos dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se reciprocamente uma edição diaria do seu amor em duas ou mais folhas de papel, e, depois da vigesima carta, escreviam o prospecto do seu futuro, com a riquesa de imaginação usual de todos os prospectos.
Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas almas, ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do mesmo som o primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz, especie de bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na{150}infancia, e o despertar desse terrivel dom na adolescencia! Bellas deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos era sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem ambos n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de arvores, onde os passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus ninhos, e os seus filhinhos pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma fonte, derivando em fios de prata por sobre a relva as suas aguas, e nessa relva havia de pastar um cordeirinho branco, malhado de preto, com um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho andaria sempre atraz de Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia de ser um cão do Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua ama, lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.
Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos musicos do bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia, espriguiçando-se ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar livre, sorveriam abraçados o primeiro halito da atmosphera, perfumado de alecrim e rosmaninho, revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar burrifadores de limpida agua, regariam os canteiros, as balsas, os vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas, enxotariam a gata que se encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um passarito que ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o cordeirinho, iriam para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas italianos, o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal recompensado amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas, exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não acharam cá em baixo o nosso paraizo.»
Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.{151}
Em quanto ao almoço, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (cá estou ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no periodo anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por força vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que ainda estoirou de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres amantes projectavam estes grandes melhoramentos na sua vida como por cá se projectam os melhoramentos materiaes do paiz, isto é: não cuidavam da receita, nem do orçamento, nem dodeficit, nem... eu sei cá como se chamam essas cousas que por ahi dizem os que sabem lá da salvação do paiz! O que eu sei é que este par de creaturas bemaventuradas, com quanto fossem muito anteriores ás importantes applicações do magnetismo, attribuiram ao magnetismo propriedades que os modernos ainda não sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice sub-lunar. Entenderam elles, pois, que o magnetismo era uma substancia nutritiva como vacca e arroz, comoroast-beefe almondegas, como esparregado e pudim de batata! Que parece esta sandice ao leitor circumspecto, que tem o seu estomago na devida consideração, e crê que isto de poesia e poetas, de idealismo e espiritualismo, são o que realmente são:indróminas? Pois é verdade, como lhe vinha contando, amigo, senhor meu, cuidavam elles que o trivial e velhissimo facto de se amarem os separaria dessa lei commum, lei estupida por isso mesmo que é para todos, praxe, tão velha como o amor, de attender ás justas reclamações deste ser intimo que faz os grandes estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e particularmente os homens gordos: quero dizer—o estomago, viscera-rainha, orgão dos orgãos, potencia sempre discutida, sob um pseudonimo qualquer, no discurso do throno, aganipe das locaes mais chorudas do jornalismo, irmão gemeo da soberania do talento, o estomago, oito letras a cujo serviço estão as outras dezeseis, porção, em fim, do homem notavel, que mais se{152}lhe venera, por isso que a chegada de uma summidade a qualquer terra é logo celebrada por tres, quatro, cinco jantares em que uma concava terrina de sôpa e uma pyramide de boi assado substituem os presentes d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se regalavam os adventicios de longes terras.
Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco não scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o coração, se o torpe raciocinio lhes argumentasseá prioricom as villãs necessidades da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria para se amarem.
Não pensava, porém, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a snr.ª D. Fortunata Proença, madrasta da mesma menina, casada tambem em segundas nupcias com o militar, e mãi d'um rapaz estragado, senhor d'uma boa casa no Alem-Téjo de que sua mãi era uso-fructueira.
D. Fortunata, casando com o coronel, promettêra-lhe empregar a sua authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua formatura na Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento assegurava á enteada, se não um digno esposo, ao menos uma boa casa, e, a todo o tempo, um dote que ella poderia levantar, se os maus costumes do marido fossem incorregiveis.{153}
O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta, resolveu curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de Proença, que estava a completar a formatura, annuira á proposta da mãi, conhecendo apenas de vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam já em poder do coronel.
Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pôde balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante surpreza, Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou dizer que já não podia dispôr do seu coração, porque amava outro homem.
O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que não valia a pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina tomou o riso por carinho paternal, e lançou-se de joelhos aos pés do pai, suffocada pelas lagrimas que lhe sahiam do coração agradecido e venturoso.{154}
—Então que é isso? (disse o coronel, tomando-a nos braços, e sentando-a ao pé de si) Cuidas tu, criança, que eu sou tão criança como tu? Achas que eu deixarei á tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha querida filha? Essa é boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao Vasco da Cunha, tão tôlo como tu, e que não sabe melhor do que tu o futuro que vos esperava. Olha, Leocadia, não se póde ser pobre n'esta sociedade. A nossa casa é muito pequena, bem o sabes; e Vasco é um filho segundo, sem habilitações para modo de vida algum. Estes fidalgos cuidam que ser fidalgo é uma profissão. Os filhos segundos, se lhes faltam as sopas do primogenito, não servem para nada, não tem em si recursos para subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam réos de leso-brazão se pedissem uma occupação plebêa. Meus irmãos, Leocadia, foram para o Brazil, logo que a razão lhes disse que a pequena casa onde viviam era minha. Trabalharam como se nascessem do populacho, e estão ricos, riquissimos, e serão mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o eram quando de cá sahiram. Quem saberá melhor o que te convém do que eu, minha filha? Sei em que tempo estamos, e quero deixar-te preparada para um tempo que ha-de vir, muito peior que este. Espero ainda vêr em minha vida desapparecer o rendimento da Commenda que faz a nossa casa mediana; ido esse, o resto bem sabes o que é. Se casas com esse rapaz, que não tem nada, quem vos sustentará? Eu não poderei, nem, se podesse, quereria. Para que reconheças quanto me tenho a ti sacrificado, lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a filha. A condição de casares com Francisco, acceite por ella, explica o meu casamento n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mãi, cuja memoria me não deixou jámais encarar com bons olhos outra mulher. Depois d'isto, dir-me-has se eu não devo esperar que tu espontaneamente acceites a sorte que eu te preparei. Serias má filha,{155}se recusasses; e eu seria um pai muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei; e, tão firme estava na união das nossas vontades, que sem te consultar, pedi as dispensas necessarias para o teu casamento com o meu enteado. Enganar-me-hia eu, Leocadia?
A menina soluçava com os labios collados na mão do pai, cobrindo-lh'a de lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos aguados. D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu coração, o maior de todos, porque o menor era de certo a vida.
—Não respondes, filha?—dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella escondia no seio do pai.
«Já respondi...» balbuciou ella.
—O que? que respondeste, Leocadia?
«Farei o que fôr da sua vontade, meu pai...
—És a minha Leocadia...—disse elle com apaixonada meiguice—Reconheço a filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com Vasco... Senta-te, menina. Diz-me cá: ha que tempos andam vossês com essa brincadeira?
«Brincadeira... não era brincadeira, meu pai... Nós amamo-nos muito... ha dous mezes.
—Já ha dous mezes? Está feito! mas eu não tenho dado fé... Como se entendiam vossês? fallavam ás escondidas, ou...
«Nunca fallámos ás escondidas...
—Então, escreviam-se, sim?
«Sim, senhor.
—E as vossas tenções?
«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.
«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha, tu guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o approvava como digno de contar-se a um pai...{156}
—Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me disseram que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era rico, e eu só devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se não fosse isto, eu seria a primeira a dizer ao pai...
—Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que teu pai deseja fallar com elle.
«O pai!?
—Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por elle ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse mal porque minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de seguir uma carreira até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns pais assim pensam, bem o sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil, não quero esquecer-me de que sou o seu primeiro amigo pelo coração, e o seu primeiro conselheiro pelo dever. Vasco, depois de ouvir-me, ha-de transigir com as tuas circumstancias e com as d'elle. Ficará amando-nos ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais elle possa queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.
Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do coronel. O velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe cahira sobre o bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto, desentalava a dôr oppressiva do seio por um ai.
Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso: «Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha.Leocadia.»
Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça. Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do pai de Leocadia.{157}
Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.
Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai passar-se na sala do coronel.{158}
Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. Não viu alguem, e parou, ao segundo passo, com as mãos juntas na aba do chapéo, e os olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.
A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mão direita estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canapé, entrou, affavelmente encarado, como Vasco o não vira nunca.
«Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como dous homens velhos—disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo outro ao mancebo.—Já toma o seu cigarrito? A apostar que sim?
—Não senhor, não fumo.
«Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros começa a ter boa hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a mocidade, apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do cigarro, e aprende logo a resfolegar o fumo pelo nariz. É o tom, dizem elles, desde 1820 para cá. Parece-me que esta geração{159}sahida do ovo, e a outra que está no chôco, hão-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a modo de nabal espigado. Não sei se me entende: quero dizer que a seiva forte de nossos pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores e fructos, cada cousa em tempo proprio, dará fructos temporãos, bichosos, desses que passam sem termo medio do verde ao podre. Não acha?
—Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu—disse modestamente o moço.
«E pensa bem para a sua idade. Os vicios são de todas as épocas, mas o do cigarro é muito moderno entre nós, ha-de confessar!
Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se, um d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não era de certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de Borgias, que envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas orgias dos outros...
«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber—disse Gervasio Leite—o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...
Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse nome.
«Minha filha Leocadia—proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro na ponta do segundo—tinha lá um segredo no coração, mas não segredo para o snr. Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes muito com os maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca pela roupa. Este ruim vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o cigarro.
O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não tinha recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco, ou parecêra-lhe grosseiro{160}de mais o confronto do segredo santo da filha com o perfido da adultera.
Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor, continuou:
«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas razões respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é rapaz, ambos sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro cego, valha a verdade, que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que elle seja mais do que cego... em quanto a mim é surdo, por que não ouve razões, é cego por que não vê precipicios, é mudo por que só tem lingua para fallar a linguagem que não está nos diccionarios, nem póde applicar-se a estes objectos da vida real que se veem, e apalpam, e sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil cortejo da realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe ao meu genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar a vida como se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos o mesmo X, dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me esta rhetorica de tarimba.
Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do meu general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel do general Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É necessario ter cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da alma, para conciliar duas idêas contrarias: ter compaixão de duas pessoas que se julgam felizes unindo-se. Ora eu me explico, e, quando não entender o meu vocabulario cá debaixo do mundo real, falle.
A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella, junto ao meu soldo, difficilmente tem{161}chegado para a educação de Leocadia. Minha filha é pobre.
—Oh senhor!—interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.
«Diga, diga, o que ia dizer.
—Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.
«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher que se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem amei uma mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me levantei uma bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que tinha umas leiras que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil reis, o maximo. Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão das mais racionaes que eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para apparecer n'um baile em Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da esterilidade de Sara. Desde esse dia, meu caro snr. Vasco, quiz-me parecer que a minha situação de solteiro era melhor que a de casado. Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um posto inferior áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces chimeras de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que me descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para viver e morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a tractei, algumas dividas que ainda estou pagando hoje.
Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e eu, com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os generos e feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa criança sem mãi, filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu poderia; mas legar-lhe um patrimonio, como é preciso que uma senhora o tenha, para poder escolher um marido, não podia. Um pai, que ambiciona avaramente para{162}seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e sabe como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher aborrecida, por que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho, herdeiro de um grande casal, e além de todas as probabilidades favoraveis ao meu pensamento, estipulamos, eu e ella, a condição de que Leocadia seria mulher do meu enteado.»
Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira, branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando os olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.
«Então, snr. Vasco, isso que é?—disse Gervasio, tomando-lhe affectuosamente a mão—Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que faça justiça ao pai da mulher que será sempre sua amiga. É preciso que sejamos tres no sacrificio.
—Qual sacrificio?—balbuciou Vasco.
«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos, seja o meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe tracei, convencendo-se um e outro de que serão infelizes, desobedecendo-me.
Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos. Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com intimativa:
—Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.{163}
E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da sala, e desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça para agradecer ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da sala.
No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe levava as cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no barril, examinando os pregos dos sapatos, e calculando talvez os emolumentos que cobrára da sua posição importantemente diplomatica entre dous corações rendidos.
Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos interiores da jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com o barril para o hombro, e não esperou resposta.
Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de ser visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um canto do pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais copiosas, debaixo da pressão do lenço.{164}
«Que dirá esta carta?»—perguntava elle ao seu coração—«Será o adeus de Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»
Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no pateo um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com grande tropel. Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco não o vira nunca; mas pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á campina, e bota branca de canhão alto, conheceu o enteado do coronel, em que Leocadia lhe fallára algumas vezes, porque sua madrasta lhe estava sempre elogiando o talento, e encarecendo o grande morgadio.
Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado, e cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para receber nos braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao recem-chegado se encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta; porém, lembrou-se de que a pergunta provocaria outras. A este tempo descia com grande alvoroço a mãi de Francisco, com os braços abertos; e o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu o braço á mãi, que estava gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.
D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:
«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que desgraça nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas bellas esperanças não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a vontade de meu pai; mas o juramento que fiz de amar-te eternamente é superior a tudo. Sou mais tua do que de mim propria, meu querido Vasco. Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu pai; não posso; porque me lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não podemos esperar que o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que só hontem me foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra{165}o tal homem. Decide, meu amigo. Em ultimo recurso, eu fujo de casa para ti; e depois... o que Deus quizer. Não seremos tão infelizes como meu pai diz, não achas, Vasco? Diz-me que não; dá-me animo para lhe desobedecer. Não sei se te demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao gallego, que te espere com esta carta.
Tua L.»
Quando Leocadia (ahi vão reflexões philosophicas) me mostrou, entre outras, esta carta, pasmei, como a gente pasma, até certa idade, das maravilhas que se fazem no coração das raparigas! Aqui ha trinta annos, se me dissessem que uma donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das mestras dos collegios de então, namorada pela primeira vez, pouco ou nada lida em novellas, e menos ainda experimentada nos romances ineditos de portas a dentro, se me dissessem que essa tal, contrariada pelo pai nas suas virginaes affeições, escrevera similhante carta ao namoro, eu não acreditaria, sem vêr a carta reconhecida pelo signal publico e razo d'um tabellião de provada moralidade.
Pois não parece incrivel?
Hoje que não ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijões da alma—porque esta geração veio realmente estropeada e canhota do espirito—hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar sereno e puro do collegio, comparo-a eu á rôla creada na gaiola, que nunca esvoaçou, nem sabe a serventia das suas azas, está contente do espaço, e da abundancia que tem, não sente o captiveiro... e, se, por descuido, deixaes aberta a porta da gaiola, a boa da rolinha mette primeiro a cabeça ao ar livre, sacode as pennas das azas virgens, desfere um vôo rasgado, sobe, sobe, e adeus!
«Era o instincto!» dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe fugira. Pelo instincto é que eu, philosopho{166}de toda a passarinhada, explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que ellas se vão do ninho para as altas regiões dos açores e dos milhafres, onde, quando o diabo quer, dão grande banquete ás aves de rapina que são tantas como os nossos peccados, por esses céos d'anil, onde os poetas imaginam colonias de amantes felizes.
Isto é hoje, que só me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que Deus formou d'uma costella homogénea:—mas, ha vinte e oito annos, quando Leocadia me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar palerma, e disse-lhe:
«V. exc.ª, quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extensão da loucura que fazia, entregando-se assim á descripção d'outra criança, sem casa, sem vida, sem habilitações para o trabalho?
—Então o senhor não sabe o que é uma paixão!...
«É que eu cuidava, minha querida irmã...
Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu seriamente a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou tres pessoas ás quaes eu chamava irmãs, disse-me, sorrindo, que tinha dezesete irmãs assim. O meu amigo pertence á geração nova, em que estas fraternidades não tem provado bem, porque, ordinariamente, os parentescos complicam-se de modo que não é facil saber-se quando se é tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo está virado! No meu tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje se chamamnão-comprehendidasna terra, ou porque entre ellas e outras de eleição paternal e intervenção ecclesiastica não havia analogia de gostos, ou porque as posições sociaes não permittiam um enlace, ou, finalmente, porque era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente desalojar-se—em qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no catalogo dos parentescos honestos, e ficavam irmãos toda a{167}vida. Eu hoje conheço netos das minhas irmãs de então, e glorio-me de ser tio-avô de creanças muito gordinhas, que puxam ás avós as rêpas escassas das tranças d'ebano e ouro dos meus bons tempos...
Asirmãsde hoje...—diz muito bem o meu amigo—arranjam-se ás dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade não as reputa incestuosas...
Asnão-comprehendidascontam em estylo lamuriante o vasio das suas almas a confidentes denominadosirmãos, em momentos de expansiva familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra d'este mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo. Ora, acontece quasi sempre uma cousa muito racional: oirmãoapresenta-se com procuração bastante doanjo, com poderesin-solidum. Passado algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o procurador escandalosamente encartado no usu-fructo do dominio e acção d'uma propriedade, que (aqui entre nós) os anjos não quereriam, nem eu, só pela decima, os cinco por cento, e os mais impostos annexos ao merinaque.
A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo, que ella me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo, talvez sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o sorriso parvo ou mau da suspeita correspondesse á melancolica saudade com que vou recordando palavras da minha pobre irmã.
Atem agora o fio partido do dialogo.
«É que eu cuidava, minha querida irmã—disse eu—que o amor na sua idade, e com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem humanos de mais, rasteiramente humanos...
—Que quer dizer?{168}
«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe alguma vez esse acto?
—Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu pai, e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo, estava eu chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga. Não senti aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a acção de fugir á desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim, mortificou-me; porém, entre o remorso e a paixão, a lucta decidiu-se pelo amor.
«E a idéa do seu descredito?
—Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe que as suas analyses tem sido feitas sobre corações muito experimentados. Uma mulher receia o descredito só depois que sabe a maneira como elle se alcança. Eu não sabia nada, meu amigo. Se me dissessem que eu corria risco de ser coberta de infamia por fugir para Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me dissessem que Vasco era capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que me lançára cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que zombava da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente guarda tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer feliz, com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua pureza para o galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e ficar ainda na obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o senhor! As que fallam no seu descredito, se tem de rebater a instancia de sacrificios, essas são as que querem estar bem com a sociedade, conhecem-na, fazem parte d'ella, e lançaram já muitas favas pretas contra o{169}credito de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação dos diplomas de virtude, que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no manto da hypocrisia, ou mascarar o escandalo de qualquer modo.
Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a interrompi. Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas, que eu tive o descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se dizia romanticismo, mas ás mulheres, que fallavam muito e bem, chamavam-lhes os alvares, pais dos que hoje vegetam,pispontadas, oupronosticas.
Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria, lhe tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o livro intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das minhas leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes calamitosos tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para luctarem com a materia que as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual elemento!
Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões philosophicas! Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso ser superior a este bacharellar de homem entendido na sciencia das almas dos outros, porque, lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já agora morrerei com esta sphinge cá dentro não sei aonde.
Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo que as primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria; e as ultimas com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.
Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.
Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira perturbado da entrevista com o coronel.{170}De lá a sua casa lembrou-lhe o suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do coração. Convencido de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a, encontrou o remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se doudo: eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta da morte estava aberta.
Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente mortal no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo succedeu o pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no as lagrimas.
Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que Lucifer cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua providencia, não teria um telhado que a cobrisse, porque em casa de Vasco dominava a razão da virtude que não acceitaria uma filha familia fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que absolvesse um filho segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que elle filho segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a pobre menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais a consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai, conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como leprosa de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe disse a razão do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias vigentes da sociedade, austera para uns, tolerante para outros, draconiana para os desvalidos, venal para os poderosos.
Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações contrarias.
Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:
«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se{171}tudo. Isto é tão atroz que parece impossivel. É verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje a minha sepultura. Esperava morrer cêdo, mas tão depressa não queria. Vivia de esperanças, e agora é tudo negro diante de mim. Venha a morte, e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem alma, nem forças. O que me dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão certo para cada dia. Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci de braço e de animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós. Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas espera alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este beneficio. Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar sósinha sem testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu ouro, porque choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não assim. Isto é muito; e para estas agonias é que a morte sahiu das mãos de Deus. O Senhor te faça feliz, e a minha memoria te seja sempre saudosa e compassiva.
«Vasco.»
Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça. Escondeu a face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava a agonia do vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda e calafrios. Quiz respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue que salpicou a carta. Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na rua o aguadeiro que esperava a resposta. Desceu as escadas encostado ao corrimão, entregou a carta, quiz retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um degrau, susteve o sangue no lenço, encostou a face á cantaria, e murmurou:
«Se Deus quizesse que fosse já?...»
—O que?!—perguntou uma voz perto d'elle.
Era a mãi, que descia para sahir.{172}
—O que, meu filho?!—repetiu ella.
«A morte.»
A sobresaltada senhora tomou-o nos braços, soltando vozes de afflicção. Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mãi esforçando-se por occultar o sangue, entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os espreitasse veria o filho abraçado aos joelhos da mãi, exclamando:
«Salvou-me!
Salvou-o?! como?!
Esperem.{173}
Saiba-se o que tão extraordinariamente fizera respirar Vasco daquelle aperto d'alma, que não podia desafogar-se, sem que a mão bemdita de mãi lhe alargasse as angustias que a comprimiam.
Entraram ambos, como disse, no quarto d'ella. Vasco, antes de responder ás perguntas amoraveis de sua mãi, encostou-lhe, como criança amimada, a cabeça ao hombro, e soluçou, chorando copiosamente.
«Que é isto, meu Vasco?!—instou a impaciente senhora—Bem me parecia a mim que a tua melancolia vaticinava desgraça!... Falla filho...
Neste momento, Vasco levou o lenço aos labios para esconder o sangue que espirrava da tosse suffocante. A mãi, vendo o lenço tinto de sangue fresco, soltou um grito.
«Este sangue é teu, meu pobre filho?! exclamou ella.
—Isso que importa, minha mãi?...—disse Vasco, sentindo diminuir a violencia da sua dôr, ao passo que o rosto da mãi dava signaes de afflicção e pasmo.{174}
«Que importa!?...—tornou ella, juntando as lagrimas ao sangue de seu filho, e cahindo quasi desanimada n'uma cadeira—Importa a minha morte, Vasco!...
—Mas eu sou feliz, morrendo. Tenha pena de mim, se eu continuar a viver. Deus acceitará na sua presença um filho que nunca desgostou sua mãi, nem aos de fóra causou damno sabendo que o causava.
«Jesus!—interrompeu a mãi arrependida da sua exaltação—estás-me matando com a serenidade das tuas palavras! E porque has-de tu morrer, meu pobre menino? Cuidas que não tem cura lançar sangue? Tem, meu filho, tem. Teu pai viveu assim trinta annos, e tuas manas, que Deus levou, se tomassem os meus conselhos, se não fossem as imprudencias dos bailes, recuperavam a saude... Choras por te vêres tão cedo ás portas da morte? Tens razão, meu querido filho; mas não te assustes; verás que o sangue cessa; vamos aos ares do campo; o que tu precisas é descanço. Não leias mais, pelo amor de Deus; não recebas o ar fresco da noite; não tornes a comer fóra d'horas, nem andes a passear no teu quarto até ser dia. Promettes isto tudo á tua afflicta mãi?
—Sim, minha senhora, prometto tudo.
«Com que desalento me respondes, Vasco. Esse teu sorriso é muito triste... antes quero vêr-te chorar.
—E eu tambem queria chorar... tambem!...
«Tu escondes-me o teu coração, Vasco. Tive agora um raio de luz... Dizes-me tudo, filho?
—Tudo... tudo, minha santa amiga, ainda que m'o não pergunte.
«A mim disseram-me que a filha do coronal Gervasio te trazia enganado...
—Por quem é, minha mãi!—atalhou elle com as faces instantemente abrazadas—Leocadia é incapaz de me trazer enganado! Quem tal lhe disse, calumniou-a cruelmente...{175}
«Pois antes assim, meu filho: mas sempre é certo que vos amaveis?
—Sim... é desgraçadamente certo que nos amavamos.
«Não te afflijas, Vasco... Eu hei-de dizer o que ouvi. Disseram-me que ella estava destinada para um filho da madrasta.
—Destinaram-na, minha mãi... Que culpa tem a infeliz de que vendessem o seu coração? Ella não sabia que estava vendida. Cuidou que podia amar-me, e por fim...
«Diz, Vasco... prohibiram-na de fallar-te?
—Vai ser casada, disseram-lh'o hontem...
«E ella acceita?...
—Se acceita!... a morte das mãos de Deus, como eu lh'a peço. Ha-de ser entregue ao marido como um corpo sem alma, um cadaver... O coração é meu, morre commigo... Vou bem pago de tudo que soffri e hei-de soffrer... que, já agora, pouco será; mas o que tenho curtido calado, e docil á desgraça, foi muito, minha querida mãi, só Deus sabe o que foi. A minha Leocadia morre... e então verá se ella não era digna d'este amor que me mata.
«Jesus! tanto fallar de morte, filho! Fallemos da vida; procuremos remedio, que o ha-de haver.
—Nenhum.
«Pois nenhum?! ella já está casada?!
—Não está; mas o mesmo é estar casada, ou sêl-o ámanhã ou depois.
«Olha, filho, lembra-me ir fallar ao coronel...
—Sou pobre, minha mãi... Poderá v. exc.ª dizer ao coronel que me dá um bom patrimonio?
«Não, infelizmente, não; aqui é tudo d'um só, tu bem o sabes... essa dôr cá a tenho como um espinho cravado no coração. O meu melhor filho, o anjo que nunca me deu um pesar, não tem nada, e nada póde haver do amor de sua mãi!... Que barbaras leis, justo céo! O que{176}os homens fazem! De todos os filhos que rodeam, á hora da morte, o leito de sua mãi, só um é rico, os outros... ficam á mercê do seu proprio trabalho, ou das sopas do irmão, que é sempre o mais ingrato...
Vasco obstou á continuação dos soluços que embargavam estas palavras, com meiguice, tirando-lhe as mãos da face.
«Isso agora a que vem! Não chore, que me faz mal. Eu não desejo a riqueza de meu irmão mais velho; queria alcançar uma mediania pelo meu trabalho, porque bem pouco me bastava a mim, e a ella, e a minha mãi, se Deus nos ajuntasse todos... Agora, nada desejo, porque sou de mais n'este mundo; houve uma força superior que destruiu a minha felicidade; não acharei outra... que faço eu agora aqui?!...
—Espera, filho... se eu dissesse ao coronel...
«O que, minha mãi?!
—Que sua filha viria para nossa casa como tua esposa...
«Está a querer tirar á força do seu coração esperanças para me dar... não estando ellas lá, minha mãi! É irremediavel... Não nos deixemos enganar, porque a realidade negra está perto de nós. É tarde para pensar nos meios de mudar a vontade do pai de Leocadia. O homem rico a quem a deram, já está com ella. Chegou hoje, e ella ainda hontem soube que não era senhora da sua alma. O coronel chamou-me, e disse-me: «faça que minha filha me obedeça; ajude-me a encaminhal-a ao destino que lhe dei; lembre-se que eu me sacrifiquei a uma mulher aborrecida, para assegurar a minha filha um futuro, casando-a com o meu enteado.»
«E tu, filho...
—Recebi o raio na cabeça, e sahi com o receio de cahir morto aos pés do homem que confiava a sorte de sua filha á minha generosidade. Isto parece-me um sonho...{177}Quando eu me convencer completamente que perdi a minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!
A mãi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mão direita, contemplava seu filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e como em spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com impeto ao pé de Vasco, aperta-lhe a mão com força, e diz:
«Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o coração das outras: Leocadia não é digna d'esse amor; Leocadia não te ama.
Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma palavra dura, levou a mão á fronte que revia um suor subito, e disse com pausa e brandura:
—Minha mãi, peça perdão a Deus de ter injuriado uma martyr.
E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A solemnidade triste com que elle se queixára da injusta opinião, feriu o seio da mãi.
«Pois sim, meu filho, eu peço perdão a Deus de ter calumniado a tua amiga; e pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se não posso valer-vos a ambos, meus queridos filhos.
Vasco, arrebatado pela compunção d'estas ultimas palavras, beijou com fervor a mão da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou na face.
«Nosso Senhor, e a Virgem Santissima—dizia ella, quasi ao ouvido de Vasco, como quem acarinha uma criança—hão-de dar-te uma esposa que seja o retrato das virtudes de Leocadia, meu filho. São poucos n'este mundo os corações bons; mas a Providencia faz que esses corações se encontrem. Ha-de vir um procurar-te, Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos prevenido tudo, para que tu possas ter uma esposa sem dote. Eu começo desde hoje a pedir para ti um emprego digno do teu nascimento. Empenharei{178}todas as minhas relações, todos os nossos parentes, com a regente, para tu seres bem collocado, sim, meu filho?
—Não, minha senhora, não. V. exc.ª disse-me que iriamos para o campo; vamos quanto antes; parece-me que hei-de acabar lá mais tranquillamente. Veja quanto eu estou sendo infeliz! A unica esperança que me afaga, é a idéa de morrer n'um leito d'onde veja arvores, e céo, e flores. O tempo agora está bello para acabar assim...
«Oh filho, que me estás despedaçando o coração...
—Pois não fallemos em morrer... Olhe, mãi, diz-me uma cousa?
«Que é, Vasco?
—Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez ella que désse causa á injusta suspeita de minha mãi?
«Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a noticia d'ir ser casada com um homem que não amava. O que tu estás soffrendo, é o que ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia que o pai lhe fez. A paixão costuma mostrar-se d'outro modo, delira, é capaz de mil desatinos, em quanto dura a surpreza que Leocadia devia de receber. E que fez ella, meu filho? Que te disse ella, depois que o pai lhe disse: «não pódes ser esposa de Vasco, porque Vasco é pobre; sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem consultar a tua vontade.» Que fez ella?
—O que fez ella?—respondeu Vasco, desafogando sob o peso das accusações, que a mãi queria alliviar com a entonação branda da voz—O que fez ella?... Minha mãi... o que faria a senhora nas circumstancias de Leocadia?
«Se amasse com a paixão ardente com que amei teu pai... das duas uma: morreria fulminada logo alli, ou...
—Diga, diga, minha mãi, que eu preciso avaliar pelo seu coração o amor de Leocadia.{179}
«Direi, Vasco, direi o que mãi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria, não morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer á tyrannia, fugir á violencia d'uma desgraça perpetua, seguir o destino prospero ou desgraçado do homem que me merecesse o sacrificio da minha reputação, da minha vida, de tudo!»
A mãi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o coração, rejuvenescido das forças que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera alguns minutos, apressando o giro do sangue que lá estivera estanque por falta d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animação d'aquelle rosto, onde nunca vira o viço da adolescencia, porque, desde menino, vira n'elle sempre lagrimas.
«Porque a mulher que ama—continuou ella, erguendo intencionalmente os olhos para o retracto de seu marido—porque a mulher que ama como eu amei teu pai, Vasco, faz o que fez tua mãi. Foge do convento onde a aferrolharam, e vai sósinha através cincoenta leguas procurar um militar que nesse tempo apenas cingia uma banda de alferes, e não tinha mais recursos para si e para mim que o seu soldo. Eu era filha unica, devia ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri necessidades durante dez annos. E sabes tu como eu acceitava das mãos de Deus a minha sorte? Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela França, pela Russia, com teu irmão mais velho deitado n'um berço de vêrga. Quando a força da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei, filho, que não senti melhorar a minha felicidade intima. Não era o dinheiro que a fazia, não; maior contentamento tinha quando via as feridas de teu pai remuneradas de patente em patente, até ser eu que, por minhas proprias mãos, lhe puz as dragonas de general, tendo elle apenas trinta e nove annos. Alli o tens a ouvir-nos, meu filho. Parece que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de lagrimas{180}de felicidade com que elle tantas vezes me contemplava. Repara filho...
Trémula da commoção, que devia terminar pelo chorar angustioso da saudade, a arrebatada senhora conduziu seu filho pela mão ao pé do retracto.
Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o retracto, com o braço erguido e convulsivo, dizia:
«Aquelle homem deve estar na presença de Deus. Foi para todo o mundo o que foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino, Vasco. Entrega a tua sorte á sua protecção; pede-lhe, commigo, que implore ao Senhor o descanço do teu espirito, e o esquecimento da mulher que não é para ti o que tua mãi foi para elle.
—Não posso fazer similhante supplica...—interrompeu Vasco.
«Não podes, filho? por que não podes?
—Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia é para mim o que minha mãi foi para o homem que a fez desobedecer á vontade de seu pai.
E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mãi.
Subiu de novo á face da viuva o ardor que as lagrimas começavam a desmaiar. Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar supplicante no retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu silenciosa em oração, talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com energia:
«Pois diz-lhe que venha... Vai buscar tua esposa para o quarto de tua mãi, vai, meu filho. É tua mãi que t'o diz.
Vasco, todo tremulo, só immovel nos olhos, estendia os braços para ella como se precisasse abraçal-a, para convencer-se de que não era phantastica a visão de sua mãi.
Neste momento, batem á porta do quarto; a mãi de{181}Vasco recusa abrir, e dizem-lhe que está alli uma carta que deve ser immediatamente entregue ao menino.
É ella que recebe a carta, e a entrega ao filho: Vasco reconhece o sinete, e diz a sua mãi que a leia.
Continha isto:
«Matas-me, Vasco. Se me não tiras d'aqui esta noite, amanhã suicido-me. És a causa da minha morte. Pelas chagas de Christo, diz-me que me salvas deste inferno. Responde-me já, já.
Leocadia.»
«Eu vou responder, meu filho—disse a viuva, correndo á escrivaninha. Vasco estava arquejante com a fronte reclinada sobre o travesseiro de sua mãi.
Ella voltou, e leu o seguinte bilhete:
«Minha filha. Hoje ás 11 horas da noite está uma sege defronte do convento de Sant'Anna, a cincoenta passos da sua porta. Nessa sege espera-a a mãi de Vasco, e sua mãi extremosa
Maria Maldonado.»
Foi então que Vasco se lançou aos pés de sua mãi, exclamando:
«Salvou-me!{182}