PRIMEIRO ACTOJardim, na residencia do Cura.—Á direita, um banco de pedra junto a um poço: á esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com portão.—Vista de estrada e campo.SCENA IJoaquinaeRuyJoaquinaLouvado seja Deus! Como está bello e forte!RuyÉ verdade, Joaquina, o clima aqui da terraencheu-me novamente o coração de alento.Posso dizer que entrei neste bondoso larvigiado, sem dó, pelos olhos da morte.E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra,as aguas desta fonte, o sadio alimento,o seu cuidado santo, amigo e tutelar,fizeram-me robusto.JoaquinaE Deus não lhe fez nada?RuyFoi elle quem salvou a minha mocidade,porque a divina mão que fez os céos e os montes,que deu flores á terra e deu frescura ás fontes,que faz vibrar a luz e a voz da passarada,que impelle a nuvem branca em plena immensidade,um dia vos creou as almas caridosasque vivem nesta casa, humildes e serenas,felizes com o Bem, suaves como as rosas,mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas!JoaquinaEntão, menino, crê tambem que Deus existe?!RuyDe certo, minha amiga.JoaquinaE não é um hereje,dessa raça maldita e negra que desmenteas obras do Senhor?RuyIngenua creatura!É tão alegre a crença e não crêr é tão triste,que mesmo sem querer o coração da genteacredita num Deus que todo o mundo rege,num Pae que assim te deu alma simples e pura!Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deuse adormecer á noite abrindo a conscienciaaos beijos do luar, sorrir de madrugadaá frescura que vem do azul ethereo e vasto,que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céossem esforço nenhum, como a espiral da essenciaque se evola da flôr, se a abelha delicadalhe poisa na corolla o vôo leve e casto!JoaquinaBemdito seja Deus! Não póde imaginarcomo eu fico contente ouvindo assim fallar!...RuyMas que idéa fazia então de mim? Julgavatalvez que eu fosse atheu?Joaquina,benzendo-seDeus me perdôe... pensava!RuyComo poude a sua alma angelica e tão boafazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça?JoaquinaAh! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa:eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa...E a gente vê só cara e não vê corações...RuyE se o visse, Joaquina!...JoaquinaE que é que me serviao ver-lhe o coração?RuyNada, é certo. Entretantoconheceria bem as minhas intenções,a esperança que faz brotar, em cada diaque passa, um pensamento alegre, puro e santo...Joaquina,interrompendoÉ, mas diz o rifão que está o inferno cheiode boas intenções!...RuyTem razão; mas não mintose lhe disser tambem, lealmente, o que sinto:ás vezes mais parece um verdadeiro infernoeste peito infeliz...Joaquina,benzendo-seAbrenuncio, menino!...Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!...Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno,em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!...Virgem Maria! Credo!RuyAlma boa de santa!...A tua vida inteira adormeceu. A aurorajá para ti não tem aquelle brilho vivoque a primavera, em luz, alastra pelos campos...Tudo se transformou em outra vida; agoraa fonte já soluça, a brisa já não canta;aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo,o sol não tem calor, o céo já não é glastro,as estrellas febris parecem pirilampos;trazes o teu olhar constantemente a rastro;sómente a fé te anima; é por isso que extranhaso inferno abrasador que muita vez dominaa minha mocidade.Joaquina,com sorrisoIsso me bacorejaalgum amor perdido ahi por essas eiras...RuyÉ possivel, quem sabe? Os ares das montanhastem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina!Joaquina,cariciosaE diga-me, que olhar é esse que negrejaa sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...Ruy,enleiadoQue olhar?Joaquina,interrompendoMas é segredo?RuyÉ, por ora é segredo...JoaquinaAh! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medoque eu descubra o mysterio, a princeza encantadaque assim lhe traz a vida em tantas amarguras...RuyNão é mysterio, não. É... cousa complicada!...JoaquinaFaz muito bem zelar a flôr dos seus amores;não os conte a ninguem; se acaso as desventuraslhe roubarem o somno agarre-se com Deus...tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvidoReze constantemente á Senhora das Dôres.Acceite este rosario e tenha-o por bordão.É bemaventurado aquelle que padece,porque é delle, menino, o reino azul dos céos...E Deus a quem promette estende sempre o pão;reze e será feliz... Essa alma bem merece...RuySanta velhinha, santa...Joaquina,tapando-lhe a boccaE nem um ai, silencio...Olhe quem vem ali...Ruy,voltando-seO Padre João Fulgencioe Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...Joaquina,a RuyParece que ficou um tanto atrapalhado...Ruy,encobrindo a verdadeSempre que a vejo, assim tão cheia de bondade ecéga...JoaquinaEntão, que sente?...RuyUma dôr inaudita,que reveste de luto as minhas alegrias:Ha tanta luz espalhadana concha astral dos espaços!E os olhos della tão baços!E a fronte tão macerada!SCENA IIOs mesmos,Padre JoãoeTalithaTalitha vem apoiada ao braço de padre JoãoPadrePois Deus Nosso Senhor nos dê muitos bons dias.assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mãoComo passou a noute?RuyAssim; mais descançado...Sonhando... E o Senhor Cura?...PadreEu? Ah! na minha idadejá se não dorme; eu passo a noute toda em claro,de rosario na mão, pedindo a Deus por nós!E quando surge o dia e mal o Sol desponta,dando o braço a Talitha, encaminho-me á Egreja.TalithaDiz a missa que ou ouço...PadreE é raro, muito raro,voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, sós.Ás vezes vem comnosco esse infeliz sargentoque arrasta por ahi o longo soffrimento,velho e cego tambem, e eu, mortiça candeia,a conduzir os dois pelas ruas da aldeia!TalithaMas o senhor doutor, por mim nunca dei conta,nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja!No emtanto está comnosco ha sete mezes, não?JoaquinaIsso mesmo eu já disse...RuyEu dei a explicação...TalithaE poder-se-á saber? Não é curiosidade?PadreTalvez seja, talvez...RuyNão é!TalithaEntão ouçamos!...RuyEu rezo no silencio o santo sacrificio,no fundo de minh'alma elevo o meu altar,sob o docel azul das minhas esperanças!...PadreE eu sem conhecer mais essa novidade!...TalithaQual?PadreEsta que o Doutor nos deu, mas aprendamos...RuyPadre não é sómente aquelle que a rezaresgota uma existencia ao peso do cilicioe vae pelas manhans, feliz como as creanças,curvar humildemente a fronte e a consciencia,na sombra da capella, aos pés do Redemptor...TalithaMas ha d'outros, então?PadreEu não conheço, filha!RuySacerdote é tambem aquelle que tem cultoao qual offereceu toda a sua existencia.Padre, quem se dedica um dia com fervora amar alguem na terra a cujos pés se humilha,tambem é sacerdote...PadreE eu, sacerdote, exultoouvindo do seu labio esta expressão severa.Joaquina,que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de RuyBemdito seja Deus! menino, quem me deraconhecer a mulher que tem um filho assim...TalithaSó eu não posso vêl-o!...Ruy,entre alegre e enleadoObrigado, Talitha!TalithaNão tem que agradecer, disse-o sinceramente!Que póde desejar mais uma céga, diga?...PadreMas conforma-te, filha, espera que o Senhor,ouvindo-me a oração, tenha pena de mime acuda com remedio ao mal dessa desdita!RuyComo eu fôra feliz...JoaquinaE eu seria contente!...RuySe pudesse voltar, ó minha boa amiga,aos seus olhos de céga o perdido fulgor!...TalithaNunca mais, nunca mais...PadrePorque é que te condemnasse toda a nossa vida é uma esperança apenas?...TalithaSe é toda de esperanças esta vida,já me fugiu aquella que voavabem junto do meu seio e que roçavasobre a minh'alma a aza foragida.Nem sei onde ella vae, talvez perdidanao volte a mim por não morrer escravana escuridão da noite immensa e cavados meus olhos sem luz e sem guarida...Nunca mais fulgirás, dôce promessa,na minha treva densa e prematura,como o branco luar em noite espessa.Se vive, o olhar dos cégos não fulgura,dorme na sombra e de sonhar não cessana tristeza sem fim da noite escura!RuyNão descreia, Talitha, as suas illusõesnão fugiram, por ora, esparsas na lufada!Quem foi que lhe roubou a ultima esperança,que braços sem caricia, ou duras privaçõeslhe puderam vibrar tão rude punhalada?Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalançaa dizer-lhe, Talitha:—o seu formoso olhartão cheio de fulgor, um dia ha de voltar...JoaquinaSó milagre de Deus!PadreE Deus póde fazel-o:é Pae de todos nós!Talitha,com desanimoTenho rezado tanto!RuyImplore mais ainda, espere, tenha crença!TalithaTenho pedido muito e tanto me flagelloque banho as orações nas bagas do meu prantoe aqueço-as ao calor da minha dôr immensa.A mesma escuridão tremenda me apavora,nem um raio do luz, nem um vago lampejo;nunca mais hei de vêr o campo que se infloranem do luar terei um luminoso beijo...PadreA tua redempção ainda não surgiu...Joaquina,pondo as mãosEu tenho tanta fé!RuyO meu presentimentonão sei o que me diz...TalithaQue o coração sentiu,que a sua alma pensou nessa dôce ventura,eu creio porque sei quanto é nobre e bondoso.Mas eu creio tambem que o meu cruel tormentosómente acabará no chão da sepultura,onde tudo tem fim, embora tenebroso!...Padre,olhando o céoPerdôa-lhe, Senhor, ella ignora o que diz...Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!...TalithaEu sei bem o que disse; a minha crença é essa.Ha muito que eu imploro ao céo a protecçãoe rezo com fervor á dôce Conceição,pedindo-lhe, a chorar de dôr, que não esqueçaa minha noite escura e tristemente agrestecomo a sombra que faz a copa de um cypreste.Aos pés do seu altar curvei-me como escravae emquanto pela igreja o incenso espiralava,e as simples orações subiam na espiral,fechei-me na mudez do meu fervor mentale fiz uma promessa...Ruy,com interesseE então qual foi, Talitha?TalithaVotar a minha vida ao divino serviço,se um dia terminasse o meu padecimento;nem peço mais a Deus, é tudo o que cubiço.RuyE se tornar a ver?TalithaEntrarei num conventoa vestir o burel de freira Carmelita.Padre,crente, pondo as mãosSe Deus te ouvisse, filha!Joaquina,com uncção religiosaE o Bom Jesus quizesse!...Ruy,com amarguraSe tivera valor a minha humilde prece!...Talitha,curiosaSe tivera valor, que lhe faria, Ruy?RuyNão pediria a Deus esse milagre extremo...TalithaPorque?RuyPorque seria arrancal-a da trevae lançal-a de novo em mais cruel negrura.Juntando toda a fé que de minh'alma flúeeu iria pedir, como um favor supremo,que as almas alevanta e os corações eleva,que me guiasse a mão na lucida aventurade devolver-lhe um dia ao seu olhar perdidoaquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'oraque faziam inveja ao proprio olhar de Flóra!PadreE seria capaz?JoaquinaCredo!SaeSCENA IIIPadre João,RuyeTalithaRuyE tão convencidoestou de que o Senhor a mão me guiarianesse instante feliz, que não hesitariaum momento sequer... A simples catarataé facil de operar e em dez dias exactosTalitha voltaria á luz que o céo desatae que dá vida á terra, aos fructos e aos regatos!...Pense, Talitha, pense e permitta que eu façaesse dôce milagre.TalithaE eu tornarei a vêro presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves,as abelhas sugando o mel dos jasmineiros?RuyOs seus olhos verão a luz da eterna graçano sorriso gracil da alvorada, ao nascernas bandas do oriente em nuvens tão suaves,como um rebanho astral de timidos cordeiros!TalithaE que mais hei de vêr?RuyQue mais? Verá tambemum velhinho a sorrir com lagrimas na face,e uma velhinha branca e trémula a chorar,e ao pé delles, alegre, o olhar de mais alguem,numa dôce oração tão leve e tão feliz,como se a propria brisa aqui se demorasseum momentinho só tambem para rezar!Talitha,alegreE eu voltarei de novo aos encantos da luz?E hei de vêr tambem o jardim do mosteiroonde floresce a fé que a nossa vida arrima,as rosas enfeitando a Virgem que as anima,o corpo de Jesus exanime e trigueiro,entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?...E então assim feliz...Ruy,interrompendoE então, Talitha, e então?TalithaRezarei pelo Ruy, tão bom, tão generoso,que trouxe ao meu olhar escuro e tormentosoa esmola angelical d'um lucido clarão!SCENA IVOs mesmos eJoaquinaJoaquina,entrandoPadre Cura, uma carta.PadreUma carta? Mas donde?recebe-a e examinaHum! e de quem será?TalithaJoaquina, dê-me o braço...Joaquina dá-lhe o braço. A RuyDr. Ruy, até já.ao curaAté já, meu Padrinho...Ruy,que se tem conservado tristeTalitha!...Talitha,voltando-seMeu Senhor!...Ruy,indo a ellaPerdão, Talitha... nada!TalithaArrependeu-se, não? E tambem não responde...Desconfia de mim?... Outro tanto eu não façoDoutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho...Ruy,com interesseQue foi que adivinhou?Talitha,com maliciaUma coisa adorada...que só tres corações conhecem bem: o seu,o della, e o Senhor que tudo vê do céo...Ruy,admiradoDella, Talitha, quem?Joaquina,com intençãoDaquella princesinhad'olhos da côr do céo, vestida de andorinha...TalithaOuviu, Doutor, ouviu?RuyJuro...Talitha,interrompendoNão jure falso!...a JoaquinaVamos, Madrinha, embora: é tempo de almoçar.sahemSCENA VPadre JoãoeRuyDesde que recebe a carta, Padre João lê com a maior attenção. Pela sua face corre toda a expressão de espanto que vae recebendo. Quando sahem Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao approximar-se Ruy, suspende-se.PadreEsta agora é que foi!RuyE que foi, Senhor Cura?PadreQuem sabe? Póde ser um pequeno precalço,mas póde ser tambem que venha de misturaalguma dôr maior. E não posso evitar!...RuyO que essa carta diz deixou sua alma afflicta:um segredo talvez que vive no seu seio?!...PadreFoi, sim, mas ja não é. Agora só receioque m'a levem daqui...RuyQue a levem? quem?PadreTalitha...RuyE quem a levará deste remanso augusto?O convento, a promessa?...PadreOh! não...RuyNão tenha susto!E quem mais poderá, nesse caso, arrancal-ado lar em que nasceu?PadreA Mãe...Ruy,surprehendidoAh! mas... então...Padre,baixinhoEntão... já percebeu?! Ella foi engeitada...Eis aqui o segredo em que esta vida abraço.baixa a cabeça, scismandoRuy,depois de uma pausaOh! meiga creatura!PadreE não poder salval-a!...RuyEngeitada!...PadreSim, sim. Ao romper da alvorada.Ha muito tempo já. Inda no céo brilhavaa estrella da manhã; vieram procurar-me;bateram ao portal com desusado alarme...Ergui-me e fui abrir; a neve branqueavaos campos e eu pensei que um pobre moribundo,no momento supremo em que deixava o mundo,quizesse receber da minha propria mãoo balsamo final da santa extrema-uncção,e abri desta choupana a porta sempre franca.Parecia o jardim uma toalha branca.Era um frio cruel, cortava como fôsseo gume de uma faca e o fio de uma fouce...Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem.No céo luzia só a estrella de Bethlem!Não sei porque a fitei nesse feliz momento.Um silencio profundo amordaçava o vento;dormia a natureza um somno indefinido,vibrou então no espaço um timido vagido...Estremeci de horror...Ruy,com anciedadeEra a pobre Talitha?!PadreApproximei-me e vi, aqui junto do bancoum cestinho de verga envolto em panno branco.Banhou-me o coração uma dôr infinita.Na tragica mudez da alvorada desertatomei nas mãos, tremendo, a delicada offertae agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-acomo quem agasalha o corpo de uma estrellaque tombasse do céo...Ruy,com mais anciedadeE esse penhor amigo?!...PadreA meu lado cresceu e formou-se o thesoiro,alma rica de luz, feita de amor e d'oiro.Parece que ao romper daquella madrugadatão fria, tão cruel, mas tão abençoada,que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo,teve o banho castalio, o baptismo de luzda mesma estrella exul que baptisou Jesus.Por isso é que minh'alma agora não sopitaa magua de perdel-a...RuyE quem terá coragemenergica e viril de arrebatar Talithaao seu amor leal e bom, dôce miragem,no deserto feliz desta velhice austera?PadreA mãe que a vem buscar...RuyA mãe não tem direito...A mãe que engeita a filha é peior que uma fera!PadreMas é mãe!...RuySim, será, sem coração no peito.PadreEngana-se, doutor, a mãe que hoje a reclama,depois de tanto tempo, é que lhe tem amor...RuyComo a engeitou, então?PadreA fera tambem ama...Quem sabe o que terá soffrido essa mulher?Sabe-o sómente o céo, calcule-o quem puder.E diz-me o coração que vou perdel-a em breve.Erguendo as mãos ao céoNão me tires, meu Deus, esse gentil penhor!Repara que já tenho os cabellos de neve,tão tremulas as mãos, e os labios descorados,como sonhos que vão batidos e levadosnum extremo soluço... O que eu tenho no mundo,pouco mais é que um ai e o golpe agora é fundo!Enxuga os olhos e sáeSCENA VIRuyeTalithaRuy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão, sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce, tacteando, até junto delle.TalithaPadrinho, então não vem?Ruy,sobresaltadoAh! Talitha...TalithaPerdão!Pensei que estava aqui...RuyJá se foi...TalithaObrigada...Vae retirar-seRuyTalitha!TalithaSenhor Ruy!RuyO seu bom coraçãoinda não lhe contou, baixo, muito baixinho,quasi a tremer de medo e susto, um segredinho,diga, não lhe contou?Talitha,com muita simplicidadeQue pergunta engraçada!RuyE vive então sereno?TalithaAh! Sim, tenho certeza!RuyÉ bem feliz, Talitha, a sua singeleza!Outro tanto, porém, ao meu já não succedeque o sinto palpitar acceleradamente,como quem vae fallar e o soffrimento impede.TalithaEu bem lh'o disse ha pouco...RuyEntretanto eu lhe juro...Talitha,interrompendoNão jure que é peccado a jura de quem senteque não diz a verdade. É mais bello e mais puronão negar.RuyTem razão, mas eu não disse, aindaqual era o juramento...Talitha,ingenuaE qualquer que elle seja...RuyDiga, diga o que sente...TalithaHa de ser...Ruy,curiosoHa de ser?TalithaNão digo...RuyDiga, sim, a sua voz bemvindaha de me dar a esmola honesta e bemfazejaque a minh'alma sem luz precisa de viver.E do seu labio casto apenas um sorrisovale mais que uma estrella e rasga um paraiso.TalithaAssim o quer, direi; jamais o seu protestopóde ser verdadeiro...RuyE porque não, Talitha?...Talitha
Jardim, na residencia do Cura.—Á direita, um banco de pedra junto a um poço: á esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com portão.—Vista de estrada e campo.
Louvado seja Deus! Como está bello e forte!
É verdade, Joaquina, o clima aqui da terraencheu-me novamente o coração de alento.Posso dizer que entrei neste bondoso larvigiado, sem dó, pelos olhos da morte.E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra,as aguas desta fonte, o sadio alimento,o seu cuidado santo, amigo e tutelar,fizeram-me robusto.
E Deus não lhe fez nada?
Foi elle quem salvou a minha mocidade,porque a divina mão que fez os céos e os montes,que deu flores á terra e deu frescura ás fontes,que faz vibrar a luz e a voz da passarada,que impelle a nuvem branca em plena immensidade,um dia vos creou as almas caridosasque vivem nesta casa, humildes e serenas,felizes com o Bem, suaves como as rosas,mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas!
Então, menino, crê tambem que Deus existe?!
De certo, minha amiga.
E não é um hereje,dessa raça maldita e negra que desmenteas obras do Senhor?
Ingenua creatura!É tão alegre a crença e não crêr é tão triste,que mesmo sem querer o coração da genteacredita num Deus que todo o mundo rege,num Pae que assim te deu alma simples e pura!Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deuse adormecer á noite abrindo a conscienciaaos beijos do luar, sorrir de madrugadaá frescura que vem do azul ethereo e vasto,que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céossem esforço nenhum, como a espiral da essenciaque se evola da flôr, se a abelha delicadalhe poisa na corolla o vôo leve e casto!
Bemdito seja Deus! Não póde imaginarcomo eu fico contente ouvindo assim fallar!...
Mas que idéa fazia então de mim? Julgavatalvez que eu fosse atheu?
Deus me perdôe... pensava!
Como poude a sua alma angelica e tão boafazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça?
Ah! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa:eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa...E a gente vê só cara e não vê corações...
E se o visse, Joaquina!...
E que é que me serviao ver-lhe o coração?
Nada, é certo. Entretantoconheceria bem as minhas intenções,a esperança que faz brotar, em cada diaque passa, um pensamento alegre, puro e santo...
É, mas diz o rifão que está o inferno cheiode boas intenções!...
Tem razão; mas não mintose lhe disser tambem, lealmente, o que sinto:ás vezes mais parece um verdadeiro infernoeste peito infeliz...
Abrenuncio, menino!...Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!...Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno,em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!...Virgem Maria! Credo!
Alma boa de santa!...A tua vida inteira adormeceu. A aurorajá para ti não tem aquelle brilho vivoque a primavera, em luz, alastra pelos campos...Tudo se transformou em outra vida; agoraa fonte já soluça, a brisa já não canta;aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo,o sol não tem calor, o céo já não é glastro,as estrellas febris parecem pirilampos;trazes o teu olhar constantemente a rastro;sómente a fé te anima; é por isso que extranhaso inferno abrasador que muita vez dominaa minha mocidade.
Isso me bacorejaalgum amor perdido ahi por essas eiras...
É possivel, quem sabe? Os ares das montanhastem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina!
E diga-me, que olhar é esse que negrejaa sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...
Que olhar?
Mas é segredo?
É, por ora é segredo...
Ah! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medoque eu descubra o mysterio, a princeza encantadaque assim lhe traz a vida em tantas amarguras...
Não é mysterio, não. É... cousa complicada!...
Faz muito bem zelar a flôr dos seus amores;não os conte a ninguem; se acaso as desventuraslhe roubarem o somno agarre-se com Deus...
tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvido
Reze constantemente á Senhora das Dôres.Acceite este rosario e tenha-o por bordão.É bemaventurado aquelle que padece,porque é delle, menino, o reino azul dos céos...E Deus a quem promette estende sempre o pão;reze e será feliz... Essa alma bem merece...
Santa velhinha, santa...
E nem um ai, silencio...Olhe quem vem ali...
O Padre João Fulgencioe Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...
Parece que ficou um tanto atrapalhado...
Sempre que a vejo, assim tão cheia de bondade ecéga...
Então, que sente?...
Uma dôr inaudita,que reveste de luto as minhas alegrias:Ha tanta luz espalhadana concha astral dos espaços!E os olhos della tão baços!E a fronte tão macerada!
Talitha vem apoiada ao braço de padre João
Pois Deus Nosso Senhor nos dê muitos bons dias.
assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mão
Como passou a noute?
Assim; mais descançado...Sonhando... E o Senhor Cura?...
Eu? Ah! na minha idadejá se não dorme; eu passo a noute toda em claro,de rosario na mão, pedindo a Deus por nós!E quando surge o dia e mal o Sol desponta,dando o braço a Talitha, encaminho-me á Egreja.
Diz a missa que ou ouço...
E é raro, muito raro,voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, sós.Ás vezes vem comnosco esse infeliz sargentoque arrasta por ahi o longo soffrimento,velho e cego tambem, e eu, mortiça candeia,a conduzir os dois pelas ruas da aldeia!
Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta,nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja!No emtanto está comnosco ha sete mezes, não?
Isso mesmo eu já disse...
Eu dei a explicação...
E poder-se-á saber? Não é curiosidade?
Talvez seja, talvez...
Não é!
Então ouçamos!...
Eu rezo no silencio o santo sacrificio,no fundo de minh'alma elevo o meu altar,sob o docel azul das minhas esperanças!...
E eu sem conhecer mais essa novidade!...
Qual?
Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos...
Padre não é sómente aquelle que a rezaresgota uma existencia ao peso do cilicioe vae pelas manhans, feliz como as creanças,curvar humildemente a fronte e a consciencia,na sombra da capella, aos pés do Redemptor...
Mas ha d'outros, então?
Eu não conheço, filha!
Sacerdote é tambem aquelle que tem cultoao qual offereceu toda a sua existencia.Padre, quem se dedica um dia com fervora amar alguem na terra a cujos pés se humilha,tambem é sacerdote...
E eu, sacerdote, exultoouvindo do seu labio esta expressão severa.
Bemdito seja Deus! menino, quem me deraconhecer a mulher que tem um filho assim...
Só eu não posso vêl-o!...
Obrigado, Talitha!
Não tem que agradecer, disse-o sinceramente!Que póde desejar mais uma céga, diga?...
Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor,ouvindo-me a oração, tenha pena de mime acuda com remedio ao mal dessa desdita!
Como eu fôra feliz...
E eu seria contente!...
Se pudesse voltar, ó minha boa amiga,aos seus olhos de céga o perdido fulgor!...
Nunca mais, nunca mais...
Porque é que te condemnasse toda a nossa vida é uma esperança apenas?...
Se é toda de esperanças esta vida,já me fugiu aquella que voavabem junto do meu seio e que roçavasobre a minh'alma a aza foragida.Nem sei onde ella vae, talvez perdidanao volte a mim por não morrer escravana escuridão da noite immensa e cavados meus olhos sem luz e sem guarida...Nunca mais fulgirás, dôce promessa,na minha treva densa e prematura,como o branco luar em noite espessa.Se vive, o olhar dos cégos não fulgura,dorme na sombra e de sonhar não cessana tristeza sem fim da noite escura!
Não descreia, Talitha, as suas illusõesnão fugiram, por ora, esparsas na lufada!Quem foi que lhe roubou a ultima esperança,que braços sem caricia, ou duras privaçõeslhe puderam vibrar tão rude punhalada?Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalançaa dizer-lhe, Talitha:—o seu formoso olhartão cheio de fulgor, um dia ha de voltar...
Só milagre de Deus!
E Deus póde fazel-o:é Pae de todos nós!
Tenho rezado tanto!
Implore mais ainda, espere, tenha crença!
Tenho pedido muito e tanto me flagelloque banho as orações nas bagas do meu prantoe aqueço-as ao calor da minha dôr immensa.A mesma escuridão tremenda me apavora,nem um raio do luz, nem um vago lampejo;nunca mais hei de vêr o campo que se infloranem do luar terei um luminoso beijo...
A tua redempção ainda não surgiu...
Eu tenho tanta fé!
O meu presentimentonão sei o que me diz...
Que o coração sentiu,que a sua alma pensou nessa dôce ventura,eu creio porque sei quanto é nobre e bondoso.Mas eu creio tambem que o meu cruel tormentosómente acabará no chão da sepultura,onde tudo tem fim, embora tenebroso!...
Perdôa-lhe, Senhor, ella ignora o que diz...Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!...
Eu sei bem o que disse; a minha crença é essa.Ha muito que eu imploro ao céo a protecçãoe rezo com fervor á dôce Conceição,pedindo-lhe, a chorar de dôr, que não esqueçaa minha noite escura e tristemente agrestecomo a sombra que faz a copa de um cypreste.Aos pés do seu altar curvei-me como escravae emquanto pela igreja o incenso espiralava,e as simples orações subiam na espiral,fechei-me na mudez do meu fervor mentale fiz uma promessa...
E então qual foi, Talitha?
Votar a minha vida ao divino serviço,se um dia terminasse o meu padecimento;nem peço mais a Deus, é tudo o que cubiço.
E se tornar a ver?
Entrarei num conventoa vestir o burel de freira Carmelita.
Se Deus te ouvisse, filha!
E o Bom Jesus quizesse!...
Se tivera valor a minha humilde prece!...
Se tivera valor, que lhe faria, Ruy?
Não pediria a Deus esse milagre extremo...
Porque?
Porque seria arrancal-a da trevae lançal-a de novo em mais cruel negrura.Juntando toda a fé que de minh'alma flúeeu iria pedir, como um favor supremo,que as almas alevanta e os corações eleva,que me guiasse a mão na lucida aventurade devolver-lhe um dia ao seu olhar perdidoaquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'oraque faziam inveja ao proprio olhar de Flóra!
E seria capaz?
Credo!
Sae
E tão convencidoestou de que o Senhor a mão me guiarianesse instante feliz, que não hesitariaum momento sequer... A simples catarataé facil de operar e em dez dias exactosTalitha voltaria á luz que o céo desatae que dá vida á terra, aos fructos e aos regatos!...Pense, Talitha, pense e permitta que eu façaesse dôce milagre.
E eu tornarei a vêro presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves,as abelhas sugando o mel dos jasmineiros?
Os seus olhos verão a luz da eterna graçano sorriso gracil da alvorada, ao nascernas bandas do oriente em nuvens tão suaves,como um rebanho astral de timidos cordeiros!
E que mais hei de vêr?
Que mais? Verá tambemum velhinho a sorrir com lagrimas na face,e uma velhinha branca e trémula a chorar,e ao pé delles, alegre, o olhar de mais alguem,numa dôce oração tão leve e tão feliz,como se a propria brisa aqui se demorasseum momentinho só tambem para rezar!
E eu voltarei de novo aos encantos da luz?E hei de vêr tambem o jardim do mosteiroonde floresce a fé que a nossa vida arrima,as rosas enfeitando a Virgem que as anima,o corpo de Jesus exanime e trigueiro,entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?...E então assim feliz...
E então, Talitha, e então?
Rezarei pelo Ruy, tão bom, tão generoso,que trouxe ao meu olhar escuro e tormentosoa esmola angelical d'um lucido clarão!
Padre Cura, uma carta.
Uma carta? Mas donde?
recebe-a e examina
Hum! e de quem será?
Joaquina, dê-me o braço...
Joaquina dá-lhe o braço. A Ruy
Dr. Ruy, até já.
ao cura
Até já, meu Padrinho...
Talitha!...
Meu Senhor!...
Perdão, Talitha... nada!
Arrependeu-se, não? E tambem não responde...Desconfia de mim?... Outro tanto eu não façoDoutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho...
Que foi que adivinhou?
Uma coisa adorada...que só tres corações conhecem bem: o seu,o della, e o Senhor que tudo vê do céo...
Della, Talitha, quem?
Daquella princesinhad'olhos da côr do céo, vestida de andorinha...
Ouviu, Doutor, ouviu?
Juro...
Não jure falso!...
a Joaquina
Vamos, Madrinha, embora: é tempo de almoçar.
sahem
Desde que recebe a carta, Padre João lê com a maior attenção. Pela sua face corre toda a expressão de espanto que vae recebendo. Quando sahem Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao approximar-se Ruy, suspende-se.
Esta agora é que foi!
E que foi, Senhor Cura?
Quem sabe? Póde ser um pequeno precalço,mas póde ser tambem que venha de misturaalguma dôr maior. E não posso evitar!...
O que essa carta diz deixou sua alma afflicta:um segredo talvez que vive no seu seio?!...
Foi, sim, mas ja não é. Agora só receioque m'a levem daqui...
Que a levem? quem?
Talitha...
E quem a levará deste remanso augusto?O convento, a promessa?...
Oh! não...
Não tenha susto!E quem mais poderá, nesse caso, arrancal-ado lar em que nasceu?
A Mãe...
Ah! mas... então...
Então... já percebeu?! Ella foi engeitada...Eis aqui o segredo em que esta vida abraço.
baixa a cabeça, scismando
Oh! meiga creatura!
E não poder salval-a!...
Engeitada!...
Sim, sim. Ao romper da alvorada.Ha muito tempo já. Inda no céo brilhavaa estrella da manhã; vieram procurar-me;bateram ao portal com desusado alarme...Ergui-me e fui abrir; a neve branqueavaos campos e eu pensei que um pobre moribundo,no momento supremo em que deixava o mundo,quizesse receber da minha propria mãoo balsamo final da santa extrema-uncção,e abri desta choupana a porta sempre franca.Parecia o jardim uma toalha branca.Era um frio cruel, cortava como fôsseo gume de uma faca e o fio de uma fouce...Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem.No céo luzia só a estrella de Bethlem!Não sei porque a fitei nesse feliz momento.Um silencio profundo amordaçava o vento;dormia a natureza um somno indefinido,vibrou então no espaço um timido vagido...Estremeci de horror...
Era a pobre Talitha?!
Approximei-me e vi, aqui junto do bancoum cestinho de verga envolto em panno branco.Banhou-me o coração uma dôr infinita.Na tragica mudez da alvorada desertatomei nas mãos, tremendo, a delicada offertae agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-acomo quem agasalha o corpo de uma estrellaque tombasse do céo...
E esse penhor amigo?!...
A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro,alma rica de luz, feita de amor e d'oiro.Parece que ao romper daquella madrugadatão fria, tão cruel, mas tão abençoada,que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo,teve o banho castalio, o baptismo de luzda mesma estrella exul que baptisou Jesus.Por isso é que minh'alma agora não sopitaa magua de perdel-a...
E quem terá coragemenergica e viril de arrebatar Talithaao seu amor leal e bom, dôce miragem,no deserto feliz desta velhice austera?
A mãe que a vem buscar...
A mãe não tem direito...A mãe que engeita a filha é peior que uma fera!
Mas é mãe!...
Sim, será, sem coração no peito.
Engana-se, doutor, a mãe que hoje a reclama,depois de tanto tempo, é que lhe tem amor...
Como a engeitou, então?
A fera tambem ama...Quem sabe o que terá soffrido essa mulher?Sabe-o sómente o céo, calcule-o quem puder.E diz-me o coração que vou perdel-a em breve.
Erguendo as mãos ao céo
Não me tires, meu Deus, esse gentil penhor!Repara que já tenho os cabellos de neve,tão tremulas as mãos, e os labios descorados,como sonhos que vão batidos e levadosnum extremo soluço... O que eu tenho no mundo,pouco mais é que um ai e o golpe agora é fundo!
Enxuga os olhos e sáe
Ruy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão, sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce, tacteando, até junto delle.
Padrinho, então não vem?
Ah! Talitha...
Perdão!Pensei que estava aqui...
Já se foi...
Obrigada...
Vae retirar-se
Talitha!
Senhor Ruy!
O seu bom coraçãoinda não lhe contou, baixo, muito baixinho,quasi a tremer de medo e susto, um segredinho,diga, não lhe contou?
Que pergunta engraçada!
E vive então sereno?
Ah! Sim, tenho certeza!
É bem feliz, Talitha, a sua singeleza!Outro tanto, porém, ao meu já não succedeque o sinto palpitar acceleradamente,como quem vae fallar e o soffrimento impede.
Eu bem lh'o disse ha pouco...
Entretanto eu lhe juro...
Não jure que é peccado a jura de quem senteque não diz a verdade. É mais bello e mais puronão negar.
Tem razão, mas eu não disse, aindaqual era o juramento...
E qualquer que elle seja...
Diga, diga o que sente...
Ha de ser...
Ha de ser?
Não digo...
Diga, sim, a sua voz bemvindaha de me dar a esmola honesta e bemfazejaque a minh'alma sem luz precisa de viver.E do seu labio casto apenas um sorrisovale mais que uma estrella e rasga um paraiso.
Assim o quer, direi; jamais o seu protestopóde ser verdadeiro...
E porque não, Talitha?...