Não sei, não sei porque. A jura é como o gestoque abala fortemente, a nossa vida agita,mas passa e foge...RuyAh! sim, quando falla sómenteo labio, sem fallar tambem o coração...Ah! de certo que assim o labio sempre mente.Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mãode quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza,apenas num momento, empallidece e tomba,bem como se a roçára a ponta fria da azafeita de gelo e dôr de alguma extranha pomba,quando um homem que sempre olhou de frente o soltem medo de encarar o olhar de um rouxinol,e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora,quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidorado vento e dos trovões...Talitha,interrompendoEntão?...RuyAssim revelaque é grande, generoso e casto o sentimentoque apenas se traduz e que tão mal se velana gaze pueril d'um simples juramento!Talitha,ingenuaQuem foi que o ensinou a fallar assim?Ruy,timidoDigo?...Talitha,ingenuaE porque não? Quem foi?...Ruy,timidoNem mesmo eu sei, Talitha!Talitha,insistidoNem sabe onde aprendeu?Ruy,sorrindoQuer aprender commigo?Talitha,ingenua e tristeNão me quer responder, nem confessa, nem nega...Se eu pudesse aprender, de que valera á cégasaber fallar assim?Ruy,tristeÁ céga?Talitha,simplesE á Carmelita?...Ruy,anciosoÁ Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhosrecuperando a luz, como duas estrellas,irão illuminar as fragas e os escolhosdas montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas?Quer sepultar-se em vida?TalithaE não é cemiteriomaior a escuridão deste pavor funereo,sem vêr o sol que doira as nuvens do poente,sem vêr a lua assim como um berço dolenteembalando no azul um sonho que não morre,não vêr duma colmeia o mel que filtra e correcomo um rio de luz nascendo num enxame,sentir e adivinhar a suprema bellezada madrugada em flôr, das noites constelladas,dos mares e do céo, de toda a natureza,ter olhos e não vêr, inda haverá quem chamevida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradasdo que esta noite immensa e triste, sem estrellas,não póde ser, de certo, a solidão das cellas,e o sol que tudo aquece, aquecerá de levea macerada fronte á monja que não tevenem um seio de mãe que um dia a amamentasse,nem a luz d'um olhar na pallidez da face,e nem um coração...RuyTalitha!Talitha,ingenuaMeu doutor!Ruy,com intençãoUm coração?Talitha,ingenuaQual foi?Ruy,tomando-lhe a mãoO meu...Talitha,comprehendendo, envergonhadaO seu?Retira a mãoRuy,enleiadoPerdoe.Pausa prolongadaTalitha,implorandoQue mal lhe fiz?RuyRasgou-me o coração, Talitha;e pensará, talvez, que não me fere a dôrde vêl-o assim rasgar?Talitha,humilde, implorandoMas creia, Ruy, que foisem que eu desse por isso. E se o mal está feitoseja agora gentil e não me rasgue o peito.Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita,não se lembre da céga e deixe-a definharna torva escuridão desta noite polar...RuyE se eu não conseguir tirar do pensamentoo seu casto perfil, celeste e macilento,se a minh'alma quizer viver escravisadaunindo o meu destino á corrente doiradaque me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio,se o meu olhar prefere esse apagado ciriodos seus olhos de céga á lucida manhando amor sentimental de alguma castellan,como esquecel-a então?Joaquina apparece ao fundoTalitha,tristeNão creio...RuyMas porque?Já tão cedo a sua alma angelica descrêda minha que, arrastada á fimbria azul da sua,por toda a parte a segue e a seu lado fluctua?Não recorda, Talitha, o dia amarguradoem que eu entrei aqui perdido e quasi morto?Não se lembra da noite em que eu fui condemnado?Não se lembra talvez das horas de confortoque os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôrme trouxeram a rir, como um remedio santoda minha vida enferma á cruciante dôr?Não recorda talvez que esse supremo encanto,essa graça divina, aligera e bemditaa vida me salvou?TalithaNão creio...Ruy,curiosoÉ tão cruel!Porque razão não crê, a minha alma fielsimplesmente traduz o que a sua entendeu?Talitha,com intençãoSó porque a sua mão na minha não tremeu.RuyEntretanto, Talitha, eu amo-a...Talitha,tremulaRuy!...Ruy,apertando-lhe a cinturaTalitha!Beija-lhe docemente a mãoTalithaAh! E eu sem poder vêr o labio que me beija!...Que destino fatal, que desgraçada eu sou!RuyNão foi a minha bocca ardente que a beijou.Foi o dôce rumor da abelha que voejasugando á sua mão de branca flôr de lizo magico licôr, o aroma delicado,que vem do rosicler florido e perfumado,no sangue que palpita em vibrações subtis!!TalithaMas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!!Ruy,interrompendoPobre sou eu que peço a esmola angelicaldesse affecto gentil que a vida transfigura.TalithaTão pobre que não tenho um Pae que me conforte,nem caricias de mãe que veja esta tortura...RuyA sua alma divina essa tortura encobre...TalithaTão pobre que este olhar perdido é glacialcomo um floco de neve, e a desfazer fluctúa...RuyOs seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.TalithaEngeitada ao nascer vivo esperando a morte...RuyAlma branca de luz que illuminastea ventura das minhas esperanças,bemdito seja o véo de negras trançasque sobre a minha vida desnastraste!Bemdito seja nesse dôce engastedas palpebras subtis brancas e mansaso mesto olhar que cobre de bonançasa vida deste amor que tu salvaste!És para mim a linha do horisonte,curva do céo, á noite, constellada,agua lustral de uma sagrada fonte,toda a ambição dest'alma allucinada,e a nuvem que circumda a minha frontecomo um disco de treva avelludada...Talitha,de mãos postasMeu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!...RuySim, Talitha, verá; o meu maior desveloha de ser o fulgor do seu formoso olhar.SCENA VIIOs mesmos eJoaquinaJoaquina,que tem ouvido tudo, feliz e contente, vem descendo com lentidão e junto de ambos exclama:Caia a benção de Deus neste formoso par...Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-seRuy,recuperando a serenidadeTalitha assim o quiz!Talitha,perturbadaA culpa não foi minha...Joaquina,sorrindo e acariciando-aA culpada fui eu que te deixei sósinha!CAE O PANNOSEGUNDO ACTOSala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas. Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam.SCENA IJoaquinaePadre JoãoConversando alegrementeJoaquinaGraças a Deus, chegou por fim o grande dia...PadreÉ verdade, é verdade! irmã, quem nos diriaque a linda pequenita...JoaquinaA formosa engeitada...PadreQue Deus nos enviou naquella madrugadainclemente de inverno...Joaquina,interrompendoE parece-me aindavêr a neve a cahir num pó macio e brancono cestinho de vime, ali, ao pé do banco...PadreE eu tenho aqui no ouvido aquella prece lindaque rezaste ao Senhor quando ella adormeceudepois de ter mamado...JoaquinaE, lembras-te, que fina!Tão branquinha, tão loira, a rir, tão pequenina!PadreSe me recordo, irmã!?... Pois então, se fui euquem primeiro velou, durante o dia inteiro,o somno encantador da candida innocente!...Se me recordo, então?!...Joaquina,sorrindoMansa como um cordeiro!...Mas uma coisa eu sei que esqueceste...Padre,curiosoQual é?JoaquinaNão te digo, adivinha...Pausa prolongadaÉ do primeiro dente...Padre,alegreÓ Joaquina! É verdade! O que se fez!... Atéparece que a alegria andava á tentação;e nós a rir, a rir, a rir perdidamente...Sempre ha coisas, meu Deus!...JoaquinaA vida é uma illusão,ligeira como o vento, ás vezes nem se sente,não é verdade?PausaFalla?...PadreÉ, de certo, Joaquina.JoaquinaPois então que mal faz que a gente esteja agoraa rir do que lá vae por essa vida fóra?!...Pois agora é que é rir, que passou a desgraça,quando a gente é feliz té na morte acha graça.PadrePor causa desse dente esteve a pequeninatres dias por um triz...Joaquina,tristeBem ás portas da morte...PadreValeu-lhe a vela benta...JoaquinaInda foi uma sorteeu ter guardado aquella...Padre,rapidamente alegre, interrompendoÓ! mana, e o baptisado?...Que festa! E que jantar! Aquelle frango assado,com rodellas de paio; inda me estão lembrandoaquelle arroz de forno e aquelle vinho brando...Recordas?Joaquina,com maliciaBem me lembro, até nesse jantaro vinho começou a subir e a trepar...Padre,interrompendo, com gravidadeÓ mana...Joaquina,saudosaE já lá vão uns bons dezeseis annos...Padre,pensativoMas como corre o tempo!Joaquina,nostalgicaE como a gente muda!...PadreA vida não é nada! A magua, os desenganos,a enfermidade e a dôr fazem a gente velha;e não ha santo algum no céo que nos acuda!JoaquinaPois sim, sim, mas depois os filhos vão crescendoe os paes a cada instante, a rir, vão-se revendona luz do seu olhar em que tambem se espelhao tempo que passou...Padre,interrompendoComo o tempo é cruel!E aquelle immenso mal que um dia nos feriu?...Recordas? Que manhã! Mais amarga que o fel!Joaquina,olhando o céoSe me lembro, Senhor, quando ella ficou céga,que só podia andar guiada por alguem!...Não hei de recordar? Recordo muito bem!Quanta vez, coitadinha, a chorar me pediuque lhe fôsse comprar dois olhinhos melhorespara trocar os della...Padre,limpando os olhosAté se me despegao coração de dôr!...JoaquinaE nenhum dos doutoresatinou de a curar, nem sequer as promessasderam com ella a vêr...PadreQuantas vezes subios tres degráos do altar e rezando pediferventemente a Deus, por amor de Jesus,que lhe tornasse a dar aos seus olhos sem luza visão que perdera...JoaquinaE agora tu confessasque a sorte a perseguiu sem dó nem piedade,apezar de ella ser um mimo de bondade?PadreConfesso. Até que Deus mandou a desventurada sua juventude a alvorada felizdesse primeiro amor...JoaquinaE se Elle assim o quiz!...PadreQue seja feita a sua energica vontade,nos céos como na terra e que um dia a torturatenha fim!JoaquinaPois não teve, afinal?...PadreEu não sei...Dizem vocês que teve e a operação deixouo melhor resultado...JoaquinaElle diz que a curou!O que elle fez não sei, nem mesmo pergunteimas que ella torne a vêr...PadreÉ isso o que desejaa minh'alma sincera, é vêl-a venturosa!Entretanto, meu Deus, por que Talitha o sejaé preciso, talvez, que a vara da desgraçame toque o coração e a fonte caprichosadas lagrimas estale. A dôr que me ameaçaenche-me de pavor. Tenho um presentimentoque me não abandona um dia, um só momento!JoaquinaIsso não vale nada...PadreEntretanto eu meditonaquelle casamento.Joaquina,interrompendoO casamento?...PadreSim;o casamento, sim, que vae arrebatal-aá nossa pobre vida... Está, porém, escripto,e Deus que o destinou ha de por fim leval-ae nunca mais trazel-a aqui, junto de mim.JoaquinaE quem nos diz a nós que essa desconfiançanão seja apenas medo?PadreO coração, irmã!...JoaquinaAh! Sim o coração... o coração tambem cança!Já não regula o teu, nem serve de evangelho,é coração de padre e padre muito velho...PadrePois bem, não servirá, mas inda esta manhã,por occasião da missa, as lagrimas vertidastombaram-me da face ao calix consagrado,ao recordar, então, que um dia, angustiado,hei de vêl-a partir! Como fôram sentidasessas bagas leaes que, em silencio, choreie que juntas ao vinho eu mesmo consagrei!Eu creio em Deus e espero o golpe do destinocomo um favor do céo purissimo e divino!JoaquinaDescança, meu irmão! O Ruy é bom rapaz,tem muito amor á gente, ha de ficar, verás!Parece alma de santo e só pensa no bem.PadrePóde ser, póde ser, mas recorda tambema promessa que fez a nossa pequenitae, se ella conseguir outra vez a visão,lá se nos vae embora a meiga Carmelita...JoaquinaAh! disso eu não receio; então crês que o conventotenha força capaz de virar-lhe a razãoo fazel-a esquecer, assim, o casamento?PadreMas se não a levar o voto de noviçaha de a levar o amor que quanto vê cobiça.De certo a chamará, talvez para bem longe,a palavra inspirada e convicta do mongeque nos fez o milagre e deu olhos á céga...É por isso, meu Deus, que est'alma não socega!SCENA IIOs mesmos eRuyRuy,entrandoBons dias, Senhor Cura.A JoaquinaE a mãe Joaquina, então,como passou a noute? Aposto que sonharammuito commigo, sim?PadreFoi tal qual!...JoaquinaPois eu, não;tive mais que fazer, dormi regaladinhadurante a noite inteira...RuyE bem conchegadinha?JoaquinaNem mais!...RuyE claro então que nem, sequer, cuidaramde Talitha...JoaquinaCuidei, sim senhor...Ruy,prazenteiroNão entendo...se dormiu toda a noite...Padre,a rirÉ, eu não comprehendotambem como se possa, a um tempo só, dormire velar!... É bem certo o rifão: mais depressase agarra um mentiroso...Ruy, concluindoExacto; do que um coxo...Ambos riem muitoJoaquinaMas eu é que não sei que tanto tem que rir!A RuyNem é da sua contaao Padree nem da sua! Peçaa Deus Nosso Senhor que dê mais tento aos dois:batendo com um dedo na testatalvez haja por lá um parafuso frouxo...Padre,com gravidade comicaÓ mana, isso é demais...Ruy,abraçando-aNão vá subir á serra;deixemos essa historia a resolver depoise vamos conversar da luz que se descerrae que hoje ha de fazer toda a nossa alegria...PadreFallava eu nisso mesmo antes da sua entrada.JoaquinaE quer saber, menino, o que elle me dizia?...RuyPois diga, francamente, e não esqueça nada...PadreNão havia segredo, era tão naturale tão simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco...JoaquinaDeixe-o fallar, menino, anda que é mesmo um louco;não diz coisa com coisa, a tudo julga male já pelo peior!Contando pelos dedosPrimeiro, que a pequenabreve nos deixará, que o Ruy vae desposal-a,e depois, o convento: ora veja se cabeuma cantiga assim na cabeça d'alguem?Se ella ha de preferir aquella quarentenaá casa dum marido!... A mim já não abalaessa ideia!...Ao PadreVocê nunca soube, nem sabeum marido bonito os encantos que tem...A RuyFinalmente, receia...Padre,interrompendoEis onde pega o carro!...E sabe Deus, Doutor, que se não fôsse a crença!!...RuyPois bem, Joaquina, diga, em que é que o Cura pensa?JoaquinaQue depois de casada...Padre,interrompendoOuça-me então, eu narro:Receio, é natural, que ella siga o marido,e venha a solidão morar nesta choupanaonde eu mesmo não sei como tenho vivido!E que será de mim e que será da mana,diga-me, Ruy, tambem o que será de nós,dois velhos, nesta casa, enfermos e tão sós?...vendo, a cada momento, a lucta nos escolhosda saudade e da dôr, sem ter no dia extremoaquella mão leal que feche os nossos olhos?!...Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo...RuySim, mas não tem razão, pensemos na ventura,nessa immensa ventura...Joaquina,interrompendoÉ mesmo assim que eu penso...RuyQue vae sentir Talitha ao vêr a luz do sol,tantos annos depois de longa noite escura,envolto o dôce olhar num véo pesado o denso!Vamos fallar de nós, deste novo arrebolque nos ha de banhar o coração e a alma,como um luar de outomno, uma alvorada calma,quando ella abrir á luz a languida pupillados olhos ideaes, tão doces e tão flavos,que são como um casal de abelhas que assimilla,nas flôres dos jardins, o loiro mel dos favos.Pensemos na expressão que o seu olhar vae terquando ella vir ao sol tão brancos os cabellosdo Senhor Cura...PadreAssim como a neve a descersobre a minha cabeça, em flócos e novellos...Joaquina,saudosaE nós dois a curvar ao peso da nevada,o corpo já pendido, a procurar a estradaque váe á eternidade...Ruy,interrompendo alegrementeE já pensou, Joaquina,no famoso jantar?JoaquinaNão, depois se combina.Como faltam ainda uns dias ao Natalvamos tratar primeiro...Padre,atalhandoIsso! do nosso almoço,porque eu já estou sentindo um enorme alvoroçocá por dentro.A RuyQue diz?RuyTudo quanto fizera mãe Joaquina, está bem feito.Joaquina,ironicaAgradecida!Eu já volto.SaeSCENA IIIPadreeRuyPadreEntão, Ruy, pensou no resultadoque vae ter para nós a sua operação?RuyTenho pensado muito e só me felicito:parece que se abriu um vasto rosicler,enchendo de perfume o lar da minha vida;descanta-me no peito o coração aladotão viva, tão alegre e limpida canção,que me parece ouvir palpitar o infinitoe a dôce voz de Deus abençoar-me o nome...PadrePois bem, Ruy, entretanto a duvida consomeos meus dias; medito e tenho muito medode uma lucta que vae ser travada, em segredo,no seio de Talitha...RuyE então que lucta é essa?PadreO encontro, á luz do Sol, do amor e da promessa.Conheço-a muito bem. Alma branca de pérola,possue alguma coisa assim divina e cérula.Foi creada por mim, na dôce regiãoem que repoisa a crença á sombra da oração...e sei que a pobresinha, um dia, prometteuprofessar e vestir o burel carmelita,se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar.A Mãe de Deus ouviu a prece, mas agoraque um novo dia aponta a curva azul do céo,mostrando-lhe o porvir numa formosa aurorade amor e de ventura, a angelica Talithaverá, na sua frente, erguer-se e fluctuar,constante, pertinaz, energica e severa,a promessa que fez, a consciencia austeraa exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amora sorrir e a tental-a...RuyEsse mesmo receiotambem me preoccupa. Eu já presinto a dôrque vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio.Assim a Providencia ás vezes desconheceo proprio mal que faz e como que se esqueceda victima innocente e nessa lucta enormea desgraça feroz que não cança, nem dorme,de certo vencerá, se nós que a divisamosao longe, no horisonte, a deixarmos crescertão alto, que domine aquelle pobre ser.E preciso pensar e vêr bem se afastamosda sua intelligencia a ideia do convento,como se afasta a flôr dos impetos do vento.PadreE quem terá prestigio e força de arrancaráquella consciencia, a dôce, a delicada,a candida expressão da promessa sagradaque ella espontaneamente ergueu junto ao altar?RuyNao desejo arrancar essa illusão formosaá crença da sua alma... A raiz dessa rosanão é muito profunda, apenas esbracejaá flôr do coração, por isso não vicejaainda como o seio altivo e perfumadode uma corola aberta!... Um botão delicadoagora principia a despertar á luz...Dessa casta missão, que moverá Jesus,sómente, Senhor Cura, a sua phrase austerase póde encarregar; o prestigio da idade,a alvura de luar das cans alabastrinas,a palavra de amor, piedosa e severa,do seu conselho bom, tão cheio de amizade,a sua consciencia e as affeições divinasque avizinham do céo o seu viver de santo,a fé que o seu olhar inspira a quem o fita,hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto,nos olhos virginaes da mimosa Talitha.PadreSacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos,nas duras provações, na dôr, nos desenganos,sem nunca haver mentido uma só vez na vida,tenho medo que a voz de commoção me trema,que me fuja o valor á hora assim blasphemade entregar á mentira esta fiel guarida...RuyCaridosa mentira, ó culpa dôce e castaque salva uma esperança e mais um anjo afastaá amargura cruel de um grande sacrificio!Responda, Senhor Cura, em sua consciencia,acredita que Deus condemne uma existenciapurissima de flôr, a tamanho supplicio?Que peccados terá Talitha a redimirque precise descer em vida á sepultura,agora que brilhou a estrella do porviraos seus olhos, sem luz, na densa noite escura?Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva:é aspera a mentira e tem a côr terrena,ao passo que a sua alma é branca, de açucena,e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva!Em vez de sacerdote, a confessar a freira,seja Pae que dirige o coração da filha!Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira,desviou-lhe a razão para diversa trilha.Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho,traga de novo a rola ao palpitar do ninho!PadreE pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia,deva pedir que a filha afaste da lembrançaa promessa que fez, com tanta segurança,quando implorava a Deus piedade e clemencia?...RuyMeu amigo, nao vê que esse immenso fervornascia do tropel da magua e do pavor?Que, assim feita, a promessa, além de não ser santa,as almas enlanguece e os corações quebranta?Não vê que faltou luz áquella intelligencia?Que aquella alma vergou á estolida exigenciado desespero intenso e bárbaro, que a anciade revêr inda o sol da sua alegre infanciaenvolver-lhe a cabeça em nimbos de venturaa levaram, talvez, nessa hora de tortura,á extrema tentação de dar a mocidadepor um dia feliz de viva claridade?Levita, cuja mão diariamente elevaao throno do Senhor a hostia consagrada,levanta esse sacrario á curva constellada,a flôr que pede sol não viverá na treva!...Padre,depois de uma pausa
Não sei, não sei porque. A jura é como o gestoque abala fortemente, a nossa vida agita,mas passa e foge...
Ah! sim, quando falla sómenteo labio, sem fallar tambem o coração...Ah! de certo que assim o labio sempre mente.Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mãode quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza,apenas num momento, empallidece e tomba,bem como se a roçára a ponta fria da azafeita de gelo e dôr de alguma extranha pomba,quando um homem que sempre olhou de frente o soltem medo de encarar o olhar de um rouxinol,e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora,quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidorado vento e dos trovões...
Então?...
Assim revelaque é grande, generoso e casto o sentimentoque apenas se traduz e que tão mal se velana gaze pueril d'um simples juramento!
Quem foi que o ensinou a fallar assim?
Digo?...
E porque não? Quem foi?...
Nem mesmo eu sei, Talitha!
Nem sabe onde aprendeu?
Quer aprender commigo?
Não me quer responder, nem confessa, nem nega...Se eu pudesse aprender, de que valera á cégasaber fallar assim?
Á céga?
E á Carmelita?...
Á Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhosrecuperando a luz, como duas estrellas,irão illuminar as fragas e os escolhosdas montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas?Quer sepultar-se em vida?
E não é cemiteriomaior a escuridão deste pavor funereo,sem vêr o sol que doira as nuvens do poente,sem vêr a lua assim como um berço dolenteembalando no azul um sonho que não morre,não vêr duma colmeia o mel que filtra e correcomo um rio de luz nascendo num enxame,sentir e adivinhar a suprema bellezada madrugada em flôr, das noites constelladas,dos mares e do céo, de toda a natureza,ter olhos e não vêr, inda haverá quem chamevida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradasdo que esta noite immensa e triste, sem estrellas,não póde ser, de certo, a solidão das cellas,e o sol que tudo aquece, aquecerá de levea macerada fronte á monja que não tevenem um seio de mãe que um dia a amamentasse,nem a luz d'um olhar na pallidez da face,e nem um coração...
Talitha!
Meu doutor!
Um coração?
Qual foi?
O meu...
O seu?
Retira a mão
Perdoe.
Pausa prolongada
Que mal lhe fiz?
Rasgou-me o coração, Talitha;e pensará, talvez, que não me fere a dôrde vêl-o assim rasgar?
Mas creia, Ruy, que foisem que eu desse por isso. E se o mal está feitoseja agora gentil e não me rasgue o peito.Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita,não se lembre da céga e deixe-a definharna torva escuridão desta noite polar...
E se eu não conseguir tirar do pensamentoo seu casto perfil, celeste e macilento,se a minh'alma quizer viver escravisadaunindo o meu destino á corrente doiradaque me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio,se o meu olhar prefere esse apagado ciriodos seus olhos de céga á lucida manhando amor sentimental de alguma castellan,como esquecel-a então?
Joaquina apparece ao fundo
Não creio...
Mas porque?Já tão cedo a sua alma angelica descrêda minha que, arrastada á fimbria azul da sua,por toda a parte a segue e a seu lado fluctua?Não recorda, Talitha, o dia amarguradoem que eu entrei aqui perdido e quasi morto?Não se lembra da noite em que eu fui condemnado?Não se lembra talvez das horas de confortoque os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôrme trouxeram a rir, como um remedio santoda minha vida enferma á cruciante dôr?Não recorda talvez que esse supremo encanto,essa graça divina, aligera e bemditaa vida me salvou?
Não creio...
É tão cruel!Porque razão não crê, a minha alma fielsimplesmente traduz o que a sua entendeu?
Só porque a sua mão na minha não tremeu.
Entretanto, Talitha, eu amo-a...
Ruy!...
Talitha!
Beija-lhe docemente a mão
Ah! E eu sem poder vêr o labio que me beija!...Que destino fatal, que desgraçada eu sou!
Não foi a minha bocca ardente que a beijou.Foi o dôce rumor da abelha que voejasugando á sua mão de branca flôr de lizo magico licôr, o aroma delicado,que vem do rosicler florido e perfumado,no sangue que palpita em vibrações subtis!!
Mas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!!
Pobre sou eu que peço a esmola angelicaldesse affecto gentil que a vida transfigura.
Tão pobre que não tenho um Pae que me conforte,nem caricias de mãe que veja esta tortura...
A sua alma divina essa tortura encobre...
Tão pobre que este olhar perdido é glacialcomo um floco de neve, e a desfazer fluctúa...
Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.
Engeitada ao nascer vivo esperando a morte...
Alma branca de luz que illuminastea ventura das minhas esperanças,bemdito seja o véo de negras trançasque sobre a minha vida desnastraste!Bemdito seja nesse dôce engastedas palpebras subtis brancas e mansaso mesto olhar que cobre de bonançasa vida deste amor que tu salvaste!És para mim a linha do horisonte,curva do céo, á noite, constellada,agua lustral de uma sagrada fonte,toda a ambição dest'alma allucinada,e a nuvem que circumda a minha frontecomo um disco de treva avelludada...
Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!...
Sim, Talitha, verá; o meu maior desveloha de ser o fulgor do seu formoso olhar.
Caia a benção de Deus neste formoso par...
Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-se
Talitha assim o quiz!
A culpa não foi minha...
A culpada fui eu que te deixei sósinha!
CAE O PANNO
Sala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas. Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam.
Conversando alegremente
Graças a Deus, chegou por fim o grande dia...
É verdade, é verdade! irmã, quem nos diriaque a linda pequenita...
A formosa engeitada...
Que Deus nos enviou naquella madrugadainclemente de inverno...
E parece-me aindavêr a neve a cahir num pó macio e brancono cestinho de vime, ali, ao pé do banco...
E eu tenho aqui no ouvido aquella prece lindaque rezaste ao Senhor quando ella adormeceudepois de ter mamado...
E, lembras-te, que fina!Tão branquinha, tão loira, a rir, tão pequenina!
Se me recordo, irmã!?... Pois então, se fui euquem primeiro velou, durante o dia inteiro,o somno encantador da candida innocente!...Se me recordo, então?!...
Mansa como um cordeiro!...Mas uma coisa eu sei que esqueceste...
Qual é?
Não te digo, adivinha...
Pausa prolongada
É do primeiro dente...
Ó Joaquina! É verdade! O que se fez!... Atéparece que a alegria andava á tentação;e nós a rir, a rir, a rir perdidamente...Sempre ha coisas, meu Deus!...
A vida é uma illusão,ligeira como o vento, ás vezes nem se sente,não é verdade?
Pausa
Falla?...
É, de certo, Joaquina.
Pois então que mal faz que a gente esteja agoraa rir do que lá vae por essa vida fóra?!...Pois agora é que é rir, que passou a desgraça,quando a gente é feliz té na morte acha graça.
Por causa desse dente esteve a pequeninatres dias por um triz...
Bem ás portas da morte...
Valeu-lhe a vela benta...
Inda foi uma sorteeu ter guardado aquella...
Ó! mana, e o baptisado?...Que festa! E que jantar! Aquelle frango assado,com rodellas de paio; inda me estão lembrandoaquelle arroz de forno e aquelle vinho brando...Recordas?
Bem me lembro, até nesse jantaro vinho começou a subir e a trepar...
Ó mana...
E já lá vão uns bons dezeseis annos...
Mas como corre o tempo!
E como a gente muda!...
A vida não é nada! A magua, os desenganos,a enfermidade e a dôr fazem a gente velha;e não ha santo algum no céo que nos acuda!
Pois sim, sim, mas depois os filhos vão crescendoe os paes a cada instante, a rir, vão-se revendona luz do seu olhar em que tambem se espelhao tempo que passou...
Como o tempo é cruel!E aquelle immenso mal que um dia nos feriu?...Recordas? Que manhã! Mais amarga que o fel!
Se me lembro, Senhor, quando ella ficou céga,que só podia andar guiada por alguem!...Não hei de recordar? Recordo muito bem!Quanta vez, coitadinha, a chorar me pediuque lhe fôsse comprar dois olhinhos melhorespara trocar os della...
Até se me despegao coração de dôr!...
E nenhum dos doutoresatinou de a curar, nem sequer as promessasderam com ella a vêr...
Quantas vezes subios tres degráos do altar e rezando pediferventemente a Deus, por amor de Jesus,que lhe tornasse a dar aos seus olhos sem luza visão que perdera...
E agora tu confessasque a sorte a perseguiu sem dó nem piedade,apezar de ella ser um mimo de bondade?
Confesso. Até que Deus mandou a desventurada sua juventude a alvorada felizdesse primeiro amor...
E se Elle assim o quiz!...
Que seja feita a sua energica vontade,nos céos como na terra e que um dia a torturatenha fim!
Pois não teve, afinal?...
Eu não sei...Dizem vocês que teve e a operação deixouo melhor resultado...
Elle diz que a curou!O que elle fez não sei, nem mesmo pergunteimas que ella torne a vêr...
É isso o que desejaa minh'alma sincera, é vêl-a venturosa!Entretanto, meu Deus, por que Talitha o sejaé preciso, talvez, que a vara da desgraçame toque o coração e a fonte caprichosadas lagrimas estale. A dôr que me ameaçaenche-me de pavor. Tenho um presentimentoque me não abandona um dia, um só momento!
Isso não vale nada...
Entretanto eu meditonaquelle casamento.
O casamento?...
Sim;o casamento, sim, que vae arrebatal-aá nossa pobre vida... Está, porém, escripto,e Deus que o destinou ha de por fim leval-ae nunca mais trazel-a aqui, junto de mim.
E quem nos diz a nós que essa desconfiançanão seja apenas medo?
O coração, irmã!...
Ah! Sim o coração... o coração tambem cança!Já não regula o teu, nem serve de evangelho,é coração de padre e padre muito velho...
Pois bem, não servirá, mas inda esta manhã,por occasião da missa, as lagrimas vertidastombaram-me da face ao calix consagrado,ao recordar, então, que um dia, angustiado,hei de vêl-a partir! Como fôram sentidasessas bagas leaes que, em silencio, choreie que juntas ao vinho eu mesmo consagrei!Eu creio em Deus e espero o golpe do destinocomo um favor do céo purissimo e divino!
Descança, meu irmão! O Ruy é bom rapaz,tem muito amor á gente, ha de ficar, verás!Parece alma de santo e só pensa no bem.
Póde ser, póde ser, mas recorda tambema promessa que fez a nossa pequenitae, se ella conseguir outra vez a visão,lá se nos vae embora a meiga Carmelita...
Ah! disso eu não receio; então crês que o conventotenha força capaz de virar-lhe a razãoo fazel-a esquecer, assim, o casamento?
Mas se não a levar o voto de noviçaha de a levar o amor que quanto vê cobiça.De certo a chamará, talvez para bem longe,a palavra inspirada e convicta do mongeque nos fez o milagre e deu olhos á céga...É por isso, meu Deus, que est'alma não socega!
Bons dias, Senhor Cura.
A Joaquina
E a mãe Joaquina, então,como passou a noute? Aposto que sonharammuito commigo, sim?
Foi tal qual!...
Pois eu, não;tive mais que fazer, dormi regaladinhadurante a noite inteira...
E bem conchegadinha?
Nem mais!...
E claro então que nem, sequer, cuidaramde Talitha...
Cuidei, sim senhor...
Não entendo...se dormiu toda a noite...
É, eu não comprehendotambem como se possa, a um tempo só, dormire velar!... É bem certo o rifão: mais depressase agarra um mentiroso...
Exacto; do que um coxo...
Ambos riem muito
Mas eu é que não sei que tanto tem que rir!
A Ruy
Nem é da sua conta
ao Padre
e nem da sua! Peçaa Deus Nosso Senhor que dê mais tento aos dois:
batendo com um dedo na testa
talvez haja por lá um parafuso frouxo...
Ó mana, isso é demais...
Não vá subir á serra;deixemos essa historia a resolver depoise vamos conversar da luz que se descerrae que hoje ha de fazer toda a nossa alegria...
Fallava eu nisso mesmo antes da sua entrada.
E quer saber, menino, o que elle me dizia?...
Pois diga, francamente, e não esqueça nada...
Não havia segredo, era tão naturale tão simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco...
Deixe-o fallar, menino, anda que é mesmo um louco;não diz coisa com coisa, a tudo julga male já pelo peior!
Contando pelos dedos
Primeiro, que a pequenabreve nos deixará, que o Ruy vae desposal-a,e depois, o convento: ora veja se cabeuma cantiga assim na cabeça d'alguem?Se ella ha de preferir aquella quarentenaá casa dum marido!... A mim já não abalaessa ideia!...
Ao Padre
Você nunca soube, nem sabeum marido bonito os encantos que tem...
A Ruy
Finalmente, receia...
Eis onde pega o carro!...E sabe Deus, Doutor, que se não fôsse a crença!!...
Pois bem, Joaquina, diga, em que é que o Cura pensa?
Que depois de casada...
Ouça-me então, eu narro:Receio, é natural, que ella siga o marido,e venha a solidão morar nesta choupanaonde eu mesmo não sei como tenho vivido!E que será de mim e que será da mana,diga-me, Ruy, tambem o que será de nós,dois velhos, nesta casa, enfermos e tão sós?...vendo, a cada momento, a lucta nos escolhosda saudade e da dôr, sem ter no dia extremoaquella mão leal que feche os nossos olhos?!...Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo...
Sim, mas não tem razão, pensemos na ventura,nessa immensa ventura...
É mesmo assim que eu penso...
Que vae sentir Talitha ao vêr a luz do sol,tantos annos depois de longa noite escura,envolto o dôce olhar num véo pesado o denso!Vamos fallar de nós, deste novo arrebolque nos ha de banhar o coração e a alma,como um luar de outomno, uma alvorada calma,quando ella abrir á luz a languida pupillados olhos ideaes, tão doces e tão flavos,que são como um casal de abelhas que assimilla,nas flôres dos jardins, o loiro mel dos favos.Pensemos na expressão que o seu olhar vae terquando ella vir ao sol tão brancos os cabellosdo Senhor Cura...
Assim como a neve a descersobre a minha cabeça, em flócos e novellos...
E nós dois a curvar ao peso da nevada,o corpo já pendido, a procurar a estradaque váe á eternidade...
E já pensou, Joaquina,no famoso jantar?
Não, depois se combina.Como faltam ainda uns dias ao Natalvamos tratar primeiro...
Isso! do nosso almoço,porque eu já estou sentindo um enorme alvoroçocá por dentro.
A Ruy
Que diz?
Tudo quanto fizera mãe Joaquina, está bem feito.
Agradecida!Eu já volto.
Sae
Então, Ruy, pensou no resultadoque vae ter para nós a sua operação?
Tenho pensado muito e só me felicito:parece que se abriu um vasto rosicler,enchendo de perfume o lar da minha vida;descanta-me no peito o coração aladotão viva, tão alegre e limpida canção,que me parece ouvir palpitar o infinitoe a dôce voz de Deus abençoar-me o nome...
Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consomeos meus dias; medito e tenho muito medode uma lucta que vae ser travada, em segredo,no seio de Talitha...
E então que lucta é essa?
O encontro, á luz do Sol, do amor e da promessa.Conheço-a muito bem. Alma branca de pérola,possue alguma coisa assim divina e cérula.Foi creada por mim, na dôce regiãoem que repoisa a crença á sombra da oração...e sei que a pobresinha, um dia, prometteuprofessar e vestir o burel carmelita,se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar.A Mãe de Deus ouviu a prece, mas agoraque um novo dia aponta a curva azul do céo,mostrando-lhe o porvir numa formosa aurorade amor e de ventura, a angelica Talithaverá, na sua frente, erguer-se e fluctuar,constante, pertinaz, energica e severa,a promessa que fez, a consciencia austeraa exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amora sorrir e a tental-a...
Esse mesmo receiotambem me preoccupa. Eu já presinto a dôrque vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio.Assim a Providencia ás vezes desconheceo proprio mal que faz e como que se esqueceda victima innocente e nessa lucta enormea desgraça feroz que não cança, nem dorme,de certo vencerá, se nós que a divisamosao longe, no horisonte, a deixarmos crescertão alto, que domine aquelle pobre ser.E preciso pensar e vêr bem se afastamosda sua intelligencia a ideia do convento,como se afasta a flôr dos impetos do vento.
E quem terá prestigio e força de arrancaráquella consciencia, a dôce, a delicada,a candida expressão da promessa sagradaque ella espontaneamente ergueu junto ao altar?
Nao desejo arrancar essa illusão formosaá crença da sua alma... A raiz dessa rosanão é muito profunda, apenas esbracejaá flôr do coração, por isso não vicejaainda como o seio altivo e perfumadode uma corola aberta!... Um botão delicadoagora principia a despertar á luz...Dessa casta missão, que moverá Jesus,sómente, Senhor Cura, a sua phrase austerase póde encarregar; o prestigio da idade,a alvura de luar das cans alabastrinas,a palavra de amor, piedosa e severa,do seu conselho bom, tão cheio de amizade,a sua consciencia e as affeições divinasque avizinham do céo o seu viver de santo,a fé que o seu olhar inspira a quem o fita,hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto,nos olhos virginaes da mimosa Talitha.
Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos,nas duras provações, na dôr, nos desenganos,sem nunca haver mentido uma só vez na vida,tenho medo que a voz de commoção me trema,que me fuja o valor á hora assim blasphemade entregar á mentira esta fiel guarida...
Caridosa mentira, ó culpa dôce e castaque salva uma esperança e mais um anjo afastaá amargura cruel de um grande sacrificio!Responda, Senhor Cura, em sua consciencia,acredita que Deus condemne uma existenciapurissima de flôr, a tamanho supplicio?Que peccados terá Talitha a redimirque precise descer em vida á sepultura,agora que brilhou a estrella do porviraos seus olhos, sem luz, na densa noite escura?Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva:é aspera a mentira e tem a côr terrena,ao passo que a sua alma é branca, de açucena,e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva!Em vez de sacerdote, a confessar a freira,seja Pae que dirige o coração da filha!Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira,desviou-lhe a razão para diversa trilha.Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho,traga de novo a rola ao palpitar do ninho!
E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia,deva pedir que a filha afaste da lembrançaa promessa que fez, com tanta segurança,quando implorava a Deus piedade e clemencia?...
Meu amigo, nao vê que esse immenso fervornascia do tropel da magua e do pavor?Que, assim feita, a promessa, além de não ser santa,as almas enlanguece e os corações quebranta?Não vê que faltou luz áquella intelligencia?Que aquella alma vergou á estolida exigenciado desespero intenso e bárbaro, que a anciade revêr inda o sol da sua alegre infanciaenvolver-lhe a cabeça em nimbos de venturaa levaram, talvez, nessa hora de tortura,á extrema tentação de dar a mocidadepor um dia feliz de viva claridade?Levita, cuja mão diariamente elevaao throno do Senhor a hostia consagrada,levanta esse sacrario á curva constellada,a flôr que pede sol não viverá na treva!...