SCENA IV

Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vês perdôa,porque ha no meu peccado uma intenção tão boa,tão pura e tão leal, que eu sinto adormecidoo velho coração por nunca haver mentido...SCENA IVOs mesmos eJoaquinaJoaquina,entrandoQue grandes trapalhões, aqui a badalarnuma palrice enorme e toda a gente á esperaque o doutor mais o cura acabem de fallar...RuyPor que ha de ser assim tão má e tão severa?PadreRabugice de velha!...JoaquinaÉ só meu o proveito...Ruy,abraçando-aDeixe-o fallar, Joaquina, aquillo é tudo inveja...da sua mocidade!...Riem ambosJoaquina,entre risonha e severaAi, ai! o malcreado!Esquece a obrigação e falta-me ao respeito!E a culpada sou eu! Ora não ha! Pois vejaque emquanto está gastando o seu palavreado,seria bem melhor que cuidasse da enferma,que vive ali no escuro abandonada e erma.PadreE você que fazia?JoaquinaEu fui tratar do almoço;não andei de conversa á espera que o manános cahisse do céo.RuyPor isso falla grosso!JoaquinaNão é da sua conta, ouviu?Ruy,com a maior gravidadeOuvi...JoaquinaPois vátratar do seu dever porque não faz favor...PadreEntão que succedeu?Joaquina,amenisando a vozÉ que a pobre pequenajá cançou de esperar e quer vêr se o doutorlhe permitte que venha até aqui á sala.PadreQue diz, Senhor Doutor?RuyQue se Talitha ordena...PadrePois faça-se a vontade...JoaquinaEntão, eu vou buscal-a...Joaquina sae.—O Padre, ancioso, passeia ao longo da sala; Ruy, encostado á meza, olha para a porta por onde sahiu Joaquina.—Pausa cheia de anciedade.SCENA VO mesmos,JoaquinaeTalithaTalitha entra de olhos vendados, pelo braço de Joaquina. Ruy e Padre vão ao seu encontro e tomam-lhe as mãos para conduzil-a a uma cadeira. Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha e conversam um pouco.PadreComo te sentes, filha?TalithaAfflicta, muito afflictapor ver a luz do dia...Ruy,tomando-lhe a mãoA mesma curiosade sempre!...TalithaSe parece á sua intelligenciaque não tenho razão!... Ha tantos annos céga!...JoaquinaDeixa-o fallar, Talitha, isto é mais tagarellado que as creanças, vês?RuyPois não creia, Talitha!...Padre,tomando Ruy á partePrepare o coração e veja que anciosaaquella vida está... tenha a maior prudencia!RuyÉ muito natural; só emquanto não chegao instante de tirar a venda que lhe velao dulcissimo olhar...A TalithaDiga, Talitha, aindasente alguma dôr?TalithaNão! apenas a impressãodo lenço que me causa a maior afflicção,a vontade feliz, viva, crescente, infindade vêr de novo a luz...RuyE não ha quinze diasque lhe descubro a vista?TalithaHa, sim, mas lá no escuro,onde eu não vejo nada...PadreAssim é que convem...Depois de tanto tempo, então, já pretendiasvêr livremente o sol? Seria prematuro...JoaquinaÉ muito perigoso!...RuyE sentia-se bem?Chegou a distinguir, alguma vez, o aspectoou a forma geral de qualquer um objecto?TalithaMuitas vezes, pois não; primeiro vagamente,depois com nitidez.Padre,alegreMas então a doenteRecuperou a vista!?JoaquinaAbençoada a horaem que o menino entrou nesta pobre choupana!...RuyAgradeçam a Deus!TalithaDoutor, porque demoraesta venda cruel que o meu olhar empana?RuyPois diga-me primeiro o que pensa de mim.TalithaQue é muito feio e máo...JoaquinaBem feito!RuyE da Joaquina?...TalithaPenso della que é santa e que tem de setimcôr da neve o cabello, a pelle muito fina,como eu creio que são as santas da capella.RuyE o nosso Padre-cura?TalithaUm velhinho bondoso,que vive para o bem e sobre os pobres vela!Supponho que elle tenha a cabeça bem branca,o olhar muito suave e d'expressão tão franca,que appareça na face enrugada e senila dôce candidez da sua alma infantil...E, cogitando assim, parece-me que vejo,dos altos de uma torre, a uma enorme distancia,como um jardim florido, a minha dôce infanciavicejando a sorrir, a sombra do seu braço,e o seu olhar de Pae enchendo todo o espaçode luz, de muita luz, tão dôce e tão leal,como o luar banhando as ondas de um trigalnuma noite estreitada, e o sangue me palpitano seio, e o coração ardentemente agitana immensa anciedade afflicta e pressurosade poder innundar a sua mão rugosade lagrimas febris e de beijos sem fim.RuyTantas coisas ao Cura e nada para mim!...TalithaExactamente, Ruy; a saudade de vêl-oaugmenta a cada instante o meu triste flagello,porque nos braços delle um dia adormecie não despertei mais... e ao Ruy...baixando a vozeu nunca vi...Ruy,com cariciaPois vae tornar a vêr a boa da Joaquinaque a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina.Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a vendaVae vêr o Padre-cura e matar os desejosde lhe cobrir a face e as mãos de muitos beijos...E vae me conhecer...Tira-lhe a vendaSilencio. Commoção geral. Talitha, acostumada á treva, não supporta a luz; tapa os olhos com as mãos; depois habitua a vista, levanta-se, olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos.Talitha,á luz, correndo á janellaCéos! Vejo novamentea luz que me faltou durante a meninice!Ó Sol da minha infancia, a sorrir de contentetorno a vêr-te de novo. Azul do céo, meiguiceque ha muito não beijava o meu perdido olhar,como deves ser lindo ao dôce despontarda madrugada clara!Ao oratorioOratorio velhinho,junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei,como sinto vontade, agora que revejoo teu branco Jesus, do amor e do carinhocom que pela manhã e á noite eu te beijei,e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo!Passa as mãos nos olhos, como para certificar-se que vê bemMas parece-me um sonho!Pausa. De novo esfrega os olhosEu já não sou a céga...PausaEu vejo tudo...Estaca; olha as paredesSim, sim tudo...Olha para o tecto, baixa os olhos ao chão, volta-se para os lados, palpa as cadeiras, palpa a meza, corre á commodaEu não me engano.Eu vejo a minha mão!Olha para as mãosMais branca do que o pannopega o avental e examinado meu lindo avental!Põe a mão sobre o peito, como que desmaiadaAh! coração, socega...Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para amparal-a, dizendoJoaquinaCredo! Jesus, Senhor!Talitha,como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vêl-a tem uma commoção e exclamaJoaquina! ó boa e santavelhinha, dôce mãe que tanta dôr e tantalagrima derramaste, aos pés do meu bercinho!...Vendo o Cura, lança-se a elle, soluçando; abraça-o, beija-o, vê-o, chora, ri, torna a abraçal-o, doida de alegriaMas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avôsinho!Deixa afinal o Cura e corre para RuyE Ruy que me salvou...Vae para abraçal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencioAh!... Ruy... eu nunca o vi!...Padre,soluçando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a mão e leva-a junto de RuyBeija-o, Talitha; beija, elle é digno de ti,emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha,graças por essa luz que nos teus olhos brilha.Sae, enxugando os olhosJoaquina,a RuyÁ Virgem prometti uma lampada accêsadurante uma semana, e por sua intenção,se Ella daqui levasse as dôres e a tristeza,fazendo este milagre. Hei de accender o azeitee rezar a seus pés, com toda a devoção,pedindo á Virgem Mãe que este meu voto acceite.Louvado seja Deus! O Céo vos abençôe!SaeSCENA VITalithaeRuyDepois de uma pausa prolongadaTalitha,sempre pudicaPorque me encara assim? Offendi-o? Perdôe.Ruy,caminhando para ellaFitei-a porque sinto o brilho desse olhar,como um rio de luz suavissima, innundara minha mocidade inhospita e sombria,num banho redemptor de dôce calmaria.E parece-me vêr a sombra avelludadada sua fronte branca, e pura, e macerada,fugir espavorida á luz desse clarão...TalithaQue eu devo tão sómente á sua compaixão...RuyEsqueça que fui eu...Talitha,interrompendoNão sei como se esquece...RuyEntão recordará, por toda a sua vida,o nosso amor feliz?TalithaA sua alma duvida?RuyEu não duvido, eu peço, e vae na minha precequanto minh'alma tem de puro sentimento...Talitha,curiosaNa sua prece?RuySim, tão cheia de fervorcomo a casta oração que a sua crença augustasoluça de manhã, mais triste que um lamento,que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor,no murmurio subtil dessa bocca venusta.TalithaEu nunca olvidarei a dulcida venturadaquella noite densa, atormentada, escura,em cujo manto negro a sua mão bondosarasgou a dôce aurora alegre e luminosa...O caridoso amor, que os seus labios deixaramgravado nesta mão que tanta vez beijaram,foi um sonho feliz numa noite polar,sonho de primavera em noite sem luar:nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças.Como um beijo de mãe na face das creanças,a primeira affeição nunca se desvanece,é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce!Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!RuyTalitha, minha vida, a densa cataractanão poude escurecer a lucidez supremada sua alma christã, que vale um diademade rainha e de santa, a cujos pés se inclinaa minha alma que vae sobre a esteira argentinaque o seu vestido traça ao longo da jornada,como no azul do mar as velas da jangada...TalithaE se a vela, batida ao vento da desdita,levar á sombra eterna essa infeliz Talithaque a sua mão salvou da mesma sombra eterna?RuyIrei onde ella vá. Se a aragem fôr galernae o nosso amor levar a gondola encantada,sobre o dorso da vaga em branca espumarada,eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêaque o seu divino olhar de candida sereiaha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou.Se o vento arremessar a vela que enfunouá rude penedia e sossobrar a barca,hei de salvar, então, a pequenina arca,onde vive encerrada a pomba da alliança,que faz do nosso amor uma alegre esperança!TalithaApenas esperança, e nada mais! A vidaé um sonho que passa e foge; perseguida,occulta-se a esperança á sombra de um asylo,tão occulto tambem que, para descobril-o,desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaçosa nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços,desapparece e vae, por esse mundo fóra,como nuvens no céo ao despontar da aurora...RuyPorque razão, Talitha, os nossos pobres sonhosnão poderão florir, alegres e risonhos,á plena luz do Sol?TalithaSonhos são illusõesque a madrugada esbate em limpidos clarões,e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhasirão fazer o ninho á sombra... As andorinhastem que mudar de clima ao começar o inverno,levando para longe o seu amor materno...A minha acostumou-se á sombra da cegueira:se na sombra passou quasi uma vida inteira!Na sombra adormeceu, na sombra soluçoue na sombra sorriu... A sua mão rasgoueste sulco de luz no meu perdido olhar,e a triste, acostumada á sombra tumular,fugiu espavorida ao lucido lampejoe tão distante foi, que nem sequer a vejo...RuyÉ o receio infantil que vem da escuridão!A esperança, Talitha, ainda um só instantenão sahiu do calor que faz do coraçãoo ninho aconchegado, o berço palpitantee o sacrario fiel do nosso casto amor!Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôrsem perder o perfume!... E a esperança, Talitha,é o perfume do amor, a essencia que dormitaserena e só desperta ao carinhoso afagodum beijo a murmurar em sonho dôce e vago...TalithaMas antes que o murmurio a despertasse, a luzdo sol lhe recordou que aos olhos de Jesuse aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhadono fervor da oração, em dia torturado,prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar.Entre nós dois agora eleva-se um altar,e eu vejo-me prostrada e envolta no burel,sorrindo para o céo, por ter sido fielá promessa que fiz...RuyE o nosso amor, Talitha,não foi uma promessa?TalithaAh! foi, mas a desditalançou-lhe a maldição no dia em que nasceue o nosso puro amor agora feneceu.RuyE a tua mão divina, angelico florãode algum ciborio astral, a tua mão de rosae jaspe é que me vem ferir esta affeiçãoque banhava em frescor a vida bonançosadeste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia,á sombra do mosteiro, a tua phantasiavolver para o passado esse formoso olhartão cheio de candura e te fizer sonhar;quando a espiral do incenso á curva do docelsubir da tua mão occulta no burel,como a dôce expressão duma saudade immensa;quando á noite o luar, vencendo a treva densa,entrar na tua cella e fôr beijar-te a face,como se por ventura envolta nelle entrassea minh'alma saudosa a visitar a tua:quando esse olhar divino, em cuja luz fluctuaa pureza vestal da tua castidade,sorrindo, remontar á dôce claridadedas estrellas no céo, minha gentil Talitha,recorda o nosso amor, formosa cenobita,e pensa na tortura intermina e profundadesta vaga de fel que a minha vida innunda,medita nesta noite atroz, que me apavora,e tu me dás em paga a fulgurante auroraque o meu amor te deu, sorrindo de ventura...Bemdita seja a treva, a noite de amargura,bemdita seja a dôr, para sempre bemdita,que vem da tua mão, angelica Talitha!Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em Talitha, ora em Ruy.SCENA VIIOs mesmos ePadrePadre,junto de TalithaPorque choras, creança?Ruy, cabisbaixo, medita. Pausa, durante a qual se ouve o soluçar de Talitha.O teu silencio abalatoda a minh'alma, filha; abre os teus labios, falla...Silencio. A RuyA sua commoção... Ruy! Mas que succedeu?RuyFoi mais uma illusão que se desfez... morreu!SaeSCENA VIIIPadreeTalithaPadre,abraçando TalithaNão te apoquentes, filha! A dôr que te devoraeu já previra ha muito. A noite tambem chorano calice da flôr, e o céo que tem a luzdas estrellas sem fim, chorou, quando Jesusabriu por sobre a terra a sombra dos seus braços,abençoando a dôr que vaga nos espaços...Mas os teus olhos, ha pouco illuminados,não devem, por emquanto, andar annuviadosque se pódem cegar de novo, sem remedio...Talitha,rapidamente, entre alegre e chorosaEntão se eu lhe pedisse...PadreO quer que seja, pede-o...Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar...Talitha,lacrimosaPois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar!PadreNão te apavora a noite immensa e tenebrosa?!TalithaNão me amedronta mais! A lua carinhosavive na escuridão. Fui tão feliz na trevaque chego a ter saudade e o coração me levaa pedir que me deixe ind'outra vez banharna sombra eterna e mésta a luz do meu olhar...PadreQue blasphemia, Talitha!TalithaO meu labio não erra,e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra.PadreMedita, minha filha, e Deus Nosso Senhorenvolva a tua crença em seu divino amor!TalithaPois ouça-me um instante a confissão singelada incomparavel dôr que a minha vida gela:Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao ladoTinha soffrido muito; o immenso desesperode um dia de tortura, afflictivo e severo,me fez allucinar e, erguendo para os céosas mãos de quem supplica, eu implorei a Deusclemencia a tanta dôr. A noite de flagicio,que dava á minha vida o aspecto de um supplicio,parecia sem fim, sem luz e sem aurora.E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra,o aroma delicado e puro do seu seio,vencendo o meu temor e o natural anceio,eu dei, como penhor da luz que supplicava,a minha mocidade e o porvir que eu sonhava;e prometti á santa e casta Samaritavotar-me para sempre ao burel carmelita...Mas presenti, depois, que dentro de minh'almadespontava, sorrindo, uma esperança calmaque innundava de luz o coração da céga,e commigo pensei:—Deus, de certo, não negaque veja agora a luz quem sempre foi escrava:e nesse pensamento a vida concentrava.Foi quando Ruy me fez a esmola caridosade uma dôce affeição que tem a côr da rosa;e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo,o meu amor cresceu e fez-se tão profundoque para desprender-lhe as tumidas raizeseu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes...Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhoso véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos,toda em pedaços feita, a minha pobre herança,perdida para sempre a querida esperançaque eu havia sonhado em dias de cegueira...Se sacrifico o amor pelo burel de freiraeu desço á sepultura em plena mocidade;se não cumpro a promessa e minto á santidadedo voto que levei á pedra de um altar,não devo conservar a luz do meu olhare rogo novamente a Deus que m'a desfaçae á Virgem que conceda a pequenina graçade receber de novo esse penhor tão puro,deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!PadreEscuta, minha filha.—A Providencia, ás vezes,se manda aos corações as dôres e os revezesnão é que se compraza em opprimir as almaspara lhes dar mais tarde as viridentes palmasdo martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha.Eras ainda tu mimosa e pequenitaquando ficaste céga. Abrira para o mundo,apenas, a tua alma e o teu olhar jocundosorria para a luz. Assim, innocentinha,tu ias de manhã commigo á capellinhae, emquanto eu murmurava as orações da missa,tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa,á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa,bem como se a rezara o labio de uma rosa...Desse labio subia um fervor tão intensocomo a espiral azul e timida do incenso...Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltasteá mesma hora de sempre, á missa. E que contraste;tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz!Muitos annos pediste á Madre de Jesusque te restituisse um dia o teu olhar,como se a Virgem fôsse autora da desditaque te ferira assim, minha meiga Talitha...Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tantono dia em que perdeu o filho casto e santote pudesse roubar dos olhos transparentesa luz que illuminava as pupillas ardentes?Pois ella que te viu de rastros, a rezar,em todas as manhãs, aos pés do seu altar,levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres,podia assim voltar a crueldade e as dôressobre a tua cabeça ingenua e piedosa,Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!?Escuta, minha filha:—o livro do Senhordescreve que, uma feita, andava na Judéao divino Jesus prégando a sua idéa...Acercou-se do Mestre uma infeliz proscriptaa quem a dôr matara a filha pequenita,e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vidao cadaver da filha extremosa e querida.Abençoando a mãe que aquella dôr humilhadisse Jesus então: «a tua pobre filhaestava adormecida e agora está acordada;volta que a encontrarás a rir, já levantada».E a pobre mãe, que vira a pequenina morta,depois, ao regressar, foi encontral-a á porta,sorrindo alegremente, entre as demais creanças,como um bando gazil de cordeirinhas mansas!Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiusómente, não morreu. Quando a céga pediu,á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse,o seu divino olhar fitava a tua facee despertou do somno o teu formoso olharque nunca fôra cégo e, apenas a sonhar,adormecera. E agora, agora que acordoupóde fitar a mão de quem lhe descerrou,em nome de Jesus, a noite que o toldava,que te fazia triste e lacrimosa, escrava...TalithaE a Virgem que me ouviu quando eu lhe promettivotar-me ao seu burel, por tanto que soffri,quererá perdoar a minha negra falta?PadreEscuta-me, Talitha:Ruy surge ao fundo e escutaO coração exalta,pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensamuito, muito, em silencio, indaga a tua crençae faze o que disser a tua consciencia,mas não esqueças, filha, a dôce confidenciade Ruy que illuminou o teu escuro olhar,e lembra-te, depois, que, só por muito amar,o Christo perdoou á pobre Magdalena.E agora, que a tua alma está bem mais serena,attende-me!—Rezando adormeci. A auroradespertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora,um sonho que fugia, em busca de outros lares!Subia docemente, ao claro azul dos ares,o vulto da Senhora, abrindo pelo Céoo palio virginal do seu materno véo,desnastrado o cabello, um manto de rainharecamado de sóes; a nuvem que a sustinha,toda cheia de luz, deixava atraz de sium rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti...Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas,ao peso esmagador das longas invernadas;e assim, postas as mãos, olhando para o vultoda Virgem que eu adoro em fervoroso culto,pedi-lhe que mandasse um raio de luarás lagrimas de fel da tua dôr sem par...Talitha começa a sorrirE a Virgem, a sorrir, do seio do infinito,baixou por sobre o meu um dôce olhar bemditoe eu vi rolar no azul da immensa vastidão,no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão...Talitha,correndo para a portaRuy!Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chãoPadre,só, á frente da scena, mãos postas, a olhar para o céoPerdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa;o meu labio peccou, mas a intenção foi boa!CAE O PANNOTERCEIRO ACTOModesta sala de jantar em casa do Cura. Á direita, um oratorio sobre uma commoda antiga; á esquerda, entre portas, um orgam.SCENA IJoaquina, sóJoaquina procede aos arranjos da casa para uma noite de festa; cuida do oratorio, accende-lhe as velas, começa a pôr a meza para a ceia; tudo em silencio. Depois de alguns momentos entra Ruy.SCENA IIJoaquinaeRuyRuy,entrandoBoas noites, Joaquina!JoaquinaAs mesmas Deus lhe dê!Inda bem que chegou; pensei que não voltasseaqui á nossa casa!RuyEssa agora... e porque?JoaquinaÉ boa! Inda pergunta? Esteve lá por fóradurante todo o dia e sem que se lembrasseque neste pobre asylo ainda vive e moragente boa e christã...Ruy,interrompendoE quem lhe disse tanto?Vão vêr que foi intriga ou treta de algum santo!...JoaquinaHereje! brinque, brinque assim com Jesus Christoe ha de vêr se é feliz! Não sabe que o Natalé a noite sagrada?RuyÉ, sei! Não foi por malque faltei. Pela vez primeira não assistoá missa desta noite. Ha bem vinte e seis annosque falleceu meu Pae: rompia a madrugada.Começaram-me assim os tristes desenganose a lucta da existencia abriu-se amargurada.Desde então, minha Mãe, boa e santa velhinha,recorda tristemente, apenas se avizinhaa noite do Natal, a dôr daquella aurora,e emquanto tudo ri, ella soluça e chora...JoaquinaSem mesmo a conhecer eu tenho pena della.RuyE hoje que eu sou feliz a pobresinha vela.Creio que neste instante os seus labios de crenteenvolvem numa prece encantadora e mesta,num templo illuminado, ao celebrar da festa,o esposo que morreu e o proprio filho ausente.JoaquinaDevera ser então mais um grande motivode não faltar á missa.RuyE creia que é bem vivoo meu pezar. Entanto a razão dessa faltafoi sagrada e vae vêr como ella tanto exaltaa minha consciencia.Joaquina,ironicaEu imagino bem!RuyNão posso vêr soffrer o coração de alguem...Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podianegar-me, sem peccar, ao dever que exigiade acudir pressuroso ao leito d'um enfermoardendo em alta febre e bem proximo ao termoduma longa existencia asperrima e deserta,onde apenas a dôr tinha uma entrada aberta.Conhece aquelle atalho escuro e retiradoque vae dar á capella?Joaquina,benzendo-seOnde foi enforcadoO marido da Emilia?RuyExactamente, ahi.Mesmo nesse logar em que ficou a cruzexiste uma choupana á qual me recolhipara fugir á chuva. O caminho conduz,pela esquerda, á Capella; a direita, ao moinhodo velho reformado! Entrou-me na choupanaa neta do sargento a dizer que o avosinhoquasi estava a expirar. Fôra maldade insanadeixar morrer o velho á mingoa de cuidados.Fui. Mas antes não fôsse. Em nada lhe valeua visita que fiz, o velho falleceu...Como devem morrer os bravos e os soldadosassim elle expirou, fitando bem a morte,firme como um leão e simples como um forte.Uma miseria extrema; os netos quasi nús,com fome e sem comida ha dois dias!Joaquina,benzendo-seJesus!E aqui tanta fartura!RuyA Patria é bem madrasta!Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta,tem no peito e na face algumas cicatrizesdas lanças do inimigo.JoaquinaAh! são bem mais felizesos soldados que vão á guerra e que lá morremno campo da batalha.RuyExacto. Os outros corremo perigo maior de morrer desprezados, comoesse pobre velho.JoaquinaE estão abandonadosos netos, Sr. Ruy?Ruy

Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vês perdôa,porque ha no meu peccado uma intenção tão boa,tão pura e tão leal, que eu sinto adormecidoo velho coração por nunca haver mentido...

Que grandes trapalhões, aqui a badalarnuma palrice enorme e toda a gente á esperaque o doutor mais o cura acabem de fallar...

Por que ha de ser assim tão má e tão severa?

Rabugice de velha!...

É só meu o proveito...

Deixe-o fallar, Joaquina, aquillo é tudo inveja...da sua mocidade!...

Riem ambos

Ai, ai! o malcreado!Esquece a obrigação e falta-me ao respeito!E a culpada sou eu! Ora não ha! Pois vejaque emquanto está gastando o seu palavreado,seria bem melhor que cuidasse da enferma,que vive ali no escuro abandonada e erma.

E você que fazia?

Eu fui tratar do almoço;não andei de conversa á espera que o manános cahisse do céo.

Por isso falla grosso!

Não é da sua conta, ouviu?

Ouvi...

Pois vátratar do seu dever porque não faz favor...

Então que succedeu?

É que a pobre pequenajá cançou de esperar e quer vêr se o doutorlhe permitte que venha até aqui á sala.

Que diz, Senhor Doutor?

Que se Talitha ordena...

Pois faça-se a vontade...

Então, eu vou buscal-a...

Joaquina sae.—O Padre, ancioso, passeia ao longo da sala; Ruy, encostado á meza, olha para a porta por onde sahiu Joaquina.—Pausa cheia de anciedade.

Talitha entra de olhos vendados, pelo braço de Joaquina. Ruy e Padre vão ao seu encontro e tomam-lhe as mãos para conduzil-a a uma cadeira. Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha e conversam um pouco.

Como te sentes, filha?

Afflicta, muito afflictapor ver a luz do dia...

A mesma curiosade sempre!...

Se parece á sua intelligenciaque não tenho razão!... Ha tantos annos céga!...

Deixa-o fallar, Talitha, isto é mais tagarellado que as creanças, vês?

Pois não creia, Talitha!...

Prepare o coração e veja que anciosaaquella vida está... tenha a maior prudencia!

É muito natural; só emquanto não chegao instante de tirar a venda que lhe velao dulcissimo olhar...

A Talitha

Diga, Talitha, aindasente alguma dôr?

Não! apenas a impressãodo lenço que me causa a maior afflicção,a vontade feliz, viva, crescente, infindade vêr de novo a luz...

E não ha quinze diasque lhe descubro a vista?

Ha, sim, mas lá no escuro,onde eu não vejo nada...

Assim é que convem...Depois de tanto tempo, então, já pretendiasvêr livremente o sol? Seria prematuro...

É muito perigoso!...

E sentia-se bem?Chegou a distinguir, alguma vez, o aspectoou a forma geral de qualquer um objecto?

Muitas vezes, pois não; primeiro vagamente,depois com nitidez.

Mas então a doenteRecuperou a vista!?

Abençoada a horaem que o menino entrou nesta pobre choupana!...

Agradeçam a Deus!

Doutor, porque demoraesta venda cruel que o meu olhar empana?

Pois diga-me primeiro o que pensa de mim.

Que é muito feio e máo...

Bem feito!

E da Joaquina?...

Penso della que é santa e que tem de setimcôr da neve o cabello, a pelle muito fina,como eu creio que são as santas da capella.

E o nosso Padre-cura?

Um velhinho bondoso,que vive para o bem e sobre os pobres vela!Supponho que elle tenha a cabeça bem branca,o olhar muito suave e d'expressão tão franca,que appareça na face enrugada e senila dôce candidez da sua alma infantil...E, cogitando assim, parece-me que vejo,dos altos de uma torre, a uma enorme distancia,como um jardim florido, a minha dôce infanciavicejando a sorrir, a sombra do seu braço,e o seu olhar de Pae enchendo todo o espaçode luz, de muita luz, tão dôce e tão leal,como o luar banhando as ondas de um trigalnuma noite estreitada, e o sangue me palpitano seio, e o coração ardentemente agitana immensa anciedade afflicta e pressurosade poder innundar a sua mão rugosade lagrimas febris e de beijos sem fim.

Tantas coisas ao Cura e nada para mim!...

Exactamente, Ruy; a saudade de vêl-oaugmenta a cada instante o meu triste flagello,porque nos braços delle um dia adormecie não despertei mais... e ao Ruy...

baixando a voz

eu nunca vi...

Pois vae tornar a vêr a boa da Joaquinaque a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina.

Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda

Vae vêr o Padre-cura e matar os desejosde lhe cobrir a face e as mãos de muitos beijos...E vae me conhecer...

Tira-lhe a venda

Silencio. Commoção geral. Talitha, acostumada á treva, não supporta a luz; tapa os olhos com as mãos; depois habitua a vista, levanta-se, olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos.

Céos! Vejo novamentea luz que me faltou durante a meninice!Ó Sol da minha infancia, a sorrir de contentetorno a vêr-te de novo. Azul do céo, meiguiceque ha muito não beijava o meu perdido olhar,como deves ser lindo ao dôce despontarda madrugada clara!

Ao oratorio

Oratorio velhinho,junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei,como sinto vontade, agora que revejoo teu branco Jesus, do amor e do carinhocom que pela manhã e á noite eu te beijei,e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo!

Passa as mãos nos olhos, como para certificar-se que vê bem

Mas parece-me um sonho!

Pausa. De novo esfrega os olhos

Eu já não sou a céga...

Pausa

Eu vejo tudo...

Estaca; olha as paredes

Sim, sim tudo...

Olha para o tecto, baixa os olhos ao chão, volta-se para os lados, palpa as cadeiras, palpa a meza, corre á commoda

Eu não me engano.Eu vejo a minha mão!

Olha para as mãos

Mais branca do que o panno

pega o avental e examina

do meu lindo avental!

Põe a mão sobre o peito, como que desmaiada

Ah! coração, socega...

Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para amparal-a, dizendo

Credo! Jesus, Senhor!

Joaquina! ó boa e santavelhinha, dôce mãe que tanta dôr e tantalagrima derramaste, aos pés do meu bercinho!...

Vendo o Cura, lança-se a elle, soluçando; abraça-o, beija-o, vê-o, chora, ri, torna a abraçal-o, doida de alegria

Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avôsinho!

Deixa afinal o Cura e corre para Ruy

E Ruy que me salvou...

Vae para abraçal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio

Ah!... Ruy... eu nunca o vi!...

Beija-o, Talitha; beija, elle é digno de ti,emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha,graças por essa luz que nos teus olhos brilha.

Sae, enxugando os olhos

Á Virgem prometti uma lampada accêsadurante uma semana, e por sua intenção,se Ella daqui levasse as dôres e a tristeza,fazendo este milagre. Hei de accender o azeitee rezar a seus pés, com toda a devoção,pedindo á Virgem Mãe que este meu voto acceite.Louvado seja Deus! O Céo vos abençôe!

Sae

Depois de uma pausa prolongada

Porque me encara assim? Offendi-o? Perdôe.

Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar,como um rio de luz suavissima, innundara minha mocidade inhospita e sombria,num banho redemptor de dôce calmaria.E parece-me vêr a sombra avelludadada sua fronte branca, e pura, e macerada,fugir espavorida á luz desse clarão...

Que eu devo tão sómente á sua compaixão...

Esqueça que fui eu...

Não sei como se esquece...

Então recordará, por toda a sua vida,o nosso amor feliz?

A sua alma duvida?

Eu não duvido, eu peço, e vae na minha precequanto minh'alma tem de puro sentimento...

Na sua prece?

Sim, tão cheia de fervorcomo a casta oração que a sua crença augustasoluça de manhã, mais triste que um lamento,que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor,no murmurio subtil dessa bocca venusta.

Eu nunca olvidarei a dulcida venturadaquella noite densa, atormentada, escura,em cujo manto negro a sua mão bondosarasgou a dôce aurora alegre e luminosa...O caridoso amor, que os seus labios deixaramgravado nesta mão que tanta vez beijaram,foi um sonho feliz numa noite polar,sonho de primavera em noite sem luar:nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças.Como um beijo de mãe na face das creanças,a primeira affeição nunca se desvanece,é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce!Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!

Talitha, minha vida, a densa cataractanão poude escurecer a lucidez supremada sua alma christã, que vale um diademade rainha e de santa, a cujos pés se inclinaa minha alma que vae sobre a esteira argentinaque o seu vestido traça ao longo da jornada,como no azul do mar as velas da jangada...

E se a vela, batida ao vento da desdita,levar á sombra eterna essa infeliz Talithaque a sua mão salvou da mesma sombra eterna?

Irei onde ella vá. Se a aragem fôr galernae o nosso amor levar a gondola encantada,sobre o dorso da vaga em branca espumarada,eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêaque o seu divino olhar de candida sereiaha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou.Se o vento arremessar a vela que enfunouá rude penedia e sossobrar a barca,hei de salvar, então, a pequenina arca,onde vive encerrada a pomba da alliança,que faz do nosso amor uma alegre esperança!

Apenas esperança, e nada mais! A vidaé um sonho que passa e foge; perseguida,occulta-se a esperança á sombra de um asylo,tão occulto tambem que, para descobril-o,desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaçosa nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços,desapparece e vae, por esse mundo fóra,como nuvens no céo ao despontar da aurora...

Porque razão, Talitha, os nossos pobres sonhosnão poderão florir, alegres e risonhos,á plena luz do Sol?

Sonhos são illusõesque a madrugada esbate em limpidos clarões,e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhasirão fazer o ninho á sombra... As andorinhastem que mudar de clima ao começar o inverno,levando para longe o seu amor materno...A minha acostumou-se á sombra da cegueira:se na sombra passou quasi uma vida inteira!Na sombra adormeceu, na sombra soluçoue na sombra sorriu... A sua mão rasgoueste sulco de luz no meu perdido olhar,e a triste, acostumada á sombra tumular,fugiu espavorida ao lucido lampejoe tão distante foi, que nem sequer a vejo...

É o receio infantil que vem da escuridão!A esperança, Talitha, ainda um só instantenão sahiu do calor que faz do coraçãoo ninho aconchegado, o berço palpitantee o sacrario fiel do nosso casto amor!Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôrsem perder o perfume!... E a esperança, Talitha,é o perfume do amor, a essencia que dormitaserena e só desperta ao carinhoso afagodum beijo a murmurar em sonho dôce e vago...

Mas antes que o murmurio a despertasse, a luzdo sol lhe recordou que aos olhos de Jesuse aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhadono fervor da oração, em dia torturado,prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar.Entre nós dois agora eleva-se um altar,e eu vejo-me prostrada e envolta no burel,sorrindo para o céo, por ter sido fielá promessa que fiz...

E o nosso amor, Talitha,não foi uma promessa?

Ah! foi, mas a desditalançou-lhe a maldição no dia em que nasceue o nosso puro amor agora feneceu.

E a tua mão divina, angelico florãode algum ciborio astral, a tua mão de rosae jaspe é que me vem ferir esta affeiçãoque banhava em frescor a vida bonançosadeste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia,á sombra do mosteiro, a tua phantasiavolver para o passado esse formoso olhartão cheio de candura e te fizer sonhar;quando a espiral do incenso á curva do docelsubir da tua mão occulta no burel,como a dôce expressão duma saudade immensa;quando á noite o luar, vencendo a treva densa,entrar na tua cella e fôr beijar-te a face,como se por ventura envolta nelle entrassea minh'alma saudosa a visitar a tua:quando esse olhar divino, em cuja luz fluctuaa pureza vestal da tua castidade,sorrindo, remontar á dôce claridadedas estrellas no céo, minha gentil Talitha,recorda o nosso amor, formosa cenobita,e pensa na tortura intermina e profundadesta vaga de fel que a minha vida innunda,medita nesta noite atroz, que me apavora,e tu me dás em paga a fulgurante auroraque o meu amor te deu, sorrindo de ventura...Bemdita seja a treva, a noite de amargura,bemdita seja a dôr, para sempre bemdita,que vem da tua mão, angelica Talitha!

Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em Talitha, ora em Ruy.

Porque choras, creança?

Ruy, cabisbaixo, medita. Pausa, durante a qual se ouve o soluçar de Talitha.

O teu silencio abalatoda a minh'alma, filha; abre os teus labios, falla...

Silencio. A Ruy

A sua commoção... Ruy! Mas que succedeu?

Foi mais uma illusão que se desfez... morreu!

Sae

Não te apoquentes, filha! A dôr que te devoraeu já previra ha muito. A noite tambem chorano calice da flôr, e o céo que tem a luzdas estrellas sem fim, chorou, quando Jesusabriu por sobre a terra a sombra dos seus braços,abençoando a dôr que vaga nos espaços...Mas os teus olhos, ha pouco illuminados,não devem, por emquanto, andar annuviadosque se pódem cegar de novo, sem remedio...

Então se eu lhe pedisse...

O quer que seja, pede-o...Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar...

Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar!

Não te apavora a noite immensa e tenebrosa?!

Não me amedronta mais! A lua carinhosavive na escuridão. Fui tão feliz na trevaque chego a ter saudade e o coração me levaa pedir que me deixe ind'outra vez banharna sombra eterna e mésta a luz do meu olhar...

Que blasphemia, Talitha!

O meu labio não erra,e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra.

Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhorenvolva a tua crença em seu divino amor!

Pois ouça-me um instante a confissão singelada incomparavel dôr que a minha vida gela:

Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado

Tinha soffrido muito; o immenso desesperode um dia de tortura, afflictivo e severo,me fez allucinar e, erguendo para os céosas mãos de quem supplica, eu implorei a Deusclemencia a tanta dôr. A noite de flagicio,que dava á minha vida o aspecto de um supplicio,parecia sem fim, sem luz e sem aurora.E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra,o aroma delicado e puro do seu seio,vencendo o meu temor e o natural anceio,eu dei, como penhor da luz que supplicava,a minha mocidade e o porvir que eu sonhava;e prometti á santa e casta Samaritavotar-me para sempre ao burel carmelita...Mas presenti, depois, que dentro de minh'almadespontava, sorrindo, uma esperança calmaque innundava de luz o coração da céga,e commigo pensei:—Deus, de certo, não negaque veja agora a luz quem sempre foi escrava:e nesse pensamento a vida concentrava.Foi quando Ruy me fez a esmola caridosade uma dôce affeição que tem a côr da rosa;e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo,o meu amor cresceu e fez-se tão profundoque para desprender-lhe as tumidas raizeseu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes...Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhoso véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos,toda em pedaços feita, a minha pobre herança,perdida para sempre a querida esperançaque eu havia sonhado em dias de cegueira...Se sacrifico o amor pelo burel de freiraeu desço á sepultura em plena mocidade;se não cumpro a promessa e minto á santidadedo voto que levei á pedra de um altar,não devo conservar a luz do meu olhare rogo novamente a Deus que m'a desfaçae á Virgem que conceda a pequenina graçade receber de novo esse penhor tão puro,deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!

Escuta, minha filha.—A Providencia, ás vezes,se manda aos corações as dôres e os revezesnão é que se compraza em opprimir as almaspara lhes dar mais tarde as viridentes palmasdo martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha.Eras ainda tu mimosa e pequenitaquando ficaste céga. Abrira para o mundo,apenas, a tua alma e o teu olhar jocundosorria para a luz. Assim, innocentinha,tu ias de manhã commigo á capellinhae, emquanto eu murmurava as orações da missa,tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa,á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa,bem como se a rezara o labio de uma rosa...Desse labio subia um fervor tão intensocomo a espiral azul e timida do incenso...Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltasteá mesma hora de sempre, á missa. E que contraste;tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz!Muitos annos pediste á Madre de Jesusque te restituisse um dia o teu olhar,como se a Virgem fôsse autora da desditaque te ferira assim, minha meiga Talitha...Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tantono dia em que perdeu o filho casto e santote pudesse roubar dos olhos transparentesa luz que illuminava as pupillas ardentes?Pois ella que te viu de rastros, a rezar,em todas as manhãs, aos pés do seu altar,levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres,podia assim voltar a crueldade e as dôressobre a tua cabeça ingenua e piedosa,Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!?Escuta, minha filha:—o livro do Senhordescreve que, uma feita, andava na Judéao divino Jesus prégando a sua idéa...Acercou-se do Mestre uma infeliz proscriptaa quem a dôr matara a filha pequenita,e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vidao cadaver da filha extremosa e querida.Abençoando a mãe que aquella dôr humilhadisse Jesus então: «a tua pobre filhaestava adormecida e agora está acordada;volta que a encontrarás a rir, já levantada».E a pobre mãe, que vira a pequenina morta,depois, ao regressar, foi encontral-a á porta,sorrindo alegremente, entre as demais creanças,como um bando gazil de cordeirinhas mansas!Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiusómente, não morreu. Quando a céga pediu,á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse,o seu divino olhar fitava a tua facee despertou do somno o teu formoso olharque nunca fôra cégo e, apenas a sonhar,adormecera. E agora, agora que acordoupóde fitar a mão de quem lhe descerrou,em nome de Jesus, a noite que o toldava,que te fazia triste e lacrimosa, escrava...

E a Virgem que me ouviu quando eu lhe promettivotar-me ao seu burel, por tanto que soffri,quererá perdoar a minha negra falta?

Escuta-me, Talitha:

Ruy surge ao fundo e escuta

O coração exalta,pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensamuito, muito, em silencio, indaga a tua crençae faze o que disser a tua consciencia,mas não esqueças, filha, a dôce confidenciade Ruy que illuminou o teu escuro olhar,e lembra-te, depois, que, só por muito amar,o Christo perdoou á pobre Magdalena.E agora, que a tua alma está bem mais serena,attende-me!—Rezando adormeci. A auroradespertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora,um sonho que fugia, em busca de outros lares!Subia docemente, ao claro azul dos ares,o vulto da Senhora, abrindo pelo Céoo palio virginal do seu materno véo,desnastrado o cabello, um manto de rainharecamado de sóes; a nuvem que a sustinha,toda cheia de luz, deixava atraz de sium rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti...Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas,ao peso esmagador das longas invernadas;e assim, postas as mãos, olhando para o vultoda Virgem que eu adoro em fervoroso culto,pedi-lhe que mandasse um raio de luarás lagrimas de fel da tua dôr sem par...

Talitha começa a sorrir

E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito,baixou por sobre o meu um dôce olhar bemditoe eu vi rolar no azul da immensa vastidão,no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão...

Ruy!

Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chão

Perdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa;o meu labio peccou, mas a intenção foi boa!

CAE O PANNO

Modesta sala de jantar em casa do Cura. Á direita, um oratorio sobre uma commoda antiga; á esquerda, entre portas, um orgam.

Joaquina procede aos arranjos da casa para uma noite de festa; cuida do oratorio, accende-lhe as velas, começa a pôr a meza para a ceia; tudo em silencio. Depois de alguns momentos entra Ruy.

Boas noites, Joaquina!

As mesmas Deus lhe dê!Inda bem que chegou; pensei que não voltasseaqui á nossa casa!

Essa agora... e porque?

É boa! Inda pergunta? Esteve lá por fóradurante todo o dia e sem que se lembrasseque neste pobre asylo ainda vive e moragente boa e christã...

E quem lhe disse tanto?Vão vêr que foi intriga ou treta de algum santo!...

Hereje! brinque, brinque assim com Jesus Christoe ha de vêr se é feliz! Não sabe que o Natalé a noite sagrada?

É, sei! Não foi por malque faltei. Pela vez primeira não assistoá missa desta noite. Ha bem vinte e seis annosque falleceu meu Pae: rompia a madrugada.Começaram-me assim os tristes desenganose a lucta da existencia abriu-se amargurada.Desde então, minha Mãe, boa e santa velhinha,recorda tristemente, apenas se avizinhaa noite do Natal, a dôr daquella aurora,e emquanto tudo ri, ella soluça e chora...

Sem mesmo a conhecer eu tenho pena della.

E hoje que eu sou feliz a pobresinha vela.Creio que neste instante os seus labios de crenteenvolvem numa prece encantadora e mesta,num templo illuminado, ao celebrar da festa,o esposo que morreu e o proprio filho ausente.

Devera ser então mais um grande motivode não faltar á missa.

E creia que é bem vivoo meu pezar. Entanto a razão dessa faltafoi sagrada e vae vêr como ella tanto exaltaa minha consciencia.

Eu imagino bem!

Não posso vêr soffrer o coração de alguem...Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podianegar-me, sem peccar, ao dever que exigiade acudir pressuroso ao leito d'um enfermoardendo em alta febre e bem proximo ao termoduma longa existencia asperrima e deserta,onde apenas a dôr tinha uma entrada aberta.Conhece aquelle atalho escuro e retiradoque vae dar á capella?

Onde foi enforcadoO marido da Emilia?

Exactamente, ahi.Mesmo nesse logar em que ficou a cruzexiste uma choupana á qual me recolhipara fugir á chuva. O caminho conduz,pela esquerda, á Capella; a direita, ao moinhodo velho reformado! Entrou-me na choupanaa neta do sargento a dizer que o avosinhoquasi estava a expirar. Fôra maldade insanadeixar morrer o velho á mingoa de cuidados.Fui. Mas antes não fôsse. Em nada lhe valeua visita que fiz, o velho falleceu...Como devem morrer os bravos e os soldadosassim elle expirou, fitando bem a morte,firme como um leão e simples como um forte.Uma miseria extrema; os netos quasi nús,com fome e sem comida ha dois dias!

Jesus!E aqui tanta fartura!

A Patria é bem madrasta!Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta,tem no peito e na face algumas cicatrizesdas lanças do inimigo.

Ah! são bem mais felizesos soldados que vão á guerra e que lá morremno campo da batalha.

Exacto. Os outros corremo perigo maior de morrer desprezados, comoesse pobre velho.

E estão abandonadosos netos, Sr. Ruy?


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